Na HOF, empresa que mantinha convênio com hotéis na cidade, foi explicado aos integrantes da turma as regras a que deveriam submeter-se para ingressar nas promissoras atividades do sistema hoteleiro local. Liz sentia-se constrangida ao lado dos demais interessados, aparentemente tão necessitados quanto ela.
            No período de treinamento ganhava-se 1.300 gulden; o contrato de trabalho após a fase de experiência aumentava o salário para 1.700 gulden. Liz recebeu dois uniformes, que deveria se esmerar em cuidar, qualquer dano à roupa seria descontado. Foi designada para um hotel em Amstelveen, bairro afastado ao sul de Amsterdam, onde receberia mais instruções e assistiria a palestras. Lugar distante demais para ir de bicicleta. Tomou o metrô.
            O Grand Hotel Amstelveense era imponente: dez andares, quatro estrelas. A fachada, ornada por varandas de mármore, portas de vidro e toldos laranja, dava ao prédio um ar quase extravagante em meio à área verde em que ficava.
            Foi recebida pela amistosa gerente, vestida num alinhado uniforme, que a encaminhou até a sala onde estavam os outros candidatos. Não eram muitos, sete moças e dois rapazes.
            A gerente foi prática e direta no esclarecimento das normas para a limpeza e arrumação dos 91 quartos e 20 suítes. Foi mostrado um filme com os procedimentos básicos, enfatizando não o que fazer, mas o que não fazer naquele amontoado de regras a aprender. No fim da sessão, metade dos pretendentes havia partido.
            No caminho de volta, Liz pensava com alívio duvidoso na possibilidade de ser contratada pela HOF. O serviço era duro, precisaria de tempo para se acostumar.
            Trabalho menor. Grande esperança. Onde estavam as magníficas ofertas de emprego que haviam acenado para ela de forma promissora quando da primeira vez em Amsterdam? Esquecera um detalhe importante: falar holandês. As boas ofertas de trabalho, os melhores cargos e vagas dependiam do conhecimento daquela língua quase extinta. Isso limitava a maioria dos estrangeiros a serviços que os holandeses não estavam mais dispostos a fazer. Difícil competir em pé de igualdade com os nativos. Liz possuía nível superior, falava inglês, espanhol e português, dominava programas de computador... e, por não falar holandês, todo o seu saber era inútil. Quando pensara em se mudar para Amsterdam, não se imaginava trabalhando naquele tipo de emprego. Não que o achasse humilhante, mas desperdiçava os conhecimentos acumulados ao longo de anos de estudos e vivências. Sempre havia detestado limpar e arrumar — inclusive suas próprias coisas —, agora ganharia a vida arrumando a desordem e limpando a sujeira alheia. Não tinha escolha. O dinheiro levado para o início da vida na cidade havia acabado. Leon já começava a pagar as despesas dela. Não era justo. Não gostava de depender de quem quer que fosse — principalmente de alguém que já ajudara tanto, a quem ela nada tinha dado em troca.
Chegou tarde para o almoço. Leon não estava, mas tinha deixado a refeição pronta. Sentia falta dele, mas via sua ausência com alívio. Gostava de conversar, contar o que lhe acontecia, mas às vezes era melhor estar sozinha. Percebia que sua vida agitada, cheia de novidades era uma afronta à monotonia e tédio que Leon vivia — desequilíbrio que só os afastava. Difícil manter o ânimo confrontando tantas diferenças.
            Passou no local onde Billy ensaiava com a banda. O Caldeirão era um bar brasileiro encravado no meio do quarteirão que abrigava grande parte dos restaurantes e bares da cidade. A fachada feia e suja não seduzia. No modesto interior da casa, apenas um micro palco diante de um espaço bastante reduzido ladeado por um diminuto bar. Billy orientava cinco músicos que se equilibravam no tablado. Assim que ele a viu, parada na porta, pediu que ela se aproximasse. Apresentou rapidamente o pessoal da banda.
            — O que é mesmo que você sabe fazer, minha filha? — perguntou a Liz.
            — Eu sei cantar, toco teclado e também um pouco de violão — respondeu.
            — Ótimo! Sobe no palco, ajusta o microfone pra sua altura e pode começar.
            — Mas o que eu vou cantar?
            Billy deu o nome de alguns dos hits mais pedidos pelo público, mas Liz não sabia a letra de nenhuma das músicas. Impaciente, Billy começou a cantarolar as canções enquanto ela tentava aprender o ritmo ao mesmo tempo em que copiava as letras em guardanapos de papel. Billy era a pressa em pessoa, tudo tinha que ser rápido, sem falhas. Liz nem teve tempo de se decepcionar com o repertório. No estreito palco, ao som dos instrumentos, cantava músicas que detestava, lendo a letra com uma das mãos e com a outra batendo pandeiro no quadril.
            Sentia-se ridícula. Billy insistia que ela também rebolasse. Liz requebrou-se o melhor que pôde. Representando a pantomima, pensava se realmente precisava daquilo. Dinheiro. No fim daquela comédia receberia as notas que lhe faziam falta. Precisava relaxar, se divertir com a situação. As músicas eram horríveis, mas o som do grupo não era ruim. Como gostava de dançar, empenhou-se na encenação, enquanto cantava os pobres refrãos.
            — No começo, eu te achei meio dura, mas depois você entrou no clima — falou Billy, ao fim do ensaio. — Você está aprovada. Volta aqui no fim da semana que vem com as letras decoradas. A gente toca na madrugada de sexta pra sábado e de sábado pra domingo.

            Tenso demais para escrever bobagens, espionar a vizinhança, me dedicar a romances inviáveis. Estou confuso. Não sei se quero mesmo ir embora ou se persisto na idéia de continuar aqui. Voltar para onde? Ficar aqui por quê?
            Há mais de um mês espero. Espero e observo a vida dos outros. Eles vivem. Eu vegeto.

            A carta de Verônica levou apenas dois dias para chegar. Cansado de esperar, eu tinha lhe escrito fazendo novas perguntas. Verônica se espantou que ainda não nos tivéssemos casado, indagava o porquê da demora. O que dizer?, que o namorado de Liz não transaria mais com ela se nos casássemos? Verônica recomendava não perdermos mais tempo. Eu deveria adiar imediatamente o dia do meu embarque no prazo máximo de validade da passagem. Sugeriu que fôssemos à polícia de estrangeiros para sabermos as exigências do nosso caso. Seu tom aflito me contagiou. Eu precisava decidir depressa: ficar ou partir?
            Nas Páginas Amarelas achei o endereço da companhia aérea pela qual fizera a viagem. Apreensivo, entrei no prédio moderno na movimentada avenida do outro lado do Vondelpark. Em espanhol, fui informado de que a agência precisava solicitar autorização ao Rio de Janeiro para alterar a data de embarque. Eu tinha que voltar no dia seguinte para saber a nova data de retorno.

            Liz chegou para o almoço na hora em que eu começava a servir meu prato. Seu abatimento me impressionou, parecia exausta. Não me atrevi a perguntar o motivo para as olheiras que lhe deformavam o rosto.
            Na sala, sentados nas poltronas, apoiando os pratos na mão e manejando com a outra o garfo, comíamos. Como Liz se mantinha calada, falei sobre a carta de Verônica, e a minha ida ao escritório da companhia aérea. Ela pareceu contente por eu ter procurado alterar meu dia de embarque. Desanimada, falou sobre o treinamento no hotel, o ensaio com a banda. Estava cansada, não tinha dormido bem. Reclamava como era desagradável acordar cedo para chegar na distante Amstelveen a fim de assistir a desinteressantes palestras.
            Liz se empenhava, mas parecia humilhada. E eu me sentia-me responsável por seu empenho, como se lhe apontasse uma arma imaginária forçando-a a fazer o que não queria.

           O período de experiência não seria tão curto quanto esperava, quanto necessitava que fosse. Pelo menos um mês ainda sendo orientada, testada, avaliada. Tempo demais. Precisava logo do contrato certificando que poderia sustentar duas pessoas. Mas nada garantia que após a fase inicial teria vínculo empregatício com o hotel.
           Por enquanto, precisava obedecer ordens, se esmerar no trabalho, demonstrar uma eficiência que jamais tivera. O uniforme a deixava feia. O incômodo tecido listrado de azul e branco não tinha caimento, a barra do vestido era longa demais, o avental repleto de bolsos, a touca branca escondendo os cabelos... A primeira vez que se viu uniformizada sentiu vergonha — e alívio por saber que nenhum amigo ou familiar a veria daquele modo. O que diria Hendrik? Ainda não havia falado com ele sobre seu novo trabalho.
           E tinha que limpar de tal jeito, arrumar de outro, usar os produtos adequados... seqüência de procedimentos que não devia ser alterada. Mas quase sempre se perdia. Atrapalhava-se com baldes, flanelas, espanadores, escovas... Às vezes achava que o supervisor fazia vista grossa para suas confusões. O mais humilhante não era o serviço em si, mas a presença constante de alguém lhe dando ordens, vigiando e repreendendo. E ela varria, espanava, aspirava, lavava, encerava... De sua eficiência naquelas tarefas dependia seu futuro, e o de Leon.

