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Fizemos
as pazes. Fizeram as pazes. Mas ninguém
está em paz. Quando Liz chegou no apartamento
na noite em que nos desentendemos, não
mencionou nossa desavença, estava ainda
agitada pelo encontro e conversa com Hendrik,
cismada com a história do tal Derek.
Contou suas descobertas, tratando-me como um
amigo no qual buscava compreensão. Nossa
briga mesquinha era coisa do passado. Ouvi,
ponderei, fiz comentários. Ela prestou
atenção em mim. Conversamos por
um bom tempo: quando o assunto a interessava
não havia limites para desenvolvê-lo.
Seu rosto estampando uma frágil esperança
me comovia, me penalizava. Liz não podia
fazer nada, precisava esperar. Para ela toda
espera é tortura.
As
coisas vão se ajustando, lentamente.
Já
não discutimos mais na hora de preparar
a comida — como na primeira vez em que
tentamos, ao mesmo tempo, usar o fogão
na estreita cozinha. Bem depressa descobrimos
que certas tarefas não podem ser aceleradas
porque um número maior de pessoas as
executa. Agora nos revezamos no preparo de almoços
e jantares. Procuramos também nos alternar
nas funções comuns: quando um
cozinha, o outro lava a louça. Bastante
metódico, tento evitar o acúmulo
de louça na pia de múltiplas funções.
Liz considera exagero o asseio com que mantenho
essa preciosa peça. Paciência.
Acho importante conservar bem limpo o local
onde escovamos os dentes, lavamos o rosto, a
louça, os talheres, os legumes... Dependendo
da disponibilidade do varal na varanda dos fundos,
nos revezamos também na lavagem da roupa:
cansativa tarefa distribuída em vários
baldes, auxiliada pela água quente e
pelo sabão em pó que promete limpeza
total sem que se precise esfregar. O inverno
não colabora com essa tarefa ingrata:
o frio congela as roupas úmidas penduradas
no varal. Querendo ser prático, fiz do
aquecedor a gás da sala uma espécie
de secadora de roupas, mas não se pode
descuidar um só minuto: como um churrasqueiro
que vigia a carne na grelha, é preciso
virar de um lado, virar do outro, estender para
cá, estender par lá, avaliar o
grau de umidade e de resistência de cada
peça. A não ser por um motivo
muito especial, Liz se abstém de passar
suas roupas: desagrada-lhe tanto quanto irrita
usar o pequeno ferro de viagem sobre a tábua
de passar que improvisei usando uma das prateleiras
do nicho envolvida num lençol. Mas essa
prancha provisória me parece bem mais
prática do que a superfície do
colchão sobre o carpete. Tento me adaptar
às circunstâncias e adaptar os
apetrechos disponíveis às nossas
necessidades, mas nem sempre o resultado é
satisfatório. Assim como eu, Liz não
reclama de nada, mas é visível
— talvez como o meu — seu desagrado
em ter que se dedicar aos afazeres domésticos.
Sabendo de sua quase aversão a eles,
sempre que posso procuro poupá-la. Como
tenho mais tempo livre, acabei assumindo a limpeza
e arrumação do apartamento, as
compras de supermercado, a quase totalidade
do preparo das refeições. No começo,
por inexperiência, não me saí
bem na cozinha, mas logo compreendi que para
evitar o arroz duro e sem gosto ou o refogado
queimado, era preciso ignorar as instruções
das embalagens e aplicar os princípios
da intuição e do bom senso. Decretei
a extinção das frituras. Liz não
protestou. A posterior limpeza do óleo
respingado pelo fogão, chão e
azulejos, o desagradável cheiro de gordura
que impregnava todo o ambiente lhe pareceram
motivos convincentes. Já não dependo
tanto de Liz como antes. Ciente de que seria
impraticável permanecer atado ao domínio
que ela possui do inglês, precisei me
aventurar sozinho num mundo onde a comunicação
me era vetada. Sem dizer uma palavra, sem compreender
um único som, saio às ruas, entro
nos supermercados e lojas, faço compras...
No princípio, sentia-me um troglodita
por não responder aos frios cumprimentos
dos vendedores. Como isso me incomodava, apliquei-me
em decorar poucas palavras cordiais, que passei
a empregar sempre que sentia necessidade de
parecer gentil, simpático ou educado.
“Ja, nee, alstublieft, dank u wel,
dag...”, repetia eu na ocasião
propícia. Vocabulário limitado,
pequeno disfarce para minha mudez, engodo para
meus ouvintes, eterno receio de que me julgassem
saber falar aquela língua impossível.
Tendo uma vida conjunta, precisávamos
agir cada um por si, única forma de seguir
em frente. Ajudávamo-nos, cada qual fazendo
sua parte na tentativa de aliviar o lado do
outro. Com paciência e boa vontade diariamente
renovadas verificávamos que não
nos saíamos mal. Mas, a despeito da minha
dedicada contribuição, as trivialidades
domésticas, tão absorventes quanto
aborrecidas, pesavam-me num vazio que não
chegavam a preencher.
Niek
alugou o apartamento do térreo. Como
os novos inquilinos possuíam mobília,
ele acabou nos cedendo mais alguns móveis:
em seu limitado francês, disse-me que
se não os aceitássemos jogaria
tudo no lixo. De bom grado aceitei o refugo,
e o transportei escada acima. Nossa sala começa
a se definir melhor com as poltronas listradas
de vermelho e marrom, que não combinam
com a mesa baixa laqueada de branco, tampouco
com o gaveteiro verde. Não era sem desdém
que eu achava engraçada a desarmônica
mistura no espaço quase vazio. Aquele
caráter temporário ao mesmo tempo
em que criava uma expectativa crescente de melhoria
parecia determinar uma situação
imutável, definitiva. Sempre que eu saía
à rua procurava prestar atenção
a tudo ao meu redor, forma de absorver a cidade.
