Amsterdam. Enfim chegamos ao nosso destino. Nosso destino... esta cidade é o nosso destino? Sinto-me deslocado aqui, principalmente quando me comparo a Liz, sempre tão desenvolta e ativa, conhecedora de todos os passos a serem dados. Isso deveria me deixar tranqüilo, mas não deixa. A agitação de Liz, a pressa em resolver os detalhes que ainda nos prendem na movimentada estação me inquietam.
            Hoje mal trocamos palavra. Pela ansiedade que ela não conseguia ocultar, eu já imaginava que seria assim. De Paris até aqui roeu todas as unhas. Os fones de ouvido foram eficazes para não conversarmos, para mantê-la isolada. Eu sabia em quem ela pensava. Agora, sem fones de ouvido, sem unhas, impaciente na troca dos cheques de viagem, aflita na reserva do quarto de hotel, aqui, ao meu lado, enquanto esperamos o táxi, mesmo agora continuamos separados. A mim resta apenas a opção de uma mudez que não me torne inconveniente. Liz não me vê, não me ouve, não me sente. Sou a sua sombra: tão inseparável quanto insignificante.
            O quarto do hotel era simpático. Eu ainda estava zonzo com as voltas do táxi que parecia não chegar nunca, com a cidade inédita vista através da janela. Deixei minha mala junto a uma das camas de solteiro unidas lado a lado na tentativa de formar uma de casal. Sentei, olhando a grande lâmina de vidro que ocupava o lugar de uma das paredes, nos isolando do frio exterior. Liz estava com pressa. Jogou sua mala sobre a outra cama, foi logo dizendo:
            — Eu vou ser a primeira a tomar banho!
            Permaneci mudo, contemplando a paisagem invernal através do vidro. Ansiosa, pediu-me um aparelho de barbear usado. Dei-lhe um novo. Imaginei os cuidados que ela teria se preparando para o encontro com Hendrik. Axilas, pernas, púbis... Depilação: higiene da mulher.
            Tomou um banho tão rápido que tive dúvida sobre a plena retirada dos pêlos indesejáveis. Arrastei-me até o cômodo ladrilhado, não tinha motivos para correr.
            Quando saí do banho, ela já estava pronta: meias pretas, que deixavam suas pernas ainda mais longas; mini-saia num xadrez vermelho e verde; camisa branca e spencer preto. Um pouco de perfume, uma ajeitada nos cabelos. Deixou o espelho voltando-se na minha direção.
            — Que tal estou?
            — Muito bonita! — procurei dizer com alegria. Mas a roupa não era indicada ao clima.
            — Só estou preocupada com o tempo. Está anoitecendo, e deve esfriar ainda mais...
            Não havia falado comigo, apenas pensado alto, voltando a fitar o espelho. Nada comentei. Por cima da roupa, vestiu um cardigan preto. Olhou-se novamente no espelho.
            — Estou me sentindo ridícula com esse monte de roupa! — disse ao reflexo.
            — Você está ótima! — falei. — E depois, você vai tirar tudo mesmo! Pra quê se preocupar com isso?
            Ela sorriu, sem nada dizer.
            Entregou-me um mapa simplificado de Amsterdam, indicando o lado para onde eu deveria seguir quando retornasse ao hotel. Não queria que eu me perdesse estando sozinho num lugar desconhecido. Lamentou não me deixar o grande mapa detalhado, achou que poderia precisar dele.
            — Se quiser, pode levar os dois mapas. Eu não vou sair — afirmei, tranqüilo.
            — O quê!? Como assim? Ainda é cedo, são cinco da tarde! — falou, com ar de espanto.
            — Não se incomode comigo — disse, forçando um sorriso. — Vai, divirta-se!
            Olhou-me um tanto contrafeita, como se minhas frases a tivessem lembrado de algo ruim.
            — Talvez eu não volte tarde... É bem capaz de eu me desiludir hoje de uma vez por todas.
            Procurava não criar falsas expectativas? Pouco provável. Os cuidados em parecer desejável a desmentiam.
