Impressionante
o que se pode descobrir sobre as pessoas apenas
observando-as. Nos últimos dias, desde
que a vontade de escrever havia se manifestado
outra vez, procurei prestar atenção
na vizinhança. Comecei por Niek, nosso
senhorio. Seu comportamento revelava alguém
pouco interessante. Solteiro, aparentemente
sem namorada, levava uma vida quase monástica,
indo de casa para o trabalho, do trabalho para
casa. Numa de suas visitas, dissera prestar
serviços de consultoria financeira para
uma estatal. Com cerca de 30 anos, nem feio,
nem bonito, a monótona existência
de Niek parecia repleta de esquemas metódicos
que não deviam dar margem a surpresas
ou imprevistos. De manhã cedo, ligava
pontualmente seu carro, estacionado em frente
a nossa janela, partindo em seguida para o trabalho.
Ao anoitecer, voltava com a mesma pontualidade,
geralmente trazendo compras de supermercado.
Obeso, subia a escada de madeira sempre tão
ruidosamente que era impossível não
ouvi-lo. Uma vez no apartamento, saía
apenas no dia seguinte pela manhã, repetindo
a mesma rotina pouco excitante. Sábados
e domingos eram passados em casa, com raras
saídas.
Herbie
e Henk ocupavam, no prédio, o apartamento
térreo. Também eram inquilinos
de Niek. Tendo mudado para o apartamento vago
uma semana após nossa chegada, os dois,
louros, belos, jovens e saudáveis, eram
difíceis de se encontrar — eu os
vira apenas três vezes. Tinham vindo de
outra cidade, não sei se para trabalhar
ou estudar, talvez para as duas coisas. Pareciam
bastante unidos. Eu não sabia se eram
irmãos, primos, amigos ou amantes. Dividiam
um apartamento grande demais para duas pessoas,
e freqüentemente recebiam visitas, que
sempre tocavam por engano a campainha do nosso
apartamento.
No
prédio à esquerda do nosso, no
terceiro andar, vivia uma jovem muito bonita,
e bastante séria. Do tipo mignon,
cabelos lisos e ruivos, vestia sóbrios
conjuntos de calça comprida e blazer
— que a deixavam ainda mais bela. Exímia
violinista, eu a ouvia através da parede
do nosso quarto — ao lado do apartamento
dela — praticando incansavelmente. Parecia
ter uma rotina bastante rígida: revestida
de seriedade, munida do violino, saía
todas as manhãs de bicicleta rumo ao
Centro. Voltava na hora do almoço. Pouco
depois, tornava a sair carregando o violino
— provavelmente ao mesmo lugar em que
fora pela manhã. Certa tarde, a vi deixando
o grandioso prédio do Concertgebouw,
e imaginei que ela fosse integrante da orquestra
do teatro. Um rapaz de traços árabes,
se não era namorado dela, era forte pretendente.
Visitava-a com freqüência, creio
que ele tocava o piano que às vezes eu
ouvia junto com o violino. Apesar do rapaz se
mostrar atencioso, carinhoso até, a ruiva
o tratava com certa frieza. Vi os dois uma vez
no Vondelpark: o rapaz, que ela ainda não
notara, um pouco distante, chamou: “Petra!”
Ela se virou, olhou-o de relance e continuou
seus passos sem esboçar interesse. Ele
teve que correr para alcançá-la.
Beijando-a afetuosamente, passou o braço
sobre os ombros dela, acompanhando-a até
o apartamento. Voltando para casa, eu fazia
o mesmo caminho que eles neste dia. O rapaz
falava animado, gesticulando ao lado de Petra,
que marchava impassível, as mãos
nos bolsos do terninho preto. Vi quando entraram
no prédio, e também quando Petra
fechou a cortina da sala. Quando entrei, segui
para o quarto a fim de ouvir o ensaio deles,
mas nem violino nem piano tocaram.
Exuberante,
exótica, extravagante, excêntrica,
exagerada... adjetivos que poderiam ser aplicados
a uma figura que passava todo dia em frente
ao nosso prédio. Paraplégica,
possivelmente na casa dos 40, a mulher aparentava
jovialidade e alegria de viver. Sempre contente,
pilotava uma cadeira de rodas motorizada semelhante
a uma mini-lambreta: na parte da frente uma
cesta para bolsas e jornais, atrás, um
compartimento para o guarda-chuva. Tinha um
cãozinho branco que sempre a acompanhava
nos passeios, quer no colo, quer trotando ao
lado da engenhoca. O charme da simpática
mulher ficava por conta do vestuário:
abusava de vestidos longos e esvoaçantes,
em cores fortes como roxo, preto, marrom, ou
em audaciosos estampados imitando pele de onça,
tigre, zebra. Tudo coroado por enormes chapéus.
Vistosas echarpes ornavam seu pescoço.
Como se não bastasse a indumentária
incomum, sempre trazia os cabelos longos soltos
ao vento. Parecia pessoa boníssima. Toda
a vez que a via sentia vontade de cumprimentá-la.
Cansativo
escrever sem computador. Páginas e páginas
preenchidas com letra informe, rasuras. Apliquei-me
tanto no manuscrito que nem vi as horas passarem.
Ao fim da manhã, inspirado nos vizinhos,
tinha esboçado o perfil de personagens.
