Sempre havia detestado preservativos. Os invólucros de látex tiravam a naturalidade do sexo, isolando as partes em ação, privando-a do fluido vital, certeza do prazer do parceiro. Queria, em seu orgasmo, receber o orgasmo dele, senti-lo se esvaindo de prazer dentro dela. Para os homens devia ser desagradável envolver o sexo num apertado tubo de borracha lubrificada, difícil de manter no lugar. Quanto mais duradouro o ato, mais interrupções para ajustar a promessa de proteção. Os preservativos ajudavam a prevenir doenças, evitar gravidez, mas faziam o sexo perder a graça, lembrando a todo o instante que um corpo estranho se interpunha aos desejos dos amantes.
            Com a possibilidade de um relacionamento longo, Liz pensou em sugerir que fizessem exames para não terem que usar preservativos. Hendrik era inábil no manuseio da camisinha, que quase sempre se rompia. O que deveria ser momento de satisfação, relaxamento, transformava-se em tensão, constrangimento. Ela ansiava sentir a espontaneidade e abrangência daquele ato. Tinha esperança de convencer Hendrik a algo além do sexo convencional. Ele era experiente, mas apenas em penetrar, penetrar, penetrar... A passividade a que se via obrigada a incomodava. Queria tocar Hendrik, beijá-lo, acariciá-lo, sentir o sexo dele em suas mãos, em seus lábios, sua boca, sentir o gosto do seu prazer, seu cheiro de homem... queria ouvi-lo sussurrando seu nome, enquanto olhava o rosto dele, sem máscaras, num ambiente iluminado. Gostaria de usar todos os sentidos de uma só vez, e a amplitude do sexo para se conhecerem profundamente. Várias vezes tentara demonstrar interesse por algo mais que a simples penetração, mas Hendrik sempre a detinha, desestimulando-a; recusava-se a beijá-la e não permitia que ela fizesse nada além de estar à disposição dele. O medíocre papel de boneca inanimada não a satisfazia, todo o prazer que poderia obter era tragado numa revolta secreta, silenciosa. A droga devia dificultar a completa entrega de Hendrik. Na cama, ele a possuía, mas também era possuído por uma força incontrolável que não dava margem a concessões. A mesma força que o dominava, que o movia, impedia-o de ser ele próprio, de sentir a verdade das coisas, de perceber a insatisfação de Liz.
            Havia muito a organizar naquele relacionamento, mas até onde ir? Atos incertos poderiam desencadear reações imprevisíveis. Precisava tentar. Quando acreditava em alguma coisa se obstinava. O amor que sentia por Hendrik pulsava dentro dela, vivo, real. Faria tudo para atingir o equilíbrio.
            — Que tal se nós fizéssemos exames pra saber se está tudo bem com a gente? — indagou a ele. — O sexo poderia ser melhor.
            — Eu não vou fazer exame nenhum — declarou, contrafeito.
            — Mas é só pra gente ter certeza...
            — Eu não estou mais doente — cortou-lhe. — E depois, transar com você sempre me deu muito prazer, pra quê melhorar?
            Como de hábito, o egocentrismo dele prevalecia. Liz teve vontade de dizer a verdade, mas sabia que Hendrik não entendia o que não queria. Melhor adotar outra tática.
            — Mas eu poderia ter mais prazer. Você já pensou nisso?
            — Outra vez essa história de não sentir nada quando transamos. Por que você nunca está satisfeita? Eu sou potente e demoro pra terminar, o que mais você quer?
            Sempre se surpreendia com a ingenuidade de Hendrik, sua franqueza. Ficava tão desarmada com a sinceridade dele que em vez de ficar irritada se enternecia.
            — Eu quero tudo. Quero você, inteiro — falou, com voz suave. — Já te ocorreu que uma mulher talvez goste de algo além da potência do homem e da duração do ato com ele? O nosso sexo é muito limitado, Hendrik.
            — Como assim? Eu faço tudo pra te agradar. Você não gosta da minha performance?
            — Não é isso. Eu te amo, mas você mal me toca, não me beija, não deixa que eu te toque... Eu também quero participar, fazer o que sinto vontade...
            — De novo a história de sexo oral. Isso é... é nojento!
            — Não há nada de repulsivo nisso quando se ama. É só outra maneira de tornar as coisas mais interessantes.
            — Não é higiênico, pode transmitir doenças. E depois, todo mundo sabe que é preciso usar preservativos sempre que se transa.
            — Só quando se é promíscuo, quando não se confia no outro.
            — Mas a gente não se conhece bem. Você sabe muito pouco sobre mim, e eu não sei nada dos seus outros relacionamentos.
            — Você não confia em mim, por isso fazemos sexo sem graça envolvidos em plástico. Quanto tempo é necessário pra conquistar a sua confiança?
            — Eu não quis dizer isso...
            — Então vamos fazer os exames. Assim, não vamos ter dúvidas.
            — Eu não vou fazer nada. Já disse que não estou doente.
            — E como eu posso ter certeza disso?
            — Você não confia em mim?
            Usava o maldito jogo de palavras para fazê-la aceitar sua irredutível posição. Liz odiava admitir estar errada quando se sabia certa. Decidiu contra-atacar:
            — Sim, eu confio em você. Vou fazer os exames sozinha. Se eu estiver bem, faremos as coisas do meu jeito.
