Na
tarde de um sábado perdido em busca de
um imóvel, estava prostrado na cama quando
o telefone tocou. Alcancei o aparelho com um
gesto forçado.
—
Leon, sou eu, a Liz... Tudo bem?... —
disse, com voz tímida.
—
Liz!?!, mas de onde você está falando?
— perguntei, surpreso.
—
Estou em casa. Cheguei hoje. Você é
o primeiro pra quem eu estou ligando.
—
Que surpresa! — falei, sem encontrar algo
melhor para dizer.
Pelo
tom de seus últimos e-mails
imaginava que ela não estivesse muito
satisfeita. Havia mencionado ligeiramente alguns
descontentamentos, a indecisão entre
ficar ou voltar, mas, como sempre terminava
as mensagens de forma positiva, achei que acabaria
se acostumando.
—
Leon, meu amigo, não sei o que eu estou
fazendo aqui — prosseguiu, chorosa.
—
Está de volta, junto das pessoas que
gostam de você.
—
Eu não podia ter voltado desse jeito...
eu deixei tudo pra trás, larguei o Hendrik,
no dia do aniversário dele, vim sem nada.
Eu devo ser mesmo maluca, só agora vejo
a besteira que fiz...
Eu
não sabia o que dizer. Liz falava como
se eu soubesse de tudo o que lhe acontecera
nos últimos tempos.
—
Você quer que eu vá até
aí, pra gente conversar melhor? —
perguntei.
—
Não, por favor, hoje não —
disse ela, rapidamente. — A gente combina
um outro dia.
Não
insisti. Até senti alívio com
a recusa. Seu retorno repentino ainda não
tinha me dado tempo para pensar na situação.
Não sabia como seria nosso reencontro
depois de tudo. Ainda éramos amigos?
Eu não estava disposto a ouvir seus queixumes.
Já os conhecia muito bem.
—
Você precisa descansar, Liz — falei,
para tranqüilizá-la. — No
começo, quando a gente volta, nada faz
sentido, tudo só nos aborrece. Com o
tempo as coisas melhoram, você vai ver.
—
Eu queria tanto que você tivesse razão!...
Depois que você veio embora as coisas
só pioraram pra mim, tudo deu errado.
Estou tão triste e frustrada...
—
Sei bem como é isso, mas não adianta
eu te dizer que tudo vai passar. Se acalma,
descansa um pouco, e depois liga pro Daniel.
Ele vai ficar muito contente em saber que você
voltou.
—
A gente se fala outro dia, então...
—
Eu vou ficar esperando você me ligar.
Mais
essa agora. Eu ainda sabia ser amigo de Liz?
Nosso afastamento forçado, nossas desavenças
posteriores haviam feito com que perdêssemos
a intimidade — e eu já não
sabia se queria recuperá-la. Por que
ela havia retornado? Eu não tinha endireitado
ainda a minha vida e Liz já estava de
volta. Achei que ela ficaria por lá,
eu me arranjaria aqui. Parecíamos voltar
a um velho ponto de partida. Temia que com seu
retorno eu não tivesse mais tempo para
cuidar de mim mesmo. Teria de colocar minha
amizade à disposição dela,
ajudá-la a se reerguer, a reintegrar-se...
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Sentia-se
estranha numa casa estranha, cercada de estranhos.
Ninguém perguntara nada, cobrara coisa
alguma. A postura atípica de sua família
havia feito com que não tivesse chance
de se explicar, esclarecer os fatos, desabafar
seu sofrimento. Sentia vergonha, estava magra,
feia. Sabia que a mãe havia tido um choque
ao ver seu aspecto lastimável, embora a
tratasse como se nenhuma mudança houvesse
ocorrido. Isso era o pior de tudo. Teria preferido
que falassem, que se mostrassem horrorizados e
a criticassem. Apesar do tratamento, sentia como
se tivesse feito uma imensa besteira viajando,
desperdiçando dinheiro, contraindo dívidas,
estragando a saúde... Não existia
mais Hendrik para amar, estava sozinha naquele
espaço irreconhecível. Tinham modificado
a arrumação dos cômodos, pintado
paredes, trocado móveis... Parecia acordar
de um pesadelo dentro de outro pesadelo. Quando
aquilo teria fim?
Queria
contar o que passara nos últimos meses,
livrar-se da pesada carga. Ao mesmo tempo, não
queria que soubessem os horrores que havia vivido.
Talvez nem mesmo acreditassem nela. Não
estava se sentindo bem para encontros. Abatida,
maltratada não queria ver ninguém,
não queria que a vissem. Desejava apenas
que o tempo passasse depressa.
Hendrik
não demorou a ligar insistentemente para
a casa dela. A princípio, Liz se recusou
a atendê-lo, mas Hendrik foi tão
persistente que ela resolveu falar com ele para
poupar sua família do transtorno. Nervoso,
ele ainda tentava entender o que havia acontecido:
—
Por que você foi embora desse jeito? O
que foi que eu fiz? Por favor, volta pra mim,
Liz. Eu preciso de você, sinto a sua falta.
Tenho medo de ficar sozinho. O apartamento está
tão triste agora!... Eu não consigo
comer, dormir, estudar... Volta, eu te amo.
Por que você me deixou?
A
voz e as palavras angustiadas de Hendrik esmagavam
seu coração.
—
E o Derek? — lembrou ela. — Eu vi
vocês dois...
—
O que tem o Derek? Ele é meu amigo —
disse, como se não soubesse do que Liz
falava.
—
Seu miserável! Cretino! — explodiu.
— Eu vi muito bem a amizade de
vocês dois na nossa cama. Lembra disso?
—
Mas do que você está falando!?
Ficou maluca? Isso nunca aconteceu.
—
Como não!? Eu mesma vi, ninguém
me contou. Na véspera do seu aniversário,
vocês transaram no nosso quarto!
—
Você não está falando sério.
Isso não pode ter acontecido...
—
Eu não ia brincar com uma coisa dessas,
Hendrik.
—
Mas eu não tive culpa! Eu nem sabia disso!...
Naquela noite eu tinha fumado e bebido um pouco
a mais com o Derek. Fiquei tonto, e pedi que
ele me ajudasse a voltar. É tudo o que
eu me lembro. No dia seguinte, acordei sozinho,
fui atender a porta, recebi o seu telegrama...
Uma
excelente desculpa ou a verdade? O que Hendrik
dizia tão espontâneo não
parecia uma mentira calculada. Teria Derek mais
uma vez aprontado uma armadilha?
—
Liz, por favor, me perdoa — prosseguiu.
— Se aconteceu mesmo isso que você
disse, a culpa foi do Derek.
Queria
tanto acreditar no que ele dizia!... Tudo parecia
fazer muito sentido. Por que se precipitara?
Se Derek a houvesse enganado jamais se perdoaria.
—
Eu telefonei pro seu trabalho dizendo que você
tinha viajado por causa da morte do seu pai.
Eles me disseram que o seu emprego está
garantido.
—
Mas ainda que eu voltasse e comprovasse essa
mentira, eles iam insistir no tal endereço
que eu não posso dar!
—
Eu me caso com você, Liz. Por favor, volta,
eu te amo. A gente se casa, você vai ser
a minha mulher, com direito a morar no nosso
apartamento, vai ter o endereço que eles
querem, vamos ser felizes, muito felizes. Por
favor, me perdoa. Vamos começar novamente,
de um jeito diferente. Você é o
meu futuro, o meu sonho!...
Cada
palavra, cada frase, cada súplica de
Hendrik a torturava. Por que ele só havia
dito o que ela sempre quisera ouvir quando estavam
distantes? A culpa também havia sido
dela, não tinha lhe dado chance de falar,
de se defender.
—
Liz, você ainda está aí?
Por que não diz nada? Você não
me ama?
—
Eu preciso pensar. Se bem que não tenho
mais dinheiro pra voltar, e isso resolve tudo.
—
Se você ainda me ama tem que voltar. É
horrível ficar aqui sozinho sabendo que
você está feliz, aí com
os seus amigos, a sua família... Você
me deixou sem nada.
—
Só quando tudo parece perdido você
promete se regenerar, acertar as coisas. Estou
cansada das suas promessas, Hendrik.
—
O que você quer que eu faça? Pode
pedir, eu juro que faço o que você
quiser.
—
Não se trata de dizer o que eu quero
como condições pra uma relação
saudável, e sim que você mesmo
tenha consciência do que é importante
pra mim, do que é ruim pra você.
