Fizemos as pazes. Fizeram as pazes. Mas ninguém está em paz. Quando Liz chegou no apartamento na noite em que nos desentendemos, não mencionou nossa desavença, estava ainda agitada pelo encontro e conversa com Hendrik, cismada com a história do tal Derek. Contou suas descobertas, tratando-me como um amigo no qual buscava compreensão. Nossa briga mesquinha era coisa do passado. Ouvi, ponderei, fiz comentários. Ela prestou atenção em mim. Conversamos por um bom tempo: quando o assunto a interessava não havia limites para desenvolvê-lo. Seu rosto estampando uma frágil esperança me comovia, me penalizava. Liz não podia fazer nada, precisava esperar. Para ela toda espera é tortura.

            As coisas vão se ajustando, lentamente.
            Já não discutimos mais na hora de preparar a comida — como na primeira vez em que tentamos, ao mesmo tempo, usar o fogão na estreita cozinha. Bem depressa descobrimos que certas tarefas não podem ser aceleradas porque um número maior de pessoas as executa. Agora nos revezamos no preparo de almoços e jantares. Procuramos também nos alternar nas funções comuns: quando um cozinha, o outro lava a louça. Bastante metódico, tento evitar o acúmulo de louça na pia de múltiplas funções. Liz considera exagero o asseio com que mantenho essa preciosa peça. Paciência. Acho importante conservar bem limpo o local onde escovamos os dentes, lavamos o rosto, a louça, os talheres, os legumes... Dependendo da disponibilidade do varal na varanda dos fundos, nos revezamos também na lavagem da roupa: cansativa tarefa distribuída em vários baldes, auxiliada pela água quente e pelo sabão em pó que promete limpeza total sem que se precise esfregar. O inverno não colabora com essa tarefa ingrata: o frio congela as roupas úmidas penduradas no varal. Querendo ser prático, fiz do aquecedor a gás da sala uma espécie de secadora de roupas, mas não se pode descuidar um só minuto: como um churrasqueiro que vigia a carne na grelha, é preciso virar de um lado, virar do outro, estender para cá, estender par lá, avaliar o grau de umidade e de resistência de cada peça. A não ser por um motivo muito especial, Liz se abstém de passar suas roupas: desagrada-lhe tanto quanto irrita usar o pequeno ferro de viagem sobre a tábua de passar que improvisei usando uma das prateleiras do nicho envolvida num lençol. Mas essa prancha provisória me parece bem mais prática do que a superfície do colchão sobre o carpete. Tento me adaptar às circunstâncias e adaptar os apetrechos disponíveis às nossas necessidades, mas nem sempre o resultado é satisfatório. Assim como eu, Liz não reclama de nada, mas é visível — talvez como o meu — seu desagrado em ter que se dedicar aos afazeres domésticos. Sabendo de sua quase aversão a eles, sempre que posso procuro poupá-la. Como tenho mais tempo livre, acabei assumindo a limpeza e arrumação do apartamento, as compras de supermercado, a quase totalidade do preparo das refeições. No começo, por inexperiência, não me saí bem na cozinha, mas logo compreendi que para evitar o arroz duro e sem gosto ou o refogado queimado, era preciso ignorar as instruções das embalagens e aplicar os princípios da intuição e do bom senso. Decretei a extinção das frituras. Liz não protestou. A posterior limpeza do óleo respingado pelo fogão, chão e azulejos, o desagradável cheiro de gordura que impregnava todo o ambiente lhe pareceram motivos convincentes. Já não dependo tanto de Liz como antes. Ciente de que seria impraticável permanecer atado ao domínio que ela possui do inglês, precisei me aventurar sozinho num mundo onde a comunicação me era vetada. Sem dizer uma palavra, sem compreender um único som, saio às ruas, entro nos supermercados e lojas, faço compras... No princípio, sentia-me um troglodita por não responder aos frios cumprimentos dos vendedores. Como isso me incomodava, apliquei-me em decorar poucas palavras cordiais, que passei a empregar sempre que sentia necessidade de parecer gentil, simpático ou educado. “Ja, nee, alstublieft, dank u wel, dag...”, repetia eu na ocasião propícia. Vocabulário limitado, pequeno disfarce para minha mudez, engodo para meus ouvintes, eterno receio de que me julgassem saber falar aquela língua impossível. Tendo uma vida conjunta, precisávamos agir cada um por si, única forma de seguir em frente. Ajudávamo-nos, cada qual fazendo sua parte na tentativa de aliviar o lado do outro. Com paciência e boa vontade diariamente renovadas verificávamos que não nos saíamos mal. Mas, a despeito da minha dedicada contribuição, as trivialidades domésticas, tão absorventes quanto aborrecidas, pesavam-me num vazio que não chegavam a preencher.
            Niek alugou o apartamento do térreo. Como os novos inquilinos possuíam mobília, ele acabou nos cedendo mais alguns móveis: em seu limitado francês, disse-me que se não os aceitássemos jogaria tudo no lixo. De bom grado aceitei o refugo, e o transportei escada acima. Nossa sala começa a se definir melhor com as poltronas listradas de vermelho e marrom, que não combinam com a mesa baixa laqueada de branco, tampouco com o gaveteiro verde. Não era sem desdém que eu achava engraçada a desarmônica mistura no espaço quase vazio. Aquele caráter temporário ao mesmo tempo em que criava uma expectativa crescente de melhoria parecia determinar uma situação imutável, definitiva. Sempre que eu saía à rua procurava prestar atenção a tudo ao meu redor, forma de absorver a cidade. Certa tarde, voltando das compras, ao passar por uma pilha de sacos de lixo, vi, juntamente a esse aglomerado, três cadeiras estofadas tão novas que fiquei em dúvida se tinham sido jogadas fora. Avaliei bem as cadeiras e, deixando a vergonha de lado, resolvi levar a que mais tinha me agradado. Coloquei as sacolas de compras sobre o assento, segurei a cadeira pelos braços e carreguei-a até em casa. Pelo caminho, para minha surpresa, nenhuma das pessoas que me via transportá-la dava importância ao ato que me parecia incomum. Quando retornei para pegar as outras duas elas já haviam desaparecido. Nesse mesmo dia, depois de contar o ocorrido à Liz, resolvemos dar um passeio noturno pelo quarteirão em busca de outros achados. Abrigados da visão alheia pela noite escura — muito embora isso não evitasse um certo constrangimento —, vasculhamos os montes de lixo das ruas próximas, felizmente quase desertas. Impressionante o que jogavam fora: camas, sofás, mesas, geladeiras, fogões, máquinas de lavar... Lojas inteiras em plena calçada, tudo aparentemente ainda em condições de uso. Pena não termos como carregar objetos grandes e pesados. O saldo de nossa incursão: uma TV portátil em cores, outra cadeira, um escorredor de pratos e uma persiana plástica. Interessante equipar o apartamento de forma tão econômica, principalmente na nossa situação. Decidimos fazer esses passeios todas as noites que precediam a passagem dos caminhões de lixo.

