Impressionante o que se pode descobrir sobre as pessoas apenas observando-as. Nos últimos dias, desde que a vontade de escrever havia se manifestado outra vez, procurei prestar atenção na vizinhança. Comecei por Niek, nosso senhorio. Seu comportamento revelava alguém pouco interessante. Solteiro, aparentemente sem namorada, levava uma vida quase monástica, indo de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Numa de suas visitas, dissera prestar serviços de consultoria financeira para uma estatal. Com cerca de 30 anos, nem feio, nem bonito, a monótona existência de Niek parecia repleta de esquemas metódicos que não deviam dar margem a surpresas ou imprevistos. De manhã cedo, ligava pontualmente seu carro, estacionado em frente a nossa janela, partindo em seguida para o trabalho. Ao anoitecer, voltava com a mesma pontualidade, geralmente trazendo compras de supermercado. Obeso, subia a escada de madeira sempre tão ruidosamente que era impossível não ouvi-lo. Uma vez no apartamento, saía apenas no dia seguinte pela manhã, repetindo a mesma rotina pouco excitante. Sábados e domingos eram passados em casa, com raras saídas.
            Herbie e Henk ocupavam, no prédio, o apartamento térreo. Também eram inquilinos de Niek. Tendo mudado para o apartamento vago uma semana após nossa chegada, os dois, louros, belos, jovens e saudáveis, eram difíceis de se encontrar — eu os vira apenas três vezes. Tinham vindo de outra cidade, não sei se para trabalhar ou estudar, talvez para as duas coisas. Pareciam bastante unidos. Eu não sabia se eram irmãos, primos, amigos ou amantes. Dividiam um apartamento grande demais para duas pessoas, e freqüentemente recebiam visitas, que sempre tocavam por engano a campainha do nosso apartamento.
            No prédio à esquerda do nosso, no terceiro andar, vivia uma jovem muito bonita, e bastante séria. Do tipo mignon, cabelos lisos e ruivos, vestia sóbrios conjuntos de calça comprida e blazer — que a deixavam ainda mais bela. Exímia violinista, eu a ouvia através da parede do nosso quarto — ao lado do apartamento dela — praticando incansavelmente. Parecia ter uma rotina bastante rígida: revestida de seriedade, munida do violino, saía todas as manhãs de bicicleta rumo ao Centro. Voltava na hora do almoço. Pouco depois, tornava a sair carregando o violino — provavelmente ao mesmo lugar em que fora pela manhã. Certa tarde, a vi deixando o grandioso prédio do Concertgebouw, e imaginei que ela fosse integrante da orquestra do teatro. Um rapaz de traços árabes, se não era namorado dela, era forte pretendente. Visitava-a com freqüência, creio que ele tocava o piano que às vezes eu ouvia junto com o violino. Apesar do rapaz se mostrar atencioso, carinhoso até, a ruiva o tratava com certa frieza. Vi os dois uma vez no Vondelpark: o rapaz, que ela ainda não notara, um pouco distante, chamou: “Petra!” Ela se virou, olhou-o de relance e continuou seus passos sem esboçar interesse. Ele teve que correr para alcançá-la. Beijando-a afetuosamente, passou o braço sobre os ombros dela, acompanhando-a até o apartamento. Voltando para casa, eu fazia o mesmo caminho que eles neste dia. O rapaz falava animado, gesticulando ao lado de Petra, que marchava impassível, as mãos nos bolsos do terninho preto. Vi quando entraram no prédio, e também quando Petra fechou a cortina da sala. Quando entrei, segui para o quarto a fim de ouvir o ensaio deles, mas nem violino nem piano tocaram.
            Exuberante, exótica, extravagante, excêntrica, exagerada... adjetivos que poderiam ser aplicados a uma figura que passava todo dia em frente ao nosso prédio. Paraplégica, possivelmente na casa dos 40, a mulher aparentava jovialidade e alegria de viver. Sempre contente, pilotava uma cadeira de rodas motorizada semelhante a uma mini-lambreta: na parte da frente uma cesta para bolsas e jornais, atrás, um compartimento para o guarda-chuva. Tinha um cãozinho branco que sempre a acompanhava nos passeios, quer no colo, quer trotando ao lado da engenhoca. O charme da simpática mulher ficava por conta do vestuário: abusava de vestidos longos e esvoaçantes, em cores fortes como roxo, preto, marrom, ou em audaciosos estampados imitando pele de onça, tigre, zebra. Tudo coroado por enormes chapéus. Vistosas echarpes ornavam seu pescoço. Como se não bastasse a indumentária incomum, sempre trazia os cabelos longos soltos ao vento. Parecia pessoa boníssima. Toda a vez que a via sentia vontade de cumprimentá-la.
            Cansativo escrever sem computador. Páginas e páginas preenchidas com letra informe, rasuras. Apliquei-me tanto no manuscrito que nem vi as horas passarem. Ao fim da manhã, inspirado nos vizinhos, tinha esboçado o perfil de personagens. Informações insuficientes. Faltava algo que ligasse as vidas deles de modo que uma história envolvendo todos fosse contada. Nada os unia, eu precisava inventar um fio condutor que os guiasse. Completamente inviável.

