Na
HOF, empresa que mantinha
convênio com hotéis na cidade,
foi explicado aos integrantes da turma as regras
a que deveriam submeter-se para ingressar nas
promissoras atividades do sistema hoteleiro
local. Liz sentia-se constrangida ao lado dos
demais interessados, aparentemente tão
necessitados quanto ela.
No
período de treinamento ganhava-se 1.300
gulden; o contrato de trabalho após
a fase de experiência aumentava o salário
para 1.700 gulden. Liz recebeu dois
uniformes, que deveria se esmerar em cuidar,
qualquer dano à roupa seria descontado.
Foi designada para um hotel em Amstelveen, bairro
afastado ao sul de Amsterdam, onde receberia
mais instruções e assistiria a
palestras. Lugar distante demais para ir de
bicicleta. Tomou o metrô.
O
Grand Hotel Amstelveense era imponente: dez
andares, quatro estrelas. A fachada, ornada
por varandas de mármore, portas de vidro
e toldos laranja, dava ao prédio um ar
quase extravagante em meio à área
verde em que ficava.
Foi
recebida pela amistosa gerente, vestida num
alinhado uniforme, que a encaminhou até
a sala onde estavam os outros candidatos. Não
eram muitos, sete moças e dois rapazes.
A
gerente foi prática e direta no esclarecimento
das normas para a limpeza e arrumação
dos 91 quartos e 20 suítes. Foi mostrado
um filme com os procedimentos básicos,
enfatizando não o que fazer, mas o que
não fazer naquele amontoado de regras
a aprender. No fim da sessão, metade
dos pretendentes havia partido.
No
caminho de volta, Liz pensava com alívio
duvidoso na possibilidade de ser contratada
pela
HOF. O serviço
era duro, precisaria de tempo para se acostumar.
Trabalho
menor. Grande esperança. Onde estavam
as magníficas ofertas de emprego que
haviam acenado para ela de forma promissora
quando da primeira vez em Amsterdam? Esquecera
um detalhe importante: falar holandês.
As boas ofertas de trabalho, os melhores cargos
e vagas dependiam do conhecimento daquela língua
quase extinta. Isso limitava a maioria dos estrangeiros
a serviços que os holandeses não
estavam mais dispostos a fazer. Difícil
competir em pé de igualdade com os nativos.
Liz possuía nível superior, falava
inglês, espanhol e português, dominava
programas de computador... e, por não
falar holandês, todo o seu saber era inútil.
Quando pensara em se mudar para Amsterdam, não
se imaginava trabalhando naquele tipo de emprego.
Não que o achasse humilhante, mas desperdiçava
os conhecimentos acumulados ao longo de anos
de estudos e vivências. Sempre havia detestado
limpar e arrumar — inclusive suas próprias
coisas —, agora ganharia a vida arrumando
a desordem e limpando a sujeira alheia. Não
tinha escolha. O dinheiro levado para o início
da vida na cidade havia acabado. Leon já
começava a pagar as despesas dela. Não
era justo. Não gostava de depender de
quem quer que fosse — principalmente de
alguém que já ajudara tanto, a
quem ela nada tinha dado em troca.
Chegou tarde para o almoço. Leon não
estava, mas tinha deixado a refeição
pronta. Sentia falta dele, mas via sua ausência
com alívio. Gostava de conversar, contar
o que lhe acontecia, mas às vezes era
melhor estar sozinha. Percebia que sua vida
agitada, cheia de novidades era uma afronta
à monotonia e tédio que Leon vivia
— desequilíbrio que só os
afastava. Difícil manter o ânimo
confrontando tantas diferenças.
Passou
no local onde Billy ensaiava com a banda. O
Caldeirão era um bar brasileiro encravado
no meio do quarteirão que abrigava grande
parte dos restaurantes e bares da cidade. A
fachada feia e suja não seduzia. No modesto
interior da casa, apenas um micro palco diante
de um espaço bastante reduzido ladeado
por um diminuto bar. Billy orientava cinco músicos
que se equilibravam no tablado. Assim que ele
a viu, parada na porta, pediu que ela se aproximasse.
Apresentou rapidamente o pessoal da banda.
—
O que é mesmo que você sabe fazer,
minha filha? — perguntou a Liz.
—
Eu sei cantar, toco teclado e também
um pouco de violão — respondeu.
—
Ótimo! Sobe no palco, ajusta o microfone
pra sua altura e pode começar.
—
Mas o que eu vou cantar?
Billy
deu o nome de alguns dos hits mais
pedidos pelo público, mas Liz não
sabia a letra de nenhuma das músicas.
Impaciente, Billy começou a cantarolar
as canções enquanto ela tentava
aprender o ritmo ao mesmo tempo em que copiava
as letras em guardanapos de papel. Billy era
a pressa em pessoa, tudo tinha que ser rápido,
sem falhas. Liz nem teve tempo de se decepcionar
com o repertório. No estreito palco,
ao som dos instrumentos, cantava músicas
que detestava, lendo a letra com uma das mãos
e com a outra batendo pandeiro no quadril.
Sentia-se
ridícula. Billy insistia que ela também
rebolasse. Liz requebrou-se o melhor que pôde.
Representando a pantomima, pensava se realmente
precisava daquilo. Dinheiro. No fim daquela
comédia receberia as notas que lhe faziam
falta. Precisava relaxar, se divertir com a
situação. As músicas eram
horríveis, mas o som do grupo não
era ruim. Como gostava de dançar, empenhou-se
na encenação, enquanto cantava
os pobres refrãos.
—
No começo, eu te achei meio dura, mas
depois você entrou no clima — falou
Billy, ao fim do ensaio. — Você
está aprovada. Volta aqui no fim da semana
que vem com as letras decoradas. A gente toca
na madrugada de sexta pra sábado e de
sábado pra domingo.
|
|
Tenso
demais para escrever bobagens, espionar a vizinhança,
me dedicar a romances inviáveis. Estou
confuso. Não sei se quero mesmo ir embora
ou se persisto na idéia de continuar aqui.
Voltar para onde? Ficar aqui por quê?
Há
mais de um mês espero. Espero e observo
a vida dos outros. Eles vivem. Eu vegeto.
A
carta de Verônica levou apenas dois dias
para chegar. Cansado de esperar, eu tinha lhe
escrito fazendo novas perguntas. Verônica
se espantou que ainda não nos tivéssemos
casado, indagava o porquê da demora. O que
dizer?, que o namorado de Liz não transaria
mais com ela se nos casássemos? Verônica
recomendava não perdermos mais tempo. Eu
deveria adiar imediatamente o dia do meu embarque
no prazo máximo de validade da passagem.
Sugeriu que fôssemos à polícia
de estrangeiros para sabermos as exigências
do nosso caso. Seu tom aflito me contagiou. Eu
precisava decidir depressa: ficar ou partir?
Nas
Páginas Amarelas achei o endereço
da companhia aérea pela qual fizera a viagem.
Apreensivo, entrei no prédio moderno na
movimentada avenida do outro lado do Vondelpark.
Em espanhol, fui informado de que a agência
precisava solicitar autorização
ao Rio de Janeiro para alterar a data de embarque.
Eu tinha que voltar no dia seguinte para saber
a nova data de retorno.
Liz
chegou para o almoço na hora em que eu
começava a servir meu prato. Seu abatimento
me impressionou, parecia exausta. Não
me atrevi a perguntar o motivo para as olheiras
que lhe deformavam o rosto.
Na
sala, sentados nas poltronas, apoiando os pratos
na mão e manejando com a outra o garfo,
comíamos. Como Liz se mantinha calada,
falei sobre a carta de Verônica, e a minha
ida ao escritório da companhia aérea.
Ela pareceu contente por eu ter procurado alterar
meu dia de embarque. Desanimada, falou sobre
o treinamento no hotel, o ensaio com a banda.
Estava cansada, não tinha dormido bem.
Reclamava como era desagradável acordar
cedo para chegar na distante Amstelveen a fim
de assistir a desinteressantes palestras.
Liz
se empenhava, mas parecia humilhada. E eu me
sentia-me responsável por seu empenho,
como se lhe apontasse uma arma imaginária
forçando-a a fazer o que não queria.
|
|
O
período de experiência não
seria tão curto quanto esperava, quanto
necessitava que fosse. Pelo menos um mês
ainda sendo orientada, testada, avaliada. Tempo
demais. Precisava logo do contrato certificando
que poderia sustentar duas pessoas. Mas nada garantia
que após a fase inicial teria vínculo
empregatício com o hotel.
Por
enquanto, precisava obedecer ordens, se esmerar
no trabalho, demonstrar uma eficiência que
jamais tivera. O uniforme a deixava feia. O incômodo
tecido listrado de azul e branco não tinha
caimento, a barra do vestido era longa demais,
o avental repleto de bolsos, a touca branca escondendo
os cabelos... A primeira vez que se viu uniformizada
sentiu vergonha — e alívio por saber
que nenhum amigo ou familiar a veria daquele modo.
O que diria Hendrik? Ainda não havia falado
com ele sobre seu novo trabalho.