—
Eu paro de fumar, de ver o Derek, eu vou arranjar
um emprego. Eu quero me casar com você.
Não me deixa sozinho.
—
Eu vou desligar. Já falamos muito, a
ligação vai ficar cara, e eu não
quero que você gaste dinheiro por minha
causa. É melhor a gente se consertar
primeiro pra depois saber o que fazer.
A
solidão era o maior temor de Hendrik.
Desde que havia entrado na vida dele, Liz parecia
ter preenchido um espaço que ninguém
mais seria capaz de ocupar. Talvez por que em
parte ela personificasse ao mesmo tempo a figura
materna, praticamente ausente na vida dele,
e a imagem de mulher, amante, companheira com
quem podia ter prazer. Liz queria um homem,
um amor, um companheiro... Casamento. Queria
um casamento? Não ligava a mínima
para isso, tanto que se dispusera a casar com
Leon só para ajudá-lo. Agora Hendrik
lhe propunha algo parecido. Estava sempre tendo
oportunidade de experimentar os dois lados da
mesma questão. Por que em vez de se achar
privilegiada sentia-se em desvantagem nessas
ocasiões?
Quando
ligou para Daniel, passaram horas conversando.
Explicou a ele os últimos acontecimentos
antes de sua volta, o que se passara desde que
tinha chegado. Evitando dar conselhos, Daniel
dizia que o assunto era muito complexo, envolvia
interesses diferentes. Insistia em que se encontrassem,
senão no apartamento dele, na casa de
Liz. Ainda debilitada demais para um confronto,
adiava a reunião esperando um momento
mais oportuno.
Hendrik
tornou a telefonar. Tinha comprado uma cama
de casal nova, maior do que a anterior. Havia
se informado sobre o casamento, sendo Liz cidadã
portuguesa a união era simples. O emprego
na Beamy estava assegurado. Não tinha
mais fumado skunk, nem voltado a procurar Derek,
queria muito que ela acreditasse nisso. Estava
estudando bastante para terminar o curso e conseguir
bom emprego. Queria saber quando Liz voltaria.
Não
sabia o que dizer. Hendrik agia como se o retorno
dela fosse questão de data. “Se
ao menos ele pudesse estar aqui...”, pensou.
Sentia-se arrependida pela precipitação,
por ter caído facilmente na armadilha
de Derek. Por que precisava passar por aquilo?
Por que as coisas nunca davam certo para ela?
Por que sempre que tentava agir de forma correta
acabava sendo vítima das próprias
atitudes?
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Esperava
que Liz me telefonasse combinando um encontro,
mas, uma semana depois de sua chegada, nenhuma
ligação. Eu hesitava em telefonar,
obrigando-a a falar comigo. Não queria
parecer afoito, nem indiferente. Liguei para Daniel,
que me contou ter conversado com ela. Ele também
aguardava um telefonema de Liz e, como eu, tinha
receio de parecer inconveniente. Queríamos
que ela se sentisse livre para fazer o que julgasse
melhor, mas achávamos que, deprimida, talvez
tivesse dificuldade em seguir com sua vida.
Eu
imaginava que se Liz havia retornado devia ser
para ficar de vez. Mas ignorar as reais circunstâncias
para o que me soava uma fuga intrigava-me. A estranha
que não queria ver ninguém não
se assemelhava em nada à Liz que eu conhecia.
Ela devia ter mudado muito.
Daniel
me ligou dias mais tarde, avisando que Liz havia
marcado uma reunião no apartamento dele
para a tarde do próximo sábado.
Ao
tocar a campainha eu estava curioso, como se
estivesse prestes a ver um ser bizarro que teria
de reconhecer como alguém estimado, uma
Liz que não eu via há muito tempo.
Sílvia abriu a porta, cumprimentei-a,
entrei. Liz estava de costas, falava com Daniel,
que sorriu quando me aproximei. Liz levantou
da poltrona, voltando-se para mim. Estava tão
magra e envelhecida que tive impressão
de ver a mãe dela. Tentei disfarçar
meu choque enquanto a abraçava, a beijava.
Visivelmente desconfortável diante da
minha presença sadia, Liz evitava olhar
para mim. Não sei se agia assim por vergonha,
mas eu, por mais que quisesse parecer natural,
também não conseguia olhar fixamente
para ela, temendo denunciar piedade. Aquela
figura esquálida e abatida... a bela
mulher que eu tinha amado. Como tudo podia ter
chegado àquele ponto? Culpa de Hendrik,
dela mesma, do amor doentio de ambos? Pouco
importava agora.
Daniel
falava, gesticulava, ria, mas sua encenação
soava falsa. Devia padecer do mesmo sentimento
piedoso que eu. Excessivamente gentil, Sílvia
tratava Liz como um doente terminal. Seu estranho
aspecto nos desconcertava. Agora eu entendia
porque ela havia adiado o encontro.
Daniel
era o único em condições
de aliviar a tensão. Aos poucos, com
humor, acabou fazendo a tarde não se
tornar um martírio. Liz se descontraiu
um pouco. Com ar indeciso, contou seus planos
de procurar trabalho como professora de inglês
ou tradutora; havia sondado alguns cursos, mas
achava o valor da hora-aula muito baixo. Contou
que Helena queria ajudá-la, a amiga conhecia
pessoas que poderiam ser úteis no recomeço.
Daniel insistia que voltassem a trabalhar juntos,
mas Liz alegou não ser indicada para
parcerias.
De
repente, ela avisou que precisava ir. Dizia-se
cansada e, precisando tomar um ônibus
para casa, não queria sair muito tarde.
Daniel ficou surpreso, achou que conversariam
noite adentro. Perguntou se Liz não queria
dormir na casa dele, ela recusou. Não
me surpreendi. Havia percebido o desconforto
de Liz desde a minha chegada. Não sabia
se ela já estava assim, mas, ainda que
Daniel tivesse conseguido “salvar”
a reunião, nosso encontro estava bem
longe dos que aconteciam ali antes de viajarmos
para Amsterdam. Todos havíamos mudado.
Despediu-se
de mim friamente, a mesma frieza velada com
que me tratara a tarde toda. Nada tinha perguntado
a meu respeito, sobre meu trabalho, minha vida.
Não havia pedido nenhuma opinião,
sugestão, nada. Parecia ter anulado minha
presença. Em vez de tristeza, me senti
aliviado com sua partida.
—
Como ela está diferente, não?
— comentei com Daniel, quando ele fechou
a porta.
—
Eu também fiquei impressionado —
admitiu.
—
A Liz ainda me parece tão confusa...
Será que ela vai conseguir trabalho em
algum cursinho? É o tipo de emprego que
eu nunca pensei que interessasse a ela.
—
Acho que é cedo ainda pra Liz decidir
o que fazer. Talvez ela volte a trabalhar comigo.
Nossa
conversa não se prolongou. Aquilo tudo
tinha me abalado. Eu queria pensar, esquecer
o rosto cadavérico de Liz, encontrar
uma forma de ajudá-la.
No
dia seguinte voltei à busca obstinada
por apartamento. Centro, Glória, Catete,
Largo do Machado... Nos últimos meses
havia esquadrinhado esses bairros à procura
de um lugar razoável sem nada encontrar.
Desanimado, não conseguia acreditar que
não houvesse um único imóvel
que me servisse nesses bairros próximos
ao trabalho. Cada vez menos exigente, com anúncios
recortados e colados numa folha de papel, iniciava
mais uma manhã de tentativas.
Como
em outras vezes, fui a pé do Centro até
o Largo do Machado, visitando os apartamentos
selecionados. Um pior que o outro. Parecia perda
de tempo olhar o imóvel do último
anúncio, mas insisti. A rua Almirante
Tamandaré era simpática e tranqüila
com árvores sombreando as calçadas.
A fachada do prédio antigo não
tinha muita graça. Apanhei a chave com
o porteiro, subi ao oitavo andar. Abri a porta
de um cômodo bastante iluminado. O piso
estava meio estragado e havia uma infiltração
junto à entrada, mas o espaço
do conjugado era ótimo. Da janela, esgueirando-se
um pouco, era possível ver uma nesga
de mar, uma parte do Aterro. Lugar sob medida
para mim. O jornal não dizia o valor
do aluguel. O preço devia ser alto.
Liguei
para o telefone do anúncio. Aluguel mais
barato do que eu supunha, sem necessidade de
fiador, apenas depósito. Eu fazia e refazia
contas, tentando ver se sobraria dinheiro, depois
de pago o aluguel e condomínio, para
outras despesas.
