O
treinamento na Beamy a tinha deixado familiarizada
com o serviço. Gostava da empresa e esperava
gostar do emprego também. Ainda era estranho
saber que trabalhando no suporte técnico
forneceria informações aos clientes
para solucionarem problemas com seus computadores.
Logo ela, que nunca entendera daquele assunto
desinteressante.
Havia
adquirido domínio satisfatório
no atendimento à clientela. Praticando
a conversação atualizava seu vocabulário.
Muitos clientes enviavam mensagens pela Internet,
outra opção de contato oferecida
pela Beamy. Conectada o dia inteiro, esclarecia
dúvidas por escrito, e também
tinha chance de se comunicar com os amigos no
Brasil. A forma ágil de correspondência
a ajudava a aliviar a tensão no trabalho.
Leon e Daniel não demoravam muito a responder
seus e-mails.
Após
ter devolvido a chave do apartamento a Niek,
começou a procurar local para ficar.
Por sorte, o contrato de experiência e
treinamento com a Beamy tinha sido assinado
quando faltavam apenas dois dias para expirar
o contrato de aluguel do apartamento da Schinkelhavenstraat
— endereço que ficou registrado
nos arquivos da empresa. Sorte que a deixava
apreensiva. Sem poder fornecer o endereço
de Hendrik como seu também — já
que isso o faria pagar impostos e taxas mais
altos —, precisava encontrar um novo imóvel
para atualizar o endereço nos arquivos
da Beamy, bem como na polícia para estrangeiros
e no banco. Fazia algum tempo que não
voltava ao antigo apartamento para buscar a
correspondência. Sentia vergonha de não
poder dizer a Niek o novo endereço para
o qual ele deveria reencaminhar as cartas dela.
Tinha
procurado o elegante Mr. Cliff, mas ele lamentou
ter apenas apartamentos muito caros e de curta
temporada. Havia procurado também Mrs.
Arezzo, mas a mulher não encontrou um
imóvel com aluguel que Liz pudesse pagar.
Decidiu
procurar ela mesma um novo espaço para
morar. Hendrik não a ajudava. A inércia
dele a confundia: ao mesmo tempo em que demonstrava
querer que Liz permanecesse em seu apartamento,
achava bom que ela encontrasse outro lugar para
ficar. Às vezes achava que Hendrik tinha
medo de que alguém o denunciasse ao governo,
havia uma pesada multa para quem mantinha moradores
clandestinos. Se Hendrik arranjasse emprego,
poderiam dividir as despesas. Mas a possibilidade
de trabalho para ele ainda era remota. Desanimado
por ter de repetir a matéria que ficara
devendo para a conclusão do curso, Hendrik
não se interessava em procurar serviço
algum.
Liz
começou a dedicar os fins de semana na
busca por um apartamento. Nos jornais, quando
encontrava imóvel apenas para uma pessoa
o aluguel era muito alto, ou o bairro afastado.
Em alguns anúncios pessoas procuravam
outras para dividir o mesmo espaço. A
hipótese não lhe agradava, mas
resolveu telefonar para uma garota que buscava
outra que falasse espanhol como companheira
de moradia.
Ao
telefone a moça pareceu simpática.
Embora o imóvel ficasse longe do Centro,
da Beamy e do apartamento de Hendrik, Liz marcou
uma visita. Pensou no lugar apenas como mero
endereço. Talvez, pagando sua parte nas
despesas, nem precisasse morar no local.
Apesar
de sujo e desarrumado, o apartamento não
era ruim. A pessoa que dividira o imóvel
anteriormente com a garota havia pedido para
usar o endereço por mais três meses
— o que não permitia que Liz se
registrasse como moradora, nem pudesse fornecer
o endereço para correspondência.
Acabou desistindo. Melhor ficar na clandestinidade
da Compagniestraat.
Meio
perdida no bairro que não conhecia muito
bem, tomou o bonde errado. Atrasou-se mais do
que pretendia. De manhã, tinha ligado
para a Beamy avisando que chegaria um pouco
mais tarde. Estava demasiado atrasada. Resolveu
não ir trabalhar.
O
verão que nem havia chegado a ver e sentir
direito cedia lugar ao outono. Nos parques,
a vegetação começava a
tingir seu guarda-roupa com tons amarelos, vermelhos,
alaranjados... O frio já se fazia sentir,
o céu começava a ficar cinzento.
