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Sempre
havia detestado preservativos. Os invólucros
de látex tiravam a naturalidade do sexo,
isolando as partes em ação, privando-a
do fluido vital, certeza do prazer do parceiro.
Queria, em seu orgasmo, receber o orgasmo dele,
senti-lo se esvaindo de prazer dentro dela.
Para os homens devia ser desagradável
envolver o sexo num apertado tubo de borracha
lubrificada, difícil de manter no lugar.
Quanto mais duradouro o ato, mais interrupções
para ajustar a promessa de proteção.
Os preservativos ajudavam a prevenir doenças,
evitar gravidez, mas faziam o sexo perder a
graça, lembrando a todo o instante que
um corpo estranho se interpunha aos desejos
dos amantes.
Com
a possibilidade de um relacionamento longo,
Liz pensou em sugerir que fizessem exames para
não terem que usar preservativos. Hendrik
era inábil no manuseio da camisinha,
que quase sempre se rompia. O que deveria ser
momento de satisfação, relaxamento,
transformava-se em tensão, constrangimento.
Ela ansiava sentir a espontaneidade e abrangência
daquele ato. Tinha esperança de convencer
Hendrik a algo além do sexo convencional.
Ele era experiente, mas apenas em penetrar,
penetrar, penetrar... A passividade a que se
via obrigada a incomodava. Queria tocar Hendrik,
beijá-lo, acariciá-lo, sentir
o sexo dele em suas mãos, em seus lábios,
sua boca, sentir o gosto do seu prazer, seu
cheiro de homem... queria ouvi-lo sussurrando
seu nome, enquanto olhava o rosto dele, sem
máscaras, num ambiente iluminado. Gostaria
de usar todos os sentidos de uma só vez,
e a amplitude do sexo para se conhecerem profundamente.
Várias vezes tentara demonstrar interesse
por algo mais que a simples penetração,
mas Hendrik sempre a detinha, desestimulando-a;
recusava-se a beijá-la e não permitia
que ela fizesse nada além de estar à
disposição dele. O medíocre
papel de boneca inanimada não a satisfazia,
todo o prazer que poderia obter era tragado
numa revolta secreta, silenciosa. A droga devia
dificultar a completa entrega de Hendrik. Na
cama, ele a possuía, mas também
era possuído por uma força incontrolável
que não dava margem a concessões.
A mesma força que o dominava, que o movia,
impedia-o de ser ele próprio, de sentir
a verdade das coisas, de perceber a insatisfação
de Liz.
Havia
muito a organizar naquele relacionamento, mas
até onde ir? Atos incertos poderiam desencadear
reações imprevisíveis.
Precisava tentar. Quando acreditava em alguma
coisa se obstinava. O amor que sentia por Hendrik
pulsava dentro dela, vivo, real. Faria tudo
para atingir o equilíbrio.
—
Que tal se nós fizéssemos exames
pra saber se está tudo bem com a gente?
— indagou a ele. — O sexo poderia
ser melhor.
—
Eu não vou fazer exame nenhum —
declarou, contrafeito.
—
Mas é só pra gente ter certeza...
—
Eu não estou mais doente — cortou-lhe.
— E depois, transar com você sempre
me deu muito prazer, pra quê melhorar?
Como
de hábito, o egocentrismo dele prevalecia.
Liz teve vontade de dizer a verdade, mas sabia
que Hendrik não entendia o que não
queria. Melhor adotar outra tática.
—
Mas eu poderia ter mais prazer. Você já
pensou nisso?
—
Outra vez essa história de não
sentir nada quando transamos. Por que você
nunca está satisfeita? Eu sou potente
e demoro pra terminar, o que mais você
quer?
Sempre
se surpreendia com a ingenuidade de Hendrik,
sua franqueza. Ficava tão desarmada com
a sinceridade dele que em vez de ficar irritada
se enternecia.
—
Eu quero tudo. Quero você, inteiro —
falou, com voz suave. — Já te ocorreu
que uma mulher talvez goste de algo além
da potência do homem e da duração
do ato com ele? O nosso sexo é muito
limitado, Hendrik.
—
Como assim? Eu faço tudo pra te agradar.
Você não gosta da minha performance?
—
Não é isso. Eu te amo, mas você
mal me toca, não me beija, não
deixa que eu te toque... Eu também quero
participar, fazer o que sinto vontade...
—
De novo a história de sexo oral. Isso
é... é nojento!
—
Não há nada de repulsivo nisso
quando se ama. É só outra maneira
de tornar as coisas mais interessantes.
—
Não é higiênico, pode transmitir
doenças. E depois, todo mundo sabe que
é preciso usar preservativos sempre que
se transa.
—
Só quando se é promíscuo,
quando não se confia no outro.
—
Mas a gente não se conhece bem. Você
sabe muito pouco sobre mim, e eu não
sei nada dos seus outros relacionamentos.
—
Você não confia em mim, por isso
fazemos sexo sem graça envolvidos em
plástico. Quanto tempo é necessário
pra conquistar a sua confiança?
—
Eu não quis dizer isso...
