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Schinkelhavenstraat.
Tranqüila rua nos fundos do Vondelpark,
ao lado de um longo canal ornado por uma ponte
levadiça, em frente a uma pracinha circundada
por árvores despidas pelo inverno. Rua
pouco comum: curta, estreita, sem saída,
numerada apenas no lado ímpar, onde uma
fileira de prédios antigos ostentava
fachadas unanimemente pintadas de marrom escuro,
sóbrio, solene. Profusão de janelas
e sacadas, todas voltadas para a luz do céu,
revelando a paisagem para o interior dos cômodos,
desvendando as vidas das pessoas por trás
das vidraças. Escuras paredes de tijolos
crivadas de imensos óculos: janelas e
sacadas. Cortinas e persianas, ocasionais ciscos
coloridos por trás das lentes enormes,
bloqueando a luminosidade, o panorama, os segredos
dos moradores. Telhados, lucarnas, mansardas.
Aproveitamento máximo do mínimo
espaço. Número 91, mais que dois
algarismos ímpares na calçada
estreita da curta rua sem saída, um marco:
ponto de chegada, ponto de partida: endereço.
À
luz do dia, o apartamento lhes pareceu melhor.
Satisfeitos, e ainda incrédulos, avaliavam
o lugar. Na sala estreita, revestida por um
velho carpete cinzento, uma porta de vidro se
abria para uma sacada, ladeada por duas janelas
compridas. As paredes brancas e a ausência
de cortinas faziam a luz do sol se refletir
por todo o cômodo. Sobre o console do
aparelho de aquecimento a gás, dois vasos
de plantas raquíticas. No chão,
encostado num canto, um violão. O quarto
possuía duas janelas que iam do teto
até quase o chão, se abrindo para
a varanda nos fundos do edifício. Um
nicho, em uma das paredes, funcionava como micro-armário.
No chão, forrado com o mesmo carpete
da sala, dois colchões de solteiro; uma
bicicleta verde-metálico brilhava solitária
junto à porta. A cozinha não passava
de um corredor ligando a porta de entrada à
varanda nos fundos. Uma pequena pia na bancada,
um armário de parede sobre a pia, um
frigobar sob o gabinete do fogão de quatro
bocas. O banheiro estava dividido em dois diminutos
cômodos: um apenas com o vaso sanitário,
outro, com o chuveiro. Espaços pouco
amplos, mas sob medida para os dois. O único
inconveniente — que não puderam
observar no dia anterior — era a existência
de apenas uma pia no apartamento, a da cozinha.
Riram do fato, sabendo que mesmo que o tivessem
percebido a tempo não teriam desistido
do imóvel.
—
Agora essa é a nossa casa — disse
Liz, sentando no chão da sala.
—
Nada mau pra quem chegou na cidade há
quatro dias — falou Leon, com alívio.
— Eu tive medo que não conseguíssemos.
—
Eu sempre soube que a gente ia conseguir.
—
Acho que só agora eu vou poder relaxar.
Os últimos dias foram tão tensos!...
—
Me sinto estimulada. Estou com vontade de sair
agora mesmo e comprar um monte de coisas pra
deixar esse apartamento com a nossa cara —
disse, erguendo-se do chão.
—
Vai com calma. Também quero arrumar o
lugar, mas temos que economizar.
—
Eu sei, mas precisamos comprar algumas coisas
básicas. Não temos nada!
Ouviram
bater na porta. Liz foi ver quem era.
—
Olá! O meu nome é Niek —
apresentou-se, em inglês. — Eu sou
o senhorio de vocês. Moro no andar de
cima. Sejam bem-vindos.
—
Muito prazer, Niek. Eu sou a Liz, e esse é
o Leon.
Os
dois apertaram a mão do senhorio.
—
Podem contar comigo no que for preciso, inclusive,
quando a mudança de vocês chegar...
—
Ela já está aqui — disse
Liz, interrompendo Niek e apontando a bagagem
no chão.
—
Entendo... — falou, sem graça.
— Então vocês vão
precisar de algumas coisas. Esperem um minuto,
eu volto já.
Sem
demorar quase nada, Niek retornou trazendo duas
cadeiras empilháveis, uma luminária,
um aparelho de som portátil com fitas
cassete, copos e canecas.
—
Não precisava se incomodar, nós
não queríamos dar trabalho —
disse Liz. — Essas coisas não vão
te fazer falta?
—
Não. Eu também sou dono do apartamento
térreo, que está mobiliado, e
sempre tenho algumas coisas sobrando.
—
Muito obrigada, Niek — disse ela, entregando
louça e talheres a Leon.
—
O seu amigo não é muito falante
— comentou Niek, referindo-se a Leon.