Sem saber explicar a si mesma o motivo, caminhava
tristonha pela cidade. Entrou no Vondelpark.
Pela primeira vez, desde que chegara na cidade,
sentou num dos bancos, observando o panorama
ao redor.
O
tempo passava depressa, mas era como se tivesse
estacionado num ponto que apenas Liz podia perceber.
Por que mais uma vez o tédio ressurgia?
Por que, apesar de tudo, não estava satisfeita?
Apesar de tudo... O que era preciso para ser
feliz? Um conjunto de coisas. Emoções,
sentimentos, lembranças, pessoas, prazeres,
conquistas... Lembrou de Leon, que dizia que
ela não valorizava suas conquistas. Talvez
ele estivesse certo. Em pouco tempo Liz havia
mudado seu modo de viver, como sempre quisera.
Tinha atravessado um oceano, conseguido documentos
importantes num tempo relativamente curto, partira
de Lisboa rumo a Amsterdam, encontrara apartamento
como um milagre, arranjara empregos... Tudo
feito por causa de seu amor por Hendrik. Ele
a tinha motivado a realizar seus sonhos mais
audaciosos. Por que sentia como se nada tivesse
feito, como se estivesse de mãos vazias?
O que buscava afinal? O tempo todo estivera
enganada? Não, não havia equívoco
algum. A verdade dos desejos concretizados era
diferente do que idealizara. Seria sempre assim?
O que se queria nunca era o que se obtinha,
mesmo quando se parecia exatamente com o imaginado?
Mas havia sutis diferenças que precisava
levar em conta. Muito do que almejava havia
conseguido, mas o objetivo final — e também
início daquele processo —, ainda
não correspondia ao que ela considerava
ideal. Fator que tinha peso suficiente para
influenciar todo o resto. Depois de tantas lágrimas
e gritos, brigas e reconciliações,
o relacionamento com Hendrik ainda não
a satisfazia. Seria querer demais? Parecia tão
perto daquele desejo — por que não
conseguia segurá-lo? Sempre havia acreditado
num período de adaptação
em que se conhecia melhor a pessoa, deixando-se
conhecer também. Depois disso, era fácil
saber o que mudar no outro e o que mudar em
si mesmo para o relacionamento ficar perfeito.
Agora sabia que não existiam relações
perfeitas. Nenhum período de adaptação
poderia ser tão longo. Mas não
podia culpar Hendrik por ele não querer
mudar, não podia sentir-se culpada por
não conseguir fazê-lo mudar. Disposta
a se modificar, sentindo que muito já
havia transformado em si mesma para moldar-se
aos hábitos de Hendrik, não via
reciprocidade da parte dele. “Cativar
e ser cativado... Só iniciar um relacionamento
quando encontrar a pessoa certa... A pessoa
certa só existe na minha cabeça...”
Se
o homem ideal não existia, talvez fosse
difícil satisfazer-se com um arremedo
dele. Se ao menos não fosse tão
exigente... Por mais que Hendrik estivesse disposto
a se modificar, seria incômodo presenciá-lo
fazendo concessões para se assemelhar
à mentira na qual se veria forçada
a acreditar. Igualmente desagradável
moldar-se às necessidades do outro somente
para não perdê-lo. Não,
não queria obrigar ninguém a coisa
alguma, não queria mutilar-se. Queria
apenas encontrar o ponto de equilíbrio.
“O importante é ser feliz...”,
refletiu, sentindo que desejava o impossível.
Atribuindo
sua melancolia ao outono, deambulou pela cidade
fazendo hora. Sem uma cópia da chave
do apartamento — que Hendrik não
lhe permitira fazer —, precisava esperá-lo
voltar do curso para entrar em casa. Vendo-se
adiantada, sentou junto à porta do prédio.
Pacientemente
aguardou, como a mãe que espera o filho
pequeno retornar da escola, feliz por vê-lo
novamente, por continuar a cuidar dele, educá-lo,
amá-lo. Assustou-se com as idéias
maternais. Percebeu que, no fundo, tinha expectativas
de modelar Hendrik ao seu padrão de homem
ideal, como se fosse possível criar um
ser a partir de um corpo já existente,
incutindo nele apenas valores nobres. Hendrik
era uma criança rebelde, um homem feito.