Certa tarde, voltando das compras, ao passar
por uma pilha de sacos de lixo, vi, juntamente
a esse aglomerado, três cadeiras estofadas
tão novas que fiquei em dúvida
se tinham sido jogadas fora. Avaliei bem as
cadeiras e, deixando a vergonha de lado, resolvi
levar a que mais tinha me agradado. Coloquei
as sacolas de compras sobre o assento, segurei
a cadeira pelos braços e carreguei-a
até em casa. Pelo caminho, para minha
surpresa, nenhuma das pessoas que me via transportá-la
dava importância ao ato que me parecia
incomum. Quando retornei para pegar as outras
duas elas já haviam desaparecido. Nesse
mesmo dia, depois de contar o ocorrido à
Liz, resolvemos dar um passeio noturno pelo
quarteirão em busca de outros achados.
Abrigados da visão alheia pela noite
escura — muito embora isso não
evitasse um certo constrangimento —, vasculhamos
os montes de lixo das ruas próximas,
felizmente quase desertas. Impressionante o
que jogavam fora: camas, sofás, mesas,
geladeiras, fogões, máquinas de
lavar... Lojas inteiras em plena calçada,
tudo aparentemente ainda em condições
de uso. Pena não termos como carregar
objetos grandes e pesados. O saldo de nossa
incursão: uma TV
portátil em cores, outra cadeira, um
escorredor de pratos e uma persiana plástica.
Interessante equipar o apartamento de forma
tão econômica, principalmente na
nossa situação. Decidimos fazer
esses passeios todas as noites que precediam
a passagem dos caminhões de lixo.
Lentamente
as coisas vão se ajustando. Lentamente
demais. Agora sou eu o apressado. Mas minha
pressa é secreta. A cada dia tento me
convencer de que tudo está dando certo,
de que nosso êxito conjunto é questão
de tempo. Este é o problema: tempo. Para
Liz, ele corre num ritmo bem diferente do meu.
Será por isso sua tranqüilidade
em resolver as questões que envolvem
minha permanência aqui? Estava enganado
achando que já podia relaxar. Manter-me
ocupado para não pensar no que não
devo, nada resolve. Não quero pressionar
Liz, nem fazer cobranças.
Do
meio da sala, olho o apartamento onde moramos,
onde passo o dia praticamente sozinho, em meio
às paredes nuas, diante das janelas sem
cortinas, observando a restrita mobília
em desarmonia. Sinto-me como hóspede
neste apartamento que limpo, arrumo e abasteço.
Liz é a inquilina, a cidadã européia,
a futura trabalhadora. Por hora, sou apenas
o faxineiro, o empregado, seu provável
futuro marido. A calma de Liz me exaspera. Falou-me
que, antes de qualquer coisa, achava melhor
conseguir trabalho para nosso casamento ser
mais aceitável pelas autoridades. Não
está errada, isso torna menos suspeita
nossa farsa. Procuro agarrar-me a esse pré-requisito
como forma de compreensão.
Acabei
de preparar o almoço. Liz acabou de chegar
de mais uma manhã de peregrinação
infrutífera em busca de emprego. Não
reclama, não se queixa, não desanima.
Mas seu rosto coberto pela máscara do
otimismo não me engana: está cansada
das entrevistas, fichas, formulários,
cadastros... Confessa que andaria menos a pé
e economizaria dinheiro se tivesse uma bicicleta.
Ela já havia me falado sobre o difundido
comércio clandestino de bicicletas roubadas
na cidade. Apesar de não ser adepta de
procedimentos ilegais, diz-se tentada a comprar
um desses veículos práticos que
a faria economizar e ainda lhe permitiria algum
exercício físico. Comprar uma
bicicleta nova em loja especializada, como faria
alguém correto, está fora de cogitação:
além de caro é arriscado, já
que parece não haver correntes e cadeados
à prova de ladrões. Digo que comprar
algo roubado é bem diferente de roubar,
mas Liz argumenta que saber que se está
comprando produto de roubo não ameniza
a situação, ao contrário,
alimenta o ciclo. Parece dividida entre participar
do delito e privar-se da prática comprovadamente
comum. Alego que nosso casamento não
é um bom exemplo de honestidade, e neste
momento me ocorre se não seria esta a
verdadeira causa de toda a demora. Ela me olha,
pensativa, como se minhas palavras a tivessem
feito lembrar de nossas devidas parcelas de
culpa nesse delito conjunto. Por fim, comenta
que não, tudo o que pretendemos fazer
é por uma boa causa, isso justifica tudo.
Discordo, mas não o digo. Que mal pode
haver em comprar uma bicicleta roubada se as
intenções são boas?
Desviou
o rumo da conversa. Ela é sempre tão
sutil em suas manobras que, às vezes,
tenho impressão de estar diante de uma
talentosa atriz. Faz tudo com tanta naturalidade,
de forma tão delicada que tenho vontade
de abraçá-la, beijá-la
para certificar-me de que realmente existe.
Quando quer, Liz consegue ser perfeita. Com
voz suave, pergunta sobre mim, minha manhã,
meus afazeres. Sua máscara desaparece.
Coloca tanta atenção e interesse
em seu rosto calmo, que não consigo pensar
em mais nada senão responder-lhe. Não,
Liz não representa, simplesmente é.
É admirável. Sorrio, maravilhado
com sua surpreendente capacidade de anular um
assunto pouco conveniente e iniciar uma conversa
de um novo ponto de partida, como se tivéssemos
acabado de nos encontrar. Minhas palavras saem
moduladas num tom de animação
que eu não imaginava possível.
Ainda sou eu, já não sou eu. Só
Liz existe, só ela é real diante
de mim. Sou um eco, uma voz perdida que diz,
com alegria espontânea, as respostas que
ela provoca. Nem suspeita que me manipula, me
embevece. Estranho prazer, estranha necessidade,
quase masoquismo.
Acabou
de sair. Acabou o meu prazer, minha sensação
orgástica, arrepio que ainda há
pouco percorria minha coluna me envolvendo num
halo de carinho. Liz voltou para as ruas em
busca de trabalho, nosso futuro. Voltei a ficar
só, a enxergar meu ócio inextinguível.
Prometi a ela que passearia, tentaria me divertir...
Às vezes Liz é cruel: obriga-me
a mentir, a prometer o que não posso,
fazer o que não quero. Por que não
a obedeço? Por que não sou o menino
comportado que ela espera que eu seja? Talvez
até gostasse mais de mim, me admirasse.