            À tarde, o vento dissipou as nuvens cinzentas que encobriam o céu há várias semanas, um sol brilhante como eu já nem lembrava iluminou e aqueceu a cidade. Inconcebível permanecer confinado em casa enquanto a vida corria lá fora sob um dia radiante. Sempre havia acreditado que o tempo frio, triste e cinza só poderia deprimir pessoas com tendência à depressão. Que equívoco! Eu, que dizia adorar invernos, céus nublados, paisagens nuas constatava, surpreso, como o clima podia influenciar no humor das pessoas. Ante a repentina promessa de tarde atípica, sentia-me subitamente disposto. Fui viver do lado de fora, onde tudo parecia possível.
            Quando entrei no Vondelpark me espantei com a quantidade de gente que havia tido a mesma idéia. Jovens, velhos, adultos, crianças, cachorros, pássaros... todos numa alegria contagiante, impossível ficar imune. O mundo era um lugar perfeito, os problemas eram antigas lembranças. As crianças corriam, pulavam, brincavam; casais de namorados passeavam de mãos dadas, beijavam-se deitados no gramado; idosos tomavam sol recostados em bancos, alimentavam aves, passeavam com cães... Todos tinham suas próprias vidas, e elas pareciam maravilhosas. Embora mero espectador, estava contente por participar da cena. Passeei pelo parque sem pressa, aproveitando recantos, aromas, cenas de felicidade.
            No Centro, a quantidade de pessoas era ainda maior. O termômetro de rua marcava 15 graus, mas eu tinha impressão de que estava mais quente. Sem o sobretudo sentia-me mais leve.
            Ainda que não pudesse comprar coisa alguma, olhei vitrines, entrei em lojas, avaliei mercadorias. Talvez, se tudo desse certo, não fosse ruim ser habitante da cidade. A multidão alegre andando nas ruas ensolaradas me comovia. Apesar de indiferentes, o contentamento em seus rostos os fazia parecer mais vivos e reais do que nunca.
            Voltando para casa, evitei as ruas movimentadas. Passando em frente à livraria gay, um estalo, um lampejo atravessou meu cérebro. Estremeci ante a idéia que se confundia com lembrança. Entrei na loja, desci as escadas, corri para as estantes. Tremia, suava, meu coração saltava. Minha memória subitamente reavivada pregava-me uma peça? Ávido, folheei revistas, procurando um rosto. E livros, e mais revistas. Vasculhava tudo. Até que... encontrei! Choque, perplexidade. Achei! Não, eu não estava enganado, sabia que o tinha visto antes! Sim, era ele, estava ali, diante de mim, nu, na capa de uma revista amarelada. Um pouco diferente, mais jovem, mas ele mesmo: Hendrik!
            A publicação tinha quatro anos. Na capa, Hendrik sorria, segurando o sexo ereto. Devia estar com 17 ou 18 anos. No interior da revista, ele aparecia numa série de fotos solo: poses sensuais, o belo corpo estendido sobre lençóis violeta, enquadrado de vários ângulos; o rosto sedutor exibindo um sorriso discreto, misterioso, meio tímido, meio indecente. Em outra revista, Hendrik não sorria: ele e um negro forte e avantajado entregavam-se a toda a sorte de variantes em cenas de sexo, tão grotescas quanto excitantes. Contraste perturbador: a pele clara, o corpo frágil, a beleza quase feminina de Hendrik em oposição à pele escura, ao corpo musculoso e embrutecido, à feiúra potente e desvairada do negro. Seu olhar azul não demonstrava prazer, nem dor, parecia de medo. Mais uma revista, novamente Hendrik, dessa vez numa orgia: três homens mascarados, vestidos com tiras de couro, corpos peludos untados em óleo, submetiam-no a desejos animalescos; amarrado, ora amordaçado, ora vendado, ele era manobrado como boneco em direção aos sexos rijos dos três sádicos na sessão de tortura. Quatro, cinco, seis revistas. Hendrik aparecia em todas, em cada uma encarnando um personagem estereotipado. Na última delas, seus olhos não pareciam mais expressar medo, tampouco prazer ou dor, apenas indiferença. Por quê? Por que você, Hendrik? Necessidade? Chance de ganhar dinheiro rápido? Prazer? Como tinha ido parar na capa daquelas revistas, no meio das páginas obscenas? Ao mesmo tempo em que sentia horror, uma espécie de admiração me dominava. Que ousadia! Que coragem! Ele tinha visto tudo aquilo, fizera parte daquele mundo inimaginável... Dinheiro, só podia ter feito por dinheiro — o que era ainda mais corajoso e ousado. Isso explicaria muita coisa... Hendrik, agora sei um de seus segredos. Que outros esconderá? Ele aparecia em seis números da revista holandesa, seis meses consecutivos, depois, não mais. Seria aquele o tempo exato para conseguir a quantia de que precisava? Eu acreditava que uma vez nessa vida — quer pelo dinheiro, quer pelo gosto que se adquiria — não era possível abandoná-la de repente. Hendrik provava que eu estava enganado. As revistas na minha mão eram uma prova, mas... contra quem? A comprovação daquela conduta não deveria chocar Liz muito mais tempo que a mim. Estarrecida num primeiro momento, ela procuraria entender os motivos que o levaram àquilo, se apiedaria, o amaria ainda mais. Não, para Liz as revistas só serviriam para exacerbar sua neurose amorosa. Isso me proibia de mostrá-las, de revelar minha descoberta. Meu estupor inicial cedeu lugar a uma sensação de orgulho, idolatria: Hendrik num pedestal no topo de uma escadaria de mármore brilhante. Guardar o segredo dele — ainda que sem o seu conhecimento — criava certa conivência entre nós, fazia de mim seu comparsa.
