Schinkelhavenstraat. Tranqüila rua nos fundos do Vondelpark, ao lado de um longo canal ornado por uma ponte levadiça, em frente a uma pracinha circundada por árvores despidas pelo inverno. Rua pouco comum: curta, estreita, sem saída, numerada apenas no lado ímpar, onde uma fileira de prédios antigos ostentava fachadas unanimemente pintadas de marrom escuro, sóbrio, solene. Profusão de janelas e sacadas, todas voltadas para a luz do céu, revelando a paisagem para o interior dos cômodos, desvendando as vidas das pessoas por trás das vidraças. Escuras paredes de tijolos crivadas de imensos óculos: janelas e sacadas. Cortinas e persianas, ocasionais ciscos coloridos por trás das lentes enormes, bloqueando a luminosidade, o panorama, os segredos dos moradores. Telhados, lucarnas, mansardas. Aproveitamento máximo do mínimo espaço. Número 91, mais que dois algarismos ímpares na calçada estreita da curta rua sem saída, um marco: ponto de chegada, ponto de partida: endereço.

            À luz do dia, o apartamento lhes pareceu melhor. Satisfeitos, e ainda incrédulos, avaliavam o lugar. Na sala estreita, revestida por um velho carpete cinzento, uma porta de vidro se abria para uma sacada, ladeada por duas janelas compridas. As paredes brancas e a ausência de cortinas faziam a luz do sol se refletir por todo o cômodo. Sobre o console do aparelho de aquecimento a gás, dois vasos de plantas raquíticas. No chão, encostado num canto, um violão. O quarto possuía duas janelas que iam do teto até quase o chão, se abrindo para a varanda nos fundos do edifício. Um nicho, em uma das paredes, funcionava como micro-armário. No chão, forrado com o mesmo carpete da sala, dois colchões de solteiro; uma bicicleta verde-metálico brilhava solitária junto à porta. A cozinha não passava de um corredor ligando a porta de entrada à varanda nos fundos. Uma pequena pia na bancada, um armário de parede sobre a pia, um frigobar sob o gabinete do fogão de quatro bocas. O banheiro estava dividido em dois diminutos cômodos: um apenas com o vaso sanitário, outro, com o chuveiro. Espaços pouco amplos, mas sob medida para os dois. O único inconveniente — que não puderam observar no dia anterior — era a existência de apenas uma pia no apartamento, a da cozinha. Riram do fato, sabendo que mesmo que o tivessem percebido a tempo não teriam desistido do imóvel.
            — Agora essa é a nossa casa — disse Liz, sentando no chão da sala.
            — Nada mau pra quem chegou na cidade há quatro dias — falou Leon, com alívio. — Eu tive medo que não conseguíssemos.
            — Eu sempre soube que a gente ia conseguir.
            — Acho que só agora eu vou poder relaxar. Os últimos dias foram tão tensos!...
            — Me sinto estimulada. Estou com vontade de sair agora mesmo e comprar um monte de coisas pra deixar esse apartamento com a nossa cara — disse, erguendo-se do chão.
            — Vai com calma. Também quero arrumar o lugar, mas temos que economizar.
            — Eu sei, mas precisamos comprar algumas coisas básicas. Não temos nada!
            Ouviram bater na porta. Liz foi ver quem era.
            — Olá! O meu nome é Niek — apresentou-se, em inglês. — Eu sou o senhorio de vocês. Moro no andar de cima. Sejam bem-vindos.
            — Muito prazer, Niek. Eu sou a Liz, e esse é o Leon.
            Os dois apertaram a mão do senhorio.
            — Podem contar comigo no que for preciso, inclusive, quando a mudança de vocês chegar...
            — Ela já está aqui — disse Liz, interrompendo Niek e apontando a bagagem no chão.
            — Entendo... — falou, sem graça. — Então vocês vão precisar de algumas coisas. Esperem um minuto, eu volto já.
            Sem demorar quase nada, Niek retornou trazendo duas cadeiras empilháveis, uma luminária, um aparelho de som portátil com fitas cassete, copos e canecas.
            — Não precisava se incomodar, nós não queríamos dar trabalho — disse Liz. — Essas coisas não vão te fazer falta?
            — Não. Eu também sou dono do apartamento térreo, que está mobiliado, e sempre tenho algumas coisas sobrando.
            — Muito obrigada, Niek — disse ela, entregando louça e talheres a Leon.
            — O seu amigo não é muito falante — comentou Niek, referindo-se a Leon.
