Trabalho
cada vez mais árduo no hotel, mãos
doloridas, inchadas, com rachaduras. Havia tentado
usar luvas, mas elas dificultavam ainda mais
o serviço. Endurecidas, as juntas dos
dedos a impediam de segurar firme a caneta e
responder as cartas de Leon. Queria procurar
um médico para tratar as mãos,
mas sem o contrato assinado com o hotel não
podia se beneficiar do seguro-saúde a
que teria direito com o vínculo empregatício.
Passados
sete dias do término do período
de experiência nenhum representante da
HOF ou do hotel se manifestou
em relação ao contrato de trabalho,
ao pagamento pelo prazo trabalhado. Voltou ao
centro de triagem onde estivera há cerca
de um mês. O rapaz que a atendera na primeira
vez não se encontrava na recepção.
Por trás da mesa, um senhor obeso indagou
em que poderia ajudá-la. Liz explicou
o ocorrido. O senhor, intitulando-se presidente
da
HOF,
garantiu que o dinheiro pelo período
de experiência estaria na conta de Liz
no dia seguinte. Pediu que ela retornasse, também
no dia seguinte, para assinar o contrato.
Passou
no banco na tarde do dia posterior. O dinheiro
ainda não havia sido depositado. Com
raiva, foi até a
HOF.
Encontrou o rapaz com ar bem-sucedido que a
atendera inicialmente e, como se ele tivesse
culpa, despejou de uma só vez, em voz
alta, mil desaforos sobre o diretor da empresa,
aquele gordo mentiroso. Tentado ser gentil,
o rapaz pediu que Liz ficasse calma e o aguardasse,
devia ter acontecido um mal-entendido. Depois
de alguns minutos, ele voltou trazendo o contrato
de trabalho a ser assinado. Ela disse que não
assinaria coisa alguma enquanto não recebesse
o dinheiro que lhe deviam, e ameaçou
não mais aparecer no hotel enquanto não
fosse paga. O rapaz assegurou que o dinheiro
seria depositado no dia seguinte, ele mesmo
resolveria o caso.
Descontrole
por um forte motivo. Além do não-cumprimento
do que fora combinado, Liz estava quase sem
dinheiro. Tinha faltado às apresentações
de dois fins de semana seguidos no Caldeirão,
Hendrik não aprovava aquele trabalho,
e depois estava sempre cansada. Mathias vinha
escalando-a cada vez menos para o BarHamas.
Duas precárias fontes de renda começavam
a secar. Por isso, a expectativa no pagamento
do hotel. Injusto, depois de um mês inteiro
fazendo aquele servicinho miserável,
não receber o que haviam prometido.
Ficou
com tanta raiva que resolveu cumprir sua ameaça:
não foi ao hotel no dia seguinte. De
manhã, ligou para o rapaz da
HOF,
que, educadamente, pediu que ela lhe telefonasse
na parte da tarde. Quando ligou na hora marcada
o rapaz não estava mais na empresa. Falou
com uma mulher, ciente do caso, que prometeu
que o dinheiro seria depositado no dia seguinte
pela manhã, caindo na conta à
tarde.
Para
não ter que dar explicações
a Hendrik, voltou a trabalhar normalmente no
hotel. Seu bilhete de ônibus só
lhe dava direito a mais duas viagens. O bonde,
que tomava até o ponto do ônibus,
tinha um sistema automático que geralmente
dispensava a presença do bilheteiro —
algo fácil de ser burlado. Ela usava
sempre o mesmo bilhete, que introduzia na máquina
para registrar dia e hora da viagem.
Saindo
do hotel, resolveu ir à
HOF
assinar o contrato e trocar os uniformes, bastante
gastos com as lavagens freqüentes. No caminho,
passou no banco: nada do dinheiro. Que novela
patética era aquela? Por que não
lhe pagavam? Imediatamente, tomou o bonde para
chegar mais depressa na
HOF.
No meio do percurso, entrou no veículo
um funcionário da companhia de transportes
pedindo bilhetes de alguns passageiros. Liz
foi uma das sorteadas. O fiscal, constatando
as irregularidades no bilhete dela, apreendeu
seu “passe livre”, dizendo que ele
estava fora da validade, obrigando-a a descer
na parada seguinte.
Com
ódio cada vez mais crescente, continuou
o caminho a pé. Na
HOF
foi atendida pela mulher com quem havia falado
ao telefone, que lhe informou que o pagamento
só sairia no fim do mês. Pasma,
Liz explicou que não tinha mais dinheiro
para ir trabalhar, o período de treinamento
acabara, ela estava ligando há dias para
a
HOF
e o pagamento nunca era feito... A atendente,
neutra, disse não poder interceder.
Revoltada,
humilhada, Liz deixou o local sem saber o que
fazer. Ainda era quinta-feira, não tinha
sido mais chamada ao BarHamas, se cantasse na
banda o dinheiro só sairia na madrugada
de domingo, a geladeira estava vazia, só
tinha dois gulden na carteira, o fiscal
do bonde apreendera seu tíquete... Sentou
na calçada defronte a
HOF,
começou a chorar. A mulher que a havia
atendido veio até ela. “De quanto
você precisa, Liz?”, perguntou.
Quanta vergonha... o dinheiro pelo trabalho
que fizera era seu por direito, que injustiça
mendigá-lo junto à sarjeta! Verdadeiramente
um dinheiro chorado. Recebeu 500 gulden.
Assinou o contrato e aproveitou para trocar
os uniformes.
Na
noite de sexta-feira, contrariando Hendrik,
foi ao Caldeirão saber se ainda podia
participar da banda. Ficou surpresa ao ver no
palco outro grupo. Não encontrou ninguém
da banda com a qual costumava cantar, mas descobriu
que o outro grupo agora se revezava com a banda
de Billy. Precisaria voltar na semana seguinte.
Ainda
não sabia o que era morar sozinha. Para
passar mais tempo com Hendrik, para não
ter recordações e pensamentos
que a deprimiriam, evitava ao máximo
aparecer no apartamento que dividira com Leon.
Estranho chegar em casa e não mais encontrá-lo,
sentado na poltrona, olhando pela janela. Por
mais que tivessem dificuldades de comunicação,
havia se habituado com a presença de
Leon, com a possibilidade de falar com ele.
Só agora se dava conta de que naquele
apartamento, ao lado do amigo, sentia-se mais
em casa do que durante a vida que tivera no
lar de seus pais — nem mesmo no apartamento
de Hendrik sentia-se tão à vontade.