            Lentamente as coisas vão se ajustando. Lentamente demais. Agora sou eu o apressado. Mas minha pressa é secreta. A cada dia tento me convencer de que tudo está dando certo, de que nosso êxito conjunto é questão de tempo. Este é o problema: tempo. Para Liz, ele corre num ritmo bem diferente do meu. Será por isso sua tranqüilidade em resolver as questões que envolvem minha permanência aqui? Estava enganado achando que já podia relaxar. Manter-me ocupado para não pensar no que não devo, nada resolve. Não quero pressionar Liz, nem fazer cobranças.
            Do meio da sala, olho o apartamento onde moramos, onde passo o dia praticamente sozinho, em meio às paredes nuas, diante das janelas sem cortinas, observando a restrita mobília em desarmonia. Sinto-me como hóspede neste apartamento que limpo, arrumo e abasteço. Liz é a inquilina, a cidadã européia, a futura trabalhadora. Por hora, sou apenas o faxineiro, o empregado, seu provável futuro marido. A calma de Liz me exaspera. Falou-me que, antes de qualquer coisa, achava melhor conseguir trabalho para nosso casamento ser mais aceitável pelas autoridades. Não está errada, isso torna menos suspeita nossa farsa. Procuro agarrar-me a esse pré-requisito como forma de compreensão.
            Acabei de preparar o almoço. Liz acabou de chegar de mais uma manhã de peregrinação infrutífera em busca de emprego. Não reclama, não se queixa, não desanima. Mas seu rosto coberto pela máscara do otimismo não me engana: está cansada das entrevistas, fichas, formulários, cadastros... Confessa que andaria menos a pé e economizaria dinheiro se tivesse uma bicicleta. Ela já havia me falado sobre o difundido comércio clandestino de bicicletas roubadas na cidade. Apesar de não ser adepta de procedimentos ilegais, diz-se tentada a comprar um desses veículos práticos que a faria economizar e ainda lhe permitiria algum exercício físico. Comprar uma bicicleta nova em loja especializada, como faria alguém correto, está fora de cogitação: além de caro é arriscado, já que parece não haver correntes e cadeados à prova de ladrões. Digo que comprar algo roubado é bem diferente de roubar, mas Liz argumenta que saber que se está comprando produto de roubo não ameniza a situação, ao contrário, alimenta o ciclo. Parece dividida entre participar do delito e privar-se da prática comprovadamente comum. Alego que nosso casamento não é um bom exemplo de honestidade, e neste momento me ocorre se não seria esta a verdadeira causa de toda a demora. Ela me olha, pensativa, como se minhas palavras a tivessem feito lembrar de nossas devidas parcelas de culpa nesse delito conjunto. Por fim, comenta que não, tudo o que pretendemos fazer é por uma boa causa, isso justifica tudo. Discordo, mas não o digo. Que mal pode haver em comprar uma bicicleta roubada se as intenções são boas?
            Desviou o rumo da conversa. Ela é sempre tão sutil em suas manobras que, às vezes, tenho impressão de estar diante de uma talentosa atriz. Faz tudo com tanta naturalidade, de forma tão delicada que tenho vontade de abraçá-la, beijá-la para certificar-me de que realmente existe. Quando quer, Liz consegue ser perfeita. Com voz suave, pergunta sobre mim, minha manhã, meus afazeres. Sua máscara desaparece. Coloca tanta atenção e interesse em seu rosto calmo, que não consigo pensar em mais nada senão responder-lhe. Não, Liz não representa, simplesmente é. É admirável. Sorrio, maravilhado com sua surpreendente capacidade de anular um assunto pouco conveniente e iniciar uma conversa de um novo ponto de partida, como se tivéssemos acabado de nos encontrar. Minhas palavras saem moduladas num tom de animação que eu não imaginava possível. Ainda sou eu, já não sou eu. Só Liz existe, só ela é real diante de mim. Sou um eco, uma voz perdida que diz, com alegria espontânea, as respostas que ela provoca. Nem suspeita que me manipula, me embevece. Estranho prazer, estranha necessidade, quase masoquismo.
            Acabou de sair. Acabou o meu prazer, minha sensação orgástica, arrepio que ainda há pouco percorria minha coluna me envolvendo num halo de carinho. Liz voltou para as ruas em busca de trabalho, nosso futuro. Voltei a ficar só, a enxergar meu ócio inextinguível. Prometi a ela que passearia, tentaria me divertir... Às vezes Liz é cruel: obriga-me a mentir, a prometer o que não posso, fazer o que não quero. Por que não a obedeço? Por que não sou o menino comportado que ela espera que eu seja? Talvez até gostasse mais de mim, me admirasse. Não, sou rebelde, dissimulado. Gostaria de acatar suas doces ordens, mas sua ausência as transforma em pó. O que vou dizer quando ela voltar e, com seu jeito especial de me conduzir ao devaneio, perguntar o que fiz à tarde? Vou mentir, dar as falsas respostas que anseia, vou ser tão cruel quanto ela.
