Trabalho cada vez mais árduo no hotel, mãos doloridas, inchadas, com rachaduras. Havia tentado usar luvas, mas elas dificultavam ainda mais o serviço. Endurecidas, as juntas dos dedos a impediam de segurar firme a caneta e responder as cartas de Leon. Queria procurar um médico para tratar as mãos, mas sem o contrato assinado com o hotel não podia se beneficiar do seguro-saúde a que teria direito com o vínculo empregatício.
            Passados sete dias do término do período de experiência nenhum representante da HOF ou do hotel se manifestou em relação ao contrato de trabalho, ao pagamento pelo prazo trabalhado. Voltou ao centro de triagem onde estivera há cerca de um mês. O rapaz que a atendera na primeira vez não se encontrava na recepção. Por trás da mesa, um senhor obeso indagou em que poderia ajudá-la. Liz explicou o ocorrido. O senhor, intitulando-se presidente da HOF, garantiu que o dinheiro pelo período de experiência estaria na conta de Liz no dia seguinte. Pediu que ela retornasse, também no dia seguinte, para assinar o contrato.
            Passou no banco na tarde do dia posterior. O dinheiro ainda não havia sido depositado. Com raiva, foi até a HOF. Encontrou o rapaz com ar bem-sucedido que a atendera inicialmente e, como se ele tivesse culpa, despejou de uma só vez, em voz alta, mil desaforos sobre o diretor da empresa, aquele gordo mentiroso. Tentado ser gentil, o rapaz pediu que Liz ficasse calma e o aguardasse, devia ter acontecido um mal-entendido. Depois de alguns minutos, ele voltou trazendo o contrato de trabalho a ser assinado. Ela disse que não assinaria coisa alguma enquanto não recebesse o dinheiro que lhe deviam, e ameaçou não mais aparecer no hotel enquanto não fosse paga. O rapaz assegurou que o dinheiro seria depositado no dia seguinte, ele mesmo resolveria o caso.
            Descontrole por um forte motivo. Além do não-cumprimento do que fora combinado, Liz estava quase sem dinheiro. Tinha faltado às apresentações de dois fins de semana seguidos no Caldeirão, Hendrik não aprovava aquele trabalho, e depois estava sempre cansada. Mathias vinha escalando-a cada vez menos para o BarHamas. Duas precárias fontes de renda começavam a secar. Por isso, a expectativa no pagamento do hotel. Injusto, depois de um mês inteiro fazendo aquele servicinho miserável, não receber o que haviam prometido.
            Ficou com tanta raiva que resolveu cumprir sua ameaça: não foi ao hotel no dia seguinte. De manhã, ligou para o rapaz da HOF, que, educadamente, pediu que ela lhe telefonasse na parte da tarde. Quando ligou na hora marcada o rapaz não estava mais na empresa. Falou com uma mulher, ciente do caso, que prometeu que o dinheiro seria depositado no dia seguinte pela manhã, caindo na conta à tarde.
            Para não ter que dar explicações a Hendrik, voltou a trabalhar normalmente no hotel. Seu bilhete de ônibus só lhe dava direito a mais duas viagens. O bonde, que tomava até o ponto do ônibus, tinha um sistema automático que geralmente dispensava a presença do bilheteiro — algo fácil de ser burlado. Ela usava sempre o mesmo bilhete, que introduzia na máquina para registrar dia e hora da viagem.
            Saindo do hotel, resolveu ir à HOF assinar o contrato e trocar os uniformes, bastante gastos com as lavagens freqüentes. No caminho, passou no banco: nada do dinheiro. Que novela patética era aquela? Por que não lhe pagavam? Imediatamente, tomou o bonde para chegar mais depressa na HOF. No meio do percurso, entrou no veículo um funcionário da companhia de transportes pedindo bilhetes de alguns passageiros. Liz foi uma das sorteadas. O fiscal, constatando as irregularidades no bilhete dela, apreendeu seu “passe livre”, dizendo que ele estava fora da validade, obrigando-a a descer na parada seguinte.
            Com ódio cada vez mais crescente, continuou o caminho a pé. Na HOF foi atendida pela mulher com quem havia falado ao telefone, que lhe informou que o pagamento só sairia no fim do mês. Pasma, Liz explicou que não tinha mais dinheiro para ir trabalhar, o período de treinamento acabara, ela estava ligando há dias para a HOF e o pagamento nunca era feito... A atendente, neutra, disse não poder interceder.
            Revoltada, humilhada, Liz deixou o local sem saber o que fazer. Ainda era quinta-feira, não tinha sido mais chamada ao BarHamas, se cantasse na banda o dinheiro só sairia na madrugada de domingo, a geladeira estava vazia, só tinha dois gulden na carteira, o fiscal do bonde apreendera seu tíquete... Sentou na calçada defronte a HOF, começou a chorar. A mulher que a havia atendido veio até ela. “De quanto você precisa, Liz?”, perguntou. Quanta vergonha... o dinheiro pelo trabalho que fizera era seu por direito, que injustiça mendigá-lo junto à sarjeta! Verdadeiramente um dinheiro chorado. Recebeu 500 gulden. Assinou o contrato e aproveitou para trocar os uniformes.

            Na noite de sexta-feira, contrariando Hendrik, foi ao Caldeirão saber se ainda podia participar da banda. Ficou surpresa ao ver no palco outro grupo. Não encontrou ninguém da banda com a qual costumava cantar, mas descobriu que o outro grupo agora se revezava com a banda de Billy. Precisaria voltar na semana seguinte.

