O treinamento na Beamy a tinha deixado familiarizada com o serviço. Gostava da empresa e esperava gostar do emprego também. Ainda era estranho saber que trabalhando no suporte técnico forneceria informações aos clientes para solucionarem problemas com seus computadores. Logo ela, que nunca entendera daquele assunto desinteressante.
            Havia adquirido domínio satisfatório no atendimento à clientela. Praticando a conversação atualizava seu vocabulário. Muitos clientes enviavam mensagens pela Internet, outra opção de contato oferecida pela Beamy. Conectada o dia inteiro, esclarecia dúvidas por escrito, e também tinha chance de se comunicar com os amigos no Brasil. A forma ágil de correspondência a ajudava a aliviar a tensão no trabalho. Leon e Daniel não demoravam muito a responder seus e-mails.

            Após ter devolvido a chave do apartamento a Niek, começou a procurar local para ficar. Por sorte, o contrato de experiência e treinamento com a Beamy tinha sido assinado quando faltavam apenas dois dias para expirar o contrato de aluguel do apartamento da Schinkelhavenstraat — endereço que ficou registrado nos arquivos da empresa. Sorte que a deixava apreensiva. Sem poder fornecer o endereço de Hendrik como seu também — já que isso o faria pagar impostos e taxas mais altos —, precisava encontrar um novo imóvel para atualizar o endereço nos arquivos da Beamy, bem como na polícia para estrangeiros e no banco. Fazia algum tempo que não voltava ao antigo apartamento para buscar a correspondência. Sentia vergonha de não poder dizer a Niek o novo endereço para o qual ele deveria reencaminhar as cartas dela.
            Tinha procurado o elegante Mr. Cliff, mas ele lamentou ter apenas apartamentos muito caros e de curta temporada. Havia procurado também Mrs. Arezzo, mas a mulher não encontrou um imóvel com aluguel que Liz pudesse pagar.
            Decidiu procurar ela mesma um novo espaço para morar. Hendrik não a ajudava. A inércia dele a confundia: ao mesmo tempo em que demonstrava querer que Liz permanecesse em seu apartamento, achava bom que ela encontrasse outro lugar para ficar. Às vezes achava que Hendrik tinha medo de que alguém o denunciasse ao governo, havia uma pesada multa para quem mantinha moradores clandestinos. Se Hendrik arranjasse emprego, poderiam dividir as despesas. Mas a possibilidade de trabalho para ele ainda era remota. Desanimado por ter de repetir a matéria que ficara devendo para a conclusão do curso, Hendrik não se interessava em procurar serviço algum.
            Liz começou a dedicar os fins de semana na busca por um apartamento. Nos jornais, quando encontrava imóvel apenas para uma pessoa o aluguel era muito alto, ou o bairro afastado. Em alguns anúncios pessoas procuravam outras para dividir o mesmo espaço. A hipótese não lhe agradava, mas resolveu telefonar para uma garota que buscava outra que falasse espanhol como companheira de moradia.
            Ao telefone a moça pareceu simpática. Embora o imóvel ficasse longe do Centro, da Beamy e do apartamento de Hendrik, Liz marcou uma visita. Pensou no lugar apenas como mero endereço. Talvez, pagando sua parte nas despesas, nem precisasse morar no local.