           Cansada, no caminho de volta para casa, cochilou no metrô. Acabou descendo duas estações depois da que costumava desembarcar. Precisava retornar para apanhar a bicicleta. O cochilo a fez sentir-se disposta. Estava há pouco mais de um mês na cidade e ainda não passeara despreocupada. Por que não relaxar e se distrair naquele instante? Em vez de fazer o caminho mais curto até onde havia deixado a bicicleta, seguiu em direção ao Bloemenmarkt. Gostava de ver o mercado de flores flutuando em pleno canal, os buquês coloridos e perfumados que arranjavam mesmo no inverno. Agora, com a primavera começando a despontar, a variedade de flores era ainda maior.
           Seguiu apreciando vitrines, entrando numa loja de vez em quando, olhando apenas. Gostaria de ter a situação definida, um emprego que lhe permitisse enfeitar sua casa. Queria ser habitante da cidade, com direito a adquirir as belezas diante de seus olhos. Quando tudo desse certo ficaria feliz em ser uma das pessoas carregadas de pacotes e bolsas recheados de maravilhas. Nunca fora consumista, mas, naquele período de privação, o paraíso de belas mercadorias acabava exercendo forte poder sobre ela.
           Entrou numa rua cheia de bares e restaurantes. Um cartaz colado numa porta, escrito em espanhol, convidava quem o lesse a trabalhar na casa. Olhou a fachada do restaurante, o nome curioso: BarHamas. Entrou. Em espanhol, dirigiu-se ao senhor obeso atrás do balcão, comentando o cartaz. O homem sorriu.

            Consegui alterar a data de retorno ao Brasil. Tenho pouco mais de um mês pela frente. Nova espera. Terei feito a coisa certa? Liz não estava disposta a ceder na questão do casamento, eu não ousava contrariá-la. A carta de Verônica, bastante elucidativa para mim, não havia surtido o mesmo efeito em Liz. Voltando para casa, atravessando o parque, oscilava entre a esperança de resolver o caso a contento, e a angústia em prolongar um sofrimento desnecessário.
           O Vondelpark se modificava. O inverno ainda não havai terminado, mas a primavera apressada já se fazia sentir. As extremidades dos galhos secos começavam a esverdear numa profusão de pontos que se tornariam folhas. Algumas plantas lançavam flores desavisadas. Por baixo da superfície gelada a terra fervilhava de vida. A natureza parecia agitada em mostrar seu esplendor de formas, cores e aromas, deixando todos alegres com a estação na qual tudo renasce depois de um período sombrio. Identifiquei-me com o momento que parecia me dizer respeito. Seria um sinal de que ainda era cedo para desistir? Talvez. Isso me animou.

           Agora raramente Liz dorme em nosso apartamento. Habituei-me a passar as noites sozinho, elas combinavam com meus dias solitários. Eu me esforçava para tudo dar certo. Preparava comidas que lhe agradassem, diminuía seu trabalho na casa, tentava diverti-la quando a via triste... mas tudo o que eu fazia estava sempre aquém do que Liz desejava.
           — Adivinha o que eu fiz ontem de sete às dez? — perguntou sorridente, quando chegou.
           — Trabalhou?... — falei a única coisa que me ocorreu.
           — Sim! — disse ela, com alegria.
           Contou sobre o emprego que havia conseguido como garçonete num restaurante caribenho. Estava no período de experiência, que duraria uma semana. Por três horas de trabalho tinha recebido 30 gulden. Seu contentamento contagiou-me, alimentando ainda mais minhas esperanças de primavera.
           Liz se pôs a memorizar os complicados nomes dos pratos do cardápio que havia trazido para estudar — não queria se atrapalhar com os clientes. Esperava ser contratada o mais rápido possível. Eu estava contente com a satisfação dela. O dinheiro não era muito, mas somado ao salário que receberia quando contratada pelo hotel parecia um bom começo.           
            O BarHamas era um local agradável. Mobiliário simples, paredes revestidas por lambris, quadros com imagens do Caribe, Antilhas e Bahamas... A descontração do ambiente atraía clientela variada. No primeiro dia, Liz prestara mais atenção ao funcionamento da casa do que propriamente ao trabalho. Agora atenderia os clientes. Mathias, dono do restaurante, era simpático e falante. O gerente, um argentino sisudo. Havia mais duas garçonetes: Kati, uma japonesa engraçada cheia de regalias, e Paola, uma italiana muito estressada. Jonas, o cozinheiro brasileiro, simpatizou com Liz assim que a viu.
            Mathias e o gerente a orientaram: abordagem ao cliente, esclarecimento dos pratos, anotação dos pedidos e entrega na cozinha, forma atenciosa de servir, entrega da conta, recebimento do dinheiro ou cartão, operação da caixa registradora... Etapas que não lhe pareceram complexas, questão de prática. Quando se viu atendendo cinco mesas com pessoas que haviam chegado em horários diferentes, pedindo comidas e bebidas distintas, sentiu-se aturdida. Kati e Paola atendiam suas respectivas mesas com desenvoltura invejável, sorridentes e gentis. Um pouco tensa, Liz destoava. As duas veteranas agiam como se a novata fosse tão experiente quanto elas. Querendo se mostrar independente, Liz não lhes pediu ajuda. Quando o BarHamas ficou cheio, ela sentiu-se participando de uma espécie de maratona.
            Apesar do nervosismo e algumas pequenas confusões, tudo transcorreu bem. Achou que quando os últimos clientes saíam o serviço terminava. Mas não: no fim daquela correria, ela e as outras duas tinham que ajudar Jonas a lavar a louça. Por causa do movimento, tinham trabalhado uma hora a mais, e Liz nem se apercebera disso.
            Somente depois do trabalho era permitido aos funcionários comerem alguma coisa. Exausta, tendo visto a noite toda vários tipos de comida, sentia-se enjoada. Estava com fome, mas não conseguia se imaginar comendo aqueles pratos apimentados. No momento em que lhe pagava a diária, Mathias disse que tinha gostado muito dela.
            Liz chegou quando eu me preparava para dormir. Em tom agitado, disse que por trabalhar uma hora a mais tinha recebido 45 gulden. Com a mesma rapidez que falava, desamassou as notas, colocando-as ao meu lado.
            — Abate esse valor na quantia que eu estou te devendo — falou.
            O pagamento de sua “dívida” parecia aliviá-la. Apressada, foi para a cozinha. Enquanto mexia nos pratos e panelas, tentava conversar comigo, ainda na poltrona. O trabalho no restaurante era confuso, ainda não sabia atender tanta gente ao mesmo tempo... Pretendia ir a uma boate com entrada gratuita, mas precisava convencer Hendrik...
            Estranhei que ela ainda estivesse com fome, tinha me dito que os funcionários podiam jantar depois do serviço. Também achei estranho que tivesse disposição para dançar, imaginava que ficaria cansada.
            Retornou à sala com o prato cheio. Viu-me quieto e imóvel na poltrona. Disse então a maldita frase que tanto me intimidava, e com a qual nada conseguia arrancar de mim:
            — Fala, Leon.
            Queria mesmo me ouvir? Com a pressa que demonstrava era pouco provável.
            — O Mathias, o meu patrão, disse que eu já estou empregada — falou, ante a minha mudez.
            — Mas você não estava no período de experiência?
            — Eles estão precisando desesperadamente de alguém pra ocupar a vaga. O lugar é muito movimentado! O Mathias perguntou se eu queria trabalhar no “preto” ou no “branco”.
            — E o que é isso?
            — Clandestinidade e legalidade — explicou. — Eu pedi pra trabalhar legalmente, por causa do contrato de trabalho. Ele disse que, no “branco”, só podia me pagar vinte horas semanais, senão eu ia sair muito cara. Mas falou que podia pagar o resto do salário por fora, no “preto”.
            Achei a proposta suspeita, mas fiquei calado.
            — Vamos ter que tentar o concubinato nessas condições — concluiu.
            Fiz as contas mentalmente: 800 gulden por mês. Pouco provável que eu tivesse chance de permanecer na cidade com uma concubina ganhando um salário que mal a sustentaria. Talvez Liz esperasse somar o valor do contrato do restaurante com o do hotel. Quanto tempo demoraria a conseguir o segundo contrato? Eu me impacientava, mas sentia-me imobilizado.
            Após ter dado cabo da comida, ela trocou de roupa, perfumou-se e saiu.
           Precisava contar a Hendrik. Ele teria que entender, e aceitar. Recusar as oportunidades que haviam surgido seria suicidar-se, assassinar Leon. E quem era Hendrik para questionar os serviços dela? Por acaso a ajudara a encontrar coisa melhor? Ele próprio não tinha um trabalho do qual se orgulhar, não tinha emprego algum. Sempre falava nos cargos importantes que ocuparia quando acabasse o longo curso que fazia, mas o curso nunca terminava.
           Diferente do serviço no hotel, trabalhar no BarHamas — com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo —, em vez de cansá-la dava-lhe forças. Sentia vontade de gastar a energia acumulada em seu corpo. Lembrou da primeira vez em que dançara com Hendrik. Aquilo parecia ter acontecido há tanto tempo!... Por que ele não a convidava mais para dançar?

