Liz me preocupa. Nova briga com Hendrik. Ela arrasada, dormindo para esquecer, para fazer o tempo passar depressa. Chegou ontem tão transtornada que deve ter achado meu silêncio uma bênção. Chorava. Depois do banho, sem dizer palavra, atirou-se na cama. Quando fui dormir, ela ainda soluçava. Não ousei invadir seu sofrimento. No meio da noite, vi quando se levantou e foi para a sala, onde continuou chorando. Não consegui dormir mais.
           Hoje de manhã, encontrei a lista que ela fez na madrugada insone. Prós e contras de seu relacionamento com Hendrik: sete vantagens contra um monte de desvantagens. Dessa vez a coisa parece ter sido séria.

           Liz acordou na hora do almoço. Ainda estava abatida.
           — Me desculpa por ontem à noite, eu não estava me sentindo bem — falou. — Nós brigamos de novo. Acho que agora é definitivo.
           Achava, não tinha certeza, então não era definitivo.
           Depois de comermos ela me convidou a um passeio. Eu só tinha vez quando Hendrik saía de cena. Do lado de fora, a bela tarde de céu azul, sol brilhante em nada lembrava o inverno. Aceitei acompanhá-la.
           Na rua, o frio intenso contrastava com a pureza do céu, a luz do sol. A realidade climática para além das vidraças era bem diferente da atmosfera quase familiar que havíamos criado no apartamento.
           O Rembrandtpark — que Liz tanto queria conhecer —, era um deserto: vazio, árido, nu, combinava perfeitamente com o vento gelado que o devastava. Concreto, saibro, árvores secas, paisagem desoladora. Batemos em retirada. Caminhamos pelo bairro olhando fachadas, observando construções, nos esforçando em apreciar o belo em meio ao frio. Meu ânimo havia se esvaído, a friagem me endurecia os movimentos. Liz estava tão ausente que eu tinha impressão de caminhar sozinho. Havíamos tentado escapar do tédio morno do apartamento claustrofóbico, mas do lado de fora a esterilidade gélida nos repelia. Resolvemos voltar.
           Quando chegamos em casa, como uma alucinada, Liz se pôs a limpar o apartamento. Varria chão, tirava pó, lavava vidraças, banheiro, cozinha... Mas não havia o que arrumar, tudo já estava limpo. Queria manter-se ocupada para não pensar. Quando terminou a faxina, quando se deu conta de que nada mais havia a fazer, foi para a varanda dos fundos. Apoiada na grade, chorou, chorou, chorou. Da sala, através da janela do quarto — que ela tão bem limpara —, eu observava seu sofrimento. Inconsolável, parecia prantear um morto. Nunca a tinha visto naquele estado deplorável. Quantas lágrimas inúteis. O que buscava? Não desejava Hendrik? Por que chorava agora que o havia encontrado?
           Eu queria aliviar seu pesar, ajudá-la de alguma forma. Mas, encerrada em sua tristeza solitária, Liz estava inacessível.

           Três dias depois da crise de lágrimas, estava menos abatida. Nada havíamos falado sobre o assunto. Apesar de ainda triste, Liz reagia bem. O nome de Hendrik não foi mais mencionado.
           A campainha soou: dois toques. Estremeci. Liz, que havia chegado há pouco, julgou ser Denis. Mas eu não acreditava que fosse o vizinho inconveniente.
           Fui até o corredor, espreitei escada abaixo. Liz abriu a porta, tratou Hendrik amigavelmente. No mesmo instante, ele começou a dizer que não queria mais saber dela. Usando argumentos previsíveis, parecia que nunca pararia de reclamar. Liz permanecia muda. Quando ele deu por encerrado o discurso, ela indagou com simplicidade: “Sabe por que eu não apareci mais? Porque estava doente, de cama.” Mentia. Não conseguiu evitar vingar-se dele, fazendo-o parecer tolo por não suspeitar que algo pudesse ter lhe acontecido. Ela fraquejara, mas obteve o resultado que esperava: Hendrik ficou preocupado com a suposta doença, quis saber detalhes. Liz perguntou se ele não queria subir para conversarem mais à vontade. Duelavam. Cada qual tentava forçar o outro a aceitar uma proposta incompatível com suas falsas posturas. Hendrik recusou-se a subir, mas eu corri para tentar arrumar rapidamente nossos cômodos semivazios. Não queria que, se subisse, ele tivesse má impressão do nosso pobre apartamento. Não tive chance de concluir o intento: Liz venceu o duelo. Ouvindo os passos na escada, fui em direção à porta. Ele me encontrou no meio do caminho. Sorrindo, estendeu-me a mão fria, queimando-me com os olhos. Incômodo prazer. Tinha esquecido de como ele era belo. Hendrik me dava medo, pior, fazia com que eu sentisse medo de mim mesmo.
           — O homem de azul! — disse ele, se referindo à roupa que eu vestia.