—
Então vamos fazer os exames. Assim, não
vamos ter dúvidas.
—
Eu não vou fazer nada. Já disse
que não estou doente.
—
E como eu posso ter certeza disso?
—
Você não confia em mim?
Usava
o maldito jogo de palavras para fazê-la
aceitar sua irredutível posição.
Liz odiava admitir estar errada quando se sabia
certa. Decidiu contra-atacar:
—
Sim, eu confio em você. Vou fazer os exames
sozinha. Se eu estiver bem, faremos as coisas
do meu jeito.
Procurava
se desentender o menos possível com Hendrik,
árduo exercício. Não estava
acostumada a ceder sempre. Não tinha
hábito de brigar a cada despedida e reatar
a cada novo encontro. Hendrik era intransigente,
egocêntrico, às vezes limitado.
Liz se via refletida na intransigência
dele, o que tornava tudo mais difícil.
Por que ele jamais concordava com ela? O comportamento
de Hendrik a aborrecia, intrigava, fascinava.
Surpreendente como ele ousava afrontá-la,
sem o menor argumento em seu favor, falando
e teimando sobre coisa alguma. Mais surpreendente
ainda, ela, com um arsenal idéias coerentes,
sucumbir diante da figura pretensamente articulada
de Hendrik. Gostaria de resolver tudo sem discussão,
mas nem sempre o conseguia. Também era
intransigente, mas era inteligente. Quando não
podia vencer, transformava a ocasião
em partida a ser disputada em outra oportunidade.
Hendrik a obrigava a pensar e pesar tudo o que
dizia e fazia. Ressentia-se por perder a espontaneidade,
mas se essas eram as regras, melhor tirar partido
delas. Sair de cena antes de se irritar o bastante
havia se tornado sua principal estratégia.
Deixando
o apartamento de Hendrik, foi ao posto de saúde,
no mesmo bairro. Tinha visto o endereço
na cartilha que orientava como se prevenir de
doenças sexualmente transmissíveis,
que Hendrik consultava a todo instante. O SoFi-nummer
lhe dava direito a exames gratuitos. Quis fazer
o teste para saber se era portadora do vírus
da AIDS,
mas foi informada pela enfermeira de que precisava
marcar consulta com uma semana de antecedência
para o exame. O primeiro passo era fazer os
testes mais simples para detectar a presença
de alguma doença venérea. Concordou
com os procedimentos usuais. O médico
a examinou, não constatando nada de anormal.
Para certificar-se que não era portadora
de doenças sexualmente transmissíveis,
era necessário um exame de sangue. Quando
o médico estava enchendo a seringa com
o líquido vermelho-escuro, a borracha
que prendia a circulação no braço
de Liz soltou-se. A seringa escorregou da mão
do doutor e o sangue esguichou, espalhando-se
pelo rosto dele. Assustado, o médico
pediu que ela aguardasse na sala de espera.
Logo, a enfermeira apareceu dizendo que Liz
estava com sorte: tinham um horário vago
naquele instante para o teste de AIDS.
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Liz
está cada vez mais estranha. Pensei que
as noites passadas com Hendrik a deixariam ótima
no dia seguinte, mas não é isso
o que ocorre. Evito fazer perguntas, mas ela não
consegue se privar de fazer comentários,
vítima de uma vontade incontrolável
de extravasar sentimentos em conflito. Não
deve me contar tudo, mas o que revela já
me parece muito. Diariamente ensaiamos a mesma
cena: Liz fala, eu escuto. Desconfio que ela não
busca um amigo, sequer um ouvinte: conta a si
mesma os acontecimentos em que se vê envolvida,
talvez na esperança de se ouvir, de entender-se.
Sou um ouvinte amigo. Por acreditar que ela sinta
algum alento em me contar o que vive, digo o que
acho sobre a pauta do dia — tão repetitiva
quanto nossos ensaios. Eu falo, mas Liz não
me ouve. Se me escutasse não traria no
dia seguinte as mesmas questões da véspera.
Às vezes sinto vontade de perguntar se
ela enlouqueceu, mas nenhum louco seria suficientemente
sincero para confessá-lo. Depois, como
saber que não fui eu que enlouqueci? Não
é possível que os dias se sucedam
numa repetição tão exata,
monótona, angustiante!... Talvez sejamos
dois loucos vagando num hospício sem paredes,
sem grades: nossas vidas.
Liz
está muito diferente. Aquela que amei não
existe mais, e às vezes me pergunto se
não a inventei, se não foi fruto
da imaginação de um infeliz que
tentava suprir um vazio interior. Sei que não.
Liz se modifica aos poucos. Cada vez menos gosto
da criatura na qual vem se transmutando. Também
mudei. Estou esquisito. Reflexo do que acontece
a Liz? Sou o espelho dela? Liz... sua ausência
me angustia, aniquila; sua presença me
incomoda, horroriza. Presença... poderia
chamar presença os momentos em que, diante
de mim, encontra-se infinitamente mais ausente?
Presença ou pseudo-ausência? Em todo
caso, artifício. A presença simbólica
que impõe agride-me tanto quanto sua ausência
real. Talvez seja isso que me incomode: não
há diferença.
