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A Bastarda | La Bâtarde | 1964
Principal obra de Violette Leduc, esta narrativa autobiográfica de uma "sinceridade intrépida" — como classificaria Simone de Beauvoir no prefácio que escreveu para o livro —, faz com que a autora retome e ultrapasse seus relatos anteriores (L'Asphyxie, L'Affamée, Ravages). Ainda que o erotismo lésbico esteja bastante presente, o leitor atento observará que ele se trata menos de "histórias escabrosas" que de um "inferno humano explorado".
Publicado no Brasil inicialmente na década de 60, o livro foi reeditado nos anos 80. Hoje encontra-se fora de catálogo, só podendo ser encontrado em sebos.
Para ler o prefácio escrito por Simone de Beauvoir para A Bastarda clique aqui.

          Meu caso não é único: tenho medo de morrer e sinto-me aflita por estar no mundo. Nunca trabalhei. Nunca estudei. Chorei e gritei. As lágrimas e os gritos tomaram muito do meu tempo. Pensar no tempo perdido é uma tortura. Não sou capaz de pensar longamente, mas posso deleitar-me na contemplação de uma folha de alface murcha, onde não tenho remorsos para ruminar. O passado não nos alimenta. Partirei tal como cheguei, intacta, carregada de todos os defeitos que me torturaram. Gostaria de ter nascido estátua, mas não passo de uma lesma debaixo da minha estrumeira. As qualidades, as virtudes, a coragem, a meditação, a cultura. De braços cruzados, esfacelei-me contra essas palavras.
          Leitor, meu leitor, há um ano eu escrevia ao ar livre, sobre esta mesma pedra. Meu papel quadriculado não mudou; o alinhamento das vinhas, abaixo da cavalgada das colinas, é semelhante. Na terceira fila, continua a tremulina do calor. Minhas colinas mergulham numa auréola de doçura. Terei realmente chegado a partir, terei regressado de fato? Assim, viver já não seria mais morrer a todo instante, ao ritmo dos segundos de meu relógio de pulso. Entretanto, meu registro de nascimento fascina-me. Ou melhor, talvez me revolte. Torno à sua leitura do principio ao fim, todas as vezes que sinto necessidade disso, e vejo-me na longa galeria em que repercute o barulho do fórceps do médico-parteiro. Ponho-me à escuta e estremeço. Acabaram-se os vasos comunicantes: porque quando ela me trazia no seu ventre, nós, as duas, éramos como dois vasos comunicantes. Aqui estou eu, cujo registro de nascimento se encontra na câmara municipal, feito pelo punho de um escrivão. Já não há vestígios de sujeiras, da placenta: apenas uma folha escrita, um registro. Quem é esta Violette Leduc? Ao fim e ao cabo, a tetravó da sua tetravó. Podemos ler esse registro de nascimento; ora leiamo-lo. É isto o nascer de uma pessoa? Uma bola de naftalina, um cheiro de amuo. Mulheres a disfarçar coisas, mulheres a sofrer. E a gracejarem também: mentem a respeito da idade. Eu não escondia a minha, porque não era bonita, e porque até o fim da minha vida hei de ter esta cabeleira de criança.
          Precisei de duas horas e meia para escrever isto, duas páginas e meia de um caderno quadriculado. Mas hei de avançar, não perderei a coragem.
          Uma família que queria fazer-se passar por muito distinta, que não me respondia quando lhes dava bom dia, me chamou de bastarda. "O que significa isso?", perguntei a minha mãe, entrando como um furacão na cozinha. Minha mãe empalideceu. "Não significa nada." E saiu furiosa. Abri a fresta e a ouvi em alta grita. Arrependi-me da minha curiosidade.