            Procurava se desentender o menos possível com Hendrik, árduo exercício. Não estava acostumada a ceder sempre. Não tinha hábito de brigar a cada despedida e reatar a cada novo encontro. Hendrik era intransigente, egocêntrico, às vezes limitado. Liz se via refletida na intransigência dele, o que tornava tudo mais difícil. Por que ele jamais concordava com ela? O comportamento de Hendrik a aborrecia, intrigava, fascinava. Surpreendente como ele ousava afrontá-la, sem o menor argumento em seu favor, falando e teimando sobre coisa alguma. Mais surpreendente ainda, ela, com um arsenal idéias coerentes, sucumbir diante da figura pretensamente articulada de Hendrik. Gostaria de resolver tudo sem discussão, mas nem sempre o conseguia. Também era intransigente, mas era inteligente. Quando não podia vencer, transformava a ocasião em partida a ser disputada em outra oportunidade. Hendrik a obrigava a pensar e pesar tudo o que dizia e fazia. Ressentia-se por perder a espontaneidade, mas se essas eram as regras, melhor tirar partido delas. Sair de cena antes de se irritar o bastante havia se tornado sua principal estratégia.
            Deixando o apartamento de Hendrik, foi ao posto de saúde, no mesmo bairro. Tinha visto o endereço na cartilha que orientava como se prevenir de doenças sexualmente transmissíveis, que Hendrik consultava a todo instante. O SoFi-nummer lhe dava direito a exames gratuitos. Quis fazer o teste para saber se era portadora do vírus da AIDS, mas foi informada pela enfermeira de que precisava marcar consulta com uma semana de antecedência para o exame. O primeiro passo era fazer os testes mais simples para detectar a presença de alguma doença venérea. Concordou com os procedimentos usuais. O médico a examinou, não constatando nada de anormal. Para certificar-se que não era portadora de doenças sexualmente transmissíveis, era necessário um exame de sangue. Quando o médico estava enchendo a seringa com o líquido vermelho-escuro, a borracha que prendia a circulação no braço de Liz soltou-se. A seringa escorregou da mão do doutor e o sangue esguichou, espalhando-se pelo rosto dele. Assustado, o médico pediu que ela aguardasse na sala de espera. Logo, a enfermeira apareceu dizendo que Liz estava com sorte: tinham um horário vago naquele instante para o teste de AIDS.

            Liz está cada vez mais estranha. Pensei que as noites passadas com Hendrik a deixariam ótima no dia seguinte, mas não é isso o que ocorre. Evito fazer perguntas, mas ela não consegue se privar de fazer comentários, vítima de uma vontade incontrolável de extravasar sentimentos em conflito. Não deve me contar tudo, mas o que revela já me parece muito. Diariamente ensaiamos a mesma cena: Liz fala, eu escuto. Desconfio que ela não busca um amigo, sequer um ouvinte: conta a si mesma os acontecimentos em que se vê envolvida, talvez na esperança de se ouvir, de entender-se. Sou um ouvinte amigo. Por acreditar que ela sinta algum alento em me contar o que vive, digo o que acho sobre a pauta do dia — tão repetitiva quanto nossos ensaios. Eu falo, mas Liz não me ouve. Se me escutasse não traria no dia seguinte as mesmas questões da véspera. Às vezes sinto vontade de perguntar se ela enlouqueceu, mas nenhum louco seria suficientemente sincero para confessá-lo. Depois, como saber que não fui eu que enlouqueci? Não é possível que os dias se sucedam numa repetição tão exata, monótona, angustiante!... Talvez sejamos dois loucos vagando num hospício sem paredes, sem grades: nossas vidas.
            Liz está muito diferente. Aquela que amei não existe mais, e às vezes me pergunto se não a inventei, se não foi fruto da imaginação de um infeliz que tentava suprir um vazio interior. Sei que não. Liz se modifica aos poucos. Cada vez menos gosto da criatura na qual vem se transmutando. Também mudei. Estou esquisito. Reflexo do que acontece a Liz? Sou o espelho dela? Liz... sua ausência me angustia, aniquila; sua presença me incomoda, horroriza. Presença... poderia chamar presença os momentos em que, diante de mim, encontra-se infinitamente mais ausente? Presença ou pseudo-ausência? Em todo caso, artifício. A presença simbólica que impõe agride-me tanto quanto sua ausência real. Talvez seja isso que me incomode: não há diferença.

            Enfim, uma novidade. Voltou falando dos exames gratuitos que havia feito. Tentei dissimular minha surpresa, fiquei em dúvida se ela fazia os exames por precaução ou por desconfiar de algo. Parecia querer provar alguma coisa.
            — É preciso coragem pra fazer o teste de AIDS — reconheci. — Enquanto não se faz o exame, ainda que se esteja contaminado, a dúvida é sempre uma esperança. Mas um resultado positivo muda tudo. Você não sente medo agora que fez o teste?
            — Sinto. Eu nunca tinha feito esse exame. Mas quero ter certeza de que estou bem. Não é justo começar um relacionamento sério sem saber uma coisa importante como essa.
            — O Hendrik também vai fazer o exame?
            — Ele já fez. Disse que está tudo bem, que ele não está mais doente.
            — Não está mais doente? Como assim?
            — Ele deve ter falado de quando teve aquela doença estranha... toxicoplamose, eu acho.
            — Não, é toxoplasmose.
            Lembrei de um amigo que morrera em decorrência da AIDS. Sabia que ninguém morria de AIDS, mas das doenças oportunistas que se desenvolviam no corpo sem imunidade. A toxoplasmose havia levado meu amigo à morte. Na ocasião, numa visita ao hospital em que ele estava internado, o médico que o tratava comentou que a toxoplasmose só se manifestava em mulheres ou crianças, em homens adultos era raríssima, tínhamos imunidade natural.
            — Tem certeza que é esse o nome da doença? Toxoplasmose? — insisti.
            — É isso mesmo. Em inglês é bem parecido: toxoplasmosis. Por quê, você sabe alguma coisa sobre a doença?
            — Sei que é comum em mulheres e crianças. Parece que é transmitida por gatos.
            — Então é isso. O Hendrik deve ter pego a doença de Plexus ou Nexus.
            Fiquei preocupado, mas não queria assustar Liz. Nem ser omisso. Precisava alertá-la.
            — O Paulo morreu de toxoplasmose — falei.