Sentada
na frente do edifício, viu, surpresa,
quando ele e Derek deixaram o prédio
vizinho. Não a tinham visto ainda, e
conversavam animadamente. Pareciam tão
contentes que Liz ficou constrangida com a alegria
deles. Uma ponta de inveja mesclada a ciúme
cravou-se em sua mente. Não imaginava
que Hendrik ainda encontrasse Derek, principalmente
no apartamento dele. Hendrik não havia
dito que não visitava mais o amigo, ela
é que na ânsia de anular a presença
do outro, e sabendo que os jantares com Derek
eram coisas do passado, tinha acreditado que
eles não mais se viam. Assim que se deram
conta de Liz, estática diante da porta,
o comportamento dos dois mudou bruscamente.
Hendrik ficou pálido, Derek fechou a
cara, e ambos se afastaram sem dizer palavra.
—
Aconteceu alguma coisa no seu trabalho? —
perguntou Hendrik, tentando disfarçar.
—
Eu achei que você estivesse no curso.
Você não tinha aula hoje? —
falou ela.
—
Tinha, quer dizer, tive, mas acabou cedo. Então
resolvi estudar com o Derek.
—
Eu não sabia que ele dominava o inglês
tão bem a ponto de te ajudar.
—
O Derek me faz perguntas, lê as lições,
passa exercícios...
Por
que não havia falado com ela a respeito
daquilo? Teria dito a verdade? O que mais estaria
escondendo? Melhor não tomar satisfações
sobre um assunto fadado a causar desavenças.
—
E você? Por que saiu mais cedo? —
indagou ele, abrindo a porta do prédio.
—
Eu não fui trabalhar. Acabei me atrasando
na visita ao apartamento.
—
E você gostou do lugar?
—
Não. É muito longe, e eu não
ia poder usar o endereço.
—
Você pode ficar aqui o tempo que quiser,
Liz.
—
Mas isso não resolve o meu problema.
Eu preciso de um endereço, e não
posso usar o seu. Estou com medo que descubram
na Beamy que eu não tenho domicílio,
isso pode me prejudicar.
—
Vou ver se arranjo um emprego. Se eu conseguir
um trabalho que me pague mais que o seguro do
governo registro você no meu apartamento.
Mal
pôde acreditar. Ele havia tomado a iniciativa,
parecia até interessado nos problemas
dela. Teria agido assim se não fosse
flagrado com Derek? A atitude inesperada de
Hendrik mais que agradá-la, deixou-a
intrigada. Sentia vontade de lhe fazer mil perguntas,
mas, temendo quebrar o período de trégua
que havia se estabelecido, nada perguntou.
Chegou
mais cedo ao trabalho no dia seguinte, a consciência
pesada por ter faltado. No corredor, abordada
pela supervisora, foi informada que por faltar
no dia anterior sem avisar, perdera um dia das
férias a que já tinha direito.
Sem entender a quê a supervisora se referia,
pediu explicações. Como uma máquina
de ditar regras, a mulher esclareceu que se
Liz quisesse faltar deveria telefonar para informar
sua ausência antes das oito da manhã,
evitando assim que sua mesa entrasse automaticamente
na lista de telefones ativados. A supervisora
explicou também que Liz possuía
doze dias de férias percentuais, que
precisavam ser tiradas até o fim do ano.
Um
mundo de normas e procedimentos que aumentavam
a cada dia. Para funcionar adequadamente precisaria
estar mais atenta.
O
inverno se antecipava. No princípio de
outubro o frio já era intenso. O clima
desfavorável a fazia pensar com apreensão
em suas férias. O verdadeiro inverno
começaria no fim de novembro, tinha pouco
mais de um mês para decidir quando aproveitar
os doze dias de descanso. Agora que podia planejar
férias não tinha dinheiro para
gastar.
Ainda
não havia encontrado o novo apartamento.
Estava convencida de que fora muita sorte ela
e Leon acharem um lugar em tão pouco
tempo. Seis meses depois da partida dele ainda
tinha dificuldade em arranjar um quarto decente.
Hendrik
contraiu uma forte gripe. Durante nove dias
Liz cuidou dele. Por fim, acabou gripada também.
Precisou faltar dois dias ao trabalho, e, como
não pôde avisar com antecedência,
sabia que tinha reduzido seu tempo de férias.