No
domingo seguinte o apartamento continuava anunciado.
Eu tinha desistido de procurar outros, e achava
que minha indecisão fizera com que outras
pessoas já o tivessem alugado. Mas ninguém
parecia interessado no imóvel.
Voltei
ao apartamento. Novamente observando o espaço,
certifiquei-me de que ele era tudo o que eu
precisava.
Na
segunda-feira, assim que cheguei ao trabalho,
liguei para a administradora do imóvel.
Ele ainda estava disponível. Acertei
o aluguel com a promessa de reparo, por parte
do proprietário, na parede com infiltração.
Fiquei exultante.
O
primeiro impulso ao chegar em casa foi telefonar
para Liz. Ainda que houvesse algo estranho entre
nós, achei que a notícia a deixaria
contente. Assim que atendeu, contei a novidade.
Ela ficou mais alegre do que eu imaginava, satisfeita
por saber que as coisas estavam dando certo
para mim. Ao mesmo tempo, sentia-se culpada
por ainda me dever dinheiro, sabia que eu teria
despesas com a mudança. Falei que não
se preocupasse, eu tinha economias. Mas isso
não pareceu aliviá-la. Queria
arranjar logo uma vaga de professora para começar
a saldar suas dívidas. Não se
sentia bem devendo a mim. Propus encontro na
casa dela para conversarmos melhor. Queria emprestar-lhe
livros novos, mostrar o texto que estava escrevendo.
Liz se disse indisposta, me telefonaria quando
estivesse melhor.
Mais
uma vez me evitava? Talvez não. Devia
estar sendo sincera. Quase cheguei a pensar
que minha sorte fosse motivo de incômodo
para ela, mas seu contentamento com a novidade
soou tão natural que descartei a idéia.
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A
conquista de Leon a alegrou. Depois de tudo o
que havia passado, ele começava a trilhar
o caminho que sempre desejara — sem a ajuda
dela. Queria que tudo desse certo para o amigo,
e, já que ainda não podia pagar
o que lhe devia, melhor manter-se afastada para
não atrapalhá-lo. Apesar do distanciamento
dos últimos tempos, imaginava que sua presença
ainda pudesse mudar a vida de Leon. Ele havia
dito não ter mais aquele sentimento doentio
por ela, mas agora, de volta, era melhor não
dar espaço para que recaídas ocorressem.
Hendrik
havia ligado outras vezes. Diferente das ocasiões
anteriores, ele não telefonava mais a cobrar.
Cansada de ouvir pedidos para que voltasse, sentiu-se
obrigada a dizer que não tinha mais dinheiro
para coisa alguma, muito menos para regressar
a Amsterdam. Como Hendrik parecia se fazer de
surdo, ela acabou invertendo a ordem das coisas,
indagando por que ele não vinha ao Brasil.
Surpresa, ouviu-o dizer que precisava pensar a
respeito. Achando que Hendrik não entendera
o que ela havia dito, repetiu a pergunta. Ele
deu a mesma resposta.
Foi
convidada por Helena a passar a semana do Carnaval
na Região dos Lagos. A amiga estava na
fase final da decoração de uma
casa que poderiam ocupar durante a ocasião.
Parecia boa idéia espairecer, pensar
melhor no que fazer da vida.
Ligou
para Leon dizendo que viajaria com Helena. Ele
avisou que se mudaria na semana do Carnaval.
Liz desejou boa sorte, depois telefonaria para
combinar uma visita.
—
O Hendrik voltou a te ligar? — perguntou
Helena, ao volante, guiando pela estrada que
levava ao litoral.
—
Ele telefonou ontem. Disse que vem pro Rio me
buscar, que o meu lugar é ao lado dele,
que precisa de mim, que me ama... — falou,
meio desanimada.
—
E isso não é ótimo?
—
Sinceramente, não sei. Eu amo o Hendrik,
mas a vida com ele é estranha, confusa.
Nunca sei quando ele está falando a verdade,
o que faz na minha ausência, o que pensa...
Ainda ontem, eu fiquei tentando imaginar onde
ele conseguiu o dinheiro pra comprar as passagens.
Falei que eu não tinha um centavo pra
nada, mas ele disse que ia pagar tudo.
—
E por que você não perguntou?
—
Eu tive medo. E se ele fez um empréstimo
no banco? Vai ficar endividado por minha causa,
e eu nem sei se quero mesmo voltar.
—
Por que não espera ele chegar pra decidir?
Talvez ele realmente queira mudar.
—
Teria que ser uma mudança muito grande...
Não sei se ele é capaz de tanto.
Há muitas diferenças entre nós,
culturais, de idade, de pensamento... Às
vezes eu sinto que o Hendrik é a pessoa
que mais me conhece e que melhor me entende,
mas em outras, é como se não tivéssemos
nada em comum.
|
|
Todos
os meus pertences no apartamento. Meu espaço,
lugar que ocupo sozinho, como sempre quis. E
eu que pensava nunca realizar este desejo...
Como estava enganado!...
No
apartamento ainda desorganizado me emociono.
Uma semana inteira para pôr ordem na casa,
minha casa. Tempo mais do que suficiente. Comprei
poucos móveis e utensílios, trouxe
alguns da casa da minha mãe. Mistura
não muito harmoniosa ainda, mas terei
tempo de substituir o que julgar conveniente.
Arrumar ao meu próprio gosto o espaço
que poderei pagar e manter com meu trabalho...
como isso me dá prazer! Estou sozinho,
mas não sinto a menor sombra de solidão.
Ligo o aparelho de som portátil, coloco
os velhos amigos que nunca me abandonam: Bach,
Vivaldi, Albinoni... Os concertos para oboé
de Albinoni me lembram Liz. Estranha recordação,
como se a imagem que me viesse fosse de alguém
que já não existe. Pena, tristeza,
ressentimento? Nada disso. Lembrança
que quase não me pertence, por isso estranha.
Como pudemos ter sido tão unidos um dia
e hoje... Hoje essa sensação esquisita,
indefinível. Já não me
preocupo com Liz, perdi esse direito. Ela se
mantém afastada, bem posso imaginar o
motivo, medo de mim. Tento compreendê-la,
o que não é mais tão difícil.
Já não tenho tanto interesse em
sua vida. E eu que achei que seríamos
amigos eternamente!... Mais um equívoco
para minha coleção. A amizade
não resiste ao amor, o amor sem amizade
não existe. Melhor parar de pensar bobagens.
Tenho um apartamento para arrumar, preciso continuar
meu livro, viver a nova vida que está
apenas começando.
Na
semana seguinte à do Carnaval Liz me
telefonou. Em tom amigável, queria saber
se tudo estava pronto no apartamento para eu
receber visitas. As mini-férias na Região
dos Lagos deviam ter lhe feito bem. Falei que
ficaria contente em recebê-la. Ela queria
também rever minha mãe e avó,
estava com saudade das duas. Combinei encontrá-la,
no fim de semana, na minha antiga casa, de onde
iríamos até o Largo do Machado.
Cheguei
atrasado. Na varanda, Liz conversava com minha
mãe e avó. Não estava mais
tão magra, seu rosto corado e alegre
em nada lembrava a morta-viva que tanto me chocara
no apartamento de Daniel. Por um momento achei
que tinha recuado no tempo: aquela parecia bastante
a Liz que eu havia amado. Beijou-me, abraçou-me.
Sua animação me intrigava. Mas
fiquei feliz com seu aspecto sadio.
Almoçamos
na varanda. Após a sobremesa, começamos
a nos preparar para sair. Em meu antigo quarto
apanhei alguns pertences que tinha esquecido
de levar na mudança.
—
O Hendrik chega dia 26! — disse ela. —
Ele vem pra ficar quinze dias. Vem me buscar.
—
Que bom! — falei, disfarçando minha
surpresa. — E quando vocês se casam?
Riu.
Falou que Hendrik havia lhe proposto casamento,
sim, mas ela precisava pensar.
—
Se vocês se amam devem se casar. É
a sua chance de ficar na Europa.
