Na HOF, empresa que mantinha convênio com hotéis na cidade, foi explicado aos integrantes da turma as regras a que deveriam submeter-se para ingressar nas promissoras atividades do sistema hoteleiro local. Liz sentia-se constrangida ao lado dos demais interessados, aparentemente tão necessitados quanto ela.
            No período de treinamento ganhava-se 1.300 gulden; o contrato de trabalho após a fase de experiência aumentava o salário para 1.700 gulden. Liz recebeu dois uniformes, que deveria se esmerar em cuidar, qualquer dano à roupa seria descontado. Foi designada para um hotel em Amstelveen, bairro afastado ao sul de Amsterdam, onde receberia mais instruções e assistiria a palestras. Lugar distante demais para ir de bicicleta. Tomou o metrô.
            O Grand Hotel Amstelveense era imponente: dez andares, quatro estrelas. A fachada, ornada por varandas de mármore, portas de vidro e toldos laranja, dava ao prédio um ar quase extravagante em meio à área verde em que ficava.
            Foi recebida pela amistosa gerente, vestida num alinhado uniforme, que a encaminhou até a sala onde estavam os outros candidatos. Não eram muitos, sete moças e dois rapazes.
            A gerente foi prática e direta no esclarecimento das normas para a limpeza e arrumação dos 91 quartos e 20 suítes. Foi mostrado um filme com os procedimentos básicos, enfatizando não o que fazer, mas o que não fazer naquele amontoado de regras a aprender. No fim da sessão, metade dos pretendentes havia partido.
            No caminho de volta, Liz pensava com alívio duvidoso na possibilidade de ser contratada pela HOF. O serviço era duro, precisaria de tempo para se acostumar.
            Trabalho menor. Grande esperança. Onde estavam as magníficas ofertas de emprego que haviam acenado para ela de forma promissora quando da primeira vez em Amsterdam? Esquecera um detalhe importante: falar holandês. As boas ofertas de trabalho, os melhores cargos e vagas dependiam do conhecimento daquela língua quase extinta. Isso limitava a maioria dos estrangeiros a serviços que os holandeses não estavam mais dispostos a fazer. Difícil competir em pé de igualdade com os nativos. Liz possuía nível superior, falava inglês, espanhol e português, dominava programas de computador... e, por não falar holandês, todo o seu saber era inútil. Quando pensara em se mudar para Amsterdam, não se imaginava trabalhando naquele tipo de emprego. Não que o achasse humilhante, mas desperdiçava os conhecimentos acumulados ao longo de anos de estudos e vivências. Sempre havia detestado limpar e arrumar — inclusive suas próprias coisas —, agora ganharia a vida arrumando a desordem e limpando a sujeira alheia. Não tinha escolha. O dinheiro levado para o início da vida na cidade havia acabado. Leon já começava a pagar as despesas dela. Não era justo. Não gostava de depender de quem quer que fosse — principalmente de alguém que já ajudara tanto, a quem ela nada tinha dado em troca.
Chegou tarde para o almoço. Leon não estava, mas tinha deixado a refeição pronta. Sentia falta dele, mas via sua ausência com alívio. Gostava de conversar, contar o que lhe acontecia, mas às vezes era melhor estar sozinha. Percebia que sua vida agitada, cheia de novidades era uma afronta à monotonia e tédio que Leon vivia — desequilíbrio que só os afastava. Difícil manter o ânimo confrontando tantas diferenças.
            Passou no local onde Billy ensaiava com a banda. O Caldeirão era um bar brasileiro encravado no meio do quarteirão que abrigava grande parte dos restaurantes e bares da cidade. A fachada feia e suja não seduzia. No modesto interior da casa, apenas um micro palco diante de um espaço bastante reduzido ladeado por um diminuto bar. Billy orientava cinco músicos que se equilibravam no tablado. Assim que ele a viu, parada na porta, pediu que ela se aproximasse. Apresentou rapidamente o pessoal da banda.
            — O que é mesmo que você sabe fazer, minha filha? — perguntou a Liz.
            — Eu sei cantar, toco teclado e também um pouco de violão — respondeu.
            — Ótimo! Sobe no palco, ajusta o microfone pra sua altura e pode começar.
            — Mas o que eu vou cantar?
            Billy deu o nome de alguns dos hits mais pedidos pelo público, mas Liz não sabia a letra de nenhuma das músicas. Impaciente, Billy começou a cantarolar as canções enquanto ela tentava aprender o ritmo ao mesmo tempo em que copiava as letras em guardanapos de papel. Billy era a pressa em pessoa, tudo tinha que ser rápido, sem falhas. Liz nem teve tempo de se decepcionar com o repertório. No estreito palco, ao som dos instrumentos, cantava músicas que detestava, lendo a letra com uma das mãos e com a outra batendo pandeiro no quadril.