Não, sou rebelde, dissimulado. Gostaria
de acatar suas doces ordens, mas sua ausência
as transforma em pó. O que vou dizer
quando ela voltar e, com seu jeito especial
de me conduzir ao devaneio, perguntar o que
fiz à tarde? Vou mentir, dar as falsas
respostas que anseia, vou ser tão cruel
quanto ela.
Pensar
é sofrer. Sofrer é saber-se vivo.
Viver é pensar. Sentado no sofá,
estático como se meu corpo não
me pertencesse, olho o caderno de capa dura
em cima do console sobre o aquecedor a gás.
Algumas anotações feitas em Lisboa,
nada mais. Para quê? A vontade que nem
chega a se manifestar devidamente desaparece.
Escrever é ter que pensar, converter
idéias em palavras, transformá-las
em evidências, ainda que falsas. Escrever
também é sofrer. Nunca serei um
escritor, não sei inventar, só
sei escrever o que sinto.
A
tarde cinzenta atravessa as janelas, inunda
a sala em que estou prostrado. Quem sou eu?
O que faço neste apartamento? Queria
poder ir embora. Meu lugar não é
aqui. Estou preso. Onde é o meu lugar?
Busco resposta para além das vidraças.
O céu é uma superfície
infinita. Como pode ser tão cinza? Como
pode ser cinza por tanto tempo? Cinzas: restos
de combustão pincelando as nuvens, dissolvendo-as
numa espessa camada que encobre o azul do qual
nem lembro mais. O frio extinguiu o fogo, as
cinzas se espalharam por toda parte. O aquecedor
não está funcionando bem, temos
que falar com Niek. A sala gélida arrepia
minha pele. Sinto frio, não sinto meu
corpo. Estou vivo, estou morto. Morto de frio,
morto de sono, de tanto pensar. Parar de pensar
é parar de viver, e também de
sofrer. Arrasto o corpo estranho até
o quarto. Deito o cadáver no colchão.
Cubro o defunto com meu edredom. Fecho os olhos
na escuridão cinzenta, meu túmulo.
—
O que você está fazendo aí
deitado uma hora dessas? — pergunta Liz,
acordando-me de um sono profundo. — Está
se sentindo bem, está doente?
—
Não, eu estou ótimo — digo,
levantando-me.
—
Então vem, depressa. Eu preciso da sua
ajuda. Tenho uma surpresa.
Sem
entender o que está acontecendo, sigo-a
escada abaixo. Está escuro, faz muito
frio.
—
Que tal? — me diz, animada, apontando
uma bicicleta. — Acabei de comprar.
—
Você não perdeu tempo. Ela é
bem bonita, parece nova — falo, sorrindo.
—
E foi baratíssima, 25 gulden.
—
Só isso!? Que sorte!
—
Vamos, me ajuda a subir com ela, eu não
tive tempo de comprar corrente e cadeado.
Pela
escada estreita, subimos a bicicleta com dificuldade.
—
Mas como você conseguiu esse achado? —
pergunto, vendo melhor o veículo.
—
O Hendrik me disse que era fácil comprar
bicicletas em frente à Universidade.
Eu fui até lá e fiquei olhando
fixamente pra toda a bicicleta que passava.
De repente, um cara parou e perguntou se eu
queria comprar a bicicleta dele. Eu falei que
não tinha dinheiro, e ele disse que não
estava cobrando caro. Me pediu 30 gulden.
Eu ofereci 25, e ele aceitou.
Enquanto
Liz toma banho preparo a comida. A água
quente que sai da torneira da pia leva menos
de um minuto para ferver na panela esmaltada.
Um pacote de macarronada desidratada e sete
minutos de espera: o jantar está pronto.
Depois
de comermos, lavamos a louça. De volta
à sala, Liz experimenta no aparelho de
som algumas fitas que Niek nos emprestou. Ecletismo
maior impossível: ópera, rock,
country, clássicos... fitas tão
velhas que o som é quase inaudível.
Sintoniza o rádio numa estação
que toca música americana, entremeada
com a voz incompreensível do locutor
holandês. Ainda não teve nenhuma
resposta significativa em relação
a trabalho, mas parece disposta. Anima-se a
escrever uma carta para Daniel. Apanha o bloco
de papel reciclado, que comprou exclusivamente
para esse fim, a caneta e começa a desenhar
sua caligrafia. Da poltrona observo-a com uma
ponta de inveja: gostaria de ter metade de sua
disposição; e também com
uma ponta de ciúme: todos os seus pensamentos
se voltam agora para Daniel.
A
campainha toca. O som inesperado, que ainda
não havíamos tido oportunidade
de ouvir, nos surpreende. Entreolhamo-nos. Sabemos
que não pode ser Niek, que teria batido
diretamente na porta e não na entrada
do prédio.
—
Eu não estou esperando visitas. Só
pode ser pra você — digo a ela.
—
Quem será?
Liz
desce para abrir a porta. A escada de madeira
range sob seus passos apressados. Da poltrona,
apuro o ouvido, inquieto-me. Surpresa, cumprimentos,
sorrisos: Hendrik. Ouço a voz doce de
Liz açucarar-se ainda mais num inglês
bastante audível. Ouço a voz dele,
grave, forte, bonita. Meu coração
se acelera. Tento imaginar o rosto dele, associar
uma face a sua voz de homem, voz que evoca segurança,
descontração, modernidade... Não
consigo formar imagem de rosto algum. Será
que finalmente vou conhecer esse fantasma tão
antigo, tão íntimo? Sei tanto
sobre ele que sinto como se estivéssemos
nos reencontrando. Mas logo hoje!... Logo hoje
que estou tão à vontade, com roupas
de ficar em casa... Liz falou que ele dá
muita importância à aparência,
vai se decepcionar comigo logo na primeira vez.
Correr, me esconder no quarto, vestir algo mais
apresentável? Minha inquietude me paralisa
no assento da poltrona. Tarde demais para qualquer
ação: as vozes cessam, Liz fecha
a porta do prédio, passos sobem pela
escada. Meu coração dispara. Ela
fecha a porta do apartamento, gira a chave na
fechadura. Entra na sala, sozinha.
—
Ele não quis subir? — pergunto,
surpreso, aliviado, desapontado.
—
Não, estava com pressa. Mas disse que
vai voltar outro dia com mais calma.
—
Mas por que a pressa?
—
Ele veio com o Derek. Não sabia onde
era nossa rua, nunca tinha vindo pra esses lados.