No
trajeto do ônibus até o Centro,
Liz tentou contar o que me sonegara nos últimos
tempos. No tom inquieto de quem havia perdido
um pouco a intimidade, dava impressão
de ainda identificar-se fortemente comigo. Disse
coisas que deveriam me soar reveladoras, mas
seu relato não me surpreendia. Ela parecia
meio perdida e ainda dependente das vontades
de Hendrik, como se não tivesse certeza
absoluta do passo que daria. Tinha esperanças
de que ele fizesse um tratamento para se libertar
das drogas. Acreditava que resolvida essa questão
seriam felizes. Eu também queria acreditar
nessa hipótese, mas minha lucidez não
me permitia. Senti vontade de dizer o que um
amigo falaria a alguém estimado. Não
consegui.
Do
Centro, tomamos o metrô até o Largo
do Machado. Liz gostava do bairro, das ruas
arborizadas, da grande praça ornada com
quiosques de flores, das opções
de lazer...
—
Nossa!, o apartamento é bem maior do
que eu pensava! — falou, quando entramos.
—
De todos os que eu vi esse foi o melhor.
—
E como está bem arrumado! Ficou ótimo!
— disse, com voz alegre.
—
Dá até pra ver o mar pela janela
— falei, apontando a nesga de vista.
—
Você deve estar muito satisfeito, não?
Fico contente por você.
—
Acho que eu sou uma pessoa de sorte.
—
É, mas às vezes ter sorte não
é o bastante. É preciso fazer
bom uso dela.
—
Pois é. Eu achei que nunca ia conseguir.
Há pouco mais de um ano voltei pro Brasil
completamente falido. Agora estou aqui, morando
no meu apartamento. Dá pra acreditar?
Olhou-me
sem nada dizer. Seu rosto parecia fundir orgulho
e saudade.
—
E que tal é morar sozinho? — indagou.
—
A gente fica mais responsável, quase
tudo depende só de nós mesmos.
—
Que bom que todos estão conseguindo se
arranjar! Primeiro foi o Daniel, agora você.
Eu também queria um lugar pra mim, um
lugar que eu pudesse dividir com alguém
que eu amasse...
—
Com o Hendrik, você quer dizer.
—
Sim, eu gostaria muito de tentar. Não
queria me sentir culpada por deixar de viver
coisas boas mais adiante.
—
Mas você já vem tentando há
um bom tempo — ironizei, não conseguindo
deter a língua.
Liz
nada comentou, sorriu apenas.
Entreguei
a ela os três primeiros capítulos
do livro que estava escrevendo.
—
O que é isso? — perguntou, curiosa.
—
Dá uma lida — pedi, sem dizer o
que era. — Você se importa se eu
tomar um banho?
—
Claro que não — respondeu, acomodando-se
no sofá, iniciando a leitura.
Quando
voltei do banheiro, antes de lhe perguntar o
que havia achado do texto, ela disse:
—
Eu pensei que tudo tivesse ficado resolvido
depois que você voltou, como me escreveu.
Eu também sinto a gente não ser
os mesmos amigos de antes, mas agora eu sou
outra pessoa. Não quero mais contar tudo
da minha vida, quero guardar coisas só
pra mim. Eu sempre preocupo os outros à
toa, e depois me arrependo de falar mal de quem
eu gosto.
Eu
não entendia nada do que Liz dizia. Por
que retomava aquele assunto? Fiquei sem ação.
—
Eu entendo que você queira a nossa amizade
do mesmo jeito que antes — prosseguiu
—, mas ficamos afastados muito tempo,
aconteceram coisas que você não
sabe, coisas que eu não quero explicar.
Eu pensava que hoje a nossa amizade fosse satisfatória
pra você. Eu gostaria de te ajudar a entender
muitas coisas... mas quem sou eu pra isso? Não
consigo ajudar a mim mesma. Fico triste em saber
que pra você não está bom
assim. É uma pena, porque pra mim estava
bem.
—
Você pode me explicar do quê está
falando? — indaguei.
—
Como assim? Da sua carta! — disse, mostrando
o texto que eu lhe dera para ler.
—
Mas isso não é uma carta pra você!
— falei, só então percebendo
o mal-entendido. — É o livro que
eu estou escrevendo, e que começa com
uma carta.
—
Oh! Me desculpa, eu fiz a maior confusão.
Ai, que vergonha!
Não
consegui conter o riso.
—
E você gostou? É a primeira pessoa
pra quem eu estou mostrando.
—
Está bem escrito, mas não acha
que ficou pessoal demais?
—
Cartas são sempre muito pessoais, não?
Eu queria que quem estivesse lendo acreditasse
que tudo poderia ter realmente acontecido.
—
Bom, comigo funcionou. Mas talvez porque o texto
tenha me soado familiar.
—
Mas você não leu tudo ainda, leu?
—
Não — respondeu, retomando a leitura
do ponto em que havia parado.
Aproveitei
para arrumar na cozinha os objetos trazidos
da casa da minha mãe.
—
O que me incomoda — falou ela, quando
voltei à sala — é a exposição
que você faz das pessoas através
dos personagens. Não foi difícil
me reconhecer no texto e também o Daniel.
Você, então, nem se fala.
—
Eu não estou expondo ninguém senão
a mim mesmo. O meu texto é ficção.
—
E vai me dizer que você não se
inspirou em nenhum fato real?
—
Você disse a palavra certa: “inspiração”,
nada além disso.
—
Eu não gostaria de ver expostas as coisas
que eu te contei. Não tanto por mim,
mas pelas outras pessoas. Já pensou que
alguns dos nossos amigos podem não gostar
do que vão ler?
—
Então eu não posso me inspirar
no que vivi, no que eu conheço? Que culpa
eu tenho se as minhas experiências pessoais
se misturam com as dos outros? Não acho
justo limitar os meus planos por causa do que
os outros possam pensar.
Meu
tom irritado denunciava o desagrado em fazê-la
entender o que parecia incapacitada. Liz não
me respondeu, em vez disso perguntou como eu
pretendia decorar o apartamento. Apanhou uma
revista de decoração e começou
a folheá-la. Fugia da resposta. Dava-me
razão?
Tanto
empenho e dedicação para criar
algo verdadeiro... e tudo tão mal interpretado.
Uma coisa era certa: o que Liz havia dito ao
ler o texto que julgava ser uma carta para ela
continha uma verdade que lhe escapara. Nossa
amizade era cada vez mais inconsistente. Lembrei-me
da carta original que escrevera a ela há
quase dois anos: poderia ter sido entregue hoje,
surtiria o mesmo efeito. A diferença
é que eu não me importava mais
em resgatar amizade alguma.
Fiz
o que ela esperava de mim. Sentei a seu lado
e, como se nada tivesse ocorrido, comecei a
comentar sobre as fotografias de móveis,
tapetes e outros objetos decorativos.
Nossa
conversa não se estendeu. Descemos juntos.
Antes de nos despedirmos, falei:
—
Se você quiser, depois que o Hendrik chegar,
a gente pode almoçar no Centro. Que tal?
Minha
última cartada amistosa soava-me patética.
Frase dita com o intuito de desfazer uma impressão
desagradável, dar a última palavra
com ar de superioridade e benevolência.
—
Eu vou falar com ele e ver o que me diz.
Embora
sua resposta parecesse sincera, não acreditei
que tivesse me levado a sério.
|
|
Ansiosa,
aguardava Hendrik no aeroporto. Esperava a definição
de sua vida estacionada. Isso já lhe parecia
responsabilizar demais alguém que não
ela própria por um futuro que lhe pertencia.
Eterno drama da vida a dois. Mas não se
sentia culpada de nada: tinha decidido voltar
sozinha, recomeçar do zero; ele é
que vinha atrás dela, dizendo amá-la,
afirmando não poder viver sem ela.
Ficou
impressionada com a aparência de Hendrik,
magro e abatido.
Abraçaram-se,
beijaram-se. Ele confirmou que a amava, nunca
mais se separariam, precisavam viver juntos. Hendrik
tremia nos braços dela. Sentiu-se responsável
pelo menino assustado que chorava em seu ombro.
No
táxi, começou a inquietar-se. Por
mais que tivesse prevenido Hendrik de que morava
no subúrbio, num bairro feio, numa casa
modesta, temia que ele não pudesse imaginar
o que isso significava. Hendrik sempre vivera
na Europa, morava em Amsterdam, uma cidade linda,
certamente se chocaria com a brutal diferença
quando se visse no bairro da Penha. O que faria
com ele depois que chegassem? Apresentaria sua
família, alguns amigos, o levaria a passear
pelos lugares bonitos da cidade... Tudo parecia
tão estranho, tão inimaginável!...
Ele estava ali, com a cabeça recostada
em seu peito, ignorando completamente a suja e
feia Av. Brasil.
