Contava os dias. A nova vida, que eu nem imaginava qual seria, me aguardava no outro lado do oceano. Não tinha medo, apenas pressa. Não conseguia traçar planos. Os três meses passados naquele exílio pareciam toda uma vida. Quando telefonei para minha mãe dando a notícia, ela tentou encorajar-me a permanecer. Nossas idéias nunca se coadunavam. Contou-me que um amigo que eu já não via há algum tempo tinha me procurado para um trabalho. Seria uma esperança me acenando no outro lado do Atlântico? Enviei um postal a ele, dizendo que eu estava voltando.

            O tempo se arrastava. Passagem comprada, mala arrumada... e ainda precisava esperar. Fazia três dias que não via Liz, aproveitando sua longa folga com Hendrik, tentando escapar da solidão. Pensei que por causa da minha partida ela fosse ficar mais tempo comigo, ou trazer Hendrik para nos divertirmos juntos. Devia preferir antecipar sua realidade.
            No final daquele ciclo, me vi levado a fazer um balanço da minha vida, tão ligada à de Liz. Mas foi a vida de Liz que saltou na minha frente, como tela de cinema. Comecei a lembrar o início de tudo. A viagem dela ao encontro de Franz... a descoberta de Hendrik... a volta ao Brasil... a angústia em querer regressar a Amsterdam... o retorno e o complicado reencontro com Hendrik... Quanta coisa acontecera na vida de Liz! Quanta desordem, sofrimento, tensão... Quanto misticismo envolvendo fatos estranhos, coisas que não sabíamos explicar, quantos sonhos, quanta bobagem... Tudo o que havíamos sonhado, intuído, previsto... eu não distinguia a menor relação entre nossas miragens passadas e os fatos presentes. Regressões, cartomante, I Ching... todos haviam errado. Não havia Deus, nem demônio, nem alma, nem vida depois da morte, nada... apenas o homem e seu eterno pavor de se saber completamente só no mundo. Liz havia mudado sua vida com base em premonições e lembranças de sonhos que nunca se concretizaram. De repente, achei tudo tão patético! Até que ponto as pessoas são capazes de mentir a si mesmas?... para obter o quê? O amor com o qual se sonhou em noites de delírio, o relacionamento que nunca se torna harmonioso, um pouco de carinho e atenção, o prazer de um sexo restrito condicionado ao uso de drogas?...
            Comecei a reordenar a história que dançava desconexa em meu cérebro. Minha visão, talvez recalcada, mas lúcida, me auxiliava. Não era difícil anular as poucas qualidades de Hendrik quando se conhecia seus muitos defeitos. Ele quase me enganou. Estranhamente, não conseguia odiá-lo, mas sentia pena de Liz por tudo o que ela já havia passado, por tudo o que talvez ainda enfrentasse... E eu envolvido nessa história, presenciando impassível o sofrimento que acabava apenas agravando. Queria que Liz se entendesse com Hendrik, embora isso não me parecesse fácil. Em todo caso, eu não estaria mais testemunhando seu sofrer. Nossa distância faria minha ignorância não me pesar.
            No meio da sala comecei a rir. Nossos desvarios místicos desmentiam a si próprios. Mais uma vez reneguei os sonhos, visões e coincidências que sempre tinham me sido tão caros. Abandonava tudo no fundo de um apartamento que representava o abismo do qual eu ressurgia novo, livre de crendices tolas.
            Enquanto ainda ria e valsava minha libertação, comecei a sentir um leve ardor na pele do abdome, um inseto devia ter me picado. Passado algum tempo, a alergia começou a aumentar. Devia ser infecção alimentar, talvez devido aos enlatados que eu vinha comendo.

            No dia seguinte pela manhã, olhando no espelho, uma grande mancha avermelhada, que coçava, cobria boa parte do meu ventre. Tentei ficar calmo, era só não comer coisas condimentadas.
            À tarde vi que estava enganado: a coceira havia aumentado tanto quanto a extensão da alergia, que começava a se alastrar pelas costas. Aproveitando os dias de folga com Hendrik, era pouco provável que Liz aparecesse em casa. Se ao menos eu pudesse comprar algum remédio... Impossível. Não só porque eu não saberia pedi-lo na farmácia, como, se o soubesse, jamais o venderiam sem receita médica. Precisava de Liz para irmos a um hospital.
            Comecei a me automedicar com uma pomada que encontrei nos pertences de Liz. Como os sintomas eram semelhantes ao do herpes, o medicamento destinado a esse fim era providencial. Mas a moléstia estava num estágio avançado demais para que uma simples pomada fizesse efeito. Passei mais um dia sozinho, inquieto, trancado no apartamento. Quatro dias sem notícias de Liz! Ela nunca ficara tanto tempo sem aparecer... estava com a mesma roupa havia vários dias... Teria Hendrik feito algo com ela? Assustei-me. Liz estava morta! E eu morreria também, sozinho, sem socorro, devorado pela doença que corroía minha pele!... Não conseguia me acalmar. Logo agora que eu estava tão certo de tudo... Além da minha própria inquietação ainda tinha de me preocupar com Liz.