Tarde demais. Já ia longe o dia em que
ela e Leon haviam se despedido no aeroporto,
mas às vezes sentia como se acabasse
de voltar de lá, deixando o amigo partir,
retornando a um apartamento ainda mais vazio
sem ele. O tempo parecia ter parado apenas dentro
daquele espaço nu cercado por paredes
frias. Tinha impressão de que Leon estava
prestes a chegar da rua, trazendo compras de
supermercado, ou voltando de um passeio... Mas
ele estava em outro mundo, de volta a um lar
mais opressivo que antes, tentando se livrar
de uma doença. A carta que ele enviara
— e que ela ainda não havia respondido
— deixou-a preocupada. Queria saber como
o amigo estava agora. Cartas eram sempre portadoras
de novidades ultrapassadas. Vontade de telefonar
para ele, mas como só podia ligar a cobrar,
evitava-o. Ligava para a mãe, mas o que
D. Amália contava não a satisfazia.
Queria começar a pagar o que devia a
Leon. Quando recebesse o restante do pagamento
do hotel enviaria a ele a maior quantia possível.
Abrindo
a porta do prédio, encontrou cartas espalhadas
nos degraus da escada, resultado da viagem do
senhorio e também da ausência dela,
cinco dias sem aparecer no local. No meio da
correspondência, uma carta de Leon. Com
ansiedade, leu os fatos novos para ela, antigos
para ele. Ficou contente em saber que a doença
tinha cedido e que Leon começava a trabalhar.
Mais uma carta para responder.
Hendrik
continuava a implicar com os empregos dela.
Achou que morar com ele facilitaria as coisas,
mas Hendrik nunca estava satisfeito. Reprovado
na prova final de inglês, ele seguia novamente
a matéria que faltava para se formar
no curso. Havia sido chamado para a vaga na
agência de viagens, mas teve que recusar
o emprego por não poder apresentar o
certificado que ainda não obtivera —
o que o deixou arrasado.
No
hotel, no restaurante, na boate, havia tantos
rapazes interessantes tratando-a bem que era
difícil evitar as comparações.
Começava a achar que, aos poucos, se
desinteressaria de Hendrik. Vida afetiva, sexual,
profissional... nada a agradava. Complexo emaranhado
de insatisfações. Viver era aquilo?
Às vezes achava que nada valia a pena,
que cometera um grave erro voltando a Amsterdam.
Mas quando se imaginava de novo no Brasil, via
maiores possibilidades na Holanda. Ainda acreditava
estar no difícil princípio de
uma grande mudança. Leon era o único
capaz de entendê-la, tinha vivido parte
daquele início com ela. Como ele estaria
se sentindo agora? O importante era conseguir
direcionar a nova vida, tentar sair de casa
novamente... o que contava era a conquista da
liberdade. Conselhos imaginários de alguém
com a vida tão tumultuada... Desejava
tudo aquilo a Leon ou a si mesma?
Na
madrugada de sexta para sábado apareceu
no Caldeirão. Billy não se opôs
a que ela cantasse, mas teria que dividir o
palco com outra vocalista. Tocavam agora a cada
15 dias. Na madrugada de sábado para
domingo voltou a dividir o palco com a garota
e outro amigo de Billy. Nunca pensou que coubesse
tanta gente no mesmo tablado. Na hora do pagamento,
o dinheiro, geralmente dividido por cinco, foi
repartido entre sete. Ninharia por um trabalho
que só causava confusão entre
ela e Hendrik. Melhor esquecer aquela fonte
de renda.
Com
a chegada ao hotel de uma nova turma de funcionários,
Liz teve as funções modificadas.
Como instrutora, ficou responsável pelo
acompanhamento de um austríaco. Karl
era muito simpático. Encontravam-se pela
manhã no metrô, e iam juntos até
o hotel. Karl aprendeu depressa o trabalho e
logo, ela já não o supervisionava.
Quando ele acabava o serviço primeiro,
ajudava-a a concluir o dela. No fim do expediente,
seguiam juntos até a estação.
No
metrô, voltando do hotel, tentou escrever
para Leon, mas as mãos ainda doloridas
a impediram. Melhor deixar para outro dia. Muitos
assuntos estavam ultrapassados, não tinha
certeza se deveria escrever o que gostaria.
Desceu
no Centro. Comprou um cartão no posto
telefônico. Ligou para Leon.
Ele
demonstrou tanta surpresa ao ouvir sua voz que
ela se intimidou. De repente, não sabia
o que falar ao amigo. Leon disse estar tudo
bem com ele, queria saber como Liz estava. Ela
sentia-se ótima, ele não precisava
se preocupar, escreveria uma longa carta...
Não conseguiu dizer nada do que tinha
vontade. Assuntos demais para abordar em tão
pouco tempo, não queria reclamar, nem
dizer coisas ruins. Bom ouvir a voz de Leon.
Sentiu saudade dele, de seu país, sua
cidade, até mesmo da família.
A ligação terminou enquanto Leon
fazia perguntas.
Ao
sair da cabine, deparou com uma mulata obesa,
cheia de trejeitos e voz afetada, falando inglês
tipicamente americano, discutindo com a atendente
do posto telefônico. Reconheceu-a imediatamente:
a mesma mulher que havia visto numa das fotografias
encontradas nas gavetas do armário de
Hendrik — a que lhe dedicava amor e assinava
como “R”. A estranha mulher, cada
vez mais alterada, insistia que era absurdo
o posto não ter antigos catálogos
de telefone. Pelo que Liz entendeu, a mulata
queria encontrar o número do telefone
de alguém cujo nome não figurava
nas listas atuais. A atendente advertia a mulher
de que a pessoa não devia mais morar
na cidade ou possuir linha, mas a mulata não
se dava por vencida, queria saber onde encontrar
listas telefônicas antigas. “Será
que está procurando o Hendrik?”,
pensou Liz. Sabia que ele havia tido telefone
quando se instalara na cidade, sabia também
que ele tinha pedido o cancelamento do serviço
quando viu chegarem as altas contas que o seguro-desemprego
não lhe permitia pagar. Quase abordou
a mulher esquisita, mas o quê diria a
ela? Que conhecia Hendrik? E se estivesse enganada
e a mulher procurasse outra pessoa? Saiu do
posto telefônico intrigada. Que espécie
de relacionamento teria tido aquela criatura
com Hendrik?
