“Nunca
é tarde para ser feliz...”, frase
que encabeçava o calendário na
parede da casa de um tio que eu visitava quando
criança. Parado diante da folhinha, tentava
compreender aquele dizer que me prometia uma
espécie de eternidade. Ingênuo,
acreditava que sempre teria tempo para aquela
ocasião futura, quando não fosse
mais criança.
E
agora, sou feliz? Não me sinto encantado
com tudo ao meu redor, mas não estou
descontente com minha vida. Devagar, conquisto
sozinho o que só agora me parece impossível
obter de outro modo. Talvez, no fim das contas,
a felicidade não seja necessariamente
tão maravilhosa como desejariam alguns.
Desde
que saí de casa, meu relacionamento familiar
tem melhorado. Deixou de existir tensão,
excesso de zelo, infinitas preocupações
delas para comigo. Agora nos vemos quando temos
vontade, quando sentimos saudades.
Somente
quando liguei para Daniel, dois dias depois
da partida de Liz, soube da desavença
entre eles. Daniel achava que Liz havia usado
a briga para afastar-se dele. De mim também.
Falei da recusa dela em receber meu presente
de casamento, minha visita.
—
Você gostaria de ler os primeiros capítulos
do livro que eu estou escrevendo? — perguntei,
para mudar o rumo da conversa. — A sua
opinião é importante pra mim.
—
Não sei se eu sou capaz de uma avaliação.
—
E por que não me diz o que acha como
um simples leitor?
Trabalhando
em casa e também cuidando da filha, Daniel
não teria muito tempo para leituras.
Não esperava que tão cedo ele
emitisse sua opinião. Depois de lhe entregar
o texto continuei me dedicando ao livro. Falamo-nos
muitas vezes por telefone, cheguei a fazer-lhe
algumas visitas, e ele sempre comentava que
ainda não lera os capítulos.
Dois
meses mais tarde, Daniel me telefonou. Finalmente
havia lido meu texto.
—
Por que você resolveu contar essa história?
— indagou.
—
E por que não essa história? —
respondi com outra pergunta.
Ele
era desfavorável a que eu tornasse público
aquele relato. Eu estava expondo demais a Liz
e a mim mesmo, aquilo era um mero narrar de
acontecimentos dos quais eu tinha participado,
algo documental, não era literatura.
Achou que eu devia mudar alguns fatos para que
o texto ficasse mais ficcional, ou então
especificar tudo exatamente, criando um autêntico
documento. Sugeriu que se eu continuasse a escrever
o livro, depois de concluído, o engavetasse.
Daniel
foi tão contrário e me pareceu
equivocar-se tanto com o que tinha lido, que
tive sérias dúvidas sobre minha
habilidade em escrever. A princípio,
fiquei chateado, quase deprimido, por não
conseguir transmitir a idéia que pretendia.
A opinião de Daniel, de certo modo se
coadunando com a de Liz, me abalava.
No
dia seguinte, relendo alguns capítulos
impressos, fiquei desanimado. “Será
que eles têm mesmo razão? Estarei
perdendo tempo com algo medíocre?”
Saí para espairecer.
A
praia do Flamengo não era recomendada
ao banho de mar, mas eu não pretendia
entrar na água, nem mesmo pisar na areia.
Caminhar no calçadão observando
as pessoas ao sol, a cor do mar, o Pão
de Açúcar recortado no azul do
céu, a paisagem verdejante perfumada
de maresia, a brisa fresca... tudo me fazia
bem. Sentei à sombra, sentindo a vida
ao meu redor. Como era fácil agora recuperar-me
de uma quase depressão! A natureza era
tão onipresente que mesmo um cego não
poderia ignorá-la. Como era bom viver!
Sentir a intensidade das coisas! Por que me
preocupar com o que não devia? Por que
me importar com o peso exagerado que davam a
certas coisas, como um mero texto, por exemplo?
Palavras, nada mais. Não acreditava que
quando traduzissem verdades as palavras pudessem
ser nocivas. As pessoas só viam o que
queriam ver. Eu não era um desatinado,
acreditava no que fazia. Não ia desistir.
Fazia
mais de um mês que tinha falado pela última
vez com Daniel. Talvez decepcionado, ele não
voltara a me telefonar. Eu havia feito o mesmo.
Ainda
estava magoado com Liz. A ruptura forçada
tinha ficado atravessada na minha garganta.