            Quando colocava as revistas de volta na prateleira um homem esbarrou em mim. Virei ligeiramente irritado pelo esbarrão no local espaçoso. Ele sorria. Era bonito, forte, ruivo, uns 40 anos, talvez menos. Sempre sorrindo e me fixando, encaminhou-se até a porta que dava para o corredor misterioso. Com um gesto de cabeça, chamou-me, sumindo atrás da porta. Olhei ao redor a fim de me certificar de que era o objeto de seu olhar insistente. Estava sozinho, não havia dúvidas. Esbarrar uns nos outros devia ser a forma de abordagem. Eu não queria saber o que se escondia atrás da porta? O que me detinha agora? O convite havia sido feito. Batimentos cardíacos acelerados, girei a maçaneta e entrei. Imediatamente alguém segurou minha mão, puxando-me escada acima. Na escuridão absoluta, segui, trôpego, o estranho de voz rouca, que sussurrava palavras ininteligíveis. O chão de madeira rangia sob meus pés. Entramos num lugar estreito. Eu não via nada, mas sentia paredes opressoras em volta, o cheiro de mofo e poeira, entorpecia, asfixiava. Com violência, o homem me abraçou, colando a boca ávida na minha, enquanto sua mão apertava meu sexo. Ele me estreitava, sufocava, machucava. Hálito azedo, língua, áspera, gosto horrível de nicotina e álcool agora na minha boca. Usando força, desvencilhei-me do abraço estrangulador, tentei fugir, mas ele me agarrou, dizendo coisas que eu não entendia. Abraçou-me por trás, esfregando a boca molhada na minha orelha, me fazendo sentir o volume do seu sexo de encontro ao meu corpo. Eu não via coisa alguma, tudo era negro, claustrofóbico. Virando bruscamente, dei uma joelhada no desgraçado, que me soltou aos berros. Sem enxergar nada, tentei correr, bati em paredes, portas; quase rolei escada abaixo, mas consegui agarrar o corrimão antes da queda. Assustado como quem escapa da morte, entrei de volta na sala. Alguns homens me olharam sobressaltados, como se vissem um fantasma. Deviam ter escutado os gritos, a agitação, minha descida ruidosa... Corri para fora da loja, morto de medo, ódio, vergonha, mas são e salvo.
            Que loucura! O que eu estava fazendo? Como tive coragem? Não, justamente o contrário: fui covarde, não fui até o fim. Teria sido o meu fim? Eu era inexperiente. Não era Hendrik, não podia me comportar como ele não se comportava mais. Talvez suas fotos antigas tivessem me estimulado a tentar algo novo. Que estupidez!
            As pessoas no Vondelpark mantinham as fisionomias despreocupadas, tudo igual a quando eu o atravessara no sentido oposto. A bela tarde de sol começava a terminar. Que expressão teria meu rosto de pessoa louca, de pessoa salva? Não conseguia imaginar. Ninguém parecia me notar, eu representava o mesmo papel insignificante de sempre. Isso me reconfortou. Minha aventura secreta pertencia apenas a mim mesmo.

            O sábado findava. O dia inteiro praticamente passado na cama. Havia tentado fazer com que Hendrik levantasse depois do meio-dia, em vão.
            Apesar da leve dor de cabeça, Liz sentia-se bem. Entranha a rapidez com que seu organismo se habituava às drogas. Em outros tempos ficaria vários dias dopada. Devia ser isso: quanto mais acostumada ao efeito, maior a quantidade de droga a consumir. Não era viciada, mas devia ser assim com os dependentes. Hendrik era viciado? Talvez não. Se o fosse, não permitiria que ela fumasse quase todo o seu skunk. Por que ele precisava se drogar antes do sexo? Um viciado circunstancial, usando droga como estimulante? Seria possível controlar tão bem algo que fazia com que se perdesse o controle? O que o teria motivado, na ausência do estímulo habitual, a levá-la para a cama?