Aparentemente
Hendrik reagiu bem à simplicidade de sua
casa e a seus familiares. Instalou-o num quarto
recém-pintado, especialmente arrumado para
ele. Mãe, avó e irmã cobriam
o hóspede de gentilezas e atenções
que soavam excessivas, mas Liz sabia que só
queriam agradar. Perguntou se ele gostaria de
tomar banho, comer alguma coisa, mas Hendrik,
cansado, queria apenas dormir um pouco. Ia deixá-lo
à vontade no quarto, mas ele pediu que
ela dormisse a seu lado, tinha medo de acordar
e descobrir que aquilo não estava acontecendo.
A
pedido de Hendrik, alugou um carro. Luxo que a
incomodava, mesmo financiado por ele. Estranho,
na situação atual, dedicar-se a
passeios turísticos pelo Rio. Parecia despropósito
estar sem dinheiro, devendo a todo mundo, vivendo
novamente às custas dos pais, e agir como
se tivesse uma fonte de renda invisível.
Sentia como se fizesse algo errado. Saber que
o dinheiro usado naquela extravagância provinha
de Hendrik não atenuava a questão,
ao contrário, deixava-a cada vez mais intrigada.
Procurou pensar friamente: se Hendrik estava no
Rio, não fazia sentido ficarem confinados
na casa dos pais dela. Fazer com que ele conhecesse
razoavelmente bem a cidade talvez lhe permitisse
virar o jogo. E se em vez de ela voltar Hendrik
ficasse? Única forma de ter ao mesmo tempo
tudo o que mais desejava.
Decidiu
começar seu plano às avessas. Em
lugar de mostrar a Hendrik o melhor da capital,
foi com ele para a Região dos Lagos, onde
teriam maior privacidade.
Pensou
que ele aproveitaria a viagem de carro para
conversar sobre o futuro que teriam juntos,
mas Hendrik — parecendo satisfeito apenas
com a presença dela — não
tocou no assunto. Não querendo pressioná-lo,
deixou-o à vontade para encontrar o momento
oportuno.
Mostrou-lhe
o melhor das cidadezinhas litorâneas.
Hendrik ficou impressionado com a beleza de
tudo o que acabava de conhecer. A alegria dele
a deixava satisfeita.
No
último dia antes de voltarem ao Rio,
Hendrik finalmente conversou com Liz. Na praia,
ao pôr-do-sol, com voz hesitante, falou
que havia começado um tratamento para
se livrar da dependência do skunk. Por
causa disso tinha ficado dependente do cigarro
comum. Havia sido reprovado mais uma vez na
prova de inglês do curso para comissário,
perdera a bolsa de estudos e a possibilidade
do diploma. Apesar disso, queria começar
a trabalhar em qualquer coisa. Queria se casar
com ela, dividir o apartamento, as despesas,
ajudá-la a se estabelecer em Amsterdam,
queria que Liz o ajudasse a ser alguém
melhor, somente juntos seriam felizes.
Comovida
com a sinceridade dele, expôs suas questões
sem que elas parecessem condições
para aceitar o pedido de Hendrik. Amar era ceder
sempre em algum ponto, mas cada lado precisava
dar sua cota, partilhando conquistas e renúncias.
Hendrik foi tão compreensível
que Liz mal acreditou que a conversa que tentava
ter com ele há tempos realmente ocorrera,
e em tal harmonia. Mas não se iludia
de que a vida seria um sonho. Ciente dos problemas
que enfrentariam, sentia-se confiante e esperançosa
na resolução deles.
Voltaram
ao Rio. Decidida a retornar com Hendrik para
Amsterdam, alguma coisa lhe dizia que talvez
ainda pudesse fazê-lo ficar. De volta
à casa de subúrbio, começou
a notar um incômodo mal-disfarçado
em Hendrik. Ele não compreendia o que
diziam os familiares dela, mas não se
esforçava em nada para entender o português.
Para ficar no Brasil seria fundamental dominar
o idioma. Agora, depois de conhecer agradáveis
pousadas e hotéis, Hendrik parecia descontente
em passar parte do tempo no quarto sem graça
arrumado para ele. Se realmente ficasse, teriam
de morar algum tempo na casa dela. Quanto tempo
Hendrik suportaria viver ali? Mesmo que por
um curto período, ele jamais se habituaria
à vida simplista naquela casa, dividindo
espaço com a família dela.
Mostrou
a ele o melhor da cidade: paisagens, monumentos,
praias, parques, alguns restaurantes, boates...
Do alto do Corcovado — lugar que deixara
por último como que para dar uma panorâmica
de tudo o que haviam visto —, ouviu, surpresa,
Hendrik dizendo:
—
A sua cidade é tão bonita! Por
que não podemos ficar aqui? Eu ia gostar
muito...
—
Eu cheguei a pensar nisso — falou, sincera
—, mas não ia dar certo.
—
Por que você acha isso?
—
Eu não faço idéia de quanto
é preciso ganhar pra pagar o aluguel
de um apartamento razoável num bairro
interessante. Não sei quanto tempo eu
vou levar pra arranjar um trabalho fixo. E depois,
não consigo imaginar que emprego você
poderia ter. Nunca ia dar certo. É melhor
a gente voltar pra Amsterdam.
|
|
Foi
com surpresa que atendi o telefonema de Liz combinando
o dia do almoço ao qual a convidara fazia
duas semanas. Pensei que tivesse ficado aborrecida
comigo em nosso último encontro, mas ela
parecia tranqüila ao telefone. Marcamos hora
e local. Um fundo de ansiedade germinava em mim.
Queria vê-lo?, saber o que tinham decidido?,
olhá-los pela última vez?
Cheguei
atrasado em frente ao restaurante. Nem sinal dos
dois. Por causa da reunião com um cliente,
ainda vestia o blazer que me dava um ar formal
que eu gostaria de ter evitado. Se tivesse adivinhado
que também se atrasariam teria passado
na agência para me livrar da vestimenta.
Esperava
há meia hora, um atraso e tanto. Deviam
ter mudado de idéia. Quando me preparava
para entrar, os vi dobrando a esquina. Liz, num
de seus antigos vestidos curtos, corada, alegre,
de mãos dadas com Hendrik, mais magro,
pele avermelhada pelo excesso de sol, camisa de
manga comprida sobre uma camiseta, calça
estampada. Ela estava contente. Ria, passava a
mão no rosto dele, beijava-o... Os dois
nunca me pareceram tão próximos.
Cumprimentei
Liz com beijos, Hendrik com aperto de mão.
Seu rosto, olhar e sorriso estavam diferentes
do que eu me lembrava. As roupas meio amarrotadas
lhe davam ar de desleixo. A pele do rosto, antes
sempre tão bem cuidada, apresentava cravos
e espinhas no queixo e próximo à
boca. Os cabelos fora de corte estavam ressecados
pelo sol e água do mar... beleza significativamente
comprometida. Liz elogiou meu blazer, disse que
eu estava elegante, lamentava que estivessem com
trajes tão informais. Falei que aquela
era uma ocasião especial para mim. Meio
sem graça, ela disse que não estavam
com fome, tinham tomado café da manhã
tarde, não queriam mais almoçar.
Sugeri que comessem pouco, para aproveitarmos
o encontro. Liz traduziu para Hendrik minha sugestão.
Entramos no restaurante.
Não
era um lugar sofisticado. Embora tivesse um espaço
no térreo com menu à la carte, levei-os
ao segundo piso, onde serviam refeições
a quilo. Naquela semana acontecia um festival
com pratos nordestinos. Comentei que seria uma
boa oportunidade para Hendrik experimentar comida
exótica. Por comer pouco, servi meu prato
rapidamente. Depois de pesá-lo, avisei
a Liz que estaria no jirau, onde havia mesas em
maior número. Ela assentiu com a cabeça
enquanto traduzia a Hendrik de que ingredientes
eram feitas as comidas. Precisei esperar alguns
minutos até que chegassem, trazendo pratos
repletos de iguarias nordestinas.
—
Pra quem não estava com fome até
que vocês foram bem generosos — brinquei.
—
É que os pratos são tão grandes!...
— falou Liz, se desculpando pelos dois.
Eu
tinha curiosidade em saber o que Hendrik estava
achando da nossa cidade, mas eles pareciam tão
concentrados em comer que preferi esperar. Embora
comesse com vagar, terminei antes dos dois. Hendrik
dizia estar gostando do feijão preto, da
carne-seca, da abóbora, da farofa, do aipim...
