Amsterdam.
Enfim chegamos ao nosso destino. Nosso destino...
esta cidade é o nosso destino? Sinto-me
deslocado aqui, principalmente quando me comparo
a Liz, sempre tão desenvolta e ativa,
conhecedora de todos os passos a serem dados.
Isso deveria me deixar tranqüilo, mas não
deixa. A agitação de Liz, a pressa
em resolver os detalhes que ainda nos prendem
na movimentada estação me inquietam.
Hoje
mal trocamos palavra. Pela ansiedade que ela
não conseguia ocultar, eu já imaginava
que seria assim. De Paris até aqui roeu
todas as unhas. Os fones de ouvido foram eficazes
para não conversarmos, para mantê-la
isolada. Eu sabia em quem ela pensava. Agora,
sem fones de ouvido, sem unhas, impaciente na
troca dos cheques de viagem, aflita na reserva
do quarto de hotel, aqui, ao meu lado, enquanto
esperamos o táxi, mesmo agora continuamos
separados. A mim resta apenas a opção
de uma mudez que não me torne inconveniente.
Liz não me vê, não me ouve,
não me sente. Sou a sua sombra: tão
inseparável quanto insignificante.
O
quarto do hotel era simpático. Eu ainda
estava zonzo com as voltas do táxi que
parecia não chegar nunca, com a cidade
inédita vista através da janela.
Deixei minha mala junto a uma das camas de solteiro
unidas lado a lado na tentativa de formar uma
de casal. Sentei, olhando a grande lâmina
de vidro que ocupava o lugar de uma das paredes,
nos isolando do frio exterior. Liz estava com
pressa. Jogou sua mala sobre a outra cama, foi
logo dizendo:
—
Eu vou ser a primeira a tomar banho!
Permaneci
mudo, contemplando a paisagem invernal através
do vidro. Ansiosa, pediu-me um aparelho de barbear
usado. Dei-lhe um novo. Imaginei os cuidados
que ela teria se preparando para o encontro
com Hendrik. Axilas, pernas, púbis...
Depilação: higiene da mulher.
Tomou
um banho tão rápido que tive dúvida
sobre a plena retirada dos pêlos indesejáveis.
Arrastei-me até o cômodo ladrilhado,
não tinha motivos para correr.
Quando
saí do banho, ela já estava pronta:
meias pretas, que deixavam suas pernas ainda
mais longas; mini-saia num xadrez vermelho e
verde; camisa branca e spencer preto.
Um pouco de perfume, uma ajeitada nos cabelos.
Deixou o espelho voltando-se na minha direção.
—
Que tal estou?
—
Muito bonita! — procurei dizer com alegria.
Mas a roupa não era indicada ao clima.
—
Só estou preocupada com o tempo. Está
anoitecendo, e deve esfriar ainda mais...
Não
havia falado comigo, apenas pensado alto, voltando
a fitar o espelho. Nada comentei. Por cima da
roupa, vestiu um cardigan preto. Olhou-se
novamente no espelho.
—
Estou me sentindo ridícula com esse monte
de roupa! — disse ao reflexo.
—
Você está ótima! —
falei. — E depois, você vai tirar
tudo mesmo! Pra quê se preocupar com isso?
Ela
sorriu, sem nada dizer.
Entregou-me
um mapa simplificado de Amsterdam, indicando
o lado para onde eu deveria seguir quando retornasse
ao hotel. Não queria que eu me perdesse
estando sozinho num lugar desconhecido. Lamentou
não me deixar o grande mapa detalhado,
achou que poderia precisar dele.
—
Se quiser, pode levar os dois mapas. Eu não
vou sair — afirmei, tranqüilo.
—
O quê!? Como assim? Ainda é cedo,
são cinco da tarde! — falou, com
ar de espanto.
—
Não se incomode comigo — disse,
forçando um sorriso. — Vai, divirta-se!
Olhou-me
um tanto contrafeita, como se minhas frases
a tivessem lembrado de algo ruim.
—
Talvez eu não volte tarde... É
bem capaz de eu me desiludir hoje de uma vez
por todas.
Procurava
não criar falsas expectativas? Pouco
provável. Os cuidados em parecer desejável
a desmentiam.