            — Então, tchau! — despediu-se, fechando a porta.
            Fiquei sozinho, sentindo-me um perfeito idiota. O que eu estava fazendo ali, naquele hotel simpático, naquela cidade linda, naquele país desconhecido? De repente, tudo me pareceu tão descabido!... Sozinho eu não era nada, não conseguiria sequer dar um passo para fora do quarto. Não dominar inglês e desconhecer holandês me limitava ao extremo. Como não tinha pensado nisso? Sozinho, era um surdo-mudo. Só agora me dava conta do peso da dependência em relação a Liz. Subitamente, os banais procedimentos cotidianos assumiram ares assustadores. E se, como eu imaginava, Liz não voltasse ao hotel? O que eu faria na manhã seguinte? Parecia haver um horário certo para deixar o quarto. Qual? Não conseguia entender o texto afixado atrás da porta. Como pedir o café da manhã? Responder perguntas? Aonde ir? Onde esperar por Liz? E se nos desencontrássemos? Eu seria um homem morto.
            Na tentativa de me distrair, liguei a TV. Uma língua incompreensível, sons que nada significavam para mim. Todos falavam, dialogavam, um mundo de coisas acontecia, e eu à margem dele. As legendas em inglês em canais condescendentes não ajudavam muito.
            Eu, sentado na cama, olhando estupidamente a imagem do televisor, com um inútil controle remoto nas mãos, procurando alguém que diga algo compreensível... A cena patética me fez sorrir. E quase em seguida rir, rir alto, rir de nervoso, de angústia, de horror...

            Andava apressada. Corria, desnorteada, como se não soubesse o que fazer para chegar onde já queria estar. Livre, finalmente livre! Outra vez Amsterdam. Mal podia acreditar que havia voltado. Sentia algo estranho. Um esboço de medo mesclado a uma grande esperança. Estranheza que a impulsionava para frente. Há quanto tempo estivera na cidade pela última vez? Três meses, quatro meses? Não, sempre tinha estado ali, sentia como se nunca houvesse partido. Estava feliz, ansiosa, aflita. Estava ali por causa de Hendrik, um homem, menino, anjo... Hendrik. Medo e desejo. Promessa de amor. Temia que ele não a amasse, e que ela não soubesse mais o que fazer de si. Temia que ele a amasse, e que ela não soubesse o que fazer com sua felicidade.
            No termômetro do relógio de rua, zero grau. O frio era mera exterioridade, dado insignificante. Seu corpo tremia, mas estava quente, pulsante. As serpentes em seu ventre destilavam um veneno ardente, corrosivo, contorciam-se, picavam-na. Precisava exterminar aqueles malditos seres que consumiam suas entranhas, mas sozinha não poderia, necessitava da ajuda de Hendrik. Queria que toda a tensão terminasse, que tudo acabasse bem. Hendrik. Desespero e paz. Promessa de felicidade. Agora estava perto. Sim, perto do desfecho, perto do apartamento dele, de sua cama, seu corpo, seu sexo exterminador de serpentes venenosas.

            Quando apertou o botão do interfone percebeu a mão trêmula. Silêncio, como resposta. Tornou a pressionar o botão, apreensiva. Novamente o mesmo silêncio no frio da noite. Apertou, bateu, esmurrou o maldito botão, mas seus gestos furiosos foram vãos: silêncio absoluto. Não podia acreditar. Hendrik tinha saído. Como não havia pensado nessa hipótese? Onde ele poderia estar? Ainda morava ali? Estaria vivo? De repente, o esboço de medo se definiu: isolado da frágil esperança era avassalador. Atônita com a infeliz surpresa, tentava raciocinar. Sua cabeça doía, seu ventre queimava.
            “Derek!”, lembrou, num estalo. “Claro!, onde mais ele iria?” Correu até a porta do prédio ao lado. Impaciente, tocou o interfone. Em seguida, ouviu a voz do amigo de Hendrik.
            — Derek, sou eu, a Liz — disse, em inglês.