—
Ele não fala inglês — explicou
—, só português e francês.
—
Eu falo um pouco de francês — disse.
E dirigindo-se a Leon no idioma: — Como
vai?
—
Bem, Niek, obrigado. Bom você falar francês,
assim eu posso praticar.
Niek
o olhou como se não o houvesse entendido.
Sorriu apenas.
—
Bom, eu preciso ir. Qualquer coisa, é
só me chamar — falou, voltando
a usar o inglês, encaminhado-se para a
saída. — Depois eu venho buscar
a minha bicicleta.
—
Não vai levar o seu violão? —
perguntou Liz, apontando o instrumento.
—
Ele era da inquilina anterior. Podem ficar com
ele. Tenham um bom dia!
—
Obrigada. Bom dia pra você também!
— falou ela, fechando a porta.
A
ajuda de Niek havia sido pequena. Enquanto Liz
fazia uma lista de compras apenas com o essencial,
Leon convertia o valor dos cheques de viagem
em gulden. Ela não escondia
a ansiedade em comprar, ele insistia em fazer
contas para saber quanto poderiam gastar. Num
ponto concordavam: era importante guardar o
suficiente para os próximos três
meses do aluguel — já que o depósito
feito na assinatura do contrato poderia ser
usado no pagamento dos últimos dois meses.
Liz
estava alegre, sentir-se ocupada fazia-lhe bem.
Com a ajuda da maconha tailandesa quase não
precisava se esforçar para não
pensar no que não queria. Nada como um
“medicamento” eficaz. Concentrada
no presente, limitava-se a olhar ao seu redor:
gostava do prédio antigo para onde acabara
de se mudar, achava ótima a localização
junto ao parque, calma e discreta a vizinhança.
Bom ver o contentamento de Leon, agora relaxado,
descobrindo a cidade. Pela primeira vez, desde
que haviam chegado, caminhavam despreocupados
pelas ruas, apreciando vitrines, tentando ler
placas, comentando a arquitetura... No passeio
pelo bairro, avaliavam transporte, comércio,
lazer. Entusiasmada, Liz comprou louça,
panelas, talheres, e um punhado de quinquilharias
necessárias.
À
tarde foram ao centro da cidade. De Bijenkorf,
Hema, Vroom & Dreesman... uma infinidade
de lojas com nomes estranhos. Acharam as roupas
muito caras. Mas precisavam se proteger do frio,
o inverno duraria um mês e meio pelo menos,
um bom sobretudo era peça indispensável.
Depois de muita procura, acabaram se rendendo
aos preços de uma loja popular. Liz encontrou
um sobretudo marrom com o forro descosturado
junto à bainha — o “defeito”
na peça havai reduzido seu preço
a menos da metade. Leon teve dificuldade em
achar um sobretudo barato. Escolheu um de cor
cinza que, depois de pago, foi imediatamente
substituído pelo outro que vestia, doado
por Verônica.
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Primeira
noite em nosso apartamento. Nosso... esse plural
nunca me soou tão estranho — é
como se não me dissesse respeito. Estamos
frente a frente, em nossa sala nua, junto ao nosso
velho aquecedor a gás, sentados em nossas
cadeiras emprestadas. Estou cansado, mas não
tenho sono. Liz parece sentir o mesmo. Sua mudança
de comportamento me intriga. Está animada,
contente, eu poderia até dizer feliz. Não
voltou a tocar no nome de Hendrik. Inacreditável.
Como conseguiu se livrar tão depressa desse
mal? Por que não conversamos mais? Ainda
dialogamos amigavelmente, mas não é
conversa íntima, profunda, como as que
tínhamos em outros tempos. Tudo mudou.
Preciso me lembrar disso a cada instante. Inútil
alimentar-me do passado. Sinto vontade de perguntar
sobre Hendrik, mas receio que isso a desagrade
ou traga à tona o que já parece
extinto.
Ela
não quer conversar. Falta de assunto? Eu
teria motivos de sobra para entrar pela madrugada
falando, perguntando, ouvindo... Só não
o faço por pressentir que não haverá
eco. Não gosto de monologar com Liz. O
silêncio a incomoda, talvez agora mais do
que nunca. Apanhou um dos CDs
que trouxe e o colocou no aparelho de som que
Niek nos cedeu. Ato que torna clara sua intenção.
A música brasileira começa a preencher
o ambiente iluminado pela luminária também
emprestada. Sem cortinas, as janelas, a porta
de vidro trazem a noite escura para dentro da
sala. Do lado de fora faz frio, quase ninguém
se atreve a enfrentá-lo. O vento balança
os galhos das árvores nuas. O canal, a
ponte, a rua, a pracinha... estão praticamente
desertos, apenas um ciclista, um pedestre de vez
em quando. Sentado na cadeira junto à janela
observo a noite. Sentada no chão, recostada
na parede, Liz canta baixinho junto com o intérprete.