—
Então, tchau! — despediu-se, fechando
a porta.
Fiquei
sozinho, sentindo-me um perfeito idiota. O que
eu estava fazendo ali, naquele hotel simpático,
naquela cidade linda, naquele país desconhecido?
De repente, tudo me pareceu tão descabido!...
Sozinho eu não era nada, não conseguiria
sequer dar um passo para fora do quarto. Não
dominar inglês e desconhecer holandês
me limitava ao extremo. Como não tinha
pensado nisso? Sozinho, era um surdo-mudo. Só
agora me dava conta do peso da dependência
em relação a Liz. Subitamente,
os banais procedimentos cotidianos assumiram
ares assustadores. E se, como eu imaginava,
Liz não voltasse ao hotel? O que eu faria
na manhã seguinte? Parecia haver um horário
certo para deixar o quarto. Qual? Não
conseguia entender o texto afixado atrás
da porta. Como pedir o café da manhã?
Responder perguntas? Aonde ir? Onde esperar
por Liz? E se nos desencontrássemos?
Eu seria um homem morto.
Na
tentativa de me distrair, liguei a TV.
Uma língua incompreensível, sons
que nada significavam para mim. Todos falavam,
dialogavam, um mundo de coisas acontecia, e
eu à margem dele. As legendas em inglês
em canais condescendentes não ajudavam
muito.
Eu,
sentado na cama, olhando estupidamente a imagem
do televisor, com um inútil controle
remoto nas mãos, procurando alguém
que diga algo compreensível... A cena
patética me fez sorrir. E quase em seguida
rir, rir alto, rir de nervoso, de angústia,
de horror...
|
|
Andava
apressada. Corria, desnorteada, como se não
soubesse o que fazer para chegar onde já
queria estar. Livre, finalmente livre! Outra vez
Amsterdam. Mal podia acreditar que havia voltado.
Sentia algo estranho. Um esboço de medo
mesclado a uma grande esperança. Estranheza
que a impulsionava para frente. Há quanto
tempo estivera na cidade pela última vez?
Três meses, quatro meses? Não, sempre
tinha estado ali, sentia como se nunca houvesse
partido. Estava feliz, ansiosa, aflita. Estava
ali por causa de Hendrik, um homem, menino, anjo...
Hendrik. Medo e desejo. Promessa de amor. Temia
que ele não a amasse, e que ela não
soubesse mais o que fazer de si. Temia que ele
a amasse, e que ela não soubesse o que
fazer com sua felicidade.
No
termômetro do relógio de rua, zero
grau. O frio era mera exterioridade, dado insignificante.
Seu corpo tremia, mas estava quente, pulsante.
As serpentes em seu ventre destilavam um veneno
ardente, corrosivo, contorciam-se, picavam-na.
Precisava exterminar aqueles malditos seres que
consumiam suas entranhas, mas sozinha não
poderia, necessitava da ajuda de Hendrik. Queria
que toda a tensão terminasse, que tudo
acabasse bem. Hendrik. Desespero e paz. Promessa
de felicidade. Agora estava perto. Sim, perto
do desfecho, perto do apartamento dele, de sua
cama, seu corpo, seu sexo exterminador de serpentes
venenosas.
Quando
apertou o botão do interfone percebeu
a mão trêmula. Silêncio,
como resposta. Tornou a pressionar o botão,
apreensiva. Novamente o mesmo silêncio
no frio da noite. Apertou, bateu, esmurrou o
maldito botão, mas seus gestos furiosos
foram vãos: silêncio absoluto.
Não podia acreditar. Hendrik tinha saído.
Como não havia pensado nessa hipótese?
Onde ele poderia estar? Ainda morava ali? Estaria
vivo? De repente, o esboço de medo se
definiu: isolado da frágil esperança
era avassalador. Atônita com a infeliz
surpresa, tentava raciocinar. Sua cabeça
doía, seu ventre queimava.
“Derek!”,
lembrou, num estalo. “Claro!, onde mais
ele iria?” Correu até a porta do
prédio ao lado. Impaciente, tocou o interfone.
Em seguida, ouviu a voz do amigo de Hendrik.
—
Derek, sou eu, a Liz — disse, em inglês.