            Levantou. No banheiro, lavou o rosto de olhos vermelhos e inchados, ajeitou os cabelos — as raízes brancas começavam a aflorar, precisava pintá-los novamente. Na cozinha, alimentou os gatos. Não tinha fome, mas tomou um iogurte. Na sala, ligou a TV, nada atraiu sua atenção. Estava preocupada. A presença de Leon significava satisfações a serem dadas — principalmente porque havia dito que resolveria de uma vez por todas a questão com Hendrik. Sentia-se fraca, vítima da paixão, e também determinada, indo ao encontro de seu objetivo.
            Precisava viver o presente. Pensar sempre no futuro era desperdiçar a vida. Tinha que encarar o amanhã como um tempo remoto e longínquo. Mas não conseguia. O futuro seria determinado pelo que fazia hoje, agora. E o que fazia? Esperava o homem que pretensamente a amava acordar, falar com ela, estar a seu lado, amando-a, fazendo-a feliz. Mas faltava algo. Não podia ser só aquilo. Jamais conseguiria viver unicamente de amor e felicidade. Sustentar o presente visando o futuro era ter uma ocupação rentável que a tornasse participativa no país que escolhera viver. Impossível não pensar no amanhã sem uma ponta de temor.
            E Hendrik? Pensaria no futuro de forma obsessiva também? Ela realmente faria parte do futuro dele? Hendrik parecia convergir esforços para esse tempo invisível de maneira despreocupada. Talvez se fiasse em sua juventude. De repente, seu futuro e o de Hendrik pareceram trajetórias distintas, tinham se cruzado, mas nunca seguiriam lado a lado.
            Incoerência. Estava junto ao homem dos seus sonhos, tinha-o a sua disposição, mas sentia-se sozinha, trancada num apartamento alheio. O dia devia ter sido belo e agradável. O pôr-do-sol mostrava uma tarde atípica de inverno, tarde inteiramente perdida. Poderiam ter passeado de mãos dadas no parque, ido ao cinema, visitado um museu, andado pela cidade vendo vitrines... Coisas comuns, mas que teriam sabor especial por se sentir livre ao lado dele, sem ter que se esconder. Por que Hendrik dava tão pouca importância a esses momentos de afeto? Tinha impressão de que, para ele, o relacionamento amoroso estava restrito às limitadas fronteiras da cama de casal.
            — Dormiu bem? — perguntou, levemente irônica, quando Hendrik surgiu na sala.
            — Acho que eu dormi demais, estou até cansado — disse, bocejando.
            — O que a gente vai fazer? Sair pra dançar, ir ao cinema ou o quê?
            — Você tem certeza que quer sair? — falou, num muxoxo, caindo no sofá ao lado dela.
            — E por que não?
            — Estou sem vontade. Eu gosto de dançar, mas isso cansa, preciso beber, tomar estimulantes, e isso faz mal. Você não está com uma roupa legal pra dançar, e eu não quero gastar muito...
            — Mas não precisamos dançar até desmaiar. A gente podia ir num lugar com entrada grátis, e você podia me emprestar uma das suas roupas maravilhosas... Ah, vai, se anima!
            — É isso mesmo que você quer? — disse, sedutor, aproximando-se dela, pousando a cabeça em seu peito.             — Eu tenho uma idéia melhor.
            — Você não gostaria de fazer uma coisa diferente? — perguntou, adivinhando a idéia dele.
            Não respondeu. Começou a beijar o pescoço dela, o colo, mordiscar os seios sob a camiseta... Ela se perguntava quem era o homem subitamente carinhoso. Sim, queria-o sóbrio, afetuoso, apaixonado... como agora. Fechou os olhos pensando em si mesma, no prazer de ser beijada, acariciada. Hendrik nunca dava importância às preliminares, mas, em sua bendita sobriedade, parecia disposto a compensar aqueles instantes sempre desperdiçados. Ele a despia com tanta ternura, que Liz, de olhos fechados, sentia-se num sonho. Aquele era o Hendrik sem skunk? Que maravilha! Por que não podia ser sempre assim? Excitada, queria abrir os olhos para ver a cena de amor, mas estava num sonho, se abrisse os olhos acordaria. Devaneava, sentindo-se tola, ridícula, surpresa, encantada, nada mais tinha importância. Hendrik beijava seus seios, os mamilos intumescidos de desejo, a pele arrepiada de prazer. As mãos dele percorriam suas curvas... Mais uma vez, vencida, cedia a ele, entregava-se sem reservas. Sim, iria fazer sempre o que ele dissesse, o que quisesse, toda vez que pedisse, amava-o, ele estava ali fazendo-a sorrir de todas as bobagens que pensava enquanto ele a beijava, tocava, desejava. Sim, o prazer estava ali, sobre ela, lábios, boca, língua, mãos, sexo... Liz também o acariciava, tocava seus cabelos, a pele com a barba por fazer, os músculos pulsantes... O mundo podia acabar agora, ela seria eternamente feliz. Seu corpo vibrava, o sexo úmido latejava, gemia sob o peso dele, que gemia no ouvido dela, comprimia seus seios, o ventre, sexos num perfeito encaixe, entregando-se um ao outro, fazendo-os sentir o prazer de seus corpos febris, livres, o corpo dela, movendo-se sob o desejo dele, mais e mais, mais rápido, o sexo dele era agora o sexo dela, sim, mais depressa, precisava dele naquele jogo, mas seu prazer dependia de si mesma, sim, amor, ela sentia, mais rápido, sim, desejo, mais depressa, sim, sim, prazer, só ele importa agora, sim, agora, agora, agora...