            — Mas ele não morreu de AIDS? — indagou, surpresa.
            — Ele estava com o vírus da AIDS, mas foi a toxoplasmose que causou a morte dele.
            — Meu Deus!, será que...
            — O Hendrik chegou a te mostrar o resultado de algum exame?
            — Não...
            Ficou apática. Minhas palavras deviam ter soado como um diagnóstico fatal.
            — Desculpa, eu não queria te preocupar. Não devia ter falado nada.
            — Não, você fez bem em me contar...
            — Se o Hendrik está bem agora, só pode estar curado. Ele não ia conseguir esconder essa doença. Não devia ser nada sério. E depois, vocês não usam preservativos?
            — É, mas acidentes acontecem, as camisinhas estouram.
            — Só quando não são usadas direito.
            — Esse é o problema. Você acredita que o Hendrik não sabia que precisava apertar a ponta da camisinha na hora de usar? Eu é que ensinei a ele.
            — Sério?
            — Quando aconteciam esses acidentes ele ficava nervoso. Eu dizia que usava o DIU, que não ia engravidar. Mas ele estava preocupado em que eu passasse alguma doença pra ele.
            — Você?...
            — Bom, pelo menos as pessoas contaminadas podem transar entre si...
            — Nada disso. Você nunca ouviu falar em recontágio? — indaguei. — É quando um portador do vírus contamina outro e vice-versa. A contaminação mútua faz com que o tempo de sobrevida seja bem menor. Li isso numa revista.
            — Estou perdida — disse, apreensiva. — Agora só me resta esperar o resultado do teste.
            — E quando vai ter a resposta?
            — Em uma semana.
            Se ultimamente eu já não conseguia tolerar a presença de Liz, depois de nossa última conversa isso era impossível. Antes que ela entrasse no banho, avisei que ia dar uma volta. Sentia necessidade de me refugiar em qualquer lugar longe daquele apartamento impregnado de sofreres. A cada dia eles se acumulavam tingindo de tristeza as paredes nuas de cada cômodo. Eu queria esquecer, não pensar em nada, não ter sabido de coisa alguma. Meu cérebro girava, turbilhonando acontecimentos presentes, diluindo fatos passados, distorcendo possibilidades futuras. Atravessava o Vondelpark em linha reta, a caminho do Centro, mas era como se andasse em círculos. De repente, senti-me tonto. Sentei num banco. Suava frio, estava quente. Fechei os olhos, respirei fundo. Minhas têmporas latejavam. Gripe, resfriado, virose? Não, dor de existir. Para esse mal só havia um remédio. Ainda não estava disposto a prová-lo.
            Não sei quanto tempo fiquei sentado no banco, olhos fechados, existindo. O céu cinza-azulado ainda estava claro, pessoas passeavam, pedalavam, tranqüilas, indiferentes. Não tinha ânimo para fazer coisa alguma, ir a lugar nenhum, mas não queria voltar ao apartamento. Durante algum tempo andei pelas ruas do Centro, sem que nada me despertasse interesse. Empenhava-me em descobrir algo divertido, diferente, ainda que ilusório. Necessidade de aliviar minha tensão. Passando por uma rua próxima ao correio, deparei com uma vitrine que expunha livros de nus masculinos. A unanimidade chamou minha atenção — principalmente não estando no Bairro da Luz Vermelha. Olhando o letreiro, constatei tratar-se de uma livraria gay. Tentei imaginar se era possível um espaço grande como aquele se destinar apenas a publicações do gênero. Pela vitrine observei uma criatura estranha, magra, cabelos eriçados, fazendo trejeitos e caretas enquanto se mirava num espelho de mão. A cena me fez rir. O ser andrógino parecia imitar uma cantora. A loja estava vazia. Entrei. Atrás do balcão, a esquálida imitação de cantora teve um ligeiro sobressalto. Interrompendo o que fazia, esquadrinhou-me de cima a baixo. Avancei para o interior da loja. Abaixo do hall de entrada havia uma sala onde os títulos do acervo se perfilavam nas paredes revestidas por estantes. Criteriosa, a organização do espaço dividia as prateleiras em setores distintos. Belíssimos livros de arte, corpos imitando esculturas, rostos másculos, suaves, jovens, formas e proporções irretocáveis, perfeição estética fotografada com bom gosto, homens transformados em anjos, rapazes em homens, beleza, beleza, beleza... Romances, contos, novelas, profusão de títulos, literatura específica, inimaginável em seu volume, ampla em sua temática, traduzida em vários idiomas, palavras, palavras, palavras... Revistas pornográficas, exposição do sexo em incontáveis cenas, separado em categorias, arsenal de imagens repetitivas, grotescas e excitantes, horror para os olhos, prazer para o corpo, cenas cruas, brutais enquadramentos em cores vivas, corpos de todas as formas desdobrados em todas as poses, rostos de todas as raças e idades tentando expressar a contraditória fusão de dor e prazer, sexo, sexo, sexo... Fitas de vídeo e DVDs, corpos em movimento dando vida a uma criatividade sem limites, expondo de modo verídico a individualidade de homens solitários, intimidade de pares do mesmo sexo, promiscuidade de grupos desinibidos...
            Espaço repleto de produtos para dar prazer. Eu desejava o prazer, ansiava pela sensação que permitia esquecer de mim sendo apenas eu mesmo, esquecer que tinha corpo apesar de usá-lo para este fim. Mergulhei no universo dos homens iguais, irmãos, amigos, parceiros, amantes... verdade remontada, mentira aceitável, desejável. Folheei livros, apreciei fotografias, abri revistas. Nunca havia tido acesso tão direto e ilimitado a essa mina de esquecimento. A beleza dos livros de arte me seduzia, encantava-me. A crueza das revistas pornográficas me atraía, excitava-me. Aqueles homens de papel existiam. Reduzidos à bidimensionalidade de cada página, tinham produzido com seus corpos e rostos, gestos e atitudes, as imagens nuas diante de mim. Eu os invejava, os desejava. O complexo conjunto que compunham me fascinava. Ídolos em sua ousadia, heróis em sua coragem.