            Ainda não sabia o que era morar sozinha. Para passar mais tempo com Hendrik, para não ter recordações e pensamentos que a deprimiriam, evitava ao máximo aparecer no apartamento que dividira com Leon. Estranho chegar em casa e não mais encontrá-lo, sentado na poltrona, olhando pela janela. Por mais que tivessem dificuldades de comunicação, havia se habituado com a presença de Leon, com a possibilidade de falar com ele. Só agora se dava conta de que naquele apartamento, ao lado do amigo, sentia-se mais em casa do que durante a vida que tivera no lar de seus pais — nem mesmo no apartamento de Hendrik sentia-se tão à vontade. Tarde demais. Já ia longe o dia em que ela e Leon haviam se despedido no aeroporto, mas às vezes sentia como se acabasse de voltar de lá, deixando o amigo partir, retornando a um apartamento ainda mais vazio sem ele. O tempo parecia ter parado apenas dentro daquele espaço nu cercado por paredes frias. Tinha impressão de que Leon estava prestes a chegar da rua, trazendo compras de supermercado, ou voltando de um passeio... Mas ele estava em outro mundo, de volta a um lar mais opressivo que antes, tentando se livrar de uma doença. A carta que ele enviara — e que ela ainda não havia respondido — deixou-a preocupada. Queria saber como o amigo estava agora. Cartas eram sempre portadoras de novidades ultrapassadas. Vontade de telefonar para ele, mas como só podia ligar a cobrar, evitava-o. Ligava para a mãe, mas o que D. Amália contava não a satisfazia. Queria começar a pagar o que devia a Leon. Quando recebesse o restante do pagamento do hotel enviaria a ele a maior quantia possível.
            Abrindo a porta do prédio, encontrou cartas espalhadas nos degraus da escada, resultado da viagem do senhorio e também da ausência dela, cinco dias sem aparecer no local. No meio da correspondência, uma carta de Leon. Com ansiedade, leu os fatos novos para ela, antigos para ele. Ficou contente em saber que a doença tinha cedido e que Leon começava a trabalhar. Mais uma carta para responder.

            Hendrik continuava a implicar com os empregos dela. Achou que morar com ele facilitaria as coisas, mas Hendrik nunca estava satisfeito. Reprovado na prova final de inglês, ele seguia novamente a matéria que faltava para se formar no curso. Havia sido chamado para a vaga na agência de viagens, mas teve que recusar o emprego por não poder apresentar o certificado que ainda não obtivera — o que o deixou arrasado.
            No hotel, no restaurante, na boate, havia tantos rapazes interessantes tratando-a bem que era difícil evitar as comparações. Começava a achar que, aos poucos, se desinteressaria de Hendrik. Vida afetiva, sexual, profissional... nada a agradava. Complexo emaranhado de insatisfações. Viver era aquilo? Às vezes achava que nada valia a pena, que cometera um grave erro voltando a Amsterdam. Mas quando se imaginava de novo no Brasil, via maiores possibilidades na Holanda. Ainda acreditava estar no difícil princípio de uma grande mudança. Leon era o único capaz de entendê-la, tinha vivido parte daquele início com ela. Como ele estaria se sentindo agora? O importante era conseguir direcionar a nova vida, tentar sair de casa novamente... o que contava era a conquista da liberdade. Conselhos imaginários de alguém com a vida tão tumultuada... Desejava tudo aquilo a Leon ou a si mesma?

            Na madrugada de sexta para sábado apareceu no Caldeirão. Billy não se opôs a que ela cantasse, mas teria que dividir o palco com outra vocalista. Tocavam agora a cada 15 dias. Na madrugada de sábado para domingo voltou a dividir o palco com a garota e outro amigo de Billy. Nunca pensou que coubesse tanta gente no mesmo tablado. Na hora do pagamento, o dinheiro, geralmente dividido por cinco, foi repartido entre sete. Ninharia por um trabalho que só causava confusão entre ela e Hendrik. Melhor esquecer aquela fonte de renda.

            Com a chegada ao hotel de uma nova turma de funcionários, Liz teve as funções modificadas. Como instrutora, ficou responsável pelo acompanhamento de um austríaco. Karl era muito simpático. Encontravam-se pela manhã no metrô, e iam juntos até o hotel. Karl aprendeu depressa o trabalho e logo, ela já não o supervisionava. Quando ele acabava o serviço primeiro, ajudava-a a concluir o dela. No fim do expediente, seguiam juntos até a estação.

            No metrô, voltando do hotel, tentou escrever para Leon, mas as mãos ainda doloridas a impediram. Melhor deixar para outro dia. Muitos assuntos estavam ultrapassados, não tinha certeza se deveria escrever o que gostaria.
            Desceu no Centro. Comprou um cartão no posto telefônico. Ligou para Leon.
            Ele demonstrou tanta surpresa ao ouvir sua voz que ela se intimidou. De repente, não sabia o que falar ao amigo. Leon disse estar tudo bem com ele, queria saber como Liz estava. Ela sentia-se ótima, ele não precisava se preocupar, escreveria uma longa carta... Não conseguiu dizer nada do que tinha vontade. Assuntos demais para abordar em tão pouco tempo, não queria reclamar, nem dizer coisas ruins. Bom ouvir a voz de Leon. Sentiu saudade dele, de seu país, sua cidade, até mesmo da família. A ligação terminou enquanto Leon fazia perguntas.
            Ao sair da cabine, deparou com uma mulata obesa, cheia de trejeitos e voz afetada, falando inglês tipicamente americano, discutindo com a atendente do posto telefônico. Reconheceu-a imediatamente: a mesma mulher que havia visto numa das fotografias encontradas nas gavetas do armário de Hendrik — a que lhe dedicava amor e assinava como “R”. A estranha mulher, cada vez mais alterada, insistia que era absurdo o posto não ter antigos catálogos de telefone. Pelo que Liz entendeu, a mulata queria encontrar o número do telefone de alguém cujo nome não figurava nas listas atuais. A atendente advertia a mulher de que a pessoa não devia mais morar na cidade ou possuir linha, mas a mulata não se dava por vencida, queria saber onde encontrar listas telefônicas antigas. “Será que está procurando o Hendrik?”, pensou Liz. Sabia que ele havia tido telefone quando se instalara na cidade, sabia também que ele tinha pedido o cancelamento do serviço quando viu chegarem as altas contas que o seguro-desemprego não lhe permitia pagar. Quase abordou a mulher esquisita, mas o quê diria a ela? Que conhecia Hendrik? E se estivesse enganada e a mulher procurasse outra pessoa? Saiu do posto telefônico intrigada. Que espécie de relacionamento teria tido aquela criatura com Hendrik?