          No dia seguinte ao do meu regresso a Valenciennes, para tornar a ser aluna interna, levantei-me exatamente às nove e meia. Passada uma hora, dirigi-me ao meu padrasto, tímida, sem entusiasmo. Disse-lhe: "Bom dia, senhor", e beijei-o. Ele me respondeu: "Bom dia, minha filha." A expressão "minha filha", dita distraidamente por um homem que não era estranho, visto que eu o beijava, mas a quem chamava "senhor" ao mesmo tempo que lhe dava dois beijos, deixava-me espantada. Ele me perguntou: "A que horas você se levantou?" Ao que eu respondi quase alegre: "Às nove e meia!" Olhou-me, perscrutou-me, seus olhos eram frios por detrás dos óculos. Acrescentou: "Você não deve mentir pra mim." Fiquei gelada por mais de trinta anos. A partir desse momento iria sentir medo dele, já não seria eu mesma. Para que havia de ter mentido a respeito das horas? Desejaria ele sentir, ao primeiro contato, e ao fixar os meus olhos, a sedução da minha mãe, com quem me parecia? Pois um bastardo é alguém que por força há de mentir, visto que é o fruto da fuga e do ludíbrio, um armazém de todas as irregularidades. Sentia-me intimidada, mas queria ser bem educada. É assim que a hipocrisia pode começar. Compreendia confusamente que ele teria desejado que eu desaparecesse. Eu era o peso de um grande amor, uma mosca pousada num pano branco. Não ralhava comigo, no entanto, aterrorizava-me. À mesa, calada durante as refeições e depois das refeições, não ousava portar-me bem nem portar-me mal. Aborrecia-me, dissolvia-me, vomitava-me a mim própria. "Come, filha, come. Sua mãe está comendo." "Sim senhor, não senhor, muito obrigada, não tenho vontade, muito obrigada." Não podia estender o braço para o lado da minha mãe, tocando de leve o punho da sua blusa de renda. Uma toalha de mesa, um garfo, uma faca, um descanso de talher, que estorvos. O que me valia era que me punha a fazer bolinhas com o miolo do pão. Marly, Céline, Estelle, a surda-muda, Caramel, o louco, sua amante, o pomar. Patureau, os cadernos das canções, a erva para os coelhos. Ter recordações aos catorze anos... É demais. Contemplava a estátua de Froissart pela janela aberta da casa de jantar, absorvia-me nas pregas da sua veste e perguntava a mim mesma por que motivo a minha mãe me trouxera para uma terra estranha. O bonde rodava por debaixo das janelas e partia, lamentoso, para os lados do meu Marly bem-amado. Claro que nunca me faltou de comer na casa deles, mas, à mesa, era como se estivesse sentava sobre uma cadeira de três pés.
          Em Paris começara o reinado do elevador. Sentada sobre o nosso divã, as mãos ora frias ora escaldantes, eu espreitava, escutava, esperava, contava as rugas em volta das minhas falanges. Grave, digno, o elevador subia, descia. O balanço dos cabos, quando tornava a subir. Sem entusiasmo, Hermine fechava a porta do elevador. Eu corria, abria nossa porta antes que ela o fizesse, e sua expressão se transformava. Uma vida inteira acabava. Eu apertava contra mim uma mulher sem braços. Uma cega-surda-muda. Reconquistar. Acreditava nisso, acreditava também que as lágrimas fossem armas. Quando ia esperá-la na porta do elevador, ela não conseguia dissimular, através do vidro, que só pelo fato de tornar a me ver tudo nela amortecia. A única oportunidade que poderia ter tido seria a alegria, porque a alegria é uma armadilha. Mas eu não media meus atos. Lançava-me para ela com o espólio do nosso passado. Se fosse meu intento perdê-la não o conseguiria tão absolutamente como agora. Quanto mais ela detestava minhas súplicas, meus pés nunca se cansavam dessa areia fina, fluída como lamentos, meus deleites, tanto mais neles me atolava. Também ia esperá-la no Boulevard Bineau, na parada do bonde. Eu pensava que os outros não tinham problemas, achava-os felizes. Confundia o mundo com um relvado, subtraía ao mundo suas desgraças para aumentar minha infelicidade. Os bondes se sucediam, e eu sem ver seu rosto, sem ver sua boina no bonde. Seus atrasos me desesperavam. Era a hora preferida dos pardais. Antes de pousarem roçavam pelos ligustros, acima das grades de uma vila. Eu vivia sem esperança, sempre numa espécie de vadiagem. Ding...
          Era Hermine, precisamente, quem acabava de puxar o cordão da campainha. Olhei-a com tanto amor que ela reparou. Teve um sorriso de piedade. Há calafrios proféticos. Estremeci: sobre a plataforma, Hermine oferecia-me agora um sorriso de culpada, por seu atraso. Éramos três, já o compreendia: a nova colega devia estar sentada no bonde. "Que carinha triste você tem", disse-me Hermine. Eu me calei. Tinha chorado de manhã até à tarde para que ela me amasse como me havia amado. Começamos a caminhar com passos ligeiros. Nessa noite Hermine teimou em comprar champanhe.
          Quando eu insistia com perguntas durante muito tempo, obtinha sempre a mesma resposta:
          — Em que estou pensando? Na sua boca.
          E eu amaldiçoava a sua franqueza.