Deprimido
por causa da gripe da qual tinha demorado mais
de duas semanas para se recuperar, Hendrik havia
faltado vários dias ao curso. Tinha voltado
a fumar mais do que o normal para compensar
os dias em que, doente, não tinha podido
fazê-lo. Começou a ficar irritadiço.
Liz, ainda convalescendo da gripe, procurava
não desagradá-lo. Achava que um
pouco da depressão de Hendrik também
havia sido provocada por ela. Se não
tivesse comentado com tanto entusiasmo a satisfação
em trocar mensagens com os amigos no Brasil...
Não imaginava que Hendrik ficaria tão
enciumado. Injusto ele se aborrecer por ela
escrever aos amigos distantes. Liz odiava Derek,
sabia que Hendrik ainda o encontrava, mas nunca
havia pedido que os dois se afastassem. Por
que Hendrik lhe exigia exclusividade?
O
período de trégua parecia chegar
ao fim. Sempre que ela começava a procurar
apartamento Hendrik se aborrecia. Não
queria que Liz morasse em outro lugar, mas também
não a registrava em seu endereço.
A história de procurar emprego para ajudá-la
não dera em nada. Nem mesmo sabia se
ele havia buscado alguma coisa. Sem ser suficientemente
claro, Hendrik dava a entender que ela queria
se mudar só para ficar com outro namorado.
Mais uma vez sentia-se ameaçado por um
rival imaginário, alguém que lhe
roubava o que nem mesmo ele aproveitava. Essas
desconfianças a desagradavam, mas sabia
que os delírios de Hendrik eram reflexo
das drogas. No período em que ele quase
parara de fumar tudo havia ficado bem mais brando.
Situação
patética. Pagava metade das despesas
do apartamento que dividia e sequer tinha cópia
da chave da porta. Hendrik alegava estar em
casa quando ela chegava do trabalho, mas nem
sempre isso acontecia. Ficar sentada na porta
do prédio, ao relento, como se estivesse
de castigo, a deixava furiosa. Que mal havia
em ter a chave que lhe permitiria entrar no
lugar pelo qual pagava? Nessas horas pensava
em ter o próprio apartamento. Hipótese
remota, bem mais depois de Hendrik dizer que
se ela se mudasse não só o relacionamento
estaria terminado, como ele ainda lhe infernizaria
a vida, obrigando-a a voltar ao Brasil. Quase
sentia vontade de enganá-lo, fazendo-o
pensar que havia voltado a seu país.
Mas quando se imaginava sozinha, num quartinho
miserável, sem amigos, ninguém
para conversar, num bairro estranho, em meio
ao frio e chuva do outono, ao gelo e neve do
inverno, passando os fins de semana trancada
em sua cela, tinha vontade de ir embora de verdade.
Olhava
o contrato assinado com a Beamy: “Ficar
ou voltar?...”, pensava, indecisa. Tanta
coisa em jogo e, ao mesmo tempo, parecia não
ter nada a perder.
Foi
chamada à sala da supervisora. Séria,
a mulher informou que na semana anterior, quando
Liz faltara dois dias sem dar explicação,
a empresa havia enviado um médico à
casa dela; o doutor tinha encontrado o senhorio,
que explicou que a última inquilina mudara-se
há alguns meses. Liz confirmou a história,
dizendo ainda não ter novo endereço.
A supervisora indagou onde ela estava morando.
Respondeu que algumas vezes ficava na casa do
namorado, outras no Albergue da Juventude —
não conseguiu evitar mentir. Com mais
seriedade ainda, a supervisora avisou que era
imprescindível regularizar o mais depressa
possível aquela situação.
Quando
Liz já dava o assunto por encerrado,
a mulher prosseguiu, dizendo que ela precisava
se decidir também quanto às férias.
Diante da insistência da chefe, rendeu-se
ao período mais conveniente à
empresa. A supervisora, determinou que Liz se
considerasse de férias a partir da semana
seguinte, ótima ocasião para ela
resolver a questão do endereço
residencial.
Olhando
pela janela do apartamento de Hendrik, observava
as árvores quase nuas balançando
os ramos ao vento, molhadas pela chuva gélida.
Férias no inverno antecipado. A chuva,
o frio e o vento a entristeciam. Os aborrecimentos
com Hendrik também. Chegou a pensar que
ele ficaria contente com as férias dela,
que proporia programas e passeios, mas Hendrik
parecia irritar-se com sua presença constante.