—
E o tal Derek?, não devia estar muito
contente, não?
—
Ele nem esperou o Hendrik, mostrou o endereço
e continuou andando.
—
Que cara mais esquisito.
—
O Hendrik me beijou. Disse que eu era namorada
dele... — fala, satisfeita, orgulhosa.
—
Então a esquisitice do outro tinha um
motivo.
—
Será que eu entendi direito? —
comenta consigo mesma. — Sim, ele me beijou...
Disse que o prédio era velho, longe do
Centro... Falou que gostava de mim, que eu era
namorada dele...
—
Às vezes eu tenho impressão que
você inventou esse cara. Você já
falou tanto dele, mas é como se ele não
existisse.
—
Mas é claro que ele existe — diz,
franzindo a testa, sorrindo. — Você
não ouviu a voz dele?
—
Eu ouvi uma voz, que podia ser de qualquer um...
—
Logo, logo eu vou apresentar vocês dois.
—
Eu devo ser a última pessoa que ele tem
vontade de conhecer...
—
Por que acha isso?
—
Pelo que você contou sobre os ciúmes
dele.
—
Que bobagem, o Hendrik vai adorar você.
—
Mesmo depois que souber do nosso casamento?
Você já contou a ele?
—
Ainda não...
—
Entendeu agora o que eu quis dizer?
—
Depois que eu explicar ele vai compreender,
e aceitar...
Uma
vez mais minha presença, sua promessa,
nossos planos, pesavam-me. Se eu não
tivesse vindo tudo seria diferente para Liz,
ela estaria livre, sem comprometimentos indesejáveis,
sem segredos a revelar.
—
Então vocês se acertaram —
digo, esforçando-me em sorrir.
—
Mal posso acreditar...
Ela
deveria estar alegre, feliz, mas não
está, no máximo agitada. Ainda
parece incrédula com a repentina visita.
Talvez esteja preocupando-se de antemão,
imaginando o melhor meio de contar a Hendrik
o que é preciso.
Depois
de alguns minutos olhando pela janela, volta
a concentrar-se na escrita da carta. Hendrik
é um fantasma ressuscitado, miragem de
carne e osso. Fisicamente ainda não existe
para mim, mas já ocupa todo o espaço
vazio do nosso apartamento. Sua bela voz, forte
e grave, ainda ecoa em minha mente. Uma voz
de homem, do homem que Liz ama, do homem que
não me conhece, do homem que já
invejo...
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O
dia havia demorado a passar. Manhã inteira
gasta em entrevistas nas agências de emprego.
Não entendia porque nunca a chamavam se
eram unânimes em reconhecer seu potencial.
Toda a tarde preenchida com a longa espera pelos
documentos que regularizavam sua situação
de estrangeira. Um número social e fiscal,
SoFi-nummer. Para o governo Liz não
passava de um número.
A
bicicleta ajudava a encurtar distâncias.
Desacostumada ao uso do veículo, sentia
as pernas doloridas. Ainda estava pouco familiarizada
com a rede de ciclovias em meio a um trânsito
caótico: bondes, carros, pedestres, outros
ciclistas, todos sempre apressados.
Prendeu
a bicicleta no poste junto à entrada do
prédio de Hendrik. Estava contente, ansiosa:
queria vê-lo, dormir com ele; queria contar
a verdade sobre o compromisso com Leon.
Tocou
duas vezes o botão do interfone —
como ele tinha pedido na noite anterior: o código
deles. A porta do prédio foi destravada.
Subiu as escadas, entrou. Na sala, deu por falta
dos gatos. Hendrik deixou o quarto vestindo somente
uma pantalona de seda roxa. Sorriu para ela:
—
Você veio...
—
Como me pediu — falou, também sorrindo.
Sentia vontade de abraçá-lo, beijá-lo,
mas não queria parecer afoita. Queria que
Hendrik também mostrasse o que sentia por
ela.
—
Que bom que veio — disse ele, num bocejo,
tocando o ombro dela. — Que horas são?
—
Sete — respondeu, sem se importar com recepção
pouco calorosa. — Onde estão Plexus
e Nexus?
—
Com o Derek. Eu queria dormir à tarde,
mas os gatos miam, arranham a porta...
“Sempre
pensando em si mesmo, no seu sossego, seu prazer”,
refletiu. Sentados no sofá, olhavam-se.
Ela sentia como se os dois buscassem as palavras
mais apropriadas ao reinício, e, ao mesmo
tempo, achava melhor nada dizerem. Olhava Hendrik:
olhos, boca, tórax, braços, músculos...
A seda macia delineando, envolvendo agradáveis
formas e volumes. Num gesto lento, tocou o peito
dele, deslizando sua mão pelo ventre delgado.
Hendrik riu, sentia cócegas. Pousou a cabeça
no colo dele.
—
Eu senti muito a sua falta — falou, de olhos
fechados, o rosto na seda roxa.
—
Eu também. Mas agora estamos juntos —
disse, afagando os cabelos dela.
Liz
não queria falar nada, queria agir, queria
que Hendrik agisse, que fizesse o que tinha de
ser feito. Por que a demora? Por que não
a fazia feliz naquele instante? O que estava esperando?
As mãos dela percorriam a pele nua, macia,
quente; seu rosto se esfregava na seda, seus dentes
mordiam delicadamente as dobras acetinadas do
tecido...
O
interfone soou. Hendrik deu um salto do sofá
quase derrubando-a no chão.
—
Depressa, se esconde no quarto! É o Derek!
— disse, agitado.
—
O quê?!? Mas por que isso? — perguntou,
atônita.
—
Depois eu te explico. Entra aí —
empurrou-a quarto adentro, jogando o sobretudo
e a bolsa dela, fechando a porta.
Por
que tudo tinha de acontecer em segredo? No meio
do quarto, segurando o sobretudo e a bolsa, arrancada
de seu prazer, estava inconformada. Vontade de
abrir a porta e expulsar Derek a pontapés,
esbofetear Hendrik, arrastá-lo para aquele
quarto-prisão e terminar o que tinha ido
fazer ali. Sentou na cama, ficou imóvel.
Na sala, a conversa seguia em holandês.
