Contava
os dias. A nova vida, que eu nem imaginava qual
seria, me aguardava no outro lado do oceano.
Não tinha medo, apenas pressa. Não
conseguia traçar planos. Os três
meses passados naquele exílio pareciam
toda uma vida. Quando telefonei para minha mãe
dando a notícia, ela tentou encorajar-me
a permanecer. Nossas idéias nunca se
coadunavam. Contou-me que um amigo que eu já
não via há algum tempo tinha me
procurado para um trabalho. Seria uma esperança
me acenando no outro lado do Atlântico?
Enviei um postal a ele, dizendo que eu estava
voltando.
O
tempo se arrastava. Passagem comprada, mala
arrumada... e ainda precisava esperar. Fazia
três dias que não via Liz, aproveitando
sua longa folga com Hendrik, tentando escapar
da solidão. Pensei que por causa da minha
partida ela fosse ficar mais tempo comigo, ou
trazer Hendrik para nos divertirmos juntos.
Devia preferir antecipar sua realidade.
No
final daquele ciclo, me vi levado a fazer um
balanço da minha vida, tão ligada
à de Liz. Mas foi a vida de Liz que saltou
na minha frente, como tela de cinema. Comecei
a lembrar o início de tudo. A viagem
dela ao encontro de Franz... a descoberta de
Hendrik... a volta ao Brasil... a angústia
em querer regressar a Amsterdam... o retorno
e o complicado reencontro com Hendrik... Quanta
coisa acontecera na vida de Liz! Quanta desordem,
sofrimento, tensão... Quanto misticismo
envolvendo fatos estranhos, coisas que não
sabíamos explicar, quantos sonhos, quanta
bobagem... Tudo o que havíamos sonhado,
intuído, previsto... eu não distinguia
a menor relação entre nossas miragens
passadas e os fatos presentes. Regressões,
cartomante, I Ching... todos haviam
errado. Não havia Deus, nem demônio,
nem alma, nem vida depois da morte, nada...
apenas o homem e seu eterno pavor de se saber
completamente só no mundo. Liz havia
mudado sua vida com base em premonições
e lembranças de sonhos que nunca se concretizaram.
De repente, achei tudo tão patético!
Até que ponto as pessoas são capazes
de mentir a si mesmas?... para obter o quê?
O amor com o qual se sonhou em noites de delírio,
o relacionamento que nunca se torna harmonioso,
um pouco de carinho e atenção,
o prazer de um sexo restrito condicionado ao
uso de drogas?...
Comecei
a reordenar a história que dançava
desconexa em meu cérebro. Minha visão,
talvez recalcada, mas lúcida, me auxiliava.
Não era difícil anular as poucas
qualidades de Hendrik quando se conhecia seus
muitos defeitos. Ele quase me enganou. Estranhamente,
não conseguia odiá-lo, mas sentia
pena de Liz por tudo o que ela já havia
passado, por tudo o que talvez ainda enfrentasse...
E eu envolvido nessa história, presenciando
impassível o sofrimento que acabava apenas
agravando. Queria que Liz se entendesse com
Hendrik, embora isso não me parecesse
fácil. Em todo caso, eu não estaria
mais testemunhando seu sofrer. Nossa distância
faria minha ignorância não me pesar.
No
meio da sala comecei a rir. Nossos desvarios
místicos desmentiam a si próprios.
Mais uma vez reneguei os sonhos, visões
e coincidências que sempre tinham me sido
tão caros. Abandonava tudo no fundo de
um apartamento que representava o abismo do
qual eu ressurgia novo, livre de crendices tolas.
Enquanto
ainda ria e valsava minha libertação,
comecei a sentir um leve ardor na pele do abdome,
um inseto devia ter me picado. Passado algum
tempo, a alergia começou a aumentar.
Devia ser infecção alimentar,
talvez devido aos enlatados que eu vinha comendo.
No
dia seguinte pela manhã, olhando no espelho,
uma grande mancha avermelhada, que coçava,
cobria boa parte do meu ventre. Tentei ficar
calmo, era só não comer coisas
condimentadas.
À
tarde vi que estava enganado: a coceira havia
aumentado tanto quanto a extensão da
alergia, que começava a se alastrar pelas
costas. Aproveitando os dias de folga com Hendrik,
era pouco provável que Liz aparecesse
em casa. Se ao menos eu pudesse comprar algum
remédio... Impossível. Não
só porque eu não saberia pedi-lo
na farmácia, como, se o soubesse, jamais
o venderiam sem receita médica. Precisava
de Liz para irmos a um hospital.
Comecei
a me automedicar com uma pomada que encontrei
nos pertences de Liz. Como os sintomas eram
semelhantes ao do herpes, o medicamento destinado
a esse fim era providencial. Mas a moléstia
estava num estágio avançado demais
para que uma simples pomada fizesse efeito.
Passei mais um dia sozinho, inquieto, trancado
no apartamento. Quatro dias sem notícias
de Liz! Ela nunca ficara tanto tempo sem aparecer...
estava com a mesma roupa havia vários
dias... Teria Hendrik feito algo com ela? Assustei-me.
Liz estava morta! E eu morreria também,
sozinho, sem socorro, devorado pela doença
que corroía minha pele!... Não
conseguia me acalmar. Logo agora que eu estava
tão certo de tudo... Além da minha
própria inquietação ainda
tinha de me preocupar com Liz.