Talvez Liz o atrapalhasse nas coisas que costumava
fazer em sua ausência. Que coisas? Evitava
pensar no que lhe desagradaria, mas o tempo
melancólico, aprisionando-a naquela cela,
fazia com que se concentrasse exatamente no
que não queria.
Precisava
achar um novo apartamento, mas Hendrik não
o permitia e não a deixava usar o endereço
dele. De nada adiantara dizer-lhe que corria
risco de perder o emprego. Hendrik parecia até
satisfeito com a hipótese, dizia que
ela trabalhava demais, quase não tinha
tempo para ficar com ele. Agora estava ali,
disponível por dez longos dias, e Hendrik
passava a maior parte do tempo dormindo para
melhorar a aparência. Apreensiva, olhava-se
no espelho: cada vez mais magra, velha, feia...
Desanimada, sem ter o que fazer ou aonde ir,
voltava para a cama, certa de que seu sono não
seria capaz de recuperar beleza alguma.
Dez
dias de férias. Dez dias de frio e chuva.
Sem estímulo, sem dinheiro, limitou-se
a dormir, arrumar a casa, cozinhar. Não
visitou nenhum parque, não foi ao cinema,
nem aos museus, nem às boates... o mau
tempo era sempre boa desculpa. Não procurou
apartamento, não resolveu as pendências
no banco e na polícia para estrangeiros,
não procurou Niek em busca de sua provável
correspondência acumulada...
Quando
vivia no Brasil achava horrível o calor
intenso, o sol constante. Sempre havia desejado
viver num lugar frio, com céus cinzentos.
Agora odiava a neve, o vento gelado, o céu
nublado. O outono melancólico logo cederia
lugar ao inverno deprimente. Como faria para
suportar três meses de tristeza? Não
via mais a menor graça em Amsterdam.
Ainda que visitasse todos os museus, parques
e praças, fosse a diferentes bairros,
viajasse para cidades próximas, sentia
que teria a mesma sensação de
fastio e tédio que a dominava. Precisava
resolver e organizar a vida para aproveitar
as maravilhas que o mundo tinha a oferecer.
Inútil esperar Hendrik arranjar trabalho
para registrá-la. Tentando se justificar,
ele havia dito que os empregos que achara pagavam
apenas 200 gulden a mais que o auxílio
do governo. Aceitando tais trabalhos, perderia
o seguro-desemprego, teria que pagar quase o
dobro pelas taxas e impostos registrando-a como
moradora. Curioso sistema no qual a vantagem
era não trabalhar, ganhando-se mais por
não fazer coisa alguma.
Tudo
a aborrecia. Cada vez mais ciumento, Hendrik
vivia tendo pesadelos de traição.
Ela oscilava entre ficar em Amsterdam, com a
vida confusa, e voltar ao Rio, onde não
sabia o que encontraria. Quando se lembrava
das coisas que a desagradavam na casa dos pais,
achava que elas nem eram tão horríveis.
Percebia que sempre tinha sido intransigente.
Saudade da família. O que Leon havia
lhe escrito quando chegara ao Brasil ecoava
em sua mente: “Quando se está longe
de casa temos uma visão deturpada...
assim que voltamos e reencontramos a realidade
que julgávamos modificada é que
temos a verdadeira noção de que
certas coisas nunca vão mudar...”
Tentava imaginar-se voltando também,
descobrindo que criara ilusões acerca
da família. Sua maior dúvida era
não saber como seria recebida. Achava
que os familiares iriam gostar de sua volta,
mas não demorariam a fazer as mesmas
cobranças e críticas de sempre.
Além do mais, vendera o carro, não
tinha mais trabalho, nem clientes... Tudo repercutiria
de forma negativa, ótimo motivo para
novas cobranças e reclamações.
O
trabalho na Beamy dobrou de volume repentinamente.
A equipe que falava português tinha ficado
desfalcada. Agora, além de atender as
ligações dos espanhóis,
as chamadas dos portugueses também eram
encaminhadas à sua mesa. Não era
justo fazer o trabalho de duas pessoas por tempo
indeterminado sem aumento de salário.
No
fim do expediente havia atendido a mais de 60
ligações: clientes frustrados,
insatisfeitos, enfurecidos, mal educados...
