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A
Bastarda
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La
Bâtarde
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1964
Principal
obra
de Violette
Leduc,
esta
narrativa
autobiográfica
de uma
"sinceridade
intrépida"
—
como
classificaria
Simone
de Beauvoir
no prefácio
que
escreveu
para
o livro
—,
faz
com
que
a autora
retome
e ultrapasse
seus
relatos
anteriores
(L'Asphyxie,
L'Affamée,
Ravages).
Ainda
que
o erotismo
lésbico
esteja
bastante
presente,
o leitor
atento
observará
que
ele
se trata
menos
de "histórias
escabrosas"
que
de um
"inferno
humano
explorado".
Publicado
no Brasil
inicialmente
na década
de 60,
o livro
foi
reeditado
nos
anos
80.
Hoje
encontra-se
fora
de catálogo,
só
podendo
ser
encontrado
em sebos.
Para
ler
o prefácio
escrito
por
Simone
de Beauvoir
para
A
Bastarda
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Meu
caso
não
é
único:
tenho
medo
de
morrer
e
sinto-me
aflita
por
estar
no
mundo.
Nunca
trabalhei.
Nunca
estudei.
Chorei
e
gritei.
As
lágrimas
e
os
gritos
tomaram
muito
do
meu
tempo.
Pensar
no
tempo
perdido
é
uma
tortura.
Não
sou
capaz
de
pensar
longamente,
mas
posso
deleitar-me
na
contemplação
de
uma
folha
de
alface
murcha,
onde
não
tenho
remorsos
para
ruminar.
O
passado
não
nos
alimenta.
Partirei
tal
como
cheguei,
intacta,
carregada
de
todos
os
defeitos
que
me
torturaram.
Gostaria
de
ter
nascido
estátua,
mas
não
passo
de
uma
lesma
debaixo
da
minha
estrumeira.
As
qualidades,
as
virtudes,
a
coragem,
a
meditação,
a
cultura.
De
braços
cruzados,
esfacelei-me
contra
essas
palavras.
Leitor,
meu
leitor,
há
um
ano
eu
escrevia
ao
ar
livre,
sobre
esta
mesma
pedra.
Meu
papel
quadriculado
não
mudou;
o
alinhamento
das
vinhas,
abaixo
da
cavalgada
das
colinas,
é
semelhante.
Na
terceira
fila,
continua
a
tremulina
do
calor.
Minhas
colinas
mergulham
numa
auréola
de
doçura.
Terei
realmente
chegado
a
partir,
terei
regressado
de
fato?
Assim,
viver
já
não
seria
mais
morrer
a
todo
instante,
ao
ritmo
dos
segundos
de
meu
relógio
de
pulso.
Entretanto,
meu
registro
de
nascimento
fascina-me.
Ou
melhor,
talvez
me
revolte.
Torno
à
sua
leitura
do
principio
ao
fim,
todas
as
vezes
que
sinto
necessidade
disso,
e
vejo-me
na
longa
galeria
em
que
repercute
o
barulho
do
fórceps
do
médico-parteiro.
Ponho-me
à
escuta
e
estremeço.
Acabaram-se
os
vasos
comunicantes:
porque
quando
ela
me
trazia
no
seu
ventre,
nós,
as
duas,
éramos
como
dois
vasos
comunicantes.
Aqui
estou
eu,
cujo
registro
de
nascimento
se
encontra
na
câmara
municipal,
feito
pelo
punho
de
um
escrivão.
Já
não
há
vestígios
de
sujeiras,
da
placenta:
apenas
uma
folha
escrita,
um
registro.
Quem
é
esta
Violette
Leduc?
Ao
fim
e
ao
cabo,
a
tetravó
da
sua
tetravó.
Podemos
ler
esse
registro
de
nascimento;
ora
leiamo-lo.
É
isto
o
nascer
de
uma
pessoa?
Uma
bola
de
naftalina,
um
cheiro
de
amuo.
Mulheres
a
disfarçar
coisas,
mulheres
a
sofrer.
E
a
gracejarem
também:
mentem
a
respeito
da
idade.
Eu
não
escondia
a
minha,
porque
não
era
bonita,
e
porque
até
o
fim
da
minha
vida
hei
de
ter
esta
cabeleira
de
criança.
