Tinha visto satisfação e prazer nos olhos úmidos de Leon na hora da reconciliação, alegria após o reencontro. Também ela havia ficado feliz por terem voltado a se entender. As desavenças só faziam sentido quando terminavam. Talvez Hendrik sofresse de um mal que o levasse a buscar a recompensa do reatamento. Que espécie de louco seria? Mas não haviam rompido outra vez, o que eliminava aquela pretensa fonte de prazer. Acreditava que seu caso com Hendrik só seria resolvido com diálogo. De nada adiantava se exaltar, se ofender, sentir-se humilhada. Era mais madura que ele, mais sensata. Injusto não levar em conta os muitos lados da questão, as opiniões de cada um. Todos sempre tinham alguma razão para agir como agiam. Não se sentia em condições de julgar ninguém justamente por não conhecer todas as nuances que faziam as pessoas serem quem eram. Mas precisava nadar para fora da areia movediça que a tragava. Compreender o incompreensível, aceitar o inaceitável, satisfazer-se com o insatisfatório... tudo isso sendo ela mesma. Lutar contra Hendrik era perda de tempo: ele nunca vencia, mas não deixava ninguém triunfar. Viver alienada, sem pensar no passado ou no futuro, não funcionara. O presente não era um tempo isolado, mas somatório do que tinha vivido e das projeções futuras. Tolice achar que modificaria uma lei imutável. Remoía as mesmas idéias de sempre. Tanto tempo se passara... e parecia que nada havia evoluído. O que fazer para resolver tudo de uma vez por todas? Tinha de haver uma forma de agradar a todos.

            Sempre chegava cansada no apartamento depois do trabalho no hotel. Encontrou Leon sentado na poltrona. Às vezes tinha impressão de que ele não se movia dali, ela saía e voltava, e ele no mesmo lugar, olhando pela janela. Ao cumprimentá-la, notou que Leon tentou sorrir. Ela devolveu o esboço de sorriso, também sem empenho. Sentou na poltrona ao lado dele.
            Deteve-se pouco antes de começar a falar sobre Hendrik. Não queria mais aborrecer o amigo, mas não havia outro tema interessante quando não falava do namorado.
            Leon continuou em silêncio, e Liz quase teve certeza de que ele temia ouvir aquele assunto desagradável. Levantou e foi para a cozinha. Retornou com um prato de comida. Começou a comer a refeição sem graça que Leon havia preparado. Ele já não caprichava em pratos impossíveis de fazer sem os ingredientes necessários. Olhar fixo na janela, Leon se desculpou pelo almoço. Disse que o dinheiro não estava dando para manter o padrão de antes. Liz sentia vontade de conversar, mas o que dizer a alguém tão distante?
            — O Hendrik desconfia que eu traio ele... com você — começou Liz. — Ele acha que eu transo com todo mundo.
            — Mas não foi você mesma que disse que ele me achava um cara legal?
            — Isso não impede ele de pensar que você transa comigo quando apareço aqui. Por mais que eu diga que você me respeita, ele não acredita que a gente nunca tenha feito sexo.
            — Você não devia ter contado a ele que já tivemos um certo envolvimento.
            — Eu não queria esconder nada dele. É sempre melhor dizer a verdade.
            — O Hendrik é muito inseguro — falou Leon. — Ele não confia em você, suspeita de mim...
            — Ele é egoísta, e invejoso também. Ele vê a nossa amizade como uma ameaça.
            — Mas ele pediu tanto pra eu ficar na Holanda!... Acho que nunca vou entender esse cara.
            Com tranqüilidade, tentaram uma vez mais destrinchar o emaranhado sem solução. Os argumentos de Leon surgiam fáceis, imediatos. Liz concordava com tudo, mas, embora desaprovasse o comportamento e atitudes de Hendrik, tendia a dar razão ao namorado. Procurava colocar-se no lugar dele, conhecer seus motivos. Não ousava comentar isso com Leon, que parecia lhe perguntar com o olhar se Hendrik também tentava colocar-se no lugar dela.
            — Chega desse assunto — declarou Liz. — Acho que estou te cansando.