Mais
uma noite se passou, terrível, pontilhada
por pesadelos. O espelho cruel me exibiu um
monstro: tórax, pernas, braços,
vermelhidão e prurido haviam feito grande
avanço. Inúmeras vesículas
ardiam, colônias de diminutos vulcões.
Entrei em pânico. Precisava fazer alguma
coisa, não podia continuar esperando
uma ajuda que não chegava. Nesse instante,
uma sombra atravessou meus pensamentos: não
seria aquela enfermidade inesperada e sem motivo
prova de que me equivocara em desprezar a existência
de mistérios que não entendia?
Um ódio violento se apoderou de mim.
Então era verdade que existiam coisas
inexplicáveis e absurdas que faziam as
pessoas se comportarem como loucas? Minha raiva
diante do que parecia constatação
me fazia soluçar.
Na
véspera do meu embarque, eu parecia condenado
a morrer na cidade que tanto odiava. Tão
desesperado quanto enfurecido, comecei a me
vestir com a pressa de quem fugia. Havia apenas
uma possibilidade para minha salvação.
Quando descia as escadas, ouvi a campainha.
Só podia ser Liz! Devia ter perdido as
chaves. Corri para abrir a porta, certo de que
sobreviveria. Vi um casal vestido de preto,
seguidores das Testemunhas de Jeová,
que tentava me seduzir com uma conversa insípida
e brochuras sem graça. Procurando ser
educado, disse que não falava inglês,
nem holandês. Eles me perguntaram que
idioma que eu falava. Seguro de que me deixariam
em paz quando soubessem minha língua
natal, declarei que falava português.
Para meu espanto, entregaram-me folhetos escritos
no idioma que eu julgava desconhecido para eles.
Pediam que eu os acompanhasse até uma
igreja onde Deus me ajudaria. Mentiam. Era a
morte em dose dupla vindo me buscar. Puxei a
porta, empurrei os dois e corri o mais depressa
que pude.
Fazia
frio naquela manhã de primavera. Eu queimava
em febre, raiva, revolta. O pesado sobretudo,
a blusa de manga comprida e gola alta, as luvas
protegiam minha miséria cutânea
dos olhares alheios. Meu rosto continuava intacto,
pálida máscara ocultando uma angústia
invisível aos outros. Sem saber qual
bonde tomar até o apartamento de Hendrik,
sem dinheiro, atravessei a pé a cidade,
imenso deserto sem horizonte. Andava massacrado
por pensamentos que desfaziam uns aos outros,
marchando como se não soubesse fazer
outra coisa.
Pensei
que nunca chegaria. Suava frio sob o vento gelado,
meu rosto ardia, meu corpo era uma massa incandescente.
Olhei o relógio: cedo demais para quem
estava acostumado a acordar tarde. Eu tinha
uma boa desculpa. Toquei o interfone. Hendrik
atendeu com voz sonolenta. Sim, Liz estava lá.
Ele destravou a porta do prédio, entrei.
Ela me recebeu na porta do apartamento, sorrindo,
como se eu estivesse fazendo uma amistosa visita.
Sem perder tempo, contei o que se passava comigo
a ponto de importuná-los. Não
detive as lágrimas. Eu queria ir embora
daquele país detestável. Achava
que poderiam me impedir de viajar contaminando
outras pessoas, temia que me detivessem em quarentena.
Eu perderia a passagem e, sem dinheiro, não
conseguiria mais voltar. Liz ficou aflita, sentia-se
culpada por ter me abandonado. Levou-me até
a cozinha para que eu tomasse água com
açúcar. Trêmulo, bebi o
líquido num só gole, mas nada
parecia capaz de me tranqüilizar.
Hendrik,
deixando o quarto, surpreso com tanta lágrima
e comoção, quis saber o motivo
daquilo. Liz procurou traduzir o meu sofrer.
Curioso, ele afastou um pouco a gola alta da
minha blusa, fazendo cara de repulsa ao observar
as feias manchas. Tentou ser prestativo. Disse
que havia um hospital nas proximidades, mas
não sabia ao certo o endereço.
Liz perguntou se ele podia nos levar até
lá, mas Hendrik se recusou: estava em
débito com alguns médicos que
o queriam para experiências com as quais
ele se recusava a cooperar, tinha receio de
que o identificassem. De tanto andar pela cidade,
eu sabia onde era o lugar. Saímos em
busca de socorro.
Liz
tentava me consolar com palavras de incentivo,
dizendo que tudo ia dar certo, eu ia me sair
bem daquilo. Seu rosto deformado pela apreensão
me assustava.
No
hospital fui tratado como curiosidade médica.
Desagradável observar o horror no rosto
surpreso da enfermeira. Liz, vendo-me despido,
só então tendo noção
da gravidade do meu problema, não conseguiu
disfarçar o assombro que fingi não
perceber. Após preenchermos formulários,
fomos encaminhados a uma sala de espera. O médico
que me atendeu em caráter emergencial
declarou desconhecer a doença que me
acometia. Indagou de onde eu vinha. Sabendo
meu país de origem, fez cara de quem
não era obrigado a ser perito em doenças
tropicais, e esquivou-se alegando não
ser dermatologista. Pediu que aguardássemos
um especialista. Depois de esperar mais de duas
horas, sem que o dermatologista aparecesse,
o médico que me examinara inicialmente
— e que terminava seu turno —, disse
que precisava resolver o meu problema antes
de ir embora. Com indiferença, perguntou
se eu era alérgico a algum medicamento.