          A nova companheira queria móveis extravagantes, um divã extravagante, um estúdio extravagante. Hermine caía em transe quando me falava dessas coisas. Todos esses projetos inconfessados eram mais torturantes que uma ruptura.
          Eu não largava meu casaco de asilada, comprado na Samaritaine, queria seduzir com minhas misérias. Como os mendigos que expõem os membros atrofiados. Assim expunha meu rosto, meu desgosto.
          Ele abriu imediatamente a porta. Sorria: eu chegava um pouco antes da hora. Sua boca — uma boca de mulher —, com o lábio superior em acento circunflexo, era parecida com a de Marguerite Moreno; o queixo orgulhoso sugeria, pela curva e pela turgescência a bolsa de um camponês de Breughel. Esse queixo cheio, esse queixo generoso, fazia esquecer a boca. Boca já gasta, boca muito vivida.
          — Chegou mais cedo. Muito bem. Entre no meu Quarto.
          Fui a primeira a entrar. A janela aberta dava para a vegetação. A rua parecia-me agora menos antiquada e menos simples.
          — Mudou de penteado — disse-me ele com jovialidade. — Deixa-a mais velha, fica-lhe bem.
          Riu, e eu ri ainda com mais ímpeto que ele.
          Quando ria sua boca não parecia alegre.
          O grampo tombou nas minhas costas, meus cabelos caíram pelo pescoço.
          — O penteado que trazia no escritório! — exclamou com a sua voz cantante. — Já temos os nossos hábitos, minha amiga...
          Procurava me sentir absolutamente à vontade.
          Esfregou as mãos como se descesse de uma tribuna. Mãos carnudas, terno de seda crua, magnífico.
          — Um uísque? Um gin? Um martíni? Um pernod? Um coquetel? Ofereceu-me um cigarro inglês.
          — Um uísque, é a primeira vez... Tem o quarto cheio de livros! — exclamei.
          Abriu uma garrafa de cristal com incrustações de prata.
          Aproximei-me da mesa, sobre a qual preparava as bebidas. Perguntou-me se queria água mineral. Ele é vivido, muito vivido, dizia para comigo, ao reparar que os cabelos começavam a rarear-lhe de modo bem evidente. Não quis a água.
          — Vai beber um uísque com soda — disse ele. — Por que fugir à regra? E riu com um riso breve. Gracejava com indulgência. Preparou dois uísques. Gestos e movimentos envolventes. Era como se por duas vezes ajudasse à missa, com as mãos roliças. A seda crua sussurrava.
          — Esta tarde o calor está terrível — disse ele. — Não acha?
          Aquele "não acha" era tranqüilizador: acolchoava a solidão. Enquanto interrogava por interrogar, Maurice Sachs desejava alcançar uma comunicação.
          — O calor? Acho que o tempo está agradável — respondi depois do primeiro gole de uísque.
          Acendeu um cigarro e ficou sacudindo o fósforo durante muito tempo. A chama insistia, enquanto ele teimava em extingui-la. Limpou o rosto onde não havia suor.
          — Parece-me que flutuo. Temos de flutuar quando estamos embriagados. Flutuemos. Gosta do meu quarto? Há mais garrafas de uísque na cozinha, mais cigarros na gaveta da mesa. Beba, fume. Você não bebe, não fuma.
          Sua ostentação e sua generosidade me petrificavam. Achava-o bondoso, uma pessoa muito bem educada.
          — Sente-se no divã — propôs ele.
          E passeava pelo aposento com o copo na mão.
          — Não — respondi. — Não gosto de me sentar. Prefiro passear também.           
Aproximei-me da mesa. Nunca tinha visto tantas fotografias numa parede.
          — É Wilde — disse eu —, Wilde e Alfred Douglas.
          Ele pôs uma dose de uísque no copo, que ainda não estava vazio.
          — Wilde — repeti para mim mesma.
          Achei nele alguma semelhança com Oscar Wilde.
          — Vamos comer — disse ele.
          Encantava-me a personalidade daquele quarto de estudante abastado, o uísque aquecia como a neve aquece pouco depois de a termos na mão. Sentia-me intimidada, arrebatada. Dirigi-me do seu quarto para a sala de jantar, sempre andando na frente dele. Procurava retesar os músculos para que ele não reparasse minhas nádegas femininas.
          Apresentou-me à sua avó. Lembro-me dos seus cabelos brancos, do seu vigor, recordo-me da sua tez pálida, da reserva do seu olhar saudável. Mas, em matéria de avós, somente a nossa consegue comover-nos.
          Mexia a salada com a serenidade de um chefe de família e juntava-lhe um molho cor de coral.