            — O quê? Quem?
            — A Liz, do Brasil, amiga do Hendrik! Ele está aí com você?
            — Oh, Liz!... Olá!... Tudo bem? — titubeou, como se não acreditasse em seus ouvidos.
            — O Hendrik está aí com você, Derek? — repetiu a pergunta.
            — Aqui...? Não... não. Aqui não. Eu ainda não estive com ele hoje...
            A voz vacilante de Derek a deixou intrigada.
            — Posso subir um instante? Eu queria deixar um recado pra ele, mas estou sem caneta.
            — Subir?... Mas claro que sim — falou, destravando a porta.
            No momento em que entrava, ouviu a voz agitada de Derek falando um holandês apressado, parecia ter companhia. “Só pode ser o Hendrik! Ele está lá! Está fugindo de mim! Por quê?”, pensou, num átimo. Subiu correndo os quatro lances de escada. Se Hendrik realmente estivesse lá não poderia deixar o apartamento do amigo sem passar por ela. Tocou a campainha afoita. Derek demorou um tempo que lhe pareceu suspeito a abrir a porta. Sorriu para ela meio sem graça, convidando-a a entrar. Teve certeza que ele ocultava algo.
            — Eu interrompi alguma coisa? — disse ela, esquadrinhando os ângulos do apartamento.
            — Imagine! — falou Derek. — Mas você está gelada! Como conseguiu chegar aqui com essas roupinhas leves? Deve estar morta de frio, coitada! Vem, eu vou fazer um chá bem quente.
            Ele pareceu atencioso e preocupado. Isso a desconcertou. Devia ter se equivocado. Em sua ansiedade, imaginara vozes. Sentou no sofá, enquanto Derek aquecia a água. Ele aparentava tranqüilidade, não era possível que estivesse escondendo coisa alguma, principalmente Hendrik. Ainda assim, de onde estava, Liz procurava com os olhos algum vestígio que denunciasse aquela presença desejada. A porta do quarto aberta revelava um cômodo sem ninguém, a do lavabo não escondia nada, a do banheiro estava entreaberta... Devia estar ficando paranóica.
            — Você chegou na cidade há muito tempo? — indagou ele, estendendo-lhe a xícara de chá.
            — Não, cheguei hoje — disse, colocando a xícara na mesa baixa. Tinha esquecido de dizer que detestava chá.
            — E vai ficar até quando?
            — Pra sempre — falou, convicta.
            — O quê!? — retrucou Derek, sobressaltando-se. — Eu... eu não sabia...
            — O Hendrik não te contou que eu vinha morar aqui?
            — Aqui!, junto com ele?!
            — Não, Derek. Aqui na cidade.
            — Não... ele não me disse nada...
            Observou que, mais do que surpreso, Derek parecia desapontado. Levantou, apanhou um bloco de papel na estante.
            — Eu estou num hotel perto do Vondelpark — disse ela, anotando o endereço e o número do quarto. — Se você encontrar o Hendrik, diz que eu preciso muito falar com ele.
            Um ruído seco, vindo do banheiro, chamou a atenção de Liz.
            — O que foi isso? — perguntou a Derek.
            — Isso o quê? — disse, olhos arregalados, erguendo-se bruscamente do sofá.
            — Esse barulho no seu banheiro...
            — Eu não ouvi nada — falou, com voz trêmula. — Mas pode deixar que eu digo ao Hendrik que você está procurando ele. Agora eu preciso sair, marquei um encontro com um amigo...
            Se Derek disfarçava mal seu nervosismo, não disfarçava a súbita vontade de que Liz fosse embora. Por um momento, ela pensou em correr ao banheiro e acabar com aquela comédia ridícula, mas seria vergonhoso se o cômodo estivesse vazio, pior ainda se Hendrik realmente estivesse lá. Esquivava-se por não gostar mais dela? Por que ele se escondia feito um rato? Por que não enfrentava a situação, não agia como homem? Secretamente, ansiava que Hendrik surgisse por trás da porta, sorridente e saltitante, dizendo que tudo tinha sido brincadeira. Então se abraçariam, se beijariam, dariam boas gargalhadas. Deixariam Derek, desceriam ao apartamento de Hendrik. No quarto, sob a luz negra, sobre a cama perfumada, fariam sexo, ela saberia que ele a amava, seriam felizes... Mas a porta continuou imóvel, ninguém apareceu por trás dela. Impaciente, embaraçado, Derek a olhava. Liz virou-se para a saída.