           Sorri em retribuição ao comentário, não pude evitar. A presença dele muda tudo. O tempo parecia ter começado a contar a partir do momento em que nossos olhares se encontraram — não sustentei o meu. Hendrik não me olhava, via através de mim. Tive impressão de que ele sabia tudo o que eu pensava. Desconfortável, não sabia o que fazer de mim. Hendrik falava e tudo criava vida a partir de então. A voz dele me conduzia para onde eu não queria ir. Fiquei desnorteado, sentia-me estúpido. Minha fraqueza irritava-me. Por que eu não conseguia manter minha palavra, minhas convicções? Por que ele sorria e me olhava daquele jeito?
           Liz convidou-o a conhecer o apartamento. Levou-o até a cozinha. Ele gostou das panelas ocre: falou que poderia comprá-las quando fôssemos embora. Ela disse que não iríamos embora. Como se fosse o dono da casa, abriu o armário, examinou a louça colorida, gostou das cores, achou os pratos muito grandes, mas os talheres combinavam com a louça. Como se fizesse um inventário, quis saber o que realmente era nosso e o que pertencia ao senhorio. Estranho o súbito interesse que demonstrava por nós e nossas coisas. Eu os acompanhava, sentindo-me esquisito, sobrando. Hendrik falava trivialidades, mas era como se dissesse coisas muito importantes. Sentia raiva e vergonha de mim mesmo. Não conseguia me controlar. Nem odiá-lo, mesmo conhecendo os motivos para tal. O que estava acontecendo?
           Foram para a varanda. Ele gostou da vista também. Tudo parecia agradá-lo. Voltaram à sala. Hendrik analisava o apartamento: vista, móveis, objetos... tudo muito bom. Como ele podia, sendo quem era, satisfazer-se com o que me parecia tão pouco? Liz mostrou o aparelho de som emprestado, com defeito. Hendrik pediu que ela ligasse o rádio. Refugiei-me na cozinha. “Tudo vai recomeçar?”, pensei. “Mas pra isso seria preciso que tudo tivesse acabado... Tudo vai continuar. Ele me enganou antes... me engana agora. Vai me enganar sempre?”
Quando voltei à sala, Hendrik, ainda de pé, olhava fotos que Liz trouxera do Brasil. Parecia ter pressa, não queria perder tempo sentando-se. Como se tivesse lido meus pensamentos, ele explicou, em seu inglês rápido, que ficava o dia inteiro deitado ou sentado, estava bem de pé. Gelei e corei ao mesmo tempo. Algo em mim queria que ele ficasse à vontade. Sentei na poltrona, os dois ficaram de pé. Hendrik achou que havia fotografias de Liz comigo em demasia, mas foi humorado na maneira de dizê-lo. “Liz e Leon, Liz e Leon, Liz e Leon...”, repetia vendo as fotos, com entonação cômica, fazendo caretas. Eu não imaginava que ele fosse tão divertido, tão simpático.
           Acabou sentando na poltrona a meu lado. De repente, quis saber sobre nosso casamento. Liz explicou que precisávamos esperar documentos vindos do Brasil para dar entrada no pedido, mas temíamos que não desse tempo. Precisaríamos traduzir os papéis. Ela perguntou se Hendrik conhecia um lugar para fazer as traduções. Ele não sabia informar, mas não seria difícil encontrar nas Páginas Amarelas. Alcançando a volumosa brochura na mesa baixa, ele começou a procurar. Achou alguns endereços e telefones. Quando Liz apanhou, na mesinha, papel para anotar as informações, acabou deixando à mostra a lista de prós e contras que fizera havia alguns dias. Se não tivesse esboçado reação alguma o fato teria passado despercebido, mas ela fez um movimento tão brusco, tão suspeito para que Hendrik não visse a lista, que ele teve a atenção despertada. Liz segurava o papel como se sua vida dependesse dele. Curioso, intrigado, Hendrik insistia em ver o que ela tanto queria esconder. Puxou o papel das mãos de Liz, que não se esforçou em detê-lo. Talvez por isso ela tivesse escrito a lista em inglês, para que Hendrik pudesse lê-la num momento oportuno. Premeditara tudo ou aproveitava a ocasião?
           Sem perder o humor, Hendrik leu a lista discordando em alguns pontos, concordando em outros. Parecia não acreditar na quantidade de desvantagens que Liz havia enumerado. Começou a criar, verbalmente, sua própria lista de prós e contras. Não discutiam, mas a conversa assumiu ar sério. Ele se mostrou disposto a corrigir os defeitos da lista, a acrescentar mais vantagens naquela relação. Os olhos de Liz brilhavam com tanta intensidade que fiquei constrangido. E pensar que Hendrik tinha vindo procurá-la para terminar definitivamente o relacionamento... como podia ter mudado de idéia tão depressa? Ele mentia, ela mentia, eu também mentia... Aprisionados num emaranhado de inverdades ninguém ousava acusar os demais. Dos mentirosos eu era o mais sórdido: traía a mim mesmo. Que espécie de imbecil eu era? Desmoralizei-me perante Liz, não consegui sustentar um ódio que não mais sentia. Hendrik era engraçado, agradável, simpático... Como pude mudar de idéia tão depressa? Sempre estivera enganado a respeito dele ou somente agora era ludibriado? Não posso continuar mentindo a mim mesmo: Hendrik é o homem mais belo que já vi! Por que não admito a verdade? Só porque ela é penosa, me envergonha? Sou bem mais tolo que Liz. Por que não resisti? A beleza possui para mim um peso que não posso ignorar. Hendrik me esmaga.