E
tinha que limpar de tal jeito, arrumar de outro,
usar os produtos adequados... seqüência
de procedimentos que não devia ser alterada.
Mas quase sempre se perdia. Atrapalhava-se com
baldes, flanelas, espanadores, escovas... Às
vezes achava que o supervisor fazia vista grossa
para suas confusões. O mais humilhante
não era o serviço em si, mas a presença
constante de alguém lhe dando ordens, vigiando
e repreendendo. E ela varria, espanava, aspirava,
lavava, encerava... De sua eficiência naquelas
tarefas dependia seu futuro, e o de Leon.
Cansada,
no caminho de volta para casa, cochilou no metrô.
Acabou descendo duas estações
depois da que costumava desembarcar. Precisava
retornar para apanhar a bicicleta. O cochilo
a fez sentir-se disposta. Estava há pouco
mais de um mês na cidade e ainda não
passeara despreocupada. Por que não relaxar
e se distrair naquele instante? Em vez de fazer
o caminho mais curto até onde havia deixado
a bicicleta, seguiu em direção
ao Bloemenmarkt. Gostava de ver o mercado de
flores flutuando em pleno canal, os buquês
coloridos e perfumados que arranjavam mesmo
no inverno. Agora, com a primavera começando
a despontar, a variedade de flores era ainda
maior.
Seguiu
apreciando vitrines, entrando numa loja de vez
em quando, olhando apenas. Gostaria de ter a
situação definida, um emprego
que lhe permitisse enfeitar sua casa. Queria
ser habitante da cidade, com direito a adquirir
as belezas diante de seus olhos. Quando tudo
desse certo ficaria feliz em ser uma das pessoas
carregadas de pacotes e bolsas recheados de
maravilhas. Nunca fora consumista, mas, naquele
período de privação, o
paraíso de belas mercadorias acabava
exercendo forte poder sobre ela.
Entrou
numa rua cheia de bares e restaurantes. Um cartaz
colado numa porta, escrito em espanhol, convidava
quem o lesse a trabalhar na casa. Olhou a fachada
do restaurante, o nome curioso: BarHamas. Entrou.
Em espanhol, dirigiu-se ao senhor obeso atrás
do balcão, comentando o cartaz. O homem
sorriu.
|
|
Consegui
alterar a data de retorno ao Brasil. Tenho pouco
mais de um mês pela frente. Nova espera.
Terei feito a coisa certa? Liz não estava
disposta a ceder na questão do casamento,
eu não ousava contrariá-la. A carta
de Verônica, bastante elucidativa para mim,
não havia surtido o mesmo efeito em Liz.
Voltando para casa, atravessando o parque, oscilava
entre a esperança de resolver o caso a
contento, e a angústia em prolongar um
sofrimento desnecessário.
O
Vondelpark se modificava. O inverno ainda não
havai terminado, mas a primavera apressada já
se fazia sentir. As extremidades dos galhos secos
começavam a esverdear numa profusão
de pontos que se tornariam folhas. Algumas plantas
lançavam flores desavisadas. Por baixo
da superfície gelada a terra fervilhava
de vida. A natureza parecia agitada em mostrar
seu esplendor de formas, cores e aromas, deixando
todos alegres com a estação na qual
tudo renasce depois de um período sombrio.
Identifiquei-me com o momento que parecia me dizer
respeito. Seria um sinal de que ainda era cedo
para desistir? Talvez. Isso me animou.
Agora
raramente Liz dorme em nosso apartamento. Habituei-me
a passar as noites sozinho, elas combinavam com
meus dias solitários. Eu me esforçava
para tudo dar certo. Preparava comidas que lhe
agradassem, diminuía seu trabalho na casa,
tentava diverti-la quando a via triste... mas
tudo o que eu fazia estava sempre aquém
do que Liz desejava.
—
Adivinha o que eu fiz ontem de sete às
dez? — perguntou sorridente, quando chegou.
—
Trabalhou?... — falei a única coisa
que me ocorreu.
—
Sim! — disse ela, com alegria.
Contou
sobre o emprego que havia conseguido como garçonete
num restaurante caribenho. Estava no período
de experiência, que duraria uma semana.
Por três horas de trabalho tinha recebido
30 gulden. Seu contentamento contagiou-me,
alimentando ainda mais minhas esperanças
de primavera.
Liz
se pôs a memorizar os complicados nomes
dos pratos do cardápio que havia trazido
para estudar — não queria se atrapalhar
com os clientes. Esperava ser contratada o mais
rápido possível. Eu estava contente
com a satisfação dela. O dinheiro
não era muito, mas somado ao salário
que receberia quando contratada pelo hotel parecia
um bom começo. |
|
O
BarHamas era um local agradável. Mobiliário
simples, paredes revestidas por lambris, quadros
com imagens do Caribe, Antilhas e Bahamas... A
descontração do ambiente atraía
clientela variada. No primeiro dia, Liz prestara
mais atenção ao funcionamento da
casa do que propriamente ao trabalho. Agora atenderia
os clientes. Mathias, dono do restaurante, era
simpático e falante. O gerente, um argentino
sisudo. Havia mais duas garçonetes: Kati,
uma japonesa engraçada cheia de regalias,
e Paola, uma italiana muito estressada. Jonas,
o cozinheiro brasileiro, simpatizou com Liz assim
que a viu.
Mathias
e o gerente a orientaram: abordagem ao cliente,
esclarecimento dos pratos, anotação
dos pedidos e entrega na cozinha, forma atenciosa
de servir, entrega da conta, recebimento do dinheiro
ou cartão, operação da caixa
registradora... Etapas que não lhe pareceram
complexas, questão de prática. Quando
se viu atendendo cinco mesas com pessoas que haviam
chegado em horários diferentes, pedindo
comidas e bebidas distintas, sentiu-se aturdida.
Kati e Paola atendiam suas respectivas mesas com
desenvoltura invejável, sorridentes e gentis.
Um pouco tensa, Liz destoava. As duas veteranas
agiam como se a novata fosse tão experiente
quanto elas. Querendo se mostrar independente,
Liz não lhes pediu ajuda. Quando o BarHamas
ficou cheio, ela sentiu-se participando de uma
espécie de maratona.
Apesar
do nervosismo e algumas pequenas confusões,
tudo transcorreu bem. Achou que quando os últimos
clientes saíam o serviço terminava.
Mas não: no fim daquela correria, ela e
as outras duas tinham que ajudar Jonas a lavar
a louça. Por causa do movimento, tinham
trabalhado uma hora a mais, e Liz nem se apercebera
disso.
Somente
depois do trabalho era permitido aos funcionários
comerem alguma coisa. Exausta, tendo visto a noite
toda vários tipos de comida, sentia-se
enjoada. Estava com fome, mas não conseguia
se imaginar comendo aqueles pratos apimentados.
No momento em que lhe pagava a diária,
Mathias disse que tinha gostado muito dela. |
|
Liz
chegou quando eu me preparava para dormir. Em
tom agitado, disse que por trabalhar uma hora
a mais tinha recebido 45 gulden. Com
a mesma rapidez que falava, desamassou as notas,
colocando-as ao meu lado.
—
Abate esse valor na quantia que eu estou te devendo
— falou.
O
pagamento de sua “dívida” parecia
aliviá-la. Apressada, foi para a cozinha.
Enquanto mexia nos pratos e panelas, tentava conversar
comigo, ainda na poltrona. O trabalho no restaurante
era confuso, ainda não sabia atender tanta
gente ao mesmo tempo... Pretendia ir a uma boate
com entrada gratuita, mas precisava convencer
Hendrik...
Estranhei
que ela ainda estivesse com fome, tinha me dito
que os funcionários podiam jantar depois
do serviço. Também achei estranho
que tivesse disposição para dançar,
imaginava que ficaria cansada.
Retornou
à sala com o prato cheio. Viu-me quieto
e imóvel na poltrona. Disse então
a maldita frase que tanto me intimidava, e com
a qual nada conseguia arrancar de mim:
—
Fala, Leon.
Queria
mesmo me ouvir? Com a pressa que demonstrava era
pouco provável.
—
O Mathias, o meu patrão, disse que eu já
estou empregada — falou, ante a minha mudez.
—
Mas você não estava no período
de experiência?
—
Eles estão precisando desesperadamente
de alguém pra ocupar a vaga. O lugar é
muito movimentado! O Mathias perguntou se eu queria
trabalhar no “preto” ou no “branco”.
—
E o que é isso?
—
Clandestinidade e legalidade — explicou.
— Eu pedi pra trabalhar legalmente, por
causa do contrato de trabalho. Ele disse que,
no “branco”, só podia me pagar
vinte horas semanais, senão eu ia sair
muito cara. Mas falou que podia pagar o resto
do salário por fora, no “preto”.
Achei
a proposta suspeita, mas fiquei calado.
—
Vamos ter que tentar o concubinato nessas condições
— concluiu.
Fiz
as contas mentalmente: 800 gulden por
mês. Pouco provável que eu tivesse
chance de permanecer na cidade com uma concubina
ganhando um salário que mal a sustentaria.