            — Ele não fala inglês — explicou —, só português e francês.
            — Eu falo um pouco de francês — disse. E dirigindo-se a Leon no idioma: — Como vai?
            — Bem, Niek, obrigado. Bom você falar francês, assim eu posso praticar.
            Niek o olhou como se não o houvesse entendido. Sorriu apenas.
            — Bom, eu preciso ir. Qualquer coisa, é só me chamar — falou, voltando a usar o inglês, encaminhado-se para a saída. — Depois eu venho buscar a minha bicicleta.
            — Não vai levar o seu violão? — perguntou Liz, apontando o instrumento.
            — Ele era da inquilina anterior. Podem ficar com ele. Tenham um bom dia!
            — Obrigada. Bom dia pra você também! — falou ela, fechando a porta.

            A ajuda de Niek havia sido pequena. Enquanto Liz fazia uma lista de compras apenas com o essencial, Leon convertia o valor dos cheques de viagem em gulden. Ela não escondia a ansiedade em comprar, ele insistia em fazer contas para saber quanto poderiam gastar. Num ponto concordavam: era importante guardar o suficiente para os próximos três meses do aluguel — já que o depósito feito na assinatura do contrato poderia ser usado no pagamento dos últimos dois meses.
            Liz estava alegre, sentir-se ocupada fazia-lhe bem. Com a ajuda da maconha tailandesa quase não precisava se esforçar para não pensar no que não queria. Nada como um “medicamento” eficaz. Concentrada no presente, limitava-se a olhar ao seu redor: gostava do prédio antigo para onde acabara de se mudar, achava ótima a localização junto ao parque, calma e discreta a vizinhança. Bom ver o contentamento de Leon, agora relaxado, descobrindo a cidade. Pela primeira vez, desde que haviam chegado, caminhavam despreocupados pelas ruas, apreciando vitrines, tentando ler placas, comentando a arquitetura... No passeio pelo bairro, avaliavam transporte, comércio, lazer. Entusiasmada, Liz comprou louça, panelas, talheres, e um punhado de quinquilharias necessárias.
            À tarde foram ao centro da cidade. De Bijenkorf, Hema, Vroom & Dreesman... uma infinidade de lojas com nomes estranhos. Acharam as roupas muito caras. Mas precisavam se proteger do frio, o inverno duraria um mês e meio pelo menos, um bom sobretudo era peça indispensável. Depois de muita procura, acabaram se rendendo aos preços de uma loja popular. Liz encontrou um sobretudo marrom com o forro descosturado junto à bainha — o “defeito” na peça havai reduzido seu preço a menos da metade. Leon teve dificuldade em achar um sobretudo barato. Escolheu um de cor cinza que, depois de pago, foi imediatamente substituído pelo outro que vestia, doado por Verônica.

            Primeira noite em nosso apartamento. Nosso... esse plural nunca me soou tão estranho — é como se não me dissesse respeito. Estamos frente a frente, em nossa sala nua, junto ao nosso velho aquecedor a gás, sentados em nossas cadeiras emprestadas. Estou cansado, mas não tenho sono. Liz parece sentir o mesmo. Sua mudança de comportamento me intriga. Está animada, contente, eu poderia até dizer feliz. Não voltou a tocar no nome de Hendrik. Inacreditável. Como conseguiu se livrar tão depressa desse mal? Por que não conversamos mais? Ainda dialogamos amigavelmente, mas não é conversa íntima, profunda, como as que tínhamos em outros tempos. Tudo mudou. Preciso me lembrar disso a cada instante. Inútil alimentar-me do passado. Sinto vontade de perguntar sobre Hendrik, mas receio que isso a desagrade ou traga à tona o que já parece extinto.
            Ela não quer conversar. Falta de assunto? Eu teria motivos de sobra para entrar pela madrugada falando, perguntando, ouvindo... Só não o faço por pressentir que não haverá eco. Não gosto de monologar com Liz. O silêncio a incomoda, talvez agora mais do que nunca. Apanhou um dos CDs que trouxe e o colocou no aparelho de som que Niek nos cedeu. Ato que torna clara sua intenção. A música brasileira começa a preencher o ambiente iluminado pela luminária também emprestada. Sem cortinas, as janelas, a porta de vidro trazem a noite escura para dentro da sala. Do lado de fora faz frio, quase ninguém se atreve a enfrentá-lo. O vento balança os galhos das árvores nuas. O canal, a ponte, a rua, a pracinha... estão praticamente desertos, apenas um ciclista, um pedestre de vez em quando. Sentado na cadeira junto à janela observo a noite. Sentada no chão, recostada na parede, Liz canta baixinho junto com o intérprete. Ela tem uma bela voz. Subitamente, a música estaca, o cantor repete a mesma sílaba enquanto os instrumentos insistem na mesma nota. Entreolhamo-nos. Liz avança para a música seguinte, que pouco depois recomeça a gaguejar. Nova música, tudo se repete. Outro CD, o mesmo sintoma. Rimos do aparelho de som com defeito. Ela o desliga. Pega o violão. Dedilha as cordas desafinadas. Recoloca-o no lugar. Está inquieta. Tenho impressão de que necessita manter-se ocupada a qualquer custo.