           Tudo o que mais desejava era acreditar no que parecia realidade. Talvez fosse prudente lembrar da verdade. Qual era ela? O que se podia sentir?, o que se descobria por acaso?, o que era prometido por alguém que não sabia cumprir promessas? Em quê acreditar? Na alegria subitamente renovada?, na tristeza abruptamente abortada?, em exames imprecisos que nada comprovavam? A realidade fundia-se a desejos desesperados. Rodamoinho de incertezas e vontades que se matizavam umas às outras, reforçavam-se, anulavam-se... Não queria pensar mais, somente viver. Por que questionar a felicidade no exato momento que ela se apresentava? Por que não viver cada momento sem pensar no que ficara para trás, sem tentar adivinhar o que viria pela frente?

           Sempre que reatavam Hendrik fazia concessões. Na cama à disposição de Liz, dessa vez ele não a impedia de coisa alguma. Ainda incrédula, mas feliz, ela realizava seu amor como sempre havia tido vontade. Só o presente importava.
           — Você não tem mais medo? — pergunta Hendrik, deitado, afagando os cabelos dela.
           — É tarde demais pra isso...
           — Mas você não tem medo de morrer? — insiste. — E se eu estiver doente?
           — Eu tenho mais medo de não ser feliz. Estou feliz agora. Eu te amo.
           — Quero viver com você, Liz. Eu vou me esforçar pra gente não brigar mais. Aprendi muito nos últimos tempos, te conheço melhor agora, conheço melhor a mim mesmo. Eu preciso de alguém que cuide de mim...
           Amiga, amante ou mãe? Talvez um pouco de cada. Satisfeita, abraçada ao corpo do homem que amava, ouvindo-o dizer o que sempre esperara, se via num sonho nítido. Mas para evoluir era necessário acordar, seguir em frente. Antes de despertar, antes de voltar a viver do lado de fora daquele apartamento comprimiu em seus braços o homem que lhe dava prazer.
           Hendrik a acompanhou até a porta do prédio. Beijou-a. Um grito agudo fez com que se separassem. Derek os olhava com ar assombrado, trazia os gatos de volta ao apartamento de Hendrik, mas largou-os assim que viu o casal apaixonado. Com voz chorosa, xingou Liz e correu de volta para casa. Hendrik tentou se desculpar pela atitude de Derek, mas Liz não se importou com o outro. Interiormente, ria do papel ridículo que Derek representava.

            Ainda tentava entender o que se passava comigo. Algo havia mudado. Sonhei com Hendrik e Liz: éramos amigos, os três, estávamos felizes; nosso trio se completava, uns ajudavam os outros. Sonho idiota, impossível. Inerte no colchão, não encontrava palavras para expressar o que ainda não sabia sentir. De olhos fechados, um mundo perfeito surgia: tranqüilidade, alegria, amor brotavam do nada compondo uma cena da qual eu fazia parte...
           Levantei tarde, sem vontade de fazer coisa alguma. A inércia me aborrecia.

           O almoço chia na panela sobre o fogão, enquanto arrumo a sala, varro o carpete, tiro pó... O som da campainha ecoa, duas vezes, quebrando o tédio que me envolve. Meu coração dispara. É ele. Mas por que veio em horário tão impróprio? Fico sem saber se atendo a porta ou visto algo apresentável. Mais dois toques no botão da campainha. Desço as escadas.
           Da calçada, Hendrik me olha como uma criança tímida, sorri daquele jeito perturbador. O pretexto para a visita fora de hora é convincente: Liz. Pergunta por ela. No meu péssimo inglês, digo que Liz está no trabalho. A criança tímida cede lugar a um homem decidido que se aproxima de mim. Quer saber se pode subir ao apartamento. Como recusar? A porta estreita faz nossos corpos se tocarem quando ele passa. Sinto seu perfume, seu calor... estremeço.
           Na sala, Hendrik começa a falar, falar, falar... Por que conta tudo de forma tão compulsiva? Parece não saber se comportar diante de mim. Fala tão depressa que não tenho tempo de decifrar cada frase, mas entendo o sentido geral. Fala sobre si mesmo, sua vida, um jogo em que perdeu dinheiro... Eu o contemplo. A vibração de sua voz me entorpece. Sinto meu corpo tremer, tenho receio de que ele o perceba. Hendrik faz perguntas que não posso responder. Não ignoro as respostas, mas estou tão atordoado comigo mesmo, que fico sem ação. Por que ele não vai logo embora? Por que não cala essa boca linda? Por que tinha que vir aqui transformar meus sonhos insanos em insana realidade?