Talvez Liz esperasse somar o valor do contrato
do restaurante com o do hotel. Quanto tempo demoraria
a conseguir o segundo contrato? Eu me impacientava,
mas sentia-me imobilizado.
Após
ter dado cabo da comida, ela trocou de roupa,
perfumou-se e saiu. |
|
Precisava
contar a Hendrik. Ele teria que entender, e aceitar.
Recusar as oportunidades que haviam surgido seria
suicidar-se, assassinar Leon. E quem era Hendrik
para questionar os serviços dela? Por acaso
a ajudara a encontrar coisa melhor? Ele próprio
não tinha um trabalho do qual se orgulhar,
não tinha emprego algum. Sempre falava
nos cargos importantes que ocuparia quando acabasse
o longo curso que fazia, mas o curso nunca terminava.
Diferente
do serviço no hotel, trabalhar no BarHamas
— com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo
—, em vez de cansá-la dava-lhe forças.
Sentia vontade de gastar a energia acumulada em
seu corpo. Lembrou da primeira vez em que dançara
com Hendrik. Aquilo parecia ter acontecido há
tanto tempo!... Por que ele não a convidava
mais para dançar?
Hendrik
não quis ir à boate. Quando ia explicar
suas razões, Liz se recusou a ouvi-lo.
—
Você não precisa se justificar. Não
quer ir, tudo bem, não vamos discutir por
causa disso.
—
Mas eu só queria...
—
Um motivo pra gente brigar — cortou-o. —
Não vou brigar com você hoje.
—
Eu também não quero brigar, só
pretendia...
—
Arranjei dois empregos — disse, interrompendo-o.
— Na verdade, três.
—
Você está brincando! E onde ficam
esses escritórios? Como vai fazer pra trabalhar
em tantos lugares? Arranjou
todos hoje? — indagava, como uma máquina
de perguntas.
—
Eu não vou trabalhar em nenhum escritório
— falou, cautelosa.
—
Não?... Onde, então?
—
O primeiro emprego é num hotel, em Amstelveen.
—
Você vai ser a gerente?
—
Não, a faxineira.
—
Faxineira... — repetiu, desapontado.
—
O outro, é num restaurante.
—
Nesse você é a gerente.
—
Não, a garçonete.
—
Garçonete... — falou, mais decepcionado
ainda.
—
O terceiro, é numa boate brasileira, o
Caldeirão. Vou tocar teclado, cantar e
dançar.
—
Você não pode estar falando sério,
Liz — disse, começando a rir.
—
Não sei por que a surpresa — falou,
querendo dar veracidade à mentira que dizia.
—
Não achei que você fosse trabalhar
nesses tipos de emprego.
—
Eu também não pensei que só
fosse encontrar esses serviços. Eu queria
fazer outras coisas, mas as oportunidades que
apareceram foram essas. O meu dinheiro acabou,
e eu precisava de um trabalho qualquer, entende?
Mas isso é só no começo.
Depois que eu souber holandês vou ter chance
de coisa melhor.
—
E como vai fazer pra estar nesses lugares ao mesmo
tempo? — indagou ele.
—
De manhã, eu trabalho no hotel. À
noite, no restaurante. Nos fins de semana, de
madrugada, na boate. Se eu quiser, ainda posso
arranjar outro emprego na parte da tarde.
—
Você vai ficar exausta, não vai ter
tempo pra mim... Tem mesmo que trabalhar na boate?
|
|
Meus
inúteis passeios por Amsterdam forçavam-me
a buscar o desconhecido, ainda que ele não
me satisfizesse. Tinha avidez por notícias
sobre o mundo. Na televisão, no canal francês,
as informações eram limitadas ao
próprio país, quando muito ao continente.
Sentia-me desatualizado, perdido no tempo. Procurando
jornais franceses, acabei encontrando um um tablóide
brasileiro. Editado semanalmente em Londres, fazia
um resumo dos fatos importantes ocorridos no Brasil
nos últimos sete dias. Informações
ultrapassadas. Comprei-o, sentei num banco em
frente ao Bloemenmarkt. Notícias tão
sensacionalistas que me arrependi do dinheiro
gasto. Uma onda de calor extremo no Rio, explosão
de um arsenal militar, desabamento de um prédio,
incêndio num aeroporto... Apenas catástrofes,
tragédias. Era só isso o que acontecia
no lugar para onde eu deveria retornar em breve?
Não queria voltar ao país dos desastres,
mas ficar numa nação estranha, onde
eu nada era, não servia de consolo, muito
menos de estímulo. Não tinha mais
para onde ir, nem retornando, nem permanecendo.
O
perfume das flores, suas cores e formas acenavam
para mim nas embarcações flutuantes
no canal. Fortes o bastante para me arrancar da
apatia, distraíram minha atenção
durante algum tempo. Quanta variedade, beleza,
perfeição!... O mundo era uma feia
esfera produtora de desgraças, mas também
tinha maravilhas destinadas a aliviar sofreres,
mesmo que temporariamente. Lamentei gastar meus
gulden com o jornaleco. Deveria ter comprado
flores.
Do
Centro, fui em direção ao Plantage,
bairro que eu não havia explorado, bairro
onde morava Hendrik. Do lado de fora, o Hortus
Botanicus parecia interessante, com plantas exóticas,
estufas de alumínio e vidro... mas o ingresso
era pago, e, na atual situação,
caro. Não era justo pagar meu lazer enquanto
Liz se esforçava em conseguir dinheiro.
Se ela estivesse comigo poderíamos dividir
aquele prazer, recusava-me a desfrutá-lo
sozinho. Observei o jardim botânico do lado
de fora, contornando-o inteiramente. Mais adiante,
o enorme zoológico. Outro lugar com ingresso
pago, mais um que contemplei da rua. Após
circundar o zoológico segui em frente.
Andando sem destino, atravessei pontes, cruzei
avenidas movimentadas, andei por ruas desertas...
De repente, deparei com um enorme moinho de vento.
Antigo remanescente, novidade inesperada, ele
parecia deslocado junto ao cruzamento de ruas
modernas. Pintado num marrom insípido,
a enorme estrutura impressionava. Mais adiante
encontrei uma feira-livre que me chamou a atenção
por ser formada e freqüentada por imigrantes.
Negros, orientais, árabes, mestiços...
comidas exóticas, ervas, temperos, frutas...
roupas vistosas, tapetes coloridos, bijuterias
variadas...
Eu
ansiava por novidades, mas nenhuma das coisas
diferentes que via me bastava. O que estaria fazendo
Hendrik, tão perto de mim e ao mesmo tempo
tão inacessível? Por que não
verificar o endereço dele? Missão
difícil: no mapa que eu havia levado não
constava a rua em que Hendrik morava. Sabia o
endereço, mas procurá-lo às
cegas numa região desconhecida levaria
tempo... Eu tinha bastante tempo a matar.
Procurei
até cansar. O mapa incompleto dificultava
a busca. Eu sabia estar bem próximo ao
endereço dele, as referências —
o moinho, a feira dos imigrantes, os conjuntos
habitacionais — estavam diante de mim, mas
a misteriosa rua parecia inexistente. Meu cansaço
era grande, minha tola obstinação
ainda maior. Sentei num banco ao sol para descansar.
Tirei do bolso do sobretudo uma maçã
que tinha levado no caso de sentir fome.
Recuperado,
decidido a encontrar a tal rua, investi no último
local. Os conjuntos habitacionais multiplicavam-se
monotonamente não muito longe do moinho.
Só podia ser ali, mas eu não conseguia
encontrar a maldita rua. Já começava
a desistir quando li numa placa: Compagniestraat.
Meu coração se acelerou. Recobrei
o ânimo e enveredei pela rua sem graça.
Diante do conjunto de prédios feios, me
surpreendi. Liz dissera que o apartamento de Hendrik
era muito interessante. Eu devia, então,
estar no lugar errado. Procurei o nº 50.
As placas nas portarias continham números
desordenados. Junto à porta de entrada
de um edifício cinza, as caixas de correspondência
dispunham-se em duas colunas. Nº 50: H.V.Hooft.
Hendrik morava ali. Pensei em tocar o interfone,
mas desisti. E se ele abrisse a porta?, o que
eu diria? Senti-me estúpido. O que estava
fazendo ali, em frente ao prédio de alguém
que não me convidara a aparecer?
Deixei
o conjunto residencial satisfeito com a descoberta,
cansado pelo esforço, decepcionado com
a realidade. Era idiota bancar o espião,
mas no marasmo em que me encontrava a patética
missão não deixava de ser algo diferente.
Retornei para casa a passos lentos. Não
queria encontrar Liz, que devia estar esperando
a hora de ir para o restaurante. |
|
Cada
vez menos atrapalhada, começava a cativar
atenções de clientes no BarHamas.
Seu jeito simpático fizera o gerente de
um restaurante indiano convidá-la a visitar
seu estabelecimento com uma boa proposta de emprego.