Ela tem uma bela voz. Subitamente, a música
estaca, o cantor repete a mesma sílaba
enquanto os instrumentos insistem na mesma nota.
Entreolhamo-nos. Liz avança para a música
seguinte, que pouco depois recomeça a gaguejar.
Nova música, tudo se repete. Outro CD,
o mesmo sintoma. Rimos do aparelho de som com
defeito. Ela o desliga. Pega o violão.
Dedilha as cordas desafinadas. Recoloca-o no lugar.
Está inquieta. Tenho impressão de
que necessita manter-se ocupada a qualquer custo.
De
repente, fala que vai me dar aulas de inglês.
Afirma que, no meu caso, é importante ter
noções básicas. Realmente
meus conhecimentos do idioma são rudimentares,
seria proveitoso saber mais, no entanto, não
tenho ânimo para aula particular agora,
nem depois. Não sinto vontade de aprender
uma língua provisória que me ajude
a entender o que o ensino de outro idioma, menos
útil ainda, não permite. Antes da
viagem tentamos estudar holandês: não
passei da primeira aula. Relutava em aprender?
Talvez me recusasse a perder tempo. Por mais que
me empenhasse, não conseguia me imaginar
falando fluentemente a língua mais popular
do mundo, tampouco a outra, insignificante. Para
viver bem numa cidade é necessário
integrar-se a ela. Também não me
via como cidadão local, trabalhando, me
divertindo, vivendo uma escolha feita por Liz.
Não, eu decidi vir, poderia ter recusado.
Preciso assumir minhas responsabilidades. Não
voltamos mais a tocar em nosso casamento, meu
salvo-conduto. Talvez, somente depois de resolvida
essa questão eu consiga enxergar meu porvir
com olhos menos severos. Por enquanto, Liz ocupa-se
apenas consigo mesma, tem prioridade. Estaria
sendo injusto e ingrato pensando de outra forma.
Nos últimos dias, antes de nos mudarmos,
não cessou de procurar órgãos
oficiais, buscar informações, enfrentar
filas, cadastrar-se aqui, registrar-se ali...
ser cidadã européia implicava um
mundo de papéis a assinar. Com a mesma
determinação, procurou agências
de emprego, fez entrevistas, preencheu formulários,
deixou currículos... Sou egoísta.
Não consigo olhar meu futuro porque o presente
me apavora. Nosso casamento: uma promessa, uma
possibilidade, minha única chance... vínculo
legal, precária garantia de segurança
que nada assegura, nada garante.
Liz
me olha. Acabou de me chamar novamente para perto
dela. Aproximo-me. Escreve as lições
no meu caderno de notas. Está tão
entusiasmada em ser útil que me enterneço.
Preciso mentir, estou me tornando perito nisso.
Sentado ao seu lado, me esforço em prestar
atenção nas palavras. Escreveu a
conjugação dos verbos básicos
no presente. Enrolo a língua na tentativa
de reproduzir os sons que ela pronuncia tão
naturalmente. Escreveu frases fáceis, que
tenho de ler e traduzir. Concentro-me e sigo adiante.
Ela me parabeniza, se anima ainda mais. Frases
mais difíceis, perguntas, respostas afirmativas
e negativas. Cometo o erro de tentar ser um aluno
aplicado. Uso do auxiliar no passado, presente
e futuro, infinitivo... Sou um canalha. Terminada
a aula, fechado o caderno, não me lembro
de coisa alguma.
A
primeira noite no apartamento foi quase insone.
Como o quarto se mostrou uma câmara frigorífica,
arrastamos os colchões para a sala, bem
em frente ao aquecedor — incapaz de esquentar
todo o apartamento. Havíamos esquecido
de comprar roupa de cama e edredons: falha grave.
Liz girou o controle do aquecedor até o
ponto máximo, as chamas ficaram intensas,
o aparelho começou a chiar, parecia entupido.
Vestimos casacos e deitamos o mais próximo
possível do calor barulhento. Tremendo
de frio, virei de um lado a outro a noite inteira,
tentando encontrar uma posição confortável,
sem sucesso. Como era possível fazer tanto
frio no cômodo fechado com o aquecedor no
máximo? Liz, no colchão ao lado,
tremeu e se movimentou tanto quanto eu.
Telefonar
para casa: mentir. Falsas satisfações
a dar à outra ponta do cordão
umbilical que atravessava o Atlântico.