            Sentia-se ridícula. Billy insistia que ela também rebolasse. Liz requebrou-se o melhor que pôde. Representando a pantomima, pensava se realmente precisava daquilo. Dinheiro. No fim daquela comédia receberia as notas que lhe faziam falta. Precisava relaxar, se divertir com a situação. As músicas eram horríveis, mas o som do grupo não era ruim. Como gostava de dançar, empenhou-se na encenação, enquanto cantava os pobres refrãos.
            — No começo, eu te achei meio dura, mas depois você entrou no clima — falou Billy, ao fim do ensaio. — Você está aprovada. Volta aqui no fim da semana que vem com as letras decoradas. A gente toca na madrugada de sexta pra sábado e de sábado pra domingo.

            Tenso demais para escrever bobagens, espionar a vizinhança, me dedicar a romances inviáveis. Estou confuso. Não sei se quero mesmo ir embora ou se persisto na idéia de continuar aqui. Voltar para onde? Ficar aqui por quê?
            Há mais de um mês espero. Espero e observo a vida dos outros. Eles vivem. Eu vegeto.

            A carta de Verônica levou apenas dois dias para chegar. Cansado de esperar, eu tinha lhe escrito fazendo novas perguntas. Verônica se espantou que ainda não nos tivéssemos casado, indagava o porquê da demora. O que dizer?, que o namorado de Liz não transaria mais com ela se nos casássemos? Verônica recomendava não perdermos mais tempo. Eu deveria adiar imediatamente o dia do meu embarque no prazo máximo de validade da passagem. Sugeriu que fôssemos à polícia de estrangeiros para sabermos as exigências do nosso caso. Seu tom aflito me contagiou. Eu precisava decidir depressa: ficar ou partir?
            Nas Páginas Amarelas achei o endereço da companhia aérea pela qual fizera a viagem. Apreensivo, entrei no prédio moderno na movimentada avenida do outro lado do Vondelpark. Em espanhol, fui informado de que a agência precisava solicitar autorização ao Rio de Janeiro para alterar a data de embarque. Eu tinha que voltar no dia seguinte para saber a nova data de retorno.

            Liz chegou para o almoço na hora em que eu começava a servir meu prato. Seu abatimento me impressionou, parecia exausta. Não me atrevi a perguntar o motivo para as olheiras que lhe deformavam o rosto.
            Na sala, sentados nas poltronas, apoiando os pratos na mão e manejando com a outra o garfo, comíamos. Como Liz se mantinha calada, falei sobre a carta de Verônica, e a minha ida ao escritório da companhia aérea. Ela pareceu contente por eu ter procurado alterar meu dia de embarque. Desanimada, falou sobre o treinamento no hotel, o ensaio com a banda. Estava cansada, não tinha dormido bem. Reclamava como era desagradável acordar cedo para chegar na distante Amstelveen a fim de assistir a desinteressantes palestras.
            Liz se empenhava, mas parecia humilhada. E eu me sentia-me responsável por seu empenho, como se lhe apontasse uma arma imaginária forçando-a a fazer o que não queria.

           O período de experiência não seria tão curto quanto esperava, quanto necessitava que fosse. Pelo menos um mês ainda sendo orientada, testada, avaliada. Tempo demais. Precisava logo do contrato certificando que poderia sustentar duas pessoas. Mas nada garantia que após a fase inicial teria vínculo empregatício com o hotel.
           Por enquanto, precisava obedecer ordens, se esmerar no trabalho, demonstrar uma eficiência que jamais tivera. O uniforme a deixava feia. O incômodo tecido listrado de azul e branco não tinha caimento, a barra do vestido era longa demais, o avental repleto de bolsos, a touca branca escondendo os cabelos... A primeira vez que se viu uniformizada sentiu vergonha — e alívio por saber que nenhum amigo ou familiar a veria daquele modo. O que diria Hendrik? Ainda não havia falado com ele sobre seu novo trabalho.
           E tinha que limpar de tal jeito, arrumar de outro, usar os produtos adequados... seqüência de procedimentos que não devia ser alterada. Mas quase sempre se perdia. Atrapalhava-se com baldes, flanelas, espanadores, escovas... Às vezes achava que o supervisor fazia vista grossa para suas confusões. O mais humilhante não era o serviço em si, mas a presença constante de alguém lhe dando ordens, vigiando e repreendendo. E ela varria, espanava, aspirava, lavava, encerava... De sua eficiência naquelas tarefas dependia seu futuro, e o de Leon.