Precisei
de
duas
horas
e
meia
para
escrever
isto,
duas
páginas
e
meia
de
um
caderno
quadriculado.
Mas
hei
de
avançar,
não
perderei
a
coragem.
|
|
|
|
Uma
família
que queria
fazer-se
passar
por muito
distinta,
que não
me respondia
quando
lhes dava
bom dia,
me chamou
de bastarda.
"O
que significa
isso?",
perguntei
a minha
mãe,
entrando
como um
furacão
na cozinha.
Minha
mãe
empalideceu.
"Não
significa
nada."
E saiu
furiosa.
Abri a
fresta
e a ouvi
em alta
grita.
Arrependi-me
da minha
curiosidade. |
|
|
No
dia seguinte
ao do
meu regresso
a Valenciennes,
para tornar
a ser
aluna
interna,
levantei-me
exatamente
às
nove e
meia.
Passada
uma hora,
dirigi-me
ao meu
padrasto,
tímida,
sem entusiasmo.
Disse-lhe:
"Bom
dia, senhor",
e beijei-o.
Ele me
respondeu:
"Bom
dia, minha
filha."
A expressão
"minha
filha",
dita distraidamente
por um
homem
que não
era estranho,
visto
que eu
o beijava,
mas a
quem chamava
"senhor"
ao mesmo
tempo
que lhe
dava dois
beijos,
deixava-me
espantada.
Ele me
perguntou:
"A
que horas
você
se levantou?"
Ao que
eu respondi
quase
alegre:
"Às
nove e
meia!"
Olhou-me,
perscrutou-me,
seus olhos
eram frios
por detrás
dos óculos.
Acrescentou:
"Você
não
deve mentir
pra mim."
Fiquei
gelada
por mais
de trinta
anos.
A partir
desse
momento
iria sentir
medo dele,
já
não
seria
eu mesma.
Para que
havia
de ter
mentido
a respeito
das horas?
Desejaria
ele sentir,
ao primeiro
contato,
e ao fixar
os meus
olhos,
a sedução
da minha
mãe,
com quem
me parecia?
Pois um
bastardo
é
alguém
que por
força
há
de mentir,
visto
que é
o fruto
da fuga
e do ludíbrio,
um armazém
de todas
as irregularidades.
Sentia-me
intimidada,
mas queria
ser bem
educada.
É
assim
que a
hipocrisia
pode começar.
Compreendia
confusamente
que ele
teria
desejado
que eu
desaparecesse.
Eu era
o peso
de um
grande
amor,
uma mosca
pousada
num pano
branco.
Não
ralhava
comigo,
no entanto,
aterrorizava-me.
À
mesa,
calada
durante
as refeições
e depois
das refeições,
não
ousava
portar-me
bem nem
portar-me
mal. Aborrecia-me,
dissolvia-me,
vomitava-me
a mim
própria.
"Come,
filha,
come.
Sua mãe
está
comendo."
"Sim
senhor,
não
senhor,
muito
obrigada,
não
tenho
vontade,
muito
obrigada."
Não
podia
estender
o braço
para o
lado da
minha
mãe,
tocando
de leve
o punho
da sua
blusa
de renda.
Uma toalha
de mesa,
um garfo,
uma faca,
um descanso
de talher,
que estorvos.
O que
me valia
era que
me punha
a fazer
bolinhas
com o
miolo
do pão.
Marly,
Céline,
Estelle,
a surda-muda,
Caramel,
o louco,
sua amante,
o pomar.
Patureau,
os cadernos
das canções,
a erva
para os
coelhos.
Ter recordações
aos catorze
anos...
É
demais.
Contemplava
a estátua
de Froissart
pela janela
aberta
da casa
de jantar,
absorvia-me
nas pregas
da sua
veste
e perguntava
a mim
mesma
por que
motivo
a minha
mãe
me trouxera
para uma
terra
estranha.
O bonde
rodava
por debaixo
das janelas
e partia,
lamentoso,
para os
lados
do meu
Marly
bem-amado.
Claro
que nunca
me faltou
de comer
na casa
deles,
mas, à
mesa,
era como
se estivesse
sentava
sobre
uma cadeira
de três
pés. |
|
|
Em
Paris
começara
o reinado
do elevador.