          — Gosta de...
          Disse um nome inglês, que não compreendi. Sua pronúncia fazia com que eu me sentisse uma estranha, o alface ia tomando uns tons ruivos. Ergueu a cabeça para olhar sua avó, que partia uma asa de frango. Esqueci-me de como chegaram a explicar o seu parentesco com Bizet. A mesa redonda, a toalha de renda caindo até o chão sobre o tapete, a prataria, a disposição dos talheres me angustiavam. Felizmente a criada era invisível. Três presenças em vez de duas, me teriam intimidado ainda mais. Entrei na sociedade, é a primeira vez que me vejo em sociedade, dizia comigo mesma, como se dissesse: estou fazendo uma viagem à lua. Limpava as mãos úmidas na toalha, esquecia-me do guardanapo.
          Ele colocou duas folhas de alface no meu prato. O molho era adocicado. E eu me perguntava o que fariam aquelas alfaces da horta numa louça tão requintada.
          Meu amor,
          Você me diz que está grávida e que as coisas não lhe vão muito bem. Quer que eu vá te ver, iria se sentir melhor se eu estivesse perto? Responda-me. Um beijo, minha querida.
Maurice."
          
           Fiquei sem fôlego.
          Maurice me chamava de "meu amor", Maurice me chamava de "minha querida". Há sempre uma parte de verdade naquilo que se escreve, falei para a chama do fogão.
          Repeti a leitura, saltitava de felicidade e vaidade. Ter um filho dessa merda que o chateava com as recordações da infância... Isso recomeçava, como no café, um domingo à tarde. Ainda que fosse um desejo falso, Maurice continuava insistindo. Sua querida, seu amor. O milagre realizava-se: eu tinha um homossexual a meus pés. Excitava-me com a idéia de que ele voltaria e que teríamos muito dinheiro para gastar. Escrevi imediatamente ao médico, que passou um certificado em que declarava que eu estava grávida e passava mal, assinou e desapareceu. Guardei esse papel três dias e três noites sem me resolver a enviá-lo. Não me sentia lisonjeada. Pesava os prós e os contras, interrogava as chamas da lareira. Ele voltará, você o amará, ficará em fogo, mas há de ter que esfriar. Já teria esquecido os arames farpados que existiam entre você e ele? Seus silêncios, sua insignificância quando ele lhe falava, quando ele tornar a lhe falar de Nietzsche, de Kant? Ficava arrasada, ficará arrasada. Reflita. E eu suspirava. Onde estarão os anéis de cada um dos meus três nós corredios? Era tão bom engrinaldar-me com o cordel, esquecer os bobs na cabeça. Ele não é responsável pelo que inspira a você, garota. No entanto, ele me aprisiona. Minha língua está sempre pendente entre as grades deste grande amor. Maurice tinha atenções para comigo. Assim que soava a meia-noite, oferecia-me um pires de batatas cozidas com manteiga fresca... Você precisa ver as coisas com clareza, cadelinha. Ele fazia esses mimos, mas depois você se sentia mais infeliz do que uma criada a quem o patrão dá um pontapé. Minhas tesouras quando caem, meu rolo de barbante quando rebola e eu os insulto, meus tecidos, meus cartões, minhas caixas de papelão, o atar das embalagens com os mesmos gestos... Uma hora da manhã... Vivia a noite, mais outro dia bem gasto. E Violette vai deitar-se com seu vestido de estátua. Vou esperar até amanhã, me diz o canivete cor-de-rosa, com os seus três olhos cinzentos. Dobrar as folhas de papel novo, cortá-las com o canivete, que liberdade. Se ele voltasse teria de abandonar meus hábitos. Que seria de mim sem eles? A cozinha dos Bême me deixará, a aldeia se tornará fria, cumprimentarei Fernand de longe nas veredas. Ousaria eu aspirar diante de Maurice Sachs o cheiro adocicado do meu casaco de pele de coelho? Não.
          Este grande sentimento que renascia me aborrecia e me assustava. Já começava a me envenenar. Desde que o bilhete chegara que eu sofria de prisão de ventre. Não, minhas nádegas não eram nádegas de rapaz. Eram a minha ruína. Mas que viria então a ser este grande sentimento? Uma coisa inútil. Quando Maurice voltar, meus améns não serão mais que água da louça. Dez meses depois do seu regresso estaremos sem um vintém.
          Relia seu bilhete. A verdadeira carta de amor era o atestado do médico. Eu alimentava o inferno, meu braseiro interior estava louco às dez da noite.