            Mais uma noite se passou, terrível, pontilhada por pesadelos. O espelho cruel me exibiu um monstro: tórax, pernas, braços, vermelhidão e prurido haviam feito grande avanço. Inúmeras vesículas ardiam, colônias de diminutos vulcões. Entrei em pânico. Precisava fazer alguma coisa, não podia continuar esperando uma ajuda que não chegava. Nesse instante, uma sombra atravessou meus pensamentos: não seria aquela enfermidade inesperada e sem motivo prova de que me equivocara em desprezar a existência de mistérios que não entendia? Um ódio violento se apoderou de mim. Então era verdade que existiam coisas inexplicáveis e absurdas que faziam as pessoas se comportarem como loucas? Minha raiva diante do que parecia constatação me fazia soluçar.
            Na véspera do meu embarque, eu parecia condenado a morrer na cidade que tanto odiava. Tão desesperado quanto enfurecido, comecei a me vestir com a pressa de quem fugia. Havia apenas uma possibilidade para minha salvação. Quando descia as escadas, ouvi a campainha. Só podia ser Liz! Devia ter perdido as chaves. Corri para abrir a porta, certo de que sobreviveria. Vi um casal vestido de preto, seguidores das Testemunhas de Jeová, que tentava me seduzir com uma conversa insípida e brochuras sem graça. Procurando ser educado, disse que não falava inglês, nem holandês. Eles me perguntaram que idioma que eu falava. Seguro de que me deixariam em paz quando soubessem minha língua natal, declarei que falava português. Para meu espanto, entregaram-me folhetos escritos no idioma que eu julgava desconhecido para eles. Pediam que eu os acompanhasse até uma igreja onde Deus me ajudaria. Mentiam. Era a morte em dose dupla vindo me buscar. Puxei a porta, empurrei os dois e corri o mais depressa que pude.
            Fazia frio naquela manhã de primavera. Eu queimava em febre, raiva, revolta. O pesado sobretudo, a blusa de manga comprida e gola alta, as luvas protegiam minha miséria cutânea dos olhares alheios. Meu rosto continuava intacto, pálida máscara ocultando uma angústia invisível aos outros. Sem saber qual bonde tomar até o apartamento de Hendrik, sem dinheiro, atravessei a pé a cidade, imenso deserto sem horizonte. Andava massacrado por pensamentos que desfaziam uns aos outros, marchando como se não soubesse fazer outra coisa.
            Pensei que nunca chegaria. Suava frio sob o vento gelado, meu rosto ardia, meu corpo era uma massa incandescente. Olhei o relógio: cedo demais para quem estava acostumado a acordar tarde. Eu tinha uma boa desculpa. Toquei o interfone. Hendrik atendeu com voz sonolenta. Sim, Liz estava lá. Ele destravou a porta do prédio, entrei. Ela me recebeu na porta do apartamento, sorrindo, como se eu estivesse fazendo uma amistosa visita. Sem perder tempo, contei o que se passava comigo a ponto de importuná-los. Não detive as lágrimas. Eu queria ir embora daquele país detestável. Achava que poderiam me impedir de viajar contaminando outras pessoas, temia que me detivessem em quarentena. Eu perderia a passagem e, sem dinheiro, não conseguiria mais voltar. Liz ficou aflita, sentia-se culpada por ter me abandonado. Levou-me até a cozinha para que eu tomasse água com açúcar. Trêmulo, bebi o líquido num só gole, mas nada parecia capaz de me tranqüilizar.
            Hendrik, deixando o quarto, surpreso com tanta lágrima e comoção, quis saber o motivo daquilo. Liz procurou traduzir o meu sofrer. Curioso, ele afastou um pouco a gola alta da minha blusa, fazendo cara de repulsa ao observar as feias manchas. Tentou ser prestativo. Disse que havia um hospital nas proximidades, mas não sabia ao certo o endereço. Liz perguntou se ele podia nos levar até lá, mas Hendrik se recusou: estava em débito com alguns médicos que o queriam para experiências com as quais ele se recusava a cooperar, tinha receio de que o identificassem. De tanto andar pela cidade, eu sabia onde era o lugar. Saímos em busca de socorro.
            Liz tentava me consolar com palavras de incentivo, dizendo que tudo ia dar certo, eu ia me sair bem daquilo. Seu rosto deformado pela apreensão me assustava.
            No hospital fui tratado como curiosidade médica. Desagradável observar o horror no rosto surpreso da enfermeira. Liz, vendo-me despido, só então tendo noção da gravidade do meu problema, não conseguiu disfarçar o assombro que fingi não perceber. Após preenchermos formulários, fomos encaminhados a uma sala de espera. O médico que me atendeu em caráter emergencial declarou desconhecer a doença que me acometia. Indagou de onde eu vinha. Sabendo meu país de origem, fez cara de quem não era obrigado a ser perito em doenças tropicais, e esquivou-se alegando não ser dermatologista. Pediu que aguardássemos um especialista. Depois de esperar mais de duas horas, sem que o dermatologista aparecesse, o médico que me examinara inicialmente — e que terminava seu turno —, disse que precisava resolver o meu problema antes de ir embora. Com indiferença, perguntou se eu era alérgico a algum medicamento. Como saber? Seria necessário ter experimentado todos. Respondi negativamente. Então, com a altivez de quem salvava um desgraçado, ele me entregou uma cartela com quatro comprimidos, a serem tomados de seis em seis horas, que atenuariam minha enfermidade até eu chegar ao Brasil. O doutor me aconselhou a não dizer a ninguém no aeroporto ou no avião que eu estava doente.