Sentada
sobre
o nosso
divã,
as mãos
ora frias
ora escaldantes,
eu espreitava,
escutava,
esperava,
contava
as rugas
em volta
das minhas
falanges.
Grave,
digno,
o elevador
subia,
descia.
O balanço
dos cabos,
quando
tornava
a subir.
Sem entusiasmo,
Hermine
fechava
a porta
do elevador.
Eu corria,
abria
nossa
porta
antes
que ela
o fizesse,
e sua
expressão
se transformava.
Uma vida
inteira
acabava.
Eu apertava
contra
mim uma
mulher
sem braços.
Uma cega-surda-muda.
Reconquistar.
Acreditava
nisso,
acreditava
também
que as
lágrimas
fossem
armas.
Quando
ia esperá-la
na porta
do elevador,
ela não
conseguia
dissimular,
através
do vidro,
que só
pelo fato
de tornar
a me ver
tudo nela
amortecia.
A única
oportunidade
que poderia
ter tido
seria
a alegria,
porque
a alegria
é
uma armadilha.
Mas eu
não
media
meus atos.
Lançava-me
para ela
com o
espólio
do nosso
passado.
Se fosse
meu intento
perdê-la
não
o conseguiria
tão
absolutamente
como agora.
Quanto
mais ela
detestava
minhas
súplicas,
meus pés
nunca
se cansavam
dessa
areia
fina,
fluída
como lamentos,
meus deleites,
tanto
mais neles
me atolava.
Também
ia esperá-la
no Boulevard
Bineau,
na parada
do bonde.
Eu pensava
que os
outros
não
tinham
problemas,
achava-os
felizes.
Confundia
o mundo
com um
relvado,
subtraía
ao mundo
suas desgraças
para aumentar
minha
infelicidade.
Os bondes
se sucediam,
e eu sem
ver seu
rosto,
sem ver
sua boina
no bonde.
Seus atrasos
me desesperavam.
Era a
hora preferida
dos pardais.
Antes
de pousarem
roçavam
pelos
ligustros,
acima
das grades
de uma
vila.
Eu vivia
sem esperança,
sempre
numa espécie
de vadiagem.
Ding...
Era
Hermine,
precisamente,
quem acabava
de puxar
o cordão
da campainha.
Olhei-a
com tanto
amor que
ela reparou.
Teve um
sorriso
de piedade.
Há
calafrios
proféticos.
Estremeci:
sobre
a plataforma,
Hermine
oferecia-me
agora
um sorriso
de culpada,
por seu
atraso.
Éramos
três,
já
o compreendia:
a nova
colega
devia
estar
sentada
no bonde.
"Que
carinha
triste
você
tem",
disse-me
Hermine.
Eu me
calei.
Tinha
chorado
de manhã
até
à
tarde
para que
ela me
amasse
como me
havia
amado.
Começamos
a caminhar
com passos
ligeiros.
Nessa
noite
Hermine
teimou
em comprar
champanhe.
Quando
eu insistia
com perguntas
durante
muito
tempo,
obtinha
sempre
a mesma
resposta:
—
Em que
estou
pensando?
Na sua
boca.
E
eu amaldiçoava
a sua
franqueza.
A
nova companheira
queria
móveis
extravagantes,
um divã
extravagante,
um estúdio
extravagante.
Hermine
caía
em transe
quando
me falava
dessas
coisas.
Todos
esses
projetos
inconfessados
eram mais
torturantes
que uma
ruptura.
Eu
não
largava
meu casaco
de asilada,
comprado
na Samaritaine,
queria
seduzir
com minhas
misérias.
Como os
mendigos
que expõem
os membros
atrofiados.
Assim
expunha
meu rosto,
meu desgosto. |
|
Ele
abriu
imediatamente
a porta.
Sorria:
eu chegava
um pouco
antes
da hora.
Sua boca
—
uma boca
de mulher
—,
com o
lábio
superior
em acento
circunflexo,
era parecida
com a
de Marguerite
Moreno;
o queixo
orgulhoso
sugeria,
pela curva
e pela
turgescência
a bolsa
de um
camponês
de Breughel.
