Na tarde de um sábado perdido em busca de um imóvel, estava prostrado na cama quando o telefone tocou. Alcancei o aparelho com um gesto forçado.
           — Leon, sou eu, a Liz... Tudo bem?... — disse, com voz tímida.
           — Liz!?!, mas de onde você está falando? — perguntei, surpreso.
           — Estou em casa. Cheguei hoje. Você é o primeiro pra quem eu estou ligando.
           — Que surpresa! — falei, sem encontrar algo melhor para dizer.
           Pelo tom de seus últimos e-mails imaginava que ela não estivesse muito satisfeita. Havia mencionado ligeiramente alguns descontentamentos, a indecisão entre ficar ou voltar, mas, como sempre terminava as mensagens de forma positiva, achei que acabaria se acostumando.
           — Leon, meu amigo, não sei o que eu estou fazendo aqui — prosseguiu, chorosa.
           — Está de volta, junto das pessoas que gostam de você.
           — Eu não podia ter voltado desse jeito... eu deixei tudo pra trás, larguei o Hendrik, no dia do aniversário dele, vim sem nada. Eu devo ser mesmo maluca, só agora vejo a besteira que fiz...
           Eu não sabia o que dizer. Liz falava como se eu soubesse de tudo o que lhe acontecera nos últimos tempos.
           — Você quer que eu vá até aí, pra gente conversar melhor? — perguntei.
           — Não, por favor, hoje não — disse ela, rapidamente. — A gente combina um outro dia.
           Não insisti. Até senti alívio com a recusa. Seu retorno repentino ainda não tinha me dado tempo para pensar na situação. Não sabia como seria nosso reencontro depois de tudo. Ainda éramos amigos? Eu não estava disposto a ouvir seus queixumes. Já os conhecia muito bem.
           — Você precisa descansar, Liz — falei, para tranqüilizá-la. — No começo, quando a gente volta, nada faz sentido, tudo só nos aborrece. Com o tempo as coisas melhoram, você vai ver.
           — Eu queria tanto que você tivesse razão!... Depois que você veio embora as coisas só pioraram pra mim, tudo deu errado. Estou tão triste e frustrada...
           — Sei bem como é isso, mas não adianta eu te dizer que tudo vai passar. Se acalma, descansa um pouco, e depois liga pro Daniel. Ele vai ficar muito contente em saber que você voltou.
           — A gente se fala outro dia, então...
           — Eu vou ficar esperando você me ligar.

           Mais essa agora. Eu ainda sabia ser amigo de Liz? Nosso afastamento forçado, nossas desavenças posteriores haviam feito com que perdêssemos a intimidade — e eu já não sabia se queria recuperá-la. Por que ela havia retornado? Eu não tinha endireitado ainda a minha vida e Liz já estava de volta. Achei que ela ficaria por lá, eu me arranjaria aqui. Parecíamos voltar a um velho ponto de partida. Temia que com seu retorno eu não tivesse mais tempo para cuidar de mim mesmo. Teria de colocar minha amizade à disposição dela, ajudá-la a se reerguer, a reintegrar-se...

           Sentia-se estranha numa casa estranha, cercada de estranhos. Ninguém perguntara nada, cobrara coisa alguma. A postura atípica de sua família havia feito com que não tivesse chance de se explicar, esclarecer os fatos, desabafar seu sofrimento. Sentia vergonha, estava magra, feia. Sabia que a mãe havia tido um choque ao ver seu aspecto lastimável, embora a tratasse como se nenhuma mudança houvesse ocorrido. Isso era o pior de tudo. Teria preferido que falassem, que se mostrassem horrorizados e a criticassem. Apesar do tratamento, sentia como se tivesse feito uma imensa besteira viajando, desperdiçando dinheiro, contraindo dívidas, estragando a saúde... Não existia mais Hendrik para amar, estava sozinha naquele espaço irreconhecível. Tinham modificado a arrumação dos cômodos, pintado paredes, trocado móveis... Parecia acordar de um pesadelo dentro de outro pesadelo. Quando aquilo teria fim?
           Queria contar o que passara nos últimos meses, livrar-se da pesada carga. Ao mesmo tempo, não queria que soubessem os horrores que havia vivido. Talvez nem mesmo acreditassem nela. Não estava se sentindo bem para encontros. Abatida, maltratada não queria ver ninguém, não queria que a vissem. Desejava apenas que o tempo passasse depressa.

           Hendrik não demorou a ligar insistentemente para a casa dela. A princípio, Liz se recusou a atendê-lo, mas Hendrik foi tão persistente que ela resolveu falar com ele para poupar sua família do transtorno. Nervoso, ele ainda tentava entender o que havia acontecido:
           — Por que você foi embora desse jeito? O que foi que eu fiz? Por favor, volta pra mim, Liz. Eu preciso de você, sinto a sua falta. Tenho medo de ficar sozinho. O apartamento está tão triste agora!... Eu não consigo comer, dormir, estudar... Volta, eu te amo. Por que você me deixou?
           A voz e as palavras angustiadas de Hendrik esmagavam seu coração.
           — E o Derek? — lembrou ela. — Eu vi vocês dois...
           — O que tem o Derek? Ele é meu amigo — disse, como se não soubesse do que Liz falava.
           — Seu miserável! Cretino! — explodiu. — Eu vi muito bem a amizade de vocês dois na nossa cama. Lembra disso?
           — Mas do que você está falando!? Ficou maluca? Isso nunca aconteceu.
           — Como não!? Eu mesma vi, ninguém me contou. Na véspera do seu aniversário, vocês transaram no nosso quarto!
           — Você não está falando sério. Isso não pode ter acontecido...
           — Eu não ia brincar com uma coisa dessas, Hendrik.
           — Mas eu não tive culpa! Eu nem sabia disso!... Naquela noite eu tinha fumado e bebido um pouco a mais com o Derek. Fiquei tonto, e pedi que ele me ajudasse a voltar. É tudo o que eu me lembro. No dia seguinte, acordei sozinho, fui atender a porta, recebi o seu telegrama...
           Uma excelente desculpa ou a verdade? O que Hendrik dizia tão espontâneo não parecia uma mentira calculada. Teria Derek mais uma vez aprontado uma armadilha?
           — Liz, por favor, me perdoa — prosseguiu. — Se aconteceu mesmo isso que você disse, a culpa foi do Derek.
           Queria tanto acreditar no que ele dizia!... Tudo parecia fazer muito sentido. Por que se precipitara? Se Derek a houvesse enganado jamais se perdoaria.
           — Eu telefonei pro seu trabalho dizendo que você tinha viajado por causa da morte do seu pai. Eles me disseram que o seu emprego está garantido.
           — Mas ainda que eu voltasse e comprovasse essa mentira, eles iam insistir no tal endereço que eu não posso dar!
           — Eu me caso com você, Liz. Por favor, volta, eu te amo. A gente se casa, você vai ser a minha mulher, com direito a morar no nosso apartamento, vai ter o endereço que eles querem, vamos ser felizes, muito felizes. Por favor, me perdoa. Vamos começar novamente, de um jeito diferente. Você é o meu futuro, o meu sonho!...
           Cada palavra, cada frase, cada súplica de Hendrik a torturava. Por que ele só havia dito o que ela sempre quisera ouvir quando estavam distantes? A culpa também havia sido dela, não tinha lhe dado chance de falar, de se defender.
           — Liz, você ainda está aí? Por que não diz nada? Você não me ama?
           — Eu preciso pensar. Se bem que não tenho mais dinheiro pra voltar, e isso resolve tudo.
           — Se você ainda me ama tem que voltar. É horrível ficar aqui sozinho sabendo que você está feliz, aí com os seus amigos, a sua família... Você me deixou sem nada.
           — Só quando tudo parece perdido você promete se regenerar, acertar as coisas. Estou cansada das suas promessas, Hendrik.
           — O que você quer que eu faça? Pode pedir, eu juro que faço o que você quiser.
           — Não se trata de dizer o que eu quero como condições pra uma relação saudável, e sim que você mesmo tenha consciência do que é importante pra mim, do que é ruim pra você.
           — Eu paro de fumar, de ver o Derek, eu vou arranjar um emprego. Eu quero me casar com você. Não me deixa sozinho.
           — Eu vou desligar. Já falamos muito, a ligação vai ficar cara, e eu não quero que você gaste dinheiro por minha causa. É melhor a gente se consertar primeiro pra depois saber o que fazer.