            De repente, fala que vai me dar aulas de inglês. Afirma que, no meu caso, é importante ter noções básicas. Realmente meus conhecimentos do idioma são rudimentares, seria proveitoso saber mais, no entanto, não tenho ânimo para aula particular agora, nem depois. Não sinto vontade de aprender uma língua provisória que me ajude a entender o que o ensino de outro idioma, menos útil ainda, não permite. Antes da viagem tentamos estudar holandês: não passei da primeira aula. Relutava em aprender? Talvez me recusasse a perder tempo. Por mais que me empenhasse, não conseguia me imaginar falando fluentemente a língua mais popular do mundo, tampouco a outra, insignificante. Para viver bem numa cidade é necessário integrar-se a ela. Também não me via como cidadão local, trabalhando, me divertindo, vivendo uma escolha feita por Liz. Não, eu decidi vir, poderia ter recusado. Preciso assumir minhas responsabilidades. Não voltamos mais a tocar em nosso casamento, meu salvo-conduto. Talvez, somente depois de resolvida essa questão eu consiga enxergar meu porvir com olhos menos severos. Por enquanto, Liz ocupa-se apenas consigo mesma, tem prioridade. Estaria sendo injusto e ingrato pensando de outra forma. Nos últimos dias, antes de nos mudarmos, não cessou de procurar órgãos oficiais, buscar informações, enfrentar filas, cadastrar-se aqui, registrar-se ali... ser cidadã européia implicava um mundo de papéis a assinar. Com a mesma determinação, procurou agências de emprego, fez entrevistas, preencheu formulários, deixou currículos... Sou egoísta. Não consigo olhar meu futuro porque o presente me apavora. Nosso casamento: uma promessa, uma possibilidade, minha única chance... vínculo legal, precária garantia de segurança que nada assegura, nada garante.
            Liz me olha. Acabou de me chamar novamente para perto dela. Aproximo-me. Escreve as lições no meu caderno de notas. Está tão entusiasmada em ser útil que me enterneço. Preciso mentir, estou me tornando perito nisso. Sentado ao seu lado, me esforço em prestar atenção nas palavras. Escreveu a conjugação dos verbos básicos no presente. Enrolo a língua na tentativa de reproduzir os sons que ela pronuncia tão naturalmente. Escreveu frases fáceis, que tenho de ler e traduzir. Concentro-me e sigo adiante. Ela me parabeniza, se anima ainda mais. Frases mais difíceis, perguntas, respostas afirmativas e negativas. Cometo o erro de tentar ser um aluno aplicado. Uso do auxiliar no passado, presente e futuro, infinitivo... Sou um canalha. Terminada a aula, fechado o caderno, não me lembro de coisa alguma.
            A primeira noite no apartamento foi quase insone. Como o quarto se mostrou uma câmara frigorífica, arrastamos os colchões para a sala, bem em frente ao aquecedor — incapaz de esquentar todo o apartamento. Havíamos esquecido de comprar roupa de cama e edredons: falha grave. Liz girou o controle do aquecedor até o ponto máximo, as chamas ficaram intensas, o aparelho começou a chiar, parecia entupido. Vestimos casacos e deitamos o mais próximo possível do calor barulhento. Tremendo de frio, virei de um lado a outro a noite inteira, tentando encontrar uma posição confortável, sem sucesso. Como era possível fazer tanto frio no cômodo fechado com o aquecedor no máximo? Liz, no colchão ao lado, tremeu e se movimentou tanto quanto eu.