Enfim,
uma novidade. Voltou falando dos exames gratuitos
que havia feito. Tentei dissimular minha surpresa,
fiquei em dúvida se ela fazia os exames
por precaução ou por desconfiar
de algo. Parecia querer provar alguma coisa.
—
É preciso coragem pra fazer o teste de
AIDS
— reconheci. — Enquanto não
se faz o exame, ainda que se esteja contaminado,
a dúvida é sempre uma esperança.
Mas um resultado positivo muda tudo. Você
não sente medo agora que fez o teste?
—
Sinto. Eu nunca tinha feito esse exame. Mas
quero ter certeza de que estou bem. Não
é justo começar um relacionamento
sério sem saber uma coisa importante
como essa.
—
O Hendrik também vai fazer o exame?
—
Ele já fez. Disse que está tudo
bem, que ele não está mais doente.
—
Não está mais doente?
Como assim?
—
Ele deve ter falado de quando teve aquela doença
estranha... toxicoplamose, eu acho.
—
Não, é toxoplasmose.
Lembrei
de um amigo que morrera em decorrência
da AIDS.
Sabia que ninguém morria de AIDS,
mas das doenças oportunistas que se desenvolviam
no corpo sem imunidade. A toxoplasmose havia
levado meu amigo à morte. Na ocasião,
numa visita ao hospital em que ele estava internado,
o médico que o tratava comentou que a
toxoplasmose só se manifestava em mulheres
ou crianças, em homens adultos era raríssima,
tínhamos imunidade natural.
—
Tem certeza que é esse o nome da doença?
Toxoplasmose? — insisti.
—
É isso mesmo. Em inglês é
bem parecido: toxoplasmosis. Por quê,
você sabe alguma coisa sobre a doença?
—
Sei que é comum em mulheres e crianças.
Parece que é transmitida por gatos.
—
Então é isso. O Hendrik deve ter
pego a doença de Plexus ou Nexus.
Fiquei
preocupado, mas não queria assustar Liz.
Nem ser omisso. Precisava alertá-la.
—
O Paulo morreu de toxoplasmose — falei.
—
Mas ele não morreu de AIDS?
— indagou, surpresa.
—
Ele estava com o vírus da AIDS,
mas foi a toxoplasmose que causou a morte dele.
—
Meu Deus!, será que...
—
O Hendrik chegou a te mostrar o resultado de
algum exame?
—
Não...
Ficou
apática. Minhas palavras deviam ter soado
como um diagnóstico fatal.
—
Desculpa, eu não queria te preocupar.
Não devia ter falado nada.
—
Não, você fez bem em me contar...
—
Se o Hendrik está bem agora, só
pode estar curado. Ele não ia conseguir
esconder essa doença. Não devia
ser nada sério. E depois, vocês
não usam preservativos?
—
É, mas acidentes acontecem, as camisinhas
estouram.
—
Só quando não são usadas
direito.
—
Esse é o problema. Você acredita
que o Hendrik não sabia que precisava
apertar a ponta da camisinha na hora de usar?
Eu é que ensinei a ele.
—
Sério?
—
Quando aconteciam esses acidentes ele ficava
nervoso. Eu dizia que usava o DIU,
que não ia engravidar. Mas ele estava
preocupado em que eu passasse alguma doença
pra ele.
—
Você?...
—
Bom, pelo menos as pessoas contaminadas podem
transar entre si...
—
Nada disso. Você nunca ouviu falar em
recontágio? — indaguei. —
É quando um portador do vírus
contamina outro e vice-versa. A contaminação
mútua faz com que o tempo de sobrevida
seja bem menor. Li isso numa revista.
—
Estou perdida — disse, apreensiva. —
Agora só me resta esperar o resultado
do teste.
—
E quando vai ter a resposta?
—
Em uma semana.
Se
ultimamente eu já não conseguia
tolerar a presença de Liz, depois de
nossa última conversa isso era impossível.
Antes que ela entrasse no banho, avisei que
ia dar uma volta. Sentia necessidade de me refugiar
em qualquer lugar longe daquele apartamento
impregnado de sofreres. A cada dia eles se acumulavam
tingindo de tristeza as paredes nuas de cada
cômodo. Eu queria esquecer, não
pensar em nada, não ter sabido de coisa
alguma. Meu cérebro girava, turbilhonando
acontecimentos presentes, diluindo fatos passados,
distorcendo possibilidades futuras. Atravessava
o Vondelpark em linha reta, a caminho do Centro,
mas era como se andasse em círculos.
De repente, senti-me tonto. Sentei num banco.
Suava frio, estava quente. Fechei os olhos,
respirei fundo. Minhas têmporas latejavam.
Gripe, resfriado, virose? Não, dor de
existir. Para esse mal só havia um remédio.
Ainda não estava disposto a prová-lo.
Não
sei quanto tempo fiquei sentado no banco, olhos
fechados, existindo. O céu cinza-azulado
ainda estava claro, pessoas passeavam, pedalavam,
tranqüilas, indiferentes. Não tinha
ânimo para fazer coisa alguma, ir a lugar
nenhum, mas não queria voltar ao apartamento.