            Abriu os olhos, como se despertasse de um desmaio. Hendrik ainda trabalhava sobre ela, alterado, corado. Outro homem, ainda mais belo com o rosto modificado pelo prazer, olhos cerrados, boca entreaberta, gemendo por causa dela. Instantes finais, catarse masculina, descarga elétrica. Hendrik desabou sobre ela, que o beijou satisfeita, gratificada. Progresso significativo. Hendrik ainda não lhe dava liberdade irrestrita e insistia em usar preservativos, mas cedera. Abrir mão do skunk antes do sexo: uma agradável surpresa.
            Enquanto Hendrik tomava banho, Liz, ainda no sofá da sala, sorria satisfeita. Nem tudo estava perdido. Às vezes achava-se infantil com seus sonhos românticos, com o peso que atribuía ao amor e aos relacionamentos.
            Ele saiu do banho enrolado numa toalha.
            — Agora você, a água está ótima — disse. Segurou as mãos dela, ajudando-a a levantar.
            — Você é o homem mais lindo que eu já vi na vida, sabia? — falou, abraçando-o.
            — Eu faço o melhor que posso — riu, orgulhoso. — É o que todos deviam fazer, não acha?
            — Mas nem todo mundo tem um rosto bonito, um corpo perfeito...
            — Isso sempre se pode mudar. Você nunca pensou em fazer uma cirurgia plástica?
            — Acha mesmo que eu preciso de uma plástica? — indagou, admirada.
            — Você se considera perfeita?
            — Bem, não, mas... pensei que eu fosse pelo menos razoável.
            — Se pudesse, você não mudaria nada no seu corpo, no seu rosto?
            — O que você acha que eu poderia melhorar? — perguntou, curiosa, intrigada.
            — Você podia tirar as bolsas dos olhos, retocar o nariz, levantar os seios caídos, fazer lipoaspiração na barriga...
            — Não sabia que eu era tão horrorosa! — esbravejou, batendo a porta do banheiro.
            — Mas eu já me acostumei com você assim, Liz... Por que me fez uma pergunta se não queria resposta?
            Custava a crer no que ouvira. Em menos de um minuto, Hendrik a tinha feito enxergar a realidade. Construíra fantasias com a imagem perfeita de Hendrik, achando que fazia parte da perfeição. Os homens às vezes sabem ser cruéis. Por mais acostumado que estivesse, ele a achava feia, velha e gorda. Por que transava com ela? Porque era a única a suportá-lo? Devia se envergonhar dela, por isso não queria ser visto em público, a seu lado.
            Sob a água do chuveiro, chorou, mais de raiva que de tristeza. Esfregou a esponja em sua carne com força, como se fosse possível consertar defeitos estéticos.
            Apesar das desculpas, da atenção que ele lhe dera depois do banho, Liz havia ficado muito magoada.

            No dia seguinte, Hendrik levantou antes dela. Solícito e prestativo — o que, mais que qualquer coisa, lembrava-a da noite anterior —, parecia determinado a fazê-la sentir-se bem. Entusiasmado, fazia planos para o domingo: passear no parque, ir ao zoológico, sair a todo custo. Liz não tinha ânimo algum. Achou que estaria melhor no dia seguinte, mas não estava. Os planos de Hendrik não lhe apeteciam, nenhum deles era espontâneo. As promessas do domingo alegre tendo Hendrik como companhia haviam sido desencadeadas por sua crise de mulher com brios arranhados. Não compactuaria com a farsa cretina. Atrevimento da parte dele achar que ela era estúpida a ponto de aceitar propostas complacentes. Além disso, o tempo tinha voltado a ficar frio e cinza. Não, não iria a parte alguma.
            Hendrik acatou os desejos dela sem protestar — o que só comprovava como ele estava sendo artificial. Liz não se surpreendeu. Estava triste, queria ir embora. Mas também queria ficar, reparar aquele episódio. Paciência e dedicação: difícil exercício contínuo. Seria eterno?
            Como não iam sair, Hendrik se propôs a ensinar-lhe holandês. Ela aceitou. Enfim, algo espontâneo.