           A solidão era o maior temor de Hendrik. Desde que havia entrado na vida dele, Liz parecia ter preenchido um espaço que ninguém mais seria capaz de ocupar. Talvez por que em parte ela personificasse ao mesmo tempo a figura materna, praticamente ausente na vida dele, e a imagem de mulher, amante, companheira com quem podia ter prazer. Liz queria um homem, um amor, um companheiro... Casamento. Queria um casamento? Não ligava a mínima para isso, tanto que se dispusera a casar com Leon só para ajudá-lo. Agora Hendrik lhe propunha algo parecido. Estava sempre tendo oportunidade de experimentar os dois lados da mesma questão. Por que em vez de se achar privilegiada sentia-se em desvantagem nessas ocasiões?

           Quando ligou para Daniel, passaram horas conversando. Explicou a ele os últimos acontecimentos antes de sua volta, o que se passara desde que tinha chegado. Evitando dar conselhos, Daniel dizia que o assunto era muito complexo, envolvia interesses diferentes. Insistia em que se encontrassem, senão no apartamento dele, na casa de Liz. Ainda debilitada demais para um confronto, adiava a reunião esperando um momento mais oportuno.

           Hendrik tornou a telefonar. Tinha comprado uma cama de casal nova, maior do que a anterior. Havia se informado sobre o casamento, sendo Liz cidadã portuguesa a união era simples. O emprego na Beamy estava assegurado. Não tinha mais fumado skunk, nem voltado a procurar Derek, queria muito que ela acreditasse nisso. Estava estudando bastante para terminar o curso e conseguir bom emprego. Queria saber quando Liz voltaria.
           Não sabia o que dizer. Hendrik agia como se o retorno dela fosse questão de data. “Se ao menos ele pudesse estar aqui...”, pensou. Sentia-se arrependida pela precipitação, por ter caído facilmente na armadilha de Derek. Por que precisava passar por aquilo? Por que as coisas nunca davam certo para ela? Por que sempre que tentava agir de forma correta acabava sendo vítima das próprias atitudes?

            Esperava que Liz me telefonasse combinando um encontro, mas, uma semana depois de sua chegada, nenhuma ligação. Eu hesitava em telefonar, obrigando-a a falar comigo. Não queria parecer afoito, nem indiferente. Liguei para Daniel, que me contou ter conversado com ela. Ele também aguardava um telefonema de Liz e, como eu, tinha receio de parecer inconveniente. Queríamos que ela se sentisse livre para fazer o que julgasse melhor, mas achávamos que, deprimida, talvez tivesse dificuldade em seguir com sua vida.
           Eu imaginava que se Liz havia retornado devia ser para ficar de vez. Mas ignorar as reais circunstâncias para o que me soava uma fuga intrigava-me. A estranha que não queria ver ninguém não se assemelhava em nada à Liz que eu conhecia. Ela devia ter mudado muito.
           Daniel me ligou dias mais tarde, avisando que Liz havia marcado uma reunião no apartamento dele para a tarde do próximo sábado.

           Ao tocar a campainha eu estava curioso, como se estivesse prestes a ver um ser bizarro que teria de reconhecer como alguém estimado, uma Liz que não eu via há muito tempo. Sílvia abriu a porta, cumprimentei-a, entrei. Liz estava de costas, falava com Daniel, que sorriu quando me aproximei. Liz levantou da poltrona, voltando-se para mim. Estava tão magra e envelhecida que tive impressão de ver a mãe dela. Tentei disfarçar meu choque enquanto a abraçava, a beijava. Visivelmente desconfortável diante da minha presença sadia, Liz evitava olhar para mim. Não sei se agia assim por vergonha, mas eu, por mais que quisesse parecer natural, também não conseguia olhar fixamente para ela, temendo denunciar piedade. Aquela figura esquálida e abatida... a bela mulher que eu tinha amado. Como tudo podia ter chegado àquele ponto? Culpa de Hendrik, dela mesma, do amor doentio de ambos? Pouco importava agora.
           Daniel falava, gesticulava, ria, mas sua encenação soava falsa. Devia padecer do mesmo sentimento piedoso que eu. Excessivamente gentil, Sílvia tratava Liz como um doente terminal. Seu estranho aspecto nos desconcertava. Agora eu entendia porque ela havia adiado o encontro.
           Daniel era o único em condições de aliviar a tensão. Aos poucos, com humor, acabou fazendo a tarde não se tornar um martírio. Liz se descontraiu um pouco. Com ar indeciso, contou seus planos de procurar trabalho como professora de inglês ou tradutora; havia sondado alguns cursos, mas achava o valor da hora-aula muito baixo. Contou que Helena queria ajudá-la, a amiga conhecia pessoas que poderiam ser úteis no recomeço. Daniel insistia que voltassem a trabalhar juntos, mas Liz alegou não ser indicada para parcerias.
           De repente, ela avisou que precisava ir. Dizia-se cansada e, precisando tomar um ônibus para casa, não queria sair muito tarde. Daniel ficou surpreso, achou que conversariam noite adentro. Perguntou se Liz não queria dormir na casa dele, ela recusou. Não me surpreendi. Havia percebido o desconforto de Liz desde a minha chegada. Não sabia se ela já estava assim, mas, ainda que Daniel tivesse conseguido “salvar” a reunião, nosso encontro estava bem longe dos que aconteciam ali antes de viajarmos para Amsterdam. Todos havíamos mudado.
           Despediu-se de mim friamente, a mesma frieza velada com que me tratara a tarde toda. Nada tinha perguntado a meu respeito, sobre meu trabalho, minha vida. Não havia pedido nenhuma opinião, sugestão, nada. Parecia ter anulado minha presença. Em vez de tristeza, me senti aliviado com sua partida.
           — Como ela está diferente, não? — comentei com Daniel, quando ele fechou a porta.
           — Eu também fiquei impressionado — admitiu.
           — A Liz ainda me parece tão confusa... Será que ela vai conseguir trabalho em algum cursinho? É o tipo de emprego que eu nunca pensei que interessasse a ela.
           — Acho que é cedo ainda pra Liz decidir o que fazer. Talvez ela volte a trabalhar comigo.
           Nossa conversa não se prolongou. Aquilo tudo tinha me abalado. Eu queria pensar, esquecer o rosto cadavérico de Liz, encontrar uma forma de ajudá-la.
           No dia seguinte voltei à busca obstinada por apartamento. Centro, Glória, Catete, Largo do Machado... Nos últimos meses havia esquadrinhado esses bairros à procura de um lugar razoável sem nada encontrar. Desanimado, não conseguia acreditar que não houvesse um único imóvel que me servisse nesses bairros próximos ao trabalho. Cada vez menos exigente, com anúncios recortados e colados numa folha de papel, iniciava mais uma manhã de tentativas.
           Como em outras vezes, fui a pé do Centro até o Largo do Machado, visitando os apartamentos selecionados. Um pior que o outro. Parecia perda de tempo olhar o imóvel do último anúncio, mas insisti. A rua Almirante Tamandaré era simpática e tranqüila com árvores sombreando as calçadas. A fachada do prédio antigo não tinha muita graça. Apanhei a chave com o porteiro, subi ao oitavo andar. Abri a porta de um cômodo bastante iluminado. O piso estava meio estragado e havia uma infiltração junto à entrada, mas o espaço do conjugado era ótimo. Da janela, esgueirando-se um pouco, era possível ver uma nesga de mar, uma parte do Aterro. Lugar sob medida para mim. O jornal não dizia o valor do aluguel. O preço devia ser alto.