           Hendrik não quis ir à boate. Quando ia explicar suas razões, Liz se recusou a ouvi-lo.
           — Você não precisa se justificar. Não quer ir, tudo bem, não vamos discutir por causa disso.
           — Mas eu só queria...
           — Um motivo pra gente brigar — cortou-o. — Não vou brigar com você hoje.
           — Eu também não quero brigar, só pretendia...
           — Arranjei dois empregos — disse, interrompendo-o. — Na verdade, três.
           — Você está brincando! E onde ficam esses escritórios? Como vai fazer pra trabalhar em tantos lugares?            Arranjou todos hoje? — indagava, como uma máquina de perguntas.
           — Eu não vou trabalhar em nenhum escritório — falou, cautelosa.
           — Não?... Onde, então?
           — O primeiro emprego é num hotel, em Amstelveen.
           — Você vai ser a gerente?
           — Não, a faxineira.
           — Faxineira... — repetiu, desapontado.
           — O outro, é num restaurante.
           — Nesse você é a gerente.
           — Não, a garçonete.
           — Garçonete... — falou, mais decepcionado ainda.
           — O terceiro, é numa boate brasileira, o Caldeirão. Vou tocar teclado, cantar e dançar.
           — Você não pode estar falando sério, Liz — disse, começando a rir.
           — Não sei por que a surpresa — falou, querendo dar veracidade à mentira que dizia.
           — Não achei que você fosse trabalhar nesses tipos de emprego.
           — Eu também não pensei que só fosse encontrar esses serviços. Eu queria fazer outras coisas, mas as oportunidades que apareceram foram essas. O meu dinheiro acabou, e eu precisava de um trabalho qualquer, entende? Mas isso é só no começo. Depois que eu souber holandês vou ter chance de coisa melhor.
           — E como vai fazer pra estar nesses lugares ao mesmo tempo? — indagou ele.
           — De manhã, eu trabalho no hotel. À noite, no restaurante. Nos fins de semana, de madrugada, na boate. Se eu quiser, ainda posso arranjar outro emprego na parte da tarde.
           — Você vai ficar exausta, não vai ter tempo pra mim... Tem mesmo que trabalhar na boate?

            Meus inúteis passeios por Amsterdam forçavam-me a buscar o desconhecido, ainda que ele não me satisfizesse. Tinha avidez por notícias sobre o mundo. Na televisão, no canal francês, as informações eram limitadas ao próprio país, quando muito ao continente. Sentia-me desatualizado, perdido no tempo. Procurando jornais franceses, acabei encontrando um um tablóide brasileiro. Editado semanalmente em Londres, fazia um resumo dos fatos importantes ocorridos no Brasil nos últimos sete dias. Informações ultrapassadas. Comprei-o, sentei num banco em frente ao Bloemenmarkt. Notícias tão sensacionalistas que me arrependi do dinheiro gasto. Uma onda de calor extremo no Rio, explosão de um arsenal militar, desabamento de um prédio, incêndio num aeroporto... Apenas catástrofes, tragédias. Era só isso o que acontecia no lugar para onde eu deveria retornar em breve? Não queria voltar ao país dos desastres, mas ficar numa nação estranha, onde eu nada era, não servia de consolo, muito menos de estímulo. Não tinha mais para onde ir, nem retornando, nem permanecendo.
            O perfume das flores, suas cores e formas acenavam para mim nas embarcações flutuantes no canal. Fortes o bastante para me arrancar da apatia, distraíram minha atenção durante algum tempo. Quanta variedade, beleza, perfeição!... O mundo era uma feia esfera produtora de desgraças, mas também tinha maravilhas destinadas a aliviar sofreres, mesmo que temporariamente. Lamentei gastar meus gulden com o jornaleco. Deveria ter comprado flores.
            Do Centro, fui em direção ao Plantage, bairro que eu não havia explorado, bairro onde morava Hendrik. Do lado de fora, o Hortus Botanicus parecia interessante, com plantas exóticas, estufas de alumínio e vidro... mas o ingresso era pago, e, na atual situação, caro. Não era justo pagar meu lazer enquanto Liz se esforçava em conseguir dinheiro. Se ela estivesse comigo poderíamos dividir aquele prazer, recusava-me a desfrutá-lo sozinho. Observei o jardim botânico do lado de fora, contornando-o inteiramente. Mais adiante, o enorme zoológico. Outro lugar com ingresso pago, mais um que contemplei da rua. Após circundar o zoológico segui em frente. Andando sem destino, atravessei pontes, cruzei avenidas movimentadas, andei por ruas desertas... De repente, deparei com um enorme moinho de vento. Antigo remanescente, novidade inesperada, ele parecia deslocado junto ao cruzamento de ruas modernas. Pintado num marrom insípido, a enorme estrutura impressionava. Mais adiante encontrei uma feira-livre que me chamou a atenção por ser formada e freqüentada por imigrantes. Negros, orientais, árabes, mestiços... comidas exóticas, ervas, temperos, frutas... roupas vistosas, tapetes coloridos, bijuterias variadas...
            Eu ansiava por novidades, mas nenhuma das coisas diferentes que via me bastava. O que estaria fazendo Hendrik, tão perto de mim e ao mesmo tempo tão inacessível? Por que não verificar o endereço dele? Missão difícil: no mapa que eu havia levado não constava a rua em que Hendrik morava. Sabia o endereço, mas procurá-lo às cegas numa região desconhecida levaria tempo... Eu tinha bastante tempo a matar.
            Procurei até cansar. O mapa incompleto dificultava a busca. Eu sabia estar bem próximo ao endereço dele, as referências — o moinho, a feira dos imigrantes, os conjuntos habitacionais — estavam diante de mim, mas a misteriosa rua parecia inexistente. Meu cansaço era grande, minha tola obstinação ainda maior. Sentei num banco ao sol para descansar. Tirei do bolso do sobretudo uma maçã que tinha levado no caso de sentir fome.
            Recuperado, decidido a encontrar a tal rua, investi no último local. Os conjuntos habitacionais multiplicavam-se monotonamente não muito longe do moinho. Só podia ser ali, mas eu não conseguia encontrar a maldita rua. Já começava a desistir quando li numa placa: Compagniestraat. Meu coração se acelerou. Recobrei o ânimo e enveredei pela rua sem graça. Diante do conjunto de prédios feios, me surpreendi. Liz dissera que o apartamento de Hendrik era muito interessante. Eu devia, então, estar no lugar errado. Procurei o nº 50. As placas nas portarias continham números desordenados. Junto à porta de entrada de um edifício cinza, as caixas de correspondência dispunham-se em duas colunas. Nº 50: H.V.Hooft. Hendrik morava ali. Pensei em tocar o interfone, mas desisti. E se ele abrisse a porta?, o que eu diria? Senti-me estúpido. O que estava fazendo ali, em frente ao prédio de alguém que não me convidara a aparecer?
            Deixei o conjunto residencial satisfeito com a descoberta, cansado pelo esforço, decepcionado com a realidade. Era idiota bancar o espião, mas no marasmo em que me encontrava a patética missão não deixava de ser algo diferente. Retornei para casa a passos lentos. Não queria encontrar Liz, que devia estar esperando a hora de ir para o restaurante.
           Cada vez menos atrapalhada, começava a cativar atenções de clientes no BarHamas. Seu jeito simpático fizera o gerente de um restaurante indiano convidá-la a visitar seu estabelecimento com uma boa proposta de emprego. Achando que poderia preencher a tarde vazia, ou deixar o BarHamas por outra casa que pagasse melhor, havia chegado pontualmente, naquela tarde, para a conversa com o gentil senhor. Pura perda de tempo. O gerente estava interessado em sua forma agradável de servir para funções bem diferentes das praticadas nos restaurantes. Indignada, mas calma, agradeceu a cretina proposta dizendo não ser o tipo certo para o cargo.
            “Minha intenção em ser sempre agradável deve confundir os outros...”, pensava, pedalando rumo ao apartamento de Hendrik. Várias vezes muitos homens — e poucas mulheres — haviam interpretado de modo equivocado suas atenções e gentilezas. Por que confundiam amabilidade com disponibilidade? O que fazia de errado para despertar interesses indevidos? Ser espontânea e amigável era o mesmo que convidar outro à sua cama? Por que sempre “seduzia” quem não queria, e se esforçava tanto para atrair a atenção de quem lhe interessava?
            — Não achei que você fosse aparecer por aqui — falou Hendrik. — Hoje não era dia de cantar na boate?
            — O show só começa depois da meia-noite, a gente ainda tem tempo.
            — Sei... — disse ele, emburrando-se. — Pensei que você tivesse desistido...
            — Eu já te disse que preciso do dinheiro — falou, suave. — Tenta se colocar no meu lugar.
            — No seu lugar eu não trabalharia tanto. A gente já se vê tão pouco!...
            — Eu também queria passar mais tempo com você, mas como espera que eu me mantenha aqui sem trabalhar? Tenta encarar esse momento como uma fase. Eu não pretendo continuar com esse esquema, mas não tenho nada melhor em vista. Se eu te pedisse, você ia deixar de estudar pra ficar mais tempo comigo?
            — Isso é diferente. O meu futuro depende do curso que eu estou fazendo, sem ele não vou ter o emprego que eu quero.
            — O meu futuro também depende do que eu estou fazendo agora.
            — Mas se você não tiver tempo de estudar holandês como vai conseguir um trabalho melhor?
            — E como eu vou fazer um bom curso sem ter dinheiro? Como eu vou me manter enquanto estiver estudando?
            Convidou-o ao Caldeirão para vê-la cantar. No fim do show, poderiam voltar juntos para casa. Hendrik recusou. Ela não insistiu, já achava um milagre que não tivessem discutido. Perguntou se poderia voltar ao apartamento dele quando saísse da boate, para dormir um pouco antes de ir para o hotel. Contrariado, Hendrik cedeu. Tentando alegrá-lo, Liz prometeu passar o domingo inteiro com ele, seria dia de folga no hotel.
            Liz e Hendrik brigaram de novo. Não sei como ela suporta. O que terá ele de tão especial que a faz levar essa doença sentimental adiante? Por que fica sempre tão abalada? Hendrik é só um homenzinho complicado, nada mais.
            Ela devia ter aproveitado a nova desavença para contar que vamos precisar nos casar. Como o contrato com o hotel ainda vai demorar, e o tal Mathias sempre adia a regularização de sua situação de garçonete, Liz foi novamente à polícia se informar sobre outro processo que nos permitisse a união. Descobriu que nem para o concubinato estaríamos capacitados, precisaria estar empregada há pelo menos seis meses para solicitar tal modalidade. Angustiada, deu-me a terrível notícia. Desculpando-se exageradamente, afirmou que entendera errado os procedimentos para o concubinato, só nos restava o casamento. Tendo perdido um tempo precioso, provavelmente não conseguiremos cumprir as exigências. Liz repetia sem parar que não tinha sido sua culpa, não agira de má fé. Tranqüilizei-a, acreditava nela, todos cometiam erros, não havia o que desculpar.
            Agora ela dorme. Seu dia de folga foi transferido para terça, e como não cumpriu o que prometera a Hendrik não pôde dormir com ele. Ainda bem que existe este lugar onde pode se refugiar dos humores de Hendrik. Se tivesse vindo para morar com ele, como faria quando brigassem? Talvez eles não se desentendessem tanto se eu não estivesse aqui...