Durante algum tempo andei pelas ruas do Centro,
sem que nada me despertasse interesse. Empenhava-me
em descobrir algo divertido, diferente, ainda
que ilusório. Necessidade de aliviar
minha tensão. Passando por uma rua próxima
ao correio, deparei com uma vitrine que expunha
livros de nus masculinos. A unanimidade chamou
minha atenção — principalmente
não estando no Bairro da Luz Vermelha.
Olhando o letreiro, constatei tratar-se de uma
livraria gay. Tentei imaginar se era possível
um espaço grande como aquele se destinar
apenas a publicações do gênero.
Pela vitrine observei uma criatura estranha,
magra, cabelos eriçados, fazendo trejeitos
e caretas enquanto se mirava num espelho de
mão. A cena me fez rir. O ser andrógino
parecia imitar uma cantora. A loja estava vazia.
Entrei. Atrás do balcão, a esquálida
imitação de cantora teve um ligeiro
sobressalto. Interrompendo o que fazia, esquadrinhou-me
de cima a baixo. Avancei para o interior da
loja. Abaixo do hall de entrada havia uma sala
onde os títulos do acervo se perfilavam
nas paredes revestidas por estantes. Criteriosa,
a organização do espaço
dividia as prateleiras em setores distintos.
Belíssimos livros de arte, corpos imitando
esculturas, rostos másculos, suaves,
jovens, formas e proporções irretocáveis,
perfeição estética fotografada
com bom gosto, homens transformados em anjos,
rapazes em homens, beleza, beleza, beleza...
Romances, contos, novelas, profusão de
títulos, literatura específica,
inimaginável em seu volume, ampla em
sua temática, traduzida em vários
idiomas, palavras, palavras, palavras... Revistas
pornográficas, exposição
do sexo em incontáveis cenas, separado
em categorias, arsenal de imagens repetitivas,
grotescas e excitantes, horror para os olhos,
prazer para o corpo, cenas cruas, brutais enquadramentos
em cores vivas, corpos de todas as formas desdobrados
em todas as poses, rostos de todas as raças
e idades tentando expressar a contraditória
fusão de dor e prazer, sexo, sexo, sexo...
Fitas de vídeo e DVDs,
corpos em movimento dando vida a uma criatividade
sem limites, expondo de modo verídico
a individualidade de homens solitários,
intimidade de pares do mesmo sexo, promiscuidade
de grupos desinibidos...
Espaço
repleto de produtos para dar prazer. Eu desejava
o prazer, ansiava pela sensação
que permitia esquecer de mim sendo apenas eu
mesmo, esquecer que tinha corpo apesar de usá-lo
para este fim. Mergulhei no universo dos homens
iguais, irmãos, amigos, parceiros, amantes...
verdade remontada, mentira aceitável,
desejável. Folheei livros, apreciei fotografias,
abri revistas. Nunca havia tido acesso tão
direto e ilimitado a essa mina de esquecimento.
A beleza dos livros de arte me seduzia, encantava-me.
A crueza das revistas pornográficas me
atraía, excitava-me. Aqueles homens de
papel existiam. Reduzidos à bidimensionalidade
de cada página, tinham produzido com
seus corpos e rostos, gestos e atitudes, as
imagens nuas diante de mim. Eu os invejava,
os desejava. O complexo conjunto que compunham
me fascinava. Ídolos em sua ousadia,
heróis em sua coragem.
Um
homem esbarrou em mim. Só então
me dei conta de que não estava mais sozinho.
Alguns clientes olhavam as prateleiras, outros
acabavam de entrar. Comecei a prestar atenção
na clientela, homens bonitos e elegantes. Estranhamente,
não me sentia constrangido. Estar naquela
loja era ostentar um estandarte imaginário
indicando uma condição. A livraria
parecia uma espécie de ponto de encontro.
Dividido, já não sabia se continuava
olhando os homens nos livros ou os homens ao
redor. Os clientes, fingindo ver revistas, olhavam
uns aos outros. Detive-me observando um par
de desconhecidos. Olhares trocados, sorrisos
de cumplicidade selando o acordo implícito,
deixaram a sala por uma porta lateral, que eu
ainda não tinha percebido. Aproximei-me
da porta, e antes que ela voltasse a se fechar
vi um corredor não muito comprido. Para
onde teriam ido? O que havia atrás daquela
porta? O trânsito era livre, precisava-se
entrar em dupla? A curiosidade que me excitava
também me paralisava. Os demais clientes
haviam deixado a loja, voltei a ficar só,
junto à porta que não ousei transpor.
Distingui passos fazendo ranger uma escada de
madeira, em seguida era o teto sobre minha cabeça
que rangia. O casal de estranhos no piso superior.
Imóvel, em silêncio, eu aguardava
como se tivesse recebido ordens. Risos e ruídos
secos de coisas caindo no piso em que eles estavam,
no teto sobre mim, vozes sussurrando, portas
batendo, o assoalho estalando, os lambris do
teto vibrando...