Passou
no apartamento da Schinkelhavenstraat em busca
da correspondência. Na base da escada,
espalhadas no chão, só cartas
para Niek. Nem chegou a subir. Seguiu para o
apartamento de Hendrik.
Encontrou-o
na sala, estudando.
—
Sabe quem eu vi hoje no posto telefônico?
Aquela sua amiga mulata, gorda.
—
Eu não conheço ninguém
assim.
—
Como não? E aquela da foto que eu achei
na sua gaveta? Com amor, R...
—
Ah, aquele é o Roy, o meu amigo americano
— explicou.
—
O quê!? Mas... mas...
—
Você falou com ele? Você não
disse onde eu morava, disse? — perguntou,
apreensivo.
—
Eu não falei nada, mas achei que...
—
Ótimo. Não quero que ele me encontre.
Ele é um cara legal, mas é muito
possessivo.
—
Mas ele é um travesti!
—
E daí? Ele se veste de maneira esquisita
e tem modos esquisitos, o que tem isso de mais?
—
Eu não imaginava que você tivesse
amigos desse tipo...
—
Que preconceito, Liz.
—
Não, eu não quis dizer isso, eu
me expressei mal — falou, tentando consertar
a falha. — De onde você conhece
ele?
—
O que é isso, um interrogatório?
— disse, levantando, indo para o quarto.
Sempre
que o assunto esbarrava em algo que dizia respeito
ao passado de Hendrik ele se esquivava. Se soubesse
a verdade que Hendrik escondia talvez pudesse
resolver as complicações que abalavam
a relação dos dois. Não
era psiquiatra, mas estava claro que o comportamento
atual de Hendrik devia-se a problemas ocorridos
no passado. Muito pouco sabia ainda a respeito
da família dele, sua mudança para
a cidade, como conseguira se sustentar e arranjar
tão depressa um apartamento... Uma série
mistérios ocupava provisoriamente o lugar
da verdade. Ele ainda não confiava nela.
Precisava saber quem era a pessoa a quem se
unia, por quem havia deixado tudo, mudado completamente
de vida. Tinha que encontrar um jeito de fazê-lo
falar. O que poderia ser tão horrível,
inconfessável? Não se importava
com o que ele pudesse ter feito no passado,
por pior que fosse. Gostava do Hendrik de hoje,
mas tinha direito de saber quem ele havia sido.
Hendrik
deixou o quarto pronto para o encontro diário
com Derek. Nem mesmo a presença constante
de Liz no apartamento o fazia alterar a rotina.
Hoje, por causa do “interrogatório”,
ele antecipava sua saída. Sério,
despediu-se, indagando se Liz estaria ali quando
ele voltasse. “Sim”, respondeu.
Queria se divertir e também saber que
ela continuaria à disposição
dele, como se fosse seu dono.
Aproveitou
a ausência de Hendrik para escrever a
carta que pretendia enviar a Leon — o
que teria sido impossível se ele tivesse
permanecido. Vontade de abordar suas insatisfações
sentimentais, mas além de repetitivo
seria constrangedor. Se Leon não pôde
fazer nada quando estava ao lado dela, o que
poderia fazer ao receber uma carta com notícias
defasadas? Sentia-se presa, proibida de descobrir
a verdade que lhe interessava, impossibilitada
de contar a realidade que só interessava
a si mesma.
Depois
do banho, deitou-se tentando se conformar com
as contrariedades. Alcançou na mesinha
de cabeceira de Hendrik o estojo no qual ele
guardava skunk. Achou um cigarro pronto, acendeu-o.
Fumou acreditando escapar por algum tempo de
todos os desagrados.
Quando
Hendrik retornou, pareceu-lhe mais descontraído.
Havia perdido a noção de tempo,
não sabia se ele tinha voltado mais cedo
ou no horário habitual. Estava zonza,
não lembrava o que havia feito desde
que começara a fumar. Hendrik deitou
ao lado dela, começando a confeccionar
um cigarro para si. Olhava-o, lindo, meio agitado,
meio bêbado, sentia o aroma do vinho nos
lábios dele, misturando-se ao seu perfume,
seu cheiro de homem, à fragrância
do skunk impregnado no ambiente. Fechou os olhos,
sentia-se em paz, rodeada pelas sensações
que a droga exacerbava. Seu corpo flutuava na
aconchegante penumbra produzida por suas pálpebras,
alimentada pela fumaça que mais uma vez
se fazia presente, incenso de ervas, hálito
de Hendrik, vinho alemão, perfume francês...
Sentiu um calafrio quando ele aninhou a cabeça
em seus seios, cabelos macios espetando sua
pele hipersensível. Hendrik fumava. A
fumaça saída de dentro dele, entrava
nela. De olhos fechados, afagava os cabelos
que lhe roçavam a pele. Ouviu sua voz
pastosa passar por lábios que pareciam
de outra pessoa:
—
Por que você não confia em mim?...
não me diz a verdade? Eu te amo tanto!...
Nada vai fazer eu te amar menos...
A
voz dela fazia perguntas que não imaginava
onde eram formuladas. Não podia ser em
seu cérebro, já que ele estava
bastante ocupado com os pensamentos sobre aquela
estranheza. Seria possível pensar duas
coisas ao mesmo tempo? Ouviu a voz de Hendrik:
—
A verdade... A verdade é horrível,
ela só serve pra deixar os outros tristes.
—
Não... a verdade conserta tudo... Eu
preciso saber quem é você...
—
Você não sabe o que está
dizendo. Vai se arrepender.
—
Não, não vou... eu juro que não...
—
Então eu vou te contar toda a verdade.
Hendrik
fez uma pausa tão longa, que Liz achou
que ele tivesse desistido. Sonolenta, não
conseguia abrir os olhos.