           Pede o número de telefone do hotel em que Liz trabalha, mas não lembro onde o guardei, nem mesmo sei se tal número existe. Seus olhos, que parecem enxergar meu pensamento, são fuzis atirando sem cessar. Desvencilho-me de suas armas, vou para o quarto em busca do que me pede. Inútil, não consigo me concentrar. Estou mal-vestido, a sala desarrumada, a panela no fogo, a porta aberta... e preciso achar um número de telefone que não sei onde está.
           Volto à sala, ele ainda está de pé. Por que não senta? Continua a falar, sorrir, me olhar... Hipnotizado, não consigo desviar meus olhos do seu rosto. O que quer de mim? Enlouquecer-me? Por que não me deixa em paz?
           Sorrindo, pede-me para não voltar ao Brasil: “Fica na Holanda!”, diz. Pedido ou súplica? Tento argumentar que não gostaria de ficar em Amsterdam ilegalmente. Ele fala que muitas pessoas vivem na clandestinidade: “Por que você também não? Fica na Holanda!” Observo seus olhos, ouço sua voz, sinto seu perfume... minha única vontade é abraçar o corpo diante de mim. A idéia me causa tanto temor que acabo readquirindo o controle. Mas só alguns centímetros nos separam, Hendrik está perto demais. Subitamente, lembro de suas fotos nas revistas, seu passado. Começo a me deslocar para trás, mas ele acompanha meus movimentos fazendo a distância entre nós permanecer a mesma. Encosto na parede, ele continua avançando, devagar, falando algo que não mais escuto, seu hálito de ervas, de fumo, é doce. Sua boca falante vem de encontro à minha, vai me beijar... a voz grave... o hálito... “Não!” Desvio o rosto, seus lábios tocam minha face, um beijo fraterno. Ele sorri. Desvencilho-me de seus braços. O que foi isso? O que ele pretende? Por que não me abandonei? Por que não fiz o que ele queria?, o que eu queria? Eu não teria sido responsável por nada, a culpa seria dele, toda dele. Sou mesmo muito estúpido.
           Na cozinha, apago o fogo que já queimava a comida. No quarto, encontro o número de telefone do hotel. Na sala, entrego-lhe o papel no qual Liz havia anotado o número. Ele agradece. Pergunta se pode fumar. Como negar? Acende um cigarro artesanal, dizendo: “Fica na Holanda!” — talvez seja uma súplica. Pergunta se pode abrir a porta do balcão para não reter a fumaça no ambiente limpo. Sabe que eu estava arrumando a casa. Volta a falar, sorrir, me olhar... me torturar. O que fazer? Pedir que ele sente?, implorar que vá embora? Do bolso do casaco, tira uma barra de chocolate: é para mim, presente de amigo. Em retribuição, apanho as duas últimas balas de cassis do pacote comprado há alguns dias, dou a ele. Apaga o cigarro, maravilhado com meu presente. “Balas no papel violeta...”, diz. Desembrulha uma delas, coloca na boca. “Bala de perfume!...”, fala, saboreando-a.
           De repente, diz que precisa ir embora. Quer muito falar com Liz, ainda hoje. Acompanho-o até a porta, nossos corpos novamente se tocam. Tenho vontade de não deixá-lo ir.

           Ainda estava acordado, quando Liz chegou da casa de Hendrik, a felicidade estampada no rosto. Voltou impregnada não só do perfume, mas também do cheiro dele. Começou a fazer seu relatório. Agora eu ansiava saber tudo sobre Hendrik. Aproximei-me dela. Enquanto falava, eu sentia o cheiro dele, de seu sexo. Aroma agradável, masculino, mas doce. Vontade de beijar Liz, sentir o gosto dele em sua boca, o sexo dele nos lábios dela.
           Contou que tudo estava bem entre eles. Sua fisionomia expressava alívio, tranqüilidade, alegria. Senti inveja, ciúme — sentimentos que não sabia a qual dos dois atribuir. Estava contente por Liz. Agora que eu não mais odiava Hendrik, essa hipótese já não soava como maldição, mas recompensa. Humorada, ela falou que, na tentativa de zerar seu escore, Hendrik tinha proposto um amontoado de programas que, ainda que tivessem tempo, jamais realizariam.
           Falei da visita dele, mas não consegui dizer tudo o que acontecera, Liz não acreditaria em mim. Eu mesmo duvidava daquela alucinação. Ela pediu que eu contasse detalhes da visita. Agora, meu relatório lhe interessava.

           Eu também estava feliz. No supermercado, procurando o pacote das caras balas francesas — que me prometera nunca mais comprar — me dei conta da alegria que me movia. Nada era mais importante do que agradar Hendrik. Não me sentia estúpido por meus atos idiotas. A vida tinha adquirido um significado novo, estimulante, isso justificava tudo.
           Abri o pacote, selecionei apenas as balas envoltas no papel violeta. Fiz um pequeno embrulho com celofane tirado de outra embalagem, um laço com fita lilás, encontrada nos pertences de Liz. Perfeito. Um belo presente.