Quando
cheguei em casa, Liz disse que não se
sentira bem à tarde, tontura e enjôo
atribuídos aos exames. No quarto, cama
desfeita. Na sala, travesseiro na poltrona,
cheiro de maconha. Na cozinha, louça
acumulada na pia.
Esforcei-me
em conversar, mas a apatia de Liz me desencorajava.
O tom artificial e desinteressado que eu usava
em minhas frases incomodava-me, ainda que Liz
não o percebesse. Por que a necessidade
de feri-la com uma indiferença que eu
não sentia? Por que ela não reagia
como eu esperava? Liz parecia só ter
pensamentos para si mesma. Já não
perguntava sobre as coisas que eu fazia, meus
passeios, minhas descobertas; não me
dava mais aulas de inglês; não
saíamos em busca de objetos na noite
que antecedia a passagem dos caminhões
de lixo... Aos poucos, tudo desmoronava. Precisava
me conformar, ser compreensivo, paciente. Difícil
impor a si mesmo ordens nas quais não
se acredita. Talvez minha presença fundida
em nulidade também a incomodasse. Por
que insistimos? A tortura mútua abria
um profundo fosso entre nós.
Liz
ajeitou a desordem no apartamento. Vestiu o
sobretudo, e saiu dizendo que ia tentar encontrar
trabalho nos restaurantes brasileiros e portugueses.
Assim
que ela saiu senti enorme alívio, como
se me livrasse de um problema. Tudo mentira.
Eu estava triste. Sua ausência real era
intermédio entre duas pseudo-ausências,
pequena trégua, breve agonia, nada mais.
Minha tristeza era autêntica. Meu alívio
artificial, ainda inconsistente, era início
do relaxamento, libertação ilusória,
momentânea. Uma sessão de torturas
havia terminado, outra começava. Se minha
vida era uma fraude por que não me enganar
com convicção? Talvez, acreditando
firmemente nela a transformasse em realidade.
Sob a água quente do chuveiro, meu corpo
nu, minhas mãos adestradas, meu sexo
vivo. De olhos fechados, a água açoitava
minha pele, meu pensamento se fragmentava nas
imagens vistas à tarde na livraria. Eu
as remontava, reordenava, meus irmãos,
amigos, amantes vinham ao meu encontro, eram
meus, todos eles, de uma só vez, eu lhes
pertencia, servia a todos, uma troca, eles me
ajudavam a sentir prazer, participavam dessa
busca insana, moviam freneticamente minhas mãos,
que eram as mãos de todos eles, tocavam
meu sexo, meu corpo, envolviam-no com mil abraços
ardentes, beijos ávidos, golpes violentos,
seus sexos intumescidos eram chicotes, eles
me puniam, castigavam, maltratavam, eu adorava,
queria ser castigado, desejava ser punido, os
chicotes brandiam sobre mim, me pertenciam como
meu próprio chicote, eu conhecia todos
eles, iguais ao meu, o prazer jorrava daquela
fonte comum a todos nós, éramos
um só. Do chuveiro, caía o sêmen
dos homens belos e fortes, dos anjos de rosto
másculo, dos corpos viris, dos sexos
avantajados e potentes, a cascata de seus prazeres
viscosos me lavava, limpava meu corpo abandonado
no chão, purificava minha carne perturbada,
misturava-se ao meu prazer viscoso, quente e
doce, mentira e verdade, gemíamos em
conjunto, o mesmo som, o mesmo prazer, miragem,
todos os presentes estavam ausentes, sozinho,
eu gemia isolado no fundo da minha solidão...
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Achava
Leon cada vez mais ensimesmado, distante. Queria,
como antigamente, conversar com ele, perguntar
coisas, saber tudo... Sempre que chegava ao apartamento
tinha esperanças de encontrar o velho Leon,
às vezes engraçado, às vezes
irônico, mas sempre deparava com uma pessoa
fria, melancólica, quase indiferente. Ansiava
que Leon contasse espontaneamente o que lhe acontecia.
Ele nada falava, fechava-se mais e mais em sua
ostra impenetrável. Ela não conseguia
saber o que se passava com ele e, diante do hermetismo,
nada perguntava. Não queria forçá-lo
a falar, detestava pressionar. Melhor deixá-lo
à vontade para dizer o que quisesse no
momento oportuno. Sentia-se culpada: Leon estava
ali por causa dela. Pesava-lhe ter feito promessas
que se via obrigada a modificar. Fora ingênua
e otimista achando que tudo seria simples. Tentava
entender Leon: insatisfação, ócio,
medo, tensão em não saber o que
fazer da vida, não enxergar o futuro com
clareza. Talvez em seu sofrimento contido ele
quisesse mostrar sua impotência ante os
fatos impostos. Leon não tinha escolha,
para ser livre precisava submeter-se ao que ela
determinasse. Liz era responsável pelo
futuro dele. Assim como Leon tinha sido responsável
pelo presente que ela agora vivia. Não
podia fugir do compromisso assumido.