           Liguei para o telefone do anúncio. Aluguel mais barato do que eu supunha, sem necessidade de fiador, apenas depósito. Eu fazia e refazia contas, tentando ver se sobraria dinheiro, depois de pago o aluguel e condomínio, para outras despesas.
           No domingo seguinte o apartamento continuava anunciado. Eu tinha desistido de procurar outros, e achava que minha indecisão fizera com que outras pessoas já o tivessem alugado. Mas ninguém parecia interessado no imóvel.
           Voltei ao apartamento. Novamente observando o espaço, certifiquei-me de que ele era tudo o que eu precisava.
           Na segunda-feira, assim que cheguei ao trabalho, liguei para a administradora do imóvel. Ele ainda estava disponível. Acertei o aluguel com a promessa de reparo, por parte do proprietário, na parede com infiltração. Fiquei exultante.
           O primeiro impulso ao chegar em casa foi telefonar para Liz. Ainda que houvesse algo estranho entre nós, achei que a notícia a deixaria contente. Assim que atendeu, contei a novidade. Ela ficou mais alegre do que eu imaginava, satisfeita por saber que as coisas estavam dando certo para mim. Ao mesmo tempo, sentia-se culpada por ainda me dever dinheiro, sabia que eu teria despesas com a mudança. Falei que não se preocupasse, eu tinha economias. Mas isso não pareceu aliviá-la. Queria arranjar logo uma vaga de professora para começar a saldar suas dívidas. Não se sentia bem devendo a mim. Propus encontro na casa dela para conversarmos melhor. Queria emprestar-lhe livros novos, mostrar o texto que estava escrevendo. Liz se disse indisposta, me telefonaria quando estivesse melhor.
           Mais uma vez me evitava? Talvez não. Devia estar sendo sincera. Quase cheguei a pensar que minha sorte fosse motivo de incômodo para ela, mas seu contentamento com a novidade soou tão natural que descartei a idéia.

           A conquista de Leon a alegrou. Depois de tudo o que havia passado, ele começava a trilhar o caminho que sempre desejara — sem a ajuda dela. Queria que tudo desse certo para o amigo, e, já que ainda não podia pagar o que lhe devia, melhor manter-se afastada para não atrapalhá-lo. Apesar do distanciamento dos últimos tempos, imaginava que sua presença ainda pudesse mudar a vida de Leon. Ele havia dito não ter mais aquele sentimento doentio por ela, mas agora, de volta, era melhor não dar espaço para que recaídas ocorressem.
           Hendrik havia ligado outras vezes. Diferente das ocasiões anteriores, ele não telefonava mais a cobrar. Cansada de ouvir pedidos para que voltasse, sentiu-se obrigada a dizer que não tinha mais dinheiro para coisa alguma, muito menos para regressar a Amsterdam. Como Hendrik parecia se fazer de surdo, ela acabou invertendo a ordem das coisas, indagando por que ele não vinha ao Brasil. Surpresa, ouviu-o dizer que precisava pensar a respeito. Achando que Hendrik não entendera o que ela havia dito, repetiu a pergunta. Ele deu a mesma resposta.

           Foi convidada por Helena a passar a semana do Carnaval na Região dos Lagos. A amiga estava na fase final da decoração de uma casa que poderiam ocupar durante a ocasião. Parecia boa idéia espairecer, pensar melhor no que fazer da vida.
           Ligou para Leon dizendo que viajaria com Helena. Ele avisou que se mudaria na semana do Carnaval. Liz desejou boa sorte, depois telefonaria para combinar uma visita.

           — O Hendrik voltou a te ligar? — perguntou Helena, ao volante, guiando pela estrada que levava ao litoral.
           — Ele telefonou ontem. Disse que vem pro Rio me buscar, que o meu lugar é ao lado dele, que precisa de mim, que me ama... — falou, meio desanimada.
           — E isso não é ótimo?
           — Sinceramente, não sei. Eu amo o Hendrik, mas a vida com ele é estranha, confusa. Nunca sei quando ele está falando a verdade, o que faz na minha ausência, o que pensa... Ainda ontem, eu fiquei tentando imaginar onde ele conseguiu o dinheiro pra comprar as passagens. Falei que eu não tinha um centavo pra nada, mas ele disse que ia pagar tudo.
           — E por que você não perguntou?
           — Eu tive medo. E se ele fez um empréstimo no banco? Vai ficar endividado por minha causa, e eu nem sei se quero mesmo voltar.
           — Por que não espera ele chegar pra decidir? Talvez ele realmente queira mudar.
           — Teria que ser uma mudança muito grande... Não sei se ele é capaz de tanto. Há muitas diferenças entre nós, culturais, de idade, de pensamento... Às vezes eu sinto que o Hendrik é a pessoa que mais me conhece e que melhor me entende, mas em outras, é como se não tivéssemos nada em comum.

            Todos os meus pertences no apartamento. Meu espaço, lugar que ocupo sozinho, como sempre quis. E eu que pensava nunca realizar este desejo... Como estava enganado!...
           No apartamento ainda desorganizado me emociono. Uma semana inteira para pôr ordem na casa, minha casa. Tempo mais do que suficiente. Comprei poucos móveis e utensílios, trouxe alguns da casa da minha mãe. Mistura não muito harmoniosa ainda, mas terei tempo de substituir o que julgar conveniente. Arrumar ao meu próprio gosto o espaço que poderei pagar e manter com meu trabalho... como isso me dá prazer! Estou sozinho, mas não sinto a menor sombra de solidão. Ligo o aparelho de som portátil, coloco os velhos amigos que nunca me abandonam: Bach, Vivaldi, Albinoni... Os concertos para oboé de Albinoni me lembram Liz. Estranha recordação, como se a imagem que me viesse fosse de alguém que já não existe. Pena, tristeza, ressentimento? Nada disso. Lembrança que quase não me pertence, por isso estranha. Como pudemos ter sido tão unidos um dia e hoje... Hoje essa sensação esquisita, indefinível. Já não me preocupo com Liz, perdi esse direito. Ela se mantém afastada, bem posso imaginar o motivo, medo de mim. Tento compreendê-la, o que não é mais tão difícil. Já não tenho tanto interesse em sua vida. E eu que achei que seríamos amigos eternamente!... Mais um equívoco para minha coleção. A amizade não resiste ao amor, o amor sem amizade não existe. Melhor parar de pensar bobagens. Tenho um apartamento para arrumar, preciso continuar meu livro, viver a nova vida que está apenas começando.