            Telefonar para casa: mentir. Falsas satisfações a dar à outra ponta do cordão umbilical que atravessava o Atlântico. As mentiras tranqüilizadoras que eu dizia não me incomodavam: acreditava nelas, era questão de tempo fazer com que se tornassem verdades. Revestia minha voz com animação projetada nesse provável futuro iminente, sustentando minhas frases com firmeza. Sim, estávamos bem, Liz trabalhava num ótimo lugar, tínhamos um apartamento agradável... Quando eu teria emprego? Antes precisava me casar com Liz. Sim, estávamos dando entrada na papelada, muita burocracia. Sim, a cidade era linda, o inverno não era rigoroso. Nós tínhamos sorte.
            Liz sempre sofria nessas ocasiões. Mentir a torturava. Ocultando a verdade desde quando estávamos no Brasil, cada vez que falava com a mãe aumentava seu sentimento de culpa. Eu tentava tranqüilizá-la dizendo que era melhor poupar nossos familiares de preocupações inúteis, mas isso não a consolava.

            Próximo ao apartamento, do outro lado do canal, havia um supermercado que, segundo Liz, para nossa sorte, tinha preços populares. A fria manhã de sábado, iluminada pelo sol brilhante no céu sem nuvens, tinha atraído muitos consumidores. O lugar parecia pequeno para tanta gente.
            Deixamos o supermercado carregados. Abastecemos o frigobar e o armário da cozinha. Almoçamos uma macarronada instantânea que Liz preparou em poucos minutos.
            À tarde fomos ao Centro comprar edredons. Na loja de departamentos, a roupa de cama estava barata, mas os edredons, muito caros. Gasto necessário.
            Na volta para casa, descendo do bonde, Liz disse que precisava comprar maconha. Eu não me importava com o uso regular que ela vinha fazendo das ervas, já que isso a deixava tranqüila, mas temia que uma certa dependência estivesse se desenvolvendo. Peguei a sacola dela e segui para o apartamento.
            Chegou meio eufórica. Além da maconha, trazia pacotinhos de cogumelos, exibindo-os como um prêmio.
            — Mas logo você, que detesta chá!? — ironizei.
            — Quem disse que cogumelos só servem pra chá? Eles também podem ser comidos, sabia?
            — Você precisa mesmo disso?
            — Eu quero experimentar coisas novas. Você não tem vontade de conhecer outros mundos?
            — Esse aqui já me parece grande o bastante.
            — Você não sabe o que está perdendo — disse, abrindo um dos pacotes.
            Talvez a maconha não estivesse mais surtindo efeito. A cura milagrosa que eu julgava ter ocorrido fora realmente obtida por meio daqueles cigarros artesanais? Então a cura não passava de farsa alimentada por um desejo a ser sustentado indefinidamente.
            — Eu vou traduzir o que diz o folheto — falou, como se eu tivesse pedido. — Cogumelos frescos, Psilocybe tampanensis. Efeitos: dependendo da quantidade consumida, os cogumelos provocam sensações que vão de uma ligeira vertigem até uma forte “viagem”. Importante: sempre consuma os cogumelos de estômago vazio, em local aconchegante... Droga!, quanto tempo faz que a gente almoçou?
            — Umas duas horas mais ou menos. A digestão já deve estar acabando.
            — O efeito começa 45 minutos após a ingestão e pode durar, dependendo da quantidade, de 3 a 8 horas.
            — Acho que vai demorar pra sua viagem começar — falei, querendo rir.
            Olhou-me sem responder. Continuou a ler.
            — Dica: pode-se acelerar os efeitos preparando-se um chá com os cogumelos.
            — Viagem rápida só com chazinho ruim — debochei.
            — Ferva a água. Abaixe o fogo e acrescente os cogumelos, deixando-os em infusão de 15 a 30 minutos. Durante esse tempo, certifique-se de que a água não volte a ferver.
            — Que trabalheira! Tem certeza que vale o esforço? — perguntei, não contendo o riso.
            Liz não achou graça. Lendo em voz alta parecia declarar guerra contra mim.
            — Por último, adicione seu chá favorito para dar melhor sabor à infusão de cogumelos.
            — O seu chá favorito! — explodi numa gargalhada. — Isso deve ter um gosto horrível!
            — Não use açúcar, assim você poderá comer os cogumelos para acentuar seus efeitos.
            Eu ria de me torcer. E quanto mais ria, mais Liz se irritava, mais seu rosto se contraía.
            — Os cogumelos podem modificar a percepção do tempo e espaço, tudo ao redor pode parecer diferente. O humor pode ser afetado tanto positiva quanto negativamente, dependendo de como você estiver antes de consumi-los. Lembranças antigas podem ocorrer alguns dias mais tarde. Advertência: em pessoas alérgicas os cogumelos podem causar danos irreversíveis. Não está descartada a hipótese de parada cardíaca.