O
restaurante português estava fechado, mas
parecia abandonado. O restaurante brasileiro ainda
não estava aberto ao público, mas
só se deu conta disso quando se viu no
interior da casa em meio às cadeiras de
pernas para o ar sobre as mesas, e um rapaz lavando
o chão. Dirigindo-se a ele em inglês,
indagou pelo gerente. O rapaz desculpou-se, não
falava bem inglês, só holandês
e português.
—
Eu também falo português. Sou brasileira!
Me chamo Liz — disse, sorrindo.
—
Tudo bem? Eu também sou brasileiro, o meu
nome é Denis — apresentou-se. —
Você está atrás de emprego?
Se soubesse quantos aparecem aqui procurando trabalho...
—
Então não tem nenhuma vaga?
—
Agora não. Mas no verão eles sempre
contratam mais gente.
—
Que pena. Eu tinha tantas esperanças!...
—
Eu conheço os gerentes de outros restaurantes.
Se você quiser, a gente pode dar uma passada
neles e ver o que consegue arranjar.
—
Você é muito gentil, mas eu não
quero te dar trabalho.
—
Trabalho nenhum. Eu gosto de ajudar garotas bonitas
como você.
A
última frase a incomodou. A ajuda significava
algo em troca?
—
Obrigada, Denis, mas eu realmente preciso ir.
O meu namorado está me esperando.
—
Ei, você não achou que eu estivesse
te cantando, achou? Era só um elogio.
A
palavra “cantando” ecoou em sua mente
não com a conotação secundária,
mas em seu sentido literal. Resolveu perguntar:
—
E de uma cantora?, não estão precisando
de alguém que cante?
—
Desculpa, eu não sabia que você cantava.
Que legal, uma cantora!
—
Não sou profissional, mas sou afinada.
Eu também toco teclado. Acha que tenho
chance?
—
Aqui não, mas eu tenho uns amigos que tocam
num bar. Eu vou te apresentar a eles, talvez te
encaixem na banda.
—
Eu ia adorar! — falou, entusiasmada.
A possibilidade de cantar no conjunto não
a fez descartar a hipótese do trabalho
como garçonete. Esperou Denis terminar
a faxina, e seguiu-o aos estabelecimentos em que
ele tinha conhecidos. A proprietária de
um restaurante espanhol precisava de atendente
— acabara de contratar uma novata que ainda
não aparecera. Simpatizando com Liz, após
ter feito perguntas e explicado como funcionava
a casa, a senhora disse que, se quisesse, ela
poderia ficar com a vaga. Mal pôde acreditar.
A proprietária pediu que Liz esperasse
terminar a semana, não gostava de começar
nada que não pelo princípio. O salário
não era grande coisa, mas a senhora estava
certa de que com sua simpatia Liz ganharia muitas
gorjetas.
Agradecida,
comemorou com Denis num fast food, brindando
com refrigerante. Denis disse que morava com o
líder da banda que tocava no bar, queria
que Liz o acompanhasse ao apartamento deles pra
conversarem. Ela estava ainda tão contente
com o emprego no restaurante que recusou. Denis
insistiu: era possível conciliar os dois
trabalhos, a banda tocava de madrugada, depois
do expediente da maioria dos restaurantes. Liz
ficou de pensar na idéia.
Teve
vontade de encontrar Hendrik; falar sobre o
emprego, explicar a situação que
a envolvia com Leon, pedir que fosse compreensivo
e reconsiderasse a questão do casamento.
Tão repentino quanto havia surgido, o
desejo desapareceu. Receio de que ele não
aprovasse o trabalho que ela conseguira. Tinha
dito estar procurando empregos em escritórios
ou empresas em que usaria seus conhecimentos
de computação e idiomas. Hendrik
ficaria desapontado. Envergonhava-se de não
poder ser ela mesma. Ele jamais entenderia,
era teimoso, preconceituoso, evitava o diálogo
quando o assunto o desagradava. Ela falava,
Hendrik não compreendia. Ele falava,
ela obedecia. Não, estava farta de acatar
ordens que nunca a beneficiavam, de sempre renunciar
ao que queria em prol de... de quê? Da
satisfação de Hendrik, senhor
das intransigências? Subitamente revoltada,
decidiu não mais obedecê-lo. Ele
precisava valorizá-la, perceber como
era importante e caro tê-la apaixonada.
Jogo perigoso, mas necessário. Não
iria mais procurar Hendrik. Queria saber até
que ponto ele necessitava dela.
|
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Hoje
Liz saberá o resultado do exame. Passou
a semana aparentemente despreocupada, deixando
para ficar apreensiva só agora. Acabou
de sair como quem espera algo que decidirá
sua vida, seu futuro, tudo. Eu não queria
estar no lugar dela.
Pelo
visto, decidiu pôr fim na história
doentia com Hendrik. Há sete dias não
se vêem. Evitei tocar no assunto, mas hoje,
como ela comentasse o descaso dele, acabei endossando
que Hendrik não devia estar muito interessado
nela. Arrependi-me imediatamente.