            Pensar é sofrer. Sofrer é saber-se vivo. Viver é pensar. Sentado no sofá, estático como se meu corpo não me pertencesse, olho o caderno de capa dura em cima do console sobre o aquecedor a gás. Algumas anotações feitas em Lisboa, nada mais. Para quê? A vontade que nem chega a se manifestar devidamente desaparece. Escrever é ter que pensar, converter idéias em palavras, transformá-las em evidências, ainda que falsas. Escrever também é sofrer. Nunca serei um escritor, não sei inventar, só sei escrever o que sinto.
            A tarde cinzenta atravessa as janelas, inunda a sala em que estou prostrado. Quem sou eu? O que faço neste apartamento? Queria poder ir embora. Meu lugar não é aqui. Estou preso. Onde é o meu lugar? Busco resposta para além das vidraças. O céu é uma superfície infinita. Como pode ser tão cinza? Como pode ser cinza por tanto tempo? Cinzas: restos de combustão pincelando as nuvens, dissolvendo-as numa espessa camada que encobre o azul do qual nem lembro mais. O frio extinguiu o fogo, as cinzas se espalharam por toda parte. O aquecedor não está funcionando bem, temos que falar com Niek. A sala gélida arrepia minha pele. Sinto frio, não sinto meu corpo. Estou vivo, estou morto. Morto de frio, morto de sono, de tanto pensar. Parar de pensar é parar de viver, e também de sofrer. Arrasto o corpo estranho até o quarto. Deito o cadáver no colchão. Cubro o defunto com meu edredom. Fecho os olhos na escuridão cinzenta, meu túmulo.

            — O que você está fazendo aí deitado uma hora dessas? — pergunta Liz, acordando-me de um sono profundo. — Está se sentindo bem, está doente?
            — Não, eu estou ótimo — digo, levantando-me.
            — Então vem, depressa. Eu preciso da sua ajuda. Tenho uma surpresa.
            Sem entender o que está acontecendo, sigo-a escada abaixo. Está escuro, faz muito frio.
            — Que tal? — me diz, animada, apontando uma bicicleta. — Acabei de comprar.
            — Você não perdeu tempo. Ela é bem bonita, parece nova — falo, sorrindo.
            — E foi baratíssima, 25 gulden.
            — Só isso!? Que sorte!
            — Vamos, me ajuda a subir com ela, eu não tive tempo de comprar corrente e cadeado.
            Pela escada estreita, subimos a bicicleta com dificuldade.
            — Mas como você conseguiu esse achado? — pergunto, vendo melhor o veículo.
            — O Hendrik me disse que era fácil comprar bicicletas em frente à Universidade. Eu fui até lá e fiquei olhando fixamente pra toda a bicicleta que passava. De repente, um cara parou e perguntou se eu queria comprar a bicicleta dele. Eu falei que não tinha dinheiro, e ele disse que não estava cobrando caro. Me pediu 30 gulden. Eu ofereci 25, e ele aceitou.
            Enquanto Liz toma banho preparo a comida. A água quente que sai da torneira da pia leva menos de um minuto para ferver na panela esmaltada. Um pacote de macarronada desidratada e sete minutos de espera: o jantar está pronto.
            Depois de comermos, lavamos a louça. De volta à sala, Liz experimenta no aparelho de som algumas fitas que Niek nos emprestou. Ecletismo maior impossível: ópera, rock, country, clássicos... fitas tão velhas que o som é quase inaudível. Sintoniza o rádio numa estação que toca música americana, entremeada com a voz incompreensível do locutor holandês. Ainda não teve nenhuma resposta significativa em relação a trabalho, mas parece disposta. Anima-se a escrever uma carta para Daniel. Apanha o bloco de papel reciclado, que comprou exclusivamente para esse fim, a caneta e começa a desenhar sua caligrafia. Da poltrona observo-a com uma ponta de inveja: gostaria de ter metade de sua disposição; e também com uma ponta de ciúme: todos os seus pensamentos se voltam agora para Daniel.
            A campainha toca. O som inesperado, que ainda não havíamos tido oportunidade de ouvir, nos surpreende. Entreolhamo-nos. Sabemos que não pode ser Niek, que teria batido diretamente na porta e não na entrada do prédio.
            — Eu não estou esperando visitas. Só pode ser pra você — digo a ela.
            — Quem será?
            Liz desce para abrir a porta. A escada de madeira range sob seus passos apressados. Da poltrona, apuro o ouvido, inquieto-me. Surpresa, cumprimentos, sorrisos: Hendrik. Ouço a voz doce de Liz açucarar-se ainda mais num inglês bastante audível. Ouço a voz dele, grave, forte, bonita. Meu coração se acelera. Tento imaginar o rosto dele, associar uma face a sua voz de homem, voz que evoca segurança, descontração, modernidade... Não consigo formar imagem de rosto algum. Será que finalmente vou conhecer esse fantasma tão antigo, tão íntimo? Sei tanto sobre ele que sinto como se estivéssemos nos reencontrando. Mas logo hoje!... Logo hoje que estou tão à vontade, com roupas de ficar em casa... Liz falou que ele dá muita importância à aparência, vai se decepcionar comigo logo na primeira vez. Correr, me esconder no quarto, vestir algo mais apresentável? Minha inquietude me paralisa no assento da poltrona. Tarde demais para qualquer ação: as vozes cessam, Liz fecha a porta do prédio, passos sobem pela escada. Meu coração dispara. Ela fecha a porta do apartamento, gira a chave na fechadura. Entra na sala, sozinha.
            — Ele não quis subir? — pergunto, surpreso, aliviado, desapontado.
            — Não, estava com pressa. Mas disse que vai voltar outro dia com mais calma.
            — Mas por que a pressa?
            — Ele veio com o Derek. Não sabia onde era nossa rua, nunca tinha vindo pra esses lados.
            — E o tal Derek?, não devia estar muito contente, não?
            — Ele nem esperou o Hendrik, mostrou o endereço e continuou andando.
            — Que cara mais esquisito.
            — O Hendrik me beijou. Disse que eu era namorada dele... — fala, satisfeita, orgulhosa.
            — Então a esquisitice do outro tinha um motivo.
            — Será que eu entendi direito? — comenta consigo mesma. — Sim, ele me beijou... Disse que o prédio era velho, longe do Centro... Falou que gostava de mim, que eu era namorada dele...
