abertura

Teresa e Isabel | Thérèse et Isabelle | 1966
Esta narrativa se constituía na primeira parte de Ravages, romance apresentado às edições Gallimard em 1954. Julgada “escandalosa” esta parte inicial foi censurada pela editora. Foi na primavera de 1948 que Violette Leduc, encorajada por Simone de Beauvoir, começou a redigir este texto isolado ao qual ela dedicaria 3 anos — e com o qual pretendia descrever o mais exatamente possível as sensações experimentadas no amor físico (entre duas jovens alunas de colégio interno).
No início dos anos 60, parte de Thérèse et Isabelle apareceu no terceiro capítulo de A Bastarda: Violette Leduc havia suprimido algumas passagens, atenuado metáforas, modificados alguns diálogos. O livro, numa versão ainda com vários cortes foi publicado em 1966
. A versão integral só veio a público no ano 2000.

          Eu fazia-lhe perguntas, exigia silêncio. Nessa ladainha nos queixávamos, nos revelávamos atrizes natas. Nos apertávamos até a sufocação. Nossas mãos tremiam, nossos olhos se fechavam. Parávamos, recomeçávamos. Nossos braços pendiam, nossa pobreza nos maravilhava. Eu modelava seu ombro, queria para ela carícias rústicas, desejava sob minha mão um ombro fremente, uma casca. Ela fechava minha mão, alisava um cascalho. A ternura me cegava. Rosto no rosto, nos dizíamos não. Nos apertávamos pela última vez, uníamos dois troncos de árvore num só, éramos os primeiros e os últimos amantes como somos os primeiros e os últimos mortais quando descobrimos a morte.
          Minha mãe cedeu, mas cedeu de má vontade. Minha mãe disse e repetiu isso, minha mãe me levará de volta antes das férias se sentir a minha falta, se ficar entediada. Se ela não estivesse casada, eu é que suplicaria: tudo o que quiser, mas não viver longe de você num colégio. Agora é o contrário. Ela casou. Estamos divididas. Até quando ficaremos divididas? Acabou-se o tempo em que eu esfregava o chão por ela, em que atravessava arames farpados. Eu roubava batatas para nós, nos campos. Ela me tirou a fábrica, o embornal, a gamela também. Ela vendeu nossos coelhos como saldo — que pena! — oito dias antes do casamento. Era a falência das minhas pradarias. Eu lhe dizia que eu era o seu noivo. Ela suspirava. Eu ignorava o que era um ar exasperado. Ela se casou sem ficar noiva. Eu esfregava as escadas, mas ela queria um comerciante. Eu não serei o seu diarista, não serei o industrial que lhe trará dinheiro. Ela vendeu ao catador de lixo a gaveta de cinzas que eu esvaziava no galinheiro enquanto as primeiras gotas de café caíam na nossa cafeteira, imitavam gentis tentilhões. Onde estão nossos pregadores de roupa, nossa bola de anil? Ela jogou tudo fora. A senhorita se casava. Ela liquidou tudo. Tem o que precisa. É uma mulher casada. Eu me tornei uma interna de colégio: não tenho casa. Um homem nos separou. O seu. Sua mãe ficaria tão contente se você não me chamasse de "senhor"... Eu o chamarei sempre de "senhor". Um pouco mais de pão, senhor. Não, senhor, não gosto de carne sangrenta. Chame-o de "pai", me diz ela depois das refeições. Jamais. Prefiro a mesa do refeitório, onde temos o pão em comum. Mergulhamos nossas mãos na cesta, não dizemos não obrigado, sim obrigado. Eu me arrastava aos seus pés: não se case, não se case... Teríamos feito grandes coisas juntas: nos bastaríamos. Eu tinha calor na sua cama. Ela me chamava de seu mendiguinho. Me dizia: aninhe-se no meu braço. Ela tem uma cama Borelly e não me dá mais o braço. O senhor está entre nós. Ela quer uma f1lha e um marido. Tenho uma mãe exigente. Estou fechada num colégio, não ando mais atrás deles no passeio da noite, não durmo mais no quarto ao lado do seu. Ela quer que eu a cerque, quer que me dedique a ela quando ele se for. Só há você no mundo, só amo você no mundo, me diz ela, mas ela tem alguém. Eu encontrei Isabel, tenho alguém. Sou de Isabel, não pertenço mais à minha mãe.
          É preciso se suprimir para dar. Eu me queria uma máquina que não fosse maquinal. Minha vida era o seu prazer. Eu mirava mais longe que Isabel, tomava Isabel num ventre de trevas. Nos harmonizávamos tanto que desaparecíamos. Ela se agitou, assustou-me. Morria ou vivia? Seu ritmo decidiria. Eu seguia tudo nela, via com os olhos do espírito a luz na sua carne. Tinha na cabeça uma Teresa de pernas abertas, lançadas ao céu, que recebia o que eu dava a Isabel.
          — Vem descansar —, diz ela.
          Volto a ser criança.
          Vivas, deitadas, flutuantes, separadas, recolhidas, podíamos acreditar no repouso eterno. Como era fresco o riacho fúnebre...
          A sala de solfejo no último andar conservava o calor animal de centenas de alunas depois que elas tinham solfejado de hora em hora. Entrei. Desabei sobre uma carteira. Ouvia a gota d'água que caía num lavabo, espreitava a seguinte. Isabel ignorava onde eu a amava. Eu queria que ela viesse porque não imaginava que ela não fosse profeta. Vinte para o meio-dia... Contei até seis entre duas gotas d'água. Seu passo.
          Ela pisoteava meu coração, meu ventre, meu rosto antes de entrar. Uma cidade-luz caminhava para mim. Será uma magia esmagadora. Eu adivinhava que por trás da vidraça ela me procurava enquanto eu a via na noite das minhas pálpebras baixadas. Eu não levantava a cabeça, não saía das dobras da minha viuvez. Corvos debandaram, geadas embraqueceram as aveleiras. Ela chegava, respirava pelos meus pulmões.