—
O quê? Quem?
—
A Liz, do Brasil, amiga do Hendrik! Ele está
aí com você?
—
Oh, Liz!... Olá!... Tudo bem? —
titubeou, como se não acreditasse em
seus ouvidos.
—
O Hendrik está aí com você,
Derek? — repetiu a pergunta.
—
Aqui...? Não... não. Aqui não.
Eu ainda não estive com ele hoje...
A
voz vacilante de Derek a deixou intrigada.
—
Posso subir um instante? Eu queria deixar um
recado pra ele, mas estou sem caneta.
—
Subir?... Mas claro que sim — falou, destravando
a porta.
No
momento em que entrava, ouviu a voz agitada
de Derek falando um holandês apressado,
parecia ter companhia. “Só pode
ser o Hendrik! Ele está lá! Está
fugindo de mim! Por quê?”, pensou,
num átimo. Subiu correndo os quatro lances
de escada. Se Hendrik realmente estivesse lá
não poderia deixar o apartamento do amigo
sem passar por ela. Tocou a campainha afoita.
Derek demorou um tempo que lhe pareceu suspeito
a abrir a porta. Sorriu para ela meio sem graça,
convidando-a a entrar. Teve certeza que ele
ocultava algo.
—
Eu interrompi alguma coisa? — disse ela,
esquadrinhando os ângulos do apartamento.
—
Imagine! — falou Derek. — Mas você
está gelada! Como conseguiu chegar aqui
com essas roupinhas leves? Deve estar morta
de frio, coitada! Vem, eu vou fazer um chá
bem quente.
Ele
pareceu atencioso e preocupado. Isso a desconcertou.
Devia ter se equivocado. Em sua ansiedade, imaginara
vozes. Sentou no sofá, enquanto Derek
aquecia a água. Ele aparentava tranqüilidade,
não era possível que estivesse
escondendo coisa alguma, principalmente Hendrik.
Ainda assim, de onde estava, Liz procurava com
os olhos algum vestígio que denunciasse
aquela presença desejada. A porta do
quarto aberta revelava um cômodo sem ninguém,
a do lavabo não escondia nada, a do banheiro
estava entreaberta... Devia estar ficando paranóica.
—
Você chegou na cidade há muito
tempo? — indagou ele, estendendo-lhe a
xícara de chá.
—
Não, cheguei hoje — disse, colocando
a xícara na mesa baixa. Tinha esquecido
de dizer que detestava chá.
—
E vai ficar até quando?
—
Pra sempre — falou, convicta.
—
O quê!? — retrucou Derek, sobressaltando-se.
— Eu... eu não sabia...
—
O Hendrik não te contou que eu vinha
morar aqui?
—
Aqui!, junto com ele?!
—
Não, Derek. Aqui na cidade.
—
Não... ele não me disse nada...
Observou
que, mais do que surpreso, Derek parecia desapontado.
Levantou, apanhou um bloco de papel na estante.
—
Eu estou num hotel perto do Vondelpark —
disse ela, anotando o endereço e o número
do quarto. — Se você encontrar o
Hendrik, diz que eu preciso muito falar com
ele.
Um
ruído seco, vindo do banheiro, chamou
a atenção de Liz.
—
O que foi isso? — perguntou a Derek.
—
Isso o quê? — disse, olhos arregalados,
erguendo-se bruscamente do sofá.
—
Esse barulho no seu banheiro...
—
Eu não ouvi nada — falou, com voz
trêmula. — Mas pode deixar que eu
digo ao Hendrik que você está procurando
ele. Agora eu preciso sair, marquei um encontro
com um amigo...
Se
Derek disfarçava mal seu nervosismo,
não disfarçava a súbita
vontade de que Liz fosse embora. Por um momento,
ela pensou em correr ao banheiro e acabar com
aquela comédia ridícula, mas seria
vergonhoso se o cômodo estivesse vazio,
pior ainda se Hendrik realmente estivesse lá.
Esquivava-se por não gostar mais dela?
Por que ele se escondia feito um rato? Por que
não enfrentava a situação,
não agia como homem? Secretamente, ansiava
que Hendrik surgisse por trás da porta,
sorridente e saltitante, dizendo que tudo tinha
sido brincadeira. Então se abraçariam,
se beijariam, dariam boas gargalhadas. Deixariam
Derek, desceriam ao apartamento de Hendrik.