            Apesar de sujo e desarrumado, o apartamento não era ruim. A pessoa que dividira o imóvel anteriormente com a garota havia pedido para usar o endereço por mais três meses — o que não permitia que Liz se registrasse como moradora, nem pudesse fornecer o endereço para correspondência. Acabou desistindo. Melhor ficar na clandestinidade da Compagniestraat.
            Meio perdida no bairro que não conhecia muito bem, tomou o bonde errado. Atrasou-se mais do que pretendia. De manhã, tinha ligado para a Beamy avisando que chegaria um pouco mais tarde. Estava demasiado atrasada. Resolveu não ir trabalhar.
            O verão que nem havia chegado a ver e sentir direito cedia lugar ao outono. Nos parques, a vegetação começava a tingir seu guarda-roupa com tons amarelos, vermelhos, alaranjados... O frio já se fazia sentir, o céu começava a ficar cinzento. Sem saber explicar a si mesma o motivo, caminhava tristonha pela cidade. Entrou no Vondelpark. Pela primeira vez, desde que chegara na cidade, sentou num dos bancos, observando o panorama ao redor.
            O tempo passava depressa, mas era como se tivesse estacionado num ponto que apenas Liz podia perceber. Por que mais uma vez o tédio ressurgia? Por que, apesar de tudo, não estava satisfeita? Apesar de tudo... O que era preciso para ser feliz? Um conjunto de coisas. Emoções, sentimentos, lembranças, pessoas, prazeres, conquistas... Lembrou de Leon, que dizia que ela não valorizava suas conquistas. Talvez ele estivesse certo. Em pouco tempo Liz havia mudado seu modo de viver, como sempre quisera. Tinha atravessado um oceano, conseguido documentos importantes num tempo relativamente curto, partira de Lisboa rumo a Amsterdam, encontrara apartamento como um milagre, arranjara empregos... Tudo feito por causa de seu amor por Hendrik. Ele a tinha motivado a realizar seus sonhos mais audaciosos. Por que sentia como se nada tivesse feito, como se estivesse de mãos vazias? O que buscava afinal? O tempo todo estivera enganada? Não, não havia equívoco algum. A verdade dos desejos concretizados era diferente do que idealizara. Seria sempre assim? O que se queria nunca era o que se obtinha, mesmo quando se parecia exatamente com o imaginado? Mas havia sutis diferenças que precisava levar em conta. Muito do que almejava havia conseguido, mas o objetivo final — e também início daquele processo —, ainda não correspondia ao que ela considerava ideal. Fator que tinha peso suficiente para influenciar todo o resto. Depois de tantas lágrimas e gritos, brigas e reconciliações, o relacionamento com Hendrik ainda não a satisfazia. Seria querer demais? Parecia tão perto daquele desejo — por que não conseguia segurá-lo? Sempre havia acreditado num período de adaptação em que se conhecia melhor a pessoa, deixando-se conhecer também. Depois disso, era fácil saber o que mudar no outro e o que mudar em si mesmo para o relacionamento ficar perfeito. Agora sabia que não existiam relações perfeitas. Nenhum período de adaptação poderia ser tão longo. Mas não podia culpar Hendrik por ele não querer mudar, não podia sentir-se culpada por não conseguir fazê-lo mudar. Disposta a se modificar, sentindo que muito já havia transformado em si mesma para moldar-se aos hábitos de Hendrik, não via reciprocidade da parte dele. “Cativar e ser cativado... Só iniciar um relacionamento quando encontrar a pessoa certa... A pessoa certa só existe na minha cabeça...”
            Se o homem ideal não existia, talvez fosse difícil satisfazer-se com um arremedo dele. Se ao menos não fosse tão exigente... Por mais que Hendrik estivesse disposto a se modificar, seria incômodo presenciá-lo fazendo concessões para se assemelhar à mentira na qual se veria forçada a acreditar. Igualmente desagradável moldar-se às necessidades do outro somente para não perdê-lo. Não, não queria obrigar ninguém a coisa alguma, não queria mutilar-se. Queria apenas encontrar o ponto de equilíbrio. “O importante é ser feliz...”, refletiu, sentindo que desejava o impossível.
            Atribuindo sua melancolia ao outono, deambulou pela cidade fazendo hora. Sem uma cópia da chave do apartamento — que Hendrik não lhe permitira fazer —, precisava esperá-lo voltar do curso para entrar em casa. Vendo-se adiantada, sentou junto à porta do prédio.
            Pacientemente aguardou, como a mãe que espera o filho pequeno retornar da escola, feliz por vê-lo novamente, por continuar a cuidar dele, educá-lo, amá-lo. Assustou-se com as idéias maternais. Percebeu que, no fundo, tinha expectativas de modelar Hendrik ao seu padrão de homem ideal, como se fosse possível criar um ser a partir de um corpo já existente, incutindo nele apenas valores nobres. Hendrik era uma criança rebelde, um homem feito.
            Sentada na frente do edifício, viu, surpresa, quando ele e Derek deixaram o prédio vizinho. Não a tinham visto ainda, e conversavam animadamente. Pareciam tão contentes que Liz ficou constrangida com a alegria deles. Uma ponta de inveja mesclada a ciúme cravou-se em sua mente. Não imaginava que Hendrik ainda encontrasse Derek, principalmente no apartamento dele. Hendrik não havia dito que não visitava mais o amigo, ela é que na ânsia de anular a presença do outro, e sabendo que os jantares com Derek eram coisas do passado, tinha acreditado que eles não mais se viam. Assim que se deram conta de Liz, estática diante da porta, o comportamento dos dois mudou bruscamente. Hendrik ficou pálido, Derek fechou a cara, e ambos se afastaram sem dizer palavra.
            — Aconteceu alguma coisa no seu trabalho? — perguntou Hendrik, tentando disfarçar.
            — Eu achei que você estivesse no curso. Você não tinha aula hoje? — falou ela.
            — Tinha, quer dizer, tive, mas acabou cedo. Então resolvi estudar com o Derek.
            — Eu não sabia que ele dominava o inglês tão bem a ponto de te ajudar.
            — O Derek me faz perguntas, lê as lições, passa exercícios...
            Por que não havia falado com ela a respeito daquilo? Teria dito a verdade? O que mais estaria escondendo? Melhor não tomar satisfações sobre um assunto fadado a causar desavenças.
            — E você? Por que saiu mais cedo? — indagou ele, abrindo a porta do prédio.
            — Eu não fui trabalhar. Acabei me atrasando na visita ao apartamento.
            — E você gostou do lugar?
            — Não. É muito longe, e eu não ia poder usar o endereço.
            — Você pode ficar aqui o tempo que quiser, Liz.
            — Mas isso não resolve o meu problema. Eu preciso de um endereço, e não posso usar o seu. Estou com medo que descubram na Beamy que eu não tenho domicílio, isso pode me prejudicar.
            — Vou ver se arranjo um emprego. Se eu conseguir um trabalho que me pague mais que o seguro do governo registro você no meu apartamento.
            Mal pôde acreditar. Ele havia tomado a iniciativa, parecia até interessado nos problemas dela. Teria agido assim se não fosse flagrado com Derek? A atitude inesperada de Hendrik mais que agradá-la, deixou-a intrigada. Sentia vontade de lhe fazer mil perguntas, mas, temendo quebrar o período de trégua que havia se estabelecido, nada perguntou.