            — E existe outra coisa pra gente falar?
            A pergunta ecoou nela oferecendo a resposta que Leon já sabia. Um longo silêncio instalou-se entre os dois.
            — Eu nunca vou conseguir agradar ninguém — admitiu ela. — Se eu amo, não posso ter amigos, meus amigos não me deixam amar. A amizade é vital pra mim, o amor também. Eu tento me dividir, mas não posso escolher uma coisa só. Tudo é importante pra mim.
            — Mas você já fez a sua escolha. Não percebeu ainda?
            Subitamente, sentiu-se tão próxima de Leon que se enterneceu. Ele falava como se a conhecesse muito bem. Acreditou que teriam uma conversa que parecia perdida para sempre. Falariam apenas sobre si mesmos, sem intrusos de qualquer espécie. Leon parecia disposto a dizer tudo o que sentia.
            — Eu queria muito que você pudesse dedicar algum tempo à nossa amizade, desde que isso fosse espontâneo. Ficar se sentindo culpada pela minha solidão só mostra o quanto eu te obrigo a fazer o que você não quer. A sua culpa faz com que eu também me sinta culpado, e isso não é bom pra ninguém. Eu te adoro, não quero ser motivo de preocupações...
            A campainha soou, duas vezes. Sabiam bem quem os interrompia.
            — Não vai abrir a porta? — indagou Leon, tranqüilamente. — Ele deve ter vindo ver se não estamos transando. Quanto mais tempo você demorar, mais suspeito vai parecer.
            Ela desceu para abrir a porta. Hendrik fez o jogo habitual, ditando ordens a serem obedecidas. Ficou constrangida em pensar que Leon a ouvia ceder aos caprichos de Hendrik.
            Na sala, observava com vergonha e pena os esforços de Leon em ser gentil com o intruso. Hendrik não percebia nada, mas para Liz era clara a repulsa que o amigo sentia — talvez também por ela. Tentando amenizar a situação, perguntou se Hendrik queria beber alguma coisa. Ele pediu chá. Antes mesmo que Liz fosse à cozinha, Leon se ofereceu para prepará-lo. Não se opôs, imaginando que ele quisesse fugir à presença do outro. O melhor a fazer era tirar Hendrik dali depressa. No quarto, sob o olhar do namorado, começou a trocar de roupa. Ele falava bobagens, coisas sem nexo, não havia motivo algum para que estivesse ali. Leon bateu na porta do quarto avisando que o chá estava pronto.
            — Você pode, por favor, pegar o meu sobretudo? Está aí no cabide — pediu a Liz.
            — Não precisa sair por nossa causa, Leon — falou, entregando-lhe a peça de roupa. — Nós já estamos quase de saída.
            — Nem tudo o que eu faço é por causa de vocês. Eu estava precisando mesmo ir ao Centro... — mentiu, abertamente.
            Vondelpark, Rembrandtpark, Erasmuspark, Westerpark, Oosterpark, Sarphatipark, Flevopark, Beatrixpark... todos os parques da cidade, seus lagos e árvores, flores e pássaros. Todas as praças, ruas, todos os canais, prédios e fachadas, museus que vi apenas de fora, lojas com belas vitrines, todos os lugares, todas as pessoas... Na última semana — como na primeira em que estivera na cidade —, andei como um condenado, procurando insistentemente alguma identificação, alguma certeza na minha vida confusa, paralisada. Conhecendo um pouco a exterioridade de Amsterdam, belezas e misérias, mais uma vez, nada encontrei que me tocasse. Não havia a menor ligação entre mim e o estranho mundo ao meu redor. Sempre soube disso, desde o começo. Por que me obstinei em não aceitar a verdade?