Trabalho desgastante. Com cautela, indagou à
supervisora se não poderia ser transferida
de setor, atendendo apenas as chamadas vindas
de Portugal. A mulher, surpresa como se tivesse
ouvido uma pergunta absurda, respondeu rispidamente
que não.
Escrevera
a Leon sondando detalhes de como havia sido
o início de seu retorno comparado ao
presente. Ele vislumbrava possibilidades de
melhorar de vida. Liz ficou contente em saber
que o amigo tinha planos de sair de casa, estava
satisfeito no trabalho, encontrava ânimo
para escrever seu livro. Leon estava se encontrando,
o que dava esperanças a ela.
No
fim de semana telefonou para a mãe. Fazia
algum tempo que não dava notícias
à família. Procurando adotar um
tom de voz descontraído, deu a desculpa
de que fazia frio demais para ligar com a mesma
regularidade de antes. Estava tudo bem com ela,
gostava do emprego, via muitas possibilidades
futuras... Do outro lado da linha, parecendo
ignorar o que a filha dizia, D. Amália
falou que se ela não estivesse gostando
de Amsterdam poderia voltar, seria bem recebida,
todos gostavam muito dela. Acrescentou que se
Liz estivesse precisando de dinheiro eles poderiam
pagar a passagem de avião para ela. Surpresa
pela mãe ter respondido da melhor forma
possível a pergunta que não tinha
coragem de fazer, sentiu-se mais tranqüila.
No fundo, sempre havia tido pavor de não
poder voltar, por isso necessitava que a empreitada
desse certo. Lembrava as conversas com Leon,
quando haviam chegado à cidade e tinham
sérias dúvidas em conseguir se
estabelecer: preferiam se afogar nos canais
a voltar ao Brasil sem nada, se tudo desse errado.
A derrota agora não lhe parecia mais
tão assustadora que justificasse uma
fuga da vida.
Por
causa do excesso de trabalho quase não
tinha tempo para responder às mensagens
que recebia. O serviço cada vez mais
cansativo, a relação com Hendrik
sempre complicada, o dinheiro acabando antes
do previsto sem que tivesse economizado nada,
o termômetro registrando dez graus negativos...
Nos últimos tempos, mesmo sem querer,
vivia pensando no passado, usando-o como termo
comparativo. De repente, se deu conta de que
adorava o espaço da apertada sala que
dividia com Daniel, da pitoresca presença
de Gustavo. Como era bom trabalhar na hora que
quisesse, fazendo um serviço razoável,
tendo a companhia de um amigo fantástico!...
Era feliz e não sabia. Ou sabia, mas
pensava que poderia ser ainda mais feliz. Total
engano. Se pudesse, voltaria correndo para aquela
sala e continuaria levando sua vida exatamente
como antes.
Sentindo-se
isolada, as mensagens que trocava com Leon e
Daniel eram paliativos. Queria contar um monte
de coisas, desabafar... estranho fazê-lo
através de e-mails que sequer
sabia quando seriam lidos. Não tinha
vontade de escrever o que precisava dizer com
a própria voz. Seria bem diferente se
pudesse ligar ou mesmo encontrar Daniel, Helena,
Leon... Queria olhar nos olhos de um amigo que,
mesmo nada dizendo, a faria sentir-se viva,
estimada. Estava perdida, triste, insatisfeita.
Não
adiantava mudar de cenário, só
agora compreendia. Fugira do Brasil para livrar-se
de antigos problemas, mas havia se emaranhado
em nova série ainda pior de complicações.
Tudo sempre voltava à estaca zero. Tinha
a sensação de ser e estar num
imenso cofre, trancafiada do lado de dentro,
lacrada para o lado de fora.
A
supervisora voltou a cobrar o endereço
residencial. Liz disse não ter ainda
alugado novo imóvel. A resposta desagradou
à mulher, a questão tinha de ser
resolvida imediatamente.
Não
sabia por quanto tempo conseguiria se esquivar
do problema, mas enquanto estivesse trabalhando
por duas pessoas achava que talvez a deixassem
um pouco de lado.
Notava
que sua imagem começava a incomodar a
chefe, e também a si mesma. Apesar de
alguns quilos mais magra, sentia-se flácida,
o ventre proeminente, gordura localizada; cabelos
sem corte, quebradiços e ressecados,
raízes brancas à mostra; roupas
fora de moda e desgastadas... Sentia-se cada
vez mais feia, velha, descuidada. A triste situação
agravava-se ainda mais quando se comparava a
Hendrik, na flor da idade, belo, forte, saudável.