            Chegou mais cedo ao trabalho no dia seguinte, a consciência pesada por ter faltado. No corredor, abordada pela supervisora, foi informada que por faltar no dia anterior sem avisar, perdera um dia das férias a que já tinha direito. Sem entender a quê a supervisora se referia, pediu explicações. Como uma máquina de ditar regras, a mulher esclareceu que se Liz quisesse faltar deveria telefonar para informar sua ausência antes das oito da manhã, evitando assim que sua mesa entrasse automaticamente na lista de telefones ativados. A supervisora explicou também que Liz possuía doze dias de férias percentuais, que precisavam ser tiradas até o fim do ano.
            Um mundo de normas e procedimentos que aumentavam a cada dia. Para funcionar adequadamente precisaria estar mais atenta.

            O inverno se antecipava. No princípio de outubro o frio já era intenso. O clima desfavorável a fazia pensar com apreensão em suas férias. O verdadeiro inverno começaria no fim de novembro, tinha pouco mais de um mês para decidir quando aproveitar os doze dias de descanso. Agora que podia planejar férias não tinha dinheiro para gastar.
            Ainda não havia encontrado o novo apartamento. Estava convencida de que fora muita sorte ela e Leon acharem um lugar em tão pouco tempo. Seis meses depois da partida dele ainda tinha dificuldade em arranjar um quarto decente.