Como saber? Seria necessário ter experimentado
todos. Respondi negativamente. Então,
com a altivez de quem salvava um desgraçado,
ele me entregou uma cartela com quatro comprimidos,
a serem tomados de seis em seis horas, que atenuariam
minha enfermidade até eu chegar ao Brasil.
O doutor me aconselhou a não dizer a
ninguém no aeroporto ou no avião
que eu estava doente.
A
promessa de cura me aliviou. Liz não
estava mais aflita. Retornamos ao apartamento
de Hendrik para tranqüilizá-lo também.
Quando chegamos, apenas os gatos se encontravam
na sala. Sentei no sofá. Liz entrou no
quarto procurando Hendrik. Recém-saído
do banho, perfumado, pele brilhando, ele, vendo-me
calmo, disse estar contente por ter me ajudado.
Lamentou que eu não estivesse tendo sorte
em Amsterdam, quis saber por que eu não
gostava da cidade. Retruquei que era Amsterdam
que não gostava de mim.
Medicado,
sentindo-me melhor, achei conveniente voltar
ao apartamento. Queria descansar antes da viagem
no dia seguinte. Agradeci aos dois, desculpando-me
por tê-los acordado cedo. Hendrik e Liz
mostraram-se indecisos sobre o que fariam no
resto do dia que eu parecia ter estragado. Ele
queria comer pizza, ela queria passar a tarde
comigo. Eu não queria ser motivo de discórdia.
Já me dirigia para a porta quando Hendrik
me deteve: ia me dar um presente antes que eu
fosse embora. Entrou no quarto e voltou trazendo
uma camisa de manga comprida, toda amarrotada.
Colocou-a em minhas mãos, falando que
eu deveria usá-la quando fosse à
praia à noite. Liz o olhou com ar de
desaprovação, mas nada comentou.
Agradeci, dizendo que não ia esquecer
dele. Hendrik confessou estar arrependido de
ter pensado mal a meu respeito, lamentou que
tivéssemos tido poucas oportunidades
de nos conhecermos melhor, nos tornarmos amigos.
No meu último dia na cidade ele admitia
ter certeza que eu era um cara legal. Com um
aperto de mão, nos despedimos.
Novamente
a pé, atravessei pela derradeira vez
a linda cidade maldita. Até o último
minuto ela me hostilizava. O passeio forçado
era mais que despedida, certeza de jamais voltar
a ver a bela paisagem triste, a frieza e indiferença
das pessoas num cenário rico e miserável,
sofisticado e grotesco. Só de uma coisa
eu teria saudade: o Vondelpark. A primavera
o transformara num lugar tão agradável!
Árvores balançavam imensas copas
verdes ao vento, lagos refletiam tons de azul
do céu, pássaros voavam, nadavam,
cantavam, o gramado era um infinito tapete brilhante
de onde brotavam numerosas manchas de flores
coloridas, o sol ameno aquecia a natureza renovada,
renascida depois do longo inverno. As pessoas
ali não pareciam alheias àquela
explosão de vida, tive impressão
de que buscavam um refúgio para não
enlouquecerem. Um casal me chamou a atenção:
Petra, a bela violinista ruiva e seu namorado
árabe. Sentado num dos bancos, o rapaz
apoiava em seu colo a cabeça da moça,
que brincava com o rosto dele. Riam, estavam
felizes. Petra parecia outra pessoa, um vestido
claro, cabelos soltos acariciados pelo namorado.
A cena me comoveu. Tudo estava bem agora. Tudo
havia terminado bem.
No
quarto, estendi a camisa no colchão dobrando-a
com cuidado. O perfume de Hendrik, impregnado
na roupa, recendeu como um adeus. Pensei com
carinho em Liz e nele, esperançoso de
que se entendessem definitivamente. De repente,
lembrei de uma das regressões que fizera
com o Dr. Antoine: o casal de estrangeiros buscando
ajuda. O homem estava ferido e eu, como pajé,
era o único, no Brasil de 1510, capaz
de dar algum alívio às dores do
jovem, ao sofrimento de sua esposa. Mas eles
haviam chegado tarde, nada mais podia ser feito.
Estranha correlação. Teria acontecido
comigo algo semelhante em ordem inversa? Eu,
o estrangeiro, doente e perdido numa terra estranha
buscando ajuda de um casal de nativos... O homem,
que antes eu não havia conseguido ajudar,
agora tinha sido a chave para minha salvação,
e sua esposa, o veículo... Curado, finalmente
livre, eu os deixava para viverem suas vidas
outra vez reunidas, retornando ao meu verdadeiro
mundo. Belo fim se estivesse escrevendo um livro.
Liz
chegou pouco depois de mim. Hendrik havia sugerido
que ela passasse o resto do dia comigo. Com
alegria, contei que estava pensando em escrever
uma história, aproveitando fatos que
tinha vivido. Incentivou-me dizendo que teria
prazer em ler o que eu ainda nem criara. Sugeriu
até um final. E, palavra por palavra,
sem que eu nada dissesse, ela descreveu exatamente
o pensamento que eu havia tido pouco depois
de chegar ao apartamento.
Após
a noite mal dormida, levantei ansioso por partir.
No chuveiro, não notei melhoras em minha
pele, mas a doença parecia não
avançar. Acordei Liz. O táxi solicitado
na noite anterior foi pontual. Meu corpo estava
dolorido, e com esforço desci minha mala.