            Desceu as escadas apoiando-se à parede, pisando em falso. Ao passar na porta do prédio em que Hendrik morava, pensou em deixar o papel com o endereço do hotel na caixa de correspondência, mas desistiu. Escondido ou não no apartamento de Derek, talvez, para Hendrik, ela não passasse de um terrível incômodo. Uma lufada de vento gélido a atingiu. Só então se deu conta do frio intenso a que estava exposta. Tentou correr, mas fazê-lo sem sentir um sólido apoio sob os pés era praticamente impossível. Ainda era cedo, mas as ruas geladas estavam quase desertas. Cambaleou até o ponto do bonde. Raciocinar e agir ao mesmo tempo, fugir da verdade, agarrar-se a mentiras, querer pensar no acontecido, ter que escapar do frio, tarefas incompatíveis... morrer de raiva, de vergonha... salvar seu corpo, que não a obedecia; sua mente, que não controlava...
            “Ele estava lá, eu senti isso. Não, não estava, não vi ninguém. Mas ouvi o barulho. Era ele? Quem mais? Por que fugiu? Será que não me ama? Covarde! Escondido como um verme. Não, não vi ninguém. Não vi ou não quis ver? Não, ele não estava lá. Por isso não deixou o esconderijo. Ele não me viu. Ele ainda me quer. Eu o amo, eu o desejo, quero ser dele, quero ele pra mim. Estou aqui por causa dele. Tudo o que fiz foi pensando nele. Ele não pode me abandonar agora. Não, estou aqui porque quero ser livre, ter a minha vida, ser feliz, amar. Não, estou aqui por causa dele, nada mais. Nada mais importa. Não, e eu? O que sou? Eu não existo sem ele. Ele é tudo. Meu homem, meu amor. Estou louca. Louca de desejo, de ódio, paixão, solidão, amor, horror. Eu sou louca. Como pude fazer isso? Será que não penso? Sou eu, minha vida, não posso jogar tudo fora. Eu existo, estou aqui, outra vez, sozinha...”
            Sua mente, um campo minado onde tudo explodia ao mesmo tempo. O vento frio não cessava. O bonde não aparecia, nem mesmo um ônibus, nenhum veículo, nenhum ciclista, nada. Amsterdam, deserto negro. Congelava sob o abrigo, enquanto seu cérebro era bombardeado por pensamentos antagônicos, desconexos. De repente, minúsculas flores brancas começaram a cair do céu. Arrancada do semitranse, espantou-se. Não havia árvore alguma por perto. Aparou uma das florezinhas na palma da mão, ela se desfez numa gota d’água.

           Seu rápido retorno me surpreendeu. Pouco mais de uma hora após ter saído Liz estava de volta. Algo dera errado. Sua fisionomia perturbada era uma máscara que não lhe assentava bem. Abatida, pálida, cabelos úmidos, olhos e nariz vermelhos... não parecia mais a mulher vestida de sedução que tinha encontro marcado com o prazer.
           — Você está bem? O que houve? — minha preocupação obrigou-me a perguntar.
           — Eu estou congelando! Sabia que está nevando? — falou, a caminho do banheiro. Abriu a torneira de água quente, lavou as mãos, molhou o rosto.
           De pé, junto à porta aberta do banheiro, esperei que ela se recompusesse.
           — Estou arrasada! — confessou, desabando na poltrona. — Tudo acabado.
           — Vocês brigaram.
           — Nem tivemos chance. Como eu pude ser tão idiota? Ele me odeia, ele nunca me amou!
           — Não estou entendendo.