            — Às vezes eu tenho impressão que você inventou esse cara. Você já falou tanto dele, mas é como se ele não existisse.
            — Mas é claro que ele existe — diz, franzindo a testa, sorrindo. — Você não ouviu a voz dele?
            — Eu ouvi uma voz, que podia ser de qualquer um...
            — Logo, logo eu vou apresentar vocês dois.
            — Eu devo ser a última pessoa que ele tem vontade de conhecer...
            — Por que acha isso?
            — Pelo que você contou sobre os ciúmes dele.
            — Que bobagem, o Hendrik vai adorar você.
            — Mesmo depois que souber do nosso casamento? Você já contou a ele?
            — Ainda não...
            — Entendeu agora o que eu quis dizer?
            — Depois que eu explicar ele vai compreender, e aceitar...
            Uma vez mais minha presença, sua promessa, nossos planos, pesavam-me. Se eu não tivesse vindo tudo seria diferente para Liz, ela estaria livre, sem comprometimentos indesejáveis, sem segredos a revelar.
            — Então vocês se acertaram — digo, esforçando-me em sorrir.
            — Mal posso acreditar...
            Ela deveria estar alegre, feliz, mas não está, no máximo agitada. Ainda parece incrédula com a repentina visita. Talvez esteja preocupando-se de antemão, imaginando o melhor meio de contar a Hendrik o que é preciso.
            Depois de alguns minutos olhando pela janela, volta a concentrar-se na escrita da carta. Hendrik é um fantasma ressuscitado, miragem de carne e osso. Fisicamente ainda não existe para mim, mas já ocupa todo o espaço vazio do nosso apartamento. Sua bela voz, forte e grave, ainda ecoa em minha mente. Uma voz de homem, do homem que Liz ama, do homem que não me conhece, do homem que já invejo...

            O dia havia demorado a passar. Manhã inteira gasta em entrevistas nas agências de emprego. Não entendia porque nunca a chamavam se eram unânimes em reconhecer seu potencial. Toda a tarde preenchida com a longa espera pelos documentos que regularizavam sua situação de estrangeira. Um número social e fiscal, SoFi-nummer. Para o governo Liz não passava de um número.
            A bicicleta ajudava a encurtar distâncias. Desacostumada ao uso do veículo, sentia as pernas doloridas. Ainda estava pouco familiarizada com a rede de ciclovias em meio a um trânsito caótico: bondes, carros, pedestres, outros ciclistas, todos sempre apressados.
            Prendeu a bicicleta no poste junto à entrada do prédio de Hendrik. Estava contente, ansiosa: queria vê-lo, dormir com ele; queria contar a verdade sobre o compromisso com Leon.
            Tocou duas vezes o botão do interfone — como ele tinha pedido na noite anterior: o código deles. A porta do prédio foi destravada. Subiu as escadas, entrou. Na sala, deu por falta dos gatos. Hendrik deixou o quarto vestindo somente uma pantalona de seda roxa. Sorriu para ela:
            — Você veio...
            — Como me pediu — falou, também sorrindo. Sentia vontade de abraçá-lo, beijá-lo, mas não queria parecer afoita. Queria que Hendrik também mostrasse o que sentia por ela.
            — Que bom que veio — disse ele, num bocejo, tocando o ombro dela. — Que horas são?
            — Sete — respondeu, sem se importar com recepção pouco calorosa. — Onde estão Plexus e Nexus?
            — Com o Derek. Eu queria dormir à tarde, mas os gatos miam, arranham a porta...
            “Sempre pensando em si mesmo, no seu sossego, seu prazer”, refletiu. Sentados no sofá, olhavam-se. Ela sentia como se os dois buscassem as palavras mais apropriadas ao reinício, e, ao mesmo tempo, achava melhor nada dizerem. Olhava Hendrik: olhos, boca, tórax, braços, músculos... A seda macia delineando, envolvendo agradáveis formas e volumes. Num gesto lento, tocou o peito dele, deslizando sua mão pelo ventre delgado. Hendrik riu, sentia cócegas. Pousou a cabeça no colo dele.
            — Eu senti muito a sua falta — falou, de olhos fechados, o rosto na seda roxa.
            — Eu também. Mas agora estamos juntos — disse, afagando os cabelos dela.
            Liz não queria falar nada, queria agir, queria que Hendrik agisse, que fizesse o que tinha de ser feito. Por que a demora? Por que não a fazia feliz naquele instante? O que estava esperando? As mãos dela percorriam a pele nua, macia, quente; seu rosto se esfregava na seda, seus dentes mordiam delicadamente as dobras acetinadas do tecido...
            O interfone soou. Hendrik deu um salto do sofá quase derrubando-a no chão.
            — Depressa, se esconde no quarto! É o Derek! — disse, agitado.
            — O quê?!? Mas por que isso? — perguntou, atônita.
            — Depois eu te explico. Entra aí — empurrou-a quarto adentro, jogando o sobretudo e a bolsa dela, fechando a porta.
            Por que tudo tinha de acontecer em segredo? No meio do quarto, segurando o sobretudo e a bolsa, arrancada de seu prazer, estava inconformada. Vontade de abrir a porta e expulsar Derek a pontapés, esbofetear Hendrik, arrastá-lo para aquele quarto-prisão e terminar o que tinha ido fazer ali. Sentou na cama, ficou imóvel. Na sala, a conversa seguia em holandês. Derek havia trazido os gatos de volta. E riam, e falavam, sobre o quê? Inconformismo transformado em curiosidade. As vozes cessaram. O silêncio a fez aproximar-se da porta e apurar os ouvidos: nada. Mas ainda estavam ali, senão Hendrik teria voltado ao quarto. Abaixou-se e focou o buraco da fechadura. Viu os dois de pé no meio da sala. Derek passava os dedos nos lábios de Hendrik, a outra mão alisava o tórax, o ventre. Hendrik riu, sentindo cócegas, e desvencilhou-se de Derek. Disse algo e beijou o rosto do amigo, levando-o até a porta. Quando Derek se foi, Liz voltou à sala.
            — Nós temos que resolver isso. Não quero ficar me escondendo toda a vez que o interfone tocar. É ridículo!