Informações insuficientes. Faltava
algo que ligasse as vidas deles de modo que
uma história envolvendo todos fosse contada.
Nada os unia, eu precisava inventar um fio condutor
que os guiasse. Completamente inviável.
À
tarde, o vento dissipou as nuvens cinzentas
que encobriam o céu há várias
semanas, um sol brilhante como eu já
nem lembrava iluminou e aqueceu a cidade. Inconcebível
permanecer confinado em casa enquanto a vida
corria lá fora sob um dia radiante. Sempre
havia acreditado que o tempo frio, triste e
cinza só poderia deprimir pessoas com
tendência à depressão. Que
equívoco! Eu, que dizia adorar invernos,
céus nublados, paisagens nuas constatava,
surpreso, como o clima podia influenciar no
humor das pessoas. Ante a repentina promessa
de tarde atípica, sentia-me subitamente
disposto. Fui viver do lado de fora, onde tudo
parecia possível.
Quando
entrei no Vondelpark me espantei com a quantidade
de gente que havia tido a mesma idéia.
Jovens, velhos, adultos, crianças, cachorros,
pássaros... todos numa alegria contagiante,
impossível ficar imune. O mundo era um
lugar perfeito, os problemas eram antigas lembranças.
As crianças corriam, pulavam, brincavam;
casais de namorados passeavam de mãos
dadas, beijavam-se deitados no gramado; idosos
tomavam sol recostados em bancos, alimentavam
aves, passeavam com cães... Todos tinham
suas próprias vidas, e elas pareciam
maravilhosas. Embora mero espectador, estava
contente por participar da cena. Passeei pelo
parque sem pressa, aproveitando recantos, aromas,
cenas de felicidade.
No
Centro, a quantidade de pessoas era ainda maior.
O termômetro de rua marcava 15 graus,
mas eu tinha impressão de que estava
mais quente. Sem o sobretudo sentia-me mais
leve.
Ainda
que não pudesse comprar coisa alguma,
olhei vitrines, entrei em lojas, avaliei mercadorias.
Talvez, se tudo desse certo, não fosse
ruim ser habitante da cidade. A multidão
alegre andando nas ruas ensolaradas me comovia.
Apesar de indiferentes, o contentamento em seus
rostos os fazia parecer mais vivos e reais do
que nunca.
Voltando
para casa, evitei as ruas movimentadas. Passando
em frente à livraria gay, um estalo,
um lampejo atravessou meu cérebro. Estremeci
ante a idéia que se confundia com lembrança.
Entrei na loja, desci as escadas, corri para
as estantes. Tremia, suava, meu coração
saltava. Minha memória subitamente reavivada
pregava-me uma peça? Ávido, folheei
revistas, procurando um rosto. E livros, e mais
revistas. Vasculhava tudo. Até que...
encontrei! Choque, perplexidade. Achei! Não,
eu não estava enganado, sabia que o tinha
visto antes! Sim, era ele, estava ali, diante
de mim, nu, na capa de uma revista amarelada.
Um pouco diferente, mais jovem, mas ele mesmo:
Hendrik!
A
publicação tinha quatro anos.
Na capa, Hendrik sorria, segurando o sexo ereto.
Devia estar com 17 ou 18 anos. No interior da
revista, ele aparecia numa série de fotos
solo: poses sensuais, o belo corpo estendido
sobre lençóis violeta, enquadrado
de vários ângulos; o rosto sedutor
exibindo um sorriso discreto, misterioso, meio
tímido, meio indecente. Em outra revista,
Hendrik não sorria: ele e um negro forte
e avantajado entregavam-se a toda a sorte de
variantes em cenas de sexo, tão grotescas
quanto excitantes. Contraste perturbador: a
pele clara, o corpo frágil, a beleza
quase feminina de Hendrik em oposição
à pele escura, ao corpo musculoso e embrutecido,
à feiúra potente e desvairada
do negro. Seu olhar azul não demonstrava
prazer, nem dor, parecia de medo. Mais uma revista,
novamente Hendrik, dessa vez numa orgia: três
homens mascarados, vestidos com tiras de couro,
corpos peludos untados em óleo, submetiam-no
a desejos animalescos; amarrado, ora amordaçado,
ora vendado, ele era manobrado como boneco em
direção aos sexos rijos dos três
sádicos na sessão de tortura.
Quatro, cinco, seis revistas. Hendrik aparecia
em todas, em cada uma encarnando um personagem
estereotipado. Na última delas, seus
olhos não pareciam mais expressar medo,
tampouco prazer ou dor, apenas indiferença.
Por quê? Por que você, Hendrik?
Necessidade? Chance de ganhar dinheiro rápido?
Prazer? Como tinha ido parar na capa daquelas
revistas, no meio das páginas obscenas?
Ao mesmo tempo em que sentia horror, uma espécie
de admiração me dominava. Que
ousadia! Que coragem! Ele tinha visto tudo aquilo,
fizera parte daquele mundo inimaginável...
Dinheiro, só podia ter feito por dinheiro
— o que era ainda mais corajoso e ousado.
Isso explicaria muita coisa... Hendrik, agora
sei um de seus segredos. Que outros esconderá?