           Cansada, no caminho de volta para casa, cochilou no metrô. Acabou descendo duas estações depois da que costumava desembarcar. Precisava retornar para apanhar a bicicleta. O cochilo a fez sentir-se disposta. Estava há pouco mais de um mês na cidade e ainda não passeara despreocupada. Por que não relaxar e se distrair naquele instante? Em vez de fazer o caminho mais curto até onde havia deixado a bicicleta, seguiu em direção ao Bloemenmarkt. Gostava de ver o mercado de flores flutuando em pleno canal, os buquês coloridos e perfumados que arranjavam mesmo no inverno. Agora, com a primavera começando a despontar, a variedade de flores era ainda maior.
           Seguiu apreciando vitrines, entrando numa loja de vez em quando, olhando apenas. Gostaria de ter a situação definida, um emprego que lhe permitisse enfeitar sua casa. Queria ser habitante da cidade, com direito a adquirir as belezas diante de seus olhos. Quando tudo desse certo ficaria feliz em ser uma das pessoas carregadas de pacotes e bolsas recheados de maravilhas. Nunca fora consumista, mas, naquele período de privação, o paraíso de belas mercadorias acabava exercendo forte poder sobre ela.
           Entrou numa rua cheia de bares e restaurantes. Um cartaz colado numa porta, escrito em espanhol, convidava quem o lesse a trabalhar na casa. Olhou a fachada do restaurante, o nome curioso: BarHamas. Entrou. Em espanhol, dirigiu-se ao senhor obeso atrás do balcão, comentando o cartaz. O homem sorriu.

            Consegui alterar a data de retorno ao Brasil. Tenho pouco mais de um mês pela frente. Nova espera. Terei feito a coisa certa? Liz não estava disposta a ceder na questão do casamento, eu não ousava contrariá-la. A carta de Verônica, bastante elucidativa para mim, não havia surtido o mesmo efeito em Liz. Voltando para casa, atravessando o parque, oscilava entre a esperança de resolver o caso a contento, e a angústia em prolongar um sofrimento desnecessário.
           O Vondelpark se modificava. O inverno ainda não havai terminado, mas a primavera apressada já se fazia sentir. As extremidades dos galhos secos começavam a esverdear numa profusão de pontos que se tornariam folhas. Algumas plantas lançavam flores desavisadas. Por baixo da superfície gelada a terra fervilhava de vida. A natureza parecia agitada em mostrar seu esplendor de formas, cores e aromas, deixando todos alegres com a estação na qual tudo renasce depois de um período sombrio. Identifiquei-me com o momento que parecia me dizer respeito. Seria um sinal de que ainda era cedo para desistir? Talvez. Isso me animou.

           Agora raramente Liz dorme em nosso apartamento. Habituei-me a passar as noites sozinho, elas combinavam com meus dias solitários. Eu me esforçava para tudo dar certo. Preparava comidas que lhe agradassem, diminuía seu trabalho na casa, tentava diverti-la quando a via triste... mas tudo o que eu fazia estava sempre aquém do que Liz desejava.
           — Adivinha o que eu fiz ontem de sete às dez? — perguntou sorridente, quando chegou.
           — Trabalhou?... — falei a única coisa que me ocorreu.
           — Sim! — disse ela, com alegria.
           Contou sobre o emprego que havia conseguido como garçonete num restaurante caribenho. Estava no período de experiência, que duraria uma semana. Por três horas de trabalho tinha recebido 30 gulden. Seu contentamento contagiou-me, alimentando ainda mais minhas esperanças de primavera.
           Liz se pôs a memorizar os complicados nomes dos pratos do cardápio que havia trazido para estudar — não queria se atrapalhar com os clientes. Esperava ser contratada o mais rápido possível. Eu estava contente com a satisfação dela. O dinheiro não era muito, mas somado ao salário que receberia quando contratada pelo hotel parecia um bom começo.           
            O BarHamas era um local agradável. Mobiliário simples, paredes revestidas por lambris, quadros com imagens do Caribe, Antilhas e Bahamas... A descontração do ambiente atraía clientela variada. No primeiro dia, Liz prestara mais atenção ao funcionamento da casa do que propriamente ao trabalho. Agora atenderia os clientes. Mathias, dono do restaurante, era simpático e falante. O gerente, um argentino sisudo. Havia mais duas garçonetes: Kati, uma japonesa engraçada cheia de regalias, e Paola, uma italiana muito estressada. Jonas, o cozinheiro brasileiro, simpatizou com Liz assim que a viu.