            A promessa de cura me aliviou. Liz não estava mais aflita. Retornamos ao apartamento de Hendrik para tranqüilizá-lo também. Quando chegamos, apenas os gatos se encontravam na sala. Sentei no sofá. Liz entrou no quarto procurando Hendrik. Recém-saído do banho, perfumado, pele brilhando, ele, vendo-me calmo, disse estar contente por ter me ajudado. Lamentou que eu não estivesse tendo sorte em Amsterdam, quis saber por que eu não gostava da cidade. Retruquei que era Amsterdam que não gostava de mim.
            Medicado, sentindo-me melhor, achei conveniente voltar ao apartamento. Queria descansar antes da viagem no dia seguinte. Agradeci aos dois, desculpando-me por tê-los acordado cedo. Hendrik e Liz mostraram-se indecisos sobre o que fariam no resto do dia que eu parecia ter estragado. Ele queria comer pizza, ela queria passar a tarde comigo. Eu não queria ser motivo de discórdia. Já me dirigia para a porta quando Hendrik me deteve: ia me dar um presente antes que eu fosse embora. Entrou no quarto e voltou trazendo uma camisa de manga comprida, toda amarrotada. Colocou-a em minhas mãos, falando que eu deveria usá-la quando fosse à praia à noite. Liz o olhou com ar de desaprovação, mas nada comentou. Agradeci, dizendo que não ia esquecer dele. Hendrik confessou estar arrependido de ter pensado mal a meu respeito, lamentou que tivéssemos tido poucas oportunidades de nos conhecermos melhor, nos tornarmos amigos. No meu último dia na cidade ele admitia ter certeza que eu era um cara legal. Com um aperto de mão, nos despedimos.
            Novamente a pé, atravessei pela derradeira vez a linda cidade maldita. Até o último minuto ela me hostilizava. O passeio forçado era mais que despedida, certeza de jamais voltar a ver a bela paisagem triste, a frieza e indiferença das pessoas num cenário rico e miserável, sofisticado e grotesco. Só de uma coisa eu teria saudade: o Vondelpark. A primavera o transformara num lugar tão agradável! Árvores balançavam imensas copas verdes ao vento, lagos refletiam tons de azul do céu, pássaros voavam, nadavam, cantavam, o gramado era um infinito tapete brilhante de onde brotavam numerosas manchas de flores coloridas, o sol ameno aquecia a natureza renovada, renascida depois do longo inverno. As pessoas ali não pareciam alheias àquela explosão de vida, tive impressão de que buscavam um refúgio para não enlouquecerem. Um casal me chamou a atenção: Petra, a bela violinista ruiva e seu namorado árabe. Sentado num dos bancos, o rapaz apoiava em seu colo a cabeça da moça, que brincava com o rosto dele. Riam, estavam felizes. Petra parecia outra pessoa, um vestido claro, cabelos soltos acariciados pelo namorado. A cena me comoveu. Tudo estava bem agora. Tudo havia terminado bem.
            No quarto, estendi a camisa no colchão dobrando-a com cuidado. O perfume de Hendrik, impregnado na roupa, recendeu como um adeus. Pensei com carinho em Liz e nele, esperançoso de que se entendessem definitivamente. De repente, lembrei de uma das regressões que fizera com o Dr. Antoine: o casal de estrangeiros buscando ajuda. O homem estava ferido e eu, como pajé, era o único, no Brasil de 1510, capaz de dar algum alívio às dores do jovem, ao sofrimento de sua esposa. Mas eles haviam chegado tarde, nada mais podia ser feito. Estranha correlação. Teria acontecido comigo algo semelhante em ordem inversa? Eu, o estrangeiro, doente e perdido numa terra estranha buscando ajuda de um casal de nativos... O homem, que antes eu não havia conseguido ajudar, agora tinha sido a chave para minha salvação, e sua esposa, o veículo... Curado, finalmente livre, eu os deixava para viverem suas vidas outra vez reunidas, retornando ao meu verdadeiro mundo. Belo fim se estivesse escrevendo um livro.
            Liz chegou pouco depois de mim. Hendrik havia sugerido que ela passasse o resto do dia comigo. Com alegria, contei que estava pensando em escrever uma história, aproveitando fatos que tinha vivido. Incentivou-me dizendo que teria prazer em ler o que eu ainda nem criara. Sugeriu até um final. E, palavra por palavra, sem que eu nada dissesse, ela descreveu exatamente o pensamento que eu havia tido pouco depois de chegar ao apartamento.

            Após a noite mal dormida, levantei ansioso por partir. No chuveiro, não notei melhoras em minha pele, mas a doença parecia não avançar. Acordei Liz. O táxi solicitado na noite anterior foi pontual. Meu corpo estava dolorido, e com esforço desci minha mala.