No
aeroporto, bagagem despachada, passagem na mão,
andamos algum tempo antes do meu embarque.
—
Nunca pensei que esse momento fosse acontecer
— falou, triste. — Achei que você
ficaria comigo... Não vai ser mais assim,
mas isso é o que menos importa. Eu vou
sentir muito a sua falta, mas fico contente
em saber que você vai voltar com descobertas
que mudaram a sua vida.
Eu
olhava o rosto dela, os olhos vermelhos prestes
a derramar as lágrimas que eu também
tentava evitar. Queria dizer um mundo de coisas,
mas minha garganta estava estrangulada pelo
esforço em deter a voz que sairia embargada.
Liz colocou as mãos nos meus ombros,
olhando-me de frente, deixou sua tristeza líquida
deslizar pelas faces. Disse:
—
A gente nunca vai estar separado. Um pouco distantes
fisicamente agora, e mais próximos do
que nunca. Amo você.
—
Eu também te amo, Liz.
Achei
que ela fosse me dar um beijo de despedida,
mas parecia indecisa. Como não se resolvia,
abracei-a e beijei-lhe o rosto. Nossos corpos
se comprimiram durante algum tempo. Pensei que
seria fácil partir, deixá-la sozinha,
mas só agora constatava o caráter
definitivo da minha decisão. Nossa história
havia acabado. Nossas tristezas me dilaceravam,
mas eu tinha feito a escolha certa. Afastamo-nos
sem dizer palavra. Encaminhei-me para a sala
de embarque sem olhar para trás.
Desci
em Lisboa uma hora mais tarde. Por causa do
fuso horário, desembarquei na mesma hora
em que tinha deixado Amsterdam. O tempo havia
parado. Quando comprara a passagem, não
tinha me parecido ruim chegar um dia antes da
data de embarque ao Brasil. Agora, doente, frágil
precisava suportar uma longa espera. Apesar
do remédio, a doença não
cedia. Após um curto período,
em que julguei que tivesse estacionado, ela
voltava a progredir. Por que o medicamento não
fazia efeito? As vesículas vermelhas
transformavam-se em placas ásperas, que
coçavam muito. Minha pele de réptil
me enojava.
O
que fazer num aeroporto diminuto onde nada prende
a atenção? Saudável, eu
teria encontrado muitas formas de matar tempo,
agora só conseguia pensar em ficar curado.
Minha mortalidade me assustava. Não era
tanto o medo da morte, mas de deixar de existir
de uma forma estúpida, sem ter realizado
nada importante, sem chance de experimentar
minha escolha.
Meu
livro... precisava escrevê-lo... Agora
sabia que desfecho dar à história.
Minha doença... por que não me
abandonava? As horas não passavam...
estava perdendo tempo... Ia morrer... antes
de terminar minha vida...
Andei,
sentei, levantei... incontáveis vezes.
Meu corpo doía, minha cabeça latejava.
Sentia sono, mas não havia onde deitar,
tinha sede, fome, mas com pouco dinheiro, poupava-o,
sabendo que poderia fazer apenas uma refeição.
Minha doença avançava, eu ainda
podia escondê-la, mas talvez ela não
demorasse a atingir meu rosto. As manchas desciam
pelas pernas, pelos braços, subiam pelo
pescoço, eu puxava a gola alta da blusa
tentando manter escondido o motivo do meu martírio
secreto.
Andei,
sentei, levantei, andei, sentei, levantei...
toda a manhã, a tarde inteira, a noite
e a madrugada insones.
Exausto,
embarquei como se acordasse de um pesadelo.
Só quando aterrissamos em Madri lembrei
da maldita escala. Agora estava ainda mais distante
de casa. O gigantesco aeroporto era prova de
resistência. Andei apressado, como se
fugisse. Queria embarcar logo, salvar minha
pele, minha vida. O tempo me aprisionara numa
descomunal gaiola de ferro e vidro, o remédio
inútil havia terminado, eu suava, mas
estava gelado, a doença evoluía,
eu morreria longe de tudo e todos.
O
avião que me levaria ao Rio estava atrasado.
Era preciso esperar. Se no dia anterior eu tinha
perdido o ânimo no restrito aeroporto
de Lisboa, agora desanimava ante a vastidão
de espaços vazios. Telefonei para minha
mãe. Com cautela, disse que estava doente,
muito doente. Sua voz preocupada me acalmava,
me incomodava.
Depois
de esperar mais de cinco horas, embarquei de
volta ao Brasil, num vôo que deveria durar
dez horas.
Febril,
não tendo dormido um só minuto
na poltrona da classe econômica, desembarquei
no Rio, num calor asfixiante para o início
de abril. Eu devia estar com uma aparência
assustadora. Minha mãe não me
reconheceu de imediato. Ainda no aeroporto,
entre saudade e espanto, começou a me
bombardear com perguntas e cobranças.
Eu tinha que ser paciente, precisava enfrentar
as conseqüências das mentiras que
inventara. No táxi, a caminho de casa,
de olhos fechados, angustiado, ouvia em silêncio
uma ladainha interminável.
Após
deixarmos as malas em casa, fomos a uma clínica
próxima. Com o caro valor da consulta
de emergência pago, não demoramos
a ser atendidos. Minha mãe e o jovem
médico ficaram chocados com meu estado.