Esse queixo
cheio,
esse queixo
generoso,
fazia
esquecer
a boca.
Boca já
gasta,
boca muito
vivida.
—
Chegou
mais cedo.
Muito
bem. Entre
no meu
Quarto.
Fui
a primeira
a entrar.
A janela
aberta
dava para
a vegetação.
A rua
parecia-me
agora
menos
antiquada
e menos
simples.
—
Mudou
de penteado
—
disse-me
ele com
jovialidade.
—
Deixa-a
mais velha,
fica-lhe
bem.
Riu,
e eu ri
ainda
com mais
ímpeto
que ele.
Quando
ria sua
boca não
parecia
alegre.
O
grampo
tombou
nas minhas
costas,
meus cabelos
caíram
pelo pescoço.
—
O penteado
que trazia
no escritório!
—
exclamou
com a
sua voz
cantante.
—
Já
temos
os nossos
hábitos,
minha
amiga...
Procurava
me sentir
absolutamente
à
vontade.
Esfregou
as mãos
como se
descesse
de uma
tribuna.
Mãos
carnudas,
terno
de seda
crua,
magnífico.
—
Um uísque?
Um gin?
Um martíni?
Um pernod?
Um coquetel?
Ofereceu-me
um cigarro
inglês.
—
Um uísque,
é
a primeira
vez...
Tem o
quarto
cheio
de livros!
—
exclamei.
Abriu
uma garrafa
de cristal
com incrustações
de prata.
Aproximei-me
da mesa,
sobre
a qual
preparava
as bebidas.
Perguntou-me
se queria
água
mineral.
Ele é
vivido,
muito
vivido,
dizia
para comigo,
ao reparar
que os
cabelos
começavam
a rarear-lhe
de modo
bem evidente.
Não
quis a
água.
—
Vai beber
um uísque
com soda
—
disse
ele. —
Por que
fugir
à
regra?
E riu
com um
riso breve.
Gracejava
com indulgência.
Preparou
dois uísques.
Gestos
e movimentos
envolventes.
Era como
se por
duas vezes
ajudasse
à
missa,
com as
mãos
roliças.
A seda
crua sussurrava.
—
Esta tarde
o calor
está
terrível
—
disse
ele. —
Não
acha?
Aquele
"não
acha"
era tranqüilizador:
acolchoava
a solidão.
Enquanto
interrogava
por interrogar,
Maurice
Sachs
desejava
alcançar
uma comunicação.
—
O calor?
Acho que
o tempo
está
agradável
—
respondi
depois
do primeiro
gole de
uísque.
Acendeu
um cigarro
e ficou
sacudindo
o fósforo
durante
muito
tempo.
A chama
insistia,
enquanto
ele teimava
em extingui-la.
Limpou
o rosto
onde não
havia
suor.
—
Parece-me
que flutuo.
Temos
de flutuar
quando
estamos
embriagados.
Flutuemos.
Gosta
do meu
quarto?
Há
mais garrafas
de uísque
na cozinha,
mais cigarros
na gaveta
da mesa.
Beba,
fume.
Você
não
bebe,
não
fuma.
Sua
ostentação
e sua
generosidade
me petrificavam.
Achava-o
bondoso,
uma pessoa
muito
bem educada.
—
Sente-se
no divã
—
propôs
ele.
E
passeava
pelo aposento
com o
copo na
mão.
—
Não
—
respondi.
—
Não
gosto
de me
sentar.
Prefiro
passear
também.
Aproximei-me
da mesa.
Nunca
tinha
visto
tantas
fotografias
numa parede.
—
É
Wilde
—
disse
eu —,
Wilde
e Alfred
Douglas.
Ele
pôs
uma dose
de uísque
no copo,
que ainda
não
estava
vazio.
—
Wilde
—
repeti
para mim
mesma.
Achei
nele alguma
semelhança
com Oscar
Wilde.
—
Vamos
comer
—
disse
ele.
Encantava-me
a personalidade
daquele
quarto
de estudante
abastado,
o uísque
aquecia
como a
neve aquece
pouco
depois
de a termos
na mão.
Sentia-me
intimidada,
arrebatada.
Dirigi-me
do seu
quarto
para a
sala de
jantar,
sempre
andando
na frente
dele.