            No aeroporto, bagagem despachada, passagem na mão, andamos algum tempo antes do meu embarque.
            — Nunca pensei que esse momento fosse acontecer — falou, triste. — Achei que você ficaria comigo... Não vai ser mais assim, mas isso é o que menos importa. Eu vou sentir muito a sua falta, mas fico contente em saber que você vai voltar com descobertas que mudaram a sua vida.
            Eu olhava o rosto dela, os olhos vermelhos prestes a derramar as lágrimas que eu também tentava evitar. Queria dizer um mundo de coisas, mas minha garganta estava estrangulada pelo esforço em deter a voz que sairia embargada. Liz colocou as mãos nos meus ombros, olhando-me de frente, deixou sua tristeza líquida deslizar pelas faces. Disse:
            — A gente nunca vai estar separado. Um pouco distantes fisicamente agora, e mais próximos do que nunca. Amo você.
            — Eu também te amo, Liz.
            Achei que ela fosse me dar um beijo de despedida, mas parecia indecisa. Como não se resolvia, abracei-a e beijei-lhe o rosto. Nossos corpos se comprimiram durante algum tempo. Pensei que seria fácil partir, deixá-la sozinha, mas só agora constatava o caráter definitivo da minha decisão. Nossa história havia acabado. Nossas tristezas me dilaceravam, mas eu tinha feito a escolha certa. Afastamo-nos sem dizer palavra. Encaminhei-me para a sala de embarque sem olhar para trás.

            Desci em Lisboa uma hora mais tarde. Por causa do fuso horário, desembarquei na mesma hora em que tinha deixado Amsterdam. O tempo havia parado. Quando comprara a passagem, não tinha me parecido ruim chegar um dia antes da data de embarque ao Brasil. Agora, doente, frágil precisava suportar uma longa espera. Apesar do remédio, a doença não cedia. Após um curto período, em que julguei que tivesse estacionado, ela voltava a progredir. Por que o medicamento não fazia efeito? As vesículas vermelhas transformavam-se em placas ásperas, que coçavam muito. Minha pele de réptil me enojava.
            O que fazer num aeroporto diminuto onde nada prende a atenção? Saudável, eu teria encontrado muitas formas de matar tempo, agora só conseguia pensar em ficar curado. Minha mortalidade me assustava. Não era tanto o medo da morte, mas de deixar de existir de uma forma estúpida, sem ter realizado nada importante, sem chance de experimentar minha escolha.
            Meu livro... precisava escrevê-lo... Agora sabia que desfecho dar à história. Minha doença... por que não me abandonava? As horas não passavam... estava perdendo tempo... Ia morrer... antes de terminar minha vida...
            Andei, sentei, levantei... incontáveis vezes. Meu corpo doía, minha cabeça latejava. Sentia sono, mas não havia onde deitar, tinha sede, fome, mas com pouco dinheiro, poupava-o, sabendo que poderia fazer apenas uma refeição. Minha doença avançava, eu ainda podia escondê-la, mas talvez ela não demorasse a atingir meu rosto. As manchas desciam pelas pernas, pelos braços, subiam pelo pescoço, eu puxava a gola alta da blusa tentando manter escondido o motivo do meu martírio secreto.
            Andei, sentei, levantei, andei, sentei, levantei... toda a manhã, a tarde inteira, a noite e a madrugada insones.
            Exausto, embarquei como se acordasse de um pesadelo. Só quando aterrissamos em Madri lembrei da maldita escala. Agora estava ainda mais distante de casa. O gigantesco aeroporto era prova de resistência. Andei apressado, como se fugisse. Queria embarcar logo, salvar minha pele, minha vida. O tempo me aprisionara numa descomunal gaiola de ferro e vidro, o remédio inútil havia terminado, eu suava, mas estava gelado, a doença evoluía, eu morreria longe de tudo e todos.
            O avião que me levaria ao Rio estava atrasado. Era preciso esperar. Se no dia anterior eu tinha perdido o ânimo no restrito aeroporto de Lisboa, agora desanimava ante a vastidão de espaços vazios. Telefonei para minha mãe. Com cautela, disse que estava doente, muito doente. Sua voz preocupada me acalmava, me incomodava.
            Depois de esperar mais de cinco horas, embarquei de volta ao Brasil, num vôo que deveria durar dez horas.

            Febril, não tendo dormido um só minuto na poltrona da classe econômica, desembarquei no Rio, num calor asfixiante para o início de abril. Eu devia estar com uma aparência assustadora. Minha mãe não me reconheceu de imediato. Ainda no aeroporto, entre saudade e espanto, começou a me bombardear com perguntas e cobranças. Eu tinha que ser paciente, precisava enfrentar as conseqüências das mentiras que inventara. No táxi, a caminho de casa, de olhos fechados, angustiado, ouvia em silêncio uma ladainha interminável.