Meio inseguro, o doutor disse que nunca havia
visto uma manifestação de herpes
tão violenta — 90% do meu corpo
estava atingido. Eu evitava me olhar, olhar
o rosto de minha mãe. O médico
não era dermatologista, e pediu que fôssemos,
no dia seguinte, ao hospital público
em que trabalhava, onde conhecia uma ótima
equipe de dermatologistas. Pediu-me autorização
para um teste anti-HIV.
Não me opus. Receitou comprimidos para
a doença que eu parecia apresentar.
Em
casa, atordoado com o retorno a um passado do
qual tentara escapar, entrando num quarto abafado
e úmido, que mais parecia uma cela, reconhecendo
meus pobres móveis, meus ultrapassados
eletrodomésticos fui invadido por um
mal-estar que me dava ânsia de vômito.
Meu fim devia estar bem próximo. Antes
de descansar — talvez para sempre —,
resolvi tomar banho. Sob a luz fluorescente,
diante do espelho, uma nudez chocante: tórax
totalmente coberto por manchas e placas imensas,
escuras como hematomas, braços e mãos
tomados pela moléstia, pernas enegrecidas,
pés inchados... não me reconheci
naquele corpo repugnante e disforme. Estava
em decomposição, apodrecia ainda
vivo. Horrorizado, não conseguia chorar.
Melhor morrer, acabar de uma vez por todas com
aquele sofrimento. Uma voz interior, suave e
tranqüila começou a repetir: “Você
está morrendo, você está
morrendo...”
Achando
que o cansaço dos últimos dias
me faria dormir profundamente, deitei-me no
calor do quarto, me concentrando na voz que
ouvia em meu cérebro, acreditando no
alívio que ela prometia. Mal chegava
e já ia tornar a partir, para sempre,
para o mundo da não-existência,
único lugar onde a paz fazia sentido...
Ouvi
a voz a noite inteira. Não só
ela não havia me deixado dormir, como
— ao contrário do que ditava —
tinha me impedido de morrer.
No
hospital público, demoramos a encontrar
o médico que havia nos atendido na véspera.
Quando o achamos, ele, me fazendo passar na
frente de um monte de gente que devia estar
há horas nas filas, nos encaminhou ao
setor de dermatologia. Repetia sem cessar a
frase que abria todas as portas: “É
um caso prioritário!”.
Em
pouco tempo, eu estava diante de oito profissionais
que me tocavam, fazendo toda sorte de perguntas.
Entreolhavam-se surpresos, curiosos, piedosos.
Cada qual emitia seu parecer, mas a maioria
concordou que a herpes simplex tinha
sido o ponto de partida para meu quadro atual:
uma vasculite descontrolada a um estágio
que jamais haviam visto. Discretamente, comentavam
com minha mãe que aquela inflamação
dos vasos sangüíneos era típica
de pessoas bem idosas, ou pacientes soropositivos,
que manifestavam aqueles sintomas na fase da
sororreversão. Deitado na maca, um pouco
afastado de onde estavam reunidos, eu ouvia
meu provável diagnóstico. “Como?
Através de que tipo de contaminação?”,
me perguntava, tentando aplicar a hipótese
ao meu caso.
Os
médicos suspenderam o remédio
do qual eu só tomara duas pílulas
— ele não faria efeito. Depois
de colherem material para biópsia, solicitaram
exames a serem feitos imediatamente. Uma médica
experiente responsabilizou-se por meu tratamento.
Como não era possível um diagnóstico
preciso antes da análise dos exames,
a doutora receitou um antialérgico. Valendo-se
da gravidade do meu caso, a médica fez
com que eu furasse as filas necessárias
para os devidos exames. Tudo correu muito bem
enquanto havia funcionários do hospital
nos auxiliando segundo as ordens da doutora.
Quando terminou o expediente matutino, sem a
presença da médica, ficamos abandonados
à própria sorte. Os atendentes
e médicos do turno da tarde exigiam papéis
que eu não podia apresentar, já
que havia furado filas. Por sorte, minha mãe
estava comigo nessa hora difícil. Bastante
exaltada, ela me ajudou a não perder
a coragem. Fiz parte dos exames pedidos, o restante
só poderia ser feito na semana seguinte.
Deixamos
o hospital no fim da tarde. Minha mãe
foi comprar o antialérgico. Fui para
casa, enfraquecido, preocupado. Durante o trajeto
tentava pôr em ordem meus pensamentos.
Tudo havia terminado mal, tudo recomeçava
ainda pior. Um desastre voltar ao Brasil naquelas
circunstâncias. Não tinha ilusões
de que minha volta seria uma espécie
de redenção, mas não contava
com uma horrível moléstia para
dificultar tudo. Tinha sido imprudente: se a
hipótese do retorno não estava
descartada, deveria ter guardado dinheiro para
tanto. Erro grave.
Pelo
menos uma certeza eu havia readquirido com os
últimos acontecimentos. Decidi-damente,
como nunca devia ter duvidado, não podia
mais acreditar em Deus, anjos, visões,
sonhos premonitórios, regressões
a vidas passadas... A ajuda que o casal de estrangeiros
tinha dado ao pajé quase o levara à
morte.