           Na semana seguinte à do Carnaval Liz me telefonou. Em tom amigável, queria saber se tudo estava pronto no apartamento para eu receber visitas. As mini-férias na Região dos Lagos deviam ter lhe feito bem. Falei que ficaria contente em recebê-la. Ela queria também rever minha mãe e avó, estava com saudade das duas. Combinei encontrá-la, no fim de semana, na minha antiga casa, de onde iríamos até o Largo do Machado.
           Cheguei atrasado. Na varanda, Liz conversava com minha mãe e avó. Não estava mais tão magra, seu rosto corado e alegre em nada lembrava a morta-viva que tanto me chocara no apartamento de Daniel. Por um momento achei que tinha recuado no tempo: aquela parecia bastante a Liz que eu havia amado. Beijou-me, abraçou-me. Sua animação me intrigava. Mas fiquei feliz com seu aspecto sadio.
           Almoçamos na varanda. Após a sobremesa, começamos a nos preparar para sair. Em meu antigo quarto apanhei alguns pertences que tinha esquecido de levar na mudança.
           — O Hendrik chega dia 26! — disse ela. — Ele vem pra ficar quinze dias. Vem me buscar.
           — Que bom! — falei, disfarçando minha surpresa. — E quando vocês se casam?
           Riu. Falou que Hendrik havia lhe proposto casamento, sim, mas ela precisava pensar.
           — Se vocês se amam devem se casar. É a sua chance de ficar na Europa.
           No trajeto do ônibus até o Centro, Liz tentou contar o que me sonegara nos últimos tempos. No tom inquieto de quem havia perdido um pouco a intimidade, dava impressão de ainda identificar-se fortemente comigo. Disse coisas que deveriam me soar reveladoras, mas seu relato não me surpreendia. Ela parecia meio perdida e ainda dependente das vontades de Hendrik, como se não tivesse certeza absoluta do passo que daria. Tinha esperanças de que ele fizesse um tratamento para se libertar das drogas. Acreditava que resolvida essa questão seriam felizes. Eu também queria acreditar nessa hipótese, mas minha lucidez não me permitia. Senti vontade de dizer o que um amigo falaria a alguém estimado. Não consegui.
           Do Centro, tomamos o metrô até o Largo do Machado. Liz gostava do bairro, das ruas arborizadas, da grande praça ornada com quiosques de flores, das opções de lazer...
           — Nossa!, o apartamento é bem maior do que eu pensava! — falou, quando entramos.
           — De todos os que eu vi esse foi o melhor.
           — E como está bem arrumado! Ficou ótimo! — disse, com voz alegre.
           — Dá até pra ver o mar pela janela — falei, apontando a nesga de vista.
           — Você deve estar muito satisfeito, não? Fico contente por você.
           — Acho que eu sou uma pessoa de sorte.
           — É, mas às vezes ter sorte não é o bastante. É preciso fazer bom uso dela.
           — Pois é. Eu achei que nunca ia conseguir. Há pouco mais de um ano voltei pro Brasil completamente falido. Agora estou aqui, morando no meu apartamento. Dá pra acreditar?
           Olhou-me sem nada dizer. Seu rosto parecia fundir orgulho e saudade.
           — E que tal é morar sozinho? — indagou.
           — A gente fica mais responsável, quase tudo depende só de nós mesmos.
           — Que bom que todos estão conseguindo se arranjar! Primeiro foi o Daniel, agora você. Eu também queria um lugar pra mim, um lugar que eu pudesse dividir com alguém que eu amasse...
           — Com o Hendrik, você quer dizer.
           — Sim, eu gostaria muito de tentar. Não queria me sentir culpada por deixar de viver coisas boas mais adiante.
           — Mas você já vem tentando há um bom tempo — ironizei, não conseguindo deter a língua.
           Liz nada comentou, sorriu apenas.
           Entreguei a ela os três primeiros capítulos do livro que estava escrevendo.
           — O que é isso? — perguntou, curiosa.
           — Dá uma lida — pedi, sem dizer o que era. — Você se importa se eu tomar um banho?
           — Claro que não — respondeu, acomodando-se no sofá, iniciando a leitura.
           Quando voltei do banheiro, antes de lhe perguntar o que havia achado do texto, ela disse:
           — Eu pensei que tudo tivesse ficado resolvido depois que você voltou, como me escreveu. Eu também sinto a gente não ser os mesmos amigos de antes, mas agora eu sou outra pessoa. Não quero mais contar tudo da minha vida, quero guardar coisas só pra mim. Eu sempre preocupo os outros à toa, e depois me arrependo de falar mal de quem eu gosto.
           Eu não entendia nada do que Liz dizia. Por que retomava aquele assunto? Fiquei sem ação.
           — Eu entendo que você queira a nossa amizade do mesmo jeito que antes — prosseguiu —, mas ficamos afastados muito tempo, aconteceram coisas que você não sabe, coisas que eu não quero explicar. Eu pensava que hoje a nossa amizade fosse satisfatória pra você. Eu gostaria de te ajudar a entender muitas coisas... mas quem sou eu pra isso? Não consigo ajudar a mim mesma. Fico triste em saber que pra você não está bom assim. É uma pena, porque pra mim estava bem.
           — Você pode me explicar do quê está falando? — indaguei.
           — Como assim? Da sua carta! — disse, mostrando o texto que eu lhe dera para ler.
           — Mas isso não é uma carta pra você! — falei, só então percebendo o mal-entendido. — É o livro que eu estou escrevendo, e que começa com uma carta.
           — Oh! Me desculpa, eu fiz a maior confusão. Ai, que vergonha!
           Não consegui conter o riso.
           — E você gostou? É a primeira pessoa pra quem eu estou mostrando.
           — Está bem escrito, mas não acha que ficou pessoal demais?
           — Cartas são sempre muito pessoais, não? Eu queria que quem estivesse lendo acreditasse que tudo poderia ter realmente acontecido.
           — Bom, comigo funcionou. Mas talvez porque o texto tenha me soado familiar.
           — Mas você não leu tudo ainda, leu?
           — Não — respondeu, retomando a leitura do ponto em que havia parado.
           Aproveitei para arrumar na cozinha os objetos trazidos da casa da minha mãe.
           — O que me incomoda — falou ela, quando voltei à sala — é a exposição que você faz das pessoas através dos personagens. Não foi difícil me reconhecer no texto e também o Daniel. Você, então, nem se fala.
           — Eu não estou expondo ninguém senão a mim mesmo. O meu texto é ficção.
           — E vai me dizer que você não se inspirou em nenhum fato real?
           — Você disse a palavra certa: “inspiração”, nada além disso.
           — Eu não gostaria de ver expostas as coisas que eu te contei. Não tanto por mim, mas pelas outras pessoas. Já pensou que alguns dos nossos amigos podem não gostar do que vão ler?
           — Então eu não posso me inspirar no que vivi, no que eu conheço? Que culpa eu tenho se as minhas experiências pessoais se misturam com as dos outros? Não acho justo limitar os meus planos por causa do que os outros possam pensar.
           Meu tom irritado denunciava o desagrado em fazê-la entender o que parecia incapacitada. Liz não me respondeu, em vez disso perguntou como eu pretendia decorar o apartamento. Apanhou uma revista de decoração e começou a folheá-la. Fugia da resposta. Dava-me razão?
           Tanto empenho e dedicação para criar algo verdadeiro... e tudo tão mal interpretado. Uma coisa era certa: o que Liz havia dito ao ler o texto que julgava ser uma carta para ela continha uma verdade que lhe escapara. Nossa amizade era cada vez mais inconsistente. Lembrei-me da carta original que escrevera a ela há quase dois anos: poderia ter sido entregue hoje, surtiria o mesmo efeito. A diferença é que eu não me importava mais em resgatar amizade alguma.
           Fiz o que ela esperava de mim. Sentei a seu lado e, como se nada tivesse ocorrido, comecei a comentar sobre as fotografias de móveis, tapetes e outros objetos decorativos.
           Nossa conversa não se estendeu. Descemos juntos. Antes de nos despedirmos, falei:
           — Se você quiser, depois que o Hendrik chegar, a gente pode almoçar no Centro. Que tal?
           Minha última cartada amistosa soava-me patética. Frase dita com o intuito de desfazer uma impressão desagradável, dar a última palavra com ar de superioridade e benevolência.
           — Eu vou falar com ele e ver o que me diz.
           Embora sua resposta parecesse sincera, não acreditei que tivesse me levado a sério.