Ele aparecia em seis números da revista
holandesa, seis meses consecutivos, depois,
não mais. Seria aquele o tempo exato
para conseguir a quantia de que precisava? Eu
acreditava que uma vez nessa vida — quer
pelo dinheiro, quer pelo gosto que se adquiria
— não era possível abandoná-la
de repente. Hendrik provava que eu estava enganado.
As revistas na minha mão eram uma prova,
mas... contra quem? A comprovação
daquela conduta não deveria chocar Liz
muito mais tempo que a mim. Estarrecida num
primeiro momento, ela procuraria entender os
motivos que o levaram àquilo, se apiedaria,
o amaria ainda mais. Não, para Liz as
revistas só serviriam para exacerbar
sua neurose amorosa. Isso me proibia de mostrá-las,
de revelar minha descoberta. Meu estupor inicial
cedeu lugar a uma sensação de
orgulho, idolatria: Hendrik num pedestal no
topo de uma escadaria de mármore brilhante.
Guardar o segredo dele — ainda que sem
o seu conhecimento — criava certa conivência
entre nós, fazia de mim seu comparsa.
Quando
colocava as revistas de volta na prateleira
um homem esbarrou em mim. Virei ligeiramente
irritado pelo esbarrão no local espaçoso.
Ele sorria. Era bonito, forte, ruivo, uns 40
anos, talvez menos. Sempre sorrindo e me fixando,
encaminhou-se até a porta que dava para
o corredor misterioso. Com um gesto de cabeça,
chamou-me, sumindo atrás da porta. Olhei
ao redor a fim de me certificar de que era o
objeto de seu olhar insistente. Estava sozinho,
não havia dúvidas. Esbarrar uns
nos outros devia ser a forma de abordagem. Eu
não queria saber o que se escondia atrás
da porta? O que me detinha agora? O convite
havia sido feito. Batimentos cardíacos
acelerados, girei a maçaneta e entrei.
Imediatamente alguém segurou minha mão,
puxando-me escada acima. Na escuridão
absoluta, segui, trôpego, o estranho de
voz rouca, que sussurrava palavras ininteligíveis.
O chão de madeira rangia sob meus pés.
Entramos num lugar estreito. Eu não via
nada, mas sentia paredes opressoras em volta,
o cheiro de mofo e poeira, entorpecia, asfixiava.
Com violência, o homem me abraçou,
colando a boca ávida na minha, enquanto
sua mão apertava meu sexo. Ele me estreitava,
sufocava, machucava. Hálito azedo, língua,
áspera, gosto horrível de nicotina
e álcool agora na minha boca. Usando
força, desvencilhei-me do abraço
estrangulador, tentei fugir, mas ele me agarrou,
dizendo coisas que eu não entendia. Abraçou-me
por trás, esfregando a boca molhada na
minha orelha, me fazendo sentir o volume do
seu sexo de encontro ao meu corpo. Eu não
via coisa alguma, tudo era negro, claustrofóbico.
Virando bruscamente, dei uma joelhada no desgraçado,
que me soltou aos berros. Sem enxergar nada,
tentei correr, bati em paredes, portas; quase
rolei escada abaixo, mas consegui agarrar o
corrimão antes da queda. Assustado como
quem escapa da morte, entrei de volta na sala.
Alguns homens me olharam sobressaltados, como
se vissem um fantasma. Deviam ter escutado os
gritos, a agitação, minha descida
ruidosa... Corri para fora da loja, morto de
medo, ódio, vergonha, mas são
e salvo.
Que
loucura! O que eu estava fazendo? Como tive
coragem? Não, justamente o contrário:
fui covarde, não fui até o fim.
Teria sido o meu fim? Eu era inexperiente. Não
era Hendrik, não podia me comportar como
ele não se comportava mais. Talvez suas
fotos antigas tivessem me estimulado a tentar
algo novo. Que estupidez!
As
pessoas no Vondelpark mantinham as fisionomias
despreocupadas, tudo igual a quando eu o atravessara
no sentido oposto. A bela tarde de sol começava
a terminar. Que expressão teria meu rosto
de pessoa louca, de pessoa salva? Não
conseguia imaginar. Ninguém parecia me
notar, eu representava o mesmo papel insignificante
de sempre. Isso me reconfortou. Minha aventura
secreta pertencia apenas a mim mesmo.
|
|
O
sábado findava. O dia inteiro praticamente
passado na cama. Havia tentado fazer com que Hendrik
levantasse depois do meio-dia, em vão.
Apesar
da leve dor de cabeça, Liz sentia-se bem.
Entranha a rapidez com que seu organismo se habituava
às drogas. Em outros tempos ficaria vários
dias dopada. Devia ser isso: quanto mais acostumada
ao efeito, maior a quantidade de droga a consumir.
Não era viciada, mas devia ser assim com
os dependentes. Hendrik era viciado? Talvez não.
Se o fosse, não permitiria que ela fumasse
quase todo o seu skunk. Por que ele precisava
se drogar antes do sexo? Um viciado circunstancial,
usando droga como estimulante? Seria possível
controlar tão bem algo que fazia com que
se perdesse o controle? O que o teria motivado,
na ausência do estímulo habitual,
a levá-la para a cama?
Levantou.