            Hendrik contraiu uma forte gripe. Durante nove dias Liz cuidou dele. Por fim, acabou gripada também. Precisou faltar dois dias ao trabalho, e, como não pôde avisar com antecedência, sabia que tinha reduzido seu tempo de férias.
            Deprimido por causa da gripe da qual tinha demorado mais de duas semanas para se recuperar, Hendrik havia faltado vários dias ao curso. Tinha voltado a fumar mais do que o normal para compensar os dias em que, doente, não tinha podido fazê-lo. Começou a ficar irritadiço. Liz, ainda convalescendo da gripe, procurava não desagradá-lo. Achava que um pouco da depressão de Hendrik também havia sido provocada por ela. Se não tivesse comentado com tanto entusiasmo a satisfação em trocar mensagens com os amigos no Brasil... Não imaginava que Hendrik ficaria tão enciumado. Injusto ele se aborrecer por ela escrever aos amigos distantes. Liz odiava Derek, sabia que Hendrik ainda o encontrava, mas nunca havia pedido que os dois se afastassem. Por que Hendrik lhe exigia exclusividade?
            O período de trégua parecia chegar ao fim. Sempre que ela começava a procurar apartamento Hendrik se aborrecia. Não queria que Liz morasse em outro lugar, mas também não a registrava em seu endereço. A história de procurar emprego para ajudá-la não dera em nada. Nem mesmo sabia se ele havia buscado alguma coisa. Sem ser suficientemente claro, Hendrik dava a entender que ela queria se mudar só para ficar com outro namorado. Mais uma vez sentia-se ameaçado por um rival imaginário, alguém que lhe roubava o que nem mesmo ele aproveitava. Essas desconfianças a desagradavam, mas sabia que os delírios de Hendrik eram reflexo das drogas. No período em que ele quase parara de fumar tudo havia ficado bem mais brando.
            Situação patética. Pagava metade das despesas do apartamento que dividia e sequer tinha cópia da chave da porta. Hendrik alegava estar em casa quando ela chegava do trabalho, mas nem sempre isso acontecia. Ficar sentada na porta do prédio, ao relento, como se estivesse de castigo, a deixava furiosa. Que mal havia em ter a chave que lhe permitiria entrar no lugar pelo qual pagava? Nessas horas pensava em ter o próprio apartamento. Hipótese remota, bem mais depois de Hendrik dizer que se ela se mudasse não só o relacionamento estaria terminado, como ele ainda lhe infernizaria a vida, obrigando-a a voltar ao Brasil. Quase sentia vontade de enganá-lo, fazendo-o pensar que havia voltado a seu país. Mas quando se imaginava sozinha, num quartinho miserável, sem amigos, ninguém para conversar, num bairro estranho, em meio ao frio e chuva do outono, ao gelo e neve do inverno, passando os fins de semana trancada em sua cela, tinha vontade de ir embora de verdade.
            Olhava o contrato assinado com a Beamy: “Ficar ou voltar?...”, pensava, indecisa. Tanta coisa em jogo e, ao mesmo tempo, parecia não ter nada a perder.

            Foi chamada à sala da supervisora. Séria, a mulher informou que na semana anterior, quando Liz faltara dois dias sem dar explicação, a empresa havia enviado um médico à casa dela; o doutor tinha encontrado o senhorio, que explicou que a última inquilina mudara-se há alguns meses. Liz confirmou a história, dizendo ainda não ter novo endereço. A supervisora indagou onde ela estava morando. Respondeu que algumas vezes ficava na casa do namorado, outras no Albergue da Juventude — não conseguiu evitar mentir. Com mais seriedade ainda, a supervisora avisou que era imprescindível regularizar o mais depressa possível aquela situação.
            Quando Liz já dava o assunto por encerrado, a mulher prosseguiu, dizendo que ela precisava se decidir também quanto às férias. Diante da insistência da chefe, rendeu-se ao período mais conveniente à empresa. A supervisora, determinou que Liz se considerasse de férias a partir da semana seguinte, ótima ocasião para ela resolver a questão do endereço residencial.