            Um ser perdido no meio do nada, aguardando eternamente... o quê? Que outros decidam minha vida?, escolham por mim o que não sou capaz? Será que nunca vou mudar? Quanto tempo se passou desde que tive consciência dessa fraqueza? Por que a inércia? Todo o meu tempo perdido. Todo o meu dinheiro gasto. Todas as esperanças mortas. Eu, no centro de uma das cidades mais lindas do mundo, isolado, falido, infeliz. A beleza da vida não me é acessível. Fiz tudo o que podia, mas nada se passou como planejei. Não existe a menor sintonia em coisa alguma, nem mesmo nas que não me dizem respeito. Espectador passivo, limitado a observar tudo sem interferir. Até que ponto sou responsável pelas coisas que não deram certo? Talvez, sem mim, Liz tivesse um começo mais difícil com menos dinheiro, mas certamente ultrapassaria essa fase e estaria bem melhor com Hendrik agora. Ajudei-a tanto quanto a atrapalhei. Inútil achar que ainda terei chance. E, se realmente a conseguir, quem me garante a felicidade? Não consigo me imaginar vivendo feliz num lugar que não escolhi. Sem passado, sem futuro, sem presente, invisível e insatisfeito deslizando solitário na superfície desolada. Não adianta insistir. Frases do bilhete que Liz me escrevera quando de nossa última briga ecoaram na minha mente: “Precisamos viver nossas vidas. Todo mundo precisa.” Tenho que enfrentar a realidade, tomar as rédeas da minha existência. Estou cansado de esperar.
            Pintado com as cores da primavera, o Vondelpark estava mais belo que nunca. Atraves-sando o paraíso, uma voz dentro de mim gritou: “Eu decido a minha vida. Vou voltar ao Brasil.” Orgulhoso de mim mesmo, deveria estar triste. Mas não estava. Sentia uma felicidade tão intensa que tinha vontade de cantar minha alegria no meio do parque.
            Pouco depois de chegar ao apartamento tive que descer para atender à porta. O carteiro me entregou um envelope grande: os documentos vindos do Brasil. Que ironia! Sem nenhuma emoção, abri a correspondência tão esperada. Quatro folhas de papel para mudar minha vida. Pedir prorrogação do visto de turista na delegacia de estrangeiros, apresentar provas de subsistência, dar entrada na papelada de um casamento que não interessava a mais ninguém... Separei as duas folhas que pertenciam a Liz: talvez tivessem alguma serventia para ela. Fui à cozinha com as duas folhas que me pertenciam. Risquei o fósforo e as queimei, vendo satisfeito as chamas as consumirem. Finalmente livre.

            Com a primavera o sol havia mudado seu curso. A temperatura fria, resquício do inverno, ainda me obrigava a acender o aquecedor em pleno dia, mas a luminosidade que inundava o ambiente, atravessando as janelas sem cortinas, era nova, revigorante. Na sala, junto ao fogo, começando a traçar planos para o meu retorno, ouvi a chave girando na fechadura. Meu coração se acelerou. Estava ansioso para contar minha decisão, e também preocupado com a reação de Liz. Assim que ela entrou na sala, não lhe dei tempo de dizer uma só palavra:
            — Desculpa falar isso assim, de repente, mas eu decidi uma coisa muito importante pra mim.
            Olhou-me surpresa, certamente por meu tom sério.
            — E o que é? — disse, aproximando-se, sentando no chão.
            — Eu vou voltar pro Brasil.
            — O quê?!? Mas... mas por quê? — indagou, com espanto.
            — É o melhor a fazer. Eu decido a minha vida.
            — Mas logo agora que os papéis estão pra chegar!?...
            — Já chegaram. Esses são os seus — falei, entregando-lhe o envelope. — Os meus eu queimei.
            — Por que você fez isso?
            — Não quero continuar esperando respostas incertas. Eu não agüento mais viver em sursis.
            Liz parecia consternada, aturdida, pasma.
            — Eu te entendo... e respeito a sua vontade. Estou triste porque a gente vai demorar mais a se ver, e contente por você ter tomado uma decisão importante.
            — Sinto tanto alívio!... Pela primeira vez fiz algo por mim mesmo — falei, emocionado.
            Liz pousou a mão no meu joelho, carinhosamente. Consolava-me. Vendo minhas lágrimas, começou a chorar. Doía-me abandoná-la, mas eu tinha uma vida para viver, a que estava diante de mim era a de Liz, vida na qual eu não podia tomar parte.