—
Eu acho que sou filho adotivo — começou
ele. — E acho porque não sei a
verdade. Pai, mãe, filho... um pai de
verdade não podia fazer o que ele fazia
comigo... meu menininho, meu bonequinho lindo,
ele falava, fazendo aquelas coisas que me assustavam,
me machucavam... eu fazia o que ele pedia, era
o meu pai, devia me amar, aquilo não
podia fazer mal, ele dizia que era amor, o amor
dele por mim, mas eu sentia dor, muita dor,
o amor do meu pai precisava ser segredo, ninguém
podia saber que ele me amava, nem minha mãe,
ela não sabia de nada, ou fingia que
não sabia, estava sempre cansada, com
sono, com a voz estranha, uma garrafa na mão,
caída no sofá, na cozinha, pelos
cantos da casa... meu pai dizia que a minha
mãe não amava ele, mas ele me
amava, muito, toda noite, no meu quarto, na
minha cama, eu tinha medo, mas ele era o meu
pai... o amor dele me sufocava, eu estava crescendo,
o amor dele ficou mais forte, mais freqüente,
a minha mãe já não estava
em casa, e eu passei a ocupar o lugar dela na
cama deles, mas o meu pai não se contentava
em me amar só de noite, ele queria me
amar o tempo todo, não queria mais que
eu fosse à escola, falasse com os meus
amigos... um dia eu fugi de casa, do meu pai
e do amor dele, estava cansado de ser amado,
de nunca corresponder ao que ele queria de mim,
cansado de não ter paz... com o dinheiro
eu que roubei dele, fui morar com a minha avó,
em Rotterdam. Contei o que tinha acontecido,
e ela aceitou me esconder. Não sei se
ela gostava de mim, ou se só tinha pena.
Com 14 anos minha vida recomeçou, uma
nova cidade, novas amizades... novos problemas
também. Minha avó não tinha
muito dinheiro, não podia me dar conforto,
não comunicou ao governo que eu estava
morando com ela para não gastar mais...
não era uma vida feliz, ela começou
a ficar doente, muito doente, e eu não
sabia o que fazer pra ajudar, toda vez que ela
tinha as crises eu fugia. Um dia, quando voltei,
ela estava morta. Os vizinhos chamaram a polícia,
eu me escondi, o governo pegou a casa. Fiquei
morando com uns amigos. Eles eram mais velhos
que eu, a gente se divertia fumando e bebendo
o dia inteiro, eu parei de estudar. Havia garotas,
a gente fumava, bebia, transava, era bom. Eu
não entendia como os caras ganhavam dinheiro
até que eles me apresentaram um homem
chamado Jakob, que fazia filmes. O Jakob gostou
de mim, disse que eu podia ganhar muito dinheiro,
queria que eu fizesse fotos. Eu recusei, mas
o Jakob me ofereceu tanto dinheiro que acabei
aceitando. Eu achava estranho pessoas gostarem
de ver outras sem roupa. Fiz muitas fotos. Depois,
com outros caras, fazendo sexo e um monte de
coisas horríveis, o passado com o amor
do meu pai aparecia outra vez. Eu só
pensava no dinheiro depois de tudo, queria ser
livre. O Jakob gostava de mim, era gentil, sempre
preocupado comigo, se eu estava pronto, se eu
não queria desistir... ele me dava muito
carinho, carinho que eu nunca havia tido. Ele
dizia que eu era um bom menino, queria ser bom
para mim também. Ele pediu que eu fosse
morar na casa dele. E eu fui, ia ter conforto,
economizar dinheiro. O Jakob me enchia de presentes.
Comecei a participar de filmes, que circulavam
escondidos. Eu tinha pouca idade, era o que
diziam. Eu fazia minha parte, por causa do dinheiro
e pra não decepcionar o Jakob. No início,
eu senti medo, depois vergonha, o Jakob me ensinou
a fingir que sentia prazer... ele me elogiava,
gostava do que eu fazia. Um dia, não
precisei mais fingir, comecei a sentir prazer,
os caras eram bonitos, gostavam de mim, eu gostava
deles... transar daquele jeito era bom, e eu
ainda ganhava dinheiro, muito dinheiro... mas,
de repente, o Jakob não quis que eu continuasse
a fazer fotos, muito menos os filmes. Na casa
dele eu estava longe de todo mundo, mas cheio
de presentes. Ele disse que me amava, eu só
podia transar com ele. O Jakob tinha manias
estranhas, gostava de coisas que eu não
entendia... eu me sentia sozinho, e passei a
me drogar mais vezes, tantas que nem sabia direito
o que estava acontecendo. O Jakob me amava,
eu não podia decepcionar alguém
que tinha me ajudado tanto. As brincadeiras
dele me davam medo, ele queria que eu batesse
nele, amarrasse, machucasse ele, dizia que aquilo
era bom, muito bom. Ele tinha uma sala no porão
da casa, aonde a gente ia todo dia. Eu tinha
que torturar ele pra que tivesse prazer, eu
era mau, mas era o Jakob que me obrigava. Comecei
a gostar cada vez menos daquilo, eu fazia ele
sentir dor, mas ele dizia que era prazer. Eu
tinha nojo de mim, nojo dele. Queria sair, ver
outras pessoas, a luz do dia. O Jakob não
me deixava mais sair do porão, devia
estar louco, eu fumava o tempo inteiro, achei
que estivesse louco também... eu precisava
fugir, mas não sabia como. Vivia trancado
na sala escura, esperando o Jakob. Eu implorei
pra ir embora, mas ele não deixou, disse
que eu era o menininho dele, o seu bonequinho
lindo... era o meu pai que vinha me buscar,
eu tinha sido um mau menino, devia ser castigado...
o Jakob era o meu pai, o meu pai me amava, o
Jakob também, mas eu não gostava
mais eles, odiava os dois, eles queriam me matar,
precisava me livrar deles... o cara que eu torturava
só podia ser maluco. Eu algemei o Jakob,
como ele mesmo me pediu, amarrei os pés
dele, passei a corda em suas mãos, suspendi
seus braços e prendi a corda na viga
do teto, vendei os olhos dele, amordacei a boca.