No banheiro, lavou o rosto de olhos vermelhos
e inchados, ajeitou os cabelos — as raízes
brancas começavam a aflorar, precisava
pintá-los novamente. Na cozinha, alimentou
os gatos. Não tinha fome, mas tomou um
iogurte. Na sala, ligou a TV,
nada atraiu sua atenção. Estava
preocupada. A presença de Leon significava
satisfações a serem dadas —
principalmente porque havia dito que resolveria
de uma vez por todas a questão com Hendrik.
Sentia-se fraca, vítima da paixão,
e também determinada, indo ao encontro
de seu objetivo.
Precisava
viver o presente. Pensar sempre no futuro era
desperdiçar a vida. Tinha que encarar o
amanhã como um tempo remoto e longínquo.
Mas não conseguia. O futuro seria determinado
pelo que fazia hoje, agora. E o que fazia? Esperava
o homem que pretensamente a amava acordar, falar
com ela, estar a seu lado, amando-a, fazendo-a
feliz. Mas faltava algo. Não podia ser
só aquilo. Jamais conseguiria viver unicamente
de amor e felicidade. Sustentar o presente visando
o futuro era ter uma ocupação rentável
que a tornasse participativa no país que
escolhera viver. Impossível não
pensar no amanhã sem uma ponta de temor.
E
Hendrik? Pensaria no futuro de forma obsessiva
também? Ela realmente faria parte do futuro
dele? Hendrik parecia convergir esforços
para esse tempo invisível de maneira despreocupada.
Talvez se fiasse em sua juventude. De repente,
seu futuro e o de Hendrik pareceram trajetórias
distintas, tinham se cruzado, mas nunca seguiriam
lado a lado.
Incoerência.
Estava junto ao homem dos seus sonhos, tinha-o
a sua disposição, mas sentia-se
sozinha, trancada num apartamento alheio. O dia
devia ter sido belo e agradável. O pôr-do-sol
mostrava uma tarde atípica de inverno,
tarde inteiramente perdida. Poderiam ter passeado
de mãos dadas no parque, ido ao cinema,
visitado um museu, andado pela cidade vendo vitrines...
Coisas comuns, mas que teriam sabor especial por
se sentir livre ao lado dele, sem ter que se esconder.
Por que Hendrik dava tão pouca importância
a esses momentos de afeto? Tinha impressão
de que, para ele, o relacionamento amoroso estava
restrito às limitadas fronteiras da cama
de casal.
—
Dormiu bem? — perguntou, levemente irônica,
quando Hendrik surgiu na sala.
—
Acho que eu dormi demais, estou até cansado
— disse, bocejando.
—
O que a gente vai fazer? Sair pra dançar,
ir ao cinema ou o quê?
—
Você tem certeza que quer sair? —
falou, num muxoxo, caindo no sofá ao lado
dela.
—
E por que não?
—
Estou sem vontade. Eu gosto de dançar,
mas isso cansa, preciso beber, tomar estimulantes,
e isso faz mal. Você não está
com uma roupa legal pra dançar, e eu não
quero gastar muito...
—
Mas não precisamos dançar até
desmaiar. A gente podia ir num lugar com entrada
grátis, e você podia me emprestar
uma das suas roupas maravilhosas... Ah, vai, se
anima!
—
É isso mesmo que você quer? —
disse, sedutor, aproximando-se dela, pousando
a cabeça em seu peito. —
Eu tenho uma idéia melhor.
—
Você não gostaria de fazer uma coisa
diferente? — perguntou, adivinhando a idéia
dele.
Não
respondeu. Começou a beijar o pescoço
dela, o colo, mordiscar os seios sob a camiseta...
Ela se perguntava quem era o homem subitamente
carinhoso. Sim, queria-o sóbrio, afetuoso,
apaixonado... como agora. Fechou os olhos pensando
em si mesma, no prazer de ser beijada, acariciada.
Hendrik nunca dava importância às
preliminares, mas, em sua bendita sobriedade,
parecia disposto a compensar aqueles instantes
sempre desperdiçados. Ele a despia com
tanta ternura, que Liz, de olhos fechados, sentia-se
num sonho. Aquele era o Hendrik sem skunk? Que
maravilha! Por que não podia ser sempre
assim? Excitada, queria abrir os olhos para ver
a cena de amor, mas estava num sonho, se abrisse
os olhos acordaria. Devaneava, sentindo-se tola,
ridícula, surpresa, encantada, nada mais
tinha importância. Hendrik beijava seus
seios, os mamilos intumescidos de desejo, a pele
arrepiada de prazer. As mãos dele percorriam
suas curvas... Mais uma vez, vencida, cedia a
ele, entregava-se sem reservas. Sim, iria fazer
sempre o que ele dissesse, o que quisesse, toda
vez que pedisse, amava-o, ele estava ali fazendo-a
sorrir de todas as bobagens que pensava enquanto
ele a beijava, tocava, desejava. Sim, o prazer
estava ali, sobre ela, lábios, boca, língua,
mãos, sexo... Liz também o acariciava,
tocava seus cabelos, a pele com a barba por fazer,
os músculos pulsantes... O mundo podia
acabar agora, ela seria eternamente feliz. Seu
corpo vibrava, o sexo úmido latejava, gemia
sob o peso dele, que gemia no ouvido dela, comprimia
seus seios, o ventre, sexos num perfeito encaixe,
entregando-se um ao outro, fazendo-os sentir o
prazer de seus corpos febris, livres, o corpo
dela, movendo-se sob o desejo dele, mais e mais,
mais rápido, o sexo dele era agora o sexo
dela, sim, mais depressa, precisava dele naquele
jogo, mas seu prazer dependia de si mesma, sim,
amor, ela sentia, mais rápido, sim, desejo,
mais depressa, sim, sim, prazer, só ele
importa agora, sim, agora, agora, agora...