No quarto, sob a luz negra, sobre a cama perfumada,
fariam sexo, ela saberia que ele a amava, seriam
felizes... Mas a porta continuou imóvel,
ninguém apareceu por trás dela.
Impaciente, embaraçado, Derek a olhava.
Liz virou-se para a saída.
Desceu
as escadas apoiando-se à parede, pisando
em falso. Ao passar na porta do prédio
em que Hendrik morava, pensou em deixar o papel
com o endereço do hotel na caixa de correspondência,
mas desistiu. Escondido ou não no apartamento
de Derek, talvez, para Hendrik, ela não
passasse de um terrível incômodo.
Uma lufada de vento gélido a atingiu.
Só então se deu conta do frio
intenso a que estava exposta. Tentou correr,
mas fazê-lo sem sentir um sólido
apoio sob os pés era praticamente impossível.
Ainda era cedo, mas as ruas geladas estavam
quase desertas. Cambaleou até o ponto
do bonde. Raciocinar e agir ao mesmo tempo,
fugir da verdade, agarrar-se a mentiras, querer
pensar no acontecido, ter que escapar do frio,
tarefas incompatíveis... morrer de raiva,
de vergonha... salvar seu corpo, que não
a obedecia; sua mente, que não controlava...
“Ele
estava lá, eu senti isso. Não,
não estava, não vi ninguém.
Mas ouvi o barulho. Era ele? Quem mais? Por
que fugiu? Será que não me ama?
Covarde! Escondido como um verme. Não,
não vi ninguém. Não vi
ou não quis ver? Não, ele não
estava lá. Por isso não deixou
o esconderijo. Ele não me viu. Ele ainda
me quer. Eu o amo, eu o desejo, quero ser dele,
quero ele pra mim. Estou aqui por causa dele.
Tudo o que fiz foi pensando nele. Ele não
pode me abandonar agora. Não, estou aqui
porque quero ser livre, ter a minha vida, ser
feliz, amar. Não, estou aqui por causa
dele, nada mais. Nada mais importa. Não,
e eu? O que sou? Eu não existo sem ele.
Ele é tudo. Meu homem, meu amor. Estou
louca. Louca de desejo, de ódio, paixão,
solidão, amor, horror. Eu sou louca.
Como pude fazer isso? Será que não
penso? Sou eu, minha vida, não posso
jogar tudo fora. Eu existo, estou aqui, outra
vez, sozinha...”
Sua
mente, um campo minado onde tudo explodia ao
mesmo tempo. O vento frio não cessava.
O bonde não aparecia, nem mesmo um ônibus,
nenhum veículo, nenhum ciclista, nada.
Amsterdam, deserto negro. Congelava sob o abrigo,
enquanto seu cérebro era bombardeado
por pensamentos antagônicos, desconexos.
De repente, minúsculas flores brancas
começaram a cair do céu. Arrancada
do semitranse, espantou-se. Não havia
árvore alguma por perto. Aparou uma das
florezinhas na palma da mão, ela se desfez
numa gota d’água.
|
|
Seu
rápido retorno me surpreendeu. Pouco mais
de uma hora após ter saído Liz estava
de volta. Algo dera errado. Sua fisionomia perturbada
era uma máscara que não lhe assentava
bem. Abatida, pálida, cabelos úmidos,
olhos e nariz vermelhos... não parecia
mais a mulher vestida de sedução
que tinha encontro marcado com o prazer.
—
Você está bem? O que houve? —
minha preocupação obrigou-me a perguntar.
—
Eu estou congelando! Sabia que está nevando?
— falou, a caminho do banheiro. Abriu a
torneira de água quente, lavou as mãos,
molhou o rosto.
De
pé, junto à porta aberta do banheiro,
esperei que ela se recompusesse.
—
Estou arrasada! — confessou, desabando na
poltrona. — Tudo acabado.
—
Vocês brigaram.
—
Nem tivemos chance. Como eu pude ser tão
idiota? Ele me odeia, ele nunca me amou!
—
Não estou entendendo.