Liz
fez contato com um brasileiro, Denis, que agora
nos visita freqüentemente. Não gostei
dele: ar de malandro, falso, encrenqueiro. Um
quê de antipatia sempre aflora em sua simpatia
amistosa. Ele olha para Liz de modo estranho.
Simpática e amável com todos, ela
parece confiar demais em quem pouco conhece; não
devia ter lhe contado nossos planos. Sempre tenho
reservas com desconhecidos, principalmente quando
parecem não ter muito a perder. Solícito,
atencioso, demasiado interessado em mim e Liz,
cheio de perguntas inconvenientes, insistindo
em que visitemos sua casa e conheçamos
seus amigos... Denis me soa suspeito. Ele parece
ter pressa, procura estabelecer à força
uma amizade que jamais terá de mim. Talvez
cobre caro pela pretensa ajuda. Ajuda pouco efetiva.
Dizendo ser amigo de gerentes de restaurantes,
pareceu arranjar emprego para Liz no dia em que
se conheceram. A alegria dela durou pouco: quando
voltou a procurar a dona do restaurante espanhol,
soube que a funcionária que substituiria
aparecera para assumir o posto. Agora espera novo
contato com outro restaurante, e a possibilidade
de participar da banda que toca em boates de madrugada.
Preciso
fazer algo que me envolva de tal modo que não
sobre tempo para sentir tristeza e pena de mim
mesmo. Limpar, lavar, passar, cozinhar, fazer
compras... isso me ocupa, mas não me envolve,
só cansa. Os possíveis lazeres não
são diferentes: assistir a horrível
programação da TV,
ouvir repetidas vezes a fita de Bach que encontrei
em meio as que Niek emprestou, reler os dois livros
que trouxe comigo, passear pelas ruas, olhar vitrines
e lojas...
Quando
escrevia, às vezes me espantava ao ver
como o tempo passava depressa, como eu mergulhava
no texto esquecendo tudo ao redor. Mesmo quando
escrevia bobagens me concentrava tanto que, por
mais inútil que tudo fosse, me sentia satisfeito,
como se cumprisse um dever. Escrever era obsessão,
esperança. Agora, tudo parece perdido para
sempre no fundo do meu passado. Mas não,
em Lisboa escrevi frases tristes... não
faz muito tempo. Todas as possibilidades estão
dentro de mim.
Apanhei
o caderno de cima do console. Reli as anotações
feitas em Lisboa. Reais, deprimentes. O que escrever?
Precisava de um motivo que justificasse meu empenho.
Já sabia como era escrever besteiras. Tentar
escrever romances também — iniciara
dois, sem terminá-los. O que fazer com
uma vontade que não se delineia com exatidão? |
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—
Negativo — disse o médico, entregando-lhe
o resultado. — Você está bem.
—
Que bom, eu fico muito contente — falou,
aliviada.
—
Mas o resultado do exame se refere ao período
anterior a novembro do ano passado.
—
Como assim, doutor?
—
Você fez o teste agora, em fevereiro. De
dezembro pra cá, se contraiu o vírus,
não temos como detectá-lo.
—
Então, eu posso estar contaminada?
—
Teoricamente, sim. Mas você disse que não
era promíscua, não usava drogas
injetáveis, e nunca tinha feito transfusão
de sangue...
—
O meu namorado teve toxoplasmose há algum
tempo, mas ficou bom. Eu fiquei sabendo que essa
doença só se manifesta em mulheres
ou aidéticos, é verdade, doutor?
—
Não necessariamente. O seu namorado devia
estar muito fraco por algum motivo, isso pode
ter feito ele contrair a doença. Se vocês
sempre usam preservativos não há
com o que se preocupar. Se você quiser ficar
mais tranqüila, pode fazer um novo exame
em três meses.
A
semana inteira de espera por uma resposta incerta.
Impossível alegrar-se completamente,
inútil preocupar-se por antecipação.
Precisava acreditar em si mesma, no papel atestando
sua saúde retroativa. Sentia-se bem,
seu corpo lhe dizia que sim, tinha toda a vida
pela frente. Seu pensamento é que era
o eterno inimigo, sempre forçando-a a
acreditar no que não queria. Olhava o
céu azul-acinzentado, sentia o vento
frio na pele, estava viva, alegre e triste.
Vontade de ver Hendrik... beijá-lo, abraçá-lo,
tocá-lo, sentir seu calor, ver seu rosto
de menino mimado, rapaz intransigente, homem
excitado. Como suportou viver sem ele durante
sete dias? Como pôde ficar sem brigar
com ele uma única vez? Privação
estúpida. Precisava dele para respirar,
estava se asfixiando, queria viver, muito ainda,
ao lado dele, para sempre.