Abriu
os olhos, como se despertasse de um desmaio. Hendrik
ainda trabalhava sobre ela, alterado, corado.
Outro homem, ainda mais belo com o rosto modificado
pelo prazer, olhos cerrados, boca entreaberta,
gemendo por causa dela. Instantes finais, catarse
masculina, descarga elétrica. Hendrik desabou
sobre ela, que o beijou satisfeita, gratificada.
Progresso significativo. Hendrik ainda não
lhe dava liberdade irrestrita e insistia em usar
preservativos, mas cedera. Abrir mão do
skunk antes do sexo: uma agradável surpresa.
Enquanto
Hendrik tomava banho, Liz, ainda no sofá
da sala, sorria satisfeita. Nem tudo estava perdido.
Às vezes achava-se infantil com seus sonhos
românticos, com o peso que atribuía
ao amor e aos relacionamentos.
Ele
saiu do banho enrolado numa toalha.
—
Agora você, a água está ótima
— disse. Segurou as mãos dela, ajudando-a
a levantar.
—
Você é o homem mais lindo que eu
já vi na vida, sabia? — falou, abraçando-o.
—
Eu faço o melhor que posso — riu,
orgulhoso. — É o que todos deviam
fazer, não acha?
—
Mas nem todo mundo tem um rosto bonito, um corpo
perfeito...
—
Isso sempre se pode mudar. Você nunca pensou
em fazer uma cirurgia plástica?
—
Acha mesmo que eu preciso de uma plástica?
— indagou, admirada.
—
Você se considera perfeita?
—
Bem, não, mas... pensei que eu fosse pelo
menos razoável.
—
Se pudesse, você não mudaria nada
no seu corpo, no seu rosto?
—
O que você acha que eu poderia melhorar?
— perguntou, curiosa, intrigada.
—
Você podia tirar as bolsas dos olhos, retocar
o nariz, levantar os seios caídos, fazer
lipoaspiração na barriga...
—
Não sabia que eu era tão horrorosa!
— esbravejou, batendo a porta do banheiro.
—
Mas eu já me acostumei com você assim,
Liz... Por que me fez uma pergunta se não
queria resposta?
Custava
a crer no que ouvira. Em menos de um minuto, Hendrik
a tinha feito enxergar a realidade. Construíra
fantasias com a imagem perfeita de Hendrik, achando
que fazia parte da perfeição. Os
homens às vezes sabem ser cruéis.
Por mais acostumado que estivesse, ele a achava
feia, velha e gorda. Por que transava com ela?
Porque era a única a suportá-lo?
Devia se envergonhar dela, por isso não
queria ser visto em público, a seu lado.
Sob
a água do chuveiro, chorou, mais de raiva
que de tristeza. Esfregou a esponja em sua carne
com força, como se fosse possível
consertar defeitos estéticos.
Apesar
das desculpas, da atenção que ele
lhe dera depois do banho, Liz havia ficado muito
magoada.
No
dia seguinte, Hendrik levantou antes dela. Solícito
e prestativo — o que, mais que qualquer
coisa, lembrava-a da noite anterior —,
parecia determinado a fazê-la sentir-se
bem. Entusiasmado, fazia planos para o domingo:
passear no parque, ir ao zoológico, sair
a todo custo. Liz não tinha ânimo
algum. Achou que estaria melhor no dia seguinte,
mas não estava. Os planos de Hendrik
não lhe apeteciam, nenhum deles era espontâneo.
As promessas do domingo alegre tendo Hendrik
como companhia haviam sido desencadeadas por
sua crise de mulher com brios arranhados. Não
compactuaria com a farsa cretina. Atrevimento
da parte dele achar que ela era estúpida
a ponto de aceitar propostas complacentes. Além
disso, o tempo tinha voltado a ficar frio e
cinza. Não, não iria a parte alguma.
Hendrik
acatou os desejos dela sem protestar —
o que só comprovava como ele estava sendo
artificial. Liz não se surpreendeu. Estava
triste, queria ir embora. Mas também
queria ficar, reparar aquele episódio.
Paciência e dedicação: difícil
exercício contínuo. Seria eterno?
Como
não iam sair, Hendrik se propôs
a ensinar-lhe holandês. Ela aceitou. Enfim,
algo espontâneo.
|
|
Limpar,
lavar, cozinhar, consertar refugos pinçados
em montes de lixo... tudo inutilidade, idiotice!