            Um homem esbarrou em mim. Só então me dei conta de que não estava mais sozinho. Alguns clientes olhavam as prateleiras, outros acabavam de entrar. Comecei a prestar atenção na clientela, homens bonitos e elegantes. Estranhamente, não me sentia constrangido. Estar naquela loja era ostentar um estandarte imaginário indicando uma condição. A livraria parecia uma espécie de ponto de encontro. Dividido, já não sabia se continuava olhando os homens nos livros ou os homens ao redor. Os clientes, fingindo ver revistas, olhavam uns aos outros. Detive-me observando um par de desconhecidos. Olhares trocados, sorrisos de cumplicidade selando o acordo implícito, deixaram a sala por uma porta lateral, que eu ainda não tinha percebido. Aproximei-me da porta, e antes que ela voltasse a se fechar vi um corredor não muito comprido. Para onde teriam ido? O que havia atrás daquela porta? O trânsito era livre, precisava-se entrar em dupla? A curiosidade que me excitava também me paralisava. Os demais clientes haviam deixado a loja, voltei a ficar só, junto à porta que não ousei transpor. Distingui passos fazendo ranger uma escada de madeira, em seguida era o teto sobre minha cabeça que rangia. O casal de estranhos no piso superior. Imóvel, em silêncio, eu aguardava como se tivesse recebido ordens. Risos e ruídos secos de coisas caindo no piso em que eles estavam, no teto sobre mim, vozes sussurrando, portas batendo, o assoalho estalando, os lambris do teto vibrando...

            Quando cheguei em casa, Liz disse que não se sentira bem à tarde, tontura e enjôo atribuídos aos exames. No quarto, cama desfeita. Na sala, travesseiro na poltrona, cheiro de maconha. Na cozinha, louça acumulada na pia.
            Esforcei-me em conversar, mas a apatia de Liz me desencorajava. O tom artificial e desinteressado que eu usava em minhas frases incomodava-me, ainda que Liz não o percebesse. Por que a necessidade de feri-la com uma indiferença que eu não sentia? Por que ela não reagia como eu esperava? Liz parecia só ter pensamentos para si mesma. Já não perguntava sobre as coisas que eu fazia, meus passeios, minhas descobertas; não me dava mais aulas de inglês; não saíamos em busca de objetos na noite que antecedia a passagem dos caminhões de lixo... Aos poucos, tudo desmoronava. Precisava me conformar, ser compreensivo, paciente. Difícil impor a si mesmo ordens nas quais não se acredita. Talvez minha presença fundida em nulidade também a incomodasse. Por que insistimos? A tortura mútua abria um profundo fosso entre nós.
            Liz ajeitou a desordem no apartamento. Vestiu o sobretudo, e saiu dizendo que ia tentar encontrar trabalho nos restaurantes brasileiros e portugueses.
            Assim que ela saiu senti enorme alívio, como se me livrasse de um problema. Tudo mentira. Eu estava triste. Sua ausência real era intermédio entre duas pseudo-ausências, pequena trégua, breve agonia, nada mais. Minha tristeza era autêntica. Meu alívio artificial, ainda inconsistente, era início do relaxamento, libertação ilusória, momentânea. Uma sessão de torturas havia terminado, outra começava. Se minha vida era uma fraude por que não me enganar com convicção? Talvez, acreditando firmemente nela a transformasse em realidade. Sob a água quente do chuveiro, meu corpo nu, minhas mãos adestradas, meu sexo vivo. De olhos fechados, a água açoitava minha pele, meu pensamento se fragmentava nas imagens vistas à tarde na livraria. Eu as remontava, reordenava, meus irmãos, amigos, amantes vinham ao meu encontro, eram meus, todos eles, de uma só vez, eu lhes pertencia, servia a todos, uma troca, eles me ajudavam a sentir prazer, participavam dessa busca insana, moviam freneticamente minhas mãos, que eram as mãos de todos eles, tocavam meu sexo, meu corpo, envolviam-no com mil abraços ardentes, beijos ávidos, golpes violentos, seus sexos intumescidos eram chicotes, eles me puniam, castigavam, maltratavam, eu adorava, queria ser castigado, desejava ser punido, os chicotes brandiam sobre mim, me pertenciam como meu próprio chicote, eu conhecia todos eles, iguais ao meu, o prazer jorrava daquela fonte comum a todos nós, éramos um só. Do chuveiro, caía o sêmen dos homens belos e fortes, dos anjos de rosto másculo, dos corpos viris, dos sexos avantajados e potentes, a cascata de seus prazeres viscosos me lavava, limpava meu corpo abandonado no chão, purificava minha carne perturbada, misturava-se ao meu prazer viscoso, quente e doce, mentira e verdade, gemíamos em conjunto, o mesmo som, o mesmo prazer, miragem, todos os presentes estavam ausentes, sozinho, eu gemia isolado no fundo da minha solidão...

           Achava Leon cada vez mais ensimesmado, distante. Queria, como antigamente, conversar com ele, perguntar coisas, saber tudo... Sempre que chegava ao apartamento tinha esperanças de encontrar o velho Leon, às vezes engraçado, às vezes irônico, mas sempre deparava com uma pessoa fria, melancólica, quase indiferente. Ansiava que Leon contasse espontaneamente o que lhe acontecia. Ele nada falava, fechava-se mais e mais em sua ostra impenetrável. Ela não conseguia saber o que se passava com ele e, diante do hermetismo, nada perguntava. Não queria forçá-lo a falar, detestava pressionar. Melhor deixá-lo à vontade para dizer o que quisesse no momento oportuno. Sentia-se culpada: Leon estava ali por causa dela. Pesava-lhe ter feito promessas que se via obrigada a modificar. Fora ingênua e otimista achando que tudo seria simples. Tentava entender Leon: insatisfação, ócio, medo, tensão em não saber o que fazer da vida, não enxergar o futuro com clareza. Talvez em seu sofrimento contido ele quisesse mostrar sua impotência ante os fatos impostos. Leon não tinha escolha, para ser livre precisava submeter-se ao que ela determinasse. Liz era responsável pelo futuro dele. Assim como Leon tinha sido responsável pelo presente que ela agora vivia. Não podia fugir do compromisso assumido.