Abraçou
com intensidade um Hendrik sonolento, que não
entendia o que estava acontecendo. Ela beijava
o rosto dele, olhos, boca, esfregava os lábios
na pele perfumada, acariciava o corpo forte,
músculos macios, suas mãos percorriam
o corpo inerte pela surpresa, prostrado no sofá,
alisavam o tórax liso, o ventre rijo,
as coxas desenhadas, o sexo latejante, sua boca
percorria com avidez o que as mãos descobriam
e ofereciam como prêmio, conquista, o
corpo dele pulsava nu sob suas mãos,
seus lábios, vontades de mulher apaixonada,
ele não resistia, entregava-se, um presente,
abandonado, ao próprio prazer, ao prazer
dela, tocado por mãos habilidosas, beijado
por lábios ardentes, apertado, lambido,
cheirado, sentido por inteiro, sua boca ávida
trabalhava na carne jovem, descobria a verdade
das sensações, todos os gostos,
cheiros dentro dos gostos, mordia, lambia, sugava,
pele fina se distendendo, sexo se dilatando,
vivo, duro e macio, róseo e brilhante,
troféu masculino, só dela, todo
dela, em suas mãos, seus lábios,
sua boca, crescendo, úmido de saliva,
cheiro dele, gosto dele, só para ela,
sim, o prazer dele, o prazer dela, quente, viscoso,
sim, sim, agora, por inteiro, sob seu comando,
sim, explodindo de desejo, agora, dentro dela,
em espasmos de amor, finalmente o gosto secreto,
verdadeiro, espesso, doce, amargo, mentolado,
em sua língua, dentes, garganta, Hendrik
no fundo dela, transformado em seiva, Hendrik,
seu homem, seu menino, seu amor...
—
O que deu em você? — perguntou ele,
ainda aturdido, se recompondo. — Desaparece
por uma semana e chega aqui me atacando... Por
que fez isso?
—
Eu confio em você. Queria provar que eu
te amo.
Pegou
o resultado do exame na bolsa, entregou a ele.
—
Olha! Eu estou bem. Sou uma mulher saudável!
Hendrik
olhou o papel por um instante.
—
Isso não prova nada — falou, rasgando-o.
— Você pode ter manipulado o médico.
—
Eu nunca faria uma coisa dessas! — disse,
estupefata. — Não sou desonesta!
—
Isso não muda nada. Exames falham, sabia?
—
O que há com você? Não gosta
mais de mim? Por que não me diz isso,
então. Fala logo! Diz que não
me quer mais e vou embora, pra sempre! —
esbravejou.
—
Não é isso... você... você
é apressada demais...
—
Apressada? Mas o que é preciso esperar?
Eu te amo!
—
E como pode ter certeza? Você não
me conhece direito. Talvez você não
esteja amando o verdadeiro Hendrik.
—
Por que não me mostra ele, então?
Mal posso esperar pra conhecer esse cara —
ironizou. — Por que você não
cresce? Eu te amo, sei o que estou dizendo.
E você? Por que nunca diz que me ama?
—
Mas Liz, eu... eu...
—
Não pode dizer o que não sente.
É o Derek, não é? Então
fica com aquela bichona drogada! Vocês
dois se merecem.
Abriu
a porta e saiu, batendo-a com toda a força.
“Maldito,
desgraçado!”, xingava entre dentes,
entre lágrimas, pedalando feito alucinada
pela ciclovia. Como era possível amar
e odiar tanto a mesma pessoa? “Cretino,
veado!” Sentia ainda o gosto dele na boca,
o cheiro dele nos lábios. Que desperdício!
Vontade de beijá-lo, espancá-lo,
abraçá-lo, massacrá-lo
até a morte, amá-lo por toda vida.
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Voltou
pouco antes do almoço. Só quando
ela entrou percebi como eu estava apreensivo.
“Estou bem! Estou bem! Não tenho
o vírus!”, falou alegremente. Devia
estar morta de medo.
—
E o resultado do exame, onde está? —
perguntei.
—
Ah... não está comigo. Quer dizer,
ele ficou com o médico. É de praxe
aqui.
Estranho.
E se quisesse mostrar a Hendrik que não
estava contaminada? Ele teria de acreditar na
palavra dela.
Depois
do almoço, ia encontrar Denis, que a apresentaria
a conhecidos. Tinha esperança de conseguir
trabalho naquele dia. Saiu pedindo que lhe desejasse
sorte.
A
louça me esperava na pia. As modernas comidas
e bebidas ainda não evitavam que se sujassem
pratos, copos e talheres. Mal havia começado
a aborrecida atividade quando a campainha tocou.
Só podia ser Denis, quem mais? E por que
a pressa que fazia seu dedo apertar o botão
da campainha continuamente? Que falta de educação!
Abri a porta prestes a dizer-lhe desaforos, mas
não era Denis. Na calçada, vi um
rapaz, que parecia tão surpreso quanto
eu.
—
Hello! — disse ele, emendando algo que não
entendi. Acho que falava holandês.
—
O quê? — perguntei, em inglês.
—
Liz... — falou o nome dela com sotaque.
—
Ela não está em casa — respondi
pausadamente, no meu limitado inglês.
Ele
apresentou-se como Hendrik, dizendo algo que me
pareceu: “Vou estar em casa hoje à
noite, se ela quiser passar por lá...”
Mal tive tempo de dizer que compreendera o recado.
Apressado como havia tocado a campainha, ele desapareceu
da minha frente. Fechei a porta, corri escada
acima, indo direto para a sacada: nem sinal dele.
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