As mentiras tranqüilizadoras que eu dizia
não me incomodavam: acreditava nelas,
era questão de tempo fazer com que se
tornassem verdades. Revestia minha voz com animação
projetada nesse provável futuro iminente,
sustentando minhas frases com firmeza. Sim,
estávamos bem, Liz trabalhava num ótimo
lugar, tínhamos um apartamento agradável...
Quando eu teria emprego? Antes precisava me
casar com Liz. Sim, estávamos dando entrada
na papelada, muita burocracia. Sim, a cidade
era linda, o inverno não era rigoroso.
Nós tínhamos sorte.
Liz
sempre sofria nessas ocasiões. Mentir
a torturava. Ocultando a verdade desde quando
estávamos no Brasil, cada vez que falava
com a mãe aumentava seu sentimento de
culpa. Eu tentava tranqüilizá-la
dizendo que era melhor poupar nossos familiares
de preocupações inúteis,
mas isso não a consolava.
Próximo
ao apartamento, do outro lado do canal, havia
um supermercado que, segundo Liz, para nossa
sorte, tinha preços populares. A fria
manhã de sábado, iluminada pelo
sol brilhante no céu sem nuvens, tinha
atraído muitos consumidores. O lugar
parecia pequeno para tanta gente.
Deixamos
o supermercado carregados. Abastecemos o frigobar
e o armário da cozinha. Almoçamos
uma macarronada instantânea que Liz preparou
em poucos minutos.
À
tarde fomos ao Centro comprar edredons. Na loja
de departamentos, a roupa de cama estava barata,
mas os edredons, muito caros. Gasto necessário.
Na
volta para casa, descendo do bonde, Liz disse
que precisava comprar maconha. Eu não
me importava com o uso regular que ela vinha
fazendo das ervas, já que isso a deixava
tranqüila, mas temia que uma certa dependência
estivesse se desenvolvendo. Peguei a sacola
dela e segui para o apartamento.
Chegou
meio eufórica. Além da maconha,
trazia pacotinhos de cogumelos, exibindo-os
como um prêmio.
—
Mas logo você, que detesta chá!?
— ironizei.
—
Quem disse que cogumelos só servem pra
chá? Eles também podem ser comidos,
sabia?
—
Você precisa mesmo disso?
—
Eu quero experimentar coisas novas. Você
não tem vontade de conhecer outros mundos?
—
Esse aqui já me parece grande o bastante.
—
Você não sabe o que está
perdendo — disse, abrindo um dos pacotes.
Talvez
a maconha não estivesse mais surtindo
efeito. A cura milagrosa que eu julgava ter
ocorrido fora realmente obtida por meio daqueles
cigarros artesanais? Então a cura não
passava de farsa alimentada por um desejo a
ser sustentado indefinidamente.
—
Eu vou traduzir o que diz o folheto —
falou, como se eu tivesse pedido. — Cogumelos
frescos, Psilocybe tampanensis. Efeitos:
dependendo da quantidade consumida, os cogumelos
provocam sensações que vão
de uma ligeira vertigem até uma forte
“viagem”. Importante: sempre consuma
os cogumelos de estômago vazio, em local
aconchegante... Droga!, quanto tempo faz que
a gente almoçou?
—
Umas duas horas mais ou menos. A digestão
já deve estar acabando.
—
O efeito começa 45 minutos após
a ingestão e pode durar, dependendo da
quantidade, de 3 a 8 horas.
—
Acho que vai demorar pra sua viagem começar
— falei, querendo rir.
Olhou-me
sem responder. Continuou a ler.
—
Dica: pode-se acelerar os efeitos preparando-se
um chá com os cogumelos.
—
Viagem rápida só com chazinho
ruim — debochei.
—
Ferva a água. Abaixe o fogo e acrescente
os cogumelos, deixando-os em infusão
de 15 a 30 minutos. Durante esse tempo, certifique-se
de que a água não volte a ferver.
—
Que trabalheira! Tem certeza que vale o esforço?
— perguntei, não contendo o riso.
Liz
não achou graça. Lendo em voz
alta parecia declarar guerra contra mim.
—
Por último, adicione seu chá favorito
para dar melhor sabor à infusão
de cogumelos.
—
O seu chá favorito! — explodi numa
gargalhada. — Isso deve ter um gosto horrível!
—
Não use açúcar, assim você
poderá comer os cogumelos para acentuar
seus efeitos.
Eu
ria de me torcer. E quanto mais ria, mais Liz
se irritava, mais seu rosto se contraía.
—
Os cogumelos podem modificar a percepção
do tempo e espaço, tudo ao redor pode
parecer diferente. O humor pode ser afetado
tanto positiva quanto negativamente, dependendo
de como você estiver antes de consumi-los.