            Mathias e o gerente a orientaram: abordagem ao cliente, esclarecimento dos pratos, anotação dos pedidos e entrega na cozinha, forma atenciosa de servir, entrega da conta, recebimento do dinheiro ou cartão, operação da caixa registradora... Etapas que não lhe pareceram complexas, questão de prática. Quando se viu atendendo cinco mesas com pessoas que haviam chegado em horários diferentes, pedindo comidas e bebidas distintas, sentiu-se aturdida. Kati e Paola atendiam suas respectivas mesas com desenvoltura invejável, sorridentes e gentis. Um pouco tensa, Liz destoava. As duas veteranas agiam como se a novata fosse tão experiente quanto elas. Querendo se mostrar independente, Liz não lhes pediu ajuda. Quando o BarHamas ficou cheio, ela sentiu-se participando de uma espécie de maratona.
            Apesar do nervosismo e algumas pequenas confusões, tudo transcorreu bem. Achou que quando os últimos clientes saíam o serviço terminava. Mas não: no fim daquela correria, ela e as outras duas tinham que ajudar Jonas a lavar a louça. Por causa do movimento, tinham trabalhado uma hora a mais, e Liz nem se apercebera disso.
            Somente depois do trabalho era permitido aos funcionários comerem alguma coisa. Exausta, tendo visto a noite toda vários tipos de comida, sentia-se enjoada. Estava com fome, mas não conseguia se imaginar comendo aqueles pratos apimentados. No momento em que lhe pagava a diária, Mathias disse que tinha gostado muito dela.
            Liz chegou quando eu me preparava para dormir. Em tom agitado, disse que por trabalhar uma hora a mais tinha recebido 45 gulden. Com a mesma rapidez que falava, desamassou as notas, colocando-as ao meu lado.
            — Abate esse valor na quantia que eu estou te devendo — falou.
            O pagamento de sua “dívida” parecia aliviá-la. Apressada, foi para a cozinha. Enquanto mexia nos pratos e panelas, tentava conversar comigo, ainda na poltrona. O trabalho no restaurante era confuso, ainda não sabia atender tanta gente ao mesmo tempo... Pretendia ir a uma boate com entrada gratuita, mas precisava convencer Hendrik...
            Estranhei que ela ainda estivesse com fome, tinha me dito que os funcionários podiam jantar depois do serviço. Também achei estranho que tivesse disposição para dançar, imaginava que ficaria cansada.
            Retornou à sala com o prato cheio. Viu-me quieto e imóvel na poltrona. Disse então a maldita frase que tanto me intimidava, e com a qual nada conseguia arrancar de mim:
            — Fala, Leon.
            Queria mesmo me ouvir? Com a pressa que demonstrava era pouco provável.
            — O Mathias, o meu patrão, disse que eu já estou empregada — falou, ante a minha mudez.
            — Mas você não estava no período de experiência?
            — Eles estão precisando desesperadamente de alguém pra ocupar a vaga. O lugar é muito movimentado! O Mathias perguntou se eu queria trabalhar no “preto” ou no “branco”.
            — E o que é isso?
            — Clandestinidade e legalidade — explicou. — Eu pedi pra trabalhar legalmente, por causa do contrato de trabalho. Ele disse que, no “branco”, só podia me pagar vinte horas semanais, senão eu ia sair muito cara. Mas falou que podia pagar o resto do salário por fora, no “preto”.
            Achei a proposta suspeita, mas fiquei calado.
            — Vamos ter que tentar o concubinato nessas condições — concluiu.
            Fiz as contas mentalmente: 800 gulden por mês. Pouco provável que eu tivesse chance de permanecer na cidade com uma concubina ganhando um salário que mal a sustentaria. Talvez Liz esperasse somar o valor do contrato do restaurante com o do hotel. Quanto tempo demoraria a conseguir o segundo contrato? Eu me impacientava, mas sentia-me imobilizado.
            Após ter dado cabo da comida, ela trocou de roupa, perfumou-se e saiu.
           Precisava contar a Hendrik. Ele teria que entender, e aceitar. Recusar as oportunidades que haviam surgido seria suicidar-se, assassinar Leon. E quem era Hendrik para questionar os serviços dela? Por acaso a ajudara a encontrar coisa melhor? Ele próprio não tinha um trabalho do qual se orgulhar, não tinha emprego algum. Sempre falava nos cargos importantes que ocuparia quando acabasse o longo curso que fazia, mas o curso nunca terminava.