Achando que poderia preencher a tarde vazia, ou
deixar o BarHamas por outra casa que pagasse melhor,
havia chegado pontualmente, naquela tarde, para
a conversa com o gentil senhor. Pura perda de
tempo. O gerente estava interessado em sua forma
agradável de servir para funções
bem diferentes das praticadas nos restaurantes.
Indignada, mas calma, agradeceu a cretina proposta
dizendo não ser o tipo certo para o cargo.
“Minha
intenção em ser sempre agradável
deve confundir os outros...”, pensava, pedalando
rumo ao apartamento de Hendrik. Várias
vezes muitos homens — e poucas mulheres
— haviam interpretado de modo equivocado
suas atenções e gentilezas. Por
que confundiam amabilidade com disponibilidade?
O que fazia de errado para despertar interesses
indevidos? Ser espontânea e amigável
era o mesmo que convidar outro à sua cama?
Por que sempre “seduzia” quem não
queria, e se esforçava tanto para atrair
a atenção de quem lhe interessava?
—
Não achei que você fosse aparecer
por aqui — falou Hendrik. — Hoje não
era dia de cantar na boate?
—
O show só começa depois da meia-noite,
a gente ainda tem tempo.
—
Sei... — disse ele, emburrando-se. —
Pensei que você tivesse desistido...
—
Eu já te disse que preciso do dinheiro
— falou, suave. — Tenta se colocar
no meu lugar.
—
No seu lugar eu não trabalharia tanto.
A gente já se vê tão pouco!...
—
Eu também queria passar mais tempo com
você, mas como espera que eu me mantenha
aqui sem trabalhar? Tenta encarar esse momento
como uma fase. Eu não pretendo continuar
com esse esquema, mas não tenho nada melhor
em vista. Se eu te pedisse, você ia deixar
de estudar pra ficar mais tempo comigo?
—
Isso é diferente. O meu futuro depende
do curso que eu estou fazendo, sem ele não
vou ter o emprego que eu quero.
—
O meu futuro também depende do que eu estou
fazendo agora.
—
Mas se você não tiver tempo de estudar
holandês como vai conseguir um trabalho
melhor?
—
E como eu vou fazer um bom curso sem ter dinheiro?
Como eu vou me manter enquanto estiver estudando?
Convidou-o
ao Caldeirão para vê-la cantar. No
fim do show, poderiam voltar juntos para casa.
Hendrik recusou. Ela não insistiu, já
achava um milagre que não tivessem discutido.
Perguntou se poderia voltar ao apartamento dele
quando saísse da boate, para dormir um
pouco antes de ir para o hotel. Contrariado, Hendrik
cedeu. Tentando alegrá-lo, Liz prometeu
passar o domingo inteiro com ele, seria dia de
folga no hotel. |
|
Liz
e Hendrik brigaram de novo. Não sei como
ela suporta. O que terá ele de tão
especial que a faz levar essa doença sentimental
adiante? Por que fica sempre tão abalada?
Hendrik é só um homenzinho complicado,
nada mais.
Ela
devia ter aproveitado a nova desavença
para contar que vamos precisar nos casar. Como
o contrato com o hotel ainda vai demorar, e o
tal Mathias sempre adia a regularização
de sua situação de garçonete,
Liz foi novamente à polícia se informar
sobre outro processo que nos permitisse a união.
Descobriu que nem para o concubinato estaríamos
capacitados, precisaria estar empregada há
pelo menos seis meses para solicitar tal modalidade.
Angustiada, deu-me a terrível notícia.
Desculpando-se exageradamente, afirmou que entendera
errado os procedimentos para o concubinato, só
nos restava o casamento. Tendo perdido um tempo
precioso, provavelmente não conseguiremos
cumprir as exigências. Liz repetia sem parar
que não tinha sido sua culpa, não
agira de má fé. Tranqüilizei-a,
acreditava nela, todos cometiam erros, não
havia o que desculpar.
Agora
ela dorme. Seu dia de folga foi transferido para
terça, e como não cumpriu o que
prometera a Hendrik não pôde dormir
com ele. Ainda bem que existe este lugar onde
pode se refugiar dos humores de Hendrik. Se tivesse
vindo para morar com ele, como faria quando brigassem?
Talvez eles não se desentendessem tanto
se eu não estivesse aqui...
Acordou
no meio da tarde. Parecia ter esquecido a briga
recente.
—
Eu preciso ir ao apartamento dele dizer que vou
me casar com você — falou.
—
Já que ainda não deu a má
notícia, por que não espera pra
ver se o casamento vai ser mesmo possível?
Talvez nem dê tempo.
—
Não posso. Eu sou transparente. Além
disso, ele sabe tudo o que se passa comigo, sem
eu dizer coisa alguma.
—
O Hendrik só vê o que interessa a
ele. É um egocêntrico.
—
Vou procurar ele hoje depois que sair do restaurante
— disse ela.
—
Seria bom vocês conversarem com ele sóbrio.
Drogado, vai ser mais difícil.
—
Eu não posso contar com essa “sobriedade”.
Se ele se deprime, fuma, se fuma, fica deprimido.
Ele é muito influenciado pelo Derek. É
ele que estimula o vício no Hendrik. Se
existisse um jeito dos dois se separarem...
—
Você e o Hendrik querem tirar proveito do
investimento que fizeram, do tempo que gastaram.
Pra você, isso se chama amor, pra ele, amizade.
Eu não acredito que o Hendrik se afaste
do Derek só porque você diz que o
ama — falei, meio exaltado.
—
Ele nunca vai trocar o Derek por mim. E o pior
é que agora eu já devo ser um investimento
pra ele também.
Eu
precisava me controlar, minhas emoções
estavam me dominando. Tentei ficar mudo, mas já
era tarde.
—
É impressão minha ou você
está irritado? — perguntou. —
Você se chateia por eu comentar sempre o
mesmo assunto, não é?
—
Chateado não é bem o termo, mas
não posso negar que essa história
repetitiva me canse. A minha situação
é difícil, conheço você
mais do que o Hendrik, é natural que eu
tome o seu partido. Não tenho direito de
opinar sobre o caso de vocês, e se eu fiz
isso até hoje foi porque você parecia
esperar algum apoio de mim. Uma vez cheguei a
pensar que eu estava enganado sobre o Hendrik,
que eu tinha sido injusto falando mal dele, mas
o tempo mostrou como ele é reincidente.
É impossível enganar quem quer que
seja por tanto tempo cometendo os mesmos erros.
Eu estou cansado de fazer campanha contra o Hendrik,
é inútil. Você sempre dá
um jeito de transformar ele em alguém maravilhoso.
E tudo se repete: as brigas, as nossas conversas,
as reconciliações de vocês,
novas brigas... Detesto me repetir, principalmente
quando o que eu falo nunca significa nada.
Despejei
tudo de uma vez, arrependendo-me imediatamente.
—
Eu não me importo muito com esse relacionamento
confuso... Sei que estou errada, mas tenho momentos
de prazer nisso tudo. O que me desagrada é
saber que eu te incomodo.
—
Eu só fico preocupado. Nessa história
toda quem mais sofre é você. Quanto
tempo acha que vai suportar isso?
—
Mas eu amo esse cara! O que eu posso fazer? Ele
vai ter que entender. Eu e você somos apenas
amigos. Ele não pode ter ciúmes,
eu te considero um irmão...
Em
outros tempos tal fraternidade me perturbaria,
agora ela me acalmava.
—
Eu sou o problema — admitiu. — Não
existe ninguém nesse mundo com quem eu
vou ter um relacionamento tranqüilo, equilibrado.
Sou muito ansiosa, complicada... O homem perfeito
que eu procuro não existe porque eu mesma
me encarrego de destruí-lo. Nunca vou ser
feliz.
Enfim
concordávamos num ponto, mas não
me atrevi a ser tão honesto quanto ela.
|
|
A
conversa com Leon ainda ecoava em sua mente. Até
certo ponto ele tinha razão, mas quando
imaginava a vida sem Hendrik um medo tão
grande a invadia que se via forçada a acender
a esperança de tudo terminar bem. Havia
muitos interesses distintos envolvidos numa partida
que dependia exclusivamente das jogadas que ela
fizesse. Ninguém estava disposto a abrir
mão dos pontos acumulados.
Antes
de procurar Hendrik, comprou skunk numa coffeeshop.
Melhor conversarem de igual para igual. Sentou-se
e fumou, procurando esvaziar a mente dos maus
pensamentos.
Assim
que apertou o botão do interfone, a porta
de entrada se abriu. Hendrik a pegou no meio da
escada, beijando-a intensamente. Pedia desculpas,
nunca mais brigariam, queria ficar com ela para
sempre, tinha sentido muito a sua falta... No
meio da sala, dizendo-se arrependido, ele a abraçava
como se quisesse parti-la em duas. Liz não
entendia o que estava acontecendo, alucinações
do skunk? Parecia tão real! Não,
Hendrik confessava haver tido um pesadelo no qual
ela se afogava num abismo, por causa dele, depois
de uma discussão. Liz morria, ele se matava
sabendo-se culpado. Não queria que ela
morresse, não queria morrer, queria que
Liz gostasse dele, tanto quanto ele dela.