            — O Derek é o meu único amigo de verdade, e eu não quero que fique magoado comigo. Ele não tem ninguém além de mim.
            — E por que ele não pode saber sobre nós? Não vai contar que estamos juntos?
            — Eu preciso arranjar um jeito de fazer isso sem ele se decepcionar. Não quero perder a amizade dele, eu investi muito tempo nisso.
            — Eu não entendo como a nossa relação pode abalar a amizade de vocês.
            — O Derek é muito sensível, depressivo. Ele vai achar que eu não vou ter mais tempo de ir ao apartamento dele, de passarmos as noites conversando e fumando...
            — Hendrik, o que está acontecendo? — perguntou, não se contendo e segurando-o pelos ombros. — Você está me escondendo alguma coisa. O que é?
            — Liz, por favor, me ajuda... — disse, em tom de súplica, abraçando-a.
            Ficou sem saber o que fazer diante do repentino pedido de socorro.
            — Calma, calma. Me conta o que está acontecendo.
            — O Derek disse que vai se matar se eu deixar de ser amigo dele.
            — Que exagero, ele não seria capaz.
            — Seria sim! Ele já tentou fazer isso! — confessou. — Ontem, depois que viemos do seu apartamento, eu falei que ia voltar a namorar você. Ele começou a chorar e gritar, dizendo que eu não gostava mais dele, que não era justo, que eu não podia fazer aquilo. Ele foi até a cozinha pegou uma faca e já ia começando a cortar a garganta quando eu segurei ele. Eu fiquei tão assustado... tive medo que ele se matasse na minha frente, ia ser horrível...
            Derek era bem pior, bem mais perigoso do que ela imaginava.
            — Hendrik, ele está te chantageando... Isso é prova de amizade?
            — Ele gosta de mim, não quer me perder.
            — E você, gosta dele a esse ponto?
            — Não quero ser responsável por nada de ruim que aconteça a ele. Eu sempre acabo provocando essas coisas... as pessoas gostam de mim, e depois... Mas eu não tenho culpa...
            Liz abraçou o menino grande diante de si. Amava-o, queria libertá-lo daquele domínio destrutivo, e ser feliz ao lado dele. Precisava ser cuidadosa. Hendrik estava muito ligado a Derek para enxergar a realidade.
            — E como eu fico nessa história? — indagou ela. — Por que você me procurou?
            — Porque eu gosto de você, porque você está aqui, voltou por minha causa...
            Para Hendrik o mundo girava em torno dele. Mas se Liz não tivesse viajado para reencontrá-lo as promessas de amor que ele fizera teriam sido esquecidas.
            Hendrik acendeu o skunk. Suas mãos tremiam um pouco. Ofereceu-o a Liz, mas ela recusou. Em vez de tentar resolver a questão de forma lúcida, ele fugia. Hendrik fumava, tragava, despia-se, sem pressa, aproveitando cada milímetro da fumaça. O skunk era seu remédio, refúgio, veneno, prisão. Mal que acalmava, bem que o transformava em outro. Às vezes tinha a sensação de que Hendrik não suportava ser ele mesmo. Sua lucidez de mulher apaixonada agora lhe era inútil. Logo, ela seria chata e ranzinza para Hendrik, mesmo sem dizer uma palavra. E havia tanto ainda a conversar... Queria falar do amor que sentia por ele, os planos que fariam... mas tudo pareceu secundário diante dos novos fatos, diante da fumaça do cigarro. Queria falar também sobre Leon, explicar o casamento fictício... Teve vontade de ir embora, voltar outro dia, não voltar mais. De repente, sentiu-se confusa, cansada, infeliz. Fez um esboço de movimento em direção à saída, mas Hendrik a deteve. Já despido, abraçou-a, colocando o cigarro em sua boca. Liz não opôs resistência. Fingindo tragar a fumaça deixou-se levar por ele ao quarto. Pela primeira vez a luz negra a incomodou. Hendrik parecia não gostar de ver o que fazia, com quem estava. Na escuridão da luz arroxeada todos os corpos e rostos eram belos porque simplesmente imaginados. Liz não tinha rosto nem corpo, uma massa informe que ele despia, acariciava, deitava na cama, e sobre a qual se precipitava. O sexo, mais um medicamento relaxante, complemento da droga? Hendrik nunca transava com ela sem estar drogado. Estranho hábito. Como seria o sexo se ele estivesse lúcido? Talvez fosse a droga que o estimulasse, e não seu corpo de mulher apaixonada. Poderia então ser qualquer corpo, qualquer pessoa, qualquer coisa. O que parecia contar era a possessão em si, não o objeto possuído. Mesmo naquele tour de force, tendo outro diante de si, Hendrik agia como se só ele contasse, o restante existia apenas para servi-lo. Não fazia sexo com ela, mas consigo mesmo, com o reflexo de sua bela imagem de narciso flutuando na escuridão dos olhos fechados. Liz queria ser amada, possuída, mas não daquele jeito. Desejava conhecer a verdade dos sentimentos dele, mostrar a verdade de seus desejos. Esperava possuí-lo também, ser parte dele, ter parte dele. Mas era tarde, os corpos que se entrelaçavam já não pertenciam a ninguém. Hendrik gemia, arfava, movia-se... quem veria com o olhar cego, rosto transfigurado, penetrando-a como se não houvesse depois? Alguém que não ela, sem dúvida. Talvez por isso o skunk, a luz negra, os olhos fechados... A Liz não restou alternativa: moveu-se, arfou e gemeu... Estavam juntos, mas isolados. Mentiam-se. O prazer dela ao alcance das mãos, preso em seus braços, em meio às suas pernas... e tão inacessível. Moviam-se em perfeita cadência, gemiam e arfavam, arfavam e gemiam: Hendrik, de prazer; Liz, de tristeza.

            Acordou com o ruído dos gatos arranhando a porta do quarto. Hendrik dormia a seu lado. Na mesinha de cabeceira, olhou o relógio: 10 horas. Levantou-se. Plexus e Nexus começaram a miar insistentemente a seus pés quando deixou o quarto. Na cozinha, colocou ração na tigela vazia dos gatos. Abriu a geladeira — especialmente ligada para ela — e apanhou refrigerante. Bebeu um copo do líquido gelado. Sentia sua cabeça pesada. O som do interfone a assustou, um toque longo. No mesmo instante, Hendrik saiu do quarto, apressado.