            Acordou no meio da tarde. Parecia ter esquecido a briga recente.
            — Eu preciso ir ao apartamento dele dizer que vou me casar com você — falou.
            — Já que ainda não deu a má notícia, por que não espera pra ver se o casamento vai ser mesmo possível? Talvez nem dê tempo.
            — Não posso. Eu sou transparente. Além disso, ele sabe tudo o que se passa comigo, sem eu dizer coisa alguma.
            — O Hendrik só vê o que interessa a ele. É um egocêntrico.
            — Vou procurar ele hoje depois que sair do restaurante — disse ela.
            — Seria bom vocês conversarem com ele sóbrio. Drogado, vai ser mais difícil.
            — Eu não posso contar com essa “sobriedade”. Se ele se deprime, fuma, se fuma, fica deprimido. Ele é muito influenciado pelo Derek. É ele que estimula o vício no Hendrik. Se existisse um jeito dos dois se separarem...
            — Você e o Hendrik querem tirar proveito do investimento que fizeram, do tempo que gastaram. Pra você, isso se chama amor, pra ele, amizade. Eu não acredito que o Hendrik se afaste do Derek só porque você diz que o ama — falei, meio exaltado.
            — Ele nunca vai trocar o Derek por mim. E o pior é que agora eu já devo ser um investimento pra ele também.
            Eu precisava me controlar, minhas emoções estavam me dominando. Tentei ficar mudo, mas já era tarde.
            — É impressão minha ou você está irritado? — perguntou. — Você se chateia por eu comentar sempre o mesmo assunto, não é?
            — Chateado não é bem o termo, mas não posso negar que essa história repetitiva me canse. A minha situação é difícil, conheço você mais do que o Hendrik, é natural que eu tome o seu partido. Não tenho direito de opinar sobre o caso de vocês, e se eu fiz isso até hoje foi porque você parecia esperar algum apoio de mim. Uma vez cheguei a pensar que eu estava enganado sobre o Hendrik, que eu tinha sido injusto falando mal dele, mas o tempo mostrou como ele é reincidente. É impossível enganar quem quer que seja por tanto tempo cometendo os mesmos erros. Eu estou cansado de fazer campanha contra o Hendrik, é inútil. Você sempre dá um jeito de transformar ele em alguém maravilhoso. E tudo se repete: as brigas, as nossas conversas, as reconciliações de vocês, novas brigas... Detesto me repetir, principalmente quando o que eu falo nunca significa nada.
            Despejei tudo de uma vez, arrependendo-me imediatamente.
            — Eu não me importo muito com esse relacionamento confuso... Sei que estou errada, mas tenho momentos de prazer nisso tudo. O que me desagrada é saber que eu te incomodo.
            — Eu só fico preocupado. Nessa história toda quem mais sofre é você. Quanto tempo acha que vai suportar isso?
            — Mas eu amo esse cara! O que eu posso fazer? Ele vai ter que entender. Eu e você somos apenas amigos. Ele não pode ter ciúmes, eu te considero um irmão...
            Em outros tempos tal fraternidade me perturbaria, agora ela me acalmava.
            — Eu sou o problema — admitiu. — Não existe ninguém nesse mundo com quem eu vou ter um relacionamento tranqüilo, equilibrado. Sou muito ansiosa, complicada... O homem perfeito que eu procuro não existe porque eu mesma me encarrego de destruí-lo. Nunca vou ser feliz.
            Enfim concordávamos num ponto, mas não me atrevi a ser tão honesto quanto ela.

           A conversa com Leon ainda ecoava em sua mente. Até certo ponto ele tinha razão, mas quando imaginava a vida sem Hendrik um medo tão grande a invadia que se via forçada a acender a esperança de tudo terminar bem. Havia muitos interesses distintos envolvidos numa partida que dependia exclusivamente das jogadas que ela fizesse. Ninguém estava disposto a abrir mão dos pontos acumulados.
            Antes de procurar Hendrik, comprou skunk numa coffeeshop. Melhor conversarem de igual para igual. Sentou-se e fumou, procurando esvaziar a mente dos maus pensamentos.
            Assim que apertou o botão do interfone, a porta de entrada se abriu. Hendrik a pegou no meio da escada, beijando-a intensamente. Pedia desculpas, nunca mais brigariam, queria ficar com ela para sempre, tinha sentido muito a sua falta... No meio da sala, dizendo-se arrependido, ele a abraçava como se quisesse parti-la em duas. Liz não entendia o que estava acontecendo, alucinações do skunk? Parecia tão real! Não, Hendrik confessava haver tido um pesadelo no qual ela se afogava num abismo, por causa dele, depois de uma discussão. Liz morria, ele se matava sabendo-se culpado. Não queria que ela morresse, não queria morrer, queria que Liz gostasse dele, tanto quanto ele dela.
            Na cama a possuiu como um alucinado. Liz não havia conseguido dizer uma palavra sequer, ele a cobria de um amor asfixiante. Tentou balbuciar, falar, gritar, mas Hendrik comprimiu sua boca sobre a dela, enterrando a língua numa garganta estrangulada. Seu corpo, esmagado sob o desejo dele, flutuava envolto no aroma de Byzance. A luz negra tingia as paredes com tons violáceos, o teto era o céu, coberto de estrelas pulsantes, desabando numa densa chuva meteórica. A noite, a vida, o mundo, tudo acabara, só o amor havia sobrevivido.
            Após dois dias de ausência, Liz reapareceu no apartamento depois do expediente no restaurante. Julguei que, como sempre, só tivesse vindo trocar de roupa, mas, contrariando a recente lei que a movia, disse que ia passar a noite em casa, e aproveitaria a folga do hotel no dia seguinte para colocar a correspondência atrasada em dia. Quem era aquela? Felizmente, nada comentou sobre seu encontro com Hendrik.