Derek havia trazido os gatos de volta. E riam,
e falavam, sobre o quê? Inconformismo transformado
em curiosidade. As vozes cessaram. O silêncio
a fez aproximar-se da porta e apurar os ouvidos:
nada. Mas ainda estavam ali, senão Hendrik
teria voltado ao quarto. Abaixou-se e focou o
buraco da fechadura. Viu os dois de pé
no meio da sala. Derek passava os dedos nos lábios
de Hendrik, a outra mão alisava o tórax,
o ventre. Hendrik riu, sentindo cócegas,
e desvencilhou-se de Derek. Disse algo e beijou
o rosto do amigo, levando-o até a porta.
Quando Derek se foi, Liz voltou à sala.
—
Nós temos que resolver isso. Não
quero ficar me escondendo toda a vez que o interfone
tocar. É ridículo!
—
O Derek é o meu único amigo de verdade,
e eu não quero que fique magoado comigo.
Ele não tem ninguém além
de mim.
—
E por que ele não pode saber sobre nós?
Não vai contar que estamos juntos?
—
Eu preciso arranjar um jeito de fazer isso sem
ele se decepcionar. Não quero perder a
amizade dele, eu investi muito tempo nisso.
—
Eu não entendo como a nossa relação
pode abalar a amizade de vocês.
—
O Derek é muito sensível, depressivo.
Ele vai achar que eu não vou ter mais tempo
de ir ao apartamento dele, de passarmos as noites
conversando e fumando...
—
Hendrik, o que está acontecendo? —
perguntou, não se contendo e segurando-o
pelos ombros. — Você está me
escondendo alguma coisa. O que é?
—
Liz, por favor, me ajuda... — disse, em
tom de súplica, abraçando-a.
Ficou
sem saber o que fazer diante do repentino pedido
de socorro.
—
Calma, calma. Me conta o que está acontecendo.
—
O Derek disse que vai se matar se eu deixar de
ser amigo dele.
—
Que exagero, ele não seria capaz.
—
Seria sim! Ele já tentou fazer isso! —
confessou. — Ontem, depois que viemos do
seu apartamento, eu falei que ia voltar a namorar
você. Ele começou a chorar e gritar,
dizendo que eu não gostava mais dele, que
não era justo, que eu não podia
fazer aquilo. Ele foi até a cozinha pegou
uma faca e já ia começando a cortar
a garganta quando eu segurei ele. Eu fiquei tão
assustado... tive medo que ele se matasse na minha
frente, ia ser horrível...
Derek
era bem pior, bem mais perigoso do que ela imaginava.
—
Hendrik, ele está te chantageando... Isso
é prova de amizade?
—
Ele gosta de mim, não quer me perder.
—
E você, gosta dele a esse ponto?
—
Não quero ser responsável por nada
de ruim que aconteça a ele. Eu sempre acabo
provocando essas coisas... as pessoas gostam de
mim, e depois... Mas eu não tenho culpa...
Liz
abraçou o menino grande diante de si. Amava-o,
queria libertá-lo daquele domínio
destrutivo, e ser feliz ao lado dele. Precisava
ser cuidadosa. Hendrik estava muito ligado a Derek
para enxergar a realidade.
—
E como eu fico nessa história? —
indagou ela. — Por que você me procurou?
—
Porque eu gosto de você, porque você
está aqui, voltou por minha causa...
Para
Hendrik o mundo girava em torno dele. Mas se Liz
não tivesse viajado para reencontrá-lo
as promessas de amor que ele fizera teriam sido
esquecidas.
Hendrik
acendeu o skunk. Suas mãos tremiam um pouco.
Ofereceu-o a Liz, mas ela recusou. Em vez de tentar
resolver a questão de forma lúcida,
ele fugia. Hendrik fumava, tragava, despia-se,
sem pressa, aproveitando cada milímetro
da fumaça. O skunk era seu remédio,
refúgio, veneno, prisão. Mal que
acalmava, bem que o transformava em outro. Às
vezes tinha a sensação de que Hendrik
não suportava ser ele mesmo. Sua lucidez
de mulher apaixonada agora lhe era inútil.
Logo, ela seria chata e ranzinza para Hendrik,
mesmo sem dizer uma palavra. E havia tanto ainda
a conversar... Queria falar do amor que sentia
por ele, os planos que fariam... mas tudo pareceu
secundário diante dos novos fatos, diante
da fumaça do cigarro. Queria falar também
sobre Leon, explicar o casamento fictício...
Teve vontade de ir embora, voltar outro dia, não
voltar mais. De repente, sentiu-se confusa, cansada,
infeliz. Fez um esboço de movimento em
direção à saída, mas
Hendrik a deteve. Já despido, abraçou-a,
colocando o cigarro em sua boca. Liz não
opôs resistência. Fingindo tragar
a fumaça deixou-se levar por ele ao quarto.
Pela primeira vez a luz negra a incomodou. Hendrik
parecia não gostar de ver o que fazia,
com quem estava. Na escuridão da luz arroxeada
todos os corpos e rostos eram belos porque simplesmente
imaginados. Liz não tinha rosto nem corpo,
uma massa informe que ele despia, acariciava,
deitava na cama, e sobre a qual se precipitava.
O sexo, mais um medicamento relaxante, complemento
da droga? Hendrik nunca transava com ela sem estar
drogado. Estranho hábito. Como seria o
sexo se ele estivesse lúcido? Talvez fosse
a droga que o estimulasse, e não seu corpo
de mulher apaixonada. Poderia então ser
qualquer corpo, qualquer pessoa, qualquer coisa.
O que parecia contar era a possessão em
si, não o objeto possuído. Mesmo
naquele tour de force, tendo outro diante
de si, Hendrik agia como se só ele contasse,
o restante existia apenas para servi-lo. Não
fazia sexo com ela, mas consigo mesmo, com o reflexo
de sua bela imagem de narciso flutuando na escuridão
dos olhos fechados. Liz queria ser amada, possuída,
mas não daquele jeito. Desejava conhecer
a verdade dos sentimentos dele, mostrar a verdade
de seus desejos. Esperava possuí-lo também,
ser parte dele, ter parte dele. Mas era tarde,
os corpos que se entrelaçavam já
não pertenciam a ninguém. Hendrik
gemia, arfava, movia-se... quem veria com o olhar
cego, rosto transfigurado, penetrando-a como se
não houvesse depois? Alguém que
não ela, sem dúvida. Talvez por
isso o skunk, a luz negra, os olhos fechados...