            Ansiosa, aguardava Hendrik no aeroporto. Esperava a definição de sua vida estacionada. Isso já lhe parecia responsabilizar demais alguém que não ela própria por um futuro que lhe pertencia. Eterno drama da vida a dois. Mas não se sentia culpada de nada: tinha decidido voltar sozinha, recomeçar do zero; ele é que vinha atrás dela, dizendo amá-la, afirmando não poder viver sem ela.
           Ficou impressionada com a aparência de Hendrik, magro e abatido.
           Abraçaram-se, beijaram-se. Ele confirmou que a amava, nunca mais se separariam, precisavam viver juntos. Hendrik tremia nos braços dela. Sentiu-se responsável pelo menino assustado que chorava em seu ombro.
           No táxi, começou a inquietar-se. Por mais que tivesse prevenido Hendrik de que morava no subúrbio, num bairro feio, numa casa modesta, temia que ele não pudesse imaginar o que isso significava. Hendrik sempre vivera na Europa, morava em Amsterdam, uma cidade linda, certamente se chocaria com a brutal diferença quando se visse no bairro da Penha. O que faria com ele depois que chegassem? Apresentaria sua família, alguns amigos, o levaria a passear pelos lugares bonitos da cidade... Tudo parecia tão estranho, tão inimaginável!... Ele estava ali, com a cabeça recostada em seu peito, ignorando completamente a suja e feia Av. Brasil.
           Aparentemente Hendrik reagiu bem à simplicidade de sua casa e a seus familiares. Instalou-o num quarto recém-pintado, especialmente arrumado para ele. Mãe, avó e irmã cobriam o hóspede de gentilezas e atenções que soavam excessivas, mas Liz sabia que só queriam agradar. Perguntou se ele gostaria de tomar banho, comer alguma coisa, mas Hendrik, cansado, queria apenas dormir um pouco. Ia deixá-lo à vontade no quarto, mas ele pediu que ela dormisse a seu lado, tinha medo de acordar e descobrir que aquilo não estava acontecendo.
           A pedido de Hendrik, alugou um carro. Luxo que a incomodava, mesmo financiado por ele. Estranho, na situação atual, dedicar-se a passeios turísticos pelo Rio. Parecia despropósito estar sem dinheiro, devendo a todo mundo, vivendo novamente às custas dos pais, e agir como se tivesse uma fonte de renda invisível. Sentia como se fizesse algo errado. Saber que o dinheiro usado naquela extravagância provinha de Hendrik não atenuava a questão, ao contrário, deixava-a cada vez mais intrigada. Procurou pensar friamente: se Hendrik estava no Rio, não fazia sentido ficarem confinados na casa dos pais dela. Fazer com que ele conhecesse razoavelmente bem a cidade talvez lhe permitisse virar o jogo. E se em vez de ela voltar Hendrik ficasse? Única forma de ter ao mesmo tempo tudo o que mais desejava.
           Decidiu começar seu plano às avessas. Em lugar de mostrar a Hendrik o melhor da capital, foi com ele para a Região dos Lagos, onde teriam maior privacidade.

           Pensou que ele aproveitaria a viagem de carro para conversar sobre o futuro que teriam juntos, mas Hendrik — parecendo satisfeito apenas com a presença dela — não tocou no assunto. Não querendo pressioná-lo, deixou-o à vontade para encontrar o momento oportuno.
           Mostrou-lhe o melhor das cidadezinhas litorâneas. Hendrik ficou impressionado com a beleza de tudo o que acabava de conhecer. A alegria dele a deixava satisfeita.
           No último dia antes de voltarem ao Rio, Hendrik finalmente conversou com Liz. Na praia, ao pôr-do-sol, com voz hesitante, falou que havia começado um tratamento para se livrar da dependência do skunk. Por causa disso tinha ficado dependente do cigarro comum. Havia sido reprovado mais uma vez na prova de inglês do curso para comissário, perdera a bolsa de estudos e a possibilidade do diploma. Apesar disso, queria começar a trabalhar em qualquer coisa. Queria se casar com ela, dividir o apartamento, as despesas, ajudá-la a se estabelecer em Amsterdam, queria que Liz o ajudasse a ser alguém melhor, somente juntos seriam felizes.
           Comovida com a sinceridade dele, expôs suas questões sem que elas parecessem condições para aceitar o pedido de Hendrik. Amar era ceder sempre em algum ponto, mas cada lado precisava dar sua cota, partilhando conquistas e renúncias. Hendrik foi tão compreensível que Liz mal acreditou que a conversa que tentava ter com ele há tempos realmente ocorrera, e em tal harmonia. Mas não se iludia de que a vida seria um sonho. Ciente dos problemas que enfrentariam, sentia-se confiante e esperançosa na resolução deles.

           Voltaram ao Rio. Decidida a retornar com Hendrik para Amsterdam, alguma coisa lhe dizia que talvez ainda pudesse fazê-lo ficar. De volta à casa de subúrbio, começou a notar um incômodo mal-disfarçado em Hendrik. Ele não compreendia o que diziam os familiares dela, mas não se esforçava em nada para entender o português. Para ficar no Brasil seria fundamental dominar o idioma. Agora, depois de conhecer agradáveis pousadas e hotéis, Hendrik parecia descontente em passar parte do tempo no quarto sem graça arrumado para ele. Se realmente ficasse, teriam de morar algum tempo na casa dela. Quanto tempo Hendrik suportaria viver ali? Mesmo que por um curto período, ele jamais se habituaria à vida simplista naquela casa, dividindo espaço com a família dela.
           Mostrou a ele o melhor da cidade: paisagens, monumentos, praias, parques, alguns restaurantes, boates...
Do alto do Corcovado — lugar que deixara por último como que para dar uma panorâmica de tudo o que haviam visto —, ouviu, surpresa, Hendrik dizendo:
           — A sua cidade é tão bonita! Por que não podemos ficar aqui? Eu ia gostar muito...
           — Eu cheguei a pensar nisso — falou, sincera —, mas não ia dar certo.
           — Por que você acha isso?
           — Eu não faço idéia de quanto é preciso ganhar pra pagar o aluguel de um apartamento razoável num bairro interessante. Não sei quanto tempo eu vou levar pra arranjar um trabalho fixo. E depois, não consigo imaginar que emprego você poderia ter. Nunca ia dar certo. É melhor a gente voltar pra Amsterdam.