           O restaurante português estava fechado, mas parecia abandonado. O restaurante brasileiro ainda não estava aberto ao público, mas só se deu conta disso quando se viu no interior da casa em meio às cadeiras de pernas para o ar sobre as mesas, e um rapaz lavando o chão. Dirigindo-se a ele em inglês, indagou pelo gerente. O rapaz desculpou-se, não falava bem inglês, só holandês e português.
           — Eu também falo português. Sou brasileira! Me chamo Liz — disse, sorrindo.
           — Tudo bem? Eu também sou brasileiro, o meu nome é Denis — apresentou-se. — Você está atrás de emprego? Se soubesse quantos aparecem aqui procurando trabalho...
           — Então não tem nenhuma vaga?
           — Agora não. Mas no verão eles sempre contratam mais gente.
           — Que pena. Eu tinha tantas esperanças!...
           — Eu conheço os gerentes de outros restaurantes. Se você quiser, a gente pode dar uma passada neles e ver o que consegue arranjar.
           — Você é muito gentil, mas eu não quero te dar trabalho.
           — Trabalho nenhum. Eu gosto de ajudar garotas bonitas como você.
           A última frase a incomodou. A ajuda significava algo em troca?
           — Obrigada, Denis, mas eu realmente preciso ir. O meu namorado está me esperando.
           — Ei, você não achou que eu estivesse te cantando, achou? Era só um elogio.
           A palavra “cantando” ecoou em sua mente não com a conotação secundária, mas em seu sentido literal. Resolveu perguntar:
           — E de uma cantora?, não estão precisando de alguém que cante?
           — Desculpa, eu não sabia que você cantava. Que legal, uma cantora!
           — Não sou profissional, mas sou afinada. Eu também toco teclado. Acha que tenho chance?
           — Aqui não, mas eu tenho uns amigos que tocam num bar. Eu vou te apresentar a eles, talvez te encaixem na banda.
           — Eu ia adorar! — falou, entusiasmada.
A possibilidade de cantar no conjunto não a fez descartar a hipótese do trabalho como garçonete. Esperou Denis terminar a faxina, e seguiu-o aos estabelecimentos em que ele tinha conhecidos. A proprietária de um restaurante espanhol precisava de atendente — acabara de contratar uma novata que ainda não aparecera. Simpatizando com Liz, após ter feito perguntas e explicado como funcionava a casa, a senhora disse que, se quisesse, ela poderia ficar com a vaga. Mal pôde acreditar. A proprietária pediu que Liz esperasse terminar a semana, não gostava de começar nada que não pelo princípio. O salário não era grande coisa, mas a senhora estava certa de que com sua simpatia Liz ganharia muitas gorjetas.
           Agradecida, comemorou com Denis num fast food, brindando com refrigerante. Denis disse que morava com o líder da banda que tocava no bar, queria que Liz o acompanhasse ao apartamento deles pra conversarem. Ela estava ainda tão contente com o emprego no restaurante que recusou. Denis insistiu: era possível conciliar os dois trabalhos, a banda tocava de madrugada, depois do expediente da maioria dos restaurantes. Liz ficou de pensar na idéia.

           Teve vontade de encontrar Hendrik; falar sobre o emprego, explicar a situação que a envolvia com Leon, pedir que fosse compreensivo e reconsiderasse a questão do casamento. Tão repentino quanto havia surgido, o desejo desapareceu. Receio de que ele não aprovasse o trabalho que ela conseguira. Tinha dito estar procurando empregos em escritórios ou empresas em que usaria seus conhecimentos de computação e idiomas. Hendrik ficaria desapontado. Envergonhava-se de não poder ser ela mesma. Ele jamais entenderia, era teimoso, preconceituoso, evitava o diálogo quando o assunto o desagradava. Ela falava, Hendrik não compreendia. Ele falava, ela obedecia. Não, estava farta de acatar ordens que nunca a beneficiavam, de sempre renunciar ao que queria em prol de... de quê? Da satisfação de Hendrik, senhor das intransigências? Subitamente revoltada, decidiu não mais obedecê-lo. Ele precisava valorizá-la, perceber como era importante e caro tê-la apaixonada. Jogo perigoso, mas necessário. Não iria mais procurar Hendrik. Queria saber até que ponto ele necessitava dela.

            Hoje Liz saberá o resultado do exame. Passou a semana aparentemente despreocupada, deixando para ficar apreensiva só agora. Acabou de sair como quem espera algo que decidirá sua vida, seu futuro, tudo. Eu não queria estar no lugar dela.
            Pelo visto, decidiu pôr fim na história doentia com Hendrik. Há sete dias não se vêem. Evitei tocar no assunto, mas hoje, como ela comentasse o descaso dele, acabei endossando que Hendrik não devia estar muito interessado nela. Arrependi-me imediatamente.