           — O Hendrik estava escondido no apartamento do Derek.
           Como percebeu que eu não compreendia coisa alguma, resumiu, sem muita paciência, o acontecido.
           — Mas você não tem certeza disso — falei. — Será que não está se precipitando?
           — Eu estou cansada de achar que tudo sempre vai dar certo, que os meus planos são possíveis. Cansada de ouvir conselhos e sugestões dos outros, cansada dessa droga de vida, desse maldito relacionamento... Estou cansada de tudo!
           Mantive-me quieto enquanto ela extravasava. Nessas horas, mesmo as palavras que pretendem reconfortar e acalmar surtem efeito contrário. Irrompeu numa crise de choro.
           Desliguei a TV. Tranquei-me no banheiro para deixá-la sozinha, para não presenciar sua tristeza. Queria abraçá-la, confortá-la, mas essas possibilidades me estavam vetadas. Nossa amizade nos unia, e também nos afastava. Não, só o meu amor fazia com que Liz se mantivesse à distância. Meu rosto no espelho era uma máscara amedrontada, mas, ao contrário da de Liz, assentava-me muito bem. Estávamos juntos, dependíamos um do outro, apenas começávamos nossas novas vidas... O destroço humano no cômodo ao lado ia de encontro às expectativas que eu criara. Nossa primeira noite em Amsterdam... e tudo já parecia em ruínas. Início nada promissor. Eu também não coincidia com as expectativas que havia criado para mim próprio. Pensei que me sentiria estimulado, contente em ser eu mesmo, experimentar uma liberdade até então inacessível... Como sempre, esperei demais, sonhei alto. Precisava ser realista, prático. O casal desencantado e deprimido que formávamos não seria capaz de construir coisa alguma. “Depende de mim!” O choque interno me fez encarar meu reflexo. “Não quero fracassar mais uma vez. Não posso, não haverá outra oportunidade. Agora estou aqui, responsável por mim, e por Liz, precisamos nos ajudar. Tenho que ser forte.”
           Quando retornei ao quarto, ela já não chorava. Tinha afastado as camas de solteiro uma da outra, estava sentada na que havia escolhido para si. Com ar ausente, olhava o teto. Fumava. Seria aquele o tal skunk de que tanto me falara? Talvez. Com aquilo era possível relaxar ou ficaria ainda mais deprimida? Nada perguntei. Não disse mais uma palavra. Liz não se encontrava isolada apenas mentalmente, mesmo no plano físico queria manter-se distante de mim. Procurei compreendê-la. Devia querer ficar sozinha para pensar na vida, em seus problemas — o que minha presença dificultava.
           Em silêncio, deitei na outra cama, virei as costas para a solidão de Liz.
            Mortas. Todas elas. Todas mortas. Afogadas no próprio veneno. Dissolvidas no escuro líquido espesso, vermelho-morte, que o absorvente interno não conteve. Lágrimas uterinas, sumo de serpentes, vergonhas, tristezas, desilusões, sentimentos reprimidos, promessas não cumpridas... Vermelho-morte vertendo vivo, manchando a roupa de baixo, os lençóis, o colchão... Ser mulher: estar condenada a sangrar, sangrar, sangrar...

            Concentrou-se em prosseguir sua vida. A ajuda da maconha tailandesa estava sendo valiosa. Esquecer aquela questão — ainda que temporariamente — era tudo o que precisava. Pensar de forma positiva. Sua vida mal despontava num horizonte a ser explorado. Às vezes parecia absurdo ter fundamentado sua futura existência em companhia incerta, promessa forjada. Tinha que continuar olhando para frente, para o lado também: Leon estava ali, dependia dela, tanto quanto ela dependia dele. Confuso e necessário vínculo que, às vezes, também soava absurdo em meio ao oceano de absurdidades em que nadava. De certo modo, pusera Leon naquilo. Se não fosse pelo compromisso assumido, pela vontade de vê-lo feliz, por ele tê-la ajudado a chegar até ali, talvez ainda estivesse imóvel numa cama de hotel sob efeito de maconha, chorando e se lamentando. Ainda que silenciosa, a presença de Leon forçava-a a demonstrar amor-próprio, não era uma romântica desmiolada, ainda pretendia encontrar um trabalho que a satisfizesse, um lar que a agradasse.