Procurava
retesar
os músculos
para que
ele não
reparasse
minhas
nádegas
femininas.
Apresentou-me
à
sua avó.
Lembro-me
dos seus
cabelos
brancos,
do seu
vigor,
recordo-me
da sua
tez pálida,
da reserva
do seu
olhar
saudável.
Mas, em
matéria
de avós,
somente
a nossa
consegue
comover-nos.
Mexia
a salada
com a
serenidade
de um
chefe
de família
e juntava-lhe
um molho
cor de
coral.
—
Gosta
de...
Disse
um nome
inglês,
que não
compreendi.
Sua pronúncia
fazia
com que
eu me
sentisse
uma estranha,
o alface
ia tomando
uns tons
ruivos.
Ergueu
a cabeça
para olhar
sua avó,
que partia
uma asa
de frango.
Esqueci-me
de como
chegaram
a explicar
o seu
parentesco
com Bizet.
A mesa
redonda,
a toalha
de renda
caindo
até
o chão
sobre
o tapete,
a prataria,
a disposição
dos talheres
me angustiavam.
Felizmente
a criada
era invisível.
Três
presenças
em vez
de duas,
me teriam
intimidado
ainda
mais.
Entrei
na sociedade,
é
a primeira
vez que
me vejo
em sociedade,
dizia
comigo
mesma,
como se
dissesse:
estou
fazendo
uma viagem
à
lua. Limpava
as mãos
úmidas
na toalha,
esquecia-me
do guardanapo.
Ele
colocou
duas folhas
de alface
no meu
prato.
O molho
era adocicado.
E eu me
perguntava
o que
fariam
aquelas
alfaces
da horta
numa louça
tão
requintada. |
|
“Meu
amor,
Você
me
diz
que
está
grávida
e
que
as
coisas
não
lhe
vão
muito
bem.
Quer
que
eu
vá
te
ver,
iria
se
sentir
melhor
se
eu
estivesse
perto?
Responda-me.
Um
beijo,
minha
querida. |
Maurice." |
|
Fiquei
sem
fôlego.
Maurice
me
chamava
de
"meu
amor",
Maurice
me
chamava
de
"minha
querida".
Há
sempre
uma
parte
de
verdade
naquilo
que
se
escreve,
falei
para
a
chama
do
fogão.
Repeti
a
leitura,
saltitava
de
felicidade
e
vaidade.
Ter
um
filho
dessa
merda
que
o
chateava
com
as
recordações
da
infância...
Isso
recomeçava,
como
no
café,
um
domingo
à
tarde.
Ainda
que
fosse
um
desejo
falso,
Maurice
continuava
insistindo.
Sua
querida,
seu
amor.
O
milagre
realizava-se:
eu
tinha
um
homossexual
a
meus
pés.
Excitava-me
com
a
idéia
de
que
ele
voltaria
e
que
teríamos
muito
dinheiro
para
gastar.
Escrevi
imediatamente
ao
médico,
que
passou
um
certificado
em
que
declarava
que
eu
estava
grávida
e
passava
mal,
assinou
e
desapareceu.
Guardei
esse
papel
três
dias
e
três
noites
sem
me
resolver
a
enviá-lo.
Não
me
sentia
lisonjeada.
Pesava
os
prós
e
os
contras,
interrogava
as
chamas
da
lareira.
Ele
voltará,
você
o
amará,
ficará
em
fogo,
mas
há
de
ter
que
esfriar.
Já
teria
esquecido
os
arames
farpados
que
existiam
entre
você
e
ele?
Seus
silêncios,
sua
insignificância
quando
ele
lhe
falava,
quando
ele
tornar
a
lhe
falar
de
Nietzsche,
de
Kant?
Ficava
arrasada,
ficará
arrasada.
Reflita.
E
eu
suspirava.
Onde
estarão
os
anéis
de
cada
um
dos
meus
três
nós
corredios?
Era
tão
bom
engrinaldar-me
com
o
cordel,
esquecer
os
bobs
na
cabeça.
Ele
não
é
responsável
pelo
que
inspira
a
você,
garota.
No
entanto,
ele
me
aprisiona.
Minha
língua
está
sempre
pendente
entre
as
grades
deste
grande
amor.