            Liz fez contato com um brasileiro, Denis, que agora nos visita freqüentemente. Não gostei dele: ar de malandro, falso, encrenqueiro. Um quê de antipatia sempre aflora em sua simpatia amistosa. Ele olha para Liz de modo estranho. Simpática e amável com todos, ela parece confiar demais em quem pouco conhece; não devia ter lhe contado nossos planos. Sempre tenho reservas com desconhecidos, principalmente quando parecem não ter muito a perder. Solícito, atencioso, demasiado interessado em mim e Liz, cheio de perguntas inconvenientes, insistindo em que visitemos sua casa e conheçamos seus amigos... Denis me soa suspeito. Ele parece ter pressa, procura estabelecer à força uma amizade que jamais terá de mim. Talvez cobre caro pela pretensa ajuda. Ajuda pouco efetiva. Dizendo ser amigo de gerentes de restaurantes, pareceu arranjar emprego para Liz no dia em que se conheceram. A alegria dela durou pouco: quando voltou a procurar a dona do restaurante espanhol, soube que a funcionária que substituiria aparecera para assumir o posto. Agora espera novo contato com outro restaurante, e a possibilidade de participar da banda que toca em boates de madrugada.
            Preciso fazer algo que me envolva de tal modo que não sobre tempo para sentir tristeza e pena de mim mesmo. Limpar, lavar, passar, cozinhar, fazer compras... isso me ocupa, mas não me envolve, só cansa. Os possíveis lazeres não são diferentes: assistir a horrível programação da TV, ouvir repetidas vezes a fita de Bach que encontrei em meio as que Niek emprestou, reler os dois livros que trouxe comigo, passear pelas ruas, olhar vitrines e lojas...
            Quando escrevia, às vezes me espantava ao ver como o tempo passava depressa, como eu mergulhava no texto esquecendo tudo ao redor. Mesmo quando escrevia bobagens me concentrava tanto que, por mais inútil que tudo fosse, me sentia satisfeito, como se cumprisse um dever. Escrever era obsessão, esperança. Agora, tudo parece perdido para sempre no fundo do meu passado. Mas não, em Lisboa escrevi frases tristes... não faz muito tempo. Todas as possibilidades estão dentro de mim.
            Apanhei o caderno de cima do console. Reli as anotações feitas em Lisboa. Reais, deprimentes. O que escrever? Precisava de um motivo que justificasse meu empenho. Já sabia como era escrever besteiras. Tentar escrever romances também — iniciara dois, sem terminá-los. O que fazer com uma vontade que não se delineia com exatidão?
            — Negativo — disse o médico, entregando-lhe o resultado. — Você está bem.
            — Que bom, eu fico muito contente — falou, aliviada.
            — Mas o resultado do exame se refere ao período anterior a novembro do ano passado.
            — Como assim, doutor?
            — Você fez o teste agora, em fevereiro. De dezembro pra cá, se contraiu o vírus, não temos como detectá-lo.
            — Então, eu posso estar contaminada?
            — Teoricamente, sim. Mas você disse que não era promíscua, não usava drogas injetáveis, e nunca tinha feito transfusão de sangue...
            — O meu namorado teve toxoplasmose há algum tempo, mas ficou bom. Eu fiquei sabendo que essa doença só se manifesta em mulheres ou aidéticos, é verdade, doutor?
            — Não necessariamente. O seu namorado devia estar muito fraco por algum motivo, isso pode ter feito ele contrair a doença. Se vocês sempre usam preservativos não há com o que se preocupar. Se você quiser ficar mais tranqüila, pode fazer um novo exame em três meses.

            A semana inteira de espera por uma resposta incerta. Impossível alegrar-se completamente, inútil preocupar-se por antecipação. Precisava acreditar em si mesma, no papel atestando sua saúde retroativa. Sentia-se bem, seu corpo lhe dizia que sim, tinha toda a vida pela frente. Seu pensamento é que era o eterno inimigo, sempre forçando-a a acreditar no que não queria. Olhava o céu azul-acinzentado, sentia o vento frio na pele, estava viva, alegre e triste. Vontade de ver Hendrik... beijá-lo, abraçá-lo, tocá-lo, sentir seu calor, ver seu rosto de menino mimado, rapaz intransigente, homem excitado. Como suportou viver sem ele durante sete dias? Como pôde ficar sem brigar com ele uma única vez? Privação estúpida. Precisava dele para respirar, estava se asfixiando, queria viver, muito ainda, ao lado dele, para sempre.
            Abraçou com intensidade um Hendrik sonolento, que não entendia o que estava acontecendo. Ela beijava o rosto dele, olhos, boca, esfregava os lábios na pele perfumada, acariciava o corpo forte, músculos macios, suas mãos percorriam o corpo inerte pela surpresa, prostrado no sofá, alisavam o tórax liso, o ventre rijo, as coxas desenhadas, o sexo latejante, sua boca percorria com avidez o que as mãos descobriam e ofereciam como prêmio, conquista, o corpo dele pulsava nu sob suas mãos, seus lábios, vontades de mulher apaixonada, ele não resistia, entregava-se, um presente, abandonado, ao próprio prazer, ao prazer dela, tocado por mãos habilidosas, beijado por lábios ardentes, apertado, lambido, cheirado, sentido por inteiro, sua boca ávida trabalhava na carne jovem, descobria a verdade das sensações, todos os gostos, cheiros dentro dos gostos, mordia, lambia, sugava, pele fina se distendendo, sexo se dilatando, vivo, duro e macio, róseo e brilhante, troféu masculino, só dela, todo dela, em suas mãos, seus lábios, sua boca, crescendo, úmido de saliva, cheiro dele, gosto dele, só para ela, sim, o prazer dele, o prazer dela, quente, viscoso, sim, sim, agora, por inteiro, sob seu comando, sim, explodindo de desejo, agora, dentro dela, em espasmos de amor, finalmente o gosto secreto, verdadeiro, espesso, doce, amargo, mentolado, em sua língua, dentes, garganta, Hendrik no fundo dela, transformado em seiva, Hendrik, seu homem, seu menino, seu amor...
            — O que deu em você? — perguntou ele, ainda aturdido, se recompondo. — Desaparece por uma semana e chega aqui me atacando... Por que fez isso?
            — Eu confio em você. Queria provar que eu te amo.