—
O Hendrik estava escondido no apartamento do Derek.
Como
percebeu que eu não compreendia coisa alguma,
resumiu, sem muita paciência, o acontecido.
—
Mas você não tem certeza disso —
falei. — Será que não está
se precipitando?
—
Eu estou cansada de achar que tudo sempre vai
dar certo, que os meus planos são possíveis.
Cansada de ouvir conselhos e sugestões
dos outros, cansada dessa droga de vida, desse
maldito relacionamento... Estou cansada de tudo!
Mantive-me
quieto enquanto ela extravasava. Nessas horas,
mesmo as palavras que pretendem reconfortar e
acalmar surtem efeito contrário. Irrompeu
numa crise de choro.
Desliguei
a TV. Tranquei-me no banheiro
para deixá-la sozinha, para não
presenciar sua tristeza. Queria abraçá-la,
confortá-la, mas essas possibilidades me
estavam vetadas. Nossa amizade nos unia, e também
nos afastava. Não, só o meu amor
fazia com que Liz se mantivesse à distância.
Meu rosto no espelho era uma máscara amedrontada,
mas, ao contrário da de Liz, assentava-me
muito bem. Estávamos juntos, dependíamos
um do outro, apenas começávamos
nossas novas vidas... O destroço humano
no cômodo ao lado ia de encontro às
expectativas que eu criara. Nossa primeira noite
em Amsterdam... e tudo já parecia em ruínas.
Início nada promissor. Eu também
não coincidia com as expectativas que havia
criado para mim próprio. Pensei que me
sentiria estimulado, contente em ser eu mesmo,
experimentar uma liberdade até então
inacessível... Como sempre, esperei demais,
sonhei alto. Precisava ser realista, prático.
O casal desencantado e deprimido que formávamos
não seria capaz de construir coisa alguma.
“Depende de mim!” O choque interno
me fez encarar meu reflexo. “Não
quero fracassar mais uma vez. Não posso,
não haverá outra oportunidade. Agora
estou aqui, responsável por mim, e por
Liz, precisamos nos ajudar. Tenho que ser forte.”
Quando
retornei ao quarto, ela já não chorava.
Tinha afastado as camas de solteiro uma da outra,
estava sentada na que havia escolhido para si.
Com ar ausente, olhava o teto. Fumava. Seria aquele
o tal skunk de que tanto me falara? Talvez. Com
aquilo era possível relaxar ou ficaria
ainda mais deprimida? Nada perguntei. Não
disse mais uma palavra. Liz não se encontrava
isolada apenas mentalmente, mesmo no plano físico
queria manter-se distante de mim. Procurei compreendê-la.
Devia querer ficar sozinha para pensar na vida,
em seus problemas — o que minha presença
dificultava.
Em
silêncio, deitei na outra cama, virei as
costas para a solidão de Liz.
|
|
Mortas.
Todas elas. Todas mortas. Afogadas no próprio
veneno. Dissolvidas no escuro líquido espesso,
vermelho-morte, que o absorvente interno não
conteve. Lágrimas uterinas, sumo de serpentes,
vergonhas, tristezas, desilusões, sentimentos
reprimidos, promessas não cumpridas...
Vermelho-morte vertendo vivo, manchando a roupa
de baixo, os lençóis, o colchão...
Ser mulher: estar condenada a sangrar, sangrar,
sangrar...
Concentrou-se
em prosseguir sua vida. A ajuda da maconha tailandesa
estava sendo valiosa. Esquecer aquela questão
— ainda que temporariamente — era
tudo o que precisava. Pensar de forma positiva.
Sua vida mal despontava num horizonte a ser
explorado. Às vezes parecia absurdo ter
fundamentado sua futura existência em
companhia incerta, promessa forjada. Tinha que
continuar olhando para frente, para o lado também:
Leon estava ali, dependia dela, tanto quanto
ela dependia dele. Confuso e necessário
vínculo que, às vezes, também
soava absurdo em meio ao oceano de absurdidades
em que nadava. De certo modo, pusera Leon naquilo.
Se não fosse pelo compromisso assumido,
pela vontade de vê-lo feliz, por ele tê-la
ajudado a chegar até ali, talvez ainda
estivesse imóvel numa cama de hotel sob
efeito de maconha, chorando e se lamentando.