            Procuraram nos jornais as ofertas de aluguel. Liz traduzia os anúncios com um pequeno dicionário holandês-inglês. Apartamentos restritos, afastados do Centro, muito caros. Nos classificados, descobriram anúncios de imobiliárias. Foram a uma delas, mas nada conseguiram: não era uma boa ocasião para alugar imóveis, no verão a oferta seria maior. A chuva e o frio eram inimigos aliados na tentativa de expulsá-los de Amsterdam. Com roupas impróprias ao inverno, corriam pela cidade, buscando, de tempo em tempo, abrigo em lojas aquecidas. Pararam numa central telefônica. Liz telefonou para algumas imobiliárias. Ouviu respostas semelhantes a do estabelecimento que haviam procurado pessoalmente. Unanimidade impressionante. Seria possível que em Amsterdam não existisse um único apartamento vago, pronto a ser alugado? Leon tentava disfarçar sua apreensão e impotência, mas ela o percebia nas poucas palavras de estímulo que ele lançava. Tentar outras imobiliárias parecia perda de tempo. Fome, cansaço e desânimo crescentes também eram inimigos, impossíveis de ignorar.
            Depois de uma pausa num fast food, voltaram ao telefone. Mais três imobiliárias, a mesma resposta. Último número, última chance. A voz de uma pessoa idosa atendeu do outro lado. Liz repetiu a mesma pergunta sem muita esperança. A curiosidade da senhora em saber que tipo de imóvel Liz buscava, subitamente a animou: ninguém havia feito aquela pergunta óbvia. Apartamento pequeno para duas pessoas, não precisava ser no Centro, aluguel de até 900 gulden... Sim, havia um imóvel em tais condições. Um amplo sorriso iluminou o rosto de Liz.

            Mais do que um bairro afastado do Centro de Amsterdam, Diemen era quase outra cidade. A noite estava ainda mais fria e úmida que a tarde. O bonde que haviam tomado próximo ao hotel parecia não chegar nunca ao destino. Liz já começava a achar distante demais o tal apartamento, o que antes parecia sorte agora se assemelhava a um grande equívoco. Olhou para Leon. Ele também se mostrava impaciente com a demora.
            As ruas quase vazias, pouco iluminadas eram desfiladeiros de prédios esquisitos, que pareciam abandonados. Andaram em meio ao deserto de blocos de concreto sem achar o endereço fornecido pela senhora da imobiliária. No detalhado mapa de Liz constava apenas parte de Diemen. Sem o menor atrativo, o local lembrava uma cidade-dormitório. Dirigindo-se em inglês a um casal, Liz indagou sobre o endereço procurado. Não o conheciam. Num bar, fez a mesma pergunta, e obteve a mesma resposta. Desistiram da busca.
            Era tarde quando chegaram ao hotel. A recepcionista informou que um homem os procurara, uma mulher tinha ligado várias vezes. Entregou a Liz um bilhete: nome e número do telefone da senhora da imobiliária. No quarto, ligou para Mrs. Arezzo. Aborrecida, a mulher quis saber o que tinha ocorrido. Liz explicou que, conforme o combinado, haviam tentado chegar na hora marcada no endereço em Diemen, sem encontrá-lo. Mrs. Arezzo falou que o combinado era esperarem no hotel pelo dono do imóvel, que os levaria de carro até Diemen. Liz se desculpou pelo engano, aproveitando para dizer que não estava mais interessada no apartamento. Mrs. Arezzo lamentou a confusão, pediu que Liz voltasse a ligar em dois dias, quando já deveria ter novo imóvel disponível.