            Pegou o resultado do exame na bolsa, entregou a ele.
            — Olha! Eu estou bem. Sou uma mulher saudável!
            Hendrik olhou o papel por um instante.
            — Isso não prova nada — falou, rasgando-o. — Você pode ter manipulado o médico.
            — Eu nunca faria uma coisa dessas! — disse, estupefata. — Não sou desonesta!
            — Isso não muda nada. Exames falham, sabia?
            — O que há com você? Não gosta mais de mim? Por que não me diz isso, então. Fala logo! Diz que não me quer mais e vou embora, pra sempre! — esbravejou.
            — Não é isso... você... você é apressada demais...
            — Apressada? Mas o que é preciso esperar? Eu te amo!
            — E como pode ter certeza? Você não me conhece direito. Talvez você não esteja amando o verdadeiro Hendrik.
            — Por que não me mostra ele, então? Mal posso esperar pra conhecer esse cara — ironizou. — Por que você não cresce? Eu te amo, sei o que estou dizendo. E você? Por que nunca diz que me ama?
            — Mas Liz, eu... eu...
            — Não pode dizer o que não sente. É o Derek, não é? Então fica com aquela bichona drogada! Vocês dois se merecem.
            Abriu a porta e saiu, batendo-a com toda a força.

            “Maldito, desgraçado!”, xingava entre dentes, entre lágrimas, pedalando feito alucinada pela ciclovia. Como era possível amar e odiar tanto a mesma pessoa? “Cretino, veado!” Sentia ainda o gosto dele na boca, o cheiro dele nos lábios. Que desperdício! Vontade de beijá-lo, espancá-lo, abraçá-lo, massacrá-lo até a morte, amá-lo por toda vida.

            Voltou pouco antes do almoço. Só quando ela entrou percebi como eu estava apreensivo. “Estou bem! Estou bem! Não tenho o vírus!”, falou alegremente. Devia estar morta de medo.
            — E o resultado do exame, onde está? — perguntei.
            — Ah... não está comigo. Quer dizer, ele ficou com o médico. É de praxe aqui.
            Estranho. E se quisesse mostrar a Hendrik que não estava contaminada? Ele teria de acreditar na palavra dela.
            Depois do almoço, ia encontrar Denis, que a apresentaria a conhecidos. Tinha esperança de conseguir trabalho naquele dia. Saiu pedindo que lhe desejasse sorte.
            A louça me esperava na pia. As modernas comidas e bebidas ainda não evitavam que se sujassem pratos, copos e talheres. Mal havia começado a aborrecida atividade quando a campainha tocou. Só podia ser Denis, quem mais? E por que a pressa que fazia seu dedo apertar o botão da campainha continuamente? Que falta de educação! Abri a porta prestes a dizer-lhe desaforos, mas não era Denis. Na calçada, vi um rapaz, que parecia tão surpreso quanto eu.
            — Hello! — disse ele, emendando algo que não entendi. Acho que falava holandês.
            — O quê? — perguntei, em inglês.
            — Liz... — falou o nome dela com sotaque.
            — Ela não está em casa — respondi pausadamente, no meu limitado inglês.
            Ele apresentou-se como Hendrik, dizendo algo que me pareceu: “Vou estar em casa hoje à noite, se ela quiser passar por lá...” Mal tive tempo de dizer que compreendera o recado. Apressado como havia tocado a campainha, ele desapareceu da minha frente. Fechei a porta, corri escada acima, indo direto para a sacada: nem sinal dele.
            Fiquei atordoado. Tinha visto um fantasma? Não, era ele, Hendrik, em carne, osso e pressa. Então aquele rapazinho afoito era Hendrik! O causador de tanto transtorno, sofrimento e problemas, era um garoto com cara de colegial. Espantoso. Ele era completamente diferente do que eu poderia supor. Mais que desapontado, eu estava chocado. Sentia-me ludibriado: onde estavam a beleza, harmonia e perfeição exaltadas por Liz? Eu devia estar cego, ou ela louca.
            Passei o resto da tarde ansioso, esperando a chegada de Liz para contar a novidade.
            Ela se mostrou menos surpresa do que eu imaginava quando falei da visita. Parecia mais interessada em saber o que eu achara de Hendrik. Comentei que ele era um garoto comum, sem graça até. Liz achou que eu estivesse brincando, e riu. Decidiu não procurá-lo.
            Contou que não arranjara trabalho com os amigos de Denis. Também não havia falado com o líder da banda. Denis tinha comentado sobre um curso de hotelaria, que quase chegara a fazer, do qual se saía empregado. Ela ficou de passar no lugar para obter mais informações.

            Na tarde do dia seguinte, voltando do supermercado, encontrei um pedaço de papel rasgado e sujo, preso ao botão de campainha. Letra informe, escrita com força: uma saudação, um pedido, uma assinatura: Hendrik. Um imenso pingo coroava a letra “i”.
            Antes do anoitecer ouvi a campainha. Meu coração se acelerou. Seria ele? Abri a porta, encontrei Hendrik diante de mim. Sorrindo, dessa vez não demonstrava pressa. Observando-o de perto, vi que não era tão jovem e sem graça como eu pensara. Estranhamente, por mais improvável que fosse, alguma coisa familiar emergia do fundo daqueles olhos azuis; algo que eu não conseguia classificar me dava impressão de já tê-lo visto antes da primeira visita.
            A despeito da minha dificuldade de comunicação, ele estava simpático e atencioso: sorria o tempo todo, exibindo belos dentes, falando devagar, articulando exageradamente cada palavra, fazendo gestos na tentativa de ser compreendido. Devia achar que eu não dera seu recado a Liz. Em tom amistoso, fazia perguntas que não me dava tempo de responder. Eu entendia quase tudo o que ele falava, mas, sem vocabulário suficiente, era monossilábico. Como se não bastasse minha limitação, a inesperada amabilidade de Hendrik me intimidava. Eu devia parecer um selvagem primitivo diante do poderoso conquistador prestes a impor vontades civilizadas. Ele precisava falar com Liz algo importante, ia esperá-la no apartamento, mas se ela não o encontrasse lá deveria tocar no número 27, no prédio vizinho.