            Levantou-se quando eu terminava de preparar o almoço. Depois de comer, ela começou a escrever cartas. Não sabia ainda se trabalharia no BarHamas naquele dia, precisava telefonar para certificar-se. Falou que como não tinha conseguido tirar fotos de Hendrik para enviar na carta de Daniel, deveríamos acabar com o filme.
            Às três da tarde, saímos. Fizemos fotografias no Vondelpark. Telefonei para minha família; Liz, para o restaurante: não precisaria trabalhar naquela noite. “Temos o fim de tarde inteiro só pra nós!”, falou, contente. A declaração me surpreendeu, alegrou-me. Fizemos algumas fotos no Centro. Depois tentamos ir ao cinema, mas o filme no qual Liz estava interessada só passaria às sete da noite. Achou que ficaria tarde. Entendi que ela devia ter planos noturnos com outra pessoa.
            A noite caiu tão depressa quanto a temperatura. O súbito frio, aliado à andança sem nexo que Liz empreendia na inviabilidade do cinema, agora me fatigava mais do que divertia. Nosso passeio numa Amsterdam gelada era um suplício. A imagem de Hendrik havia surgido e se instalado entre nós turvando meu contentamento.
            Às oito e meia estávamos em casa. Liz iniciou um banho que prometia ser longo — preparava-se para Hendrik. Quando fui ao lavabo, junto ao banheiro no qual ela se lavava, vi a embalagem vazia de seu absorvente íntimo no lixo. “Hoje eles não vão transar”, pensei, maldoso. Minha vingança contra Hendrik seria praticada por Liz. No lavabo ao lado de onde ela tentava se livrar dos vestígios de sua miséria feminina, ri satisfeito, apertando a descarga.
           Ansiosa para encontrar Hendrik, excitada também. Quando estava na fase de se livrar das serpentes, o desejo por contato físico aumentava. Que bom que havia Hendrik! Pedalando a bicicleta, comprimindo-se contra o selim, antecipava sensações que logo experimentaria com ele.
           Procurou ser prática. Sem dar a Hendrik tempo de reagir, começou a abraçá-lo, beijá-lo, despi-lo. Ele, parecendo gostar da brincadeira, deixou-se manobrar por ela, que o conduzia até o banheiro.
           — Ei, você está indo pro lugar errado... — sussurrou ele — A porta do quarto é a outra.
           — Eu sei. Vamos tomar banho... juntos. Eu quero você... agora...
           — Não, Liz — protestou, desvencilhando-se. — Sexo se faz na cama.
           — E quem foi que te disse isso? Vamos ser mais criativos!...
           — Eu sou bastante criativo na cama. No chuveiro vai ser ruim.
           — Mas eu estou menstruada, vai ser melhor debaixo d’água...
           — O quê?! Acha que eu vou transar com você enquanto sangra! Ficou maluca? — falou, indo para o quarto.
           Um balde de água gelada em seu corpo ardente. Como Hendrik podia ser tão insensível? Não, ele devia estar brincando. Sim, era um jogo. A recusa de Hendrik só aumentava seu desejo. Correu atrás dele.
           — Hendrik, não seja criança... Vem, eu preciso de você... — disse, suplicante.
           — Pode desistir. Eu não vou transar com você nesse estado. É... é... nojento!
           — Você está brincando?
           — Não estou não. É sujo, e transmite doenças — falou, se vestindo. — E depois, ver sangue me dá vontade de vomitar.
           Chocada com a franqueza dele, custou a crer que sua excitação teria que ser abortada.
           — Então a gente não vai transar hoje? — insistiu, sabendo a resposta.
           — Eu perdi a vontade. Quando você estiver melhor a gente transa.
           — Mas que bobagem, Hendrik. Só por causa disso você me rejeita? Tem tanto nojo assim de mim?
           — Eu não gosto de ver sangue, já falei.
           — Mas você não precisa olhar...
           — Não! — gritou. — Eu posso não ver e não sentir, mas vou saber.
           Hendrik foi para a sala, sentou no sofá. Liz o seguiu.
           — Tudo bem — disse, tentando mudar de tática. — Posso te dar prazer de outro modo... — completou, ajoelhando-se junto a ele, puxando o zíper de sua calça.
           — Liz, espera...
           — Eu vou provar mais uma vez que não tenho nojo de você.
           — Não, Liz — falou, detendo-a. — Vamos deixar isso pra outro dia também.
           — Eu não te entendo. Quando eu cheguei você parecia bastante interessado em mim. Foi só eu dizer que estava menstruada e tudo mudou. Não sabia que você era tão sensível.
           — Vamos pro quarto. A gente fica deitado, conversando e fazendo carinho um no outro.
           Teve vontade de recusar as migalhas dele. Frustrada, sentia como se uma guilhotina a houvesse decepado da cintura para baixo.
           Desanimada, moveu o corpo mutilado até a cama onde o dele, íntegro, livre de vergonhas e repulsas, a esperava. Hendrik afagava os cabelos dela, que sentia as mãos dele gélidas, desprovidas de desejo. Teve vontade de chorar. O homem que amava estava ali, tocando-a, mas era o mais inacessível dos mortais. Nunca se acertariam naquele plano tão importante? Como abrir a mente dele para que aceitasse variantes? Quanto mais conhecia Hendrik, mais se dava conta de que a modernidade dele não passava de ilusão. Ou então ele mudara muito. Teria Derek alguma coisa a ver com aquilo? Hendrik continuava a acariciá-la com mãos de cadáver. Triste, ela adormeceu.
           Sentiu a cama vibrando. Desperta do cochilo, não abriu os olhos. Seminua sobre o lençol, sentiu frio, mas estava com preguiça de levantar, se vestir. Estranhamente, a cama continuava trepidando. Dormia ou sonhava? De repente, os gemidos abafados de Hendrik. Abriu os olhos, apurou os ouvidos. A cama tremeu mais forte, Hendrik gemeu mais alto: orgasmo. Ela se levantou bruscamente, pegando-o com a “arma do crime” numa das mãos e o produto de que a privara na outra.
           — Hendrik! O que significa isso?
           — Desculpa, eu achei que você estivesse dormindo — disse, sem graça.
           — Por que você esperou eu dormir pra se divertir? Por que não me deixou participar? Eu podia me divertir também.
           — Você não ia saber fazer isso tão bem quanto eu.
           — Mas eu podia ter feito coisas que você, sozinho, nunca faria — falou, sentida. — E o que te fez mudar de idéia? Você não disse que era melhor a gente deixar pra outro dia?
           — Só depois que você dormiu eu tive vontade...
           — E por que não me acordou?
           — Então já acabou? Você está boa de novo, não está mais sangrando?
           Em certos assuntos Hendrik era muito ignorante. Sem responder, deu-lhe as costas, puxando o lençol sobre si.
            Deixamos passar tempo demais. Agora precisávamos nos apressar. Segundo Liz, a polícia holandesa exigia documentos vindos do Brasil. Somente depois disso — e mais um mês de espera da parte deles —, diriam se nosso casamento seria permitido. No Rio, minha mãe tentava obter a documentação necessária a fim de enviá-la para Brasília, como de praxe. Por telefone, ela me informava que os procedimentos seriam lentos. Só quando os documentos voltassem do Distrito Federal seriam encaminhados ao Consulado dos Países Baixos, para os vistos.