Ele me pediu pra subir na escada e mijar em
cima dele, eu obedeci, ele gemia. Peguei a lâmina
de barbear, e comecei a deslizar na pele mijada,
aquilo era nojento. Pernas, nádegas,
barriga, peito, costas, braços... a lâmina
cortou tudo, o sangue escorria, o Jakob gemia,
todo retalhado... ele confiava em mim, me amava,
mas eu não gostava mais dele. Eu estava
livre e não via, quem estava preso era
o homem que me obrigava a ser mau, por que não
ser ruim de verdade? Eu enterrei a lâmina
no pescoço dele, que urrou que nem um
bicho, um grito abafado pela mordaça,
pelas paredes, o sangue espirrou longe... algemado,
vendado, amordaçado, retalhado, o Jakob
se debateu até morrer... eu fugi do porão,
corri até o meu quarto e peguei a bolsa
onde guardava o meu dinheiro, mas ela estava
vazia, não tinha sobrado nada. No quarto
do Jakob, roubei dinheiro, mas não era
muito, e fugi do jeito que estava, deixei a
cidade escura às pressas... não
lembro como cheguei em Amsterdam. Estava tão
desnorteado, sem saber o que fazer, pra onde
ir!... achei que fosse morrer de desespero,
eu tinha matado um homem, não podia acreditar
naquilo, eu ia ser descoberto, preso, eu tinha
medo de passar o resto da vida na prisão,
eu era tão novo ainda!... mas não,
o Jakob morava sozinho, não tinha empregados,
ninguém tinha me visto, quando o Jakob
fosse achado, se fosse achado, eu já
estaria longe, ninguém ia lembrar de
mim... eu estava com medo, pouco dinheiro, muita
fome. No fast food, Roy me sorriu,
ele disse que eu era muito bonito, quis a minha
companhia. Ele não conhecia a cidade,
e pediu que eu mostrasse Amsterdam pra ele,
ia me pagar muito bem. Era americano, tinha
muitos dólares. Eu fiquei no quarto de
hotel com ele. O Roy era engraçado, achava
tudo divertido, gostava de mim, me deu roupas,
presentes, dinheiro... em troca, só pedia
carinho, e sexo. Ele perguntou o que eu gostaria
de ter, falei que queria um lugar pra morar.
O Roy conhecia umas pessoas do governo, ia ver
o que podia fazer por mim. Os amigos dele me
arranjaram emprego e um bom lugar na fila pra
conseguir apartamento. O Roy esbanjava, e me
deu muitos dólares, disse que eu merecia.
Ele foi embora pouco depois...
Numa
avalanche, Hendrik havia falado sobre seu passado.
História confusa, cheia de lacunas, bizarrices.
Teria inventado tudo? A troco de quê?
Não, confessar um crime era comprometedor
demais, ele não brincaria com aquilo.
Que vida desgraçada! Como devia ter sido
infeliz! Agora entendia muita coisa. Estava
tonta, atordoada, suas mãos ainda afagavam
os cabelos dele. Novamente tentou abrir os olhos,
mas não teve forças. Estava dormindo,
sonhando? Não, um pesadelo com Hendrik
falando um monte de mentiras que ela se via
obrigada a aceitar. Não, era o skunk.
Tinha ouvido tudo, só não queria
acreditar, era horrível demais, sentia
pena de Hendrik, o assassino com a cabeça
em suas mãos, sendo acariciado, mas ele
não teve culpa, só se defendeu,
era muito jovem... Difícil entender e
aceitar que o lindo rapaz que ela amava pudesse
ter um lado tão feio e triste. Como podia
ter feito aquilo? Droga, medo, horror, situação
limite... sofrimento, agonia, desespero... sensações
insuportáveis. Ele queria sobreviver,
ser livre outra vez... muita raiva, uma chance,
a arma nas mãos... crime, assassinato...
legítima defesa. Ela teria feito o mesmo
naquele caso, talvez pior, e não era
louca. Hendrik também não era
doente, tinha sido vítima de maníacos,
tudo o que fez foi tentar se salvar...
Cega
na escuridão do quarto, buscando justificativas
que desculpassem Hendrik, adormeceu, arrependida
de ter perguntado a ele sobre os segredos de
seu passado.
Nos
dias seguintes evitou comentar as revelações
de Hendrik. Na verdade, queria muito ter falado
com ele a respeito para esclarecer fatos que
ainda não havia entendido. Como Hendrik
não mais mencionara o ocorrido, acreditou
que tudo não tinha passado de alucinação
por causa do skunk. O diálogo ficou ainda
mais truncado que antes. Sempre que Liz pensava
em conversar, Hendrik dava um jeito de desaparecer,
como se lesse seus pensamentos.
Um
dia, assim que ela chegou no apartamento, sem
mais nem menos, ele perguntou:
—
Você não acreditou naquilo, acreditou?
Nas coisas que eu falei naquela noite...
—
Sobre o seu passado?
—
Você sabia que eu estava brincando, não?
—
Não me pareceu... muita coisa passou
a fazer sentido pra mim depois daquele dia.
—
Mas era tudo mentira! Você precisa acreditar
em mim. Eu não matei ninguém!
—
Eu não vou contar nada, sei guardar segredo.
Não acho que você seja culpado
de todo.
—
Mentira! Você não gosta de mim,
você quer me entregar pra polícia!
—
Que isso?! Ficou maluco? De onde tirou essa
idéia?
—
Eu vi você indo na polícia, eu
te segui. O que você foi fazer lá,
me entregar?
—
Claro que não! Eu só fui levar
o contrato do hotel pra entrar na fila da casa
própria. Eu precisava entregar o documento
na polícia de estrangeiros...
—
E quem é o cara que viaja com você
todos os dias até o hotel? É o
seu novo namorado?
—
Não Hendrik, é só um amigo
do trabalho.
—
Mentira! Você não gosta mais de
mim, o Derek tinha razão.
Achou
que Hendrik estivesse perturbado. Nos últimos
dias ele havia fumado excessivamente. Uma espécie
de pavor parecia impeli-lo ao skunk. Seu comportamento
se modificara bastante. Liz começou a
ter um pouco de medo dele. Tentou tranqüilizá-lo,
dizendo que o amava, o ajudaria sempre. Não
ia revelar o segredo dele. Quis conversar sobre
o assunto, mas Hendrik saiu, dizendo que ia
ao apartamento de Derek.
Por
mais que ela fosse paciente, Hendrik não
parecia disposto a colaborar. Vítima
de uma súbita mania de perseguição,
era ele quem a perseguia por toda parte, vigiando-a
desde que deixava o apartamento até sua
volta. Hendrik só podia estar enlouquecendo.
Começaram
a ter horríveis discussões diárias.
Às vezes tudo fugia de controle. Quebravam
objetos, insultavam-se, agrediam-se. Obrigada
a atos de que nunca se imaginara capaz, Liz
começou a ficar assustada consigo mesma.
Sentia-se nas mãos de Hendrik, único
que a conhecia por inteiro, incluindo o que
de pior ela possuía. Queria que ele parasse
de fumar, queria parar de fumar também.
Mas a sobriedade era um martírio ainda
pior do que estar drogada. Certificava-se de
que o limite entre lucidez e loucura era bem
impreciso, se não tomasse cuidado poderia
ultrapassá-lo, e não sabia se
era possível retornar. Sentia medo de
Hendrik, tinha quase certeza de que ele era
um louco psicótico, mas sabia que o excesso
de drogas podia estar deturpando sua visão.