            — Derek... — deixei escapar.
            — Você conhece o Derek? — perguntou, espantado.
            — Não...
            Para minha surpresa, Hendrik revelou que Derek o amava. Mas afirmou-me que só queria ser amigo dele, nada mais, gostava de Liz, queria dizer isso a ela. Falou que Derek ia viajar no fim de semana, gostaria de passar o sábado e o domingo inteiros com Liz.
            Enquanto ele falava, calmo e sorridente, eu tentava apreender seus traços fisionômicos na tentativa de retê-los na memória, de lembrar de onde o conhecia. Pele clara, cabelos tingidos fora de corte, nariz pequeno, maxilar ligeiramente anguloso, boca proeminente, dentes brilhantes... Quase o convenci a subir e esperar por Liz, que não devia tardar. Ele achou melhor aguardá-la no apartamento, já que eu não sabia informar a que horas ela retornaria. Despediu-se com um aperto de mão. Inquieto, como se deixasse escapar uma preciosidade, subi as escadas achando ter feito mau juízo do agradável rapaz. Sentia-me duplamente estúpido.
            Quando Liz chegou, contei o que se passara. De novo, pareceu mais interessada em minha narrativa, como se buscasse aprovação em minhas palavras. Ela estava me deixando confuso. Continuei afirmando que ele era um rapazinho sem graça. Por que não conseguia lhe dizer a verdade? Ciúme? Inveja? Ciúme-inveja? O que estava acontecendo comigo?
            Uma vez mais resolveu não ir ao apartamento dele. Jogava. Queria que Hendrik rastejasse a seus pés antes do golpe de misericórdia. Com uma convicção tirada não sei de onde, disse que não queria mais saber dele. Ouvi incrédulo suas palavras inimagináveis.
            Em tom desencantado, falou do curso de hotelaria numa empresa chamada HOF. Depois de alguns anos de dedicação era possível chegar a um cargo de chefia em algum hotel, mas era preciso começar por baixo. Não era necessário pagar o curso, bastava submeter-se a uma bateria de testes escritos e orais, e assistir a palestras para ser designada a um hotel. Assim começava o período de experiência remunerado. Aprovado no fim do teste decisivo, o candidato assinava contrato, ficando à disposição para a escala dos hotéis convenientes. O desânimo no rosto de Liz evidenciava seu desagrado face àquela oportunidade pouco tentadora.
            Entreguei a ela uma correspondência em seu nome. Reconheceu o timbre de uma das agências de emprego na qual havia preenchido ficha. Seu rosto iluminou-se. Abriu o envelope com avidez, e ficou contente com a entrevista marcada. Com um pouco de sorte, talvez não fosse preciso se inscrever no curso de hotelaria.

            Sua vida, uma reprise. Os dias se repetiam com tal semelhança que acreditava fazer parte de um jogo no qual o tempo dava as cartas, as mesmas de sempre. Até quando aquela situação se prolongaria? Tudo o que fazia resultava em esforço vão, e precisava reiniciar as jogadas do mesmo ponto. Prisioneira do tempo.
            Mais uma vez, nada conseguira com Denis, nem mesmo falar com o amigo dele, líder da banda. Denis vinculava esse encontro a uma visita ao apartamento que dividia com o outro. Sem emprego, a reserva de dinheiro se extinguindo, Liz começou a se preocupar. O dinheiro de Leon também acabaria um dia. Precisava encontrar um trabalho qualquer. Tudo dependia dela, e também não dependia. A entrevista marcada pela agência de empregos era uma pálida esperança. Problemas demais ao mesmo tempo. Tinha que resolver as prioridades, concentrar-se no que importava sem se dispersar numa confusão insolúvel. Hendrik, o motivo de sua vinda para Amsterdam, roubava-lhe o tempo e os pensamentos, dificultava todo o resto. Muita ironia se ele — que motivara a mudança em sua vida — fosse o responsável pelo fracasso iminente da empreitada. No fundo da escuridão que a encarcerava percebia uma pequena brecha, única forma de escapar da cela imposta pelo tempo. Não podia esperar mais. Precisava cortar o mal pela raiz.
            Encontrou Hendrik chateado, deprimido.
            — Você tem razão — começou ela. — Eu não te conheço o bastante. É melhor mesmo a gente terminar.
            — Mas eu te procurei justamente pelo contrário! Eu senti sua falta, Liz, você significa muito pra mim!
            Ficou sem ação ante as palavras dele. Por que Hendrik sempre a confundia toda vez que ela se agarrava a uma certeza salvadora? Não conseguia entendê-lo, nem a si mesma. Como continuasse muda, ele prosseguiu:
            — Você não quer iniciar uma relação séria comigo? — perguntou, com voz cativante.
            A palavra “iniciar” soou-lhe como uma esperança que abolia todo o passado sem desprezá-lo. Começar, recomeçar... quantas vezes? Havia tanto a consertar naquela relação!...
            — Vamos fazer um teste — continuou Hendrik. — Temos o fim de semana inteiro só pra nós dois. A gente pode fazer o que quiser, sem o Derek pra atrapalhar.
            Proposta tentadora. Por que não lhe dar um voto de confiança? De repente, Hendrik havia dito tudo o que ela sempre quisera ouvir. Por que não acreditar nele e dar mais uma chance a si mesma? Sua cabeça girava em meio ao paradoxo no qual havia se convertido sua vida. Saber o que era certo, mas indesejável, opunha-se ao que era equívoco, mas oportuno.
            — Tudo bem — concluiu Liz. — Vamos ver no que isso vai dar.
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