           Liz chegou tarde do hotel. Foi imediatamente para a cozinha, esquentar o almoço. Na sala, enquanto saciava a fome, disse que não tinha sido escalada para o restaurante, ia encontrar Hendrik para um dos passeios que ele havia proposto. Estava contente, ansiosa. Sua alegria me enternecia. Indagou o que era o embrulhinho na mesa baixa. “Um presente para o Hendrik. Balas de perfume”, respondi. Queria que ela o entregasse a ele por mim. Sorriu, Hendrik ia gostar.
           Ela começou a se arrumar. Na sala, sentado na poltrona, eu via sua agitação no quarto. Fechando os olhos, relembrei meu sonho, imagens impossíveis. Eu, Liz e Hendrik, irmãos, amigos, amantes, juntos na mesma cama... Liz e eu, amando o mesmo homem. Hendrik e eu, amando a mesma mulher. Não era necessário que os dois me amassem...
           A campainha tocou, arrancando-me do delírio. Desci, abri a porta. Telegrama para Liz.
           Mathias a convocava urgente: restaurante começando a encher, ausência de Kati. Planos atrapalhados, seu rosto contorcido de angústia. Apiedei-me dela. Nossa realidade não podia ser posta de lado, precisávamos de dinheiro. Como sempre, daria um jeito de agradar a todos: Hendrik teria de compreendê-la. Partiu sem saber como seria sua noite.
           Saí pouco depois dela. Vaguei pelas ruas mudo, surdo, cego, até o anoitecer. Lembrei com indiferença de meus desejos não realizados, projetos prestes a fracassar... tudo passara para segundo plano. O dinheiro cada vez mais escasso. Diante de uma livraria parei, entrei. Acabei comprando um livro de Proust — da coleção Em Busca do Tempo Perdido. O caixa perguntou se era presente. “Sim”, falei. Meu presente de aniversário. No dia seguinte estaria um ano mais velho.
           À noite, num frio de 2ºC, atravessando o parque de volta para casa, me senti culpado pelo gasto desnecessário com o livro. Desânimo girando num caleidoscópio de pensamentos: retornar ao Brasil, precisar retornar, ficar em Amsterdam, querer ficar, casar, amar... Não sabia mais pensar... “Fica na Holanda! Por que você também não?...”
           O apartamento solitário e escuro, retrato fiel de mim mesmo. Sem Liz... sem Hendrik... sem ninguém. Antevia meu futuro. Não acendi as luzes, estava cego. Não liguei o som defeituoso para escutar Bach, estava surdo. Não precisava falar, ninguém para ouvir. Sentei na poltrona ao lado da outra, vazia. A escuridão não me incomodava, nem a crueza do cômodo praticamente nu. O silêncio que oprimia o ambiente fazia parte do contexto estagnante. Total isolamento do mundo, da vida, das pessoas... realidade que minha ausência de sentidos não me permitia ignorar.

           Sem poder avisar a Hendrik, que não tinha telefone, Liz precisava contar com uma compreensão que também deveria passar num teste.
           Depois da agitada noite no BarHamas, chegou em frente ao prédio dele. Atraso de seis horas. Tocou o interfone. A porta se abriu, subiu as escadas, entrou na sala. Levou um susto:
           — O que aconteceu com o sofá!? — indagou, perplexa, vendo o móvel em pedaços.
           — Eu quebrei ele — respondeu Hendrik, cabisbaixo. — Você não veio. Eu pensei que tivesse me abandonado. Fiquei com raiva, muita raiva.
           Surpresa com a explicação, ainda um pouco temerosa, o abraçou:
           — Eu nunca vou te abandonar. Eu te amo.
           — Eu tinha feito um jantar pra nós dois, tinha arrumado a casa, até flores eu comprei...
           — Me desculpa, eu queria ter te avisado, mas não deu tempo. Fui chamada pra substituir uma das garçonetes...
           — Você trabalha demais.
           — A gente já conversou sobre isso. Você sabe que eu preciso de dinheiro...
           — Agora que você está aqui, que explicou tudo, estou me sentindo melhor.
           Ficou mais surpresa com a reação de Hendrik do que com o sofá destruído.

            Trinta e sete anos. Dia de fazer balanço. As mesmas perguntas — cada vez mais difíceis de responder — surgem novamente, ilusão de que nada mudou. O que sou, o que quero, para onde vou? Agora sei menos que antes. Por que tudo chegou nesse ponto absurdo?
           Preciso vê-lo. Preciso vê-lo nem que seja a última vez. Tenho que me certificar de que ele é real, de que não o imaginei, de que tudo não passou de devaneio... Vontade de fazer o que não posso. Talvez seja melhor ir embora de vez. Não quero, mas é a atitude correta. As coisas fugiram de controle, e eu nem controlava nada!... Sei aonde tudo isso vai me levar. Tenho medo, estou sozinho, confuso... Só agora compreendo Liz, tudo o que fez, e faz...