A
amizade entre Hendrik e Derek parecia indestrutível.
Gostaria que o namorado se afastasse do outro,
mas não se achava no direito de pedir
tal coisa. Uma noite, chegando do trabalho,
encontrou Hendrik conversando com Derek em frente
ao prédio vizinho. Foi até onde
estavam e, interrompendo a conversa deles, pegou
as chaves da mão de Hendrik, dizendo:
—
Vê se não demora muito. Eu tenho
uma surpresa pra você.
Beijou
a boca de Hendrik, e deu-lhes as costas, seguindo
calmamente para a entrada do prédio ao
lado. Não
tinha surpresa alguma, queria mesmo irritar
Derek.
Ia
enfiar a chave na fechadura quando ouviu Hendrik
gritar em sua direção:
—
Corre Liz, corre! O Derek...
Virando-se,
num sobressalto, viu Derek precipitar-se para
ela com a raiva de quem tinha sido insultado.
Poderia
ter entrado depressa no prédio, mas não
esboçou reação alguma.
Furioso, Derek jogou-a no chão e começou
a agredi-la, esbofeteando-a, chutando-a, xingando-a.
Inerte, ela deixou-se espancar. Enquanto apanhava,
via o rosto de Hendrik, perplexo, incrédulo.
Ele não fez nada para conter Derek. Foi
socorrida por rapazes que passavam, e que afastaram
Derek do local. Sempre olhando para Hendrik,
sem dizer palavra, Liz se levantou, abriu a
porta do prédio e entrou.
“Que
humilhação... agredida na rua
como uma vadia. Que decepção...
Hendrik não fez nada pra me ajudar...”,
pensava, deitada na cama, o corpo dolorido.
Vontade de chorar de desgosto. A que ponto haviam
chegado. Hendrik parecia não acreditar
no ocorrido. Resmungava que Derek tinha agido
mal, precisava falar com ele, aquilo não
ia ficar assim, ele tinha que pedir desculpas...
“Por que você não se defendeu?”,
Hendrik perguntava. Em vez de responder, ela
lhe fazia mentalmente a mesma pergunta: “Por
que você não me defendeu?”.
Fechou os olhos, virou para o lado. Nunca havia
se sentido tão infeliz.
Nevava
quase todas as noites, o que fazia a cidade
parecer mais limpa. Hendrik a convidou para
um passeio noturno. Desde o incidente com Derek
ele a vinha tratando com maior atenção,
dizia ter cortado definitivamente relações
com o vizinho. Liz mantinha-se neutra, não
queria ser acusada de responsável pela
separação dos dois. O azul-escuro
do céu realçava a beleza da lua
cheia. A neve tinha acabado de cair, era agradável
caminhar pelo manto branco fazendo-o estalar
sob o peso das passadas. Dezembro. Amsterdam
toda enfeitada para o Natal. No meio da praça
mais importante da cidade, um enorme pinheiro
natural ornado com bolas coloridas. Festival
de luzes e cores no interior da Centraal Station.
Nos barcos estacionados nos canais, nas pontes,
janelas, em fachadas inteiras minúsculas
lâmpadas cintilavam. A neve dava um toque
especial àquele mundo luminoso multicolorido.
Em algumas ruas do Centro era possível
assistir corais de crianças cantando
músicas natalinas. Ela, que sempre tivera
desprezo pelo Natal, agora se emocionava com
as vozes infantis, com a decoração
festiva. Saudade da família, dos amigos.
Hendrik
comprou um pinheiro para enfeitar o apartamento.
Confessou a Liz que nunca havia feito aquilo,
e estava muito contente em decorar a árvore
de Natal com ela. Liz sabia o motivo para a
animação dele: seria o primeiro
Natal que Hendrik não passaria sozinho.
Apiedou-se.