            Liz achou melhor trocarmos o hotel pelo Albergue da Juventude. Precisávamos economizar. Eu ainda estava intranqüilo com a dificuldade em encontrar um simples cômodo para nos abrigar no início da nossa jornada. Para conseguir emprego era imprescindível possuir domicílio. Uma série de vínculos formava barreiras a serem transpostas. A disposição de Liz me surpreendia. Quando necessário, uma mulher admirável emergia do monte de escombros, alheia a dores, sofreres e pesares. Não havíamos mais falado sobre Hendrik, e o incidente entre ambos. Ela devia estar se esforçando em esquecer o episódio ocupando-se com assuntos mais urgentes.

            No dia marcado Liz telefonou para Mrs. Arezzo, que nos convidou ao seu escritório — novo imóvel em vista.

            A figura de Mrs. Arezzo dava vontade rir: a volumosa cabeleira eriçada lembrava o topete de uma cacatua. Nariz adunco plantado no meio do rosto enrugado, olhos miúdos, voz aguda e roupas fora de moda complementavam o aspecto engraçado. No escritório, decorado com simplicidade, um infeliz espelho na parede me refletia envolto num horrendo sobretudo surrado e antiquado, que o frio me forçara a vestir. Eu devia ser uma figura igualmente cômica para Mrs. Arezzo, talvez até me achasse ridículo também. Ela conversou com Liz num inglês cheio de sotaque, fez perguntas. Liz foi sincera revelando nossa situação, preferia ser verdadeira e ganhar a confiança da velha a inventar mentiras que nos prejudicassem mais tarde. Tentando prestar atenção no diálogo em inglês, compreendendo as frases de Liz melhor do que as de Mrs. Arezzo, não entendia o que estávamos fazendo ali, sendo submetidos àquele interrogatório. A campainha tocou. Enquanto a senhora atendia à porta, Liz me explicou que outra pessoa nos levaria ao apartamento disponível. Mrs. Arezzo voltou seguida de um homem de traços orientais elegantemente vestido. Apresentou-nos a Mr. Cliff. Alto, jovem, bonito, trajando um belo sobretudo preto por cima de um terno não menos alinhado, Mr. Cliff era a imagem do homem bem-sucedido. Para nos cumprimentar, ele retirou as luvas de couro. Depois de apertar sua mão aquecida com a minha, gelada, afundei na poltrona, com vontade de desaparecer em meio aos trapos que me envolviam. Apesar de também estar meio mal-vestida, Liz era de uma desenvoltura tocante. Integrada numa conversa da qual fazia parte, não parecia preocupada com as futilidades de ordem estética que me consumiam. Do fundo da poltrona eu assistia aos amistosos diálogos entremeados por sorrisos.
            Em seu moderno carro, Mr. Cliff nos levou a uma rua sem saída. Depois de muitas e muitas voltas eu não sabia em que parte da cidade estávamos. A noite caiu tão de repente que vimos o apartamento, sem luz, no terceiro andar de um prédio antigo, às pressas. Em meio à penumbra, o espaço nos pareceu bastante razoável. Resolvemos alugar o imóvel.
            No dia seguinte voltamos ao escritório de Mrs. Arezzo para fechar negócio. “Vocês têm sorte! Vocês têm sorte!”, repetia ela como uma cacatua eufórica, em alusão à rapidez com que tínhamos conseguido alugar apartamento na cidade quase sem ofertas. Nunca pensei que tudo pudesse ser tão simples. Passaporte português e dinheiro, condições suficientes para que Liz assinasse o contrato de aluguel por cinco meses. Entregamos um maço de notas com o valor dos encargos e taxas, e o equivalente a dois meses de aluguel como depósito. Enquanto Mr. Cliff e Mrs. Arezzo dividiam parte do dinheiro, eu e Liz olhávamos as duas chaves maravilhados com a oportunidade que parecia um milagre. Os 1.200 gulden mensais haviam ficado acima de nossas expectativas, mas quando Mr. Cliff informou que os custos de água, luz e gás estavam incluídos no valor do aluguel, achamos que não tínhamos feito um mau negócio. Mrs. Arezzo devia estar certa: nós tínhamos sorte.

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