Lembranças antigas podem ocorrer alguns
dias mais tarde. Advertência: em pessoas
alérgicas os cogumelos podem causar danos
irreversíveis. Não está
descartada a hipótese de parada cardíaca.
Parei
de rir. Aquilo não tinha a menor graça.
Como saber os efeitos daquele veneno? O folheto
era vago com seus “pode ser, pode parecer,
pode causar...”, tudo era possível.
—
Onde você guardou a panela que a gente
comprou ontem? — indagou, vasculhando
o armário da cozinha.
—
Você vai mesmo tomar isso? — perguntei,
surpreso. — E se você for alérgica,
e se passar mal? Como eu vou te levar pro hospital?,
nem sei onde fica!
—
Não seja ridículo — troçou,
rindo com vontade. — Não vai acontecer
nada disso.
Achou
a panela. Colocou água para ferver. Vingava-se
de mim, cantarolando.
—
Você é uma egoísta! Só
pensa em si mesma, no seu prazer e alucinações!
— atirei.
—
E você é um medroso, desagradável
e irritante... tão egoísta quanto
eu! — retrucou. — Mas não
se incomode, eu vou tomar o chá e sair
pra morrer bem longe.
—
Não precisa se dar a esse trabalho, já
estou saindo do seu apartamento. Quando
eu voltar, se você estiver morta, eu pego
a minha mala e vou embora. — falei, apanhando
o sobretudo, não lhe dando tempo de réplica
e batendo a porta.
Tremia
de frio, de ódio. Lágrimas de
inconformismo desciam pelo meu rosto contrariado.
Menos de uma semana na cidade, nossa primeira
briga. Quem era a louca que habitava o mesmo
apartamento que eu? Nosso apartamento... Não,
nosso não, dela: o contrato
de aluguel estava em seu nome, eu só
tinha colaborado com o dinheiro.
Ela
não pensava nem um pouco em mim. Todos
somos egoístas. Liz estava certa: tinha
direito de fazer o que desejava. Eu a estava
atrapalhando, impedindo-a de viver livremente
a vida que escolhera. Ela devia ter pensado
nisso quando me fez o convite. Eu também,
quando o aceitei. E minha vida, o que era? Atos
e gestos condicionados à vida de Liz?
Desejos e esperanças atrelados às
vontades e humores dela? Uma marionete movida
pelos fios da amizade num instante de interesse,
necessidade. Eu não tinha direitos. Minha
utilidade... temporária, descartável.
Minha liberdade... ilusória, impossível.
Meus
passos decididos não levavam a lugar
nenhum. Na tarde cinzenta, o saibro dos caminhos
do Vondelpark rangia sob meus pés, mas
era como se eu mesmo estivesse sendo esmagado.
Andar, andar, andar. Pensar, pensar, pensar.
Sofrer, sofrer, sofrer. Até quando? Uma
pergunta não cessava de atravessar minha
mente: o que estou fazendo aqui? A resposta
se fragmentava ao imaginá-la. Eu só
queria ser feliz, transformar aquele patético
clichê numa realidade sensível.
Mas por que eu? Quem disse que eu tinha direito
ao amor, à alegria, ao prazer? E por
que não eu? Havia alguma lei que me condenasse
à infelicidade? Andar, pensar, sofrer...
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Por
que havia feito aquela brincadeira de mau-gosto?
Só por Leon se divertir às custas
dela?, por ele rir alegremente como há
muito não fazia?, como ela mesma era incapaz?
Não devia ter inventado a advertência
sobre os cogumelos. Leon acreditara em suas palavras
estúpidas.
Intragável,
a infusão de cogumelos. Apanhou a caixa
de chás. Colocou um dos sachês na
mistura fumegante. Após alguns minutos
tornou a provar a bebida. Gosto ainda pior. Irritou-se.
Além do dinheiro gasto, do tempo perdido,
do desentendimento inútil se via privada
de novas sensações. “Não,
não e não! Chega de desperdícios!”,
pensou, revoltada. Prendeu o nariz com os dedos
e engoliu de uma só vez o líquido
escuro da caneca. Na sala, sentou na cadeira e
esperou. Ao fim de 20 minutos, além do
amargor na boca, nenhuma reação.
Paredes, janelas, paisagem, tudo continuava igual.
Sentiu-se tola, sozinha no apartamento vazio,
esperando os efeitos mágicos da bebida
ruim, enquanto Leon estava lá fora preocupado
com ela.
Vestiu
o sobretudo e saiu. Como encontrá-lo? Não
fazia idéia de onde Leon poderia estar.
Queria falar com alguém, dizer que tudo
tinha sido brincadeira, mostrar que estava bem.