            Liz chegou abatida do BarHamas. Sem rodeios, disse:
            — Eu estou cansada dessa história, desse namoro absurdo com o Hendrik.
            Calado, eu ouvia o início do seu relatório.
            — A nossa vida sexual é um desastre — reconheceu. — Eu não posso fazer o que quero, ele não faz nada que eu gosto.
            — O que aconteceu dessa vez? — perguntei, tentando ajudá-la.
            — Ele não quis transar comigo só porque eu estava menstruada.
            Minha secreta vingança soou mesquinha. Não via graça alguma no rosto triste de Liz.
            — Mas isso não foi o pior — prosseguiu. — Ele se masturbou do meu lado, achando que eu estava dormindo.
            Bem mais surpreso com a revelação dos fatos do que com eles, eu me perguntava o que Liz esperava de mim? Ela mesma depreciava a relação que viviam.
            — Não sei o que dizer... — falei.
            — Eu sempre achei importante entrar numa relação de coração aberto, sem medo de pensar no que vai acontecer, aproveitando cada instante. Mas ultimamente esses momentos têm sido horríveis.
            — Eu pensei que vocês estivessem se acertando — arrisquei.
            — Não é nada fácil se entender com o Hendrik. Ele é um poço de traumas, não confia em ninguém. Eu gosto de uma parte dele, mas ele é formado por muitas partes, e algumas eu detesto. A gente precisava aparar arestas, mas isso vai dar muito trabalho. Não sei se tenho paciência.
            — Mas se o que te atraiu no Hendrik foi o jeito diferente dele, você vai querer moldá-lo agora em outro? Ele vai perder a autenticidade, você vai acabar se desinteressando dele.
            — Mas sou eu que estou perdendo a minha autenticidade! — falou, contrariada. — Acho que a nossa diferença de idade está atrapalhando. Ele é infantil, quer coisas muito diferentes de mim...
            — Você sabia disso desde o início.
            — Pensei que não ia ser complicado transformar um menino em homem.
            Eu custava a crer que Liz estivesse ouvindo suas tristes palavras.
            — Estou desconfiada de uma coisa terrível — recomeçou. — Acho que ele tem AIDS.
            — E por que você acha isso?
            — São tantas restrições na hora do sexo... nada de beijos, de sexo oral, nem sem preservativos, muito menos quando eu estou menstruada... Ele toma cuidados demais. Só pode estar doente.
            — Uma vez você me falou que ele havia feito uns exames...
            — Sim, mas sempre que eu toco no assunto ele desconversa.
            Seu discurso tinha adquirido um tom de preocupação que me inquietou.
            — Não quero uma relação tão limitada assim. Eu queria uma vida sem brigas e sofrimentos.

           Havia passado os últimos dias ocupada com suas atividades, tentando esquecer Hendrik. O casamento com Leon exigia dedicação. Os trâmites no Brasil seriam demorados, temia não conseguirem resolver tudo a tempo. E se agissem paralelamente? Por que não procurar os consulados do Brasil e de Portugal? — talvez indicassem uma possibilidade mais simples e rápida. Não custaria tentar. Não se incomodava mais com o que Hendrik pudesse pensar do casamento que lhe proibira, não condicionaria seus compromissos às vontades dele.
           Não tinha voltado a procurar Hendrik, ele havia feito o mesmo. Duelavam numa batalha em que esperavam ver quem primeiro se daria por vencido. Uma tarde, voltando do hotel, num de seus fortuitos passeios pelo Centro, deparou com a escola em que Hendrik seguia seu interminável curso. Não tivera oportunidade de conversar com ele sobre aquele assunto. Intrigada, resolveu sondar o lugar. Entrou, fazendo-se passar por alguém buscando informações. A recepcionista detalhou vários cursos, entregando-lhe prospectos com preços e horários. As novas turmas seriam abertas em um mês. Liz perguntou se poderia conhecer as instalações, a atendente não se opôs. Cautelosa, seguiu por um corredor com portas que se abriam para salas de aula, todas vazias. Onde estavam os alunos? Onde estava Hendrik? O curso finalmente havia acabado? Na última sala do corredor ouviu vozes. Aproximou-se do vidro na porta. Discretamente, pôde observar Hendrik com um professor. Estranhou a aula particular, Hendrik sempre dissera que sua turma era uma das maiores. Voltando à recepção, perguntou sobre aulas individuais. A recepcionista disse que o curso não dava aquele tipo de aula. Indagando sobre o aluno que assistia sozinho à aula no fim do corredor soube que Hendrik havia sido o único reprovado, agora tentava recuperar-se na matéria em que se saíra mal. A atendente acrescentou que aquele era um caso especial, o aluno era protegido do diretor do curso.
           Deixou a escola mais intrigada do que quando entrou. Por isso a demora em terminar o curso. Por que ele não havia contado? Vergonha? Talvez, se houvesse lhe perguntado ele tivesse dito. Desde que voltara a Amsterdam não tinha mostrado muito interesse pelo que Hendrik fazia. Sentiu-se mesquinha e egoísta. Por que a recepcionista havia dito que ele era protegido do diretor naquele tom malicioso? Que espécie de diretor se disporia a manter funcionando o curso só por causa de Hendrik? Que ligação existia entre os dois? Seria o diretor a pessoa que financiara o caro curso que Hendrik tinha dificuldade em concluir? A troco de quê? Um caso especial. Tinha medo dessa palavra com múltiplas conotações. Nunca sabia qual dos significados atribuir a ela quando aplicada a Hendrik.

           Encontrou Leon preparando-se para sair. Perguntou se ele queria ir com ela a Rotterdam, em dois dias, quando teria nova folga no hotel. Explicou que tinha se informado por telefone, os consulados do Brasil e de Portugal ficavam naquela cidade. Poderiam tentar o casamento lá. Leon concordou. Liz achou que ele fosse desistir do passeio e ficar para conversar, mas Leon saiu, precisava enviar uma carta para sua mãe com fotocópias das identidades deles.
           Resolveu descansar antes de ir para o BarHamas. Mas ainda teria que telefonar para saber se estaria escalada naquela noite. Desde que pressionara Mathias a lhe assinar o contrato ele havia inventado a história do rodízio de garçonetes.
           Deitou, procurando não pensar em problemas. Tinha acabado de fechar os olhos quando ouviu a campainha: dois toques. Levantou num salto. Abrir a porta ou fingir que não estava em casa? Novamente dois toques. Desceu, abriu a porta. O rosto de Hendrik estava tenso, preocupado. Ele perguntou se podia subir. Ela o deixou entrar.
           Queria que Liz o ajudasse. Estava tentando arranjar emprego numa agência de viagens e, para a seleção, precisava entregar um currículo. Embaraçado, não sabia o que escrever no documento, nem onde fazê-lo. Mostrou um esboço tão rasurado e confuso que ela se apiedou. Perguntou a ele se o curso já havia terminado. Hendrik respondeu que sim, mas estava devendo uma matéria para obter o certificado. Faria a prova escrita de inglês em uma semana, estava certo de ser aprovado. As entrevistas para o emprego começariam em duas semanas, se fosse selecionado já teria o diploma. Liz se comoveu com a história. Ele não havia mentido, estava decidido a aproveitar a chance. Arranjando trabalho, ocupando-se com algo útil, ele se tornaria alguém melhor. Hendrik lhe pedia ajuda, favor que só ela parecia capaz de fazer; olhava-a num misto de apreensão e esperança, seu rosto nunca estivera tão belo. Liz pediu-lhe para ficar tranqüilo, iriam a um bureau de informática, tudo se resolveria.