            Foi com surpresa que atendi o telefonema de Liz combinando o dia do almoço ao qual a convidara fazia duas semanas. Pensei que tivesse ficado aborrecida comigo em nosso último encontro, mas ela parecia tranqüila ao telefone. Marcamos hora e local. Um fundo de ansiedade germinava em mim. Queria vê-lo?, saber o que tinham decidido?, olhá-los pela última vez?
           Cheguei atrasado em frente ao restaurante. Nem sinal dos dois. Por causa da reunião com um cliente, ainda vestia o blazer que me dava um ar formal que eu gostaria de ter evitado. Se tivesse adivinhado que também se atrasariam teria passado na agência para me livrar da vestimenta.
           Esperava há meia hora, um atraso e tanto. Deviam ter mudado de idéia. Quando me preparava para entrar, os vi dobrando a esquina. Liz, num de seus antigos vestidos curtos, corada, alegre, de mãos dadas com Hendrik, mais magro, pele avermelhada pelo excesso de sol, camisa de manga comprida sobre uma camiseta, calça estampada. Ela estava contente. Ria, passava a mão no rosto dele, beijava-o... Os dois nunca me pareceram tão próximos.
           Cumprimentei Liz com beijos, Hendrik com aperto de mão. Seu rosto, olhar e sorriso estavam diferentes do que eu me lembrava. As roupas meio amarrotadas lhe davam ar de desleixo. A pele do rosto, antes sempre tão bem cuidada, apresentava cravos e espinhas no queixo e próximo à boca. Os cabelos fora de corte estavam ressecados pelo sol e água do mar... beleza significativamente comprometida. Liz elogiou meu blazer, disse que eu estava elegante, lamentava que estivessem com trajes tão informais. Falei que aquela era uma ocasião especial para mim. Meio sem graça, ela disse que não estavam com fome, tinham tomado café da manhã tarde, não queriam mais almoçar. Sugeri que comessem pouco, para aproveitarmos o encontro. Liz traduziu para Hendrik minha sugestão. Entramos no restaurante.
           Não era um lugar sofisticado. Embora tivesse um espaço no térreo com menu à la carte, levei-os ao segundo piso, onde serviam refeições a quilo. Naquela semana acontecia um festival com pratos nordestinos. Comentei que seria uma boa oportunidade para Hendrik experimentar comida exótica. Por comer pouco, servi meu prato rapidamente. Depois de pesá-lo, avisei a Liz que estaria no jirau, onde havia mesas em maior número. Ela assentiu com a cabeça enquanto traduzia a Hendrik de que ingredientes eram feitas as comidas. Precisei esperar alguns minutos até que chegassem, trazendo pratos repletos de iguarias nordestinas.
           — Pra quem não estava com fome até que vocês foram bem generosos — brinquei.
           — É que os pratos são tão grandes!... — falou Liz, se desculpando pelos dois.
           Eu tinha curiosidade em saber o que Hendrik estava achando da nossa cidade, mas eles pareciam tão concentrados em comer que preferi esperar. Embora comesse com vagar, terminei antes dos dois. Hendrik dizia estar gostando do feijão preto, da carne-seca, da abóbora, da farofa, do aipim... Liz demonstrava alegria com o contentamento dele. Um belo casal.
           — Eu decidi voltar com ele. Vamos casar, e ser muito felizes — disse ela, olhando Hendrik.
           — Eu até já comprei uma cama de casal nova! — falou, orgulhoso. — Talvez a gente se mude pra um apartamento maior, num bairro melhor. Quero ter muitos filhos.
           Não foi preciso que Liz me traduzisse o que seu futuro marido havia dito.
           — E Plexus e Nexus, ficaram sozinhos? — perguntei por perguntar.
           — O vizinho ficou tomando conta deles — ela apressou-se em responder.
           Quando terminaram de comer, apanhei as comandas dos dois, juntando-as a minha. Liz protestou, mas eu disse que o convite havia partido de mim, nada mais justo que eu pagasse o almoço deles. Na rua, perguntei se tinham alguns minutos para fazermos um passeio pelo centro da cidade. Liz indagou se isso não me atrapalharia no trabalho. Respondi que não.
           Enquanto caminhávamos, Hendrik olhava os prédios altos. Com um pouco de vergonha, perguntei se ele estava achando o Rio uma cidade muito suja. Respondeu que isso não era importante, todas as cidades, mesmo Amsterdam, tinham partes não muito limpas.
           Levei-os a uma loja na Av. Rio Branco. O local amplo, mas meio poeirento e decadente, reunia um pouco do artesanato característico de algumas regiões do Brasil. Voltada para turistas, a casa tinha peças para todos os gostos e bolsos. Num expositor, mostrei aos dois colares indígenas feitos com sementes, como os que eu e Liz havíamos comprado na Bahia. Achei que talvez se interessassem em comprar algo para decorar o apartamento que dividiriam em Amsterdam, mas nada parecia seduzi-los. Estava afastado deles, olhando postais, quando notei Hendrik agitado. De repente, ele começou a tremer. Liz o ajudou a acender o cigarro, que começou a fumar com avidez. Fingi não tomar conhecimento do que acabava de presenciar.
           Ela disse que precisavam ir, ainda tinham que passar numa agência de viagens. Depois, visitariam Daniel e Sílvia. Hendrik já não estava mais trêmulo, o cigarro devia tê-lo acalmado. Na calçada, me despedi de Liz com dois beijos. Quando ia apertar a mão de Hendrik, ele, antecipando-se, deu-me também dois beijos no rosto. Surpreso, corei. Liz sorriu. Ele devia achar que beijos eram forma comum de cumprimento no Brasil.
           Fiquei com boa impressão do desfecho ao qual parecia se encaminhar aquela história. Liz estava satisfeita com Hendrik. Deviam ter acertado as diferenças, começariam a ter a vida que sempre desejaram. Todos seriam felizes dentro de finais felizes. Estava contente por saber que depois de tudo Liz havia conseguido se encontrar.
           Tinham deixado o carro no edifício-garagem. A caminho do prédio, Liz observava a cidade como se fosse a última vez. Olhou para Hendrik. Deslocado, ele parecia um alienígena visitando um planeta ao qual dificilmente se adaptaria. Ao entrarem no carro, ela comentou:
           — O Leon está ótimo, não? Um bom apartamento, um bom emprego... Estou feliz por ele.
           — Por que você não fica, então? — falou Hendrik, irritado. — Fica com ele!
           — O quê?! — indagou, perplexa.
           — É isso mesmo. Fica com o seu amigo! Vocês podem se casar. Ele tem um bom apartamento, trabalha num lugar legal, usa roupas bonitas, não tem problemas...
           Simplesmente não acreditava no que ouvia. Ciúme ou inveja de Leon? Tinham passado uma semana tão harmoniosa que até esquecera das inseguranças de Hendrik.
           — Eu não amo o Leon, amo você — falou, procurando manter a calma. — É com você que eu quero me casar, dividir apartamento, viver as nossas alegrias e conquistas, ajudar a enfrentar e resolver problemas.
           — Eu acho que você devia ficar — insistiu. — Vi o jeito que vocês se olhavam, o jeito como ele foi educado e gentil o tempo todo, mesmo comigo... Por que não fica com ele de uma vez e me esquece pra sempre?
           — Hendrik, pára de ter inveja e ciúme dos outros! — explodiu. — Eu já não disse que te amo? Não aceitei nos casarmos, voltarmos juntos? O que mais você quer de mim? — gritou.

           Daniel abriu a porta. Sílvia, atrás dele, trazia a filha no colo. Sorrisos, beijos e abraços. Liz tentava disfarçar seu incômodo pelo recente desentendimento com Hendrik, e procurava não se exceder nas demonstrações de afeto com Daniel. Hendrik pareceu mais interessado no brilho do sinteco do piso da sala do que em conhecer os amigos de Liz. Olhar fixo no assoalho, ele dizia nunca ter visto nada tão brilhante na vida. Sentaram para conversar. Hendrik mantinha-se alheio, observando objetos e móveis no apartamento de Daniel como se descobrisse um mundo novo. Tentando parecer alegre, Liz informou ao casal os novos planos. Daniel se disse contente e triste ao mesmo tempo, como quando ela havia anunciado sua partida com Leon para a Europa.
           — Parece que estamos repetindo a mesma cena — disse. — Só que agora é definitivo.
           — Não pensa assim. A gente vai manter contato — falou Liz. — Todo mundo, de um modo ou de outro, acabou se arranjando, você não acha que eu também tenho esse direito?
           — É claro, não foi isso o que eu quis dizer. Mas é uma pena que vocês tenham que voltar.
           Hendrik quis saber do que falavam, Liz traduziu os sentimentos de Sílvia e Daniel. Perguntou se não podiam falar em inglês para ele também participar. A conversa prosseguiu no outro idioma. Daniel indagou se Liz voltaria ao mesmo emprego que tinha antes. Hendrik dizia que o cargo dela na Beamy estava garantido, mas ela não sabia se queria retornar àquele trabalho. Por outro lado, não conseguia imaginar ainda que outro tipo de ocupação poderia ter. Pretendia estudar holandês para conseguir empregos melhores.
           Hendrik não prestava a menor atenção à conversa. Detinha-se brincando com a filha de Daniel, que parecia gostar dele. Brincava com a menina no sinteco reluzente, vez por outra olhando para Liz, dando a entender que gostaria de ter uma linda bonequinha como aquela para brincar também. Ele quis saber onde era o banheiro, Sílvia indicou a porta no corredor.
           — O que houve? — indagou Daniel, quando Hendrik se retirou. — Você está tão esquisita!
           — Tivemos uma discussão daquelas ainda agora — confessou.
           — Mas por quê? Eu achei que vocês tivessem se entendido.
           — Foi por causa do Leon. O Hendrik tem um ciúme dele que eu não consigo entender. Ele fica cego, diz um monte de bobagens, acha que não o amo... Nessas horas eu tenho vontade que ele suma da minha frente pra sempre.
           — Então é melhor pensar muito bem. Acha mesmo que é uma boa idéia você voltar com ele?
           — Agora não sei mais. Pensei que o Hendrik tivesse entendido de uma vez por todas que é com ele que eu quero viver, mas ele sempre arranja motivo pra discutir, mesmo quando não existe nenhum. Isso me cansa.
           — Por que vocês não ficam mais um tempo aqui pra terem certeza do que vão fazer? — indagou Sílvia.
           — Ele não pode. Além de já ter confirmado a data de retorno, não tem mais dinheiro. E depois, os gatos ficaram com o Derek... eu não confio nada naquele maníaco cretino.
           — Você odeia mesmo o tal vizinho, não? — comentou Sílvia.
           — E não é pra odiar? Aquele desgraçado me espancou na rua como se eu fosse uma... — interrompeu-se, achando que havia falado demais.
           — Ei!, que história é essa? — perguntou Daniel. — Você nunca me falou sobre isso.
           Hendrik, que voltava do banheiro, vendo-os conversando em português, franziu a testa:
           — Vocês podiam falar em inglês? — pediu.
           Daniel, ignorando o pedido dele, insistiu com Liz:
           — Por que o tal do Derek te bateu?
           — Derek? O que tem ele? — indagou Hendrik, ouvindo o nome do amigo.
           — Daniel, eu não vou falar sobre isso agora — disse Liz, levantando de repente. — Nós temos que ir, já está ficando tarde.
           — O quê? Você vai sair sem me explicar nada? Eu não vou te deixar ir assim. Temos que conversar.
           — Daniel, por favor, não podemos falar agora, eu já tive confusões demais por hoje.
           — Vocês querem me explicar o que está acontecendo? — gritou Hendrik.
           — Não grita na minha casa, seu mal-educado! — falou Daniel, num inglês indignado.
           Sílvia levou a filha, que chorava, para o quarto, pedindo que se acalmassem.
           Envergonhada com o comportamento de Hendrik, que tremia de nervoso, decepcionada com Daniel, antes sempre tão pacífico, Liz se encaminhou para porta de saída:
           — Eu não queria que nada disso acontecesse. Foi um erro ter vindo aqui.
           — Erro vai ser voltar pra Amsterdam com esse cara. Ele não liga a mínima pra você!
           — E quem é você pra me falar assim! Eu também tenho direito de ser feliz. Ninguém pode me impedir de viver a minha vida. Você é um egoísta, só pensa na sua própria satisfação.
           — Liz, eu sou seu amigo, só quero te ajudar.
           — Eu não preciso desse tipo de ajuda — retrucou, saindo corredor afora.