A Liz não restou alternativa: moveu-se,
arfou e gemeu... Estavam juntos, mas isolados.
Mentiam-se. O prazer dela ao alcance das mãos,
preso em seus braços, em meio às
suas pernas... e tão inacessível.
Moviam-se em perfeita cadência, gemiam e
arfavam, arfavam e gemiam: Hendrik, de prazer;
Liz, de tristeza.
Acordou
com o ruído dos gatos arranhando a porta
do quarto. Hendrik dormia a seu lado. Na mesinha
de cabeceira, olhou o relógio: 10 horas.
Levantou-se. Plexus e Nexus começaram
a miar insistentemente a seus pés quando
deixou o quarto. Na cozinha, colocou ração
na tigela vazia dos gatos. Abriu a geladeira
— especialmente ligada para ela —
e apanhou refrigerante. Bebeu um copo do líquido
gelado. Sentia sua cabeça pesada. O som
do interfone a assustou, um toque longo. No
mesmo instante, Hendrik saiu do quarto, apressado.
— Liz, depressa. Fica no quarto. É
o Derek — disse, quando pousou o fone
no gancho.
Como
alguém podia agüentar um inferno
daqueles? Não protestou: entrou no quarto,
fechou a porta, sentou na cama. Bem mais do
que Hendrik, Derek tinha criado um elo de dependência.
A noite passada sem a presença de Hendrik
devia tê-lo privado da dose diária
de atenção, devotamento, esperança
de reciprocidade de afeto. Derek era doente.
Além da dependência química
de drogas tomadas indiscriminadamente, havia
desenvolvido uma necessidade sentimental: Hendrik.
Liz precisava impedir que se estabelecesse a
dependência física. Competir com
Derek pelo amor de Hendrik era desagradável.
Ao mesmo tempo em que tinha certa primazia,
sentia-se em desvantagem. Parecia satisfazer
Hendrik sexualmente, mas só isso. As
conversas interessantes, os jantares diários,
o consumo conivente de drogas e o requintado
jogo de sedução se davam com Derek.
Ser mulher era seu trunfo, e também sua
desgraça.
A
conversa na sala não parecia amistosa.
A voz de Hendrik era tensa, a de Derek, irritada.
Na cama, ela tentava esquecer do esconderijo.
Apanhou uma revista, concentrou-se nas fotografias.
De repente, Derek abriu a porta do quarto.
—
Você... aqui?... — falou, olhos
arregalados, voz chorosa.
—
Tudo bem, Derek? — cumprimentou-o.
Ele
bateu a porta do quarto e esbravejou com Hendrik.
Liz ouvia as lamúrias.
—
Pode sair agora, ele já foi — falou
Hendrik, intranqüilo, abrindo a porta.
—
Eu não tive culpa. Não fiz nada
— justificou-se.
—
Eu sei, eu me descuidei. Ele já devia
estar desconfiando de alguma coisa.
—
Foi melhor assim. Agora ele já sabe sobre
nós dois.
Disse
que precisava ir embora, mas Hendrik pediu que
ela o esperasse tomar banho.
De
volta ao quarto, cabelos molhados, enrolado
na toalha, ele escolhia a roupa que vestiria.
Liz o observava.
—
Eu preciso te contar uma coisa.
—
Estou ouvindo — disse ele, sem olhá-la,
procurando uma camisa.
—
O Leon, o amigo que veio comigo, também
está pensando em morar aqui na Europa...
—
Você já me falou isso.
—
Mas ele não tem a mesma sorte que eu.
Ele não tem um passaporte europeu...
e sem isso ele não vai conseguir ficar
aqui.
—
E o que ele vai fazer? — perguntou, ainda
olhando no armário.
—
Só existe um meio do Leon ficar legalmente
aqui: se eu... me casar com ele.
—
O quê!? Vocês vão se casar?
Você mentiu pra mim! O Derek estava certo!
—
Não é nada disso! O casamento
é uma farsa, eu só estou querendo
ajudar o meu amigo. Sem o dinheiro dele eu não
estaria aqui.
—
Então ele te comprou. Que absurdo!
—
Não, Hendrik. A gente só está
se ajudando.
—
Mas ele está pagando pra casar com você!
Os dois vão ser marido e mulher.
—
É só um acordo, não é
de verdade.
—
É sim! Vocês vão se casar
legalmente, e o casamento é uma coisa
muito importante pra mim. Eu nunca mais vou
transar com você.
—
Mas por quê?!?
—
Porque eu não transo com mulher casada.
Hendrik se obstinava em não entender,
apegava-se à questão como se necessitasse
de motivo forte o bastante para romper com a
situação.
—
Então... está tudo acabado entre
nós? — arriscou ela.
—
Ainda podemos ser amigos.
—
Eu não quero ser sua amiga, eu quero
ser sua mulher.
—
Mas você vai se casar com o seu amigo,
não comigo!
—
E se eu não me casar com o Leon a gente
pode continuar junto?
—
Por que não? Você continua sendo
livre, tão livre quanto eu.
—
Mas eu prometi me casar com o Leon pra ele poder
ficar aqui. Sem isso eu vou ter que devolver
um dinheiro que não tenho.
—
Por que você foi prometer uma coisa dessas?
Devia ter pensado melhor.
—
Eu pensei, muito. Pensei também que você
fosse mais compreensivo...
—
Compreensivo? Eu achei que a gente fosse desenvolver
uma relação e você me diz
que vai se casar com o seu amigo. E ainda quer
que eu seja compreensivo!
Triste,
comprovava que Hendrik pensava apenas em si
mesmo. Belo e cruel, usando a força de
sua presença para destroçar os
que ousavam cruzar seu caminho, ele era a integridade,
a calma sobre a polida armadura da perfeição
estética. Protegido pela indestrutível
aura de beleza, era a imagem do homem tranqüilo,
seguro, superior. Bem-vestido, ele fechou a
porta do armário, buscando-a com o olhar
— não disse uma só palavra.
Fragmentada em incontáveis pedaços,
Liz o seguiu, como se não houvesse outra
coisa a fazer.