Comprou um cartão telefônico, ligou
para Daniel. Do outro lado da linha, o amigo mostrou-se
contente por receber notícias:
—
Que bom que você ligou! Como vão
as coisas? — perguntou ele.
—
Nós alugamos um apartamento. Eu briguei
com o Leon. E bebi uma droga de chá de
cogumelo que não serviu pra nada.
—
Liz, você está bem?
—
Um pouco irritada comigo mesma, mas eu estou bem.
—
Por que vocês brigaram?
—
O Leon pensou que os cogumelos fossem me fazer
mal. Teve medo que eu morresse...
—
Liz, vai com calma. Deve ser uma tentação
ter um monte de coisa pra experimentar, mas vocês
precisam um do outro. Brigar não é
legal.
—
Às vezes ele me irrita. Me sinto vigiada
o tempo todo.
—
Conviver é complicado. Já pensou
como esse começo deve estar sendo difícil
pro Leon também?
—
Agora eu tenho mais responsabilidades que antes
— queixou-se.
—
Tenta pensar que isso é só uma fase,
logo vocês vão ter uma vida bem legal.
Ah!, e o Hendrik? Já encontrou com ele?
—
O quê? — perguntou ela, como se nunca
tivesse ouvido aquele nome.
—
Você está me ouvindo bem? Eu perguntei
sobre o Hendrik.
—
Danny, a ligação está terminando.
Dá um beijo na Sílvia. Eu vou escrever
mandando o endereço daqui e contando algumas
coisas. Tchau!
Durante
alguns dias havia conseguido ludibriar o misto
de sensações incômodas convergindo
para um único ponto: Hendrik. Aquele nome,
dito tão naturalmente por Daniel, a despertara
do esquecimento deliberado, e agora ecoava em
sua mente. Uma ligeira vertigem a fez sentar no
banco mais próximo. Efeito tardio dos cogumelos?
Não, estava mais lúcida do que nunca.
Como
se tivesse acabado de deixar o apartamento de
Derek no primeiro dia na cidade, tentou compreender
o sentimento que parecia uni-la àquele
ser complexo e contraditório. Hendrik.
Apenas fixação? Fundamentada em
quê? Em imagens esbatidas de sonhos recorrentes
que agora adquiriam significado? Na projeção
de homem ideal, perfeição estética
materializada em pessoa de carne e osso? Na sedução
de uma figura misteriosa, envolta em segredos,
que parecia necessitar de ajuda que apenas ela
podia conceder? Na atração sexual
por um corpo desejável, mera satisfação
física? Que vontade repentina era aquela
de estar junto dele, olhando-o, falando com ele,
tocando-o, possuindo-o?... Amor? Paixão?
Doença?
Por
que as pessoas prometiam coisas que não
podiam cumprir? Prometer: quase sempre sinônimo
de iludir, enganar, trair... ou desapontar, frustrar,
entristecer... Pensar de forma fria e dura talvez
ajudasse, mas não resolvia a questão
mal esclarecida, em suspenso. Não, tinha
direito a uma explicação, isso não
lhe podia ser negado.
Tocou
a campainha e esperou. Achou que ficaria nervosa,
mas estava tranqüila. A voz de Hendrik
ecoou sonolenta no interfone, dizendo algo em
holandês que ela não entendeu e
o nome de Derek. Sem que Liz tivesse tempo de
falar, a porta do prédio foi destravada.
Subiu as escadas. Abriu a porta encostada. Plexus
e Nexus, dois gatos enormes, a receberam amistosamente.
Onde estava Sexus? Ao lado da porta, um cesto
de roupa suja — o que fazia ali, em local
tão inadequado? Observando atentamente,
notou o apartamento descuidado — algo
inconcebível tratando-se de Hendrik.
Deteve-se por um instante acariciando os gatos.
Hendrik saiu do lavabo vestindo apenas uma pantalona
de seda vermelha. Ficou lívido ao deparar
com ela no meio da sala.
—
Você!... — falou, como se visse
um fantasma. — Achei que fosse o Derek...
—
Desculpa eu ter vindo sem ser convidada. Eu
pretendia me anunciar.
Hendrik
parecia constrangido com a presença inesperada,
sem saber como agir: braços e mãos
buscavam lugar que não denunciasse desconforto,
pés e pernas mostravam-se vacilantes,
os olhos fugiam do confronto, os lábios
não encontravam o que dizer. Liz sentiu-se
superior, e seu silêncio obrigou-o a falar:
—
O Derek me disse que você estava na cidade...
Eu queria te procurar, mas você não
deixou o seu endereço...
—
Eu estou aqui agora.
Fixou
o olhar em Hendrik esperando ele continuar.
Intimidado, ele a observava, sem jeito.