— Liz, depressa. Fica no quarto. É o Derek — disse, quando pousou o fone no gancho.
            Como alguém podia agüentar um inferno daqueles? Não protestou: entrou no quarto, fechou a porta, sentou na cama. Bem mais do que Hendrik, Derek tinha criado um elo de dependência. A noite passada sem a presença de Hendrik devia tê-lo privado da dose diária de atenção, devotamento, esperança de reciprocidade de afeto. Derek era doente. Além da dependência química de drogas tomadas indiscriminadamente, havia desenvolvido uma necessidade sentimental: Hendrik. Liz precisava impedir que se estabelecesse a dependência física. Competir com Derek pelo amor de Hendrik era desagradável. Ao mesmo tempo em que tinha certa primazia, sentia-se em desvantagem. Parecia satisfazer Hendrik sexualmente, mas só isso. As conversas interessantes, os jantares diários, o consumo conivente de drogas e o requintado jogo de sedução se davam com Derek. Ser mulher era seu trunfo, e também sua desgraça.
            A conversa na sala não parecia amistosa. A voz de Hendrik era tensa, a de Derek, irritada. Na cama, ela tentava esquecer do esconderijo. Apanhou uma revista, concentrou-se nas fotografias. De repente, Derek abriu a porta do quarto.
            — Você... aqui?... — falou, olhos arregalados, voz chorosa.
            — Tudo bem, Derek? — cumprimentou-o.
            Ele bateu a porta do quarto e esbravejou com Hendrik. Liz ouvia as lamúrias.
            — Pode sair agora, ele já foi — falou Hendrik, intranqüilo, abrindo a porta.
            — Eu não tive culpa. Não fiz nada — justificou-se.
            — Eu sei, eu me descuidei. Ele já devia estar desconfiando de alguma coisa.
            — Foi melhor assim. Agora ele já sabe sobre nós dois.
            Disse que precisava ir embora, mas Hendrik pediu que ela o esperasse tomar banho.
            De volta ao quarto, cabelos molhados, enrolado na toalha, ele escolhia a roupa que vestiria. Liz o observava.
            — Eu preciso te contar uma coisa.
            — Estou ouvindo — disse ele, sem olhá-la, procurando uma camisa.
            — O Leon, o amigo que veio comigo, também está pensando em morar aqui na Europa...
            — Você já me falou isso.
            — Mas ele não tem a mesma sorte que eu. Ele não tem um passaporte europeu... e sem isso ele não vai conseguir ficar aqui.
            — E o que ele vai fazer? — perguntou, ainda olhando no armário.
            — Só existe um meio do Leon ficar legalmente aqui: se eu... me casar com ele.
            — O quê!? Vocês vão se casar? Você mentiu pra mim! O Derek estava certo!
            — Não é nada disso! O casamento é uma farsa, eu só estou querendo ajudar o meu amigo. Sem o dinheiro dele eu não estaria aqui.
            — Então ele te comprou. Que absurdo!
            — Não, Hendrik. A gente só está se ajudando.
            — Mas ele está pagando pra casar com você! Os dois vão ser marido e mulher.
            — É só um acordo, não é de verdade.
            — É sim! Vocês vão se casar legalmente, e o casamento é uma coisa muito importante pra mim. Eu nunca mais vou transar com você.
            — Mas por quê?!?
            — Porque eu não transo com mulher casada.
Hendrik se obstinava em não entender, apegava-se à questão como se necessitasse de motivo forte o bastante para romper com a situação.
            — Então... está tudo acabado entre nós? — arriscou ela.
            — Ainda podemos ser amigos.
            — Eu não quero ser sua amiga, eu quero ser sua mulher.
            — Mas você vai se casar com o seu amigo, não comigo!
            — E se eu não me casar com o Leon a gente pode continuar junto?
            — Por que não? Você continua sendo livre, tão livre quanto eu.
            — Mas eu prometi me casar com o Leon pra ele poder ficar aqui. Sem isso eu vou ter que devolver um dinheiro que não tenho.
            — Por que você foi prometer uma coisa dessas? Devia ter pensado melhor.
            — Eu pensei, muito. Pensei também que você fosse mais compreensivo...
            — Compreensivo? Eu achei que a gente fosse desenvolver uma relação e você me diz que vai se casar com o seu amigo. E ainda quer que eu seja compreensivo!
            Triste, comprovava que Hendrik pensava apenas em si mesmo. Belo e cruel, usando a força de sua presença para destroçar os que ousavam cruzar seu caminho, ele era a integridade, a calma sobre a polida armadura da perfeição estética. Protegido pela indestrutível aura de beleza, era a imagem do homem tranqüilo, seguro, superior. Bem-vestido, ele fechou a porta do armário, buscando-a com o olhar — não disse uma só palavra. Fragmentada em incontáveis pedaços, Liz o seguiu, como se não houvesse outra coisa a fazer
.

            Cada vez mais sinto que meu lugar não é aqui. Onde é então? Existirá local para mim neste mundo? Estarei ajudando Liz de algum modo? Ela ainda quer me ajudar? Liz só vê o que lhe interessa. Como sempre, não está errada. Ainda lhe interesso? Talvez agora eu não passe de mais um dos problemas que sempre cria para si própria. Minha presença... apenas palavra de honra a ser mantida. Até quando? Por que prometer o que não se pode cumprir? Sinto-me só. Nossa amizade é um pretexto para não nos sentirmos inferiores aos que têm companhia.
            A neve cobriu de branco a cidade. Uniformizou as cores de todas as superfícies, limpando de branco as ruas, varrendo de branco as calçadas, ocultando de branco as esquinas, enobrecendo o que já era belo por si só. Nessa manhã, Amsterdam é apenas uma cor. Branco-paz, branco-pureza, branco-tranqüilidade... e também branco-tédio, branco-desolamento, branco-ilusão... Amsterdam, belo cenário fictício, tranqüilo e purificado pela força do clima, enganando pacífica e impiedosamente os olhos desatentos, beleza artificial exacerbada pela natureza. Tenho olhos adestrados: encobrir a verdade não a apaga.
