Entendeu tudo errado. Confundiu piedade com amor doentio. Se tivesse olhado mais para si mesma e sua situação caótica, teria percebido a diferença. Mas tive culpa. Em vez de alardear o amor que pretendia esconder a piedade que eu mesmo não admitia, deveria ter sido sincero, com ela e comigo. Mas quando tentei ser verdadeiro e honesto fui acusado de injusto. Paciência. Não posso desfazer o que fiz, e não me arrependo de tê-lo feito. Só queria ajudar. Talvez até tenha sido rude, principalmente com o eco produzido pela carta de Daniel, mas foi a única forma que encontrei de fazê-la enxergar o que parecia uma realidade que se recusava a ver. Não deu certo, e ainda acabei sendo o vilão da história. Sua carta confusa — na qual ao mesmo tempo em que me censurava por eu ter dito o que pensava, excedia-se em pedidos de desculpa —, soava-me muito estranha. A única novidade: ela havia começado o treinamento na empresa americana. Certamente, o novo trabalho a deixaria mais estável — o que deveria melhorar o restante. No final da carta, deixava a responsabilidade pelo futuro de nossa amizade em minhas mãos. Entretanto, estabelecendo limites, aprisionou-me num beco-sem-saída: concedia-me o direito de discordar dela, mas exigia que tudo o que eu dissesse fosse revestido de absoluto positivismo.
            Estava ressentido. Por mais que tentasse não dar importância, Liz ainda me preocupava. Mas, depois do mal-entendido de nossas cartas, me preocupava menos que antes. Meu novo trabalho e nova vida me ocupavam demasiado para que eu destinasse parte do meu tempo a alguém que me considerava inimigo.
            Já dava o assunto por encerrado quando Daniel me telefonou.
            — Alguma notícia de Amsterdam? — indagou.
            Não nos falávamos fazia algum tempo. Ele, por causa do trabalho, as funções de pai; eu, por aproveitar o tempo livre para escrever meu livro.
            — Ainda não — respondi.
            — Desde a última carta que a Liz me enviou que eu não tenho notícias dela. Será que ficou muito zangada?
            — Talvez...
            — Ainda ontem eu comentei com a Sílvia que essa nossa mania de querer fazer o que é certo, sem ter certeza disso, ainda vai nos levar a uma catástrofe.
            — Eu acho que a catástrofe já aconteceu, pelo menos comigo. Não acredito muito que a Liz me escreva de novo.
            — Eu ainda tenho esperança que ela consiga reencontrar a lucidez, lembrando como já fomos unidos. Preciso explicar um monte de coisas a ela. As nossas cartas foram duras, pelo menos a minha foi. Eu continuo tendo a mesma opinião sobre o caso, mas respeito o que a Liz está sentindo. E vou fazer exatamente o que ela me pediu. Não quero que ela pense que me decepcionou.
            — Eu também queria esclarecer coisas mal-interpretadas, mas não estou com pressa.
            — A Liz não é mais a mesma, ela precisa de ajuda. Eu demorei a entender isso porque me deixei levar pela ansiedade e preocupação. Eu quero recuperar o tempo perdido. Você tem o endereço do Hendrik? Quero escrever logo pra ela.
            — Que bom que você vê uma possibilidade de ajuda. Eu também queria ajudar de algum modo, mas só me restou um: ficar afastado dela. Espero que você encontre um jeito de consertar o que a sua preocupação causou à nossa amiga.
            — Acho que a gente não precisa chegar a extremos. Eu tenho certeza que a Liz não pensa assim. Ela deve estar cansada de ficar na berlinda. É melhor a gente encarar o pedido que ela fez pra não nos metermos na sua vida como um toque, uma mudança de atitude que só vai trazer benefícios. Eu não agüento mais o festival de notícias desagradáveis. Todos nós passamos por momentos difíceis, e quando há questões pessoais em jogo o caso se torna delicado.
            — Eu também estou cansado dessa história. Ainda me considero amigo da Liz, mas acho que ela não vê as coisas assim. Às vezes eu me sinto estúpido por ter me deixado levar pelas alucinações dela. Eu devia ter percebido isso. Me sinto culpado por ter passado as minhas preocupações exageradas pra você e pra Sílvia...