Ao
chegar em casa, soube que Isadora e a mãe
de Liz haviam telefonado. Eu não queria
falar com ninguém. Meu abatimento impressionava
minha avó. Ela acreditava que meu estado
atual se devia a eu não me alimentar
bem no tempo em que estive fora. Pretendia me
recuperar com os pratos que prepararia até
meu restabelecimento. Minha mãe não
tardou a chegar. Como uma enfermeira particular,
medicou-me e decretou que eu deveria repousar,
e me alimentar muito bem.
Por
mais que agora procurassem me poupar de suas
opiniões, a impressão que eu tinha
era de ter retornado para casa como uma criança
peralta que havia feito uma grande travessura.
Como punição precisava reconhecer
meu erro, meu tempo desperdiçado, meus
prejuízos. Conquistas materiais, objetos
palpáveis, provas concretas... só
isso parecia ser importante, ter valor. Como
cheguei de mãos vazias, deixava evidente
minha derrota. Não tinham entendido nada
do que eu fizera, nada do que aquela tentativa
havia significado para mim. Não conseguiam
perceber que durante algum tempo, pude sobreviver
por mim mesmo, quase sozinho. Paradoxalmente,
agora eu compreendia minha mãe e avó
bem mais do que antes. Isso não era suficiente
para um perfeito entendimento mútuo.
Do outro lado não havia eco. Nada mudara.
Minha família continuava a mesma de antes
da minha partida. Reencontrar intacta a densa
atmosfera familiar me fazia mal, reduzia-me
a um ser limitado, tornava a me submeter a regras
que eu desprezava e que era obrigado a respeitar.
Não me achava mais no direito de dar
sugestões num esquema do qual tinha fugido.
A casa da minha família não era
o meu lar. Sentia-me agora mais desconfortável
do que antes da viagem. Minha atual fragilidade
fazia com que aos olhos de minha mãe
e avó eu voltasse a ser uma criança
debilitada necessitando de proteção
e cuidados. Elas cumpriam seus papéis
superprotetores com afinco, mas só conseguiam
me aborrecer com o excesso de zelo. O que denominavam
amor era um sentimento que me asfixiava.
Eu
tinha que me adaptar às novas circunstâncias.
Minha mãe e minha avó também.
Elas já davam como tão definitiva
minha permanência em Amsterdam que precisaram
suspender repentinamente os planos que haviam
traçado. Iam se mudar para um lugar menor,
mais barato. Minha volta as atrapalhara. Impossível
não me sentir intruso.
Isadora
não tardou a ligar outra vez. Ciente
de que eu ainda não estava bem, mas procurando
ignorar o fato, foi logo perguntando se eu estava
pronto para trabalhar, inclusive já tinha
dois servicinhos bastante simples, mas que precisava
entregar no dia seguinte. Agia como se tivéssemos
nos falado pela última vez na véspera.
Expliquei minha situação. Ela,
sem demonstrar sensibilidade, continuou falando
sobre trabalho, estava cheia de idéias,
esperando apenas minha chegada para pô-las
em prática. Aterrorizado com a hipótese
de voltar a fazer aquele serviço fui
direto:
—
Não conte comigo pra esse tipo de trabalho,
ele não me interessa mais. A única
coisa que importa agora é me livrar dessa
doença, todo o resto fica pra depois
— falei, secamente.
Isadora
se viu obrigada a desligar o telefone.
Mas,
sem se dar por vencida, voltou a ligar pouco
depois. Tinha uma excelente proposta: salário
fixo e um percentual em cima dos contatos que
eu fizesse com clientes. Eu precisaria levar
meu computador para a estamparia, onde faria
o serviço. No tempo ocioso, eu sairia
em busca de novos clientes...
—
Não quero! — falei, com voz rude,
desligando o telefone.
Achei
que tinha sido imprudente recusando a abominável
oferta de trabalho. Endividado como estava,
deveria ser mais humilde. Mas eu tinha voltado
para mudar minha vida, não para retomá-la
do ponto em que parara. Definitivamente, alguma
coisa havia se transformado em mim.
Com
a nova medicação, a doença
começou a ceder. No dia seguinte já
me sentia melhor.
Telefonei
para casa da mãe de Liz. Imaginava que
não teria uma conversa muito agradável,
mas não podia evitá-la. Enganei-me.
Conversamos superficialmente sobre minha doença.
Pouco falamos a respeito de Liz.
Liguei
também para Daniel. Ansioso por tudo
saber e contar, acabou tornando a conversa confusa,
tumultuando meu raciocínio. Daniel crivava-me
de perguntas, mas não só não
esperava que eu concluísse as respostas,
como estendia-se em comentários que me
faziam perder o fio da meada. Ainda preso aos
fatos das últimas cartas que Liz e eu
havíamos enviado, necessitava de informações
que o atualizassem. Ele estava preocupado com
o destino de Liz depois da minha volta. Tentando
resumir o menos possível, dei uma panorâmica
do que se passava com ela. Daniel indagou sobre
Hendrik — assunto que eu pretendia não
mencionar. Ele não se satisfez com meu
laconismo. Acabei dizendo que graças
aos esforços de Liz as coisas pareciam
estar fluindo melhor, mas devido à instabilidade
de Hendrik o quadro já podia ser bem
diferente.
Daniel
também estava preocupado comigo, com
minha recuperação, com o que eu
faria da vida... Combinamos um encontro tão
logo eu estivesse bem.