           Diferente do serviço no hotel, trabalhar no BarHamas — com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo —, em vez de cansá-la dava-lhe forças. Sentia vontade de gastar a energia acumulada em seu corpo. Lembrou da primeira vez em que dançara com Hendrik. Aquilo parecia ter acontecido há tanto tempo!... Por que ele não a convidava mais para dançar?

           Hendrik não quis ir à boate. Quando ia explicar suas razões, Liz se recusou a ouvi-lo.
           — Você não precisa se justificar. Não quer ir, tudo bem, não vamos discutir por causa disso.
           — Mas eu só queria...
           — Um motivo pra gente brigar — cortou-o. — Não vou brigar com você hoje.
           — Eu também não quero brigar, só pretendia...
           — Arranjei dois empregos — disse, interrompendo-o. — Na verdade, três.
           — Você está brincando! E onde ficam esses escritórios? Como vai fazer pra trabalhar em tantos lugares?            Arranjou todos hoje? — indagava, como uma máquina de perguntas.
           — Eu não vou trabalhar em nenhum escritório — falou, cautelosa.
           — Não?... Onde, então?
           — O primeiro emprego é num hotel, em Amstelveen.
           — Você vai ser a gerente?
           — Não, a faxineira.
           — Faxineira... — repetiu, desapontado.
           — O outro, é num restaurante.
           — Nesse você é a gerente.
           — Não, a garçonete.
           — Garçonete... — falou, mais decepcionado ainda.
           — O terceiro, é numa boate brasileira, o Caldeirão. Vou tocar teclado, cantar e dançar.
           — Você não pode estar falando sério, Liz — disse, começando a rir.
           — Não sei por que a surpresa — falou, querendo dar veracidade à mentira que dizia.
           — Não achei que você fosse trabalhar nesses tipos de emprego.
           — Eu também não pensei que só fosse encontrar esses serviços. Eu queria fazer outras coisas, mas as oportunidades que apareceram foram essas. O meu dinheiro acabou, e eu precisava de um trabalho qualquer, entende? Mas isso é só no começo. Depois que eu souber holandês vou ter chance de coisa melhor.
           — E como vai fazer pra estar nesses lugares ao mesmo tempo? — indagou ele.
           — De manhã, eu trabalho no hotel. À noite, no restaurante. Nos fins de semana, de madrugada, na boate. Se eu quiser, ainda posso arranjar outro emprego na parte da tarde.
           — Você vai ficar exausta, não vai ter tempo pra mim... Tem mesmo que trabalhar na boate?

            Meus inúteis passeios por Amsterdam forçavam-me a buscar o desconhecido, ainda que ele não me satisfizesse. Tinha avidez por notícias sobre o mundo. Na televisão, no canal francês, as informações eram limitadas ao próprio país, quando muito ao continente. Sentia-me desatualizado, perdido no tempo. Procurando jornais franceses, acabei encontrando um um tablóide brasileiro. Editado semanalmente em Londres, fazia um resumo dos fatos importantes ocorridos no Brasil nos últimos sete dias. Informações ultrapassadas. Comprei-o, sentei num banco em frente ao Bloemenmarkt. Notícias tão sensacionalistas que me arrependi do dinheiro gasto. Uma onda de calor extremo no Rio, explosão de um arsenal militar, desabamento de um prédio, incêndio num aeroporto... Apenas catástrofes, tragédias. Era só isso o que acontecia no lugar para onde eu deveria retornar em breve? Não queria voltar ao país dos desastres, mas ficar numa nação estranha, onde eu nada era, não servia de consolo, muito menos de estímulo. Não tinha mais para onde ir, nem retornando, nem permanecendo.
            O perfume das flores, suas cores e formas acenavam para mim nas embarcações flutuantes no canal. Fortes o bastante para me arrancar da apatia, distraíram minha atenção durante algum tempo. Quanta variedade, beleza, perfeição!... O mundo era uma feia esfera produtora de desgraças, mas também tinha maravilhas destinadas a aliviar sofreres, mesmo que temporariamente. Lamentei gastar meus gulden com o jornaleco. Deveria ter comprado flores.