            Olhando pela janela do apartamento de Hendrik, observava as árvores quase nuas balançando os ramos ao vento, molhadas pela chuva gélida. Férias no inverno antecipado. A chuva, o frio e o vento a entristeciam. Os aborrecimentos com Hendrik também. Chegou a pensar que ele ficaria contente com as férias dela, que proporia programas e passeios, mas Hendrik parecia irritar-se com sua presença constante. Talvez Liz o atrapalhasse nas coisas que costumava fazer em sua ausência. Que coisas? Evitava pensar no que lhe desagradaria, mas o tempo melancólico, aprisionando-a naquela cela, fazia com que se concentrasse exatamente no que não queria.
            Precisava achar um novo apartamento, mas Hendrik não o permitia e não a deixava usar o endereço dele. De nada adiantara dizer-lhe que corria risco de perder o emprego. Hendrik parecia até satisfeito com a hipótese, dizia que ela trabalhava demais, quase não tinha tempo para ficar com ele. Agora estava ali, disponível por dez longos dias, e Hendrik passava a maior parte do tempo dormindo para melhorar a aparência. Apreensiva, olhava-se no espelho: cada vez mais magra, velha, feia... Desanimada, sem ter o que fazer ou aonde ir, voltava para a cama, certa de que seu sono não seria capaz de recuperar beleza alguma.

            Dez dias de férias. Dez dias de frio e chuva. Sem estímulo, sem dinheiro, limitou-se a dormir, arrumar a casa, cozinhar. Não visitou nenhum parque, não foi ao cinema, nem aos museus, nem às boates... o mau tempo era sempre boa desculpa. Não procurou apartamento, não resolveu as pendências no banco e na polícia para estrangeiros, não procurou Niek em busca de sua provável correspondência acumulada...
            Quando vivia no Brasil achava horrível o calor intenso, o sol constante. Sempre havia desejado viver num lugar frio, com céus cinzentos. Agora odiava a neve, o vento gelado, o céu nublado. O outono melancólico logo cederia lugar ao inverno deprimente. Como faria para suportar três meses de tristeza? Não via mais a menor graça em Amsterdam. Ainda que visitasse todos os museus, parques e praças, fosse a diferentes bairros, viajasse para cidades próximas, sentia que teria a mesma sensação de fastio e tédio que a dominava. Precisava resolver e organizar a vida para aproveitar as maravilhas que o mundo tinha a oferecer. Inútil esperar Hendrik arranjar trabalho para registrá-la. Tentando se justificar, ele havia dito que os empregos que achara pagavam apenas 200 gulden a mais que o auxílio do governo. Aceitando tais trabalhos, perderia o seguro-desemprego, teria que pagar quase o dobro pelas taxas e impostos registrando-a como moradora. Curioso sistema no qual a vantagem era não trabalhar, ganhando-se mais por não fazer coisa alguma.
            Tudo a aborrecia. Cada vez mais ciumento, Hendrik vivia tendo pesadelos de traição. Ela oscilava entre ficar em Amsterdam, com a vida confusa, e voltar ao Rio, onde não sabia o que encontraria. Quando se lembrava das coisas que a desagradavam na casa dos pais, achava que elas nem eram tão horríveis. Percebia que sempre tinha sido intransigente. Saudade da família. O que Leon havia lhe escrito quando chegara ao Brasil ecoava em sua mente: “Quando se está longe de casa temos uma visão deturpada... assim que voltamos e reencontramos a realidade que julgávamos modificada é que temos a verdadeira noção de que certas coisas nunca vão mudar...” Tentava imaginar-se voltando também, descobrindo que criara ilusões acerca da família. Sua maior dúvida era não saber como seria recebida. Achava que os familiares iriam gostar de sua volta, mas não demorariam a fazer as mesmas cobranças e críticas de sempre. Além do mais, vendera o carro, não tinha mais trabalho, nem clientes... Tudo repercutiria de forma negativa, ótimo motivo para novas cobranças e reclamações.

            O trabalho na Beamy dobrou de volume repentinamente. A equipe que falava português tinha ficado desfalcada. Agora, além de atender as ligações dos espanhóis, as chamadas dos portugueses também eram encaminhadas à sua mesa. Não era justo fazer o trabalho de duas pessoas por tempo indeterminado sem aumento de salário.
            No fim do expediente havia atendido a mais de 60 ligações: clientes frustrados, insatisfeitos, enfurecidos, mal educados... Trabalho desgastante. Com cautela, indagou à supervisora se não poderia ser transferida de setor, atendendo apenas as chamadas vindas de Portugal. A mulher, surpresa como se tivesse ouvido uma pergunta absurda, respondeu rispidamente que não.