            Nos últimos dois dias havia procurado algo interessante que servisse como presente de casamento para Liz e Hendrik. Seria um modo simpático de me despedir deles. Queria oferecer algo único e útil que me representasse, que os fizesse lembrar de mim.
           Depois de procurar em quase todas as livrarias da cidade, acabei encontrando uma obra de tiragem limitada que se enquadrava exatamente no perfil do que eu buscava. Paguei caro pelo grande livro, escrito em português e holandês, contando a história das invasões holandesas no Brasil. Ilustrado com reproduções de mapas e pinturas antigas, o livro era feito para duas pessoas de nacionalidades diferentes o lerem a um só tempo. Liz adoraria o presente. Poderia ler com Hendrik, conversar a respeito de algo que conheceriam em suas línguas natais. Ninguém lhes daria presente mais original.

           Telefonei para ela dizendo que gostaria de encontrá-la antes que fossem embora.
           — Eu sei que você está viajando amanhã, sei também que detesta despedidas — falei —, mas será que eu não posso dar uma passada na sua casa hoje, no fim do dia?
           — Não sei, Leon... — respondeu, reticente. — É tão importante assim?
           — Eu queria entregar o meu presente de casamento pra vocês! — disse, entusiasmado.
           — Presente? Mas eu não pedi nenhum presente. Você não devia ter gasto dinheiro comigo.
           Seu tom de voz meio indignado, soou-me estranho. Eu parecia ter feito algo errado.
           — Eu sei que você não me pediu um presente, mas isso não significa que eu não possa te dar um se tenho vontade. Posso passar aí no fim do dia, então?
           Liz ficou muda por um instante.
           — Leon, eu sou muito grata a você por ter me ajudado quando precisei, por ter me emprestado dinheiro, sei que ainda estou te devendo, e pretendo pagar o mais breve possível, mas... eu gostaria que você não viesse aqui hoje. Me desculpa.
           Fiquei sem entender o que ela dizia com voz triste. Parecia falar contra a vontade. Em todo caso, foi séria o bastante para que eu desistisse da idéia. Estava tão abismado que calei.
           — Eu achei que a gente fosse se falar cada vez menos... — tornou ela. — Ai, não sei mais o que dizer...
           — Não precisa falar mais nada. Você já disse tudo o que precisava: que eu te incomodo. E o que eu menos quero na vida é incomodar quem quer que seja — falei, sério. — Espero que vocês façam uma boa viagem e sejam muito felizes. Adeus.
           Raiva, tristeza, incredulidade me dominavam. Sem nenhuma razão plausível, Liz rejeitara meu presente, pior, minha presença. Sentia-me ofendido. De forma seca e fria, ela havia anulado nossa amizade como quem extirpa um membro gangrenado. O que eu tinha feito para provocar uma postura tão drástica? Certamente algo grave.

           Lançou um último olhar para trás ao entrar no setor de embarque. Ninguém para se despedir. Melhor assim, odiava despedidas. Ainda na casa dos pais, abraçara-os como se fosse voltar logo. Fizera aquilo apenas para minimizar o sofrimento deles. Quando havia chegado sem nada, devia ter lhes dado impressão de que nunca mais faria uma besteira daquelas. Dois meses depois abandonava-os outra vez. Não lhes dera tempo de ficar alegres, tampouco tristes.
           Ninguém a acenar para ela. Nem Daniel, nem Sílvia, nem Helena, nem Leon... Se não tinha mais amigos, não havia do que sentir falta ou saudade. Hendrik estava a seu lado, precisavam olhar e seguir em frente, para o futuro que teriam, que nada mais poderia atrapalhar.

           Desembarcaram numa Amsterdam primaveril, mas ainda fria.
           Esperou em frente ao prédio enquanto Hendrik apanhava a chave do apartamento no edifício ao lado. Sentiu um leve mau cheiro, que veio junto com uma lufada de ar frio.
           Hendrik voltou correndo. Sem explicar o que tinha ocorrido, abriu depressa a porta e subiu correndo o lance de escada. Sem entender o que estava acontecendo, ela o seguiu. Dentro do prédio o cheiro desagradável era mais forte. Quando entraram na sala depararam com os cadáveres de Plexus e Nexus, em decomposição. Dos corpos apodrecidos brotavam vermes que se espalhavam pelo chão. O odor concentrado no ambiente era irrespirável. Hendrik gritava de horror. Liz tentava acalmá-lo. Ele chorava, dizendo-se culpado, nunca se perdoaria.
           — O seu amigo não tinha concordado em cuidar dos gatos? — perguntou ela.
           — Ele teve uma overdose... ficou no hospital uma semana... ainda está de cama...
           Desculpa aceitável ou mais um de seus planos? Derek era perverso, desumano. Não era difícil acreditar que ele tivesse deixado os gatos morrerem de fome só para se vingar de Hendrik, e dela também. Guardou suas suspeitas para si mesma. “Overdose... se ao menos aquele desgraçado tivesse morrido...”
           Teve que limpar tudo sozinha, Hendrik não conseguia se aproximar dos cadáveres. Além dos despojos, havia na sala, na cozinha, no banheiro e até no quarto fezes e urina. Por mais que tivesse se esforçado na limpeza, não conseguiu fazer com que o cheiro da podridão e dejetos desaparecesse por completo.
           Terrivelmente abalado, Hendrik caiu doente. Ele transpirava excessivamente, exalava cheiro ruim, não conseguia levantar da cama, não tinha apetite. Ela achou que deveriam ir a um hospital, mas Hendrik se recusava terminantemente, dizendo que logo estaria bom, aquilo já ocorrera outras vezes. “Ele está doente...”, pensou. “Que doença? Seria aquela que teima não acreditar que tem? Vi os exames... será que também estou doente? Tenho medo de fazer outro teste agora.”
           Aos poucos, Hendrik começou a melhorar. Foi com estranheza que o viu levantar um dia como se nunca tivesse adoecido. Fosse qual fosse a doença ele sempre se recuperava. Talvez, tudo não tivesse passado de uma crise depressiva por causa da morte dos gatos.
           Começaram a pôr em prática os planos de futuro. Havia perdido o emprego na Beamy, sem o lamentar. Ciente de que sem estar registrada num endereço não poderia inscrever-se nas agências de emprego, achou por bem fornecer o endereço de Hendrik como seu também. Elaborou um currículo para Hendrik a fim de que ele arranjasse trabalho. Dominando holandês, ele teria mais chances do que ela. Queriam casar-se o quanto antes, mas, desempregados, acharam melhor dar entrada nos papéis depois que pelo menos um estivesse trabalhando.