            Do Centro, fui em direção ao Plantage, bairro que eu não havia explorado, bairro onde morava Hendrik. Do lado de fora, o Hortus Botanicus parecia interessante, com plantas exóticas, estufas de alumínio e vidro... mas o ingresso era pago, e, na atual situação, caro. Não era justo pagar meu lazer enquanto Liz se esforçava em conseguir dinheiro. Se ela estivesse comigo poderíamos dividir aquele prazer, recusava-me a desfrutá-lo sozinho. Observei o jardim botânico do lado de fora, contornando-o inteiramente. Mais adiante, o enorme zoológico. Outro lugar com ingresso pago, mais um que contemplei da rua. Após circundar o zoológico segui em frente. Andando sem destino, atravessei pontes, cruzei avenidas movimentadas, andei por ruas desertas... De repente, deparei com um enorme moinho de vento. Antigo remanescente, novidade inesperada, ele parecia deslocado junto ao cruzamento de ruas modernas. Pintado num marrom insípido, a enorme estrutura impressionava. Mais adiante encontrei uma feira-livre que me chamou a atenção por ser formada e freqüentada por imigrantes. Negros, orientais, árabes, mestiços... comidas exóticas, ervas, temperos, frutas... roupas vistosas, tapetes coloridos, bijuterias variadas...
            Eu ansiava por novidades, mas nenhuma das coisas diferentes que via me bastava. O que estaria fazendo Hendrik, tão perto de mim e ao mesmo tempo tão inacessível? Por que não verificar o endereço dele? Missão difícil: no mapa que eu havia levado não constava a rua em que Hendrik morava. Sabia o endereço, mas procurá-lo às cegas numa região desconhecida levaria tempo... Eu tinha bastante tempo a matar.
            Procurei até cansar. O mapa incompleto dificultava a busca. Eu sabia estar bem próximo ao endereço dele, as referências — o moinho, a feira dos imigrantes, os conjuntos habitacionais — estavam diante de mim, mas a misteriosa rua parecia inexistente. Meu cansaço era grande, minha tola obstinação ainda maior. Sentei num banco ao sol para descansar. Tirei do bolso do sobretudo uma maçã que tinha levado no caso de sentir fome.
            Recuperado, decidido a encontrar a tal rua, investi no último local. Os conjuntos habitacionais multiplicavam-se monotonamente não muito longe do moinho. Só podia ser ali, mas eu não conseguia encontrar a maldita rua. Já começava a desistir quando li numa placa: Compagniestraat. Meu coração se acelerou. Recobrei o ânimo e enveredei pela rua sem graça. Diante do conjunto de prédios feios, me surpreendi. Liz dissera que o apartamento de Hendrik era muito interessante. Eu devia, então, estar no lugar errado. Procurei o nº 50. As placas nas portarias continham números desordenados. Junto à porta de entrada de um edifício cinza, as caixas de correspondência dispunham-se em duas colunas. Nº 50: H.V.Hooft. Hendrik morava ali. Pensei em tocar o interfone, mas desisti. E se ele abrisse a porta?, o que eu diria? Senti-me estúpido. O que estava fazendo ali, em frente ao prédio de alguém que não me convidara a aparecer?
            Deixei o conjunto residencial satisfeito com a descoberta, cansado pelo esforço, decepcionado com a realidade. Era idiota bancar o espião, mas no marasmo em que me encontrava a patética missão não deixava de ser algo diferente. Retornei para casa a passos lentos. Não queria encontrar Liz, que devia estar esperando a hora de ir para o restaurante.
           Cada vez menos atrapalhada, começava a cativar atenções de clientes no BarHamas. Seu jeito simpático fizera o gerente de um restaurante indiano convidá-la a visitar seu estabelecimento com uma boa proposta de emprego. Achando que poderia preencher a tarde vazia, ou deixar o BarHamas por outra casa que pagasse melhor, havia chegado pontualmente, naquela tarde, para a conversa com o gentil senhor. Pura perda de tempo. O gerente estava interessado em sua forma agradável de servir para funções bem diferentes das praticadas nos restaurantes. Indignada, mas calma, agradeceu a cretina proposta dizendo não ser o tipo certo para o cargo.
            “Minha intenção em ser sempre agradável deve confundir os outros...”, pensava, pedalando rumo ao apartamento de Hendrik. Várias vezes muitos homens — e poucas mulheres — haviam interpretado de modo equivocado suas atenções e gentilezas. Por que confundiam amabilidade com disponibilidade? O que fazia de errado para despertar interesses indevidos? Ser espontânea e amigável era o mesmo que convidar outro à sua cama? Por que sempre “seduzia” quem não queria, e se esforçava tanto para atrair a atenção de quem lhe interessava?
            — Não achei que você fosse aparecer por aqui — falou Hendrik. — Hoje não era dia de cantar na boate?
            — O show só começa depois da meia-noite, a gente ainda tem tempo.
            — Sei... — disse ele, emburrando-se. — Pensei que você tivesse desistido...
            — Eu já te disse que preciso do dinheiro — falou, suave. — Tenta se colocar no meu lugar.