Na
cama a possuiu como um alucinado. Liz não
havia conseguido dizer uma palavra sequer, ele
a cobria de um amor asfixiante. Tentou balbuciar,
falar, gritar, mas Hendrik comprimiu sua boca
sobre a dela, enterrando a língua numa
garganta estrangulada. Seu corpo, esmagado sob
o desejo dele, flutuava envolto no aroma de Byzance.
A luz negra tingia as paredes com tons violáceos,
o teto era o céu, coberto de estrelas pulsantes,
desabando numa densa chuva meteórica. A
noite, a vida, o mundo, tudo acabara, só
o amor havia sobrevivido. |
|
Após
dois dias de ausência, Liz reapareceu no
apartamento depois do expediente no restaurante.
Julguei que, como sempre, só tivesse vindo
trocar de roupa, mas, contrariando a recente lei
que a movia, disse que ia passar a noite em casa,
e aproveitaria a folga do hotel no dia seguinte
para colocar a correspondência atrasada
em dia. Quem era aquela? Felizmente, nada comentou
sobre seu encontro com Hendrik.
Levantou-se
quando eu terminava de preparar o almoço.
Depois de comer, ela começou a escrever
cartas. Não sabia ainda se trabalharia
no BarHamas naquele dia, precisava telefonar para
certificar-se. Falou que como não tinha
conseguido tirar fotos de Hendrik para enviar
na carta de Daniel, deveríamos acabar com
o filme.
Às
três da tarde, saímos. Fizemos fotografias
no Vondelpark. Telefonei para minha família;
Liz, para o restaurante: não precisaria
trabalhar naquela noite. “Temos o fim de
tarde inteiro só pra nós!”,
falou, contente. A declaração me
surpreendeu, alegrou-me. Fizemos algumas fotos
no Centro. Depois tentamos ir ao cinema, mas o
filme no qual Liz estava interessada só
passaria às sete da noite. Achou que ficaria
tarde. Entendi que ela devia ter planos noturnos
com outra pessoa.
A
noite caiu tão depressa quanto a temperatura.
O súbito frio, aliado à andança
sem nexo que Liz empreendia na inviabilidade do
cinema, agora me fatigava mais do que divertia.
Nosso passeio numa Amsterdam gelada era um suplício.
A imagem de Hendrik havia surgido e se instalado
entre nós turvando meu contentamento.
Às
oito e meia estávamos em casa. Liz iniciou
um banho que prometia ser longo — preparava-se
para Hendrik. Quando fui ao lavabo, junto ao banheiro
no qual ela se lavava, vi a embalagem vazia de
seu absorvente íntimo no lixo. “Hoje
eles não vão transar”, pensei,
maldoso. Minha vingança contra Hendrik
seria praticada por Liz. No lavabo ao lado de
onde ela tentava se livrar dos vestígios
de sua miséria feminina, ri satisfeito,
apertando a descarga. |
|
Ansiosa
para encontrar Hendrik, excitada também.
Quando estava na fase de se livrar das serpentes,
o desejo por contato físico aumentava.
Que bom que havia Hendrik! Pedalando a bicicleta,
comprimindo-se contra o selim, antecipava sensações
que logo experimentaria com ele.
Procurou
ser prática. Sem dar a Hendrik tempo de
reagir, começou a abraçá-lo,
beijá-lo, despi-lo. Ele, parecendo gostar
da brincadeira, deixou-se manobrar por ela, que
o conduzia até o banheiro.
—
Ei, você está indo pro lugar errado...
— sussurrou ele — A porta do quarto
é a outra.
—
Eu sei. Vamos tomar banho... juntos. Eu quero
você... agora...
—
Não, Liz — protestou, desvencilhando-se.
— Sexo se faz na cama.
—
E quem foi que te disse isso? Vamos ser mais criativos!...
—
Eu sou bastante criativo na cama. No chuveiro
vai ser ruim.
—
Mas eu estou menstruada, vai ser melhor debaixo
d’água...
—
O quê?! Acha que eu vou transar com você
enquanto sangra! Ficou maluca? — falou,
indo para o quarto.
Um
balde de água gelada em seu corpo ardente.
Como Hendrik podia ser tão insensível?
Não, ele devia estar brincando. Sim, era
um jogo. A recusa de Hendrik só aumentava
seu desejo. Correu atrás dele.
—
Hendrik, não seja criança... Vem,
eu preciso de você... — disse, suplicante.
—
Pode desistir. Eu não vou transar com você
nesse estado. É... é... nojento!
—
Você está brincando?
—
Não estou não. É sujo, e
transmite doenças — falou, se vestindo.
— E depois, ver sangue me dá vontade
de vomitar.
Chocada
com a franqueza dele, custou a crer que sua excitação
teria que ser abortada.
—
Então a gente não vai transar hoje?
— insistiu, sabendo a resposta.
—
Eu perdi a vontade. Quando você estiver
melhor a gente transa.
—
Mas que bobagem, Hendrik. Só por causa
disso você me rejeita? Tem tanto nojo assim
de mim?
—
Eu não gosto de ver sangue, já falei.
—
Mas você não precisa olhar...
—
Não! — gritou. — Eu posso não
ver e não sentir, mas vou saber.
Hendrik
foi para a sala, sentou no sofá. Liz o
seguiu.
—
Tudo bem — disse, tentando mudar de tática.
— Posso te dar prazer de outro modo... —
completou, ajoelhando-se junto a ele, puxando
o zíper de sua calça.
—
Liz, espera...
—
Eu vou provar mais uma vez que não tenho
nojo de você.
—
Não, Liz — falou, detendo-a. —
Vamos deixar isso pra outro dia também.
—
Eu não te entendo. Quando eu cheguei você
parecia bastante interessado em mim. Foi só
eu dizer que estava menstruada e tudo mudou. Não
sabia que você era tão sensível.
—
Vamos pro quarto. A gente fica deitado, conversando
e fazendo carinho um no outro.
Teve
vontade de recusar as migalhas dele. Frustrada,
sentia como se uma guilhotina a houvesse decepado
da cintura para baixo.
Desanimada,
moveu o corpo mutilado até a cama onde
o dele, íntegro, livre de vergonhas e repulsas,
a esperava. Hendrik afagava os cabelos dela, que
sentia as mãos dele gélidas, desprovidas
de desejo. Teve vontade de chorar. O homem que
amava estava ali, tocando-a, mas era o mais inacessível
dos mortais. Nunca se acertariam naquele plano
tão importante? Como abrir a mente dele
para que aceitasse variantes? Quanto mais conhecia
Hendrik, mais se dava conta de que a modernidade
dele não passava de ilusão. Ou então
ele mudara muito. Teria Derek alguma coisa a ver
com aquilo? Hendrik continuava a acariciá-la
com mãos de cadáver. Triste, ela
adormeceu.
Sentiu
a cama vibrando. Desperta do cochilo, não
abriu os olhos. Seminua sobre o lençol,
sentiu frio, mas estava com preguiça de
levantar, se vestir. Estranhamente, a cama continuava
trepidando. Dormia ou sonhava? De repente, os
gemidos abafados de Hendrik. Abriu os olhos, apurou
os ouvidos. A cama tremeu mais forte, Hendrik
gemeu mais alto: orgasmo. Ela se levantou bruscamente,
pegando-o com a “arma do crime” numa
das mãos e o produto de que a privara na
outra.
—
Hendrik! O que significa isso?
—
Desculpa, eu achei que você estivesse dormindo
— disse, sem graça.
—
Por que você esperou eu dormir pra se divertir?
Por que não me deixou participar? Eu podia
me divertir também.
—
Você não ia saber fazer isso tão
bem quanto eu.
—
Mas eu podia ter feito coisas que você,
sozinho, nunca faria — falou, sentida. —
E o que te fez mudar de idéia? Você
não disse que era melhor a gente deixar
pra outro dia?
—
Só depois que você dormiu eu tive
vontade...
—
E por que não me acordou?
—
Então já acabou? Você está
boa de novo, não está mais sangrando?
Em
certos assuntos Hendrik era muito ignorante. Sem
responder, deu-lhe as costas, puxando o lençol
sobre si. |
|
Deixamos
passar tempo demais. Agora precisávamos
nos apressar. Segundo Liz, a polícia holandesa
exigia documentos vindos do Brasil. Somente depois
disso — e mais um mês de espera da
parte deles —, diriam se nosso casamento
seria permitido. No Rio, minha mãe tentava
obter a documentação necessária
a fim de enviá-la para Brasília,
como de praxe. Por telefone, ela me informava
que os procedimentos seriam lentos. Só
quando os documentos voltassem do Distrito Federal
seriam encaminhados ao Consulado dos Países
Baixos, para os vistos.
Liz
chegou abatida do BarHamas. Sem rodeios, disse:
—
Eu estou cansada dessa história, desse
namoro absurdo com o Hendrik.
Calado,
eu ouvia o início do seu relatório.