Maurice
tinha
atenções
para
comigo.
Assim
que
soava
a
meia-noite,
oferecia-me
um
pires
de
batatas
cozidas
com
manteiga
fresca...
Você
precisa
ver
as
coisas
com
clareza,
cadelinha.
Ele
fazia
esses
mimos,
mas
depois
você
se
sentia
mais
infeliz
do
que
uma
criada
a
quem
o
patrão
dá
um
pontapé.
Minhas
tesouras
quando
caem,
meu
rolo
de
barbante
quando
rebola
e
eu
os
insulto,
meus
tecidos,
meus
cartões,
minhas
caixas
de
papelão,
o
atar
das
embalagens
com
os
mesmos
gestos...
Uma
hora
da
manhã...
Vivia
a
noite,
mais
outro
dia
bem
gasto.
E
Violette
vai
deitar-se
com
seu
vestido
de
estátua.
Vou
esperar
até
amanhã,
me
diz
o
canivete
cor-de-rosa,
com
os
seus
três
olhos
cinzentos.
Dobrar
as
folhas
de
papel
novo,
cortá-las
com
o
canivete,
que
liberdade.
Se
ele
voltasse
teria
de
abandonar
meus
hábitos.
Que
seria
de
mim
sem
eles?
A
cozinha
dos
Bême
me
deixará,
a
aldeia
se
tornará
fria,
cumprimentarei
Fernand
de
longe
nas
veredas.
Ousaria
eu
aspirar
diante
de
Maurice
Sachs
o
cheiro
adocicado
do
meu
casaco
de
pele
de
coelho?
Não.
Este
grande
sentimento
que
renascia
me
aborrecia
e
me
assustava.
Já
começava
a
me
envenenar.
Desde
que
o
bilhete
chegara
que
eu
sofria
de
prisão
de
ventre.
Não,
minhas
nádegas
não
eram
nádegas
de
rapaz.
Eram
a
minha
ruína.
Mas
que
viria
então
a
ser
este
grande
sentimento?
Uma
coisa
inútil.
Quando
Maurice
voltar,
meus
améns
não
serão
mais
que
água
da
louça.
Dez
meses
depois
do
seu
regresso
estaremos
sem
um
vintém.
Relia
seu
bilhete.
A
verdadeira
carta
de
amor
era
o
atestado
do
médico.
Eu
alimentava
o
inferno,
meu
braseiro
interior
estava
louco
às
dez
da
noite.
Por
que
não
me
teria
ele
escrito
simplesmente:
Cara
Violette,
se
me
enviar
um
atestado
passado
por
um
médico,
dizendo
que
está
grávida
de
mim,
isso
facilitará
o
meu
regresso
à
França?
Derramei
lágrimas
de
raiva,
de
furor,
de
desespero.
Repugnavam-me
suas
combinações
dúbias.
"Meu
amor",
ridículo.
"Minha
querida",
ridículo.
Recordava-me
da
sua
posposta
de
me
fazer
um
filho,
como
nos
lembramos
do
cheiro
do
nosso
vômito.
Não
havia
dúvida,
Maurice
traficava
com
meu
coração
e
seu
esperma.
Atirei
o
atestado
no
fogo.
Quinze
dias
mais
tarde,
escreveu-me
uma
longa
carta.
Dizia
que
não
estava
zangado
comigo,
que
"tinha
se
arranjado".
Não
explicava
como.
Acreditei.
Nas
cartas
seguintes,
organizava
sua
vida
depois
da
guerra
contando
comigo.
Que
almoçaríamos
juntos
todos
os
dias,
que
iríamos
várias
vezes
por
semana
ao
Théatre-Français.
Tinha
mil
idéias
para
eu
ganhar
dinheiro.
Eu
lhe
daria
a
indenização
pela
mala
extraviada,
uma
parte
dos
meus
lucros,
pois
fora
ele
quem
me
arranjara
a
aldeia,
as
vacas
leiteiras,
as
carteiras
dos
parisienses.
Precisei
de
quinze
anos
para
perceber
aquilo
que
lançara
ao
fogo,
para
lamentá-lo
até
o
remorso,
até
a
mania
de
perseguição.
Era
um
segredo
entre
mim
e
Maurice.