            — No seu lugar eu não trabalharia tanto. A gente já se vê tão pouco!...
            — Eu também queria passar mais tempo com você, mas como espera que eu me mantenha aqui sem trabalhar? Tenta encarar esse momento como uma fase. Eu não pretendo continuar com esse esquema, mas não tenho nada melhor em vista. Se eu te pedisse, você ia deixar de estudar pra ficar mais tempo comigo?
            — Isso é diferente. O meu futuro depende do curso que eu estou fazendo, sem ele não vou ter o emprego que eu quero.
            — O meu futuro também depende do que eu estou fazendo agora.
            — Mas se você não tiver tempo de estudar holandês como vai conseguir um trabalho melhor?
            — E como eu vou fazer um bom curso sem ter dinheiro? Como eu vou me manter enquanto estiver estudando?
            Convidou-o ao Caldeirão para vê-la cantar. No fim do show, poderiam voltar juntos para casa. Hendrik recusou. Ela não insistiu, já achava um milagre que não tivessem discutido. Perguntou se poderia voltar ao apartamento dele quando saísse da boate, para dormir um pouco antes de ir para o hotel. Contrariado, Hendrik cedeu. Tentando alegrá-lo, Liz prometeu passar o domingo inteiro com ele, seria dia de folga no hotel.
            Liz e Hendrik brigaram de novo. Não sei como ela suporta. O que terá ele de tão especial que a faz levar essa doença sentimental adiante? Por que fica sempre tão abalada? Hendrik é só um homenzinho complicado, nada mais.
            Ela devia ter aproveitado a nova desavença para contar que vamos precisar nos casar. Como o contrato com o hotel ainda vai demorar, e o tal Mathias sempre adia a regularização de sua situação de garçonete, Liz foi novamente à polícia se informar sobre outro processo que nos permitisse a união. Descobriu que nem para o concubinato estaríamos capacitados, precisaria estar empregada há pelo menos seis meses para solicitar tal modalidade. Angustiada, deu-me a terrível notícia. Desculpando-se exageradamente, afirmou que entendera errado os procedimentos para o concubinato, só nos restava o casamento. Tendo perdido um tempo precioso, provavelmente não conseguiremos cumprir as exigências. Liz repetia sem parar que não tinha sido sua culpa, não agira de má fé. Tranqüilizei-a, acreditava nela, todos cometiam erros, não havia o que desculpar.
            Agora ela dorme. Seu dia de folga foi transferido para terça, e como não cumpriu o que prometera a Hendrik não pôde dormir com ele. Ainda bem que existe este lugar onde pode se refugiar dos humores de Hendrik. Se tivesse vindo para morar com ele, como faria quando brigassem? Talvez eles não se desentendessem tanto se eu não estivesse aqui...

            Acordou no meio da tarde. Parecia ter esquecido a briga recente.
            — Eu preciso ir ao apartamento dele dizer que vou me casar com você — falou.
            — Já que ainda não deu a má notícia, por que não espera pra ver se o casamento vai ser mesmo possível? Talvez nem dê tempo.
            — Não posso. Eu sou transparente. Além disso, ele sabe tudo o que se passa comigo, sem eu dizer coisa alguma.
            — O Hendrik só vê o que interessa a ele. É um egocêntrico.
            — Vou procurar ele hoje depois que sair do restaurante — disse ela.
            — Seria bom vocês conversarem com ele sóbrio. Drogado, vai ser mais difícil.
            — Eu não posso contar com essa “sobriedade”. Se ele se deprime, fuma, se fuma, fica deprimido. Ele é muito influenciado pelo Derek. É ele que estimula o vício no Hendrik. Se existisse um jeito dos dois se separarem...
            — Você e o Hendrik querem tirar proveito do investimento que fizeram, do tempo que gastaram. Pra você, isso se chama amor, pra ele, amizade. Eu não acredito que o Hendrik se afaste do Derek só porque você diz que o ama — falei, meio exaltado.
            — Ele nunca vai trocar o Derek por mim. E o pior é que agora eu já devo ser um investimento pra ele também.
            Eu precisava me controlar, minhas emoções estavam me dominando. Tentei ficar mudo, mas já era tarde.
            — É impressão minha ou você está irritado? — perguntou. — Você se chateia por eu comentar sempre o mesmo assunto, não é?