            Parei de rir. Aquilo não tinha a menor graça. Como saber os efeitos daquele veneno? O folheto era vago com seus “pode ser, pode parecer, pode causar...”, tudo era possível.
            — Onde você guardou a panela que a gente comprou ontem? — indagou, vasculhando o armário da cozinha.
            — Você vai mesmo tomar isso? — perguntei, surpreso. — E se você for alérgica, e se passar mal? Como eu vou te levar pro hospital?, nem sei onde fica!
            — Não seja ridículo — troçou, rindo com vontade. — Não vai acontecer nada disso.
            Achou a panela. Colocou água para ferver. Vingava-se de mim, cantarolando.
            — Você é uma egoísta! Só pensa em si mesma, no seu prazer e alucinações! — atirei.
            — E você é um medroso, desagradável e irritante... tão egoísta quanto eu! — retrucou. — Mas não se incomode, eu vou tomar o chá e sair pra morrer bem longe.
            — Não precisa se dar a esse trabalho, já estou saindo do seu apartamento. Quando eu voltar, se você estiver morta, eu pego a minha mala e vou embora. — falei, apanhando o sobretudo, não lhe dando tempo de réplica e batendo a porta.

            Tremia de frio, de ódio. Lágrimas de inconformismo desciam pelo meu rosto contrariado. Menos de uma semana na cidade, nossa primeira briga. Quem era a louca que habitava o mesmo apartamento que eu? Nosso apartamento... Não, nosso não, dela: o contrato de aluguel estava em seu nome, eu só tinha colaborado com o dinheiro.
            Ela não pensava nem um pouco em mim. Todos somos egoístas. Liz estava certa: tinha direito de fazer o que desejava. Eu a estava atrapalhando, impedindo-a de viver livremente a vida que escolhera. Ela devia ter pensado nisso quando me fez o convite. Eu também, quando o aceitei. E minha vida, o que era? Atos e gestos condicionados à vida de Liz? Desejos e esperanças atrelados às vontades e humores dela? Uma marionete movida pelos fios da amizade num instante de interesse, necessidade. Eu não tinha direitos. Minha utilidade... temporária, descartável. Minha liberdade... ilusória, impossível.
            Meus passos decididos não levavam a lugar nenhum. Na tarde cinzenta, o saibro dos caminhos do Vondelpark rangia sob meus pés, mas era como se eu mesmo estivesse sendo esmagado. Andar, andar, andar. Pensar, pensar, pensar. Sofrer, sofrer, sofrer. Até quando? Uma pergunta não cessava de atravessar minha mente: o que estou fazendo aqui? A resposta se fragmentava ao imaginá-la. Eu só queria ser feliz, transformar aquele patético clichê numa realidade sensível. Mas por que eu? Quem disse que eu tinha direito ao amor, à alegria, ao prazer? E por que não eu? Havia alguma lei que me condenasse à infelicidade? Andar, pensar, sofrer...

            Por que havia feito aquela brincadeira de mau-gosto? Só por Leon se divertir às custas dela?, por ele rir alegremente como há muito não fazia?, como ela mesma era incapaz? Não devia ter inventado a advertência sobre os cogumelos. Leon acreditara em suas palavras estúpidas.
            Intragável, a infusão de cogumelos. Apanhou a caixa de chás. Colocou um dos sachês na mistura fumegante. Após alguns minutos tornou a provar a bebida. Gosto ainda pior. Irritou-se. Além do dinheiro gasto, do tempo perdido, do desentendimento inútil se via privada de novas sensações. “Não, não e não! Chega de desperdícios!”, pensou, revoltada. Prendeu o nariz com os dedos e engoliu de uma só vez o líquido escuro da caneca. Na sala, sentou na cadeira e esperou. Ao fim de 20 minutos, além do amargor na boca, nenhuma reação. Paredes, janelas, paisagem, tudo continuava igual. Sentiu-se tola, sozinha no apartamento vazio, esperando os efeitos mágicos da bebida ruim, enquanto Leon estava lá fora preocupado com ela.
            Vestiu o sobretudo e saiu. Como encontrá-lo? Não fazia idéia de onde Leon poderia estar. Queria falar com alguém, dizer que tudo tinha sido brincadeira, mostrar que estava bem. Comprou um cartão telefônico, ligou para Daniel. Do outro lado da linha, o amigo mostrou-se contente por receber notícias:
            — Que bom que você ligou! Como vão as coisas? — perguntou ele.