            Passear, apreciar o belo, as paisagens irretocáveis, imagens da perfeição... Começo a me cansar dessa rotina vazia. Beleza por toda parte, se impondo a cada instante, não deixando espaço para mais nada senão ela mesma... Mas como é efêmera! Por não dar margem a comparações perde-se em si própria, deixa de impressionar. Relembro a primeira vez em que atravessei o Vondelpark: a paisagem despida pelo inverno, árvores nuas derramando galhos nas bordas dos lagos congelados, a superfície da água matizada em tons de azul contrastando com o branco da neve caída na noite anterior, aves voando, pousando e caminhando no azul gelado dos lagos, aléias ornadas por antigos troncos retorcidos vestidos apenas pela fina pele musgo, a grama verdejante brilhando alheia ao frio da estação... tudo tão perfeito! Menos de uma semana observando diariamente a mesma cena e eu passava por ela como cego atravessando um deserto. Com obstinação, busquei algo com que me identificar. Nada encontrei. A beleza estava ali, onipresente, esmagadora, mas inatingível, patética, nula. Amsterdam, uma das cidades mais lindas do mundo, conjunto harmonioso, coerente, inigualável. Tudo tão belo e ao mesmo tempo tão insípido, tão estéril. Superficialidade disfarçada em beleza, estática, embalsamada, morta. Belíssimo cenário inóspito, verdadeiro em sua falsidade, eficaz em seu propósito, transitório em sua fraude.
            Preciso de uma compensação. É enfadonho ficar em casa limpando, arrumando, lavando... para quê? Necessito ocupar meus dias ociosos, mas as tarefas que acabei me impondo nessa prisão voluntária não aparecem aos olhos de Liz — nem mesmo aos meus. Tudo inútil. Sair e fazer compras, pesquisar preços, cozinhar... mais algumas triviais imposições. Minha vida aqui, apesar de nova e diversa, é tão estagnante quanto a que eu levava anteriormente. Pior, as perspectivas que me cabem não dependem de mim. Minha vida não me pertence.
            Mais um dia pela frente, menos um dia de vida. Estou embalsamado como esta cidade morta. Sair à tarde, passear novamente no parque, ir mais uma vez ao Centro. De novo olhar vitrines sem poder gastar. Deslizar com indiferença em meio a pessoas indiferentes. Estar à margem. Não há compensação para certos erros. Esta não é nem de longe a vida que eu gostaria de ter.

            Liz chegou pouco depois do meio-dia. Estava estranha, como se quisesse ocultar uma inconformidade e estivesse inconformada com isso. Seu rosto risonho traía o discurso revestido pela animação artificial. Comportamento suspeito. A exagerada simpatia soava comprometedora, denunciava uma espécie de culpa. Sempre que se sentia em falta, ela procurava agradar, antecipar a compensação por algo que talvez não fosse bem compreendido ou aceito. Em tom otimista, contou as inúteis tentativas de encontrar trabalho. Depois falou das descobertas que fizera sobre minha permanência legal no país. Com alívio que não soube disfarçar, disse que não era mais necessário nos casarmos, poderíamos alegar viver em concubinato. Para tanto, era imprescindível que ela tivesse um emprego com o qual pudesse sustentar o casal. Fiquei surpreso com a mudança de planos, por ser apenas comunicado sobre a decisão da qual também deveria ter tomado parte. Liz já havia decidido tudo. Procurando não parecer descontente, falei que o concubinato, além de não me permitir solicitar visto de residência, ainda me obrigava a morar com ela indefinidamente — eu não pretendia fincar raízes na Holanda. Fui brando em meu comentário, Liz não lhe deu a devida importância. Por que eu não dizia que não estava contente com sua escolha, que não estava satisfeito com nada? Seu empenho em descartar nosso casamento era óbvio, a hipótese sempre a tinha incomodado. Talvez agora, reatando com Hendrik, e tendo revelado nossos planos, estivesse sendo pressionada por ele. Devia estar tentando achar um meio termo que satisfizesse a ambos, mas era impossível agradar a nós dois ao mesmo tempo. Eu sabia que era importante para ela não se indispor com Hendrik. Parecia condenada a ceder sempre aos pedidos dele — e eu aos dela. Mais uma vez cedi. Sem alegria, aceitei a alternativa do concubinato. Mas fiz questão de frisar, conforme dissera Verônica, que o casamento legal me daria direito à cidadania européia no futuro — o que o outro processo não permitia. Liz nada comentou, não queria me ouvir. Isso me irritou. Senti vontade de dizer a verdade que me sufocava. Contive-me. Precisava de mais tempo. Era necessário que ela arranjasse emprego primeiro. Só assim eu poderia ir embora.
            Foi para a cozinha, dizendo-se faminta. Começou a aquecer a comida feita por mim. Eu tinha perdido a fome. Aliviada por contar o que lhe incomodava, relaxada por eu concordar com a nova decisão, sentiu-se estimulada a continuar falando. Devia achar que eu tinha interesse em seu reencontro com Hendrik. Entre uma garfada e outra, contou os problemas com o namorado. Não me surpreendi ao saber que não eram poucos. Comia e desabafava, precisando ser ouvida. Cumpri meu papel: escutei-a com atenção, mas fiquei em dúvida se ela buscava um amigo ou apenas um ouvinte. Deixei a amizade falar por mim. Emitir opiniões que o outro não quer ouvir nem sempre é fácil. Liz pareceu concordar com minhas colocações, mas, ao mesmo tempo, eu tinha impressão de que diante de Hendrik tudo o que conversávamos perdia inteiramente o valor.
            Confessou que Hendrik lhe dera um ultimato: se nos casássemos eles não fariam mais sexo. Suspeita confirmada. Liz não sabe mentir... e mais uma vez me manipulou, redimindo-se da culpa por ter revelado a verdade. Talvez não saiba premeditar, mas joga muito bem. A verdade é sua arma.