Apesar
das demonstrações de carinho do
namorado, ela não estava feliz. Faltava
algo importante demais para ser substituído
pelo precário “amor” de uma
única pessoa. Longe dos amigos, da família,
sentia-se definhar. Sempre acreditara que viveria
muito bem longe dos pais. Até saudade
da infância chegava a sentir — mesmo
tendo detestado ser criança. Seus pais,
sua avó, tinham idade, não durariam
para sempre, não gostaria de estar afastada
enquanto envelheciam e necessitavam de sua ajuda,
carinho, amor... Mas Hendrik também precisava
dela. Dilema insolúvel. Deveria saber
que nunca teria ao mesmo tempo o que agora a
dividia. Não podia ter se apaixonado
por alguém distante das outras pessoas
que amava. Tarde demais. Estava demasiado ligada
a Hendrik para abandoná-lo. Jamais seria
feliz por inteiro.
O
Natal passou. O novo ano começava. O
trabalho na Beamy continuava desgastante. Já
não sentia prazer em se comunicar com
os amigos pela Internet. Estava farta
de restringir os assuntos, não ter notícias
agradáveis e interessantes a dar. Leon
e Daniel sempre comentavam tantas coisas diferentes!...
Pareciam viver um monte de novidades proibidas
a ela. Sentia-se excluída, limitada e
condenada a uma vida incerta, insegura, vazia.
A supervisora continuava cobrando a definição
do endereço, o telefone não parava
de tocar em sua mesa, a equipe de atendentes
que falava português ainda estava desfalcada...
Às vezes tinha vontade de pegar a bolsa
e sair no meio do expediente para nunca mais
voltar.
Chegou
em frente ao prédio exausta, a cabeça
zumbindo de tantos telefonemas atendidos. Tudo
o que desejava era deitar, descansar. Gostaria
de ter feito compras para o jantar que queria
preparar no dia seguinte, em comemoração
ao aniversário de Hendrik, 22 anos. Mas
estava muito cansada. Melhor faltar à
Beamy no dia seguinte.
Não
precisou tocar o interfone, um morador acabava
de abrir a porta para entrar. Subiu a escada,
a porta do apartamento apenas encostada a surpreendeu.
Na sala escura, Plexus e Nexus miaram reconhecendo-a.
Ficou assustada. Hendrik era sempre tão
cuidadoso, jamais teria deixado a porta encostada,
principalmente com os gatos na sala. Onde estaria
ele? Antes de acender a luz, ouviu sons vindos
do quarto, de porta fechada. Vozes sussurrando
palavras incompreensíveis, gemidos abafados.
Procurando não fazer ruído, girou
a maçaneta da porta. Uma nesga deixou
que visse Hendrik e Derek, iluminados pela luz
das velas, nus na cama. Hendrik deitado, Derek
sentado sobre ele, acariciando-o, beijando-o
enquanto movia o corpo magro num compassado
vai-e-vem. Sentiu vontade de gritar, correr,
sumir. Mas não conseguia mover-se. Paralisada,
vendo a cena, tremia de horror, assombro, nojo.
Queria fechar os olhos, fechar a porta, mas
seu corpo não a obedecia. Não
conseguia entender. Por quê? Hendrik dissera
ter cortado relações com Derek.
Que grotesca demonstração de intimidade
era aquela? E por que na cama que já
acreditava ser sua? Por que ele não a
traiu no apartamento de Derek, onde jamais os
descobriria? Prostrado, certamente drogado,
ele gemia sob Derek, sentiria prazer? O outro
serpenteava seu corpo, intensificava os movimentos,
sentia prazer.
Desceu
as escadas escorando-se à parede. Aonde
iria agora? Não tinha mais onde se refugiar.
“Por quê? Por quê? Por quê?”,
perguntava-se, aturdida.
No
Albergue da Juventude, pagou por um pernoite.
No dormitório, deitada numa cama de solteiro,
virada para a parede, chorou sem privacidade
sua amargura.
No
dia seguinte, no aeroporto, telefonou para a
mãe perguntando se ela realmente concordava
em pagar a passagem aérea.
Durante
algumas horas esperou no setor de embarque.
Tentou não pensar em Hendrik, mas, no
dia do aniversário dele, isso era impossível.
Teria sentido sua ausência? Teria procurado
por ela? Isso já não era tão
importante, ele não a amava. Em todo
caso, ainda que não quisesse, daria um
presente de aniversário a ele: sua partida.
Foi até a agência dos correios
no aeroporto. Ditou o curto texto do telegrama:
“Descobri que você não me
ama. Adeus”.
Apenas
com a roupa do corpo, entrou no avião.
Na decolagem, pensou: “O importante é
não sofrer, e, se possível, ter
alguma liberdade...”