           Não estava plenamente satisfeita com a nova vida, mas sentia-se estimulada a prosseguir. Alguns processos eram longos e lentos, gostava de pensar que tudo o que passava era parte de um grande aprendizado. A vida com Hendrik ainda tinha muito que evoluir, mas os progressos eram significativos. Ele continuava seguindo o tratamento para livrar-se do vício, não se mostrava mais tão debilitado quando as crises, cada vez mais raras, o acometiam. Estavam se dedicando ao estudo dos idiomas: ela, do holandês; ele, do inglês. Gostavam de trocar idéias, de se ajudarem nessa tarefa. Hendrik era bastante atencioso, às vezes suas demonstrações de carinho chegavam a comovê-la. Sem cessar, ele repetia que queria filhos, seria um bom pai. Liz achava cedo ainda para pensarem no assunto, principalmente por causa da situação financeira instável. O desejo de Hendrik repercutia de forma considerável no relacionamento sexual dos dois. As noites passaram a ser de total comunhão na cama.
           — Amo você, sabia? — sussurrou ele.
           — Eu já imaginava — respondeu ela, estreitando seu corpo nu contra o dele.
           As estrelas brilhavam no céu azul-noite, a luz da lua atravessava a vidraça inundando o quarto em que se amavam. Fechou os olhos, sentindo o peso de Hendrik. A lua, as estrelas, o céu, tudo estava em sua mente. Hendrik lhe dava prazer, ela era o prazer dele. O sexo estava bastante próximo do jeito que sempre tinha desejado. Ele queria ser pai... fazia aquilo por amor. Não havia mais necessidade de drogas que distorcessem a verdade, nem para ele, nem para ela. Sem fantasmas, monstros ou alucinações... amor apenas.
           Hendrik deitou de costas, puxando-a para cima de seu corpo. A posição não a agradava, mas estava tão satisfeita que seguia as vontades dele, como se também fossem suas. A repentina escuridão do quarto a fez abrir os olhos. Uma nuvem encobria a lua no céu. Tornou a fechar os olhos, voltando a se entregar ao amor.
           Num susto, sentiu seu corpo bruscamente arrancado de cima de Hendrik e empurrado contra a parede. Zonza, ouvia ruídos estranhos na cama, gemidos abafados. Procurou o interruptor, acendeu a luz. Gritou, horrorizada. Derek mantinha um travesseiro no rosto de Hendrik, com a outra mão golpeava violentamente o peito dele com uma faca. Sangue por toda a cama. No lugar do coração de Hendrik, um buraco de onde aflorava o líquido escuro e grosso. Ao se dar conta de que esfaqueava a vítima errada, Derek também gritou. Agarrou-se ao corpo ensangüentado de Hendrik chorando, pedindo desculpas. Tarde demais. Com olhos vidrados, conservando uma expressão de incredulidade e surpresa, Hendrik era um fardo inerte, vestido apenas com o próprio sangue. Petrificada, de pé, ao lado da cama na qual a cena assustadora havia ocorrido, Liz não queria acreditar, não podia aceitar, não conseguia entender. Como Derek tinha entrado? A chave... devia ter feito uma cópia... devia estar espionando da janela do seu quarto... Derek precipitou-se para Liz, a faca em punho, xingando-a ameaçadoramente. Afoito, se enroscou no lençol e caiu, batendo a cabeça na quina de uma cadeira. Trêmula, pálida, nua, sentia no peito uma dor intensa, como se ela mesma tivesse sido golpeada por Derek em lugar de Hendrik. Na cama, abraçou o corpo do amante, achando que ele ainda estivesse vivo. Estava quente, molhado de vermelho, mas sem vida. Para onde ele teria ido? Por que a tinha abandonado daquele jeito estúpido, logo quando começavam a se entender tão bem? As lágrimas rolavam ao ninar o cadáver em seus braços. Derek começou a gemer, acordando do desmaio. Levantou e, mesmo cambaleante, partiu para cima de Liz. Agarrou o pescoço dela, derrubou-a no chão, tentando sufocá-la, agia como louco. Ela se debatia, querendo livrar-se de Derek, mas ele parecia ter força sobre-humana. Seus braços e pernas moviam-se em vão sob o peso do estrangulador enlouquecido. Estava sendo assassinada. Sua mão esbarrou em algo no chão, uma faca, a faca que tinha matado Hendrik. Apanhou o punhal e, com a força que lhe restava, cravou-o nas costas de Derek, que tombou para o lado urrando de dor. Ainda tonta, arrancou a faca das costas dele, virou-o para cima e começou a golpeá-lo histérica e furiosamente. Quando parou, havia uma brecha no peito de Derek. Hendrik vingado. Com dificuldade, se levantou. O quarto era um matadouro. Nunca tinha visto tanto sangue. O que fazer? Fugir? Chamar a polícia? Para quê? Hendrik estava morto, tudo terminara. Sem casamento, sem trabalho, sem família, sem amor, sem futuro... nada havia lhe restado. Abandonara tudo por Hendrik, ele não mais existia, ela não era mais nada... Como nunca havia pensado nessa hipótese? Fugir, correr, se esconder, gritar, chorar... todos os gestos lhe pareceram completamente inúteis. Não queria continuar presenciando a morte com tanta intensidade, corpos em meio ao sangue. Apanhou o sobretudo, cobriu sua nudez suja de vermelho-morte, deixou o apartamento na madrugada fria.
           Andou a esmo. Perambulava num transe que a movia cegamente. Dor. Única sensação. Tudo acabado. Não havia mais futuro. Não tinha mais para onde ir, nada a fazer, coisa alguma a esperar. O mundo era um lugar injusto para as pessoas que seguiam suas vidas segundo seus desejos, um lugar traiçoeiro e cruel, onde tudo podia ruir quando menos se esperava.
           A lua havia desaparecido, as estrelas perdiam o brilho. Um novo dia logo nasceria. Não para Hendrik. Nunca mais para ele. Por quê? Era tão jovem, tão cheio de esperanças e sonhos, tanta coisa ainda por viver!... de repente, privado de tudo para sempre. Por que essas coisas absurdas aconteciam? E ela? Por que ela? Tinha lutado tanto para conseguir o que sempre desejara!... Por que não merecia ser feliz? Que maldita lei era aquela que a perseguira por toda a vida? Lei estranha, que havia triunfado.
           Vivera quase toda a existência pensando no futuro. Desprezara o passado, atropelara o presente, servindo-se dele apenas como trampolim para o tempo em que finalmente seria feliz. Agora sabia onde findava aquele salto: num abismo.
           Debruçou-se no guarda-corpo, observando as águas escuras do canal. Seu reflexo serpenteava na superfície líquida iluminada pela luz do poste. “No fim das contas, todos morrem... uns antes, outros depois... impossível escapar... também vou morrer um dia... Quando? Que diferença faz? Já me sinto sem vida, sem nada... Voltar ao Brasil, recomeçar do zero... Quantas vezes? Quantas vezes mais? Não, eu não suportaria... família, amigos... tarde demais pra eles também... não tenho mais direito de importunar ninguém... Queria sumir agora, nesse instante... Talvez esteja contaminada com alguma doença terminal... isso me traria uma morte lenta... uma morte lenta me daria tempo de pensar... pensar na vida... Não, seria uma agonia, uma tortura... Preciso ter coragem... sempre fui tão covarde!...”
           Enquanto subia na grade, lembrou de uma gravura que fizera na faculdade: dois malabaristas fantasiados de palhaço tentando atravessar uma corda bamba. Ao equilibrar-se na grade sentiu-se como um deles. Agarrada à coluna que sustentava o guarda-corpo, hesitou. Lá em baixo, no fundo do canal escuro, no fundo do fundo estava a salvação. Não tinha escolha. Todos os problemas que criara para si, e também aos outros, se apresentaram diante dela como testemunhas. Oportunidade de resolver tudo de uma vez por todas. Águas sujas, cheias de detritos da cidade, podridão asfixiante... bálsamo de libertação...
           Atingiu o canal como uma grande pedra, afundando sem resistência. Seu último ato de coragem.

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