—
Você disse que ia me procurar... —
tornou ela, diante do mutismo dele — Tem
alguma coisa pra me dizer?
—
Eu pensei que você não viesse mais,
achei que tivesse desistido.
—
Eu nunca disse que não ia vir. Estive
me esforçando todo o tempo pra voltar.
—
Mas você demorou muito...
—
Não faz quatro meses que a gente se viu
pela última vez. Não é
tanto tempo assim.
—
Você demorou demais...
—
E isso significa que eu não devia ter
voltado. Por que você não me disse
nada?
—
Eu liguei pra sua casa várias vezes!
Você nunca estava. Eu sempre falava com
o seu pai...
—
Impossível. O meu pai não fala
inglês. Por que você mente sempre?
—
Mas eu não estou mentindo... eu... eu...
—
Está sim! Você mente o tempo todo!
—
Eu... eu... Está bem. Eu não falei
com o seu pai, mas telefonei pra casa da sua
amiga. Ela disse que você ia esperar a
minha ligação, mas quando eu telefonei
de novo ninguém atendeu.
Sua
tranqüilidade cedera lugar à irritação.
Olhava o belo homem, menino travesso, dizendo
mentiras, e tudo o que queria era abraçar
seu corpo, beijar sua boca. Raiva de Hendrik,
ódio de si mesma. Por que ele não
dizia que tudo era brincadeira? Por que ela
não o agarrava? Quanto mais raiva sentia,
maior o desejo.
—
Você mente sempre! — repetiu, irritada.
— Por que se escondeu quando eu estive
no apartamento do Derek?
—
Mas eu não estava no banheiro! Eu não
estava lá!
—
Mentiroso!, acabou de confessar! — gritou,
agarrando-o pelos ombros, sacudindo-o com força.
Hendrik não esboçou reação.
O toque na pele dele, a proximidade entre os
corpos, as bocas separadas por centímetros,
o olhar de assombro do garoto idiota que não
sabia mentir, o perfume dele... uma onda de
calor subiu ao rosto de Liz. Quase fez o que
não devia.
—
Desculpa — falou, soltando-o. —
Acho que exagerei.
Tirou
o sobretudo, sentou no sofá, envergonhada
pela quase agressão, pelo quase beijo.
—
Não, você está certa. Eu
estava no apartamento do Derek, sim —
admitiu, sentando ao lado dela. — Eu me
comportei mal, mas não esperava que você
voltasse. Fiquei sem saber o que fazer, com
medo de uma responsabilidade grande demais pra
mim. Já havia passado tanto tempo, tantas
coisas tinham acontecido...
—
Você não gosta mais de mim? Existe
outra pessoa?
—
Não existe ninguém, mas eu estou
confuso. Agora que você está aqui
eu me sinto estranho, é como se o tempo
não tivesse passado, mas ele passou.
Eu gosto de você, mas não sei se
estou preparado pra assumir esse tipo de vida.
—
Você pensava diferente quando a gente
se falava por telefone.
—
Eu sentia a sua falta. Tinha me acostumado com
você...
“Tinha
se acostumado...” Agora estava confuso.
A mão dela acariciou a face dele, deslizando
até sua boca.
—
Não fala mais nada — pediu. —
Eu amo você, por isso voltei. Eu quero
muito desenvolver a nossa relação,
mas não posso exigir que você me
ame e não quero impor a minha presença.
Talvez você precise de um tempo pra se
acostumar, pensar melhor nas coisas. Eu não
estou te pedindo pra assumir responsabilidade
alguma, eu nunca te pedi isso.
Levantou
e foi até a estante. Encontrou um caderno,
anotou seu endereço.
—
Meu endereço. Se quiser me procurar...
— disse, recolocando o bloco no lugar.
Apanhou
o sobretudo, começou a vesti-lo. Encaminhou-se
para a cozinha.
—
Eu posso beber alguma coisa? — perguntou,
abrindo a geladeira. Surpreendeu-se ao verificá-la
vazia, desligada.
—
Eu estou guardando a minha comida na casa do
Derek — explicou ele. — Estamos
dividindo tudo. Fazemos as compras de supermercado
juntos e o Derek guarda e controla os mantimentos.
Assim é mais econômico pra nós
dois. Eu tenho feito as refeições
no apartamento dele. Nem roupa lavo mais aqui
— acrescentou, apontando o cesto junto
à porta.
Mais
que surpresa, Liz ficou intrigada. As coisas
tinham mudado bastante nos últimos meses.
Não conseguiu entender a finalidade da
divisão que beneficiava mais um do que
outro. Derek havia ampliado bastante seus domínios.
Manipulava Hendrik. Estava interessado nele
e arquitetara um plano para enredá-lo.