Já não discernia realidade de
alucinação. Queria fugir, mas
não via como. Certa vez, Hendrik tentou
sufocá-la com o travesseiro, dizendo
que ela não contaria o segredo dele a
ninguém. Liz conseguiu derrubá-lo
com uma joelhada, lançou-se então
para cima dele apertando-lhe o pescoço
com toda a força. Assustou-se quando
viu o rosto dele ficar escuro e o soltou. Quando
se recuperou, Hendrik a chamou de louca. Ordenou
que ela voltasse ao Brasil e nunca mais o procurasse.
Liz concordou em sair da casa dele, mas continuaria
em Amsterdam. Hendrik protestou, se ela não
deixasse o país iria ao apartamento dela,
quebraria tudo. Liz não aceitava chantagem,
ele poderia até matá-la se quisesse,
já que era o verdadeiro assassino, ela
não ia fugir ou se esconder. Continuaram
se ofendendo em violentas discussões,
total descontrole emocional. Uma noite, Liz
resolveu se refugiar no apartamento da Schinkelhavenstraat.
Assim
que entrou, cortou o fio da campainha. O apartamento
semi-abandonado estava sujo, alguma coisa apodrecera
na lata do lixo da cozinha, odor desagradável
por todo o ambiente. O lugar vazio cheirava
a morte, um grande caixão no qual fora
se enterrar. No quarto, jogou-se no colchão,
chorou. Queria chorar até desfalecer
e nunca mais acordar. Há quase um mês
vivia aquele inferno. Por que insistia? Por
que se deixava levar por uma esperança
que não conduzia a lugar algum?
De
madrugada, acordou sobressaltada. Ouviu ruídos
na porta do prédio, vozes falando holandês.
Reconheceu a de Hendrik, depois a de Derek.
Deviam estar tocando a campainha, intrigados
por ela não funcionar. Não demorou
a escutar os gritos furiosos de Hendrik sob
a janela da sala. Ele a xingava, a ameaçava,
um desequilibrado gritando insultos no silêncio
da madrugada. Sentindo vergonha, encolheu-se
no colchão, ficando imóvel para
fazer desaparecer o pesadelo vivo. Acreditou
que com o apartamento às escuras seria
fácil fingir não estar em casa.
Depois de ouvir muitas ofensas, achou que Hendrik
fosse embora, mas ele tocou a campainha do apartamento
de Niek. Desejou que o senhorio não estivesse
em casa. Niek não o atendeu, mas assim
que Hendrik desistiu, pôde ouvir os passos
do senhorio rangendo no piso acima dela. Pensou
que ele fosse descer para tomar satisfações,
mas Niek não o fez.
Pretendia
continuar refugiada até Hendrik desistir
de procurá-la, mas havia deixado as roupas
na casa dele, pior, os dois uniformes —
sem eles não poderia ir para o hotel.
Não tinha dinheiro para novos uniformes,
tampouco outras roupas. No dia seguinte, voltou
ao apartamento de Hendrik.
Ele
admitiu suas falhas, disse que queria muito
mudar, precisava da ajuda dela, não gostaria
de continuar fumando, nem brigando. Liz sabia
que depois da reconciliação ele
continuaria a fazer as mesmas coisas de sempre.
Hendrik parecia condenado a nunca mudar, por
mais que o desejasse. Ainda o amava, ou amava
uma parte dele, mas estava certa de que estaria
melhor quando se separassem. Hendrik era vingativo,
ciumento, agressivo. Ela odiava o lado escuro
dele, que vinha prevalecendo nos últimos
tempos. Hendrik sempre encontrava um jeito de
atribuir a ela toda a culpa por seu comportamento
alterado. Liz também detestava discutir,
o que se tornara constante. O passado de Hendrik
era horrível, e imaginava que ele só
tivesse mencionado parte desse tempo sombrio.
Quem era o verdadeiro Hendrik? Alguém
que ela não queria mais conhecer.
Precisava
tornar-se desinteressante para ele. Se não
o conseguisse, talvez tivesse que deixar a cidade.
Mas para onde ir? Como recomeçar em outro
lugar sem trabalho, sem dinheiro? Absurdo não
poder decidir sua vida, ser forçada a
escolher um novo lugar para viver por causa
de um maníaco. Tinha que ser forte, paciente
e, pela primeira vez, premeditar.
Vontade
de desabafar, falar com alguém que a
compreendesse. Sentia-se extremamente só.
Numa noite, depois de discutir com Hendrik,
depois que ele havia adormecido, saiu, ansiosa
para conversar. Por mais que não quisesse
assustar Leon, ligando em hora que pareceria
suspeita, não resistiu. A voz amiga do
outro lado da linha soou reconfortante.
—
Liz? Onde você está? — indagou,
meio surpreso.
—
Em Amsterdam — falou, tentando colocar
animação na voz. — Tudo
bem com você?
—
Comigo sim, mas não com você. A
sua última carta, aquela em que você
não dizia nada importante, me deixou
preocupado. Liz, o que está acontecendo?
Você não ia me telefonar à
toa. É tarde aqui, deve ser madrugada
aí...
—
Eu não sei mais o que fazer... só
queria que esse inferno acabasse...
—
Vocês brigaram novamente.
—
Milhares de vezes, eu não agüento
mais!... Eu só queria sair daqui!
—
E o que te impede? Volta, aqui tem muita gente
que gosta de você.
—
Eu tenho vergonha. Todos acham que eu vim pra
cá mudar de vida. Não sei o que
fazer.
—
Mas o que aconteceu de tão sério
pra você ficar nesse estado?
—
A gente briga o tempo todo, fazemos coisas horríveis
um com o outro. Agora demos pra nos agredir,
ele me bate, eu bato nele, é o fim...
—
Mas por que isso? Eu não entendo.
—
Ele está ficando maluco, fuma todo o
tempo, me persegue... Pra completar, aquela
bicha nojenta do Derek só sabe falar
mal de mim. Outro dia ele entrou no apartamento
do Hendrik e quase me agrediu também.
Começou a gritar que eu era uma piranha
velha e sonsa, e só fazia o Hendrik sofrer.
Foi a maior baixaria, e o Hendrik nem me defendeu.
—
Eu não imaginava que as coisas chegassem
a esse ponto...
—
Me sinto péssima no meio dessa gente
que não vale nada, sem poder ir embora.