—
A nossa vida sexual é um desastre —
reconheceu. — Eu não posso fazer
o que quero, ele não faz nada que eu
gosto.
—
O que aconteceu dessa vez? — perguntei,
tentando ajudá-la.
—
Ele não quis transar comigo só
porque eu estava menstruada.
Minha
secreta vingança soou mesquinha. Não
via graça alguma no rosto triste de Liz.
—
Mas isso não foi o pior — prosseguiu.
— Ele se masturbou do meu lado, achando
que eu estava dormindo.
Bem
mais surpreso com a revelação
dos fatos do que com eles, eu me perguntava
o que Liz esperava de mim? Ela mesma depreciava
a relação que viviam.
—
Não sei o que dizer... — falei.
—
Eu sempre achei importante entrar numa relação
de coração aberto, sem medo de
pensar no que vai acontecer, aproveitando cada
instante. Mas ultimamente esses momentos têm
sido horríveis.
—
Eu pensei que vocês estivessem se acertando
— arrisquei.
—
Não é nada fácil se entender
com o Hendrik. Ele é um poço de
traumas, não confia em ninguém.
Eu gosto de uma parte dele, mas ele é
formado por muitas partes, e algumas eu detesto.
A gente precisava aparar arestas, mas isso vai
dar muito trabalho. Não sei se tenho
paciência.
—
Mas se o que te atraiu no Hendrik foi o jeito
diferente dele, você vai querer moldá-lo
agora em outro? Ele vai perder a autenticidade,
você vai acabar se desinteressando dele.
—
Mas sou eu que estou perdendo a minha autenticidade!
— falou, contrariada. — Acho que
a nossa diferença de idade está
atrapalhando. Ele é infantil, quer coisas
muito diferentes de mim...
—
Você sabia disso desde o início.
—
Pensei que não ia ser complicado transformar
um menino em homem.
Eu
custava a crer que Liz estivesse ouvindo suas
tristes palavras.
—
Estou desconfiada de uma coisa terrível
— recomeçou. — Acho que ele
tem AIDS.
—
E por que você acha isso?
—
São tantas restrições na
hora do sexo... nada de beijos, de sexo oral,
nem sem preservativos, muito menos quando eu
estou menstruada... Ele toma cuidados demais.
Só pode estar doente.
—
Uma vez você me falou que ele havia feito
uns exames...
—
Sim, mas sempre que eu toco no assunto ele desconversa.
Seu
discurso tinha adquirido um tom de preocupação
que me inquietou.
—
Não quero uma relação tão
limitada assim. Eu queria uma vida sem brigas
e sofrimentos.
|
|
Havia
passado os últimos dias ocupada com suas
atividades, tentando esquecer Hendrik. O casamento
com Leon exigia dedicação. Os trâmites
no Brasil seriam demorados, temia não conseguirem
resolver tudo a tempo. E se agissem paralelamente?
Por que não procurar os consulados do Brasil
e de Portugal? — talvez indicassem uma possibilidade
mais simples e rápida. Não custaria
tentar. Não se incomodava mais com o que
Hendrik pudesse pensar do casamento que lhe proibira,
não condicionaria seus compromissos às
vontades dele.
Não
tinha voltado a procurar Hendrik, ele havia feito
o mesmo. Duelavam numa batalha em que esperavam
ver quem primeiro se daria por vencido. Uma tarde,
voltando do hotel, num de seus fortuitos passeios
pelo Centro, deparou com a escola em que Hendrik
seguia seu interminável curso. Não
tivera oportunidade de conversar com ele sobre
aquele assunto. Intrigada, resolveu sondar o lugar.
Entrou, fazendo-se passar por alguém buscando
informações. A recepcionista detalhou
vários cursos, entregando-lhe prospectos
com preços e horários. As novas
turmas seriam abertas em um mês. Liz perguntou
se poderia conhecer as instalações,
a atendente não se opôs. Cautelosa,
seguiu por um corredor com portas que se abriam
para salas de aula, todas vazias. Onde estavam
os alunos? Onde estava Hendrik? O curso finalmente
havia acabado? Na última sala do corredor
ouviu vozes. Aproximou-se do vidro na porta. Discretamente,
pôde observar Hendrik com um professor.
Estranhou a aula particular, Hendrik sempre dissera
que sua turma era uma das maiores. Voltando à
recepção, perguntou sobre aulas
individuais. A recepcionista disse que o curso
não dava aquele tipo de aula. Indagando
sobre o aluno que assistia sozinho à aula
no fim do corredor soube que Hendrik havia sido
o único reprovado, agora tentava recuperar-se
na matéria em que se saíra mal.
A atendente acrescentou que aquele era um caso
especial, o aluno era protegido do diretor do
curso.
Deixou
a escola mais intrigada do que quando entrou.
Por isso a demora em terminar o curso. Por que
ele não havia contado? Vergonha? Talvez,
se houvesse lhe perguntado ele tivesse dito. Desde
que voltara a Amsterdam não tinha mostrado
muito interesse pelo que Hendrik fazia. Sentiu-se
mesquinha e egoísta. Por que a recepcionista
havia dito que ele era protegido do diretor naquele
tom malicioso? Que espécie de diretor se
disporia a manter funcionando o curso só
por causa de Hendrik? Que ligação
existia entre os dois? Seria o diretor a pessoa
que financiara o caro curso que Hendrik tinha
dificuldade em concluir? A troco de quê?
Um caso especial. Tinha medo dessa palavra
com múltiplas conotações.
Nunca sabia qual dos significados atribuir a ela
quando aplicada a Hendrik.
Encontrou
Leon preparando-se para sair. Perguntou se ele
queria ir com ela a Rotterdam, em dois dias,
quando teria nova folga no hotel. Explicou que
tinha se informado por telefone, os consulados
do Brasil e de Portugal ficavam naquela cidade.
Poderiam tentar o casamento lá. Leon
concordou. Liz achou que ele fosse desistir
do passeio e ficar para conversar, mas Leon
saiu, precisava enviar uma carta para sua mãe
com fotocópias das identidades deles.
Resolveu
descansar antes de ir para o BarHamas. Mas ainda
teria que telefonar para saber se estaria escalada
naquela noite. Desde que pressionara Mathias
a lhe assinar o contrato ele havia inventado
a história do rodízio de garçonetes.
Deitou,
procurando não pensar em problemas. Tinha
acabado de fechar os olhos quando ouviu a campainha:
dois toques. Levantou num salto. Abrir a porta
ou fingir que não estava em casa? Novamente
dois toques. Desceu, abriu a porta. O rosto
de Hendrik estava tenso, preocupado. Ele perguntou
se podia subir. Ela o deixou entrar.
Queria
que Liz o ajudasse. Estava tentando arranjar
emprego numa agência de viagens e, para
a seleção, precisava entregar
um currículo. Embaraçado, não
sabia o que escrever no documento, nem onde
fazê-lo. Mostrou um esboço tão
rasurado e confuso que ela se apiedou. Perguntou
a ele se o curso já havia terminado.
Hendrik respondeu que sim, mas estava devendo
uma matéria para obter o certificado.
Faria a prova escrita de inglês em uma
semana, estava certo de ser aprovado. As entrevistas
para o emprego começariam em duas semanas,
se fosse selecionado já teria o diploma.
Liz se comoveu com a história. Ele não
havia mentido, estava decidido a aproveitar
a chance. Arranjando trabalho, ocupando-se com
algo útil, ele se tornaria alguém
melhor. Hendrik lhe pedia ajuda, favor que só
ela parecia capaz de fazer; olhava-a num misto
de apreensão e esperança, seu
rosto nunca estivera tão belo. Liz pediu-lhe
para ficar tranqüilo, iriam a um bureau
de informática, tudo se resolveria.
—
Pronto! — disse ela, quando acabou de
imprimir o currículo. Entregou as impressões
a ele, levantou-se.
Hendrik
foi ao balcão pagar pelo uso do equipamento.
Liz se dirigiu ao telefone público, dentro
do bureau, para saber se tinha sido escalada
no restaurante. O telefone do BarHamas estava
ocupado. Fez outra tentativa. Hendrik passou
por ela como se não a tivesse visto,
abriu a porta de saída sem nada dizer.
Ficou
com raiva por ele ir embora sem sequer agradecer.
Sempre tinha a sensação de apenas
ser usada, uma máquina destinada a servi-lo.
Mas não se arrependia de tê-lo
ajudado: ele não poderia acusá-la
de se negar a auxiliá-lo num momento
de necessidade.
Continuou
tentando ligar, até que conseguiu falar
com o BarHamas. O gerente disse que ela não
precisaria trabalhar naquela noite. De repente,
Hendrik apareceu com cara enfezada.
—
Eu estou lá fora todo esse tempo te esperando
— reclamou. — O que você ainda
está fazendo aí?
—
Achei que você tivesse ido embora —
justificou-se. — Eu disse que precisava
telefonar, lembra?
—
E eu disse que ia te esperar lá fora.
Se eu tivesse mesmo ido embora, você ia
me deixar ir assim?