            — O nosso problema foi a incapacidade de lidar com a separação. Quando vocês viajaram eu achei que o mundo ia acabar, que eu nunca mais reencontraria vocês... Essa história da gente viver o presente como se não existisse um depois me confunde um pouco.
            — Não posso me incluir nesse caso. Eu entendi muito bem a separação. Estava satisfeito quando deixei Amsterdam, eu tinha a sensação de que mesmo sozinha a Liz estaria bem. O meu erro foi me tranqüilizar com isso.
            — Tenta ver as coisas de outro modo. São apenas convivências diferentes passando por instantes críticos. Você também não é mais o mesmo. Agora você é o Leon que morou com uma amiga na Europa por alguns meses, viveu numa cidade como um alienígena faria em outro planeta, a sua experiência foi única...
            Nosso diálogo me soava estranho, parecíamos não dizer coisa com coisa. Cada um falava a si mesmo em lugar de ouvir e comentar o que o outro dizia. Talvez Daniel não estivesse acostumado a escutar outro além de si próprio. Por minha vez, tentava fazer o mesmo que ele. Um desnorteava o outro. Cabia a mim pôr fim àquela conversa.
            — Você quer o endereço do Hendrik, não?
            — Por favor.
            Apanhei o caderno em que havia anotado a informação.
            Sentimentos contraditórios me dominavam depois do telefonema de Daniel. Ele parecia bem mais amigo de Liz do que eu, bem mais disposto a esquecer o incidente das palavras duras que lhe tínhamos escrito, das duras palavras que ela nos enviou de volta. Eu queria que Liz continuasse sendo minha amiga, queria continuar sendo seu amigo, sentia sua falta... ao mesmo tempo, não queria saber nada a seu respeito, queria esquecer sua existência, tinha raiva dela, sentia-me injustiçado por querer ajudá-la.

            Eu mesmo havia confundido minha piedade com amor. Relendo as cópias das cartas que enviara a Liz, me surpreendi. Confessava um amor impossível de matar. Por que fiz isso? O que pretendia? Que Liz me amasse à distância? As cartas escritas por mim já não coincidiam em nada com meu modo de pensar. Como não interpretar erroneamente palavras que pareciam tão claras? Liz estava com a razão, e eu estava pasmo. Devia estar tomado pela emoção. Como tinha conseguido me livrar daquele sentimento sem o perceber? Não entendia. Mas, apesar do constrangimento de constatar que, pelo menos nesse ponto, Liz estava certa, eu me sentia como se tivesse me livrado de um peso do qual só agora me dava conta. Um ciclo havia se encerrado, definitivamente.

            Era funcionário da agência fazia três meses. Depois de um período de trabalho intenso, por causa de uma importante conta recém-adquirida, a atmosfera da empresa ficou menos tumultuada. Submeter-me às regras relativas à função, me entrosar com a equipe, mostrar bons resultados trabalhando sob pressão não deixaram de ser um teste, no qual fui aprovado.
            Eu gostava do ambiente de trabalho, das pessoas simpáticas e interessadas. Com sua experiência, Cláudio proporcionava um clima tão harmonioso que a relação entre patrão e empregados era bastante leve. Cláudio nos tratava como se possuíssemos qualidades únicas, tivéssemos tanta importância quanto ele mesmo. O que mais me agradava na agência era a predisposição espontânea das pessoas em ajudar, orientar, ensinar, e também em serem ajudadas, orientadas, em aprender. A constante troca de informações fazia com que cada um crescesse, contribuindo para o trabalho em equipe.
            Podia considerar-me uma pessoa de sorte. Depois da desastrosa experiência de fuga, da terrível doença, da depressão havia conseguido me recuperar, começava a me reerguer de forma relativamente rápida. Bastante razoável o salário que eu recebia. O trabalho agradável com ordenado fixo repercutia de forma positiva em mim. Sentia-me outra vez inteiro, participante, com uma ocupação útil. Ainda estava surpreso pela rapidez com que tudo se passara. Com o dinheiro, saldei as dívidas com minha mãe, ajudava nas despesas da casa, economizava. Dinheiro, estranha energia motivadora. Recompensado financeiramente pelo trabalho, começava a traçar planos. Escrever meu livro, ter independência, conquistar a liberdade... Alívio e sensação de tranqüilidade cresciam em mim. Um pouco de dinheiro havia mudado radicalmente uma série de coisas. De novo preso nas engrenagens de um sistema cada vez mais difícil de entrar, cada vez mais necessário. Eu não tinha do que reclamar. Pelo menos a princípio, tudo estava dando certo. Isso me fazia ver que eu não havia tomado a decisão errada ao deixar Amsterdam. De volta ao Brasil, tinha reencontrado pessoas que gostavam de mim e queriam me ajudar, havia tido chance de obter emprego por meu próprio esforço. Sentia-me confiante, estimulado a seguir em frente.