Eles sabem onde eu moro, onde eu trabalho...
Não tenho dinheiro pra tentar a sorte
em outro lugar...
—
Liz, eu queria muito te ajudar, mas não
sei como.
—
Você já me ajudou bastante, Leon.
Preciso pensar na minha vida. Eu só queria
desabafar, e você é o único
com quem eu posso falar. Agora já me
sinto bem.
—
Mas essa sensação não vai
durar pra sempre.
—
Eu preciso pensar num monte de coisas. Depois
eu te escrevo contando melhor o que tem acontecido...
Terminada
a ligação, apesar de sentir-se
um pouco mais leve, estava arrependida. Leon
devia ter ficado preocupado. Paciência.
Na carta, tentaria abrandar o melodrama.
O
salário que esperava receber da
HOF
foi bem menor do que supunha. O valor bruto
do ordenado caía de 1.700 para 1.200
gulden líquidos, descontados
taxas e impostos, e isso apenas se não
houvesse uma falta. Esperava receber 1.300 pelo
período de treinamento, mas recebeu somente
900 gulden — dos quais foram
descontados os 500, dados como adiantamento.
Achava que a
HOF
a estava roubando.
Procurou
Mathias. Ele ainda estava interessado em que
ela trabalhasse no BarHamas, mas só como
substituta, e clandestinamente.
Caos.
Relacionamento desastroso, total insatisfação
profissional, dívidas... O único
fato que amenizava a situação
era Niek ter aceitado o dinheiro do depósito
como pagamento dos últimos aluguéis.
O senhorio disse que se ela quisesse continuar
no imóvel renovaria o contrato.
Sempre
que tentava analisar sua vida, achava que perdia
tempo ficando na cidade. Mas a conversa com
Leon já ecoava fraca em sua mente. Naquele
período de trégua acreditava que
tudo ia melhorar, voltar ao Brasil não
era a solução. Sem ânimo,
começou uma carta para Leon. Mas não
tinha vontade de falar sobre assuntos deprimentes.
Leon havia enviado cartas que ela ainda não
respondera. Crivava-a de perguntas, estimulava-a
a voltar, falava da amizade deles, dizia que
a amava.
Com
o auge da primavera Amsterdam lhe pareceu mais
alegre. O bom tempo alimentava suas esperanças
de permanecer na cidade. Hendrik estava bem
melhor, apesar de continuar fumando. Haviam
parado de brigar.
Os
dias ensolarados anunciavam a chegada do verão.
O sol se punha cada vez mais tarde. Hendrik
preparava ótimas refeições,
com entrada, prato principal, sobremesa. O desejo
dele em agradá-la a deixava enternecida.
Até mesmo sanduíches ele fazia
para ela comer no hotel. No Amstelveense, depois
que suas mãos haviam se recuperado, estava
cada vez mais rápida.
Daniel
também tinha lhe mandado cartas. Lembrava-se
ainda de quando ele lhe telefonara no hotel,
depois da noite em que, desesperada, havia ligado
para Leon. Arrependia-se de ter sido fraca,
não ter suportado ficar quieta. Surpresa
por Daniel tê-la procurado no hotel —
já que não imaginava que Leon
houvesse guardado o número de telefone
do Amstelveense —, procurou tranqüilizá-lo,
mas sentiu que não tinha sido convincente.
Precisava escrever aos dois explicando que não
havia mais motivos para se preocuparem.
Começava
a se reequilibrar. Já não se sentia
tão frágil.
Depois
que enviou as cartas, passou no apartamento
da Schinkelhavenstraat para verificar a correspondência.
Mais uma carta de Leon, carta do banco, outra
de uma agência de empregos. Subiu as escadas.
Na porta, encontrou um bilhete de Niek: “Preciso
saber se você vai continuar no apartamento
ou não”. Subiu mais um lance de
escada, bateu na porta do senhorio.
—
Olá, entre! — pediu ele, apontando
em seguida o sofá.
Sentou,
aguardou que Niek falasse.
—
Se você quiser ficar com o apartamento
eu posso manter o preço do aluguel —
falou ele.
Pensou
que Niek reduziria o valor, já que ela
moraria sozinha. Mas talvez ele a considerasse
uma inquilina-problema, por causa do recente
escândalo de Hendrik.
—
Então eu não vou poder continuar
no apartamento — disse Liz. — Não
vou conseguir pagar o aluguel com o meu salário.
—
E por que você não arranja outro
emprego?
—
Estou esperando o chamado de uma empresa americana
que me aprovou num teste. Mas não sei
quando vai ser isso. Se a carta chegar dizendo
que consegui o trabalho antes de terminar o
contrato, eu continuo no apartamento.
Desceu
ansiosa para ler a carta de Leon. Depois de
três semanas trabalhando como free-lancer,
ele havia sido efetivado na agência de
propaganda. Ficou tão contente com a
novidade como se ela mesma fosse a contratada.
A carta da agência de empregos, que abriu
sem interesse, comunicava que a Beamy, a empresa
americana, queria contratá-la. Pediam
que comparecesse na sede para a última
entrevista.
No
dia marcado, o entrevistador verificou os conhecimentos
dela sobre equipamentos de informática.
Foi sincera ao dizer que tinha apenas noções
superficiais, mas poderia aprender. O entrevistador
avisou que Liz havia sido aprovada, e deveria
esperar o comunicado anunciando o início
do período de treinamento. Ficaria no
grupo das pessoas que falavam espanhol, o grupo
das que falavam português estava completo.
Acostumada com o horário do hotel, Liz
achou que a jornada de trabalho na Beamy, de
oito e meia da manhã às seis da
tarde, devia ser cansativa.
Procurou
Niek para avisar que não ficaria com
o apartamento. Apesar de se considerar contratada
pela Beamy, decidiu não continuar pagando
o aluguel do imóvel em que raramente
aparecia. Precisava saldar dívidas, começar
a juntar dinheiro. Não pretendia morar
oficialmente com Hendrik, temia não ter
para onde ir caso tivessem uma briga feia. Tinha
de encontrar outro lugar para ficar.
Na
última semana de validade do contrato
do aluguel do apartamento apanhou duas cartas
junto à entrada do prédio: uma
de Leon, outra de Daniel. Os dois pareciam não
apenas ter combinado o dia do envio da correspondência,
mas também o teor do que haviam escrito.