           — Pronto! — disse ela, quando acabou de imprimir o currículo. Entregou as impressões a ele, levantou-se.
           Hendrik foi ao balcão pagar pelo uso do equipamento. Liz se dirigiu ao telefone público, dentro do bureau, para saber se tinha sido escalada no restaurante. O telefone do BarHamas estava ocupado. Fez outra tentativa. Hendrik passou por ela como se não a tivesse visto, abriu a porta de saída sem nada dizer.
           Ficou com raiva por ele ir embora sem sequer agradecer. Sempre tinha a sensação de apenas ser usada, uma máquina destinada a servi-lo. Mas não se arrependia de tê-lo ajudado: ele não poderia acusá-la de se negar a auxiliá-lo num momento de necessidade.
           Continuou tentando ligar, até que conseguiu falar com o BarHamas. O gerente disse que ela não precisaria trabalhar naquela noite. De repente, Hendrik apareceu com cara enfezada.
           — Eu estou lá fora todo esse tempo te esperando — reclamou. — O que você ainda está fazendo aí?
           — Achei que você tivesse ido embora — justificou-se. — Eu disse que precisava telefonar, lembra?
           — E eu disse que ia te esperar lá fora. Se eu tivesse mesmo ido embora, você ia me deixar ir assim?
           — E nunca mais ia te procurar — falou, irritada. Deixou o bureau. Hendrik a seguiu.
           — Você quer terminar o nosso relacionamento, não quer? — perguntou ele.
           — Relacionamento? Você chama isso de relacionamento? A gente só sabe transar e brigar, nada mais. Pra mim chega!
           — Quem está terminando é você, não eu.
           — Tudo bem, eu assumo as minhas responsabilidades — disse ela. — É só isso? Então, seja feliz!
           — Você também — falou, virando-lhe as costas e indo embora.
           Ficou observando-o para certificar-se da realidade tantas vezes ensaiada e tantas vezes abortada. Seguiu na direção oposta. Tinha dado poucos passos quando o ouviu chamando-a da esquina. Ele correu ao encontro dela.
           — Vem agora comigo ao meu apartamento — ordenou. — Eu quero te devolver os malditos livros que você me deu. Não vou ficar olhando pra eles e me lembrando de você.
           No caminho, Hendrik só reclamava. Liz o ouvia, muda, contando os minutos para se livrar dele definitivamente.
           — O Derek tinha razão — falou ele, na entrada do prédio. — Você não me ama, não é a pessoa certa pra mim.
           — Você acha que uma relação saudável é esse eterno tormento, essas brigas constantes?
           — A gente não briga tanto assim. Isso faz parte da vida a dois.
           Assim que entraram, Liz pegou os livros e os colocou numa sacola. Quando Hendrik percebeu que ela estava mesmo determinada a pôr fim no caso deles, falou:
           — Estou decepcionado. Eu só estava te testando. Não esperava que você desistisse tão fácil assim. Quando eu perguntei se você queria terminar a nossa relação esperava uma resposta negativa.
           — É melhor a gente se separar agora. Depois de amanhã eu vou me casar com o Leon. Quando eu fosse te dar a notícia você ia querer terminar o namoro outra vez.
           — Então é isso! Você armou tudo! Criou motivos pra me fazer sentir culpado.
           Discutiram, defendendo seus pontos de vista. Ao final, Hendrik disse:
           — Liz, eu não quero desistir de você. Por favor, não me abandona...
           Ele a abraçou prometendo pensar na história do casamento.

            Liz reclamava de dores nas mãos, ressentidas pelo trabalho no hotel. Entreguei a ela uma carta recebida pela manhã. Abriu o envelope achando que era mais um dos muitos comunicados de que não fora aprovada para determinada vaga. Mas não. Uma empresa americana em implantação na cidade precisava de pessoal qualificado, Liz estava sendo chamada para uma entrevista naquela tarde. Ficou animada. Ao que tudo indicava a empresa não exigia que se falasse holandês para ocupar um bom cargo. O trabalho devia ser mais leve, o salário maior. A entrevista estava marcada para pouco antes do horário em que ela começaria o turno no BarHamas. Resolveu ligar para o restaurante inventando uma desculpa.
           Vestiu sua melhor roupa, comeu alguma coisa na cozinha e saiu.
           Fiquei em casa, sem vontade de dar passeios inúteis, sem ânimo para escrever bobagens, sem sono para fugir do tédio. Seria realmente tão simples casarmos em Rotterdam? Não tinha muitas esperanças, mas não achava justo me opor ao empenho de Liz. Aceitando casar comigo ela enfrentava Hendrik. Não, devia ser despeito por estarem novamente estremecidos.

           Contou que havia gostado muito da empresa. O entrevistador deixou transparecer que ela se saíra bem. Agora era esperar nova carta avisando a etapa de seu processo de seleção. A empresa vendia acessórios e equipamentos de informática para a Europa, precisavam de atendentes que falassem português e espanhol. Estava satisfeita, achava que tinha boas chances de conseguir uma vaga.
           Fizemos o jantar. Comemos. Como levantaríamos cedo no dia seguinte para ir a Rotterdam, achei que Liz passaria a noite comigo. Mas ela disse que precisava ver Hendrik, se não voltasse àquela noite, nos encontraríamos de manhã na Centraal Station.

           O que Hendrik teria decidido sobre casamento dela e Leon?
           Dois toques no botão do interfone. Nada. Mais dois toques. Nada novamente. Olhou o relógio: onze e meia da noite, ele já devia estar em casa, depois do encontro com Derek.
           Enregelada pelo frio, perambulou ao redor do conjunto habitacional para matar tempo.
           Meia hora mais tarde, nova tentativa. Hendrik não respondeu. Fugia dela? Fingia não escutá-la? Contra a vontade, tocou o interfone na porta do prédio de Derek, indagou por Hendrik. Sim, ele estava lá. Pediu a Derek que avisasse a Hendrik para descer.
           Hendrik surgiu na porta do prédio recriminando-a por tê-lo procurado no apartamento de Derek. Ela teve vontade de ir embora dali mesmo, mas Hendrik abriu a porta de seu prédio convidando-a entrar. Cedeu.
           Na sala, ele continuou a reclamar. Liz imaginou que Hendrik devia ter inventado mentiras a Derek para continuar sua amizade com ele, seu relacionamento com ela. Teria dito que não a via mais, que tinham rompido? Que concessões Derek teria feito se Hendrik não mentisse? Sentiu-se presa a um jogo incerto. Precisava fazer o próximo lance. Perguntou o que ele havia decidido sobre o casamento dela com Leon. Deveria ir embora ou passaria a noite com ele?
           — Você não só vai passar essa noite comigo, mas também todas as outras — declarou.
           — Não entendi.
           — Eu deixo você se casar com o seu amigo, desde que vocês nunca mais passem as noites juntos.
           Ainda não confiava nela. Talvez jamais confiasse. Ditava uma ordem a ser obedecida. Aquilo a irritava, sentia-se humilhada tendo que se moldar aos pedidos dele. A exigência em si não tinha nada de mais, ela já vinha procurando dormir todas as noites no apartamento dele. O que a desagradava era ter de aceitar a proposta de Hendrik como se, recusando-a, perdesse a melhor oportunidade de sua vida. Por outro lado, ele aceitara e compreendera o casamento dela com Leon. No fundo, tudo acabava sendo uma troca, talvez injusta, mas uma troca.
           — E então, não vai falar nada? Você concorda ou não? — perguntou ele.
           Cansada, Liz tirou o sobretudo, entrou no quarto, deitou na cama de casal.
           Para quem não entendia holandês, a Centraal Station era um local confuso. Depois de muito andar em busca do guichê apropriado, compramos bilhetes de ida e volta para Rotterdam. Demoramos a encontrar a plataforma certa. Sentada no banco, de frente para mim, Liz não tardou a fechar os olhos e dormitar. Devia ter se esforçado para chegar cedo à estação. Seu rosto cansado, sua mudez me faziam imaginar que talvez tivessem brigado novamente. Ela me poupava nada comentando sobre a noite passada. Eu poupava a nós dois não perguntando o que quer que fosse.
           O trem seguia seu curso, eu observava ora a paisagem, ora o rosto de Liz. O panorama era belo, quanto mais o olhava, mais me encantava. Que contraste! De repente, como me pareceu feio o rosto de Liz! Rugas vincavam-lhe os cantos da boca, bolsas inchadas sob os olhos pesavam-lhe o semblante, a fisionomia intumescida a deformava. Liz estava acabada, envelhecida. Quanto mais a olhava, mais horrível ela parecia. Aquele rosto havia sido tão jovial, alegre!... como podia, em tão pouco tempo, se transformar naquela máscara disforme? Não, eu não a amava mais. Diante daquele ser estranho senti repulsa. Tudo em Liz me causava horror: rosto, corpo, atitudes, palavras... Tudo em mim me desagradava: pensamentos mesquinhos, situação incerta, futuro opaco...
           Voltei-me para a paisagem. Vastas manchas de tulipas e outras flores iluminavam o campo cinzento. Ali também a primavera parecia apressada. Moinhos de vento surgiam de vez em quando em meio aos canteiros floridos. Senti vontade de acordar Liz, mostrar aquelas maravilhas, mas o desejo morreu quando tornei a encontrar seu rosto de olhos fechados.