Ainda que silenciosa, a presença de Leon
forçava-a a demonstrar amor-próprio,
não era uma romântica desmiolada,
ainda pretendia encontrar um trabalho que a
satisfizesse, um lar que a agradasse.
Procuraram
nos jornais as ofertas de aluguel. Liz traduzia
os anúncios com um pequeno dicionário
holandês-inglês. Apartamentos restritos,
afastados do Centro, muito caros. Nos classificados,
descobriram anúncios de imobiliárias.
Foram a uma delas, mas nada conseguiram: não
era uma boa ocasião para alugar imóveis,
no verão a oferta seria maior. A chuva
e o frio eram inimigos aliados na tentativa
de expulsá-los de Amsterdam. Com roupas
impróprias ao inverno, corriam pela cidade,
buscando, de tempo em tempo, abrigo em lojas
aquecidas. Pararam numa central telefônica.
Liz telefonou para algumas imobiliárias.
Ouviu respostas semelhantes a do estabelecimento
que haviam procurado pessoalmente. Unanimidade
impressionante. Seria possível que em
Amsterdam não existisse um único
apartamento vago, pronto a ser alugado? Leon
tentava disfarçar sua apreensão
e impotência, mas ela o percebia nas poucas
palavras de estímulo que ele lançava.
Tentar outras imobiliárias parecia perda
de tempo. Fome, cansaço e desânimo
crescentes também eram inimigos, impossíveis
de ignorar.
Depois
de uma pausa num fast food, voltaram
ao telefone. Mais três imobiliárias,
a mesma resposta. Último número,
última chance. A voz de uma pessoa idosa
atendeu do outro lado. Liz repetiu a mesma pergunta
sem muita esperança. A curiosidade da
senhora em saber que tipo de imóvel Liz
buscava, subitamente a animou: ninguém
havia feito aquela pergunta óbvia. Apartamento
pequeno para duas pessoas, não precisava
ser no Centro, aluguel de até 900 gulden...
Sim, havia um imóvel em tais condições.
Um amplo sorriso iluminou o rosto de Liz.
Mais
do que um bairro afastado do Centro de Amsterdam,
Diemen era quase outra cidade. A noite estava
ainda mais fria e úmida que a tarde.
O bonde que haviam tomado próximo ao
hotel parecia não chegar nunca ao destino.
Liz já começava a achar distante
demais o tal apartamento, o que antes parecia
sorte agora se assemelhava a um grande equívoco.
Olhou para Leon. Ele também se mostrava
impaciente com a demora.
As
ruas quase vazias, pouco iluminadas eram desfiladeiros
de prédios esquisitos, que pareciam abandonados.
Andaram em meio ao deserto de blocos de concreto
sem achar o endereço fornecido pela senhora
da imobiliária. No detalhado mapa de
Liz constava apenas parte de Diemen. Sem o menor
atrativo, o local lembrava uma cidade-dormitório.
Dirigindo-se em inglês a um casal, Liz
indagou sobre o endereço procurado. Não
o conheciam. Num bar, fez a mesma pergunta,
e obteve a mesma resposta. Desistiram da busca.
Era
tarde quando chegaram ao hotel. A recepcionista
informou que um homem os procurara, uma mulher
tinha ligado várias vezes. Entregou a
Liz um bilhete: nome e número do telefone
da senhora da imobiliária. No quarto,
ligou para Mrs. Arezzo. Aborrecida, a mulher
quis saber o que tinha ocorrido. Liz explicou
que, conforme o combinado, haviam tentado chegar
na hora marcada no endereço em Diemen,
sem encontrá-lo. Mrs. Arezzo falou que
o combinado era esperarem no hotel pelo dono
do imóvel, que os levaria de carro até
Diemen. Liz se desculpou pelo engano, aproveitando
para dizer que não estava mais interessada
no apartamento. Mrs. Arezzo lamentou a confusão,
pediu que Liz voltasse a ligar em dois dias,
quando já deveria ter novo imóvel
disponível.