Liz demonstrava alegria com o contentamento dele.
Um belo casal.
—
Eu decidi voltar com ele. Vamos casar, e ser muito
felizes — disse ela, olhando Hendrik.
—
Eu até já comprei uma cama de casal
nova! — falou, orgulhoso. — Talvez
a gente se mude pra um apartamento maior, num
bairro melhor. Quero ter muitos filhos.
Não
foi preciso que Liz me traduzisse o que seu futuro
marido havia dito.
—
E Plexus e Nexus, ficaram sozinhos? — perguntei
por perguntar.
—
O vizinho ficou tomando conta deles — ela
apressou-se em responder.
Quando
terminaram de comer, apanhei as comandas dos dois,
juntando-as a minha. Liz protestou, mas eu disse
que o convite havia partido de mim, nada mais
justo que eu pagasse o almoço deles. Na
rua, perguntei se tinham alguns minutos para fazermos
um passeio pelo centro da cidade. Liz indagou
se isso não me atrapalharia no trabalho.
Respondi que não.
Enquanto
caminhávamos, Hendrik olhava os prédios
altos. Com um pouco de vergonha, perguntei se
ele estava achando o Rio uma cidade muito suja.
Respondeu que isso não era importante,
todas as cidades, mesmo Amsterdam, tinham partes
não muito limpas.
Levei-os
a uma loja na Av. Rio Branco. O local amplo, mas
meio poeirento e decadente, reunia um pouco do
artesanato característico de algumas regiões
do Brasil. Voltada para turistas, a casa tinha
peças para todos os gostos e bolsos. Num
expositor, mostrei aos dois colares indígenas
feitos com sementes, como os que eu e Liz havíamos
comprado na Bahia. Achei que talvez se interessassem
em comprar algo para decorar o apartamento que
dividiriam em Amsterdam, mas nada parecia seduzi-los.
Estava afastado deles, olhando postais, quando
notei Hendrik agitado. De repente, ele começou
a tremer. Liz o ajudou a acender o cigarro, que
começou a fumar com avidez. Fingi não
tomar conhecimento do que acabava de presenciar.
Ela
disse que precisavam ir, ainda tinham que passar
numa agência de viagens. Depois, visitariam
Daniel e Sílvia. Hendrik já não
estava mais trêmulo, o cigarro devia tê-lo
acalmado. Na calçada, me despedi de Liz
com dois beijos. Quando ia apertar a mão
de Hendrik, ele, antecipando-se, deu-me também
dois beijos no rosto. Surpreso, corei. Liz sorriu.
Ele devia achar que beijos eram forma comum de
cumprimento no Brasil.
Fiquei
com boa impressão do desfecho ao qual parecia
se encaminhar aquela história. Liz estava
satisfeita com Hendrik. Deviam ter acertado as
diferenças, começariam a ter a vida
que sempre desejaram. Todos seriam felizes dentro
de finais felizes. Estava contente por saber que
depois de tudo Liz havia conseguido se encontrar.
|
|
Tinham
deixado o carro no edifício-garagem. A
caminho do prédio, Liz observava a cidade
como se fosse a última vez. Olhou para
Hendrik. Deslocado, ele parecia um alienígena
visitando um planeta ao qual dificilmente se adaptaria.
Ao entrarem no carro, ela comentou:
—
O Leon está ótimo, não? Um
bom apartamento, um bom emprego... Estou feliz
por ele.
—
Por que você não fica, então?
— falou Hendrik, irritado. — Fica
com ele!
—
O quê?! — indagou, perplexa.
—
É isso mesmo. Fica com o seu amigo! Vocês
podem se casar. Ele tem um bom apartamento, trabalha
num lugar legal, usa roupas bonitas, não
tem problemas...
Simplesmente
não acreditava no que ouvia. Ciúme
ou inveja de Leon? Tinham passado uma semana tão
harmoniosa que até esquecera das inseguranças
de Hendrik.
—
Eu não amo o Leon, amo você —
falou, procurando manter a calma. — É
com você que eu quero me casar, dividir
apartamento, viver as nossas alegrias e conquistas,
ajudar a enfrentar e resolver problemas.
—
Eu acho que você devia ficar — insistiu.
— Vi o jeito que vocês se olhavam,
o jeito como ele foi educado e gentil o tempo
todo, mesmo comigo... Por que não fica
com ele de uma vez e me esquece pra sempre?
—
Hendrik, pára de ter inveja e ciúme
dos outros! — explodiu. — Eu já
não disse que te amo? Não aceitei
nos casarmos, voltarmos juntos? O que mais você
quer de mim? — gritou.
Daniel
abriu a porta. Sílvia, atrás dele,
trazia a filha no colo. Sorrisos, beijos e abraços.
Liz tentava disfarçar seu incômodo
pelo recente desentendimento com Hendrik, e
procurava não se exceder nas demonstrações
de afeto com Daniel. Hendrik pareceu mais interessado
no brilho do sinteco do piso da sala do que
em conhecer os amigos de Liz. Olhar fixo no
assoalho, ele dizia nunca ter visto nada tão
brilhante na vida. Sentaram para conversar.
Hendrik mantinha-se alheio, observando objetos
e móveis no apartamento de Daniel como
se descobrisse um mundo novo. Tentando parecer
alegre, Liz informou ao casal os novos planos.
Daniel se disse contente e triste ao mesmo tempo,
como quando ela havia anunciado sua partida
com Leon para a Europa.
—
Parece que estamos repetindo a mesma cena —
disse. — Só que agora é
definitivo.
—
Não pensa assim. A gente vai manter contato
— falou Liz. — Todo mundo, de um
modo ou de outro, acabou se arranjando, você
não acha que eu também tenho esse
direito?
—
É claro, não foi isso o que eu
quis dizer. Mas é uma pena que vocês
tenham que voltar.
Hendrik
quis saber do que falavam, Liz traduziu os sentimentos
de Sílvia e Daniel. Perguntou se não
podiam falar em inglês para ele também
participar. A conversa prosseguiu no outro idioma.
Daniel indagou se Liz voltaria ao mesmo emprego
que tinha antes. Hendrik dizia que o cargo dela
na Beamy estava garantido, mas ela não
sabia se queria retornar àquele trabalho.
Por outro lado, não conseguia imaginar
ainda que outro tipo de ocupação
poderia ter. Pretendia estudar holandês
para conseguir empregos melhores.
Hendrik
não prestava a menor atenção
à conversa. Detinha-se brincando com
a filha de Daniel, que parecia gostar dele.
Brincava com a menina no sinteco reluzente,
vez por outra olhando para Liz, dando a entender
que gostaria de ter uma linda bonequinha como
aquela para brincar também. Ele quis
saber onde era o banheiro, Sílvia indicou
a porta no corredor.
—
O que houve? — indagou Daniel, quando
Hendrik se retirou. — Você está
tão esquisita!
—
Tivemos uma discussão daquelas ainda
agora — confessou.
—
Mas por quê? Eu achei que vocês
tivessem se entendido.
—
Foi por causa do Leon. O Hendrik tem um ciúme
dele que eu não consigo entender. Ele
fica cego, diz um monte de bobagens, acha que
não o amo... Nessas horas eu tenho vontade
que ele suma da minha frente pra sempre.
—
Então é melhor pensar muito bem.
Acha mesmo que é uma boa idéia
você voltar com ele?
—
Agora não sei mais. Pensei que o Hendrik
tivesse entendido de uma vez por todas que é
com ele que eu quero viver, mas ele sempre arranja
motivo pra discutir, mesmo quando não
existe nenhum. Isso me cansa.
—
Por que vocês não ficam mais um
tempo aqui pra terem certeza do que vão
fazer? — indagou Sílvia.
—
Ele não pode. Além de já
ter confirmado a data de retorno, não
tem mais dinheiro. E depois, os gatos ficaram
com o Derek... eu não confio nada naquele
maníaco cretino.
—
Você odeia mesmo o tal vizinho, não?
— comentou Sílvia.
—
E não é pra odiar? Aquele desgraçado
me espancou na rua como se eu fosse uma... —
interrompeu-se, achando que havia falado demais.
—
Ei!, que história é essa? —
perguntou Daniel. — Você nunca me
falou sobre isso.
Hendrik,
que voltava do banheiro, vendo-os conversando
em português, franziu a testa:
—
Vocês podiam falar em inglês? —
pediu.