            Passou no apartamento da Schinkelhavenstraat em busca da correspondência. Na base da escada, espalhadas no chão, só cartas para Niek. Nem chegou a subir. Seguiu para o apartamento de Hendrik.
            Encontrou-o na sala, estudando.
            — Sabe quem eu vi hoje no posto telefônico? Aquela sua amiga mulata, gorda.
            — Eu não conheço ninguém assim.
            — Como não? E aquela da foto que eu achei na sua gaveta? Com amor, R...
            — Ah, aquele é o Roy, o meu amigo americano — explicou.
            — O quê!? Mas... mas...
            — Você falou com ele? Você não disse onde eu morava, disse? — perguntou, apreensivo.
            — Eu não falei nada, mas achei que...
            — Ótimo. Não quero que ele me encontre. Ele é um cara legal, mas é muito possessivo.
            — Mas ele é um travesti!
            — E daí? Ele se veste de maneira esquisita e tem modos esquisitos, o que tem isso de mais?
            — Eu não imaginava que você tivesse amigos desse tipo...
            — Que preconceito, Liz.
            — Não, eu não quis dizer isso, eu me expressei mal — falou, tentando consertar a falha. — De onde você conhece ele?
            — O que é isso, um interrogatório? — disse, levantando, indo para o quarto.
            Sempre que o assunto esbarrava em algo que dizia respeito ao passado de Hendrik ele se esquivava. Se soubesse a verdade que Hendrik escondia talvez pudesse resolver as complicações que abalavam a relação dos dois. Não era psiquiatra, mas estava claro que o comportamento atual de Hendrik devia-se a problemas ocorridos no passado. Muito pouco sabia ainda a respeito da família dele, sua mudança para a cidade, como conseguira se sustentar e arranjar tão depressa um apartamento... Uma série mistérios ocupava provisoriamente o lugar da verdade. Ele ainda não confiava nela. Precisava saber quem era a pessoa a quem se unia, por quem havia deixado tudo, mudado completamente de vida. Tinha que encontrar um jeito de fazê-lo falar. O que poderia ser tão horrível, inconfessável? Não se importava com o que ele pudesse ter feito no passado, por pior que fosse. Gostava do Hendrik de hoje, mas tinha direito de saber quem ele havia sido.
            Hendrik deixou o quarto pronto para o encontro diário com Derek. Nem mesmo a presença constante de Liz no apartamento o fazia alterar a rotina. Hoje, por causa do “interrogatório”, ele antecipava sua saída. Sério, despediu-se, indagando se Liz estaria ali quando ele voltasse. “Sim”, respondeu. Queria se divertir e também saber que ela continuaria à disposição dele, como se fosse seu dono.
            Aproveitou a ausência de Hendrik para escrever a carta que pretendia enviar a Leon — o que teria sido impossível se ele tivesse permanecido. Vontade de abordar suas insatisfações sentimentais, mas além de repetitivo seria constrangedor. Se Leon não pôde fazer nada quando estava ao lado dela, o que poderia fazer ao receber uma carta com notícias defasadas? Sentia-se presa, proibida de descobrir a verdade que lhe interessava, impossibilitada de contar a realidade que só interessava a si mesma.
            Depois do banho, deitou-se tentando se conformar com as contrariedades. Alcançou na mesinha de cabeceira de Hendrik o estojo no qual ele guardava skunk. Achou um cigarro pronto, acendeu-o. Fumou acreditando escapar por algum tempo de todos os desagrados.
            Quando Hendrik retornou, pareceu-lhe mais descontraído. Havia perdido a noção de tempo, não sabia se ele tinha voltado mais cedo ou no horário habitual. Estava zonza, não lembrava o que havia feito desde que começara a fumar. Hendrik deitou ao lado dela, começando a confeccionar um cigarro para si. Olhava-o, lindo, meio agitado, meio bêbado, sentia o aroma do vinho nos lábios dele, misturando-se ao seu perfume, seu cheiro de homem, à fragrância do skunk impregnado no ambiente. Fechou os olhos, sentia-se em paz, rodeada pelas sensações que a droga exacerbava. Seu corpo flutuava na aconchegante penumbra produzida por suas pálpebras, alimentada pela fumaça que mais uma vez se fazia presente, incenso de ervas, hálito de Hendrik, vinho alemão, perfume francês... Sentiu um calafrio quando ele aninhou a cabeça em seus seios, cabelos macios espetando sua pele hipersensível. Hendrik fumava. A fumaça saída de dentro dele, entrava nela. De olhos fechados, afagava os cabelos que lhe roçavam a pele. Ouviu sua voz pastosa passar por lábios que pareciam de outra pessoa:
            — Por que você não confia em mim?... não me diz a verdade? Eu te amo tanto!... Nada vai fazer eu te amar menos...
            A voz dela fazia perguntas que não imaginava onde eram formuladas. Não podia ser em seu cérebro, já que ele estava bastante ocupado com os pensamentos sobre aquela estranheza. Seria possível pensar duas coisas ao mesmo tempo? Ouviu a voz de Hendrik:
            — A verdade... A verdade é horrível, ela só serve pra deixar os outros tristes.