Tinham um caso. Por isso Hendrik estava confuso,
devia estar dividido. De repente, lhe ocorreu
que Derek há muito vinha tentando conquistar
Hendrik. Lembrou dos jantares quase diários
no apartamento dele, logo depois de conhecê-los;
o jogo de sedução que se estabelecia;
a excitação nos olhos de Derek;
as saídas estratégicas de Hendrik,
levando-a pela mão, quando o outro parecia
não se conter; o fogo com que ele, em
seguida, a possuía na cama, janelas abertas
em direção ao apartamento de Derek...
Ela não devia passar de uma terrível
ameaça à preciosa conquista de
Derek. Quem garantia que não tinha sido
ele, com intrigas, o responsável pela
indecisão de Hendrik, a ausência
de notícias, a mudança de planos?
—
E se você sente fome à noite, como
faz? — indagou ela.
—
Eu passo a maior parte do tempo no apartamento
do Derek. Só venho aqui mesmo pra dormir
e dar comida aos gatos — disse, ingenuamente.
— O Derek tem sido um verdadeiro amigo.
Ele me dá ótimos conselhos.
“Como,
por exemplo, esquecer de mim”, pensou
ela. Tudo lhe pareceu evidente. Teve pena de
Hendrik. Será que ele não percebia
o outro dominando a situação?
Hendrik
lhe ofereceu água da torneira. Bebeu
de um trago a água salobra.
—
Você e Derek estão tendo um caso?
— perguntou, abruptamente.
—
O quê?! — falou, surpreso, como
se não acreditasse na pergunta.
—
Você sabe que ele te ama, não?
— jogou.
—
Quem te disse isso?
—
Ele mesmo — mentiu. — Vocês
estão juntos?
—
Claro que não. Eu gosto muito do Derek,
ele disse que sentia atração por
mim, mas não estamos namorando. Somos
apenas amigos. Dividimos despesas e momentos
solitários.
Em
quê acreditar? Tudo o que se relacionava
a Hendrik parecia associado a um monte de mentiras.
Derek. Ele também mentia, dissimulava,
enganava.
—
Eu preciso ir — disse ela.
—
Não pode ficar mais um pouco?
“Pra
continuar ouvindo o que não quero?”,
pensou, antes de responder:
—
Não, eu tenho que ir. Estou preocupada
com o Leon.
—
Lion? Você trouxe um bichinho de estimação?
—
Não é Lion, é Leon —
corrigiu-o. — É um amigo que veio
junto comigo.
—
Amigo? Eu achei que você tivesse vindo
sozinha.
—
O Leon é o amigo com quem eu viajei pra
vender as estampas. Eu falei dele nas cartas.
—
E o que ele veio fazer aqui?
—
Veio tentar mudar de vida, como eu.
—
O Derek me disse que vocês dois deviam
estar juntos...
—
Eu e Leon somos amigos há mais de 15
anos! De onde o Derek tirou essa idéia?
E como ele sabia do Leon?
—
Eu mostrei a ele as cartas que você me
mandou.
—
Por quê?! As cartas eram pra você!
Havia assuntos que deviam ficar só entre
nós!...
Suspeitas
que se concretizavam. Ciente do conteúdo
das cartas, Derek devia ter feito campanha contra
ela. Que outras deformações ele
teria inventado? Tudo o que dissera e escrevera
a Hendrik nos últimos meses tinha sido
distorcido, deturpado. Como reverter a situação?
—
Hendrik, o Leon e eu somos apenas amigos, assim
como você e o Derek. Só isso.
—
Mas vocês estão morando juntos,
não?
—
Estamos dividindo as despesas. Sem isso a gente
não ia conseguir ficar aqui.
Os
argumentos que usava em seu favor eram semelhantes
aos de Hendrik. Circunstâncias distintas,
mas recriminar Derek seria o mesmo que se incriminar.
Precisava ter cautela.
—
Eu estou indo — falou ela. — Pensa
com carinho no que eu disse. Se quiser me procurar,
já sabe onde me encontrar.
Beijou
os lábios de Hendrik. Encaminhou-se para
a porta e saiu sem olhar para trás.
Aquela
história ainda não tinha terminado.
Uma louca esperança renascia em seu coração.
Não fazia sentido tudo acabar de forma
tão estúpida. Não seria
justo. Justiça. Algo muito errado havia
naquilo: Derek. Agora era ele quem a ameaçava.
Precisava limpar sua imagem denegrida.
Espantou-se
com o sentimento maternal que aflorava junto
com a esperança. Hendrik não passava
de uma criança grande, seu filho mais
velho, um adulto que crescera depressa demais
e que, no meio daquele conjunto de sentimentos
complexos, conservara intactas inocência
e pureza tocantes.
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