            Escrevera a Leon sondando detalhes de como havia sido o início de seu retorno comparado ao presente. Ele vislumbrava possibilidades de melhorar de vida. Liz ficou contente em saber que o amigo tinha planos de sair de casa, estava satisfeito no trabalho, encontrava ânimo para escrever seu livro. Leon estava se encontrando, o que dava esperanças a ela.
            No fim de semana telefonou para a mãe. Fazia algum tempo que não dava notícias à família. Procurando adotar um tom de voz descontraído, deu a desculpa de que fazia frio demais para ligar com a mesma regularidade de antes. Estava tudo bem com ela, gostava do emprego, via muitas possibilidades futuras... Do outro lado da linha, parecendo ignorar o que a filha dizia, D. Amália falou que se ela não estivesse gostando de Amsterdam poderia voltar, seria bem recebida, todos gostavam muito dela. Acrescentou que se Liz estivesse precisando de dinheiro eles poderiam pagar a passagem de avião para ela. Surpresa pela mãe ter respondido da melhor forma possível a pergunta que não tinha coragem de fazer, sentiu-se mais tranqüila. No fundo, sempre havia tido pavor de não poder voltar, por isso necessitava que a empreitada desse certo. Lembrava as conversas com Leon, quando haviam chegado à cidade e tinham sérias dúvidas em conseguir se estabelecer: preferiam se afogar nos canais a voltar ao Brasil sem nada, se tudo desse errado. A derrota agora não lhe parecia mais tão assustadora que justificasse uma fuga da vida.

            Por causa do excesso de trabalho quase não tinha tempo para responder às mensagens que recebia. O serviço cada vez mais cansativo, a relação com Hendrik sempre complicada, o dinheiro acabando antes do previsto sem que tivesse economizado nada, o termômetro registrando dez graus negativos... Nos últimos tempos, mesmo sem querer, vivia pensando no passado, usando-o como termo comparativo. De repente, se deu conta de que adorava o espaço da apertada sala que dividia com Daniel, da pitoresca presença de Gustavo. Como era bom trabalhar na hora que quisesse, fazendo um serviço razoável, tendo a companhia de um amigo fantástico!... Era feliz e não sabia. Ou sabia, mas pensava que poderia ser ainda mais feliz. Total engano. Se pudesse, voltaria correndo para aquela sala e continuaria levando sua vida exatamente como antes.
            Sentindo-se isolada, as mensagens que trocava com Leon e Daniel eram paliativos. Queria contar um monte de coisas, desabafar... estranho fazê-lo através de e-mails que sequer sabia quando seriam lidos. Não tinha vontade de escrever o que precisava dizer com a própria voz. Seria bem diferente se pudesse ligar ou mesmo encontrar Daniel, Helena, Leon... Queria olhar nos olhos de um amigo que, mesmo nada dizendo, a faria sentir-se viva, estimada. Estava perdida, triste, insatisfeita.
            Não adiantava mudar de cenário, só agora compreendia. Fugira do Brasil para livrar-se de antigos problemas, mas havia se emaranhado em nova série ainda pior de complicações. Tudo sempre voltava à estaca zero. Tinha a sensação de ser e estar num imenso cofre, trancafiada do lado de dentro, lacrada para o lado de fora.

            A supervisora voltou a cobrar o endereço residencial. Liz disse não ter ainda alugado novo imóvel. A resposta desagradou à mulher, a questão tinha de ser resolvida imediatamente.
            Não sabia por quanto tempo conseguiria se esquivar do problema, mas enquanto estivesse trabalhando por duas pessoas achava que talvez a deixassem um pouco de lado.
            Notava que sua imagem começava a incomodar a chefe, e também a si mesma. Apesar de alguns quilos mais magra, sentia-se flácida, o ventre proeminente, gordura localizada; cabelos sem corte, quebradiços e ressecados, raízes brancas à mostra; roupas fora de moda e desgastadas... Sentia-se cada vez mais feia, velha, descuidada. A triste situação agravava-se ainda mais quando se comparava a Hendrik, na flor da idade, belo, forte, saudável.