Passei horas ajeitando a persiana recolhida na
rua. Para quê? Para nada. Estou cansado
de desperdiçar tempo, fazer coisas que
ninguém valoriza. Viver também é
uma grande idiotice, a maior de todas. No espesso
silêncio do apartamento vazio, chorei, chorei,
chorei... Saí, no frio, no vento, na tarde
cinza. No parque, andei como maníaco, marchando
para lugar nenhum, repetindo os tediosos passos
de uma rotina estagnante. Não havia onde
me refugiar, todos os espaços eram incômodos,
tinha perdido meu lugar na Terra. Sentei no banco
gelado, no parque deserto. As aves se aglomeravam
na camada de gelo no lago, eriçavam as
penas. Reunidas venciam o frio mais facilmente.
Eu estava só, no fundo do abismo, ninguém
viria ao meu encontro. O que mais lamentava não
era a solidão imposta por circunstâncias
alheias a minha vontade, mas minha permanência
isolada num lugar que não escolhera, de
que não gostava, com o qual não
me identificava. Um castigo.
Companhia.
Isso resolveria tudo? Talvez não, mas amenizaria
a situação. O que estariam fazendo
Liz e Hendrik? Divertindo-se, sem dúvida.
Por que não eram meus amigos? Que mal havia
nisso? Poderiam estar no apartamento me esperando
para algum programa — nem que fosse para
jogar cartas, que detesto, mas faria com prazer.
Não, seria pedir demais. Nunca farei parte
dos planos deles. O amor exclui a amizade? A amizade
não exclui o amor.
A
chuva obrigou-me a voltar. Ninguém me esperava
na escuridão inóspita do apartamento.
Liguei o aquecedor. Puxei a poltrona para perto
do amigo barulhento, que chia, mas me aquece.
Liz
chegou pouco antes da meia-noite. Esforçava-se
em demonstrar naturalidade, mas não me
convencia. Tudo minha culpa. Ainda que eu não
dissesse uma palavra, minha presença
parecia exigir dela satisfações
que eu não pedia.
Mantive-me
calado e imóvel após ter respondido
ao seu “Olá!”. Sentia-me
desconfortável pelo peso que minha presença
lhe causava. Deveria ter evitado o incômodo
mútuo indo deitar cedo, mas alguma coisa
perversa em mim me mantivera alerta, esperando
o momento do desagradável confronto.
Paralisado na poltrona, cego diante da televisão,
meu silêncio devia equivaler a um discurso,
minha postura estática, a uma violenta
sacudidela. Sem querer e por querer, feria e
era ferido. Incomodada com minha mudez, Liz
desatou a falar, comentando as melhorias, a
limpeza que eu havia feito no apartamento. Não
falava comigo, falava consigo mesma no intuito
de destruir o silêncio constrangedor.
Seguiu
para o banho. A deixa que eu precisava para
acabar com o mal-estar que cumprira sua estúpida
função. Desliguei a TV.
Sem sono, pensei em dormir. Antes que eu tivesse
tempo de escovar os dentes, Liz desligou o chuveiro.
Imaginava que ela usaria um longo banho como
artifício para se ver livre de explicações.
Encontrou-me na pia escovando os dentes, tornou
a elogiar a persiana que eu tinha consertado.
Fui
para o quarto, deitei-me. Liz segurava um caderno,
pareceu-me que ia ler.
—
Você também vai ler um pouco? —
perguntou.
—
Não — falei, secamente.
Ela
apagou a luz. Gentilmente, pediu que a acordasse
cedo, não queria chegar atrasada à
entrevista. Eu parecia o dono do apartamento
no qual Liz, simples hóspede, fazia o
possível para não me aborrecer.
Nosso comportamento era infantil, ridículo.
Ressentido com seu descaso, eu procurava demonstrar
uma indiferença que meu silêncio
comprometia. Sentindo-se culpada por me privar
de notícias, por deixar clara sua mudança
de atitude em relação a Hendrik,
ela tentava aparentar uma normalidade insustentável
com os elogios e concessões que fazia.
|
|
O
alarme do relógio de pulso de Leon soou
às sete horas. Ele o desligou, e continuou
deitado. Após a noite praticamente insone,
olhava-o com raiva, tristeza. Por trás
das janelas o dia estava chuvoso. No colchão,
ao lado do dele, ela respirava e se movia tão
desconfortavelmente quanto na véspera,
imaginando que Leon a soubesse acordada. Ele sempre
levantava cedo, mesmo não tendo necessidade.
Isso a irritava, detestava acordar quando ainda
tinha sono. Contrariada, mexia-se no colchão,
descontente por não ter se explicado a
Leon na noite anterior. Ele não havia facilitado
as coisas. Por que aquela postura artificialmente
fria? Ele também devia estar sentindo tristeza
e raiva.
Leon
levantou, arrumou a roupa de cama, foi para a
cozinha. Liz o imitou. Encontrou-o na pia, escovando
os dentes.
—
Bom dia! — falou, esforçando-se em
ser agradável, e sabendo que não
o conseguira.
—
Bom dia — retrucou ele, condescendente.
Ela
tomou um banho rápido, vestiu-se depressa.
Na cozinha, Leon preparava chá. O semblante
fechado, pouco amistoso, não a intimidou.
De pé, ao lado dele, começou:
—
Eu fiquei apreensiva achando que você podia
estar preocupado com o meu sumiço...
—
Eu imaginei que alguma coisa tivesse acontecido
— falou ele.
—
Mas você sabia que eu estava bem, não?
—
Imaginei que sim.