           Chegamos a Rotterdam uma hora mais tarde. Levamos algum tempo para nos situarmos no centro da cidade. Indecisa a princípio, Liz resolveu ir primeiro ao Consulado Português. Explicou nossa situação a um senhor atrás do balcão. Com frieza desconcertante, foi informada de que, antes de qualquer coisa, precisaria fazer a inscrição consular de Portugal. Preencheu formulários, mas não pôde validá-los por não ter as fotografias exigidas. Antes de estar devidamente inscrita, os funcionários se recusavam a dar outras informações. Pareciam fazer tudo para dificultar o que deveria ser um direito que Liz possuía como cidadã portuguesa. Voltamos à estação de trem, onde havíamos visto uma cabine automática de fotos.
           Quando, após três minutos, Liz olhou as fotografias, começou a troçar de si mesma. Rindo, dizia ter ficado horrenda. Não mentia. Não consegui controlar o riso, que ocultou meu choque. A máquina automática havia captado com fidelidade espantosa o rosto da estranha criatura que viajava comigo no trem. “Nas fotos dessas máquinas todo mundo sempre sai feio”, falei para descontraí-la. Eu mentia. As fotografias não eram de má qualidade.
           Aproveitando a volta ao Centro, fomos ao Consulado do Brasil, num prédio ao lado da estação. Depois de explicarmos o caso, a atendente se mostrou confusa em indicar a melhor opção, Liz poderia se inscrever nos dois consulados. Total burocracia. Exigiam a mesma papelada solicitada em Lisboa.
           Retornamos ao Consulado de Portugal. Tensos, desanimados, não conversávamos. Talvez, se falássemos, teríamos dito exatamente o que o outro pensava, tudo o que não queríamos ouvir. O funcionário que havia atendido Liz anteriormente reclamou que as fotografias não eram coloridas, não serviriam para o documento, ela ficara muito feia. Com enorme paciência, sorrindo, Liz perguntou se ele não podia abrir exceção no caso dela. O funcionário cedeu.
           Tivemos que esperar mais de uma hora para o documento ficar pronto. Ao final, o homem nos entregou a lista de exigências para que pudéssemos requisitar a autorização ao casamento. Um mundo de papéis, normas e regras impossíveis de cumprir no prazo que eu dispunha.
           Deixamos o consulado desiludidos. Nosso casamento estava fadado a nunca se realizar.
          Acordou no meio da manhã. Cabeça pesada, corpo dolorido, garganta arranhando. Devia ter se resfriado. Olhou o despertador na mesa de cabeceira: demasiado atrasada para o trabalho no hotel. Fechou os olhos, esgotada. Num esforço, virou para o outro lado. Hendrik não estava lá, mas tinha deixado um bilhete: “Não te acordei hora que pediu. Você cansada. Fui ao curso. Volto tarde.” Sincopado como um indígena usando um idioma que não domina. Talvez ele ainda precisasse estudar muito para passar no exame em que fora reprovado.
           Levantou-se meia hora mais tarde. Assim que deixou o quarto, Plexus e Nexus correram para ela. Alimentou-os. Não tinha apetite, tomou um copo d’água, voltou para o quarto. Sentou na cama, sem saber o que fazer. Observou o ambiente ao redor como se avaliasse parte de seu futuro. Viver com Hendrik seria estar confinada àquele aposento? A cama desfeita insinuava que sim. A janela fechada reforçava a insinuação. Uma prisão, cela sem grades à qual ela se sentia acorrentada. Levantou, começando a retirar a roupa de cama. Hendrik trocava diariamente fronhas e lençóis, embora ela achasse aquilo desnecessário resolveu lhe adiantar o serviço. Procurou roupa de cama limpa no armário. Na primeira gaveta encontrou três caixas fechadas. O que continham?, indagou sua curiosidade. Abrindo uma delas, achou a maioria das cartas e fotos que enviara a Hendrik. Abrindo outra caixa, encontrou fotografias de pessoas que não conhecia. Uma garota segurando um prato com um pedaço de bolo. Quem seria? A namorada que ele dizia ter na cidade em que moravam seus pais? Não encontrou fotografia de ninguém que identificasse como da família dele, nem fotos de Hendrik criança. Onde estava guardado o passado dele? Quem eram aquelas outras pessoas, apenas amigos? Rapazes negros, orientais, louros, morenos... Uma mulata obesa, com enormes unhas vermelhas, cabeleira ruiva e roupas extravagantes chamou sua atenção. Virando a foto, leu a dedicatória, em inglês: “Com amor, R.” Quem seria aquela criatura em pose tão teatral, ridícula até? Quem era aquela gente estranha? À exceção da menina com o bolo e da mulher gorda, as outras fotografias eram de homens. Por que não havia nenhuma foto de Hendrik? Na última caixa encontrou receitas de remédios e exames. Embaixo dos papéis achou um envelope. Abriu-o. Seu domínio do holandês era limitado, mas conseguiu perceber que eram resultados de testes de AIDS. Estremeceu: dois dos quatro exames eram positivos. Não compreendia. Lendo com redobrada atenção, observando as datas, verificou que o primeiro resultado havia sido positivo, o segundo, negativo, o terceiro, positivo, e o quarto novamente negativo. Como era possível? O que significava aquilo? Ele estava doente ou não? Seu coração disparado queria arrebentar. O intervalo entre as datas era de três meses, mas os resultados se alternavam, o que fazia tudo perder o sentido. Por que Hendrik nunca falara dos exames? “Agora não estou mais doente...” a frase dele ecoou em sua mente ganhando novo significado. Devia estar se referindo ao último resultado... E agora, estaria doente outra vez? E ela, estava contaminada? Se Hendrik fosse soropositivo, a probabilidade de Liz não ter contraído o vírus era remota. Seu coração latejava como uma ferida recém-aberta. Pela primeira vez na vida sentiu terror, algo tão profundo e intenso que a deixou sem ação. Paralisada diante da gaveta, exames nas mãos, trancafiada no quarto, vislumbrou seu futuro como um tempo limitado, negro, triste. A morte estava dentro dela, corroendo-a devagar e silenciosamente. Condenada à morte, condenada também a Hendrik. Ele não podia ter feito aquilo, devia tê-la prevenido, ela tinha direito de saber. Perdida entre o choque da descoberta e a revolta da impotência, não conseguia se mover, com medo de se desmantelar em mil pedaços. As lágrimas rolaram por suas faces lívidas. Estava morrendo. Não poderia perder tempo, talvez ele não fosse muito longo.
           Guardou tudo nas devidas caixas, apanhou a roupa de cama na gaveta de baixo, levantou-se. Ainda estava inteira, mas essa imagem era falsa. Fez a cama com má vontade, juntando as peças de um quebra-cabeça odioso. Agora entendia porque Hendrik sempre trocava os lençóis; porque, apesar do frio no quarto, ele transpirava à noite; a roupa de cama sempre perfumada... A toxoplasmose que ele desenvolvera... Como não tinha ligado antes os fatos que agora eram evidentes? Há quanto tempo ele estaria doente? Como contraíra o vírus? Teria contaminado outras pessoas? Cada pergunta se desdobrava em nova série de questões, sem resposta. Não sabia mais o que fazer. Esperar Hendrik ou fugir dele? Em todo caso, tarde demais para escapar.
           — Você ainda está aqui? — disse ele, entrando no quarto. — Desculpa eu não ter te chamado...
           — Por que você não me contou? — interrompeu-o.
           — Contou o quê? — perguntou, franzindo a testa.
           — Eu achei os seus exames — disse, apontando o armário. — Por que não me falou deles?
           — Você mexeu nas minhas coisas?
           — Por que você não me contou, seu desgraçado? — repetiu, segurando-o pelos ombros.
           — Eu não estou mais doente!
           — Como não? Eu vi os resultados!
           — No último teste os resultados foram negativos! Eu estou bem agora...
           — Ninguém se cura dessa doença! O resultado do último exame devia estar errado.
           — Não, foi feito três vezes! Eu estou bem agora, Liz!
           — Isso não existe! É claro que houve algum erro.
           — Os médicos também não souberam explicar. Eles queriam que eu voltasse ao hospital, fizesse outros testes. Disseram que precisavam me abrir, eu era um caso especial. Eu fiquei com medo, não queria ser cobaia nas experiências deles.
           — E por que você não me contou nada disso?
           — Eu tive medo que você não acreditasse em mim, que me deixasse, como os outros... É difícil falar disso...
           Hendrik não parecia mentir, mas como confiar nele depois de tudo? Sentia raiva e pena.
           — Você é um egoísta. Não confiou em mim em momento algum. Eu provando o meu amor, a minha confiança... e você me contaminando. Como pôde fazer isso comigo? Achei que você gostasse de mim...
           — Mas eu gosto, Liz. Eu... eu... estou bem agora...
           — Você me odeia! Só quis me usar, sem se preocupar com o que eu sentia.
           Ela chorava, sua amargura tinha gosto de despedida. Vestiu o sobretudo, apanhou a bolsa e encaminhou-se para a porta. Hendrik tentou detê-la, mas Liz se desvencilhou dele. Desceu as escadas, montou na bicicleta, deixou o bairro.
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