Na
parte da tarde Helena me telefonou. Interessada
em notícias de Liz, tratou-me como um
conhecido. Bem mais resumido, contei o mesmo
que havia relatado a Daniel. Helena, que não
tinha informações sobre nós
há algum tempo, ficou chocada quando
soube o que Liz fazia no hotel, no restaurante,
na boate. Argumentei que eram empregos temporários
e que, às vezes, Liz até se divertia
cantando no Caldeirão. Não consegui
convencê-la. Quem não tinha vivido
aqueles fatos dificilmente os entendia ou aceitava
com naturalidade. Todos imaginavam que, sendo
Liz quem era, devia estar sofrendo desnecessariamente.
“A troco de quê?”, me perguntou
Helena. Sempre fiel aos oráculos e esoterismos,
ela disse que tinha sido loucura viajarmos em
janeiro. “As cartas do tarô advertiram
que tudo ia dar errado se Liz viajasse
antes de fevereiro!”, falou, em tom de
confissão. “Tudo o quê?”,
me perguntei.
Eu
e Liz éramos motivo de preocupação
para quem nos queria bem. Compreendia agora
os efeitos que o distanciamento físico
provocava. Por mais amor e amizade que se tivesse,
estar afastado reduzia a troca de impressões,
causando erros de interpretação,
mal-entendidos. Por experiência própria,
não podia desejar que Liz não
passasse tudo o que fosse necessário.
As respostas às suas questões
cabiam a ela mesma descobrir, só assim
era possível aprender, evoluir. Eu não
concordava com algumas atitudes de Liz, mas
essa era apenas a minha visão, totalmente
diferente da realidade dela.
Na
semana seguinte voltei ao hospital para fazer
o restante dos exames, saber o resultado dos
que já havia feito. A doença praticamente
havia desaparecido. Segundo a doutora, tudo
levava a crer que eu havia me intoxicado com
o remédio dado pelo médico em
Amsterdam — tão preocupado em saber
se eu era alérgico a algum medicamento.
Fiz
uma visita a Daniel. A família que se
iniciava me pareceu muito bem. Sílvia
era carinhosa com a menina e já não
parecia tão tensa como no princípio.
A cumplicidade entre Daniel e a filha era comovente.
Pediram
que eu falasse sobre Amsterdam, as coisas que
eu e Liz tínhamos passado nos três
últimos meses. Daniel sentia-se defasado,
ansiava por notícias da amiga, reclamava
que as cartas demoravam a chegar, eram cheias
de notícias resumidas... Procurei explicar
a delicadeza do relacionamento entre Liz e Hendrik,
e tentei traçar um perfil dele. Mas era
desconfortável falar sobre Hendrik, sentia
vontade de externar seus aspectos desagradáveis
ao mesmo tempo em que me lembrava da parte simpática,
divertida e humorada que ele tão raramente
trazia à tona. Como traduzir aquele enigma
de forma a que entendessem o real peso que a
pequena parte de Hendrik tinha em oposição
aos constantes horrores que cometia? Não
me sentia capaz de explicar isso a mim mesmo.
—
O Hendrik é muito jovem, imaturo, e isso
às vezes torna ele egoísta —
falei. — Ele também é um
pouco inseguro, ciumento. Talvez, com o tempo,
ele acabe deixando aflorar o seu lado gentil,
agradável, amistoso...
Inútil. Minhas palavras traíam
meus pensamentos.
—
O que eu tenho medo — disse Daniel —,
é que por falta de ajuda a Liz acabe
fracassando, e seja forçada a voltar
pra cá. Na posição indefinida
que ela se encontra era importante o Hendrik
ajudar em tudo.
—
Se a Liz tiver que voltar vai ser horrível
— comentou Sílvia. — Ela
vai ter que morar de novo na casa dos pais,
não vai ter mais carro, nem clientes,
sem falar do lado afetivo...
Apesar
de parecerem exagerar, Sílvia e Daniel
pintavam uma cena viável. Não
pude deixar de concordar com eles. Para Liz
seria melhor continuar em Amsterdam.
O
clima ficou meio pesado. Sílvia mudou
o rumo da conversa:
—
Estou muito contente que você tenha voltado.
Eu gostava tanto de vocês aqui em casa!...
O
apreço que demonstravam por mim comovia-me.
Ainda que eu não pudesse preencher o
espaço antes ocupado por dois, via grande
possibilidade de nossos laços de amizade
se estreitarem na ausência de Liz.
—
O que você pretende fazer da vida agora
que voltou? — indagou Daniel.
—
Eu queria escrever. Mas antes vou precisar arranjar
um trabalho pra ganhar dinheiro.
—
E o que você gostaria de escrever?
—
Eu tenho uma idéia, mas ainda não
sei bem o que fazer. Em Amsterdam eu fiz algumas
anotações, mas ainda não
sei se elas vão me servir. Escrever me
parece algo muito difícil.
—
Eu acho que você leva jeito — disse
Daniel. — Eu gostei muito dos trechos
do livro que você e a Liz estavam escrevendo,
e também das cartas que mandou pra nós.
Sílvia
disse que, enquanto não colocava meu
projeto em prática, eu poderia prestar
serviços para a empresa na qual ela trabalhava.
Apesar da licença-maternidade, ela mantinha
contato com seus patrões, que se queixavam
da falta de mão-de-obra especializada
para alguns serviços. Agradecido, aceitei
os biscates que Sílvia me oferecia.