            — Não... a verdade conserta tudo... Eu preciso saber quem é você...
            — Você não sabe o que está dizendo. Vai se arrepender.
            — Não, não vou... eu juro que não...
            — Então eu vou te contar toda a verdade.
            Hendrik fez uma pausa tão longa, que Liz achou que ele tivesse desistido. Sonolenta, não conseguia abrir os olhos.
            — Eu acho que sou filho adotivo — começou ele. — E acho porque não sei a verdade. Pai, mãe, filho... um pai de verdade não podia fazer o que ele fazia comigo... meu menininho, meu bonequinho lindo, ele falava, fazendo aquelas coisas que me assustavam, me machucavam... eu fazia o que ele pedia, era o meu pai, devia me amar, aquilo não podia fazer mal, ele dizia que era amor, o amor dele por mim, mas eu sentia dor, muita dor, o amor do meu pai precisava ser segredo, ninguém podia saber que ele me amava, nem minha mãe, ela não sabia de nada, ou fingia que não sabia, estava sempre cansada, com sono, com a voz estranha, uma garrafa na mão, caída no sofá, na cozinha, pelos cantos da casa... meu pai dizia que a minha mãe não amava ele, mas ele me amava, muito, toda noite, no meu quarto, na minha cama, eu tinha medo, mas ele era o meu pai... o amor dele me sufocava, eu estava crescendo, o amor dele ficou mais forte, mais freqüente, a minha mãe já não estava em casa, e eu passei a ocupar o lugar dela na cama deles, mas o meu pai não se contentava em me amar só de noite, ele queria me amar o tempo todo, não queria mais que eu fosse à escola, falasse com os meus amigos... um dia eu fugi de casa, do meu pai e do amor dele, estava cansado de ser amado, de nunca corresponder ao que ele queria de mim, cansado de não ter paz... com o dinheiro eu que roubei dele, fui morar com a minha avó, em Rotterdam. Contei o que tinha acontecido, e ela aceitou me esconder. Não sei se ela gostava de mim, ou se só tinha pena. Com 14 anos minha vida recomeçou, uma nova cidade, novas amizades... novos problemas também. Minha avó não tinha muito dinheiro, não podia me dar conforto, não comunicou ao governo que eu estava morando com ela para não gastar mais... não era uma vida feliz, ela começou a ficar doente, muito doente, e eu não sabia o que fazer pra ajudar, toda vez que ela tinha as crises eu fugia. Um dia, quando voltei, ela estava morta. Os vizinhos chamaram a polícia, eu me escondi, o governo pegou a casa. Fiquei morando com uns amigos. Eles eram mais velhos que eu, a gente se divertia fumando e bebendo o dia inteiro, eu parei de estudar. Havia garotas, a gente fumava, bebia, transava, era bom. Eu não entendia como os caras ganhavam dinheiro até que eles me apresentaram um homem chamado Jakob, que fazia filmes. O Jakob gostou de mim, disse que eu podia ganhar muito dinheiro, queria que eu fizesse fotos. Eu recusei, mas o Jakob me ofereceu tanto dinheiro que acabei aceitando. Eu achava estranho pessoas gostarem de ver outras sem roupa. Fiz muitas fotos. Depois, com outros caras, fazendo sexo e um monte de coisas horríveis, o passado com o amor do meu pai aparecia outra vez. Eu só pensava no dinheiro depois de tudo, queria ser livre. O Jakob gostava de mim, era gentil, sempre preocupado comigo, se eu estava pronto, se eu não queria desistir... ele me dava muito carinho, carinho que eu nunca havia tido. Ele dizia que eu era um bom menino, queria ser bom para mim também. Ele pediu que eu fosse morar na casa dele. E eu fui, ia ter conforto, economizar dinheiro. O Jakob me enchia de presentes. Comecei a participar de filmes, que circulavam escondidos. Eu tinha pouca idade, era o que diziam. Eu fazia minha parte, por causa do dinheiro e pra não decepcionar o Jakob. No início, eu senti medo, depois vergonha, o Jakob me ensinou a fingir que sentia prazer... ele me elogiava, gostava do que eu fazia. Um dia, não precisei mais fingir, comecei a sentir prazer, os caras eram bonitos, gostavam de mim, eu gostava deles... transar daquele jeito era bom, e eu ainda ganhava dinheiro, muito dinheiro... mas, de repente, o Jakob não quis que eu continuasse a fazer fotos, muito menos os filmes. Na casa dele eu estava longe de todo mundo, mas cheio de presentes. Ele disse que me amava, eu só podia transar com ele. O Jakob tinha manias estranhas, gostava de coisas que eu não entendia... eu me sentia sozinho, e passei a me drogar mais vezes, tantas que nem sabia direito o que estava acontecendo. O Jakob me amava, eu não podia decepcionar alguém que tinha me ajudado tanto. As brincadeiras dele me davam medo, ele queria que eu batesse nele, amarrasse, machucasse ele, dizia que aquilo era bom, muito bom. Ele tinha uma sala no porão da casa, aonde a gente ia todo dia. Eu tinha que torturar ele pra que tivesse prazer, eu era mau, mas era o Jakob que me obrigava. Comecei a gostar cada vez menos daquilo, eu fazia ele sentir dor, mas ele dizia que era prazer. Eu tinha nojo de mim, nojo dele. Queria sair, ver outras pessoas, a luz do dia. O Jakob não me deixava mais sair do porão, devia estar louco, eu fumava o tempo inteiro, achei que estivesse louco também... eu precisava fugir, mas não sabia como. Vivia trancado na sala escura, esperando o Jakob. Eu implorei pra ir embora, mas ele não deixou, disse que eu era o menininho dele, o seu bonequinho lindo... era o meu pai que vinha me buscar, eu tinha sido um mau menino, devia ser castigado... o Jakob era o meu pai, o meu pai me amava, o Jakob