           Limpar, lavar, cozinhar, consertar refugos pinçados em montes de lixo... tudo inutilidade, idiotice! Passei horas ajeitando a persiana recolhida na rua. Para quê? Para nada. Estou cansado de desperdiçar tempo, fazer coisas que ninguém valoriza. Viver também é uma grande idiotice, a maior de todas. No espesso silêncio do apartamento vazio, chorei, chorei, chorei... Saí, no frio, no vento, na tarde cinza. No parque, andei como maníaco, marchando para lugar nenhum, repetindo os tediosos passos de uma rotina estagnante. Não havia onde me refugiar, todos os espaços eram incômodos, tinha perdido meu lugar na Terra. Sentei no banco gelado, no parque deserto. As aves se aglomeravam na camada de gelo no lago, eriçavam as penas. Reunidas venciam o frio mais facilmente. Eu estava só, no fundo do abismo, ninguém viria ao meu encontro. O que mais lamentava não era a solidão imposta por circunstâncias alheias a minha vontade, mas minha permanência isolada num lugar que não escolhera, de que não gostava, com o qual não me identificava. Um castigo.
           Companhia. Isso resolveria tudo? Talvez não, mas amenizaria a situação. O que estariam fazendo Liz e Hendrik? Divertindo-se, sem dúvida. Por que não eram meus amigos? Que mal havia nisso? Poderiam estar no apartamento me esperando para algum programa — nem que fosse para jogar cartas, que detesto, mas faria com prazer. Não, seria pedir demais. Nunca farei parte dos planos deles. O amor exclui a amizade? A amizade não exclui o amor.
           A chuva obrigou-me a voltar. Ninguém me esperava na escuridão inóspita do apartamento. Liguei o aquecedor. Puxei a poltrona para perto do amigo barulhento, que chia, mas me aquece.

           Liz chegou pouco antes da meia-noite. Esforçava-se em demonstrar naturalidade, mas não me convencia. Tudo minha culpa. Ainda que eu não dissesse uma palavra, minha presença parecia exigir dela satisfações que eu não pedia.
           Mantive-me calado e imóvel após ter respondido ao seu “Olá!”. Sentia-me desconfortável pelo peso que minha presença lhe causava. Deveria ter evitado o incômodo mútuo indo deitar cedo, mas alguma coisa perversa em mim me mantivera alerta, esperando o momento do desagradável confronto. Paralisado na poltrona, cego diante da televisão, meu silêncio devia equivaler a um discurso, minha postura estática, a uma violenta sacudidela. Sem querer e por querer, feria e era ferido. Incomodada com minha mudez, Liz desatou a falar, comentando as melhorias, a limpeza que eu havia feito no apartamento. Não falava comigo, falava consigo mesma no intuito de destruir o silêncio constrangedor.
           Seguiu para o banho. A deixa que eu precisava para acabar com o mal-estar que cumprira sua estúpida função. Desliguei a TV. Sem sono, pensei em dormir. Antes que eu tivesse tempo de escovar os dentes, Liz desligou o chuveiro. Imaginava que ela usaria um longo banho como artifício para se ver livre de explicações. Encontrou-me na pia escovando os dentes, tornou a elogiar a persiana que eu tinha consertado.
           Fui para o quarto, deitei-me. Liz segurava um caderno, pareceu-me que ia ler.
           — Você também vai ler um pouco? — perguntou.
           — Não — falei, secamente.
           Ela apagou a luz. Gentilmente, pediu que a acordasse cedo, não queria chegar atrasada à entrevista. Eu parecia o dono do apartamento no qual Liz, simples hóspede, fazia o possível para não me aborrecer. Nosso comportamento era infantil, ridículo. Ressentido com seu descaso, eu procurava demonstrar uma indiferença que meu silêncio comprometia. Sentindo-se culpada por me privar de notícias, por deixar clara sua mudança de atitude em relação a Hendrik, ela tentava aparentar uma normalidade insustentável com os elogios e concessões que fazia.

            O alarme do relógio de pulso de Leon soou às sete horas. Ele o desligou, e continuou deitado. Após a noite praticamente insone, olhava-o com raiva, tristeza. Por trás das janelas o dia estava chuvoso. No colchão, ao lado do dele, ela respirava e se movia tão desconfortavelmente quanto na véspera, imaginando que Leon a soubesse acordada. Ele sempre levantava cedo, mesmo não tendo necessidade. Isso a irritava, detestava acordar quando ainda tinha sono. Contrariada, mexia-se no colchão, descontente por não ter se explicado a Leon na noite anterior. Ele não havia facilitado as coisas. Por que aquela postura artificialmente fria? Ele também devia estar sentindo tristeza e raiva.

            Leon levantou, arrumou a roupa de cama, foi para a cozinha. Liz o imitou. Encontrou-o na pia, escovando os dentes.
            — Bom dia! — falou, esforçando-se em ser agradável, e sabendo que não o conseguira.
            — Bom dia — retrucou ele, condescendente.
            Ela tomou um banho rápido, vestiu-se depressa. Na cozinha, Leon preparava chá. O semblante fechado, pouco amistoso, não a intimidou. De pé, ao lado dele, começou:
            — Eu fiquei apreensiva achando que você podia estar preocupado com o meu sumiço...
            — Eu imaginei que alguma coisa tivesse acontecido — falou ele.
            — Mas você sabia que eu estava bem, não?
            — Imaginei que sim.