            Não quer mais casar comigo. Também não quero mais casar com ela. Não foi minha essa idéia infeliz que tantos problemas parece criar. Ao me fazer a proposta, Liz devia ter imaginado que nunca seria verdadeiramente livre. Devia ter lembrado que precisaria submeter-se aos caprichos de Hendrik sob pena de perdê-lo. Situação difícil a dela. Preciso contar que vou embora. Mas se o fizer agora Liz vai encarar meu gesto como um contragolpe. Não posso fazer isso, não ainda. Eu só queria deixá-la livre. Ser livre também, sem me sujeitar a humilhações ou posições ridículas. Por que tenho de me sentir mal sempre? Não quero ser causador de maldade alguma. Não sou ruim... ou sou? Estou cansado de brincar de casinha, brincar de adulto, brincar de viver...
            Depois do almoço, Liz pensou em lavar algumas de suas roupas acumuladas há dias no saco plástico atrás da porta do quarto. Ocupou toda a cozinha com baldes de água quente. Não demonstrava a menor disposição para a tarefa, só o fazia por necessidade. Quando terminou de colocar as roupas de molho, sentiu-se cansada. Disse que ia deitar um pouco. Eu estava habituado a matar o tempo sozinho, devaneando no apartamento vazio. Fazê-lo enquanto Liz dormia pareceu-me constrangedor. Vesti o sobretudo. Fui dar meu inútil passeio pela cidade.
            A neve havia derretido. Tudo tinha voltado à beleza original, que já não me tocava. Senti vontade de fazer algo diferente. Queria encontrar a outra verdade de Amsterdam, o lado sórdido. Toda cidade possui misérias. Não era possível que Amsterdam não tivesse as suas. Obstinei-me em procurar o contraste de toda aquela beleza inacessível. Tinha visto no guia da cidade que Liz comprara informações sobre um lugar chamado Bairro da Luz Vermelha. Após tantos passeios não havia me lembrado de procurá-lo. O mapa simplificado de Amsterdam, que não saía do bolso do meu sobretudo, não indicava a região. Resolvi percorrer uma parte da cidade que ainda não tinha visitado: um labirinto de ruelas próximo ao Centro. Acertei em cheio. Famoso reduto de prostituição, o Bairro da Luz Vermelha, em pleno dia, não parecia tão sinistro como informava o guia, como eu imaginava. Apesar disso, eu estava intranqüilo. Excitação, vergonha, medo. Sentia-me entrando numa zona proibida. As vitrines das sex shops expunham, com certa crueza, toda a sorte de apetrechos destinados ao prazer. Algumas lojas tinham vitrines engraçadas. Outras, exibiam grandes fotografias pornográficas. Pequenos clubes de aspecto decadente ostentavam nas fachadas cartazes com mulheres nuas. Na entrada, funcionários convidavam os passantes a conhecer o que a casa oferecia. Precisei usar força para me desvencilhar de um sujeito que começou me puxar para o interior de um desses clubes. Mais adiante passei por ruas onde vitrines expunham prostitutas. Não consegui evitar que meu rosto corasse diante das cenas montadas para excitar. Vergonha em observar, ser observado. Estava chocado, não pelo que as vitrines representavam, mas pelo aspecto grotesco da maioria das mulheres atrás dos vidros, estranhas jaulas de um zoológico humano. Feias, acreditavam-se sedutoras, exibindo corpos deformados pela celulite fantasiados com sumárias lingeries. Faziam caretas, gestos convidando os homens a entrar. Muitas obtinham êxito. Algumas vitrines estavam com as cortinas fechadas. As prostitutas belas deviam estar ocultas, trabalhado. Espantoso acreditar que ali, na minha frente, protegidos apenas pelo tecido atrás do vidro, casais de desconhecidos entregavam-se num corpo a corpo de necessidades, físicas por um lado, econômicas por outro. O prazer parecia ficar por conta da saciedade desses dois desejos distintos — arrancado de um corpo indiferente, subtraído de uma carteira alheia. Talvez não estivessem de todo errados. Não seria isso mesmo, a vida?, o prazer a qualquer custo? Se isso deixava as pessoas satisfeitas devia ter algum valor. Não havia com o que se chocar. Se o sexo não passava de mercadoria, nada mais justo que estivesse exposto em vitrines coloridas por néon. Algumas ruas mais adiante me vi numa área destinada ao público gay. As vitrines das sex shops encarregavam-se de classificar e identificar cada setor da grande feira de sexo. Numa rua estreita, cheia de lojas de produtos eróticos e salas de cinema pornô, somente homens transitavam. Caminhei pela ruela como se estivesse em outro planeta, maravilhado, amedrontado. A rua terminava num beco, quase praça, onde homens e rapazes estavam de pé, encostados aos postes e muros. Esperavam a clientela. Não expunham seus corpos — talvez porque o frio não o permitisse —, mas exibiam-se declaradamente. Não eram bonitos, o conjunto mais se assemelhava a uma horda de assaltantes drogados. Mal-vestidos, maltratados, sujos. Observando melhor, um jovem de pele clara, vestindo casaco de couro preto, destacava-se do grupo por sua beleza anti-séptica. Só podia vir dele o perfume forte que eu sentia. Parado diante da cena, sem ter como avançar, sem conseguir recuar, me senti desconfortável. Queria sair correndo dali, mas algo pregava meus pés no chão. Discretamente, encaminhei-me para uma vitrine próxima, fingindo observá-la. Dentro dela, um enorme espelho refletia minha imagem. Meu ar de espanto mal-disfarçado irritou-me. Da calçada, olhava para mim mesmo, inteiro na da vitrine: era a mercadoria. Atrás de mim, os michês observavam-me com frios olhares de pedintes. Estavam ali para dar prazer, arranjar dinheiro. Ser observado por olhos que me enxergavam como cifrão não era agradável. Minha curiosidade havia me conduzido até ali, e agora eu era confundido com alguém que fazia parte daquele mundo. Meu temor dizia que eu estava em local indevido. Mas meu reflexo no espelho da vitrine expunha-me como se eu tivesse nascido para estar ali. Abandonei o espelho, a vitrine, a ruela. Andei, acelerei os passos, corri, enquanto era tempo.

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