            Após deixarmos as malas em casa, fomos a uma clínica próxima. Com o caro valor da consulta de emergência pago, não demoramos a ser atendidos. Minha mãe e o jovem médico ficaram chocados com meu estado. Meio inseguro, o doutor disse que nunca havia visto uma manifestação de herpes tão violenta — 90% do meu corpo estava atingido. Eu evitava me olhar, olhar o rosto de minha mãe. O médico não era dermatologista, e pediu que fôssemos, no dia seguinte, ao hospital público em que trabalhava, onde conhecia uma ótima equipe de dermatologistas. Pediu-me autorização para um teste anti-HIV. Não me opus. Receitou comprimidos para a doença que eu parecia apresentar.
            Em casa, atordoado com o retorno a um passado do qual tentara escapar, entrando num quarto abafado e úmido, que mais parecia uma cela, reconhecendo meus pobres móveis, meus ultrapassados eletrodomésticos fui invadido por um mal-estar que me dava ânsia de vômito. Meu fim devia estar bem próximo. Antes de descansar — talvez para sempre —, resolvi tomar banho. Sob a luz fluorescente, diante do espelho, uma nudez chocante: tórax totalmente coberto por manchas e placas imensas, escuras como hematomas, braços e mãos tomados pela moléstia, pernas enegrecidas, pés inchados... não me reconheci naquele corpo repugnante e disforme. Estava em decomposição, apodrecia ainda vivo. Horrorizado, não conseguia chorar. Melhor morrer, acabar de uma vez por todas com aquele sofrimento. Uma voz interior, suave e tranqüila começou a repetir: “Você está morrendo, você está morrendo...”
            Achando que o cansaço dos últimos dias me faria dormir profundamente, deitei-me no calor do quarto, me concentrando na voz que ouvia em meu cérebro, acreditando no alívio que ela prometia. Mal chegava e já ia tornar a partir, para sempre, para o mundo da não-existência, único lugar onde a paz fazia sentido...
            Ouvi a voz a noite inteira. Não só ela não havia me deixado dormir, como — ao contrário do que ditava — tinha me impedido de morrer.

            No hospital público, demoramos a encontrar o médico que havia nos atendido na véspera. Quando o achamos, ele, me fazendo passar na frente de um monte de gente que devia estar há horas nas filas, nos encaminhou ao setor de dermatologia. Repetia sem cessar a frase que abria todas as portas: “É um caso prioritário!”.
            Em pouco tempo, eu estava diante de oito profissionais que me tocavam, fazendo toda sorte de perguntas. Entreolhavam-se surpresos, curiosos, piedosos. Cada qual emitia seu parecer, mas a maioria concordou que a herpes simplex tinha sido o ponto de partida para meu quadro atual: uma vasculite descontrolada a um estágio que jamais haviam visto. Discretamente, comentavam com minha mãe que aquela inflamação dos vasos sangüíneos era típica de pessoas bem idosas, ou pacientes soropositivos, que manifestavam aqueles sintomas na fase da sororreversão. Deitado na maca, um pouco afastado de onde estavam reunidos, eu ouvia meu provável diagnóstico. “Como? Através de que tipo de contaminação?”, me perguntava, tentando aplicar a hipótese ao meu caso.
            Os médicos suspenderam o remédio do qual eu só tomara duas pílulas — ele não faria efeito. Depois de colherem material para biópsia, solicitaram exames a serem feitos imediatamente. Uma médica experiente responsabilizou-se por meu tratamento. Como não era possível um diagnóstico preciso antes da análise dos exames, a doutora receitou um antialérgico. Valendo-se da gravidade do meu caso, a médica fez com que eu furasse as filas necessárias para os devidos exames. Tudo correu muito bem enquanto havia funcionários do hospital nos auxiliando segundo as ordens da doutora. Quando terminou o expediente matutino, sem a presença da médica, ficamos abandonados à própria sorte. Os atendentes e médicos do turno da tarde exigiam papéis que eu não podia apresentar, já que havia furado filas. Por sorte, minha mãe estava comigo nessa hora difícil. Bastante exaltada, ela me ajudou a não perder a coragem. Fiz parte dos exames pedidos, o restante só poderia ser feito na semana seguinte.
            Deixamos o hospital no fim da tarde. Minha mãe foi comprar o antialérgico. Fui para casa, enfraquecido, preocupado. Durante o trajeto tentava pôr em ordem meus pensamentos. Tudo havia terminado mal, tudo recomeçava ainda pior. Um desastre voltar ao Brasil naquelas circunstâncias. Não tinha ilusões de que minha volta seria uma espécie de redenção, mas não contava com uma horrível moléstia para dificultar tudo. Tinha sido imprudente: se a hipótese do retorno não estava descartada, deveria ter guardado dinheiro para tanto. Erro grave.
            Pelo menos uma certeza eu havia readquirido com os últimos acontecimentos. Decidi-damente, como nunca devia ter duvidado, não podia mais acreditar em Deus, anjos, visões, sonhos premonitórios, regressões a vidas passadas... A ajuda que o casal de estrangeiros tinha dado ao pajé quase o levara à morte.
            Ao chegar em casa, soube que Isadora e a mãe de Liz haviam telefonado. Eu não queria falar com ninguém. Meu abatimento impressionava minha avó. Ela acreditava que meu estado atual se devia a eu não me alimentar bem no tempo em que estive fora. Pretendia me recuperar com os pratos que prepararia até meu restabelecimento. Minha mãe não tardou a chegar. Como uma enfermeira particular, medicou-me e decretou que eu deveria repousar, e me alimentar muito bem.