Daniel,
ignorando o pedido dele, insistiu com Liz:
—
Por que o tal do Derek te bateu?
—
Derek? O que tem ele? — indagou Hendrik,
ouvindo o nome do amigo.
—
Daniel, eu não vou falar sobre isso agora
— disse Liz, levantando de repente. —
Nós temos que ir, já está
ficando tarde.
—
O quê? Você vai sair sem me explicar
nada? Eu não vou te deixar ir assim.
Temos que conversar.
—
Daniel, por favor, não podemos falar
agora, eu já tive confusões demais
por hoje.
—
Vocês querem me explicar o que está
acontecendo? — gritou Hendrik.
—
Não grita na minha casa, seu mal-educado!
— falou Daniel, num inglês indignado.
Sílvia
levou a filha, que chorava, para o quarto, pedindo
que se acalmassem.
Envergonhada
com o comportamento de Hendrik, que tremia de
nervoso, decepcionada com Daniel, antes sempre
tão pacífico, Liz se encaminhou
para porta de saída:
—
Eu não queria que nada disso acontecesse.
Foi um erro ter vindo aqui.
—
Erro vai ser voltar pra Amsterdam com esse cara.
Ele não liga a mínima pra você!
—
E quem é você pra me falar assim!
Eu também tenho direito de ser feliz.
Ninguém pode me impedir de viver a minha
vida. Você é um egoísta,
só pensa na sua própria satisfação.
—
Liz, eu sou seu amigo, só quero te ajudar.
—
Eu não preciso desse tipo de ajuda —
retrucou, saindo corredor afora.
|
|
Nos
últimos dois dias havia procurado algo
interessante que servisse como presente de casamento
para Liz e Hendrik. Seria um modo simpático
de me despedir deles. Queria oferecer algo único
e útil que me representasse, que os fizesse
lembrar de mim.
Depois
de procurar em quase todas as livrarias da cidade,
acabei encontrando uma obra de tiragem limitada
que se enquadrava exatamente no perfil do que
eu buscava. Paguei caro pelo grande livro, escrito
em português e holandês, contando
a história das invasões holandesas
no Brasil. Ilustrado com reproduções
de mapas e pinturas antigas, o livro era feito
para duas pessoas de nacionalidades diferentes
o lerem a um só tempo. Liz adoraria o presente.
Poderia ler com Hendrik, conversar a respeito
de algo que conheceriam em suas línguas
natais. Ninguém lhes daria presente mais
original.
Telefonei
para ela dizendo que gostaria de encontrá-la
antes que fossem embora.
—
Eu sei que você está viajando amanhã,
sei também que detesta despedidas —
falei —, mas será que eu não
posso dar uma passada na sua casa hoje, no fim
do dia?
—
Não sei, Leon... — respondeu, reticente.
— É tão importante assim?
—
Eu queria entregar o meu presente de casamento
pra vocês! — disse, entusiasmado.
—
Presente? Mas eu não pedi nenhum presente.
Você não devia ter gasto dinheiro
comigo.
Seu
tom de voz meio indignado, soou-me estranho. Eu
parecia ter feito algo errado.
—
Eu sei que você não me pediu um presente,
mas isso não significa que eu não
possa te dar um se tenho vontade. Posso passar
aí no fim do dia, então?
Liz
ficou muda por um instante.
—
Leon, eu sou muito grata a você por ter
me ajudado quando precisei, por ter me emprestado
dinheiro, sei que ainda estou te devendo, e pretendo
pagar o mais breve possível, mas... eu
gostaria que você não viesse aqui
hoje. Me desculpa.
Fiquei
sem entender o que ela dizia com voz triste. Parecia
falar contra a vontade. Em todo caso, foi séria
o bastante para que eu desistisse da idéia.
Estava tão abismado que calei.
—
Eu achei que a gente fosse se falar cada vez menos...
— tornou ela. — Ai, não sei
mais o que dizer...
—
Não precisa falar mais nada. Você
já disse tudo o que precisava: que eu te
incomodo. E o que eu menos quero na vida é
incomodar quem quer que seja — falei, sério.
— Espero que vocês façam uma
boa viagem e sejam muito felizes. Adeus.
Raiva,
tristeza, incredulidade me dominavam. Sem nenhuma
razão plausível, Liz rejeitara meu
presente, pior, minha presença. Sentia-me
ofendido. De forma seca e fria, ela havia anulado
nossa amizade como quem extirpa um membro gangrenado.
O que eu tinha feito para provocar uma postura
tão drástica? Certamente algo grave.
|
|
Lançou
um último olhar para trás ao entrar
no setor de embarque. Ninguém para se despedir.
Melhor assim, odiava despedidas. Ainda na casa
dos pais, abraçara-os como se fosse voltar
logo. Fizera aquilo apenas para minimizar o sofrimento
deles. Quando havia chegado sem nada, devia ter
lhes dado impressão de que nunca mais faria
uma besteira daquelas. Dois meses depois abandonava-os
outra vez. Não lhes dera tempo de ficar
alegres, tampouco tristes.
Ninguém
a acenar para ela. Nem Daniel, nem Sílvia,
nem Helena, nem Leon... Se não tinha mais
amigos, não havia do que sentir falta ou
saudade. Hendrik estava a seu lado, precisavam
olhar e seguir em frente, para o futuro que teriam,
que nada mais poderia atrapalhar.
Desembarcaram
numa Amsterdam primaveril, mas ainda fria.
Esperou
em frente ao prédio enquanto Hendrik
apanhava a chave do apartamento no edifício
ao lado. Sentiu um leve mau cheiro, que veio
junto com uma lufada de ar frio.
Hendrik
voltou correndo. Sem explicar o que tinha ocorrido,
abriu depressa a porta e subiu correndo o lance
de escada. Sem entender o que estava acontecendo,
ela o seguiu. Dentro do prédio o cheiro
desagradável era mais forte. Quando entraram
na sala depararam com os cadáveres de
Plexus e Nexus, em decomposição.
Dos corpos apodrecidos brotavam vermes que se
espalhavam pelo chão. O odor concentrado
no ambiente era irrespirável. Hendrik
gritava de horror. Liz tentava acalmá-lo.
Ele chorava, dizendo-se culpado, nunca se perdoaria.
—
O seu amigo não tinha concordado em cuidar
dos gatos? — perguntou ela.
—
Ele teve uma overdose... ficou no hospital uma
semana... ainda está de cama...
Desculpa
aceitável ou mais um de seus planos?
Derek era perverso, desumano. Não era
difícil acreditar que ele tivesse deixado
os gatos morrerem de fome só para se
vingar de Hendrik, e dela também. Guardou
suas suspeitas para si mesma. “Overdose...
se ao menos aquele desgraçado tivesse
morrido...”
Teve
que limpar tudo sozinha, Hendrik não
conseguia se aproximar dos cadáveres.
Além dos despojos, havia na sala, na
cozinha, no banheiro e até no quarto
fezes e urina. Por mais que tivesse se esforçado
na limpeza, não conseguiu fazer com que
o cheiro da podridão e dejetos desaparecesse
por completo.
Terrivelmente
abalado, Hendrik caiu doente. Ele transpirava
excessivamente, exalava cheiro ruim, não
conseguia levantar da cama, não tinha
apetite. Ela achou que deveriam ir a um hospital,
mas Hendrik se recusava terminantemente, dizendo
que logo estaria bom, aquilo já ocorrera
outras vezes. “Ele está doente...”,
pensou. “Que doença? Seria aquela
que teima não acreditar que tem? Vi os
exames... será que também estou
doente? Tenho medo de fazer outro teste agora.”
Aos
poucos, Hendrik começou a melhorar. Foi
com estranheza que o viu levantar um dia como
se nunca tivesse adoecido. Fosse qual fosse
a doença ele sempre se recuperava. Talvez,
tudo não tivesse passado de uma crise
depressiva por causa da morte dos gatos.
Começaram
a pôr em prática os planos de futuro.
Havia perdido o emprego na Beamy, sem o lamentar.
Ciente de que sem estar registrada num endereço
não poderia inscrever-se nas agências
de emprego, achou por bem fornecer o endereço
de Hendrik como seu também. Elaborou
um currículo para Hendrik a fim de que
ele arranjasse trabalho. Dominando holandês,
ele teria mais chances do que ela. Queriam casar-se
o quanto antes, mas, desempregados, acharam
melhor dar entrada nos papéis depois
que pelo menos um estivesse trabalhando.