Achei que tão logo ela se instalasse
em Amsterdam escreveria uma carta tímida,
contando suas novidades, querendo saber as minhas...
Três meses depois de sua partida, nada
mais sabia a seu respeito. Eu poderia ter ligado
para a casa de seus pais, mas como ignorava
em que condições ela os deixara
— teria brigado com eles também?
—, não me atrevia a telefonar.
Revi
as fotos tiradas em Amsterdam. Inverno no Vondelpark...
Liz e eu, fisionomias melancólicas tentando
sorrir... Nosso apartamento, o prédio
marrom, a pracinha... A cidade estranha, a bela
paisagem... Tudo pertencia a um passado distante,
passado que não tinha sido o meu, mas
do qual fizera parte. Agora o presente de Liz...
seu futuro também.
Iniciei
uma carta para ela. Talvez a idéia devesse
partir de mim. Mas hesitava: minhas cartas sinceras
sempre eram motivo de incômodo.
Depois
de impressa e relida, a carta me soou patética.
Rasguei-a. Sem assunto, eu escrevia a uma pessoa
morta, um fantasma que riria das minhas palavras
inúteis, e jamais me enviaria resposta.
Liz agora pertencia ao meu passado, não
deveria ser mais que uma lembrança. Hendrik
também. O casal que formavam fazia-me
pensar no quanto era estranha a idéia
da união em busca de um complemento de
si mesmo. Sentia-me completo sozinho, principalmente
sozinho. Amor, relacionamento afetivo, vida
a dois... coisas que eu não pretendia
mais. Não tinha sorte nesse campo. Talvez
meu destino não fosse mesmo o amor. Por
que não gastar tempo e energia em algo
mais importante? Separando amor de sexo, este
último passava a ser mera necessidade
física. Não era muito complicado
dar alívio ao corpo.
Liz
está morta, preciso acreditar nisso.
Sete meses sem notícias dela. Já
não tenho esperança de que venha
a me escrever. Nunca mais liguei para seus familiares,
nenhum deles me telefonou. Estou morto para
eles também. Daniel não quer mais
saber de mim. Depois que se mudou, não
me deu o novo endereço, nem telefone.
Não posso fazer contato. Preciso esperar
que ele o faça, mas sei que não
o fará. Para ele, não passo de
alguém que convém esquecer. Devo
lembrar demais a presença de Liz. Talvez
até me culpe pelo que aconteceu entre
eles.
Liz
morreu há muito tempo. Foi morrendo um
pouco a cada dia. Inconformado, obstinei-me
em não abolir uma idéia insuportável.
Amizades são sempre movidas por algum
interesse, quando ele deixa de existir todo
o restante desaparece. Ninguém permanece
vivo apenas por nos recusarmos a aceitar sua
morte, é preciso estar muito desequilibrado
para acreditar nisso. Já fui desequilibrado,
amei um fantasma forjado para preencher uma
lacuna indesejável. Estou recuperando
meu equilíbrio, isso exige que eu abra
mão de coisas vinculadas à minha
vida doentia. É preciso escolher, sempre.
Impossível desejar tudo ao mesmo tempo.
Fiz minhas escolhas, não me arrependo.
Liberdade
tem preço. Varrer, limpar, arrumar, lavar,
passar, fazer compras de supermercado, cozinhar...
Não tinha ilusões de que morando
sozinho e próximo ao trabalho levasse
uma vida só de prazeres. Embora consumissem
boa parte do meu tempo livre, as tarefas domésticas
não me incomodavam de todo. Mas, depois
de um dia inteiro de trabalho, dedicar-me a
atividades triviais nem sempre era agradável.
Na minha metódica organização,
procurava revestir tudo com aura de satisfação
pela tarefa cumprida, mas nem sempre obtinha
êxito. Tentava conciliar o que tinha vontade
de fazer com o que precisava ser feito. O tempo
que sobrava para me dedicar à escrita
não era muito maior do que o que tinha
antes de me mudar.
Palavra
após palavra, frase após frase,
parágrafo após parágrafo...
Todo meu mísero tempo livre voltado para
este fim. Obsessão que havia me movido.
Egoísta projeto de vida. Eu parecia mesmo
não saber fazer outra coisa. E agora?
Escreverei outro, e outro, e outro... quantos
forem necessários... Isso me dá
prazer. Por que então minha felicidade
não é completa? Por que sinto
como se algo me faltasse? Preciso aprender a
ser menos exigente.