            Por mais que agora procurassem me poupar de suas opiniões, a impressão que eu tinha era de ter retornado para casa como uma criança peralta que havia feito uma grande travessura. Como punição precisava reconhecer meu erro, meu tempo desperdiçado, meus prejuízos. Conquistas materiais, objetos palpáveis, provas concretas... só isso parecia ser importante, ter valor. Como cheguei de mãos vazias, deixava evidente minha derrota. Não tinham entendido nada do que eu fizera, nada do que aquela tentativa havia significado para mim. Não conseguiam perceber que durante algum tempo, pude sobreviver por mim mesmo, quase sozinho. Paradoxalmente, agora eu compreendia minha mãe e avó bem mais do que antes. Isso não era suficiente para um perfeito entendimento mútuo. Do outro lado não havia eco. Nada mudara. Minha família continuava a mesma de antes da minha partida. Reencontrar intacta a densa atmosfera familiar me fazia mal, reduzia-me a um ser limitado, tornava a me submeter a regras que eu desprezava e que era obrigado a respeitar. Não me achava mais no direito de dar sugestões num esquema do qual tinha fugido. A casa da minha família não era o meu lar. Sentia-me agora mais desconfortável do que antes da viagem. Minha atual fragilidade fazia com que aos olhos de minha mãe e avó eu voltasse a ser uma criança debilitada necessitando de proteção e cuidados. Elas cumpriam seus papéis superprotetores com afinco, mas só conseguiam me aborrecer com o excesso de zelo. O que denominavam amor era um sentimento que me asfixiava.
            Eu tinha que me adaptar às novas circunstâncias. Minha mãe e minha avó também. Elas já davam como tão definitiva minha permanência em Amsterdam que precisaram suspender repentinamente os planos que haviam traçado. Iam se mudar para um lugar menor, mais barato. Minha volta as atrapalhara. Impossível não me sentir intruso.
            Isadora não tardou a ligar outra vez. Ciente de que eu ainda não estava bem, mas procurando ignorar o fato, foi logo perguntando se eu estava pronto para trabalhar, inclusive já tinha dois servicinhos bastante simples, mas que precisava entregar no dia seguinte. Agia como se tivéssemos nos falado pela última vez na véspera. Expliquei minha situação. Ela, sem demonstrar sensibilidade, continuou falando sobre trabalho, estava cheia de idéias, esperando apenas minha chegada para pô-las em prática. Aterrorizado com a hipótese de voltar a fazer aquele serviço fui direto:
            — Não conte comigo pra esse tipo de trabalho, ele não me interessa mais. A única coisa que importa agora é me livrar dessa doença, todo o resto fica pra depois — falei, secamente.
            Isadora se viu obrigada a desligar o telefone.
            Mas, sem se dar por vencida, voltou a ligar pouco depois. Tinha uma excelente proposta: salário fixo e um percentual em cima dos contatos que eu fizesse com clientes. Eu precisaria levar meu computador para a estamparia, onde faria o serviço. No tempo ocioso, eu sairia em busca de novos clientes...
            — Não quero! — falei, com voz rude, desligando o telefone.
            Achei que tinha sido imprudente recusando a abominável oferta de trabalho. Endividado como estava, deveria ser mais humilde. Mas eu tinha voltado para mudar minha vida, não para retomá-la do ponto em que parara. Definitivamente, alguma coisa havia se transformado em mim.

            Com a nova medicação, a doença começou a ceder. No dia seguinte já me sentia melhor.
            Telefonei para casa da mãe de Liz. Imaginava que não teria uma conversa muito agradável, mas não podia evitá-la. Enganei-me. Conversamos superficialmente sobre minha doença. Pouco falamos a respeito de Liz.
            Liguei também para Daniel. Ansioso por tudo saber e contar, acabou tornando a conversa confusa, tumultuando meu raciocínio. Daniel crivava-me de perguntas, mas não só não esperava que eu concluísse as respostas, como estendia-se em comentários que me faziam perder o fio da meada. Ainda preso aos fatos das últimas cartas que Liz e eu havíamos enviado, necessitava de informações que o atualizassem. Ele estava preocupado com o destino de Liz depois da minha volta. Tentando resumir o menos possível, dei uma panorâmica do que se passava com ela. Daniel indagou sobre Hendrik — assunto que eu pretendia não mencionar. Ele não se satisfez com meu laconismo. Acabei dizendo que graças aos esforços de Liz as coisas pareciam estar fluindo melhor, mas devido à instabilidade de Hendrik o quadro já podia ser bem diferente.
            Daniel também estava preocupado comigo, com minha recuperação, com o que eu faria da vida... Combinamos um encontro tão logo eu estivesse bem.