—
Eu fiquei preocupada por deixar você sozinho,
sem notícias. Mas achei que você
lembrava da minha entrevista hoje cedo. Tive medo
de não acordar a tempo de vir para cá
antes do compromisso, e acabei voltando ontem
mesmo.
—
Se você não aparecesse hoje à
noite eu ia começar a me preocupar... —
mentiu.
—
O que você fez no fim de semana?
—
Matei o tempo.
—
Mas não saiu, não passeou?
—
Passear no parque, ir ao Centro, ver televisão...
tudo é matar tempo — disse, levando
a xícara de chá para a sala.
Liz
ficou na cozinha preparando o que comer. A vida
de Leon em Amsterdam era aborrecida, monótona.
Se ao menos ele tivesse uma ocupação
realmente útil... mas se ela mesma estava
tendo dificuldade em encontrar trabalho, o que
esperar de Leon?
—
Ligou pra sua mãe? — indagou, sentando
na poltrona ao lado dele.
—
Liguei.
Leon
não estava a fim de conversar. Liz só
conseguia lhe arrancar respostas secas.
—
Eu não fiz nada no fim de semana. O Hendrik
ficou me ensinando holandês. Ele queria
que a gente fosse ao zoológico, mas eu
não podia gastar dinheiro, e depois o tempo
estava tão feio...
Leon
nada comentou. Levantou, foi para cozinha levando
a xícara vazia. Ela o seguiu.
—
Na sexta-feira, quando eu cheguei na casa do Hendrik,
falei que era melhor a gente terminar. Ele disse
que tinha me procurado pelo motivo oposto.
Leon
permaneceu calado. Liz continuou:
—
Eu resolvi dar uma nova chance a ele, e a mim
também.
O
silêncio de Leon a constrangia. Ele a reprovava,
estava claro, por que não o dizia? Devia
tê-la julgado e condenado. Talvez sentisse
desprezo, ou horror pela fraqueza que ela acabava
de admitir. Culpa dela. Se não tivesse
dito o que não tinha intenção
de fazer... Devia ter caído ainda mais
no conceito de Leon. Teria gostado de conversar
com ele, explicar as nuances daquele caso tão
discutido. Gostaria que ele tivesse sido irônico,
mas nem sombra disso. Em seu rosto indiferente
pairava um tédio que desestimulava o prolongamento
daquela “conversa individual”. Desenvolviam
uma espécie de tortura mútua: ela
procurava contar tudo, ele se obstinava em não
dizer nada.
A
entrevistadora bem-penteada, bem-maquiada, bem-vestida
fez Liz sentir-se constrangida com suas roupas
simples, seu aspecto nada resplandecente.
A
mulher achou o portfolio de Liz excelente, não
imaginava que no Brasil o nível daquele
tipo de trabalho fosse tão elevado. Disse
que Liz não deveria ter dificuldade em
se integrar na agência de propaganda na
qual a vaga estava disponível. O salário
era bom e o ambiente de trabalho agradável.
De repente, a entrevistadora começou a
fazer perguntas em holandês. Liz avisou
que não sabia o idioma. Surpresa —
voltando a usar o inglês —, a entrevistadora
disse que na ficha de Liz constava que ela dominava
holandês — equívoco na hora
de preencher o formulário. Desapontada,
a mulher informou que, lamentavelmente, Liz não
poderia ocupar a vaga: falar holandês era
condição básica. Incrédula
diante da possibilidade que apontava sua salvação
— agora fora de alcance —, Liz quase
chorou. Aproveitou para retificar o engano e,
ciente que não teria outra oportunidade
como aquela enquanto não dominasse o idioma,
redefiniu as pretensões profissionais.
A entrevistadora protestou, alegando que Liz sabia
fazer bem o tipo de trabalho que mostrava o portfolio,
tinha dúvidas se ela seria feliz em outro
ofício. Liz explicou que gostava de fazer
outras coisas além de programação
visual, e ficaria muito contente tendo outro trabalho.
Pouco convencida, a mulher disse que entraria
em contato oportunamente. “Oportunamente”
soou a Liz como sinônimo de “nunca”.
Foi
ao local onde era possível inscrever-se
no curso de hotelaria, a HOF.
Não podia perder mais tempo. Fácil
matricular-se na turma que seguiria as palestras
na semana seguinte. Sorte? Talvez. Melhor tentar
outros tipos de trabalho, não sossegaria
enquanto não estivesse empregada.
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Frustrada,
falou da chance perdida na entrevista. Triste,
comentou sobre sua inscrição no
curso de hotelaria. Ouvi com atenção.
Nada podia fazer para ajudá-la, e vê-la
abatida me confrangeu. Tínhamos que nos
unir, precisávamos um do outro. Não
podíamos ser inimigos. Senti-me estúpido
pelo comportamento da noite passada. Como pude
ser tão canalha?
Fomos
para a cozinha, iniciamos o preparo do almoço.
Eu pretendia fazer a comida, como de hábito,
mas Liz se animou a cozinhar. Procurei ajudá-la.
Subitamente, nossa conversa adquiriu um tom agradável.
Neutralizar nossas diferenças dependia
mais de mim do que dela.