Não
estava plenamente satisfeita com a nova vida,
mas sentia-se estimulada a prosseguir. Alguns
processos eram longos e lentos, gostava de pensar
que tudo o que passava era parte de um grande
aprendizado. A vida com Hendrik ainda tinha
muito que evoluir, mas os progressos eram significativos.
Ele continuava seguindo o tratamento para livrar-se
do vício, não se mostrava mais
tão debilitado quando as crises, cada
vez mais raras, o acometiam. Estavam se dedicando
ao estudo dos idiomas: ela, do holandês;
ele, do inglês. Gostavam de trocar idéias,
de se ajudarem nessa tarefa. Hendrik era bastante
atencioso, às vezes suas demonstrações
de carinho chegavam a comovê-la. Sem cessar,
ele repetia que queria filhos, seria um bom
pai. Liz achava cedo ainda para pensarem no
assunto, principalmente por causa da situação
financeira instável. O desejo de Hendrik
repercutia de forma considerável no relacionamento
sexual dos dois. As noites passaram a ser de
total comunhão na cama.
—
Amo você, sabia? — sussurrou ele.
—
Eu já imaginava — respondeu ela,
estreitando seu corpo nu contra o dele.
As
estrelas brilhavam no céu azul-noite,
a luz da lua atravessava a vidraça inundando
o quarto em que se amavam. Fechou os olhos,
sentindo o peso de Hendrik. A lua, as estrelas,
o céu, tudo estava em sua mente. Hendrik
lhe dava prazer, ela era o prazer dele. O sexo
estava bastante próximo do jeito que
sempre tinha desejado. Ele queria ser pai...
fazia aquilo por amor. Não havia mais
necessidade de drogas que distorcessem a verdade,
nem para ele, nem para ela. Sem fantasmas, monstros
ou alucinações... amor apenas.
Hendrik
deitou de costas, puxando-a para cima de seu
corpo. A posição não a
agradava, mas estava tão satisfeita que
seguia as vontades dele, como se também
fossem suas. A repentina escuridão do
quarto a fez abrir os olhos. Uma nuvem encobria
a lua no céu. Tornou a fechar os olhos,
voltando a se entregar ao amor.
Num
susto, sentiu seu corpo bruscamente arrancado
de cima de Hendrik e empurrado contra a parede.
Zonza, ouvia ruídos estranhos na cama,
gemidos abafados. Procurou o interruptor, acendeu
a luz. Gritou, horrorizada. Derek mantinha um
travesseiro no rosto de Hendrik, com a outra
mão golpeava violentamente o peito dele
com uma faca. Sangue por toda a cama. No lugar
do coração de Hendrik, um buraco
de onde aflorava o líquido escuro e grosso.
Ao se dar conta de que esfaqueava a vítima
errada, Derek também gritou. Agarrou-se
ao corpo ensangüentado de Hendrik chorando,
pedindo desculpas. Tarde demais. Com olhos vidrados,
conservando uma expressão de incredulidade
e surpresa, Hendrik era um fardo inerte, vestido
apenas com o próprio sangue. Petrificada,
de pé, ao lado da cama na qual a cena
assustadora havia ocorrido, Liz não queria
acreditar, não podia aceitar, não
conseguia entender. Como Derek tinha entrado?
A chave... devia ter feito uma cópia...
devia estar espionando da janela do seu quarto...
Derek precipitou-se para Liz, a faca em punho,
xingando-a ameaçadoramente. Afoito, se
enroscou no lençol e caiu, batendo a
cabeça na quina de uma cadeira. Trêmula,
pálida, nua, sentia no peito uma dor
intensa, como se ela mesma tivesse sido golpeada
por Derek em lugar de Hendrik. Na cama, abraçou
o corpo do amante, achando que ele ainda estivesse
vivo. Estava quente, molhado de vermelho, mas
sem vida. Para onde ele teria ido? Por que a
tinha abandonado daquele jeito estúpido,
logo quando começavam a se entender tão
bem? As lágrimas rolavam ao ninar o cadáver
em seus braços. Derek começou
a gemer, acordando do desmaio. Levantou e, mesmo
cambaleante, partiu para cima de Liz. Agarrou
o pescoço dela, derrubou-a no chão,
tentando sufocá-la, agia como louco.
Ela se debatia, querendo livrar-se de Derek,
mas ele parecia ter força sobre-humana.
Seus braços e pernas moviam-se em vão
sob o peso do estrangulador enlouquecido. Estava
sendo assassinada. Sua mão esbarrou em
algo no chão, uma faca, a faca que tinha
matado Hendrik. Apanhou o punhal e, com a força
que lhe restava, cravou-o nas costas de Derek,
que tombou para o lado urrando de dor. Ainda
tonta, arrancou a faca das costas dele, virou-o
para cima e começou a golpeá-lo
histérica e furiosamente. Quando parou,
havia uma brecha no peito de Derek. Hendrik
vingado. Com dificuldade, se levantou. O quarto
era um matadouro. Nunca tinha visto tanto sangue.
O que fazer? Fugir? Chamar a polícia?
Para quê? Hendrik estava morto, tudo terminara.
Sem casamento, sem trabalho, sem família,
sem amor, sem futuro... nada havia lhe restado.
Abandonara tudo por Hendrik, ele não
mais existia, ela não era mais nada...
Como nunca havia pensado nessa hipótese?
Fugir, correr, se esconder, gritar, chorar...
todos os gestos lhe pareceram completamente
inúteis. Não queria continuar
presenciando a morte com tanta intensidade,
corpos em meio ao sangue. Apanhou o sobretudo,
cobriu sua nudez suja de vermelho-morte, deixou
o apartamento na madrugada fria.
Andou
a esmo. Perambulava num transe que a movia cegamente.
Dor. Única sensação. Tudo
acabado. Não havia mais futuro. Não
tinha mais para onde ir, nada a fazer, coisa
alguma a esperar. O mundo era um lugar injusto
para as pessoas que seguiam suas vidas segundo
seus desejos, um lugar traiçoeiro e cruel,
onde tudo podia ruir quando menos se esperava.
A
lua havia desaparecido, as estrelas perdiam
o brilho. Um novo dia logo nasceria. Não
para Hendrik. Nunca mais para ele. Por quê?
Era tão jovem, tão cheio de esperanças
e sonhos, tanta coisa ainda por viver!... de
repente, privado de tudo para sempre. Por que
essas coisas absurdas aconteciam? E ela? Por
que ela? Tinha lutado tanto para conseguir o
que sempre desejara!... Por que não merecia
ser feliz? Que maldita lei era aquela que a
perseguira por toda a vida? Lei estranha, que
havia triunfado.
Vivera
quase toda a existência pensando no futuro.
Desprezara o passado, atropelara o presente,
servindo-se dele apenas como trampolim para
o tempo em que finalmente seria feliz. Agora
sabia onde findava aquele salto: num abismo.
Debruçou-se
no guarda-corpo, observando as águas
escuras do canal. Seu reflexo serpenteava na
superfície líquida iluminada pela
luz do poste. “No fim das contas, todos
morrem... uns antes, outros depois... impossível
escapar... também vou morrer um dia...
Quando? Que diferença faz? Já
me sinto sem vida, sem nada... Voltar ao Brasil,
recomeçar do zero... Quantas vezes? Quantas
vezes mais? Não, eu não suportaria...
família, amigos... tarde demais pra eles
também... não tenho mais direito
de importunar ninguém... Queria sumir
agora, nesse instante... Talvez esteja contaminada
com alguma doença terminal... isso me
traria uma morte lenta... uma morte lenta me
daria tempo de pensar... pensar na vida... Não,
seria uma agonia, uma tortura... Preciso ter
coragem... sempre fui tão covarde!...”
Enquanto
subia na grade, lembrou de uma gravura que fizera
na faculdade: dois malabaristas fantasiados
de palhaço tentando atravessar uma corda
bamba. Ao equilibrar-se na grade sentiu-se como
um deles. Agarrada à coluna que sustentava
o guarda-corpo, hesitou. Lá em baixo,
no fundo do canal escuro, no fundo do fundo
estava a salvação. Não
tinha escolha. Todos os problemas que criara
para si, e também aos outros, se apresentaram
diante dela como testemunhas. Oportunidade de
resolver tudo de uma vez por todas. Águas
sujas, cheias de detritos da cidade, podridão
asfixiante... bálsamo de libertação...
Atingiu
o canal como uma grande pedra, afundando sem
resistência. Seu último ato de
coragem.
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