Pensei
que tendo minha vida razoavelmente organizada
ela deixaria de ser um ponto de interrogação.
Nunca paro de me equivocar. A vida é
um mistério que me fascina, me aborrece.
Não tenho do que me queixar, mas, às
vezes, no meio da noite, no fundo dos meus sonhos,
ouço uma voz, vejo um sorriso, um rosto:
Liz. Ela não me diz nada, apenas me olha,
amigável, como se soubesse de algo que
ainda desconheço. Está distante,
mas sua imagem é sempre tão nítida!
Não é uma dor, nem um fantasma,
não é uma saudade, nem uma lembrança...
Pensamento dentro do pensamento.
Certa
vez perguntei a Liz o que ela achava que acontecia
depois da morte. “Nada. A gente deixa
de existir e o nosso corpo apodrece”,
respondeu tão prontamente que me espantei.
Eu pensava igual a ela, mas, até então,
não havia tido coragem de encarar a verdade.
A partir desse dia comecei a acreditar mais
em mim mesmo. Liz me ensinou tantas coisas!...
Com sua maneira obstinada de viver, ela mostrava
que é preciso criar incessantemente motivos
que nos façam acordar no dia seguinte
e prosseguir em nossa caminhada rumo ao nada.
Para Liz, viver era uma obsessão. Não
penso de forma muito diferente, mas talvez minha
obstinação seja mais branda. Curta
ou longa, miserável ou magnífica,
solitária ou conjunta a trajetória
humana sobre essa imensa esfera povoada não
deixa de ser um tanto patética. Por mais
reto que se caminhe sempre andaremos em círculos
em torno de um planeta redondo.
Os
sonhos deveriam ser mais controláveis.
Deveríamos sonhar apenas com o que tivéssemos
vontade, com o que mentalizássemos pouco
antes de adormecer. Infelizmente não
é assim. O subconsciente retém
acontecimentos do dia, da semana, do mês,
dos anos e, quando menos esperamos, nos expõe
o que já nem lembrávamos, o que
não precisaríamos lembrar... Com
que finalidade? Se ao menos o processo nos fornecesse
alguma explicação. Extravasar
dormindo o que não foi possível
acordado? Liz aparece em meus sonhos vez por
outra. Isso significa que em alguma parte do
meu subconsciente ela está preservada?
Por que sonho com o que não quero? Culpa?
Depois de tanto tempo? Não, talvez ainda
a brusca ruptura inexplicável. Terei
sido responsável por tudo? Mas não
rompi com ninguém. Não sou eu
que devo esclarecimentos. Talvez seja isso.
Fiquei esperando por algo que não tive,
que jamais terei.
“O
tempo cura as feridas”, conhecido clichê.
Mas se não há feridas, o tempo
nada pode senão prosseguir sua marcha
interminável. Nivelando todos, a morte
é o fim de tudo, apodrecimento, encontro
com o nada. Mas nem sempre a morte é
capaz de fazer os vivos esquecerem os mortos.
Nem sempre é possível superar
traumas, talvez nem seja preciso. Não
me agrada lembrar de Liz quando não quero,
mas como poderia esquecê-la? Por tudo
o que conseguimos ser, pelo que crescemos juntos,
aprendemos, desfrutamos, conquistamos, as loucas
viagens em que nos lançamos, emoções
e sofrimentos, alegrias e tristezas que partilhamos,
descobertas e constatações que
fizemos, nossas filosofias de vida tão
semelhantes, tão distintas, todo amor
que um dia senti por ela, tudo o que não
chegamos a ser, nossos desentendimentos, perdas
e derrotas, fracassos, nossa amizade tantas
vezes abalada, tantas vezes recuperada, nossa
amizade extinta, o amor que ela não conseguiu
sentir por mim, o tanto que me amava, tudo o
que poderia ter sido, mesmo que nunca tivesse
dado certo, mesmo que durasse pouco, as cartas
covardes que lhe escrevi, as respostas sinceras
que nunca me enviou, as músicas que ouvimos
juntos, os adágios de Albinoni que escuto
sozinho, para sempre, de alguma forma, até
o fim dos meus dias, Liz viverá em mim.
Minha
maldição, tenho que me conformar.
Ainda que se tenha sorte, não se pode
ganhar sempre.