          Por que não me teria ele escrito simplesmente: Cara Violette, se me enviar um atestado passado por um médico, dizendo que está grávida de mim, isso facilitará o meu regresso à França? Derramei lágrimas de raiva, de furor, de desespero. Repugnavam-me suas combinações dúbias. "Meu amor", ridículo. "Minha querida", ridículo. Recordava-me da sua posposta de me fazer um filho, como nos lembramos do cheiro do nosso vômito. Não havia dúvida, Maurice traficava com meu coração e seu esperma. Atirei o atestado no fogo.
          Quinze dias mais tarde, escreveu-me uma longa carta. Dizia que não estava zangado comigo, que "tinha se arranjado". Não explicava como. Acreditei. Nas cartas seguintes, organizava sua vida depois da guerra contando comigo. Que almoçaríamos juntos todos os dias, que iríamos várias vezes por semana ao Théatre-Français. Tinha mil idéias para eu ganhar dinheiro. Eu lhe daria a indenização pela mala extraviada, uma parte dos meus lucros, pois fora ele quem me arranjara a aldeia, as vacas leiteiras, as carteiras dos parisienses.
          Precisei de quinze anos para perceber aquilo que lançara ao fogo, para lamentá-lo até o remorso, até a mania de perseguição. Era um segredo entre mim e Maurice. Ele escreveu na Alemanha Portraits et Moeus de Ce Temps. Estou ali dentro. Chamo-me Lodève. Se foi verdadeiramente Maurice Sachs quem escreveu este retrato, se não houve alguém que insinuasse umas folhas entre as de Maurice, imitando sua escrita miúda a lápis — ele escreveu o manuscrito numa prisão de Hamburgo — é porque ele me queria mal. A descrição do meu rosto é um pesadelo. Como ele devia ser feliz para se encarniçar assim contra o meu rosto ingrato. Como deve ter sido amado, se alguém o vingou com esse retrato.
          Tomei uma estrada estreita, vi de longe um pequeno bosque à direita, com toldos matizados de verde e castanho. Supus que camuflassem munições por entre as árvores. Uma sentinela de fuzil ao ombro guardava o bosque, via-me avançar e aproximar-me dela. Eu caminhava do outro lado da estrada, mas não podia recuar. Entre as árvores apareceu um oficial, que se pôs também a olhar para mim. Calculava que, para eles, eu devia ser uma espiã, muitíssimo audaciosa. Era uma solitária que caminhava nas estradas com um passo regular, no momento em que os civis viviam nas caves, nos abrigos. Eles arregalaram os olhos. Passei em frente deles sem os olhar, sem olhar o bosque cheio de munições camufladas. Ouvia a sentinela. Falava em alemão ao oficial. Vi, por entre as pestanas, que a sentinela começava a me apontar a arma. Passar em frente deles aferrando-me à linha do horizonte, tomando a aparência e a silhueta de um Dom Quixote de saias, era conceder a mim mesma a sorte de não ser fuzilada à queima-roupa. Viver a própria morte. Eu a vivi enquanto esperava a bala pelas costas. O oficial respondeu à sentinela. Sem saber alemão, compreendi que eu não valia uma bala.
          Andei das oito da manhã às sete da noite sem beber, sem comer, sem parar. Desde as quatro da tarde, alucinada pela distância que devia ainda percorrer, avançava com o receio de desfalecer se abrandasse o passo. Minhas pernas inchavam, os músculos retesavam-se, num braseiro. Parei numa grande aldeia. Tinha feito quarenta e cinco quilômetros. No restaurante, minhas pernas continuavam a inchar. Comia aos poucos, lembrava-me das precauções da minha avó, quando eu era pequena e delicada e ainda conseguia sorrir. Mas tive de levantar no fim da refeição. Segurei-me à mesa com as duas mãos. Minhas pernas eram duas barras de ferro em brasa. Só passados três quartos de hora de esforços elas me obedeceram. Curvada, consegui arrastar-me até o quarto que uma professora de instrução primária havia me emprestado para a noite. Nas minhas pernas as pulsações não cessaram durante toda essa noite passada em claro. Aviões potentes voavam baixo sobre o telhado. No dia seguinte, levei doze horas para fazer vinte e quatro quilômetros. No terceiro dia fiz os seis últimos em seis horas. O Sr. Motté soltou um grito de surpresa. A aldeia julgava que eu tivesse desaparecido para sempre. Tornei-me célebre logo após o meu regresso; nos dias seguintes, tive de mostrar as pernas a numerosos visitantes. Mas ficavam decepcionados, pois elas já não estavam inchadas.