            O trabalho não me pesava, mas a atmosfera familiar ainda incomodava. Desgastante voltar para casa, tão longe do Centro, depois do expediente. O ônibus ficava retido em congestionamentos, demorava cerca de duas horas para me fazer chegar em casa. Eu tentava aproveitar as horas no coletivo lendo, mas acabava cochilando — sono que não me descansava. Chegava exausto, como se tivesse acabado de deixar uma pedreira na qual havia trabalhado o dia inteiro. No começo, isso não parecia muito importante, com o passar do tempo percebi que a leveza do trabalho na agência terminava tão logo eu saía.
            Em casa, depois do banho, depois da janta, fechado no quarto, tentava escrever. Tarefa dificílima. Minha concentração dependia de uma mente relaxada. Meu cansaço físico desdobrava-se numa fadiga mental que não me deixava fazer coisa alguma senão descansar. Por mais que eu lutasse contra o sono ele sempre vencia.

            Com assuntos de sobra me ocupando, Liz havia passado para um plano mais que secundário. Às vezes pensava nela, não tanto com saudade, mas com certa curiosidade. Esperando que ela enviasse o novo endereço, não me atrevia a escrever para o apartamento de Hendrik. Tampouco sabia se Daniel o havia feito. Evitava telefonar para ele, não queria ouvi-lo falar de Liz. Daniel também não me ligava. Achei que com a minha volta e a ausência de Liz fôssemos estreitar nossos frouxos laços de amizade, mas isso estava longe de acontecer — o que já não me parecia tão lamentável.
            Por que eu não sentia mais falta de Liz? Anteriormente, minha vida era vazia, carente de objetivos sensatos, meus confusos projetos estavam sempre atrelados a fatores que os tornavam irrealizáveis, por mais que parecessem possíveis. Escamoteava minhas vontades num desejo comum irreal. Criava valores inestimáveis, vinculava-os a pessoas que não estavam de acordo com meus planos e não eram suficientemente sinceras para dizê-lo. Em vez de tentar caminhar sozinho apoiava-me em muletas.
            Mas não me arrependia de meus erros. Aprendera muito. Sem passar por tudo aquilo talvez não me sentisse agora tão confiante. Não considerava a ausência de Liz como perda. Nossa história fora uma etapa vencida que havia gerado trajetórias individuais. Não me sentia mal com o que fizera, tudo parte do processo. Fiz o que julgava certo, mas nem sempre o que fazemos dá certo. Talvez ainda não conheça todos os meus pontos fracos, mas encontrei alguns que tento corrigir. Endireitar uma existência requer tempo e dedicação. Agora me preocupo apenas comigo mesmo. Não me acho mais no direito de lamentar que as vidas dos outros se cumpram segundo suas próprias vontades, nem no direito de avaliar os métodos que empregam para tal.

            Defini dois planos principais: escrever e sair de casa. O dinheiro conseguido com o trabalho me fazia progredir, e alimentar meus projetos. Achando inútil investir num equipamento obsoleto, acabei comprando outro computador, de segunda mão, porém mais moderno que o modelo que eu tinha. No micro a escrita tornava-se ágil, e assim esbocei alguns inícios para o meu romance. Os fins de semana eram insuficientes para o quanto eu gostaria de escrever. O que me inquietava era não poder dar vazão às idéias que me ocorriam durante a semana. Eu tentava, mas o cansaço era mais forte. Se ao menos eu morasse mais perto do trabalho... Se conseguisse resolver essa questão, solucionaria de uma só vez dois problemas.
            Comecei a pesquisar preço dos aluguéis de apartamento.