também, mas eu não gostava mais eles, odiava os dois, eles queriam me matar, precisava me livrar deles... o cara que eu torturava só podia ser maluco. Eu algemei o Jakob, como ele mesmo me pediu, amarrei os pés dele, passei a corda em suas mãos, suspendi seus braços e prendi a corda na viga do teto, vendei os olhos dele, amordacei a boca. Ele me pediu pra subir na escada e mijar em cima dele, eu obedeci, ele gemia. Peguei a lâmina de barbear, e comecei a deslizar na pele mijada, aquilo era nojento. Pernas, nádegas, barriga, peito, costas, braços... a lâmina cortou tudo, o sangue escorria, o Jakob gemia, todo retalhado... ele confiava em mim, me amava, mas eu não gostava mais dele. Eu estava livre e não via, quem estava preso era o homem que me obrigava a ser mau, por que não ser ruim de verdade? Eu enterrei a lâmina no pescoço dele, que urrou que nem um bicho, um grito abafado pela mordaça, pelas paredes, o sangue espirrou longe... algemado, vendado, amordaçado, retalhado, o Jakob se debateu até morrer... eu fugi do porão, corri até o meu quarto e peguei a bolsa onde guardava o meu dinheiro, mas ela estava vazia, não tinha sobrado nada. No quarto do Jakob, roubei dinheiro, mas não era muito, e fugi do jeito que estava, deixei a cidade escura às pressas... não lembro como cheguei em Amsterdam. Estava tão desnorteado, sem saber o que fazer, pra onde ir!... achei que fosse morrer de desespero, eu tinha matado um homem, não podia acreditar naquilo, eu ia ser descoberto, preso, eu tinha medo de passar o resto da vida na prisão, eu era tão novo ainda!... mas não, o Jakob morava sozinho, não tinha empregados, ninguém tinha me visto, quando o Jakob fosse achado, se fosse achado, eu já estaria longe, ninguém ia lembrar de mim... eu estava com medo, pouco dinheiro, muita fome. No fast food, Roy me sorriu, ele disse que eu era muito bonito, quis a minha companhia. Ele não conhecia a cidade, e pediu que eu mostrasse Amsterdam pra ele, ia me pagar muito bem. Era americano, tinha muitos dólares. Eu fiquei no quarto de hotel com ele. O Roy era engraçado, achava tudo divertido, gostava de mim, me deu roupas, presentes, dinheiro... em troca, só pedia carinho, e sexo. Ele perguntou o que eu gostaria de ter, falei que queria um lugar pra morar. O Roy conhecia umas pessoas do governo, ia ver o que podia fazer por mim. Os amigos dele me arranjaram emprego e um bom lugar na fila pra conseguir apartamento. O Roy esbanjava, e me deu muitos dólares, disse que eu merecia. Ele foi embora pouco depois...
            Numa avalanche, Hendrik havia falado sobre seu passado. História confusa, cheia de lacunas, bizarrices. Teria inventado tudo? A troco de quê? Não, confessar um crime era comprometedor demais, ele não brincaria com aquilo. Que vida desgraçada! Como devia ter sido infeliz! Agora entendia muita coisa. Estava tonta, atordoada, suas mãos ainda afagavam os cabelos dele. Novamente tentou abrir os olhos, mas não teve forças. Estava dormindo, sonhando? Não, um pesadelo com Hendrik falando um monte de mentiras que ela se via obrigada a aceitar. Não, era o skunk. Tinha ouvido tudo, só não queria acreditar, era horrível demais, sentia pena de Hendrik, o assassino com a cabeça em suas mãos, sendo acariciado, mas ele não teve culpa, só se defendeu, era muito jovem... Difícil entender e aceitar que o lindo rapaz que ela amava pudesse ter um lado tão feio e triste. Como podia ter feito aquilo? Droga, medo, horror, situação limite... sofrimento, agonia, desespero... sensações insuportáveis. Ele queria sobreviver, ser livre outra vez... muita raiva, uma chance, a arma nas mãos... crime, assassinato... legítima defesa. Ela teria feito o mesmo naquele caso, talvez pior, e não era louca. Hendrik também não era doente, tinha sido vítima de maníacos, tudo o que fez foi tentar se salvar...
            Cega na escuridão do quarto, buscando justificativas que desculpassem Hendrik, adormeceu, arrependida de ter perguntado a ele sobre os segredos de seu passado.

            Nos dias seguintes evitou comentar as revelações de Hendrik. Na verdade, queria muito ter falado com ele a respeito para esclarecer fatos que ainda não havia entendido. Como Hendrik não mais mencionara o ocorrido, acreditou que tudo não tinha passado de alucinação por causa do skunk. O diálogo ficou ainda mais truncado que antes. Sempre que Liz pensava em conversar, Hendrik dava um jeito de desaparecer, como se lesse seus pensamentos.
            Um dia, assim que ela chegou no apartamento, sem mais nem menos, ele perguntou:
            — Você não acreditou naquilo, acreditou? Nas coisas que eu falei naquela noite...
            — Sobre o seu passado?
            — Você sabia que eu estava brincando, não?
            — Não me pareceu... muita coisa passou a fazer sentido pra mim depois daquele dia.
            — Mas era tudo mentira! Você precisa acreditar em mim. Eu não matei ninguém!
            — Eu não vou contar nada, sei guardar segredo. Não acho que você seja culpado de todo.
            — Mentira! Você não gosta de mim, você quer me entregar pra polícia!
            — Que isso?! Ficou maluco? De onde tirou essa idéia?
            — Eu vi você indo na polícia, eu te segui. O que você foi fazer lá, me entregar?
            — Claro que não! Eu só fui levar o contrato do hotel pra entrar na fila da casa própria. Eu precisava entregar o documento na polícia de estrangeiros...