            Ela se levantou do chão e, dando a volta por trás de mim, abraçou-me.
            — Gosto muito de você... — disse, soluçando ao meu ouvido.
            — Eu também gosto muito de você...

            Passamos o resto da tarde numa atmosfera de harmonia e emoção. Liz queria saber o que eu faria quando voltasse, questionava-se sobre o que ela mesma iria fazer na minha ausência. Estava um pouco assustada por ficar sozinha. Argumentei que Hendrik a pouparia da sensação de solidão, talvez eles até se entendessem definitivamente.
            A campainha soou em dois toques que ilustraram minha última frase.
            Hendrik estava com ar preocupado. Havia tido problemas com o horário de uma prova importante, que deixara de fazer. Precisava redigir uma carta pedindo desculpas por sua falta. Queria ajuda de Liz para digitar o texto.
            Ele me cumprimentou com um sorriso frio, tentando parecer agradável. Sorri para ele, já não o odiava. Liz contou-lhe da minha decisão de voltar ao Brasil.
            — Oh, não! Fica na Holanda! Voltar ao Brasil não é bom — falou ele, em inglês.
            A frase que tivera algum significado para mim, nada mais representava. Hendrik era um robô programado a dizer sempre a mesma coisa, não importando as circunstâncias. Logo, ele se concentrou na redação do texto. Eu e Liz voltamos a conversar.
            Como notou que Hendrik prestava atenção em nós, ela lhe traduziu parte do assunto. Friamente, ele disse que não era bom eu voltar ao Brasil sozinho, Liz deveria ir comigo. Brincadeira de mau gosto? Hendrik não parecia brincar.
            Pedi a Liz que dissesse a ele que cada um de nós tinha sua própria vida. Eu havia tomado uma decisão que não era a dela. Hendrik repetiu que Liz deveria voltar ao Brasil comigo. O constrangimento no olhar dela quase me pesou. Liz ainda tentou explicar as nuances da questão, mas Hendrik, outra vez mergulhado na redação da carta, ignorava o que ouvia. Diante da desatenção, ela interrompeu seu discurso. Levantei e fui à cozinha. Liz me seguiu.
            — Você viu? Ele não liga pra mim — falou, entre descaso e chacota. — Ele quer me ver pelas costas.
            — Não é verdade. Se fosse assim, ele não teria vindo te procurar pra ajudar na carta.
            — Mas ele só veio aqui pra me usar, como sempre.
            Não demorou muito para Hendrik vir até nós. Havia terminado a carta.
            — Posso tomar banho antes de irmos ao bureau pra eu digitar o texto? — indagou a ele.
            A princípio, Hendrik se opôs, mas, como ainda ia passar a carta a limpo, cedeu. Liz me advertiu de que eu não estranhasse muito se ele fosse embora de repente.
            Voltei à sala. Sentei de frente para Hendrik. Como era belo! Como era jovem! Quanta coisa a aprender!... Compenetrado na escrita, alheio a tudo, era ainda mais bonito. Levantei, me aproximei dele, imerso naquela língua estranha, traçando letras disformes coroadas por imensos pingos sobre os “is”. Beijei o alto de sua cabeça, cabelos tingidos de louro. Seu corpo se contraiu sob o meu atrevimento. Beijo fraterno. Beijo de despedida.

            Difícil aceitar a escolha de Leon. Sempre acreditou que tudo daria tão certo! Mesmo quando as coisas pareciam complicadas. Só agora se dava conta disso. Admirava a coragem de Leon, seu desatino em ter aceitado viajar com ela, a decisão radical de voltar... Ia perder o amigo, o único que havia conservado por perto. Ficaria sozinha, talvez para sempre.

            Entrou no apartamento que em breve não mais dividiria com Leon. No quarto, ele arrumava a mala — apesar de ainda faltar uma semana para a partida. Leon parecia ansioso em deixar aquele lugar, as tristezas que vivera, os sofrimentos que presenciara... Os problemas dela não eram mais problema dele. Via-o contente, como há muito não o observava, como no tempo em que ela também era feliz e nem sabia. Sentiu inveja de Leon. A indiferença dele em relação ao ambiente que não mais lhe dizia respeito a entristecia. O quarto que quase nunca haviam dividido já cheirava a despedida, a saudade.