Chegando
em casa, comecei a pensar melhor no projeto
do livro, embora não soubesse exatamente
o que iria escrever. Apanhei os cadernos em
que fizera minhas anotações. Lendo
o que tinha escrito, não pude evitar
um certo espanto com algumas passagens: quanta
mesquinhez, egoísmo... Senti horror de
mim mesmo, vergonha. Tão pouco tempo
distante daquela situação, daqueles
limites e já não me identificava
com o que parecia um personagem sofredor. Liz
e Hendrik também estavam ali, no centro
de uma complexa história, sem princípio,
nem fim. O que eu faria com aquele monte de
notas desagradáveis? Era realmente sobre
aquilo que eu pretendia escrever? Por que parecia
impossível criar algo interessante com
aquele material? Desanimado, guardei os cadernos
no fundo de uma gaveta.
Minha
pele voltava ao normal. Já não
me sentia deprimido e descontente. Comecei a
colocar em ação planos para me
reerguer economicamente. Em dois dias fiz os
trabalhos que Sílvia havia me arranjado,
precisava aguardar o pagamento, e nova oportunidade.
Trabalhar com Isadora estava fora de questão.
Resolvi ligar para o amigo que me procurara
para um trabalho quando eu ainda estava em Amsterdam.
Não alimentava esperanças de que
viéssemos a trabalhar juntos: pelo que
minha mãe tinha contado, o esquema da
pequena agência de propaganda de Cláudio
ainda não estava bem definido. Falei
com ele por telefone, rapidamente. Cláudio
agora parecia bem mais ocupado que antes. Explicando
que havia pensado em mim para um trabalho de
urgência — já realizado —,
sem prometer nada, pediu que eu fosse ao seu
escritório levando o portfolio. Poderíamos
conversar melhor, e ele veria o que eu tinha
feito nos últimos tempos.
O
imponente prédio na rua da Assembléia
me impressionou. Ocupando quase metade do andar,
a agência não tinha nada de pequena.
A recepcionista me pediu para aguardar. Da recepção,
através das paredes de vidro, eu observava
as pessoas trabalhando no ambiente agradável
sem divisórias. Nos últimos sete
anos Cláudio havia conseguido bem mais
do que eu poderia supor.
Apesar
da minha pontualidade, precisei esperar. Cláudio
estava numa reunião externa com um cliente
importante, informou a recepcionista. Mas ele
não tardou a chegar. Bem-vestido, bronzeado,
não havia mudado muito fisicamente no
tempo em que ficáramos sem nos ver. Com
quase sessenta anos, tinha aparência bastante
saudável. Contente em me ver, pediu que
o acompanhasse até sua sala. Conversamos
bem menos do que eu imaginava. Os telefonemas,
que Cláudio se via obrigado a atender,
dificultavam nosso diálogo. Depois de
analisar meu portfolio, parecendo gostar do
que tinha visto, ele perguntou se eu estava
livre na semana seguinte. “Sim!”,
respondi, sem titubear. Explicou-me que havia
um serviço urgente, queria saber se podia
contar comigo. Disse qual era o trabalho e quanto
me pagaria por duas semanas de serviço
temporário realizado na agência.
Fiquei entusiasmado. A sorte parecia estar do
meu lado.
No
fim de semana fui à casa da mãe
de Liz. Sempre muito gentis, ela, a avó
e a irmã de Liz, mostraram-se contentes
com minha recuperação e por eu
ter conseguido algum trabalho.
Estranho
entrar naquela sala que eu conhecia tão
bem, que tanto representava Liz e constatar
que ela não apareceria vinda da rua,
ou do quarto ao lado. No sofá, cercado
pelas três mulheres, achei que teria uma
tarde difícil. Como minha mãe
e avó, elas também pareciam não
ter entendido ainda o que Liz tentava fazer
da vida. D. Amália acreditava que, assim
como eu, tão logo encontrasse dificuldades,
Liz voltaria. Parecia magoada pela filha não
sentir falta da família. Sem querer,
D. Amália nos comparava. Deixei claro
que eu tinha voltado por não ter meios
legais para continuar na Holanda. Era verdade
que havia motivos pessoais em jogo, mas não
achei conveniente mencioná-los. Falei
que Liz e eu tínhamos planos e oportunidades
diferentes. Perguntaram sobre a vida em Amsterdam.
Sincero, disse que achava complicado viver num
lugar onde a comunicação me era
impossível, mas isso não impedia
que outros pudessem apreciar e aproveitar o
que a cidade oferecia. Expliquei que para conseguir
um bom emprego era necessário dominar
holandês. As mulheres não entendiam
o que Liz ainda estava fazendo num local com
possibilidades restritas. Comentei que, nesse
aspecto, Liz possuía muitas vantagens
em relação a mim.
Sentia
falta de Liz. Havia lhe escrito uma carta pouco
depois da minha chegada, mas ainda não
recebera resposta. O tempo passava depressa.
Achando já ter novidades suficientes
para uma nova carta, não hesitei em escrevê-la.
Incômoda a ausência de notícias
de Liz. Ainda me sentia muito ligado a ela,
nosso repentino afastamento parecia criar um
abismo cada vez mais difícil de transpor.
Antes
de começar a trabalhar na agência
de propaganda, voltei ao hospital para pegar
o resultado dos exames. O teste anti-HIV
era o único que me preocupava. Esperei
na fila um tempo que pareceu interminável.
Sentia-me em xeque, perto de saber a verdade
que poderia mudar minha vida, meu futuro. Logo
agora que tudo parecia estar indo tão
bem...
O
resultado foi negativo.