            — E quem é o cara que viaja com você todos os dias até o hotel? É o seu novo namorado?
            — Não Hendrik, é só um amigo do trabalho.
            — Mentira! Você não gosta mais de mim, o Derek tinha razão.
            Achou que Hendrik estivesse perturbado. Nos últimos dias ele havia fumado excessivamente. Uma espécie de pavor parecia impeli-lo ao skunk. Seu comportamento se modificara bastante. Liz começou a ter um pouco de medo dele. Tentou tranqüilizá-lo, dizendo que o amava, o ajudaria sempre. Não ia revelar o segredo dele. Quis conversar sobre o assunto, mas Hendrik saiu, dizendo que ia ao apartamento de Derek.
            Por mais que ela fosse paciente, Hendrik não parecia disposto a colaborar. Vítima de uma súbita mania de perseguição, era ele quem a perseguia por toda parte, vigiando-a desde que deixava o apartamento até sua volta. Hendrik só podia estar enlouquecendo.
            Começaram a ter horríveis discussões diárias. Às vezes tudo fugia de controle. Quebravam objetos, insultavam-se, agrediam-se. Obrigada a atos de que nunca se imaginara capaz, Liz começou a ficar assustada consigo mesma. Sentia-se nas mãos de Hendrik, único que a conhecia por inteiro, incluindo o que de pior ela possuía. Queria que ele parasse de fumar, queria parar de fumar também. Mas a sobriedade era um martírio ainda pior do que estar drogada. Certificava-se de que o limite entre lucidez e loucura era bem impreciso, se não tomasse cuidado poderia ultrapassá-lo, e não sabia se era possível retornar. Sentia medo de Hendrik, tinha quase certeza de que ele era um louco psicótico, mas sabia que o excesso de drogas podia estar deturpando sua visão. Já não discernia realidade de alucinação. Queria fugir, mas não via como. Certa vez, Hendrik tentou sufocá-la com o travesseiro, dizendo que ela não contaria o segredo dele a ninguém. Liz conseguiu derrubá-lo com uma joelhada, lançou-se então para cima dele apertando-lhe o pescoço com toda a força. Assustou-se quando viu o rosto dele ficar escuro e o soltou. Quando se recuperou, Hendrik a chamou de louca. Ordenou que ela voltasse ao Brasil e nunca mais o procurasse. Liz concordou em sair da casa dele, mas continuaria em Amsterdam. Hendrik protestou, se ela não deixasse o país iria ao apartamento dela, quebraria tudo. Liz não aceitava chantagem, ele poderia até matá-la se quisesse, já que era o verdadeiro assassino, ela não ia fugir ou se esconder. Continuaram se ofendendo em violentas discussões, total descontrole emocional. Uma noite, Liz resolveu se refugiar no apartamento da Schinkelhavenstraat.
            Assim que entrou, cortou o fio da campainha. O apartamento semi-abandonado estava sujo, alguma coisa apodrecera na lata do lixo da cozinha, odor desagradável por todo o ambiente. O lugar vazio cheirava a morte, um grande caixão no qual fora se enterrar. No quarto, jogou-se no colchão, chorou. Queria chorar até desfalecer e nunca mais acordar. Há quase um mês vivia aquele inferno. Por que insistia? Por que se deixava levar por uma esperança que não conduzia a lugar algum?
            De madrugada, acordou sobressaltada. Ouviu ruídos na porta do prédio, vozes falando holandês. Reconheceu a de Hendrik, depois a de Derek. Deviam estar tocando a campainha, intrigados por ela não funcionar. Não demorou a escutar os gritos furiosos de Hendrik sob a janela da sala. Ele a xingava, a ameaçava, um desequilibrado gritando insultos no silêncio da madrugada. Sentindo vergonha, encolheu-se no colchão, ficando imóvel para fazer desaparecer o pesadelo vivo. Acreditou que com o apartamento às escuras seria fácil fingir não estar em casa. Depois de ouvir muitas ofensas, achou que Hendrik fosse embora, mas ele tocou a campainha do apartamento de Niek. Desejou que o senhorio não estivesse em casa. Niek não o atendeu, mas assim que Hendrik desistiu, pôde ouvir os passos do senhorio rangendo no piso acima dela. Pensou que ele fosse descer para tomar satisfações, mas Niek não o fez.
            Pretendia continuar refugiada até Hendrik desistir de procurá-la, mas havia deixado as roupas na casa dele, pior, os dois uniformes — sem eles não poderia ir para o hotel. Não tinha dinheiro para novos uniformes, tampouco outras roupas. No dia seguinte, voltou ao apartamento de Hendrik.
            Ele admitiu suas falhas, disse que queria muito mudar, precisava da ajuda dela, não gostaria de continuar fumando, nem brigando. Liz sabia que depois da reconciliação ele continuaria a fazer as mesmas coisas de sempre. Hendrik parecia condenado a nunca mudar, por mais que o desejasse. Ainda o amava, ou amava uma parte dele, mas estava certa de que estaria melhor quando se separassem. Hendrik era vingativo, ciumento, agressivo. Ela odiava o lado escuro dele, que vinha prevalecendo nos últimos tempos. Hendrik sempre encontrava um jeito de atribuir a ela toda a culpa por seu comportamento alterado. Liz também detestava discutir, o que se tornara constante. O passado de Hendrik era horrível, e imaginava que ele só tivesse mencionado parte desse tempo sombrio. Quem era o verdadeiro Hendrik? Alguém que ela não queria mais conhecer.
            Precisava tornar-se desinteressante para ele. Se não o conseguisse, talvez tivesse que deixar a cidade. Mas para onde ir? Como recomeçar em outro lugar sem trabalho, sem dinheiro? Absurdo não poder decidir sua vida, ser forçada a escolher um novo lugar para viver por causa de um maníaco. Tinha que ser forte, paciente e, pela primeira vez, premeditar.