            — Você já jantou? — perguntou a ele.
            — Não, mas se você quiser pode comer o que sobrou do almoço. Eu não estou com fome.
            — Não, eu vou fazer um jantar pra nós dois.
            Leon foi ajudá-la. A geladeira e o armário estavam praticamente vazios, o que não permitia a elaboração de um jantar de despedida. Tanto melhor, Liz odiava dizer adeus. Fez uma fritada com os últimos ovos e as sobras do almoço. Só não jantaram em completo silêncio porque ela ligou o aparelho de som numa estação de rádio qualquer.
            — Na semana que vem eu vou saber como é morar sozinha — disse, desencantada.
            — Tenho certeza que você vai se sair bem melhor que do eu. Você tem muitas ocupações, não vai ter tempo de se sentir sozinha. E depois, pode até ser divertido. Você e o Hendrik podiam passar uma semana aqui, outra no apartamento dele... Quem sabe ele não gosta da idéia?
            — É, quem sabe?...
            Percebia que Leon tentava animá-la, mas era impossível alegrar-se.
            — Você já sabe o que vai fazer quando voltar? — indagou Liz.
            — Ainda não. E, pra falar a verdade, me incomoda um pouco ficar aqui esses últimos dias. Eu queria recomeçar logo a minha vida, sem ter que esperar uma data marcada pra isso.

            Depois do jantar Leon foi para o quarto. Olhando o relógio, ela viu que ainda era cedo.
            — Já vai dormir? — perguntou, vendo-o deitado.
            — Não. Eu só estava procurando um lugar confortável.
            Deitou-se no colchão ao lado do dele.
            — Não sei o que eu vou fazer daqui pra frente...
            — Se o Niek aceitar o depósito como pagamento, o apartamento está pago até o fim do contrato. E depois, você tem de onde tirar o seu sustento. Não são empregos promissores, é verdade, mas quem sabe você não é chamada pra trabalhar naquela empresa americana?
            Não tinha entendido a quê ela se referia ou desviara de propósito o rumo da conversa?
            — Se eu tivesse conseguido ficar em Amsterdam, ia acabar te atrapalhando ainda mais — continuou ele. — Que emprego eu arranjaria? Eu não ia poder dividir as despesas com você. Já pensou nisso?
            — Mas você me sustentou por algum tempo, nada seria mais justo. Estou envergonhada de não poder pagar o que eu te devo. Você vai voltar pro Brasil sem nada... me sinto tão culpada!...
            — Você não me deve dinheiro algum — falou, para tranqüilizá-la. — Se eu não viesse, se eu não tivesse passado o que passei como teria me reencontrado? Você me deu a chance de um novo ponto de partida. Quem mais faria isso por mim?
            — Eu não queria perder você...
            — Você nunca vai me perder. Da minha parte, vamos continuar sempre sendo amigos.
            — Mas a gente vai ficar longe um do outro, a distância esfria as relações...
            — Não vamos deixar isso acontecer, vamos?
            — Parece que você não vai sentir a minha falta... Você ainda gosta de mim? Você ainda...
            — Eu vou te amar sempre, Liz — interrompeu-a. — As coisas mais importantes que eu aprendi foram ao seu lado. Nos últimos tempos, cresci mais do que durante toda a minha vida. Eu vou sentir muito a sua falta, mas preciso seguir o meu caminho. Eu vou ficar bem!
            Ele dizia que estaria bem. Em quê fundamentava as novas esperanças? Num mundo do qual ela não mais faria parte. O que dava a Leon a certeza a qual se agarrava? Algo que ela só conheceria a distância. Ele ainda estava a seu lado, mas Liz não podia compartilhar sua infelicidade com o amigo, não era justo. O estranho sentimento que a dominava — que se via forçada a chamar de tristeza — era algo que nunca experimentara com tal intensidade. Não estava perdendo apenas um amigo querido, mas parte importante de seu passado, parte de si mesma.

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