            A amizade entre Hendrik e Derek parecia indestrutível. Gostaria que o namorado se afastasse do outro, mas não se achava no direito de pedir tal coisa. Uma noite, chegando do trabalho, encontrou Hendrik conversando com Derek em frente ao prédio vizinho. Foi até onde estavam e, interrompendo a conversa deles, pegou as chaves da mão de Hendrik, dizendo:
            — Vê se não demora muito. Eu tenho uma surpresa pra você.
            Beijou a boca de Hendrik, e deu-lhes as costas, seguindo calmamente para a entrada do prédio ao lado.             Não tinha surpresa alguma, queria mesmo irritar Derek.
            Ia enfiar a chave na fechadura quando ouviu Hendrik gritar em sua direção:
            — Corre Liz, corre! O Derek...
            Virando-se, num sobressalto, viu Derek precipitar-se para ela com a raiva de quem tinha sido insultado.             Poderia ter entrado depressa no prédio, mas não esboçou reação alguma. Furioso, Derek jogou-a no chão e começou a agredi-la, esbofeteando-a, chutando-a, xingando-a. Inerte, ela deixou-se espancar. Enquanto apanhava, via o rosto de Hendrik, perplexo, incrédulo. Ele não fez nada para conter Derek. Foi socorrida por rapazes que passavam, e que afastaram Derek do local. Sempre olhando para Hendrik, sem dizer palavra, Liz se levantou, abriu a porta do prédio e entrou.
            “Que humilhação... agredida na rua como uma vadia. Que decepção... Hendrik não fez nada pra me ajudar...”, pensava, deitada na cama, o corpo dolorido. Vontade de chorar de desgosto. A que ponto haviam chegado. Hendrik parecia não acreditar no ocorrido. Resmungava que Derek tinha agido mal, precisava falar com ele, aquilo não ia ficar assim, ele tinha que pedir desculpas... “Por que você não se defendeu?”, Hendrik perguntava. Em vez de responder, ela lhe fazia mentalmente a mesma pergunta: “Por que você não me defendeu?”. Fechou os olhos, virou para o lado. Nunca havia se sentido tão infeliz.

            Nevava quase todas as noites, o que fazia a cidade parecer mais limpa. Hendrik a convidou para um passeio noturno. Desde o incidente com Derek ele a vinha tratando com maior atenção, dizia ter cortado definitivamente relações com o vizinho. Liz mantinha-se neutra, não queria ser acusada de responsável pela separação dos dois. O azul-escuro do céu realçava a beleza da lua cheia. A neve tinha acabado de cair, era agradável caminhar pelo manto branco fazendo-o estalar sob o peso das passadas. Dezembro. Amsterdam toda enfeitada para o Natal. No meio da praça mais importante da cidade, um enorme pinheiro natural ornado com bolas coloridas. Festival de luzes e cores no interior da Centraal Station. Nos barcos estacionados nos canais, nas pontes, janelas, em fachadas inteiras minúsculas lâmpadas cintilavam. A neve dava um toque especial àquele mundo luminoso multicolorido. Em algumas ruas do Centro era possível assistir corais de crianças cantando músicas natalinas. Ela, que sempre tivera desprezo pelo Natal, agora se emocionava com as vozes infantis, com a decoração festiva. Saudade da família, dos amigos.
            Hendrik comprou um pinheiro para enfeitar o apartamento. Confessou a Liz que nunca havia feito aquilo, e estava muito contente em decorar a árvore de Natal com ela. Liz sabia o motivo para a animação dele: seria o primeiro Natal que Hendrik não passaria sozinho. Apiedou-se.
            Apesar das demonstrações de carinho do namorado, ela não estava feliz. Faltava algo importante demais para ser substituído pelo precário “amor” de uma única pessoa. Longe dos amigos, da família, sentia-se definhar. Sempre acreditara que viveria muito bem longe dos pais. Até saudade da infância chegava a sentir — mesmo tendo detestado ser criança. Seus pais, sua avó, tinham idade, não durariam para sempre, não gostaria de estar afastada enquanto envelheciam e necessitavam de sua ajuda, carinho, amor... Mas Hendrik também precisava dela. Dilema insolúvel. Deveria saber que nunca teria ao mesmo tempo o que agora a dividia. Não podia ter se apaixonado por alguém distante das outras pessoas que amava. Tarde demais. Estava demasiado ligada a Hendrik para abandoná-lo. Jamais seria feliz por inteiro.