            Na parte da tarde Helena me telefonou. Interessada em notícias de Liz, tratou-me como um conhecido. Bem mais resumido, contei o mesmo que havia relatado a Daniel. Helena, que não tinha informações sobre nós há algum tempo, ficou chocada quando soube o que Liz fazia no hotel, no restaurante, na boate. Argumentei que eram empregos temporários e que, às vezes, Liz até se divertia cantando no Caldeirão. Não consegui convencê-la. Quem não tinha vivido aqueles fatos dificilmente os entendia ou aceitava com naturalidade. Todos imaginavam que, sendo Liz quem era, devia estar sofrendo desnecessariamente. “A troco de quê?”, me perguntou Helena. Sempre fiel aos oráculos e esoterismos, ela disse que tinha sido loucura viajarmos em janeiro. “As cartas do tarô advertiram que tudo ia dar errado se Liz viajasse antes de fevereiro!”, falou, em tom de confissão. “Tudo o quê?”, me perguntei.
            Eu e Liz éramos motivo de preocupação para quem nos queria bem. Compreendia agora os efeitos que o distanciamento físico provocava. Por mais amor e amizade que se tivesse, estar afastado reduzia a troca de impressões, causando erros de interpretação, mal-entendidos. Por experiência própria, não podia desejar que Liz não passasse tudo o que fosse necessário. As respostas às suas questões cabiam a ela mesma descobrir, só assim era possível aprender, evoluir. Eu não concordava com algumas atitudes de Liz, mas essa era apenas a minha visão, totalmente diferente da realidade dela.

            Na semana seguinte voltei ao hospital para fazer o restante dos exames, saber o resultado dos que já havia feito. A doença praticamente havia desaparecido. Segundo a doutora, tudo levava a crer que eu havia me intoxicado com o remédio dado pelo médico em Amsterdam — tão preocupado em saber se eu era alérgico a algum medicamento.
            Fiz uma visita a Daniel. A família que se iniciava me pareceu muito bem. Sílvia era carinhosa com a menina e já não parecia tão tensa como no princípio. A cumplicidade entre Daniel e a filha era comovente.
            Pediram que eu falasse sobre Amsterdam, as coisas que eu e Liz tínhamos passado nos três últimos meses. Daniel sentia-se defasado, ansiava por notícias da amiga, reclamava que as cartas demoravam a chegar, eram cheias de notícias resumidas... Procurei explicar a delicadeza do relacionamento entre Liz e Hendrik, e tentei traçar um perfil dele. Mas era desconfortável falar sobre Hendrik, sentia vontade de externar seus aspectos desagradáveis ao mesmo tempo em que me lembrava da parte simpática, divertida e humorada que ele tão raramente trazia à tona. Como traduzir aquele enigma de forma a que entendessem o real peso que a pequena parte de Hendrik tinha em oposição aos constantes horrores que cometia? Não me sentia capaz de explicar isso a mim mesmo.
            — O Hendrik é muito jovem, imaturo, e isso às vezes torna ele egoísta — falei. — Ele também é um pouco inseguro, ciumento. Talvez, com o tempo, ele acabe deixando aflorar o seu lado gentil, agradável, amistoso...
Inútil. Minhas palavras traíam meus pensamentos.
            — O que eu tenho medo — disse Daniel —, é que por falta de ajuda a Liz acabe fracassando, e seja forçada a voltar pra cá. Na posição indefinida que ela se encontra era importante o Hendrik ajudar em tudo.
            — Se a Liz tiver que voltar vai ser horrível — comentou Sílvia. — Ela vai ter que morar de novo na casa dos pais, não vai ter mais carro, nem clientes, sem falar do lado afetivo...
            Apesar de parecerem exagerar, Sílvia e Daniel pintavam uma cena viável. Não pude deixar de concordar com eles. Para Liz seria melhor continuar em Amsterdam.
            O clima ficou meio pesado. Sílvia mudou o rumo da conversa:
            — Estou muito contente que você tenha voltado. Eu gostava tanto de vocês aqui em casa!...
            O apreço que demonstravam por mim comovia-me. Ainda que eu não pudesse preencher o espaço antes ocupado por dois, via grande possibilidade de nossos laços de amizade se estreitarem na ausência de Liz.
            — O que você pretende fazer da vida agora que voltou? — indagou Daniel.
            — Eu queria escrever. Mas antes vou precisar arranjar um trabalho pra ganhar dinheiro.
            — E o que você gostaria de escrever?
            — Eu tenho uma idéia, mas ainda não sei bem o que fazer. Em Amsterdam eu fiz algumas anotações, mas ainda não sei se elas vão me servir. Escrever me parece algo muito difícil.
            — Eu acho que você leva jeito — disse Daniel. — Eu gostei muito dos trechos do livro que você e a Liz estavam escrevendo, e também das cartas que mandou pra nós.
            Sílvia disse que, enquanto não colocava meu projeto em prática, eu poderia prestar serviços para a empresa na qual ela trabalhava. Apesar da licença-maternidade, ela mantinha contato com seus patrões, que se queixavam da falta de mão-de-obra especializada para alguns serviços. Agradecido, aceitei os biscates que Sílvia me oferecia.