Ainda movidos por sentimentos suscitados pelas
cartas nas quais Liz julgava reparar o equívoco
de tê-los deixado preocupados, usavam
palavras duras, pessimistas, desaforos... A
carta de Leon, bem mais cáustica que
a de Daniel, chocava pela quantidade de julgamentos
fundamentados em algo que ela não mais
vivia. Outra vez, como na maioria das cartas
anteriores, ele alardeava sua paixonite, neurose
amorosa que só a irritava. Daniel também
tinha sido rude em sua forma de analisar os
fatos que devia ter especulado com Leon. Que
decepção! Seus dois únicos
amigos tratavam-na como se fosse uma louca que
não controlava a própria vida.
Tentava levar em conta o lapso de tempo entre
a troca de informações, erros
de interpretação, palavras mal
empregadas, mas nada justificava aquele complô.
Mais ferino que nunca, Leon parecia aproveitar
a situação para desrespeitá-la,
humilhá-la, vingar-se. Cobrava detalhes
que ela prometera, ressentia-se por não
ser mais tratado como confidente. Como sempre,
falando mais de si do que qualquer coisa, Daniel
reclamava não poder contar com ela para
mais nada, a distância que os separava,
a falta de notícias... Os dois achavam
que Liz estava sob péssima influência,
perdida, desestruturada... tudo porque ela expressara
sua forma de pensar, seu ponto de vista. Nenhuma
palavra gentil, de alento ou incentivo. Leon
e Daniel pareciam obstinados a reduzi-la a nada.
Mero
reflexo do que ela mesma provocara? Também
tivera culpa naquilo. Havia causado apreensão
e revolta em seus amigos, mas não lhes
dera direito a julgamentos e condenações.
Não deveria tê-los preocupado com
histórias de quando estava sem condições
de discernir realidade e fantasia. Difícil
agora corrigir a confusão. Sentia vergonha
por ter se deixado levar pelas emoções,
pelo medo da solidão. Ficou triste. Primeiro
consigo mesma, depois, com os amigos.
Mudou-se
para o apartamento de Hendrik, dizendo que ficaria
apenas tempo suficiente até encontrar
um novo lugar. Habituado a presença dela,
ele não se opôs. Notava que mais
uma vez Hendrik se esforçava em estudar,
queria terminar o curso, ter um bom emprego
numa companhia aérea. Ele começou
a fumar menos, a inventar desculpas para não
visitar Derek. O empenho dele a alegrava. Tudo
estava voltando aos complexos e delicados eixos.
Deixou
para contar a Hendrik sobre o emprego na Beamy
apenas no dia anterior ao início do treinamento.
Contente a princípio, ele não
ficou muito satisfeito quando ela disse que
trabalharia mais do que no hotel. O salário
maior e o trabalho mais leve pareceram boa justificava
para Liz, mas Hendrik não concordou.
Ela sabia que somente quando ele estivesse empregado
compreenderia a real importância de um
trabalho com o qual fosse possível se
sustentar.
Liz
não fumava mais, e Hendrik havia reduzido
a quase nada seu vício. Pela paz que
passou a existir entre os dois, acreditou que
era a droga que punha tudo a perder. Cada qual
procurava respeitar os horários do outro,
os momentos em que gostavam de ficar sozinhos.
Passaram a não discutir. Se algo os aborrecia
ou incomodava, tentavam conversar. As próprias
conversas haviam se modificado. Hendrik, estudando
e dominando melhor o inglês, fez com que
Liz percebesse que todos os mal-entendidos entre
ambos derivavam do fato de ela não entender
perfeitamente o inglês dele, e ele o dela.
Agora, quando algo não soava bem, antes
de nova discussão, perguntavam um ao
outro se o que queriam falar não poderia
ser dito com outras palavras, explicado de outro
modo. Quantas brigas teriam evitado se tivessem
agido assim desde o início! Liz sentia-se
acordando de um longo pesadelo, contente por
descobrir que muito do que imaginara de ruim
eram erros de interpretação.
Demorou
a escrever para Leon. Depois de tantas cartas
pouco estimulantes, não tinha vontade
alguma de contar o que se passava com ela. Havia
rasgado toda a correspondência que ele
enviara, para não lembrar do monte de
palavras desagradáveis. Passado algum
tempo, resolveu ignorar tudo o que lera e escreveu
para o amigo — que não tinha mandado
mais cartas. Sem saber como começar,
pediu desculpas. Foi honesta, não escondendo
nada do que sentia. De forma direta, abordou
o tema da paixonite de Leon, pedindo que ele
não mencionasse mais aquele assunto sepultado
para ela. Nunca lhe escondera a verdade: de
sua parte jamais existiria algo além
de amizade entre os dois. Esperava que nas próximas
cartas, Leon se referisse a ela apenas como
amiga. Absteve-se de comentar seu relacionamento
amoroso, não mais mencionaria sua vida
sentimental aos amigos. Tinha aprendido que
esse assunto dizia respeito apenas a si mesma
e à pessoa com quem se relacionava. Aprendera
também que não existia amizade
sem segredos. Era importante que o amigo compreendesse
que nem sempre era necessário contar
tudo, ou compartilhar a mesma opinião.
Esperava que Leon não a quisesse mal
por suas descobertas e pontos de vista. Queria
abordar na carta coisas simples e normais, mas
achava que Leon não conseguiria receber
as notícias de coração
aberto, e não sabia o que fazer para
mudar a situação. Decididamente,
queria viver melhor, ter uma vida mais leve,
tentar se corrigir. Desejava também reparar
a amizade abalada, gostaria que ela voltasse
a ser como antes, quando riam de tudo e eram
felizes. Lembrava com saudade de como era bom
rir, como Leon era engraçado quando queria.
Será que não podiam resgatar aquilo?
Por que não eliminavam o peso que atribuíam
a cada carta que trocavam? Por que não
escreviam somente sobre coisas boas? Queria
que sua carta fosse portadora apenas de palavras
esclarecedoras, sem lacunas. Jamais tivera intenção
de causar confusões.
Sem
saber como a carta seria recebida pelo amigo,
não conseguiu dizer muito. Deixava-o
decidir se queria que a amizade dos dois continuasse,
ficaria esperando a resposta dele para escrever
de volta. Terminou dizendo que mandaria o novo
endereço tão logo o tivesse, enquanto
isso, Leon não deveria mais escrever
para o endereço antigo.
Excluindo
os assuntos que diziam respeito a Leon, em moldes
bastante semelhantes, escreveu uma carta para
Daniel.