            — Nós alugamos um apartamento. Eu briguei com o Leon. E bebi uma droga de chá de cogumelo que não serviu pra nada.
            — Liz, você está bem?
            — Um pouco irritada comigo mesma, mas eu estou bem.
            — Por que vocês brigaram?
            — O Leon pensou que os cogumelos fossem me fazer mal. Teve medo que eu morresse...
            — Liz, vai com calma. Deve ser uma tentação ter um monte de coisa pra experimentar, mas vocês precisam um do outro. Brigar não é legal.
            — Às vezes ele me irrita. Me sinto vigiada o tempo todo.
            — Conviver é complicado. Já pensou como esse começo deve estar sendo difícil pro Leon também?
            — Agora eu tenho mais responsabilidades que antes — queixou-se.
            — Tenta pensar que isso é só uma fase, logo vocês vão ter uma vida bem legal. Ah!, e o Hendrik? Já encontrou com ele?
            — O quê? — perguntou ela, como se nunca tivesse ouvido aquele nome.
            — Você está me ouvindo bem? Eu perguntei sobre o Hendrik.
            — Danny, a ligação está terminando. Dá um beijo na Sílvia. Eu vou escrever mandando o endereço daqui e contando algumas coisas. Tchau!
            Durante alguns dias havia conseguido ludibriar o misto de sensações incômodas convergindo para um único ponto: Hendrik. Aquele nome, dito tão naturalmente por Daniel, a despertara do esquecimento deliberado, e agora ecoava em sua mente. Uma ligeira vertigem a fez sentar no banco mais próximo. Efeito tardio dos cogumelos? Não, estava mais lúcida do que nunca.
            Como se tivesse acabado de deixar o apartamento de Derek no primeiro dia na cidade, tentou compreender o sentimento que parecia uni-la àquele ser complexo e contraditório. Hendrik. Apenas fixação? Fundamentada em quê? Em imagens esbatidas de sonhos recorrentes que agora adquiriam significado? Na projeção de homem ideal, perfeição estética materializada em pessoa de carne e osso? Na sedução de uma figura misteriosa, envolta em segredos, que parecia necessitar de ajuda que apenas ela podia conceder? Na atração sexual por um corpo desejável, mera satisfação física? Que vontade repentina era aquela de estar junto dele, olhando-o, falando com ele, tocando-o, possuindo-o?... Amor? Paixão? Doença?
            Por que as pessoas prometiam coisas que não podiam cumprir? Prometer: quase sempre sinônimo de iludir, enganar, trair... ou desapontar, frustrar, entristecer... Pensar de forma fria e dura talvez ajudasse, mas não resolvia a questão mal esclarecida, em suspenso. Não, tinha direito a uma explicação, isso não lhe podia ser negado.

            Tocou a campainha e esperou. Achou que ficaria nervosa, mas estava tranqüila. A voz de Hendrik ecoou sonolenta no interfone, dizendo algo em holandês que ela não entendeu e o nome de Derek. Sem que Liz tivesse tempo de falar, a porta do prédio foi destravada. Subiu as escadas. Abriu a porta encostada. Plexus e Nexus, dois gatos enormes, a receberam amistosamente. Onde estava Sexus? Ao lado da porta, um cesto de roupa suja — o que fazia ali, em local tão inadequado? Observando atentamente, notou o apartamento descuidado — algo inconcebível tratando-se de Hendrik. Deteve-se por um instante acariciando os gatos. Hendrik saiu do lavabo vestindo apenas uma pantalona de seda vermelha. Ficou lívido ao deparar com ela no meio da sala.
            — Você!... — falou, como se visse um fantasma. — Achei que fosse o Derek...
            — Desculpa eu ter vindo sem ser convidada. Eu pretendia me anunciar.
            Hendrik parecia constrangido com a presença inesperada, sem saber como agir: braços e mãos buscavam lugar que não denunciasse desconforto, pés e pernas mostravam-se vacilantes, os olhos fugiam do confronto, os lábios não encontravam o que dizer. Liz sentiu-se superior, e seu silêncio obrigou-o a falar:
            — O Derek me disse que você estava na cidade... Eu queria te procurar, mas você não deixou o seu endereço...
            — Eu estou aqui agora.
            Fixou o olhar em Hendrik esperando ele continuar. Intimidado, ele a observava, sem jeito.
            — Você disse que ia me procurar... — tornou ela, diante do mutismo dele — Tem alguma coisa pra me dizer?