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Cada
vez mais sinto que meu lugar não é
aqui. Onde é então? Existirá
local para mim neste mundo? Estarei ajudando Liz
de algum modo? Ela ainda quer me ajudar? Liz só
vê o que lhe interessa. Como sempre, não
está errada. Ainda lhe interesso? Talvez
agora eu não passe de mais um dos problemas
que sempre cria para si própria. Minha
presença... apenas palavra de honra a ser
mantida. Até quando? Por que prometer o
que não se pode cumprir? Sinto-me só.
Nossa amizade é um pretexto para não
nos sentirmos inferiores aos que têm companhia.
A
neve cobriu de branco a cidade. Uniformizou as
cores de todas as superfícies, limpando
de branco as ruas, varrendo de branco as calçadas,
ocultando de branco as esquinas, enobrecendo o
que já era belo por si só. Nessa
manhã, Amsterdam é apenas uma cor.
Branco-paz, branco-pureza, branco-tranqüilidade...
e também branco-tédio, branco-desolamento,
branco-ilusão... Amsterdam, belo cenário
fictício, tranqüilo e purificado pela
força do clima, enganando pacífica
e impiedosamente os olhos desatentos, beleza artificial
exacerbada pela natureza. Tenho olhos adestrados:
encobrir a verdade não a apaga.
Passear,
apreciar o belo, as paisagens irretocáveis,
imagens da perfeição... Começo
a me cansar dessa rotina vazia. Beleza por toda
parte, se impondo a cada instante, não
deixando espaço para mais nada senão
ela mesma... Mas como é efêmera!
Por não dar margem a comparações
perde-se em si própria, deixa de impressionar.
Relembro a primeira vez em que atravessei o Vondelpark:
a paisagem despida pelo inverno, árvores
nuas derramando galhos nas bordas dos lagos congelados,
a superfície da água matizada em
tons de azul contrastando com o branco da neve
caída na noite anterior, aves voando, pousando
e caminhando no azul gelado dos lagos, aléias
ornadas por antigos troncos retorcidos vestidos
apenas pela fina pele musgo, a grama verdejante
brilhando alheia ao frio da estação...
tudo tão perfeito! Menos de uma semana
observando diariamente a mesma cena e eu passava
por ela como cego atravessando um deserto. Com
obstinação, busquei algo com que
me identificar. Nada encontrei. A beleza estava
ali, onipresente, esmagadora, mas inatingível,
patética, nula. Amsterdam, uma das cidades
mais lindas do mundo, conjunto harmonioso, coerente,
inigualável. Tudo tão belo e ao
mesmo tempo tão insípido, tão
estéril. Superficialidade disfarçada
em beleza, estática, embalsamada, morta.
Belíssimo cenário inóspito,
verdadeiro em sua falsidade, eficaz em seu propósito,
transitório em sua fraude.
Preciso
de uma compensação. É enfadonho
ficar em casa limpando, arrumando, lavando...
para quê? Necessito ocupar meus dias ociosos,
mas as tarefas que acabei me impondo nessa prisão
voluntária não aparecem aos olhos
de Liz — nem mesmo aos meus. Tudo inútil.
Sair e fazer compras, pesquisar preços,
cozinhar... mais algumas triviais imposições.
Minha vida aqui, apesar de nova e diversa, é
tão estagnante quanto a que eu levava anteriormente.
Pior, as perspectivas que me cabem não
dependem de mim. Minha vida não me pertence.
Mais
um dia pela frente, menos um dia de vida. Estou
embalsamado como esta cidade morta. Sair à
tarde, passear novamente no parque, ir mais uma
vez ao Centro. De novo olhar vitrines sem poder
gastar. Deslizar com indiferença em meio
a pessoas indiferentes. Estar à margem.
Não há compensação
para certos erros. Esta não é nem
de longe a vida que eu gostaria de ter.
Liz
chegou pouco depois do meio-dia. Estava estranha,
como se quisesse ocultar uma inconformidade
e estivesse inconformada com isso. Seu rosto
risonho traía o discurso revestido pela
animação artificial. Comportamento
suspeito. A exagerada simpatia soava comprometedora,
denunciava uma espécie de culpa. Sempre
que se sentia em falta, ela procurava agradar,
antecipar a compensação por algo
que talvez não fosse bem compreendido
ou aceito. Em tom otimista, contou as inúteis
tentativas de encontrar trabalho. Depois falou
das descobertas que fizera sobre minha permanência
legal no país. Com alívio que
não soube disfarçar, disse que
não era mais necessário nos casarmos,
poderíamos alegar viver em concubinato.
Para tanto, era imprescindível que ela
tivesse um emprego com o qual pudesse sustentar
o casal. Fiquei surpreso com a mudança
de planos, por ser apenas comunicado sobre a
decisão da qual também deveria
ter tomado parte. Liz já havia decidido
tudo. Procurando não parecer descontente,
falei que o concubinato, além de não
me permitir solicitar visto de residência,
ainda me obrigava a morar com ela indefinidamente
— eu não pretendia fincar raízes
na Holanda. Fui brando em meu comentário,
Liz não lhe deu a devida importância.
Por que eu não dizia que não estava
contente com sua escolha, que não estava
satisfeito com nada? Seu empenho em descartar
nosso casamento era óbvio, a hipótese
sempre a tinha incomodado. Talvez agora, reatando
com Hendrik, e tendo revelado nossos planos,
estivesse sendo pressionada por ele. Devia estar
tentando achar um meio termo que satisfizesse
a ambos, mas era impossível agradar a
nós dois ao mesmo tempo. Eu sabia que
era importante para ela não se indispor
com Hendrik. Parecia condenada a ceder sempre
aos pedidos dele — e eu aos dela. Mais
uma vez cedi. Sem alegria, aceitei a alternativa
do concubinato. Mas fiz questão de frisar,
conforme dissera Verônica, que o casamento
legal me daria direito à cidadania européia
no futuro — o que o outro processo não
permitia. Liz nada comentou, não queria
me ouvir. Isso me irritou. Senti vontade de
dizer a verdade que me sufocava. Contive-me.
Precisava de mais tempo. Era necessário
que ela arranjasse emprego primeiro. Só
assim eu poderia ir embora.