Ele
escreveu
na
Alemanha
Portraits
et
Moeus
de
Ce
Temps.
Estou
ali
dentro.
Chamo-me
Lodève.
Se
foi
verdadeiramente
Maurice
Sachs
quem
escreveu
este
retrato,
se
não
houve
alguém
que
insinuasse
umas
folhas
entre
as
de
Maurice,
imitando
sua
escrita
miúda
a
lápis
—
ele
escreveu
o
manuscrito
numa
prisão
de
Hamburgo
—
é
porque
ele
me
queria
mal.
A
descrição
do
meu
rosto
é
um
pesadelo.
Como
ele
devia
ser
feliz
para
se
encarniçar
assim
contra
o
meu
rosto
ingrato.
Como
deve
ter
sido
amado,
se
alguém
o
vingou
com
esse
retrato. |
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Tomei
uma estrada
estreita,
vi de
longe
um pequeno
bosque
à
direita,
com toldos
matizados
de verde
e castanho.
Supus
que camuflassem
munições
por entre
as árvores.
Uma sentinela
de fuzil
ao ombro
guardava
o bosque,
via-me
avançar
e aproximar-me
dela.
Eu caminhava
do outro
lado da
estrada,
mas não
podia
recuar.
Entre
as árvores
apareceu
um oficial,
que se
pôs
também
a olhar
para mim.
Calculava
que, para
eles,
eu devia
ser uma
espiã,
muitíssimo
audaciosa.
Era uma
solitária
que caminhava
nas estradas
com um
passo
regular,
no momento
em que
os civis
viviam
nas caves,
nos abrigos.
Eles arregalaram
os olhos.
Passei
em frente
deles
sem os
olhar,
sem olhar
o bosque
cheio
de munições
camufladas.
Ouvia
a sentinela.
Falava
em alemão
ao oficial.
Vi, por
entre
as pestanas,
que a
sentinela
começava
a me apontar
a arma.
Passar
em frente
deles
aferrando-me
à
linha
do horizonte,
tomando
a aparência
e a silhueta
de um
Dom Quixote
de saias,
era conceder
a mim
mesma
a sorte
de não
ser fuzilada
à
queima-roupa.
Viver
a própria
morte.
Eu a vivi
enquanto
esperava
a bala
pelas
costas.
O oficial
respondeu
à
sentinela.
Sem saber
alemão,
compreendi
que eu
não
valia
uma bala.
Andei
das oito
da manhã
às
sete da
noite
sem beber,
sem comer,
sem parar.
Desde
as quatro
da tarde,
alucinada
pela distância
que devia
ainda
percorrer,
avançava
com o
receio
de desfalecer
se abrandasse
o passo.
Minhas
pernas
inchavam,
os músculos
retesavam-se,
num braseiro.
Parei
numa grande
aldeia.
Tinha
feito
quarenta
e cinco
quilômetros.
No restaurante,
minhas
pernas
continuavam
a inchar.
Comia
aos poucos,
lembrava-me
das precauções
da minha
avó,
quando
eu era
pequena
e delicada
e ainda
conseguia
sorrir.
Mas tive
de levantar
no fim
da refeição.
Segurei-me
à
mesa com
as duas
mãos.
Minhas
pernas
eram duas
barras
de ferro
em brasa.
Só
passados
três
quartos
de hora
de esforços
elas me
obedeceram.
Curvada,
consegui
arrastar-me
até
o quarto
que uma
professora
de instrução
primária
havia
me emprestado
para a
noite.
Nas minhas
pernas
as pulsações
não
cessaram
durante
toda essa
noite
passada
em claro.
Aviões
potentes
voavam
baixo
sobre
o telhado.
No dia
seguinte,
levei
doze horas
para fazer
vinte
e quatro
quilômetros.
No terceiro
dia fiz
os seis
últimos
em seis
horas.
O Sr.
Motté
soltou
um grito
de surpresa.
A aldeia
julgava
que eu
tivesse
desaparecido
para sempre.
Tornei-me
célebre
logo após
o meu
regresso;
nos dias
seguintes,
tive de
mostrar
as pernas
a numerosos
visitantes.
Mas ficavam
decepcionados,
pois elas
já
não
estavam
inchadas.
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