            — Eu pensei que você não viesse mais, achei que tivesse desistido.
            — Eu nunca disse que não ia vir. Estive me esforçando todo o tempo pra voltar.
            — Mas você demorou muito...
            — Não faz quatro meses que a gente se viu pela última vez. Não é tanto tempo assim.
            — Você demorou demais...
            — E isso significa que eu não devia ter voltado. Por que você não me disse nada?
            — Eu liguei pra sua casa várias vezes! Você nunca estava. Eu sempre falava com o seu pai...
            — Impossível. O meu pai não fala inglês. Por que você mente sempre?
            — Mas eu não estou mentindo... eu... eu...
            — Está sim! Você mente o tempo todo!
            — Eu... eu... Está bem. Eu não falei com o seu pai, mas telefonei pra casa da sua amiga. Ela disse que você ia esperar a minha ligação, mas quando eu telefonei de novo ninguém atendeu.
            Sua tranqüilidade cedera lugar à irritação. Olhava o belo homem, menino travesso, dizendo mentiras, e tudo o que queria era abraçar seu corpo, beijar sua boca. Raiva de Hendrik, ódio de si mesma. Por que ele não dizia que tudo era brincadeira? Por que ela não o agarrava? Quanto mais raiva sentia, maior o desejo.
            — Você mente sempre! — repetiu, irritada. — Por que se escondeu quando eu estive no apartamento do Derek?
            — Mas eu não estava no banheiro! Eu não estava lá!
            — Mentiroso!, acabou de confessar! — gritou, agarrando-o pelos ombros, sacudindo-o com força. Hendrik não esboçou reação. O toque na pele dele, a proximidade entre os corpos, as bocas separadas por centímetros, o olhar de assombro do garoto idiota que não sabia mentir, o perfume dele... uma onda de calor subiu ao rosto de Liz. Quase fez o que não devia.
            — Desculpa — falou, soltando-o. — Acho que exagerei.
            Tirou o sobretudo, sentou no sofá, envergonhada pela quase agressão, pelo quase beijo.
            — Não, você está certa. Eu estava no apartamento do Derek, sim — admitiu, sentando ao lado dela. — Eu me comportei mal, mas não esperava que você voltasse. Fiquei sem saber o que fazer, com medo de uma responsabilidade grande demais pra mim. Já havia passado tanto tempo, tantas coisas tinham acontecido...
            — Você não gosta mais de mim? Existe outra pessoa?
            — Não existe ninguém, mas eu estou confuso. Agora que você está aqui eu me sinto estranho, é como se o tempo não tivesse passado, mas ele passou. Eu gosto de você, mas não sei se estou preparado pra assumir esse tipo de vida.
            — Você pensava diferente quando a gente se falava por telefone.
            — Eu sentia a sua falta. Tinha me acostumado com você...
            “Tinha se acostumado...” Agora estava confuso. A mão dela acariciou a face dele, deslizando até sua boca.
            — Não fala mais nada — pediu. — Eu amo você, por isso voltei. Eu quero muito desenvolver a nossa relação, mas não posso exigir que você me ame e não quero impor a minha presença. Talvez você precise de um tempo pra se acostumar, pensar melhor nas coisas. Eu não estou te pedindo pra assumir responsabilidade alguma, eu nunca te pedi isso.
            Levantou e foi até a estante. Encontrou um caderno, anotou seu endereço.
            — Meu endereço. Se quiser me procurar... — disse, recolocando o bloco no lugar.
            Apanhou o sobretudo, começou a vesti-lo. Encaminhou-se para a cozinha.
            — Eu posso beber alguma coisa? — perguntou, abrindo a geladeira. Surpreendeu-se ao verificá-la vazia, desligada.
            — Eu estou guardando a minha comida na casa do Derek — explicou ele. — Estamos dividindo tudo. Fazemos as compras de supermercado juntos e o Derek guarda e controla os mantimentos. Assim é mais econômico pra nós dois. Eu tenho feito as refeições no apartamento dele. Nem roupa lavo mais aqui — acrescentou, apontando o cesto junto à porta.