           Não sei mais nada. Só sei que preciso vê-lo. Sensação que me atrai, me apavora. Sentimentos antagônicos coexistindo em harmonia. Corro perigo, mas sou impelido ao encontro desse risco como única chance de salvação. Viver é se arriscar, o tempo todo. Hendrik é um jogador — que lances eficazes! Ele dá as cartas.

           — Feliz aniversário! — disse Liz, quando chegou, me abraçando, entregando um presente.
           Procurei sorrir. Ela estava alegre, mas cansada. Havia ferido as mãos no serviço do hotel. Tinha trabalhado no restaurante também. Cantaria de madrugada na boate. Enquanto eu matava tempo, Liz se matava de trabalhar.
           — Eu queria que o Hendrik viesse comigo te dar um abraço. Mas ele disse que não te conhecia direito, e talvez você não gostasse da presença dele. Então eu vim sozinha. Acho que ele ficou com ciúme de você.
           — Ciúme de mim?
           — Ele viu as fotos que nós tiramos no parque. Disse que a gente fazia um bonito casal.
           — E por que ele achou que eu não gostava dele? Pensei que fôssemos amigos.
           — O Hendrik não está acostumado a ter amigos.
           Eu entendia. Talvez melhor do que ela imaginasse. Abri o presente: um livro de Proust.
           Liz não poderia passar a noite comigo, precisava cantar no Caldeirão. Eu não queria acompanhá-la? Sim!

           Um lugar apertado, superaquecido, apinhado de gente agitada, enevoado pela fumaça condensada dos cigarros... Liz num palco minúsculo, rebolando e gritando uma música inaudível, abafada por instrumentos estridentes, pelo vozerio dos freqüentadores se acotovelando numa tentativa de dança, embalados por um espesso ruído desagradável. Aquilo era diversão? As pessoas pareciam mais interessadas em comprimir seus corpos suados de encontro aos outros do que prestar atenção nos músicos e na cantora. Para quê decorar as letras daquelas musiquinhas medíocres? Ninguém ouvia nada! Nem mesmo eu, empenhado nisso, conseguia escutar a voz de Liz, uma atriz de cinema mudo cantando para cegos e surdos. Por falta de espaço, fiquei junto à porta de entrada — o que, vez por outra, permitia a entrada de ar fresco vindo da rua, um alívio. Depois de algumas músicas, Liz veio ao meu encontro. “Está gostando?”, perguntou. Falei que estava surpreso para não ter que dizer a verdade. Denis surgiu do meio da multidão se aproximando de nós, a noite estava completa. Desagradável como de hábito, começou a puxar conversa — que simulei não ouvir devido ao barulho. Não permaneci mais tempo na miniatura de inferno. Quando Liz voltou ao palco, parti.
           Um belo tom de azul escuro tingia o céu da madrugada. Azul-noite. Uma estranha luz coloria a estratosfera ressaltando o brilho das estrelas. Espetáculo digno de ser visto por todo ser humano, pelo menos uma vez na vida. Atravessando o Vondelpark deserto, era o único espectador da linda encenação celeste. Verdadeiro presente de aniversário, atrasado, mas bastante original.
           Sinto falta de Hendrik. O que ele fez comigo? O que deixei que fizesse? Não pode ser! Não há razão para isso! Por que a constatação desse absurdo me irrita tanto? Por que eu? Logo eu! Por que esse maldito tinha que vir aqui, ser simpático, sorrir, olhar, falar, me beijar?... Por que ele existe? Para enlouquecer a todos? Por que tinha de ser tão belo? E eu tão vulnerável? Estou só. Hendrik não suporta a solidão. Gosto dele. Não sei por que, mas gosto dele.
           Uma idéia obsedante me atormenta há dias: preciso ver Hendrik. Na mesa baixa, o embrulhinho de balas, que Liz sempre esquece de levar para ele. Meu presente, fraco pretexto. Preciso de motivo mais convincente. Só há um: Liz.
           Ontem ela me deixou a bicicleta para eu passear de uma forma diferente, mais divertida. Recusei, não queria atrapalhá-la, mas ela disse que havia descoberto um ônibus que passava perto da casa de Hendrik e que a deixava em frente ao hotel. A bicicleta vinha bem a calhar. Eu poderia, depois do passeio, devolvê-la para Liz: seria útil quando ela tivesse voltado do hotel. Tudo parecia conspirar a meu favor. Saí para levar a bicicleta na casa de Hendrik.
           Demorei a me familiarizar com o manejo do veículo cheio de marchas que eu não sabia como funcionavam, e com o arsenal de placas de trânsito ao longo das ciclovias. A maior dificuldade era evitar que as rodas da bicicleta entrassem nos trilhos do bonde: várias vezes quase caí.