—
E nunca mais ia te procurar — falou, irritada.
Deixou o bureau. Hendrik a seguiu.
—
Você quer terminar o nosso relacionamento,
não quer? — perguntou ele.
—
Relacionamento? Você chama isso de relacionamento?
A gente só sabe transar e brigar, nada
mais. Pra mim chega!
—
Quem está terminando é você,
não eu.
—
Tudo bem, eu assumo as minhas responsabilidades
— disse ela. — É só
isso? Então, seja feliz!
—
Você também — falou, virando-lhe
as costas e indo embora.
Ficou
observando-o para certificar-se da realidade
tantas vezes ensaiada e tantas vezes abortada.
Seguiu na direção oposta. Tinha
dado poucos passos quando o ouviu chamando-a
da esquina. Ele correu ao encontro dela.
—
Vem agora comigo ao meu apartamento —
ordenou. — Eu quero te devolver os malditos
livros que você me deu. Não vou
ficar olhando pra eles e me lembrando de você.
No
caminho, Hendrik só reclamava. Liz o
ouvia, muda, contando os minutos para se livrar
dele definitivamente.
—
O Derek tinha razão — falou ele,
na entrada do prédio. — Você
não me ama, não é a pessoa
certa pra mim.
—
Você acha que uma relação
saudável é esse eterno tormento,
essas brigas constantes?
—
A gente não briga tanto assim. Isso faz
parte da vida a dois.
Assim
que entraram, Liz pegou os livros e os colocou
numa sacola. Quando Hendrik percebeu que ela
estava mesmo determinada a pôr fim no
caso deles, falou:
—
Estou decepcionado. Eu só estava te testando.
Não esperava que você desistisse
tão fácil assim. Quando eu perguntei
se você queria terminar a nossa relação
esperava uma resposta negativa.
—
É melhor a gente se separar agora. Depois
de amanhã eu vou me casar com o Leon.
Quando eu fosse te dar a notícia você
ia querer terminar o namoro outra vez.
—
Então é isso! Você armou
tudo! Criou motivos pra me fazer sentir culpado.
Discutiram,
defendendo seus pontos de vista. Ao final, Hendrik
disse:
—
Liz, eu não quero desistir de você.
Por favor, não me abandona...
Ele
a abraçou prometendo pensar na história
do casamento.
|
|
Liz
reclamava de dores nas mãos, ressentidas
pelo trabalho no hotel. Entreguei a ela uma carta
recebida pela manhã. Abriu o envelope achando
que era mais um dos muitos comunicados de que
não fora aprovada para determinada vaga.
Mas não. Uma empresa americana em implantação
na cidade precisava de pessoal qualificado, Liz
estava sendo chamada para uma entrevista naquela
tarde. Ficou animada. Ao que tudo indicava a empresa
não exigia que se falasse holandês
para ocupar um bom cargo. O trabalho devia ser
mais leve, o salário maior. A entrevista
estava marcada para pouco antes do horário
em que ela começaria o turno no BarHamas.
Resolveu ligar para o restaurante inventando uma
desculpa.
Vestiu
sua melhor roupa, comeu alguma coisa na cozinha
e saiu.
Fiquei
em casa, sem vontade de dar passeios inúteis,
sem ânimo para escrever bobagens, sem sono
para fugir do tédio. Seria realmente tão
simples casarmos em Rotterdam? Não tinha
muitas esperanças, mas não achava
justo me opor ao empenho de Liz. Aceitando casar
comigo ela enfrentava Hendrik. Não, devia
ser despeito por estarem novamente estremecidos.
Contou
que havia gostado muito da empresa. O entrevistador
deixou transparecer que ela se saíra
bem. Agora era esperar nova carta avisando a
etapa de seu processo de seleção.
A empresa vendia acessórios e equipamentos
de informática para a Europa, precisavam
de atendentes que falassem português e
espanhol. Estava satisfeita, achava que tinha
boas chances de conseguir uma vaga.
Fizemos
o jantar. Comemos. Como levantaríamos
cedo no dia seguinte para ir a Rotterdam, achei
que Liz passaria a noite comigo. Mas ela disse
que precisava ver Hendrik, se não voltasse
àquela noite, nos encontraríamos
de manhã na Centraal Station.
|
|
O
que Hendrik teria decidido sobre casamento dela
e Leon?
Dois
toques no botão do interfone. Nada. Mais
dois toques. Nada novamente. Olhou o relógio:
onze e meia da noite, ele já devia estar
em casa, depois do encontro com Derek.
Enregelada
pelo frio, perambulou ao redor do conjunto habitacional
para matar tempo.
Meia
hora mais tarde, nova tentativa. Hendrik não
respondeu. Fugia dela? Fingia não escutá-la?
Contra a vontade, tocou o interfone na porta do
prédio de Derek, indagou por Hendrik. Sim,
ele estava lá. Pediu a Derek que avisasse
a Hendrik para descer.
Hendrik
surgiu na porta do prédio recriminando-a
por tê-lo procurado no apartamento de Derek.
Ela teve vontade de ir embora dali mesmo, mas
Hendrik abriu a porta de seu prédio convidando-a
entrar. Cedeu.
Na
sala, ele continuou a reclamar. Liz imaginou que
Hendrik devia ter inventado mentiras a Derek para
continuar sua amizade com ele, seu relacionamento
com ela. Teria dito que não a via mais,
que tinham rompido? Que concessões Derek
teria feito se Hendrik não mentisse? Sentiu-se
presa a um jogo incerto. Precisava fazer o próximo
lance. Perguntou o que ele havia decidido sobre
o casamento dela com Leon. Deveria ir embora ou
passaria a noite com ele?
—
Você não só vai passar essa
noite comigo, mas também todas as outras
— declarou.
—
Não entendi.
—
Eu deixo você se casar com o seu amigo,
desde que vocês nunca mais passem as noites
juntos.
Ainda
não confiava nela. Talvez jamais confiasse.
Ditava uma ordem a ser obedecida. Aquilo a irritava,
sentia-se humilhada tendo que se moldar aos pedidos
dele. A exigência em si não tinha
nada de mais, ela já vinha procurando dormir
todas as noites no apartamento dele. O que a desagradava
era ter de aceitar a proposta de Hendrik como
se, recusando-a, perdesse a melhor oportunidade
de sua vida. Por outro lado, ele aceitara e compreendera
o casamento dela com Leon. No fundo, tudo acabava
sendo uma troca, talvez injusta, mas uma troca.
—
E então, não vai falar nada? Você
concorda ou não? — perguntou ele.
Cansada,
Liz tirou o sobretudo, entrou no quarto, deitou
na cama de casal. |
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Para
quem não entendia holandês, a Centraal
Station era um local confuso. Depois de muito
andar em busca do guichê apropriado, compramos
bilhetes de ida e volta para Rotterdam. Demoramos
a encontrar a plataforma certa. Sentada no banco,
de frente para mim, Liz não tardou a fechar
os olhos e dormitar. Devia ter se esforçado
para chegar cedo à estação.
Seu rosto cansado, sua mudez me faziam imaginar
que talvez tivessem brigado novamente. Ela me
poupava nada comentando sobre a noite passada.
Eu poupava a nós dois não perguntando
o que quer que fosse.
O
trem seguia seu curso, eu observava ora a paisagem,
ora o rosto de Liz. O panorama era belo, quanto
mais o olhava, mais me encantava. Que contraste!
De repente, como me pareceu feio o rosto de Liz!
Rugas vincavam-lhe os cantos da boca, bolsas inchadas
sob os olhos pesavam-lhe o semblante, a fisionomia
intumescida a deformava. Liz estava acabada, envelhecida.
Quanto mais a olhava, mais horrível ela
parecia. Aquele rosto havia sido tão jovial,
alegre!... como podia, em tão pouco tempo,
se transformar naquela máscara disforme?
Não, eu não a amava mais. Diante
daquele ser estranho senti repulsa. Tudo em Liz
me causava horror: rosto, corpo, atitudes, palavras...
Tudo em mim me desagradava: pensamentos mesquinhos,
situação incerta, futuro opaco...
Voltei-me
para a paisagem. Vastas manchas de tulipas e outras
flores iluminavam o campo cinzento. Ali também
a primavera parecia apressada. Moinhos de vento
surgiam de vez em quando em meio aos canteiros
floridos. Senti vontade de acordar Liz, mostrar
aquelas maravilhas, mas o desejo morreu quando
tornei a encontrar seu rosto de olhos fechados.
Chegamos
a Rotterdam uma hora mais tarde. Levamos algum
tempo para nos situarmos no centro da cidade.
Indecisa a princípio, Liz resolveu ir primeiro
ao Consulado Português. Explicou nossa situação
a um senhor atrás do balcão. Com
frieza desconcertante, foi informada de que, antes
de qualquer coisa, precisaria fazer a inscrição
consular de Portugal. Preencheu formulários,
mas não pôde validá-los por
não ter as fotografias exigidas. Antes
de estar devidamente inscrita, os funcionários
se recusavam a dar outras informações.