            — Eu fiquei preocupada por deixar você sozinho, sem notícias. Mas achei que você lembrava da minha entrevista hoje cedo. Tive medo de não acordar a tempo de vir para cá antes do compromisso, e acabei voltando ontem mesmo.
            — Se você não aparecesse hoje à noite eu ia começar a me preocupar... — mentiu.
            — O que você fez no fim de semana?
            — Matei o tempo.
            — Mas não saiu, não passeou?
            — Passear no parque, ir ao Centro, ver televisão... tudo é matar tempo — disse, levando a xícara de chá para a sala.
            Liz ficou na cozinha preparando o que comer. A vida de Leon em Amsterdam era aborrecida, monótona. Se ao menos ele tivesse uma ocupação realmente útil... mas se ela mesma estava tendo dificuldade em encontrar trabalho, o que esperar de Leon?
            — Ligou pra sua mãe? — indagou, sentando na poltrona ao lado dele.
            — Liguei.
            Leon não estava a fim de conversar. Liz só conseguia lhe arrancar respostas secas.
            — Eu não fiz nada no fim de semana. O Hendrik ficou me ensinando holandês. Ele queria que a gente fosse ao zoológico, mas eu não podia gastar dinheiro, e depois o tempo estava tão feio...
            Leon nada comentou. Levantou, foi para cozinha levando a xícara vazia. Ela o seguiu.
            — Na sexta-feira, quando eu cheguei na casa do Hendrik, falei que era melhor a gente terminar. Ele disse que tinha me procurado pelo motivo oposto.
            Leon permaneceu calado. Liz continuou:
            — Eu resolvi dar uma nova chance a ele, e a mim também.
            O silêncio de Leon a constrangia. Ele a reprovava, estava claro, por que não o dizia? Devia tê-la julgado e condenado. Talvez sentisse desprezo, ou horror pela fraqueza que ela acabava de admitir. Culpa dela. Se não tivesse dito o que não tinha intenção de fazer... Devia ter caído ainda mais no conceito de Leon. Teria gostado de conversar com ele, explicar as nuances daquele caso tão discutido. Gostaria que ele tivesse sido irônico, mas nem sombra disso. Em seu rosto indiferente pairava um tédio que desestimulava o prolongamento daquela “conversa individual”. Desenvolviam uma espécie de tortura mútua: ela procurava contar tudo, ele se obstinava em não dizer nada.
            A entrevistadora bem-penteada, bem-maquiada, bem-vestida fez Liz sentir-se constrangida com suas roupas simples, seu aspecto nada resplandecente.
            A mulher achou o portfolio de Liz excelente, não imaginava que no Brasil o nível daquele tipo de trabalho fosse tão elevado. Disse que Liz não deveria ter dificuldade em se integrar na agência de propaganda na qual a vaga estava disponível. O salário era bom e o ambiente de trabalho agradável. De repente, a entrevistadora começou a fazer perguntas em holandês. Liz avisou que não sabia o idioma. Surpresa — voltando a usar o inglês —, a entrevistadora disse que na ficha de Liz constava que ela dominava holandês — equívoco na hora de preencher o formulário. Desapontada, a mulher informou que, lamentavelmente, Liz não poderia ocupar a vaga: falar holandês era condição básica. Incrédula diante da possibilidade que apontava sua salvação — agora fora de alcance —, Liz quase chorou. Aproveitou para retificar o engano e, ciente que não teria outra oportunidade como aquela enquanto não dominasse o idioma, redefiniu as pretensões profissionais. A entrevistadora protestou, alegando que Liz sabia fazer bem o tipo de trabalho que mostrava o portfolio, tinha dúvidas se ela seria feliz em outro ofício. Liz explicou que gostava de fazer outras coisas além de programação visual, e ficaria muito contente tendo outro trabalho. Pouco convencida, a mulher disse que entraria em contato oportunamente. “Oportunamente” soou a Liz como sinônimo de “nunca”.
            Foi ao local onde era possível inscrever-se no curso de hotelaria, a HOF. Não podia perder mais tempo. Fácil matricular-se na turma que seguiria as palestras na semana seguinte. Sorte? Talvez. Melhor tentar outros tipos de trabalho, não sossegaria enquanto não estivesse empregada.
            Frustrada, falou da chance perdida na entrevista. Triste, comentou sobre sua inscrição no curso de hotelaria. Ouvi com atenção. Nada podia fazer para ajudá-la, e vê-la abatida me confrangeu. Tínhamos que nos unir, precisávamos um do outro. Não podíamos ser inimigos. Senti-me estúpido pelo comportamento da noite passada. Como pude ser tão canalha?
            Fomos para a cozinha, iniciamos o preparo do almoço. Eu pretendia fazer a comida, como de hábito, mas Liz se animou a cozinhar. Procurei ajudá-la. Subitamente, nossa conversa adquiriu um tom agradável. Neutralizar nossas diferenças dependia mais de mim do que dela.