           Na rua onde Hendrik morava, eu tremia como alguém inexperiente prestes a cometer um crime. Dei dois toques na campainha e aguardei. Nada. Mais dois toques, de novo nada. Frustrado, permaneci estático na entrada do prédio. Tirei do bolso o pequeno embrulho com as balas. Num pedaço de papel, escrevi em inglês: “De Leon. Para Hendrik.” Coroando o nome dele, desenhei um enorme pingo sobre o “i”, como ele mesmo costumava assinar — supus que ele acharia engraçado. Prendi o bilhete no embrulhinho e o coloquei na caixa de correspondência. Fiquei dando voltas com a bicicleta ao redor do bairro. Talvez fosse questão de tempo encontrá-lo. Retornei à porta do prédio, toquei o interfone mais uma vez sem obter resposta. Segurei lágrimas que não tinham explicação. Voltei para casa arrasado.
           Não sou vítima de Hendrik, mas de mim mesmo. Liz o classificou muito bem, ele é um enigma. Metade criança metade homem, metade anjo metade monstro, metade sábio metade demente, amado e odiado a um só tempo. Tempo... por que não passa logo? Por que se esgota tão depressa? Preciso ouvir a voz que atormenta, e que acalma; preciso ver os olhos que queimam, e que fascinam; preciso do sorriso que odeio, e que enternece... Estou sozinho, perdido, louco...

           — O que é isso? — indagou Hendrik, quando Liz chegou ao apartamento dele. Segurava um embrulho de balas.
           — O Leon esteve aqui? — falou, reconhecendo o presente do amigo.
           — Não, você esteve aqui. E me deixou esse bilhete — disse, entregando-lhe o papel.
           — Não, essa é a letra do Leon.
           — Mas é idêntica à sua letra! Que brincadeira é essa, Liz?
           — O Leon me pediu pra entregar as balas, mas eu sempre esquecia de trazer. Acho que ele deve ter vindo pessoalmente.
           — Mas é a mesma letra das cartas que você me mandou! Como é possível?
           — A gente tem a letra muito parecida. Na faculdade, fomos treinados a escrever de forma meio padronizada.
           — Mas até o pingo no “i”, como você faz pra me imitar? Você disse a ele que eu sou egoísta? O que mais contou?
           — Hendrik, todo mundo sabe que um grande pingo sobre um “i” é traço de egoísmo. E depois, o Leon já viu alguns dos seus bilhetes. Vai ver ele quis parecer engraçado, só isso.
           Quanto mais tentava se explicar, mais comprometida ficava. Com um mero bilhete, Leon havia criado motivos de discórdia. Por que ele tinha procurado Hendrik? Por que o bilhete querendo imitá-la?
           — E como o seu amigo sabia o meu endereço? Eu não disse a ele onde morava.
           — Eu disse — mentiu. — Achei que seria útil no caso de uma emergência.
           — Mas como ele pode saber tanto a meu respeito? Você falou de mim pra ele?
           — É claro que eu falei de você pra ele. O Leon é meu amigo, e os amigos conversam sobre todos os assuntos...
           — E você contou a ele as nossas intimidades?
           Dizer a verdade era dar razões a Hendrik para fazer o que ela não gostaria. Mentir era trair a confiança incerta que ele queria depositar nela. Precisava virar o jogo.
           — Não, pelo menos não como você fala de nós pro Derek.
           — Mas o Derek é homem. E homens podem falar de tudo entre si.
           — Um homem e uma mulher também, ou você acha que não?
           — Eu não conseguiria contar certas coisas pra uma garota...
           — Nem mesmo pra mim?
           — Nós não somos amigos, somos namorados!
           Ele parecia saber separar bem as coisas.
           — Mas você gostou do presente? — indagou ela.
           — Gostei, as balas são ótimas. Quer uma?
           Conseguiu mudar de assunto, fazer Hendrik esquecer o ocorrido. Constatava que não podia conversar com ele sobre as coisas que a inquietavam. Decidido a mudar, Hendrik continuava sendo uma bomba prestes a explodir.
            Liz chegou apressada, dizendo que precisava estar no BarHamas em meia hora. Correu até a cozinha. Sem esquentar a comida, encheu o prato. Devia estar faminta.
           Engolia generosas garfadas com rosto tenso, parecia querer dizer algo importante.
           — Ontem eu fui ao apartamento do Hendrik — falei, sem rodeios. — Achei que você...
           — Eu já soube — cortou-me a palavra. — Isso deu a maior confusão, sabia?
           — Confusão? Como assim?, o que foi que aconteceu?
           Contou o ocorrido num tom de quem estava com raiva, mas procurava não demonstrá-la. Parecia não compreender minha atitude, e sem coragem de tomar satisfações. Talvez esperasse eu me justificar.
           — Eu só queria te ajudar. Fui levar a bicicleta de volta porque achei que você ia precisar dela pra não ficar correndo, pra não chegar atrasada no restaurante... Como você tinha esquecido novamente as balas, eu resolvi levar pra ele... Eu não pretendia causar nenhuma confusão.