            Vontade de desabafar, falar com alguém que a compreendesse. Sentia-se extremamente só. Numa noite, depois de discutir com Hendrik, depois que ele havia adormecido, saiu, ansiosa para conversar. Por mais que não quisesse assustar Leon, ligando em hora que pareceria suspeita, não resistiu. A voz amiga do outro lado da linha soou reconfortante.
            — Liz? Onde você está? — indagou, meio surpreso.
            — Em Amsterdam — falou, tentando colocar animação na voz. — Tudo bem com você?
            — Comigo sim, mas não com você. A sua última carta, aquela em que você não dizia nada importante, me deixou preocupado. Liz, o que está acontecendo? Você não ia me telefonar à toa. É tarde aqui, deve ser madrugada aí...
            — Eu não sei mais o que fazer... só queria que esse inferno acabasse...
            — Vocês brigaram novamente.
            — Milhares de vezes, eu não agüento mais!... Eu só queria sair daqui!
            — E o que te impede? Volta, aqui tem muita gente que gosta de você.
            — Eu tenho vergonha. Todos acham que eu vim pra cá mudar de vida. Não sei o que fazer.
            — Mas o que aconteceu de tão sério pra você ficar nesse estado?
            — A gente briga o tempo todo, fazemos coisas horríveis um com o outro. Agora demos pra nos agredir, ele me bate, eu bato nele, é o fim...
            — Mas por que isso? Eu não entendo.
            — Ele está ficando maluco, fuma todo o tempo, me persegue... Pra completar, aquela bicha nojenta do Derek só sabe falar mal de mim. Outro dia ele entrou no apartamento do Hendrik e quase me agrediu também. Começou a gritar que eu era uma piranha velha e sonsa, e só fazia o Hendrik sofrer. Foi a maior baixaria, e o Hendrik nem me defendeu.
            — Eu não imaginava que as coisas chegassem a esse ponto...
            — Me sinto péssima no meio dessa gente que não vale nada, sem poder ir embora. Eles sabem onde eu moro, onde eu trabalho... Não tenho dinheiro pra tentar a sorte em outro lugar...
            — Liz, eu queria muito te ajudar, mas não sei como.
            — Você já me ajudou bastante, Leon. Preciso pensar na minha vida. Eu só queria desabafar, e você é o único com quem eu posso falar. Agora já me sinto bem.
            — Mas essa sensação não vai durar pra sempre.
            — Eu preciso pensar num monte de coisas. Depois eu te escrevo contando melhor o que tem acontecido...
            Terminada a ligação, apesar de sentir-se um pouco mais leve, estava arrependida. Leon devia ter ficado preocupado. Paciência. Na carta, tentaria abrandar o melodrama.

            O salário que esperava receber da HOF foi bem menor do que supunha. O valor bruto do ordenado caía de 1.700 para 1.200 gulden líquidos, descontados taxas e impostos, e isso apenas se não houvesse uma falta. Esperava receber 1.300 pelo período de treinamento, mas recebeu somente 900 gulden — dos quais foram descontados os 500, dados como adiantamento. Achava que a HOF a estava roubando.
            Procurou Mathias. Ele ainda estava interessado em que ela trabalhasse no BarHamas, mas só como substituta, e clandestinamente.
            Caos. Relacionamento desastroso, total insatisfação profissional, dívidas... O único fato que amenizava a situação era Niek ter aceitado o dinheiro do depósito como pagamento dos últimos aluguéis. O senhorio disse que se ela quisesse continuar no imóvel renovaria o contrato.
            Sempre que tentava analisar sua vida, achava que perdia tempo ficando na cidade. Mas a conversa com Leon já ecoava fraca em sua mente. Naquele período de trégua acreditava que tudo ia melhorar, voltar ao Brasil não era a solução. Sem ânimo, começou uma carta para Leon. Mas não tinha vontade de falar sobre assuntos deprimentes. Leon havia enviado cartas que ela ainda não respondera. Crivava-a de perguntas, estimulava-a a voltar, falava da amizade deles, dizia que a amava.

            Com o auge da primavera Amsterdam lhe pareceu mais alegre. O bom tempo alimentava suas esperanças de permanecer na cidade. Hendrik estava bem melhor, apesar de continuar fumando. Haviam parado de brigar.
            Os dias ensolarados anunciavam a chegada do verão. O sol se punha cada vez mais tarde. Hendrik preparava ótimas refeições, com entrada, prato principal, sobremesa. O desejo dele em agradá-la a deixava enternecida. Até mesmo sanduíches ele fazia para ela comer no hotel. No Amstelveense, depois que suas mãos haviam se recuperado, estava cada vez mais rápida.

            Daniel também tinha lhe mandado cartas. Lembrava-se ainda de quando ele lhe telefonara no hotel, depois da noite em que, desesperada, havia ligado para Leon. Arrependia-se de ter sido fraca, não ter suportado ficar quieta. Surpresa por Daniel tê-la procurado no hotel — já que não imaginava que Leon houvesse guardado o número de telefone do Amstelveense —, procurou tranqüilizá-lo, mas sentiu que não tinha sido convincente. Precisava escrever aos dois explicando que não havia mais motivos para se preocuparem.
            Começava a se reequilibrar. Já não se sentia tão frágil.

            Depois que enviou as cartas, passou no apartamento da Schinkelhavenstraat para verificar a correspondência. Mais uma carta de Leon, carta do banco, outra de uma agência de empregos. Subiu as escadas. Na porta, encontrou um bilhete de Niek: “Preciso saber se você vai continuar no apartamento ou não”. Subiu mais um lance de escada, bateu na porta do senhorio.
            — Olá, entre! — pediu ele, apontando em seguida o sofá.