            Enquanto cozinhava, decidiu estudar as lições que Hendrik lhe ensinara no dia anterior. Obstinava-se em aprender o idioma que lhe fazia falta, que a tinha privado do ótimo trabalho. Buscou minha cumplicidade, dizendo que eu também precisava aprender holandês se quisesse ter boas chances no futuro. Mas meu futuro era opaco: havia muito ainda a resolver.

            À noite, Liz decidiu visitar Denis: tinha esperança de conhecer o amigo dele, líder da banda. Eu não queria ir, mas ela disse que se sentiria mais segura se eu fosse também. Compreendi seus temores e a acompanhei.
            Denis morava numa rua bem próxima à nossa, num prédio que dava fundos para o mesmo pátio que víamos da varanda da cozinha. Ele pareceu surpreso com nossa chegada. Subimos uma escada estreita que nos fez entrar numa espécie de copa-cozinha. A desordem dominava o ambiente. Denis nos apresentou seus outros amigos, três brasileiros, todos clandestinos. Com estranho orgulho, mostrou-nos o apartamento: além da cozinha, um diminuto banheiro e um pequeno quarto, tão desarrumado quanto o resto da casa. Mas o lugar estava equipado com todos os eletrodomésticos necessários ao conforto dos moradores; vangloriavam-se de ter conseguido os aparelhos em coletas nos montes de lixo. Eu me sentia deslocado, sem ter onde sentar naquele ambiente desleixado. A única banqueta fora cedida a Liz, tão desconfortável sentada quanto eu de pé. Como faziam para comer na mesa, para dormir num espaço tão apertado? Deviam se revezar. Denis colocava as novidades em dia com Liz, enquanto um de seus amigos contava-me sua história. O rapaz, vindo de Minas Gerais, vivendo na clandestinidade há mais de um ano, tinha um discurso bastante revoltado. Reclamava das dificuldades em conseguir trabalho quando não se tinha a situação regularizada, dos biscates que se via obrigado a fazer em troca de míseros gulden, do círculo vicioso do qual parecia impossível sair... Os outros dois se queixavam da mesma sorte, e eu me perguntava por que insistiam. Todos, inclusive Denis, pareciam unânimes em utilizar a oportunidade de viver e trabalhar no exterior apenas como forma de conseguir dinheiro rápido, para depois voltar às suas cidades de origem. Diferente de mim e de Liz, ninguém queria fixar residência em Amsterdam, somente usá-la como um trampolim monetário de volta ao ponto de partida. Mesmo Denis, que tinha direito a permanecer temporariamente no país — e de alugar o imóvel onde acoitava seus companheiros —, estava insatisfeito com suas chances. Tinha um filho com uma holandesa, mas não conseguira casar com ela, haviam brigado. A paternidade que lhe concedia direito de permanência não facilitava a obtenção de um emprego razoável. Por falta de qualificação e deficiências no holandês, Denis era obrigado a aceitar serviços menores, subempregos temporários. Impossível reunir a grande soma de dinheiro que esperava acumular. Como protesto, tinha decidido não mais pagar o aluguel, atrasado há cinco meses.
            Tomar conhecimento num só golpe daquela ciranda de mazelas e irregularidades chocou-me. Não foi difícil antever meu provável futuro com o triste presente que eles viviam. Liz parecia tão consternada quanto eu, talvez mais. Ela fazia sugestões, dava idéias, mas os rapazes sempre tinham uma resposta na ponta da língua, nenhuma ajuda parecia permitida. Clandestinos, não conseguiam trabalho no qual ganhassem um bom salário, sem dinheiro, não podiam sequer comprar a passagem de volta ao Brasil. Estavam perdidos no tempo e no espaço, flutuando no limbo, sem possibilidade de escapatória. Fiquei apavorado.
            Quanto mais se falava, mais os amigos desesperançados de Denis se irritavam com a minha presença e a de Liz. Sentia que eles nos invejavam, desprezavam. Nossa situação dentro dos padrões legais, o passaporte europeu de Liz, a possibilidade do nosso casamento, o espaçoso apartamento que dividíamos com o aluguel em dia talvez lhes soasse como afronta.
            Billy, o líder da banda, chegou da rua como se voltasse de uma festa à fantasia. Com uma cabeleira cheia de trancinhas e pingentes coloridos, trajando spencer bordado com paetês, e vestindo uma pantalona imitando pele de cobra, Billy parecia não ter nada a esconder. Denis fez as devidas apresentações, mas Billy se mostrou indiferente à nossa presença. Num tom cansado, pediu que Liz passasse no lugar onde eles tocavam para ver como ela se sairia num dos ensaios. Liz agradeceu. Tão teatral como quando chegou, Billy entrou no quarto decretando que se fizesse silêncio, ele precisava dormir.

            — Horrível a situação deles, não? — comentei, na volta para casa. — Eu não gostaria de me sentir assim.
            Liz nada falou. Prossegui:
            — Faz um mês que estamos em Amsterdam, e até agora... Eu só tenho mais duas semanas... não vai dar tempo. É melhor desistir dessa história e voltar pro Brasil...
            — Não diz isso nem brincando. Não quero nem pensar nessa hipótese!

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