            — Chateado não é bem o termo, mas não posso negar que essa história repetitiva me canse. A minha situação é difícil, conheço você mais do que o Hendrik, é natural que eu tome o seu partido. Não tenho direito de opinar sobre o caso de vocês, e se eu fiz isso até hoje foi porque você parecia esperar algum apoio de mim. Uma vez cheguei a pensar que eu estava enganado sobre o Hendrik, que eu tinha sido injusto falando mal dele, mas o tempo mostrou como ele é reincidente. É impossível enganar quem quer que seja por tanto tempo cometendo os mesmos erros. Eu estou cansado de fazer campanha contra o Hendrik, é inútil. Você sempre dá um jeito de transformar ele em alguém maravilhoso. E tudo se repete: as brigas, as nossas conversas, as reconciliações de vocês, novas brigas... Detesto me repetir, principalmente quando o que eu falo nunca significa nada.
            Despejei tudo de uma vez, arrependendo-me imediatamente.
            — Eu não me importo muito com esse relacionamento confuso... Sei que estou errada, mas tenho momentos de prazer nisso tudo. O que me desagrada é saber que eu te incomodo.
            — Eu só fico preocupado. Nessa história toda quem mais sofre é você. Quanto tempo acha que vai suportar isso?
            — Mas eu amo esse cara! O que eu posso fazer? Ele vai ter que entender. Eu e você somos apenas amigos. Ele não pode ter ciúmes, eu te considero um irmão...
            Em outros tempos tal fraternidade me perturbaria, agora ela me acalmava.
            — Eu sou o problema — admitiu. — Não existe ninguém nesse mundo com quem eu vou ter um relacionamento tranqüilo, equilibrado. Sou muito ansiosa, complicada... O homem perfeito que eu procuro não existe porque eu mesma me encarrego de destruí-lo. Nunca vou ser feliz.
            Enfim concordávamos num ponto, mas não me atrevi a ser tão honesto quanto ela.

           A conversa com Leon ainda ecoava em sua mente. Até certo ponto ele tinha razão, mas quando imaginava a vida sem Hendrik um medo tão grande a invadia que se via forçada a acender a esperança de tudo terminar bem. Havia muitos interesses distintos envolvidos numa partida que dependia exclusivamente das jogadas que ela fizesse. Ninguém estava disposto a abrir mão dos pontos acumulados.
            Antes de procurar Hendrik, comprou skunk numa coffeeshop. Melhor conversarem de igual para igual. Sentou-se e fumou, procurando esvaziar a mente dos maus pensamentos.
            Assim que apertou o botão do interfone, a porta de entrada se abriu. Hendrik a pegou no meio da escada, beijando-a intensamente. Pedia desculpas, nunca mais brigariam, queria ficar com ela para sempre, tinha sentido muito a sua falta... No meio da sala, dizendo-se arrependido, ele a abraçava como se quisesse parti-la em duas. Liz não entendia o que estava acontecendo, alucinações do skunk? Parecia tão real! Não, Hendrik confessava haver tido um pesadelo no qual ela se afogava num abismo, por causa dele, depois de uma discussão. Liz morria, ele se matava sabendo-se culpado. Não queria que ela morresse, não queria morrer, queria que Liz gostasse dele, tanto quanto ele dela.
            Na cama a possuiu como um alucinado. Liz não havia conseguido dizer uma palavra sequer, ele a cobria de um amor asfixiante. Tentou balbuciar, falar, gritar, mas Hendrik comprimiu sua boca sobre a dela, enterrando a língua numa garganta estrangulada. Seu corpo, esmagado sob o desejo dele, flutuava envolto no aroma de Byzance. A luz negra tingia as paredes com tons violáceos, o teto era o céu, coberto de estrelas pulsantes, desabando numa densa chuva meteórica. A noite, a vida, o mundo, tudo acabara, só o amor havia sobrevivido.
            Após dois dias de ausência, Liz reapareceu no apartamento depois do expediente no restaurante. Julguei que, como sempre, só tivesse vindo trocar de roupa, mas, contrariando a recente lei que a movia, disse que ia passar a noite em casa, e aproveitaria a folga do hotel no dia seguinte para colocar a correspondência atrasada em dia. Quem era aquela? Felizmente, nada comentou sobre seu encontro com Hendrik.

            Levantou-se quando eu terminava de preparar o almoço. Depois de comer, ela começou a escrever cartas. Não sabia ainda se trabalharia no BarHamas naquele dia, precisava telefonar para certificar-se. Falou que como não tinha conseguido tirar fotos de Hendrik para enviar na carta de Daniel, deveríamos acabar com o filme.
            Às três da tarde, saímos. Fizemos fotografias no Vondelpark. Telefonei para minha família; Liz, para o restaurante: não precisaria trabalhar naquela noite. “Temos o fim de tarde inteiro só pra nós!”, falou, co