            Sentou, aguardou que Niek falasse.
            — Se você quiser ficar com o apartamento eu posso manter o preço do aluguel — falou ele.
            Pensou que Niek reduziria o valor, já que ela moraria sozinha. Mas talvez ele a considerasse uma inquilina-problema, por causa do recente escândalo de Hendrik.
            — Então eu não vou poder continuar no apartamento — disse Liz. — Não vou conseguir pagar o aluguel com o meu salário.
            — E por que você não arranja outro emprego?
            — Estou esperando o chamado de uma empresa americana que me aprovou num teste. Mas não sei quando vai ser isso. Se a carta chegar dizendo que consegui o trabalho antes de terminar o contrato, eu continuo no apartamento.
            Desceu ansiosa para ler a carta de Leon. Depois de três semanas trabalhando como free-lancer, ele havia sido efetivado na agência de propaganda. Ficou tão contente com a novidade como se ela mesma fosse a contratada. A carta da agência de empregos, que abriu sem interesse, comunicava que a Beamy, a empresa americana, queria contratá-la. Pediam que comparecesse na sede para a última entrevista.
            No dia marcado, o entrevistador verificou os conhecimentos dela sobre equipamentos de informática. Foi sincera ao dizer que tinha apenas noções superficiais, mas poderia aprender. O entrevistador avisou que Liz havia sido aprovada, e deveria esperar o comunicado anunciando o início do período de treinamento. Ficaria no grupo das pessoas que falavam espanhol, o grupo das que falavam português estava completo. Acostumada com o horário do hotel, Liz achou que a jornada de trabalho na Beamy, de oito e meia da manhã às seis da tarde, devia ser cansativa.
            Procurou Niek para avisar que não ficaria com o apartamento. Apesar de se considerar contratada pela Beamy, decidiu não continuar pagando o aluguel do imóvel em que raramente aparecia. Precisava saldar dívidas, começar a juntar dinheiro. Não pretendia morar oficialmente com Hendrik, temia não ter para onde ir caso tivessem uma briga feia. Tinha de encontrar outro lugar para ficar.

            Na última semana de validade do contrato do aluguel do apartamento apanhou duas cartas junto à entrada do prédio: uma de Leon, outra de Daniel. Os dois pareciam não apenas ter combinado o dia do envio da correspondência, mas também o teor do que haviam escrito. Ainda movidos por sentimentos suscitados pelas cartas nas quais Liz julgava reparar o equívoco de tê-los deixado preocupados, usavam palavras duras, pessimistas, desaforos... A carta de Leon, bem mais cáustica que a de Daniel, chocava pela quantidade de julgamentos fundamentados em algo que ela não mais vivia. Outra vez, como na maioria das cartas anteriores, ele alardeava sua paixonite, neurose amorosa que só a irritava. Daniel também tinha sido rude em sua forma de analisar os fatos que devia ter especulado com Leon. Que decepção! Seus dois únicos amigos tratavam-na como se fosse uma louca que não controlava a própria vida. Tentava levar em conta o lapso de tempo entre a troca de informações, erros de interpretação, palavras mal empregadas, mas nada justificava aquele complô. Mais ferino que nunca, Leon parecia aproveitar a situação para desrespeitá-la, humilhá-la, vingar-se. Cobrava detalhes que ela prometera, ressentia-se por não ser mais tratado como confidente. Como sempre, falando mais de si do que qualquer coisa, Daniel reclamava não poder contar com ela para mais nada, a distância que os separava, a falta de notícias... Os dois achavam que Liz estava sob péssima influência, perdida, desestruturada... tudo porque ela expressara sua forma de pensar, seu ponto de vista. Nenhuma palavra gentil, de alento ou incentivo. Leon e Daniel pareciam obstinados a reduzi-la a nada.
            Mero reflexo do que ela mesma provocara? Também tivera culpa naquilo. Havia causado apreensão e revolta em seus amigos, mas não lhes dera direito a julgamentos e condenações. Não deveria tê-los preocupado com histórias de quando estava sem condições de discernir realidade e fantasia. Difícil agora corrigir a confusão. Sentia vergonha por ter se deixado levar pelas emoções, pelo medo da solidão. Ficou triste. Primeiro consigo mesma, depois, com os amigos.

            Mudou-se para o apartamento de Hendrik, dizendo que ficaria apenas tempo suficiente até encontrar um novo lugar. Habituado a presença dela, ele não se opôs. Notava que mais uma vez Hendrik se esforçava em estudar, queria terminar o curso, ter um bom emprego numa companhia aérea. Ele começou a fumar menos, a inventar desculpas para não visitar Derek. O empenho dele a alegrava. Tudo estava voltando aos complexos e delicados eixos.
            Deixou para contar a Hendrik sobre o emprego na Beamy apenas no dia anterior ao início do treinamento. Contente a princípio, ele não ficou muito satisfeito quando ela disse que trabalharia mais do que no hotel. O salário maior e o trabalho mais leve pareceram boa justificava para Liz, mas Hendrik não concordou. Ela sabia que somente quando ele estivesse empregado compreenderia a real importância de um trabalho com o qual fosse possível se sustentar.
            Liz não fumava mais, e Hendrik havia reduzido a quase nada seu vício. Pela paz que passou a existir entre os dois, acreditou que era a droga que punha tudo a perder. Cada qual procurava respeitar os horários do outro, os momentos em que gostavam de ficar sozinhos. Passaram a não discutir. Se algo os aborrecia ou incomodava, tentavam conversar. As próprias conversas haviam se modificado. Hendrik, estudando e dominando melhor o inglês, fez com que Liz percebesse que todos os mal-entendidos entre ambos derivavam do fato de ela não entender perfeitamente o inglês dele, e ele o dela. Agora, quando algo não soava bem, antes de nova disc