Pareciam fazer tudo para dificultar o que deveria
ser um direito que Liz possuía como cidadã
portuguesa. Voltamos à estação
de trem, onde havíamos visto uma cabine
automática de fotos.
Quando,
após três minutos, Liz olhou as fotografias,
começou a troçar de si mesma. Rindo,
dizia ter ficado horrenda. Não mentia.
Não consegui controlar o riso, que ocultou
meu choque. A máquina automática
havia captado com fidelidade espantosa o rosto
da estranha criatura que viajava comigo no trem.
“Nas fotos dessas máquinas todo mundo
sempre sai feio”, falei para descontraí-la.
Eu mentia. As fotografias não eram de má
qualidade.
Aproveitando
a volta ao Centro, fomos ao Consulado do Brasil,
num prédio ao lado da estação.
Depois de explicarmos o caso, a atendente se mostrou
confusa em indicar a melhor opção,
Liz poderia se inscrever nos dois consulados.
Total burocracia. Exigiam a mesma papelada solicitada
em Lisboa.
Retornamos
ao Consulado de Portugal. Tensos, desanimados,
não conversávamos. Talvez, se falássemos,
teríamos dito exatamente o que o outro
pensava, tudo o que não queríamos
ouvir. O funcionário que havia atendido
Liz anteriormente reclamou que as fotografias
não eram coloridas, não serviriam
para o documento, ela ficara muito feia. Com enorme
paciência, sorrindo, Liz perguntou se ele
não podia abrir exceção no
caso dela. O funcionário cedeu.
Tivemos
que esperar mais de uma hora para o documento
ficar pronto. Ao final, o homem nos entregou a
lista de exigências para que pudéssemos
requisitar a autorização ao casamento.
Um mundo de papéis, normas e regras impossíveis
de cumprir no prazo que eu dispunha.
Deixamos
o consulado desiludidos. Nosso casamento estava
fadado a nunca se realizar. |
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Acordou
no meio da manhã. Cabeça pesada,
corpo dolorido, garganta arranhando. Devia ter
se resfriado. Olhou o despertador na mesa de cabeceira:
demasiado atrasada para o trabalho no hotel. Fechou
os olhos, esgotada. Num esforço, virou
para o outro lado. Hendrik não estava lá,
mas tinha deixado um bilhete: “Não
te acordei hora que pediu. Você cansada.
Fui ao curso. Volto tarde.” Sincopado como
um indígena usando um idioma que não
domina. Talvez ele ainda precisasse estudar muito
para passar no exame em que fora reprovado.
Levantou-se
meia hora mais tarde. Assim que deixou o quarto,
Plexus e Nexus correram para ela. Alimentou-os.
Não tinha apetite, tomou um copo d’água,
voltou para o quarto. Sentou na cama, sem saber
o que fazer. Observou o ambiente ao redor como
se avaliasse parte de seu futuro. Viver com Hendrik
seria estar confinada àquele aposento?
A cama desfeita insinuava que sim. A janela fechada
reforçava a insinuação. Uma
prisão, cela sem grades à qual ela
se sentia acorrentada. Levantou, começando
a retirar a roupa de cama. Hendrik trocava diariamente
fronhas e lençóis, embora ela achasse
aquilo desnecessário resolveu lhe adiantar
o serviço. Procurou roupa de cama limpa
no armário. Na primeira gaveta encontrou
três caixas fechadas. O que continham?,
indagou sua curiosidade. Abrindo uma delas, achou
a maioria das cartas e fotos que enviara a Hendrik.
Abrindo outra caixa, encontrou fotografias de
pessoas que não conhecia. Uma garota segurando
um prato com um pedaço de bolo. Quem seria?
A namorada que ele dizia ter na cidade em que
moravam seus pais? Não encontrou fotografia
de ninguém que identificasse como da família
dele, nem fotos de Hendrik criança. Onde
estava guardado o passado dele? Quem eram aquelas
outras pessoas, apenas amigos? Rapazes negros,
orientais, louros, morenos... Uma mulata obesa,
com enormes unhas vermelhas, cabeleira ruiva e
roupas extravagantes chamou sua atenção.
Virando a foto, leu a dedicatória, em inglês:
“Com amor, R.” Quem seria aquela criatura
em pose tão teatral, ridícula até?
Quem era aquela gente estranha? À exceção
da menina com o bolo e da mulher gorda, as outras
fotografias eram de homens. Por que não
havia nenhuma foto de Hendrik? Na última
caixa encontrou receitas de remédios e
exames. Embaixo dos papéis achou um envelope.
Abriu-o. Seu domínio do holandês
era limitado, mas conseguiu perceber que eram
resultados de testes de AIDS.
Estremeceu: dois dos quatro exames eram positivos.
Não compreendia. Lendo com redobrada atenção,
observando as datas, verificou que o primeiro
resultado havia sido positivo, o segundo, negativo,
o terceiro, positivo, e o quarto novamente negativo.
Como era possível? O que significava aquilo?
Ele estava doente ou não? Seu coração
disparado queria arrebentar. O intervalo entre
as datas era de três meses, mas os resultados
se alternavam, o que fazia tudo perder o sentido.
Por que Hendrik nunca falara dos exames? “Agora
não estou mais doente...”
a frase dele ecoou em sua mente ganhando novo
significado. Devia estar se referindo ao último
resultado... E agora, estaria doente outra vez?
E ela, estava contaminada? Se Hendrik fosse soropositivo,
a probabilidade de Liz não ter contraído
o vírus era remota. Seu coração
latejava como uma ferida recém-aberta.
Pela primeira vez na vida sentiu terror, algo
tão profundo e intenso que a deixou sem
ação. Paralisada diante da gaveta,
exames nas mãos, trancafiada no quarto,
vislumbrou seu futuro como um tempo limitado,
negro, triste. A morte estava dentro dela, corroendo-a
devagar e silenciosamente. Condenada à
morte, condenada também a Hendrik. Ele
não podia ter feito aquilo, devia tê-la
prevenido, ela tinha direito de saber. Perdida
entre o choque da descoberta e a revolta da impotência,
não conseguia se mover, com medo de se
desmantelar em mil pedaços. As lágrimas
rolaram por suas faces lívidas. Estava
morrendo. Não poderia perder tempo, talvez
ele não fosse muito longo.
Guardou
tudo nas devidas caixas, apanhou a roupa de cama
na gaveta de baixo, levantou-se. Ainda estava
inteira, mas essa imagem era falsa. Fez a cama
com má vontade, juntando as peças
de um quebra-cabeça odioso. Agora entendia
porque Hendrik sempre trocava os lençóis;
porque, apesar do frio no quarto, ele transpirava
à noite; a roupa de cama sempre perfumada...
A toxoplasmose que ele desenvolvera... Como não
tinha ligado antes os fatos que agora eram evidentes?
Há quanto tempo ele estaria doente? Como
contraíra o vírus? Teria contaminado
outras pessoas? Cada pergunta se desdobrava em
nova série de questões, sem resposta.
Não sabia mais o que fazer. Esperar Hendrik
ou fugir dele? Em todo caso, tarde demais para
escapar.
—
Você ainda está aqui? — disse
ele, entrando no quarto. — Desculpa eu não
ter te chamado...
—
Por que você não me contou? —
interrompeu-o.
—
Contou o quê? — perguntou, franzindo
a testa.
—
Eu achei os seus exames — disse, apontando
o armário. — Por que não me
falou deles?
—
Você mexeu nas minhas coisas?
—
Por que você não me contou, seu desgraçado?
— repetiu, segurando-o pelos ombros.
—
Eu não estou mais doente!
—
Como não? Eu vi os resultados!
—
No último teste os resultados foram negativos!
Eu estou bem agora...
—
Ninguém se cura dessa doença! O
resultado do último exame devia estar errado.
—
Não, foi feito três vezes! Eu estou
bem agora, Liz!
—
Isso não existe! É claro que houve
algum erro.
—
Os médicos também não souberam
explicar. Eles queriam que eu voltasse ao hospital,
fizesse outros testes. Disseram que precisavam
me abrir, eu era um caso especial. Eu fiquei com
medo, não queria ser cobaia nas experiências
deles.
—
E por que você não me contou nada
disso?
—
Eu tive medo que você não acreditasse
em mim, que me deixasse, como os outros... É
difícil falar disso...
Hendrik
não parecia mentir, mas como confiar nele
depois de tudo? Sentia raiva e pena.
—
Você é um egoísta. Não
confiou em mim em momento algum. Eu provando o
meu amor, a minha confiança... e você
me contaminando. Como pôde fazer isso comigo?
Achei que você gostasse de mim...
—
Mas eu gosto, Liz. Eu... eu... estou bem agora...
—
Você me odeia! Só quis me usar, sem
se preocupar com o que eu sentia.
Ela
chorava, sua amargura tinha gosto de despedida.
Vestiu o sobretudo, apanhou a bolsa e encaminhou-se
para a porta. Hendrik tentou detê-la, mas
Liz se desvencilhou dele. Desceu as escadas, montou
na bicicleta, deixou o bairro. |
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