            Daniel me convidou para o aniversário de um ano de sua filha. O tempo passava depressa. Tentei recusar o convite acreditando que ficaria deslocado na reunião familiar, mas Daniel disse que a festa para a família havia acontecido no último fim de semana. No fundo, também me desagradava que nosso encontro pusesse Liz na ordem do dia. Desde que ela havia respondido nossas últimas cartas, mencionando também na de Daniel a história da minha paixonite, eu me sentia constrangido em rever o casal de amigos. Não que eles desconhecessem o caso em questão, mas estar exposto daquele jeito sem ter podido me explicar fazia com que me sentisse desconfortável. Situação que precisava enfrentar.
            Cheguei na hora combinada, fui o único convidado. Os dois mostraram-se contentes com minha presença.
Daniel perguntou como iam as coisas no meu trabalho. Eu estava satisfeito com o emprego, com a possibilidade de levar meus planos a termo. Contei que tinha comprado um computador com mais recursos. Contente com minha aquisição, falou que eu deveria me conectar à Internet. Ele fazia muitas pesquisas a fim de obter imagens para seus projetos, participava de grupos de conversação, fazia compras, se correspondia com pessoas do mundo inteiro... Durante algum tempo contou-me as maravilhas à disposição de quem possuía um micro conectado a uma linha telefônica e um provedor.
            Sílvia cochilava no sofá, a menina brincava aos pés dela, Daniel falava, eu ouvia. Ele queria mais tempo para ler. Lembrou-se dos encontros que tínhamos em seu apartamento para tardes de leitura e debates. Senti saudade daqueles momentos, saudade do velho Daniel e seus discursos inflamados, saudade da voz de Liz tornando vivas as palavras impressas... Por um instante flutuei numa nuvem de nostalgia.
            — E como vai indo o seu livro? — perguntou Daniel.
            — Bem mais demorado do que eu imaginava. Não consigo escrever à noite.
            — E o que é? São contos, poemas?...
            — É um romance... sobre pessoas pouco comuns e os seus relacionamentos.
            — Parece interessante. E você tem tomado nota das nossas conversas no telefone, está anotando tudo que estamos falando aqui? Você podia colocar tudo isso no livro.
            Olhei-o sem nada dizer, sorri. Estranho que Daniel me incumbisse de tal tarefa, ou me julgasse interessado nela. “Que anseios secretos deposita em mim?”, pensei, sem atinar a resposta. Ele parecia querer ser um dos personagens.
            Uma semana mais tarde, acabei me rendendo ao discurso que Daniel tinha feito sobre a Internet. Telefonei para ele fornecendo meu endereço eletrônico, anotando o dele. Não demoramos a iniciar uma freqüente troca de mensagens que, surpreendentemente, soavam bem mais interessantes que nossas conversas telefônicas — já que eu também tinha espaço para dizer o que sentia vontade. Daniel era até mais tímido do que eu nos comentários que me enviava. A troca de mensagens quase diárias me satisfazia, criava uma expectativa constante. Havíamos descoberto uma forma de nos abrirmos mais, sem os constrangimentos de uma ligação telefônica ou um encontro.
            Não consegui evitar que falássemos sobre Liz. Daquela forma, não me incomodava dizer o que eu sentia, saber o que Daniel pensava. Um dia ele perguntou se podia dar meu endereço eletrônico para ela. Não me opus. Muito tempo havia se passado desde o nosso desentendimento. Talvez, desse modo prático, nossas palavras não soassem tão desastrosas.
            Liz me enviou uma mensagem inicial bastante tímida. Dizia estar usando o computador da Beamy para fazer contato, ainda estava no período de treinamento. Num texto sucinto, pedia que eu não levasse a mal o que me escrevera na última carta, disse que gostava de mim. As coisas estavam melhores para ela agora com o novo emprego. Queria que eu respondesse sua mensagem para ter certeza de que eu a recebera.
            Respondi a mensagem inicial, e as outras que começaram a chegar com regularidade. Foi relativamente fácil restabelecer nossa correspondência. As mensagens de Liz eram curtas, meio insípidas. Talvez tivesse dificuldade em reiniciar nossa amizade depois de tudo. Eu respondia sempre com boa vontade e interesse. Limitava-me a contar o que se passava comigo, evitando perguntas que sugerissem intrometimento em sua vida. Recomeçávamos com cautela.  

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