            Mais que surpresa, Liz ficou intrigada. As coisas tinham mudado bastante nos últimos meses. Não conseguiu entender a finalidade da divisão que beneficiava mais um do que outro. Derek havia ampliado bastante seus domínios. Manipulava Hendrik. Estava interessado nele e arquitetara um plano para enredá-lo. Tinham um caso. Por isso Hendrik estava confuso, devia estar dividido. De repente, lhe ocorreu que Derek há muito vinha tentando conquistar Hendrik. Lembrou dos jantares quase diários no apartamento dele, logo depois de conhecê-los; o jogo de sedução que se estabelecia; a excitação nos olhos de Derek; as saídas estratégicas de Hendrik, levando-a pela mão, quando o outro parecia não se conter; o fogo com que ele, em seguida, a possuía na cama, janelas abertas em direção ao apartamento de Derek... Ela não devia passar de uma terrível ameaça à preciosa conquista de Derek. Quem garantia que não tinha sido ele, com intrigas, o responsável pela indecisão de Hendrik, a ausência de notícias, a mudança de planos?
            — E se você sente fome à noite, como faz? — indagou ela.
            — Eu passo a maior parte do tempo no apartamento do Derek. Só venho aqui mesmo pra dormir e dar comida aos gatos — disse, ingenuamente. — O Derek tem sido um verdadeiro amigo. Ele me dá ótimos conselhos.
            “Como, por exemplo, esquecer de mim”, pensou ela. Tudo lhe pareceu evidente. Teve pena de Hendrik. Será que ele não percebia o outro dominando a situação?
            Hendrik lhe ofereceu água da torneira. Bebeu de um trago a água salobra.
            — Você e Derek estão tendo um caso? — perguntou, abruptamente.
            — O quê?! — falou, surpreso, como se não acreditasse na pergunta.
            — Você sabe que ele te ama, não? — jogou.
            — Quem te disse isso?
            — Ele mesmo — mentiu. — Vocês estão juntos?
            — Claro que não. Eu gosto muito do Derek, ele disse que sentia atração por mim, mas não estamos namorando. Somos apenas amigos. Dividimos despesas e momentos solitários.
            Em quê acreditar? Tudo o que se relacionava a Hendrik parecia associado a um monte de mentiras. Derek. Ele também mentia, dissimulava, enganava.
            — Eu preciso ir — disse ela.
            — Não pode ficar mais um pouco?
            “Pra continuar ouvindo o que não quero?”, pensou, antes de responder:
            — Não, eu tenho que ir. Estou preocupada com o Leon.
            — Lion? Você trouxe um bichinho de estimação?
            — Não é Lion, é Leon — corrigiu-o. — É um amigo que veio junto comigo.
            — Amigo? Eu achei que você tivesse vindo sozinha.
            — O Leon é o amigo com quem eu viajei pra vender as estampas. Eu falei dele nas cartas.
            — E o que ele veio fazer aqui?
            — Veio tentar mudar de vida, como eu.
            — O Derek me disse que vocês dois deviam estar juntos...
            — Eu e Leon somos amigos há mais de 15 anos! De onde o Derek tirou essa idéia? E como ele sabia do Leon?
            — Eu mostrei a ele as cartas que você me mandou.
            — Por quê?! As cartas eram pra você! Havia assuntos que deviam ficar só entre nós!...
            Suspeitas que se concretizavam. Ciente do conteúdo das cartas, Derek devia ter feito campanha contra ela. Que outras deformações ele teria inventado? Tudo o que dissera e escrevera a Hendrik nos últimos meses tinha sido distorcido, deturpado. Como reverter a situação?
            — Hendrik, o Leon e eu somos apenas amigos, assim como você e o Derek. Só isso.
            — Mas vocês estão morando juntos, não?
            — Estamos dividindo as despesas. Sem isso a gente não ia conseguir ficar aqui.
            Os argumentos que usava em seu favor eram semelhantes aos de Hendrik. Circunstâncias distintas, mas recriminar Derek seria o mesmo que se incriminar. Precisava ter cautela.
            — Eu estou indo — falou ela. — Pensa com carinho no que eu disse. Se quiser me procurar, já sabe onde me encontrar.
            Beijou os lábios de Hendrik. Encaminhou-se para a porta e saiu sem olhar para trás.

            Aquela história ainda não tinha terminado. Uma louca esperança renascia em seu coração. Não fazia sentido tudo acabar de forma tão estúpida. Não seria justo. Justiça. Algo muito errado havia naquilo: Derek. Agora era ele quem a ameaçava. Precisava limpar sua imagem denegrida.
            Espantou-se com o sentimento maternal que aflorava junto com a esperança. Hendrik não passava de uma criança grande, seu filho mais velho, um adulto que crescera depressa demais e que, no meio daquele conjunto de sentimentos complexos, conservara intactas inocência e pureza tocantes.