           Uma ótima desculpa, convincente o bastante para descontrair o rosto de Liz num alívio que apenas reforçava suas desconfianças sobre um comportamento que soava estranho: o meu. Imediatamente me senti desconfortável, como se houvesse feito algo muito errado. Mas Liz não teve tempo de notar meu rosto dissimulado, já que correu para o banho. Ela estava com a razão. Meu gesto fora um desatino. Hendrik não me conhecia. Eu sabia muito a seu respeito, mas ele nada sabia sobre mim. Como isso não tinha me ocorrido? O que eu pensava estar fazendo? Com que direito fizera aquela visita? Que papel ridículo! Por sorte ele não atendeu a campainha. Teria sido patético: eu, um completo estranho, com um pacotinho de balas na mão, fazendo uma visita impensada, ostentando falsa intimidade. A que ponto cheguei.
           Descemos para a rua. Tão apressada quanto havia chegado, Liz se despediu dizendo que depois do BarHamas iria para o apartamento de Hendrik, aproveitar o dia seguinte de folga.
           Num telefone público, liguei para a casa onde um dia morei. A documentação para nosso pedido de casamento seria enviada na semana seguinte.
           Hendrik a aguardava na portaria do prédio.
           — Vem! — pediu ele. — Vamos guardar a bicicleta aqui dentro, no depósito.
           — Mas por quê? Eu sempre deixei ela presa aqui fora e nunca aconteceu nada.
           — Dentro do prédio é mais seguro.
           Achou estanho o pedido, mas cedeu. Hendrik subiu com o veículo, guardando-o atrás de uma porta no corredor, junto ao apartamento. Somente na sala, ela o percebeu meio descontente, como se não tivesse coragem de dizer o motivo de sua insatisfação. Hendrik também devia estar se esforçando para não brigarem. Quais seriam as razões dele? Achou que aquele empenho mútuo, no qual nada era falado, acabaria minando o relacionamento.
           — O que foi? Eu fiz alguma coisa que você não gostou? — perguntou ela, com voz tranqüila, tirando o sobretudo. — Fala, Hendrik. Se a gente não conversar nunca sobre coisa alguma vamos acabar sem diálogo.
           — Quando é que você pretende comprar roupas novas?
           — As minhas roupas te incomodam tanto assim?
           — As pessoas comentam... dizem que você parece uma mendiga. É meio constrangedor.
           “Que pessoas? Ele não tem amigos... a menos que... Claro! Coisas do Derek!”, pensou.
           — Você também anda se relaxando... — continuou ele. — Você podia tomar banho mais vezes, usar perfumes...
           — Quer saber de uma coisa? — falou, perdendo a paciência. — É tudo culpa sua! Se você não tivesse exigido que eu passasse as noites aqui, eu teria mais tempo pra me cuidar, mais tempo pra mim. Tenho certeza que eu tomo muito mais banhos do que você, e se eu sou obrigada a vestir sempre as mesmas roupas quando estou aqui é porque não posso andar carregando malas. Eu não moro aqui, se esqueceu? Você tem muitos xampus e perfumes, mas nunca me oferece nada...
           — Cada um precisa ter suas próprias coisas, Liz... Não posso te emprestar tudo o que é meu.
           O egoísta declamava um discurso que soava encomendado. Irritada, ofendida, Liz não conseguia manter a calma. Os mais tolos motivos eram exacerbados para se transformarem em razões de briga. Por que só ela precisava exercitar a paciência ouvindo coisas desagradáveis? Hendrik prometera se esforçar para não discutirem, prometera corrigir seus defeitos, mas parecia ter esquecido suas promessas. Manifestar os pontos que a incomodavam na relação era repetitivo, e inútil. Sentiu vontade de dar a Hendrik um pouco de seu próprio veneno.
           — Você já transou com o Derek? — perguntou, abruptamente.
           — O quê!?! Mas que pergunta é essa?
           — Responde.
           — Eu não tenho que responder nada. Por que isso agora?
           — Eu queria saber até onde vai a sua amizade com ele.
           — Sempre fui muito homem com você. Não é isso o que importa?
           — Quando eu te conheci, você disse que se deixava fotografar em troca de jantares com rapazes. São deles aquelas fotos guardadas? Por que não tinha nenhuma fotografia sua? Que tipo de fotos eram essas, você posava nu? Eram só fotografias que eles tiravam de você?...
           Conseguiu atingi-lo. Hendrik ficou tão nervoso que Liz quase se arrependeu das perguntas. Trêmulo, ele correu ao quarto em busca de skunk. Da sala, podia vê-lo tremendo tanto que mal conseguia acender o cigarro. Um assunto que o desconcertava. Por que ele não aproveitava para falar a verdade que Liz já adivinhava? Tantas pistas comprometedoras... Ela nem ficaria chocada. Tarde demais: Hendrik tragava a fumaça como se pudesse esconder-se atrás dela.
           Desagradável surpresa no dia seguinte: a bicicleta havia sido roubada. Admirado, Hendrik parecia não acreditar no depósito vazio. “A idéia do Derek me pareceu tão boa...”, ele deixou escapar. Só então Liz compreendeu tudo.