            Chegando em casa, comecei a pensar melhor no projeto do livro, embora não soubesse exatamente o que iria escrever. Apanhei os cadernos em que fizera minhas anotações. Lendo o que tinha escrito, não pude evitar um certo espanto com algumas passagens: quanta mesquinhez, egoísmo... Senti horror de mim mesmo, vergonha. Tão pouco tempo distante daquela situação, daqueles limites e já não me identificava com o que parecia um personagem sofredor. Liz e Hendrik também estavam ali, no centro de uma complexa história, sem princípio, nem fim. O que eu faria com aquele monte de notas desagradáveis? Era realmente sobre aquilo que eu pretendia escrever? Por que parecia impossível criar algo interessante com aquele material? Desanimado, guardei os cadernos no fundo de uma gaveta.
            Minha pele voltava ao normal. Já não me sentia deprimido e descontente. Comecei a colocar em ação planos para me reerguer economicamente. Em dois dias fiz os trabalhos que Sílvia havia me arranjado, precisava aguardar o pagamento, e nova oportunidade. Trabalhar com Isadora estava fora de questão. Resolvi ligar para o amigo que me procurara para um trabalho quando eu ainda estava em Amsterdam. Não alimentava esperanças de que viéssemos a trabalhar juntos: pelo que minha mãe tinha contado, o esquema da pequena agência de propaganda de Cláudio ainda não estava bem definido. Falei com ele por telefone, rapidamente. Cláudio agora parecia bem mais ocupado que antes. Explicando que havia pensado em mim para um trabalho de urgência — já realizado —, sem prometer nada, pediu que eu fosse ao seu escritório levando o portfolio. Poderíamos conversar melhor, e ele veria o que eu tinha feito nos últimos tempos.

            O imponente prédio na rua da Assembléia me impressionou. Ocupando quase metade do andar, a agência não tinha nada de pequena. A recepcionista me pediu para aguardar. Da recepção, através das paredes de vidro, eu observava as pessoas trabalhando no ambiente agradável sem divisórias. Nos últimos sete anos Cláudio havia conseguido bem mais do que eu poderia supor.
            Apesar da minha pontualidade, precisei esperar. Cláudio estava numa reunião externa com um cliente importante, informou a recepcionista. Mas ele não tardou a chegar. Bem-vestido, bronzeado, não havia mudado muito fisicamente no tempo em que ficáramos sem nos ver. Com quase sessenta anos, tinha aparência bastante saudável. Contente em me ver, pediu que o acompanhasse até sua sala. Conversamos bem menos do que eu imaginava. Os telefonemas, que Cláudio se via obrigado a atender, dificultavam nosso diálogo. Depois de analisar meu portfolio, parecendo gostar do que tinha visto, ele perguntou se eu estava livre na semana seguinte. “Sim!”, respondi, sem titubear. Explicou-me que havia um serviço urgente, queria saber se podia contar comigo. Disse qual era o trabalho e quanto me pagaria por duas semanas de serviço temporário realizado na agência. Fiquei entusiasmado. A sorte parecia estar do meu lado.

            No fim de semana fui à casa da mãe de Liz. Sempre muito gentis, ela, a avó e a irmã de Liz, mostraram-se contentes com minha recuperação e por eu ter conseguido algum trabalho.
            Estranho entrar naquela sala que eu conhecia tão bem, que tanto representava Liz e constatar que ela não apareceria vinda da rua, ou do quarto ao lado. No sofá, cercado pelas três mulheres, achei que teria uma tarde difícil. Como minha mãe e avó, elas também pareciam não ter entendido ainda o que Liz tentava fazer da vida. D. Amália acreditava que, assim como eu, tão logo encontrasse dificuldades, Liz voltaria. Parecia magoada pela filha não sentir falta da família. Sem querer, D. Amália nos comparava. Deixei claro que eu tinha voltado por não ter meios legais para continuar na Holanda. Era verdade que havia motivos pessoais em jogo, mas não achei conveniente mencioná-los. Falei que Liz e eu tínhamos planos e oportunidades diferentes. Perguntaram sobre a vida em Amsterdam. Sincero, disse que achava complicado viver num lugar onde a comunicação me era impossível, mas isso não impedia que outros pudessem apreciar e aproveitar o que a cidade oferecia. Expliquei que para conseguir um bom emprego era necessário dominar holandês. As mulheres não entendiam o que Liz ainda estava fazendo num local com possibilidades restritas. Comentei que, nesse aspecto, Liz possuía muitas vantagens em relação a mim.

            Sentia falta de Liz. Havia lhe escrito uma carta pouco depois da minha chegada, mas ainda não recebera resposta. O tempo passava depressa. Achando já ter novidades suficientes para uma nova carta, não hesitei em escrevê-la. Incômoda a ausência de notícias de Liz. Ainda me sentia muito ligado a ela, nosso repentino afastamento parecia criar um abismo cada vez mais difícil de transpor.

            Antes de começar a trabalhar na agência de propaganda, voltei ao hospital para pegar o resultado dos exames. O teste anti-HIV era o único que me preocupava. Esperei na fila um tempo que pareceu interminável. Sentia-me em xeque, perto de saber a verdade que poderia mudar minha vida, meu futuro. Logo agora que tudo parecia estar indo tão bem...
            O resultado foi negativo.  

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