Enquanto
cozinhava, decidiu estudar as lições
que Hendrik lhe ensinara no dia anterior. Obstinava-se
em aprender o idioma que lhe fazia falta, que
a tinha privado do ótimo trabalho. Buscou
minha cumplicidade, dizendo que eu também
precisava aprender holandês se quisesse
ter boas chances no futuro. Mas meu futuro era
opaco: havia muito ainda a resolver.
À
noite, Liz decidiu visitar Denis: tinha esperança
de conhecer o amigo dele, líder da banda.
Eu não queria ir, mas ela disse que se
sentiria mais segura se eu fosse também.
Compreendi seus temores e a acompanhei.
Denis
morava numa rua bem próxima à
nossa, num prédio que dava fundos para
o mesmo pátio que víamos da varanda
da cozinha. Ele pareceu surpreso com nossa chegada.
Subimos uma escada estreita que nos fez entrar
numa espécie de copa-cozinha. A desordem
dominava o ambiente. Denis nos apresentou seus
outros amigos, três brasileiros, todos
clandestinos. Com estranho orgulho, mostrou-nos
o apartamento: além da cozinha, um diminuto
banheiro e um pequeno quarto, tão desarrumado
quanto o resto da casa. Mas o lugar estava equipado
com todos os eletrodomésticos necessários
ao conforto dos moradores; vangloriavam-se de
ter conseguido os aparelhos em coletas nos montes
de lixo. Eu me sentia deslocado, sem ter onde
sentar naquele ambiente desleixado. A única
banqueta fora cedida a Liz, tão desconfortável
sentada quanto eu de pé. Como faziam
para comer na mesa, para dormir num espaço
tão apertado? Deviam se revezar. Denis
colocava as novidades em dia com Liz, enquanto
um de seus amigos contava-me sua história.
O rapaz, vindo de Minas Gerais, vivendo na clandestinidade
há mais de um ano, tinha um discurso
bastante revoltado. Reclamava das dificuldades
em conseguir trabalho quando não se tinha
a situação regularizada, dos biscates
que se via obrigado a fazer em troca de míseros
gulden, do círculo vicioso do
qual parecia impossível sair... Os outros
dois se queixavam da mesma sorte, e eu me perguntava
por que insistiam. Todos, inclusive Denis, pareciam
unânimes em utilizar a oportunidade de
viver e trabalhar no exterior apenas como forma
de conseguir dinheiro rápido, para depois
voltar às suas cidades de origem. Diferente
de mim e de Liz, ninguém queria fixar
residência em Amsterdam, somente usá-la
como um trampolim monetário de volta
ao ponto de partida. Mesmo Denis, que tinha
direito a permanecer temporariamente no país
— e de alugar o imóvel onde acoitava
seus companheiros —, estava insatisfeito
com suas chances. Tinha um filho com uma holandesa,
mas não conseguira casar com ela, haviam
brigado. A paternidade que lhe concedia direito
de permanência não facilitava a
obtenção de um emprego razoável.
Por falta de qualificação e deficiências
no holandês, Denis era obrigado a aceitar
serviços menores, subempregos temporários.
Impossível reunir a grande soma de dinheiro
que esperava acumular. Como protesto, tinha
decidido não mais pagar o aluguel, atrasado
há cinco meses.
Tomar
conhecimento num só golpe daquela ciranda
de mazelas e irregularidades chocou-me. Não
foi difícil antever meu provável
futuro com o triste presente que eles viviam.
Liz parecia tão consternada quanto eu,
talvez mais. Ela fazia sugestões, dava
idéias, mas os rapazes sempre tinham
uma resposta na ponta da língua, nenhuma
ajuda parecia permitida. Clandestinos, não
conseguiam trabalho no qual ganhassem um bom
salário, sem dinheiro, não podiam
sequer comprar a passagem de volta ao Brasil.
Estavam perdidos no tempo e no espaço,
flutuando no limbo, sem possibilidade de escapatória.
Fiquei apavorado.
Quanto
mais se falava, mais os amigos desesperançados
de Denis se irritavam com a minha presença
e a de Liz. Sentia que eles nos invejavam, desprezavam.
Nossa situação dentro dos padrões
legais, o passaporte europeu de Liz, a possibilidade
do nosso casamento, o espaçoso apartamento
que dividíamos com o aluguel em dia talvez
lhes soasse como afronta.
Billy,
o líder da banda, chegou da rua como
se voltasse de uma festa à fantasia.
Com uma cabeleira cheia de trancinhas e pingentes
coloridos, trajando spencer bordado com paetês,
e vestindo uma pantalona imitando pele de cobra,
Billy parecia não ter nada a esconder.
Denis fez as devidas apresentações,
mas Billy se mostrou indiferente à nossa
presença. Num tom cansado, pediu que
Liz passasse no lugar onde eles tocavam para
ver como ela se sairia num dos ensaios. Liz
agradeceu. Tão teatral como quando chegou,
Billy entrou no quarto decretando que se fizesse
silêncio, ele precisava dormir.
—
Horrível a situação deles,
não? — comentei, na volta para
casa. — Eu não gostaria de me sentir
assim.
Liz
nada falou. Prossegui:
—
Faz um mês que estamos em Amsterdam, e
até agora... Eu só tenho mais
duas semanas... não vai dar tempo. É
melhor desistir dessa história e voltar
pro Brasil...
—
Não diz isso nem brincando. Não
quero nem pensar nessa hipótese!
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