            O Natal passou. O novo ano começava. O trabalho na Beamy continuava desgastante. Já não sentia prazer em se comunicar com os amigos pela Internet. Estava farta de restringir os assuntos, não ter notícias agradáveis e interessantes a dar. Leon e Daniel sempre comentavam tantas coisas diferentes!... Pareciam viver um monte de novidades proibidas a ela. Sentia-se excluída, limitada e condenada a uma vida incerta, insegura, vazia. A supervisora continuava cobrando a definição do endereço, o telefone não parava de tocar em sua mesa, a equipe de atendentes que falava português ainda estava desfalcada... Às vezes tinha vontade de pegar a bolsa e sair no meio do expediente para nunca mais voltar.

            Chegou em frente ao prédio exausta, a cabeça zumbindo de tantos telefonemas atendidos. Tudo o que desejava era deitar, descansar. Gostaria de ter feito compras para o jantar que queria preparar no dia seguinte, em comemoração ao aniversário de Hendrik, 22 anos. Mas estava muito cansada. Melhor faltar à Beamy no dia seguinte.
            Não precisou tocar o interfone, um morador acabava de abrir a porta para entrar. Subiu a escada, a porta do apartamento apenas encostada a surpreendeu. Na sala escura, Plexus e Nexus miaram reconhecendo-a. Ficou assustada. Hendrik era sempre tão cuidadoso, jamais teria deixado a porta encostada, principalmente com os gatos na sala. Onde estaria ele? Antes de acender a luz, ouviu sons vindos do quarto, de porta fechada. Vozes sussurrando palavras incompreensíveis, gemidos abafados. Procurando não fazer ruído, girou a maçaneta da porta. Uma nesga deixou que visse Hendrik e Derek, iluminados pela luz das velas, nus na cama. Hendrik deitado, Derek sentado sobre ele, acariciando-o, beijando-o enquanto movia o corpo magro num compassado vai-e-vem. Sentiu vontade de gritar, correr, sumir. Mas não conseguia mover-se. Paralisada, vendo a cena, tremia de horror, assombro, nojo. Queria fechar os olhos, fechar a porta, mas seu corpo não a obedecia. Não conseguia entender. Por quê? Hendrik dissera ter cortado relações com Derek. Que grotesca demonstração de intimidade era aquela? E por que na cama que já acreditava ser sua? Por que ele não a traiu no apartamento de Derek, onde jamais os descobriria? Prostrado, certamente drogado, ele gemia sob Derek, sentiria prazer? O outro serpenteava seu corpo, intensificava os movimentos, sentia prazer.
            Desceu as escadas escorando-se à parede. Aonde iria agora? Não tinha mais onde se refugiar. “Por quê? Por quê? Por quê?”, perguntava-se, aturdida.
            No Albergue da Juventude, pagou por um pernoite. No dormitório, deitada numa cama de solteiro, virada para a parede, chorou sem privacidade sua amargura.

            No dia seguinte, no aeroporto, telefonou para a mãe perguntando se ela realmente concordava em pagar a passagem aérea.
            Durante algumas horas esperou no setor de embarque. Tentou não pensar em Hendrik, mas, no dia do aniversário dele, isso era impossível. Teria sentido sua ausência? Teria procurado por ela? Isso já não era tão importante, ele não a amava. Em todo caso, ainda que não quisesse, daria um presente de aniversário a ele: sua partida. Foi até a agência dos correios no aeroporto. Ditou o curto texto do telegrama: “Descobri que você não me ama. Adeus”.
            Apenas com a roupa do corpo, entrou no avião. Na decolagem, pensou: “O importante é não sofrer, e, se possível, ter alguma liberdade...”

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