Foi
para a cozinha, dizendo-se faminta. Começou
a aquecer a comida feita por mim. Eu tinha perdido
a fome. Aliviada por contar o que lhe incomodava,
relaxada por eu concordar com a nova decisão,
sentiu-se estimulada a continuar falando. Devia
achar que eu tinha interesse em seu reencontro
com Hendrik. Entre uma garfada e outra, contou
os problemas com o namorado. Não me surpreendi
ao saber que não eram poucos. Comia e
desabafava, precisando ser ouvida. Cumpri meu
papel: escutei-a com atenção,
mas fiquei em dúvida se ela buscava um
amigo ou apenas um ouvinte. Deixei a amizade
falar por mim. Emitir opiniões que o
outro não quer ouvir nem sempre é
fácil. Liz pareceu concordar com minhas
colocações, mas, ao mesmo tempo,
eu tinha impressão de que diante de Hendrik
tudo o que conversávamos perdia inteiramente
o valor.
Confessou
que Hendrik lhe dera um ultimato: se nos casássemos
eles não fariam mais sexo. Suspeita confirmada.
Liz não sabe mentir... e mais uma vez
me manipulou, redimindo-se da culpa por ter
revelado a verdade. Talvez não saiba
premeditar, mas joga muito bem. A verdade é
sua arma.
Não
quer mais casar comigo. Também não
quero mais casar com ela. Não foi minha
essa idéia infeliz que tantos problemas
parece criar. Ao me fazer a proposta, Liz devia
ter imaginado que nunca seria verdadeiramente
livre. Devia ter lembrado que precisaria submeter-se
aos caprichos de Hendrik sob pena de perdê-lo.
Situação difícil a dela.
Preciso contar que vou embora. Mas se o fizer
agora Liz vai encarar meu gesto como um contragolpe.
Não posso fazer isso, não ainda.
Eu só queria deixá-la livre. Ser
livre também, sem me sujeitar a humilhações
ou posições ridículas.
Por que tenho de me sentir mal sempre? Não
quero ser causador de maldade alguma. Não
sou ruim... ou sou? Estou cansado de brincar
de casinha, brincar de adulto, brincar de viver...
Depois
do almoço, Liz pensou em lavar algumas
de suas roupas acumuladas há dias no
saco plástico atrás da porta do
quarto. Ocupou toda a cozinha com baldes de
água quente. Não demonstrava a
menor disposição para a tarefa,
só o fazia por necessidade. Quando terminou
de colocar as roupas de molho, sentiu-se cansada.
Disse que ia deitar um pouco. Eu estava habituado
a matar o tempo sozinho, devaneando no apartamento
vazio. Fazê-lo enquanto Liz dormia pareceu-me
constrangedor. Vesti o sobretudo. Fui dar meu
inútil passeio pela cidade.
A
neve havia derretido. Tudo tinha voltado à
beleza original, que já não me
tocava. Senti vontade de fazer algo diferente.
Queria encontrar a outra verdade de Amsterdam,
o lado sórdido. Toda cidade possui misérias.
Não era possível que Amsterdam
não tivesse as suas. Obstinei-me em procurar
o contraste de toda aquela beleza inacessível.
Tinha visto no guia da cidade que Liz comprara
informações sobre um lugar chamado
Bairro da Luz Vermelha. Após tantos passeios
não havia me lembrado de procurá-lo.
O mapa simplificado de Amsterdam, que não
saía do bolso do meu sobretudo, não
indicava a região. Resolvi percorrer
uma parte da cidade que ainda não tinha
visitado: um labirinto de ruelas próximo
ao Centro. Acertei em cheio. Famoso reduto de
prostituição, o Bairro da Luz
Vermelha, em pleno dia, não parecia tão
sinistro como informava o guia, como eu imaginava.
Apesar disso, eu estava intranqüilo. Excitação,
vergonha, medo. Sentia-me entrando numa zona
proibida. As vitrines das sex shops
expunham, com certa crueza, toda a sorte de
apetrechos destinados ao prazer. Algumas lojas
tinham vitrines engraçadas. Outras, exibiam
grandes fotografias pornográficas. Pequenos
clubes de aspecto decadente ostentavam nas fachadas
cartazes com mulheres nuas. Na entrada, funcionários
convidavam os passantes a conhecer o que a casa
oferecia. Precisei usar força para me
desvencilhar de um sujeito que começou
me puxar para o interior de um desses clubes.
Mais adiante passei por ruas onde vitrines expunham
prostitutas. Não consegui evitar que
meu rosto corasse diante das cenas montadas
para excitar. Vergonha em observar, ser observado.
Estava chocado, não pelo que as vitrines
representavam, mas pelo aspecto grotesco da
maioria das mulheres atrás dos vidros,
estranhas jaulas de um zoológico humano.
Feias, acreditavam-se sedutoras, exibindo corpos
deformados pela celulite fantasiados com sumárias
lingeries. Faziam caretas, gestos convidando
os homens a entrar. Muitas obtinham êxito.
Algumas vitrines estavam com as cortinas fechadas.
As prostitutas belas deviam estar ocultas, trabalhado.
Espantoso acreditar que ali, na minha frente,
protegidos apenas pelo tecido atrás do
vidro, casais de desconhecidos entregavam-se
num corpo a corpo de necessidades, físicas
por um lado, econômicas por outro. O prazer
parecia ficar por conta da saciedade desses
dois desejos distintos — arrancado de
um corpo indiferente, subtraído de uma
carteira alheia. Talvez não estivessem
de todo errados. Não seria isso mesmo,
a vida?, o prazer a qualquer custo? Se isso
deixava as pessoas satisfeitas devia ter algum
valor. Não havia com o que se chocar.
Se o sexo não passava de mercadoria,
nada mais justo que estivesse exposto em vitrines
coloridas por néon. Algumas ruas mais
adiante me vi numa área destinada ao
público gay. As vitrines das sex
shops encarregavam-se de classificar e
identificar cada setor da grande feira de sexo.
Numa rua estreita, cheia de lojas de produtos
eróticos e salas de cinema pornô,
somente homens transitavam. Caminhei pela ruela
como se estivesse em outro planeta, maravilhado,
amedrontado. A rua terminava num beco, quase
praça, onde homens e rapazes estavam
de pé, encostados aos postes e muros.
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