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Liz
achou melhor trocarmos o hotel pelo Albergue da
Juventude. Precisávamos economizar. Eu
ainda estava intranqüilo com a dificuldade
em encontrar um simples cômodo para nos
abrigar no início da nossa jornada. Para
conseguir emprego era imprescindível possuir
domicílio. Uma série de vínculos
formava barreiras a serem transpostas. A disposição
de Liz me surpreendia. Quando necessário,
uma mulher admirável emergia do monte de
escombros, alheia a dores, sofreres e pesares.
Não havíamos mais falado sobre Hendrik,
e o incidente entre ambos. Ela devia estar se
esforçando em esquecer o episódio
ocupando-se com assuntos mais urgentes.
No
dia marcado Liz telefonou para Mrs. Arezzo,
que nos convidou ao seu escritório —
novo imóvel em vista.
A
figura de Mrs. Arezzo dava vontade rir: a volumosa
cabeleira eriçada lembrava o topete de
uma cacatua. Nariz adunco plantado no meio do
rosto enrugado, olhos miúdos, voz aguda
e roupas fora de moda complementavam o aspecto
engraçado. No escritório, decorado
com simplicidade, um infeliz espelho na parede
me refletia envolto num horrendo sobretudo surrado
e antiquado, que o frio me forçara a
vestir. Eu devia ser uma figura igualmente cômica
para Mrs. Arezzo, talvez até me achasse
ridículo também. Ela conversou
com Liz num inglês cheio de sotaque, fez
perguntas. Liz foi sincera revelando nossa situação,
preferia ser verdadeira e ganhar a confiança
da velha a inventar mentiras que nos prejudicassem
mais tarde. Tentando prestar atenção
no diálogo em inglês, compreendendo
as frases de Liz melhor do que as de Mrs. Arezzo,
não entendia o que estávamos fazendo
ali, sendo submetidos àquele interrogatório.
A campainha tocou. Enquanto a senhora atendia
à porta, Liz me explicou que outra pessoa
nos levaria ao apartamento disponível.
Mrs. Arezzo voltou seguida de um homem de traços
orientais elegantemente vestido. Apresentou-nos
a Mr. Cliff. Alto, jovem, bonito, trajando um
belo sobretudo preto por cima de um terno não
menos alinhado, Mr. Cliff era a imagem do homem
bem-sucedido. Para nos cumprimentar, ele retirou
as luvas de couro. Depois de apertar sua mão
aquecida com a minha, gelada, afundei na poltrona,
com vontade de desaparecer em meio aos trapos
que me envolviam. Apesar de também estar
meio mal-vestida, Liz era de uma desenvoltura
tocante. Integrada numa conversa da qual fazia
parte, não parecia preocupada com as
futilidades de ordem estética que me
consumiam. Do fundo da poltrona eu assistia
aos amistosos diálogos entremeados por
sorrisos.
Em
seu moderno carro, Mr. Cliff nos levou a uma
rua sem saída. Depois de muitas e muitas
voltas eu não sabia em que parte da cidade
estávamos. A noite caiu tão de
repente que vimos o apartamento, sem luz, no
terceiro andar de um prédio antigo, às
pressas. Em meio à penumbra, o espaço
nos pareceu bastante razoável. Resolvemos
alugar o imóvel.
No
dia seguinte voltamos ao escritório de
Mrs. Arezzo para fechar negócio. “Vocês
têm sorte! Vocês têm sorte!”,
repetia ela como uma cacatua eufórica,
em alusão à rapidez com que tínhamos
conseguido alugar apartamento na cidade quase
sem ofertas. Nunca pensei que tudo pudesse ser
tão simples. Passaporte português
e dinheiro, condições suficientes
para que Liz assinasse o contrato de aluguel
por cinco meses. Entregamos um maço de
notas com o valor dos encargos e taxas, e o
equivalente a dois meses de aluguel como depósito.
Enquanto Mr. Cliff e Mrs. Arezzo dividiam parte
do dinheiro, eu e Liz olhávamos as duas
chaves maravilhados com a oportunidade que parecia
um milagre. Os 1.200 gulden mensais
haviam ficado acima de nossas expectativas,
mas quando Mr. Cliff informou que os custos
de água, luz e gás estavam incluídos
no valor do aluguel, achamos que não
tínhamos feito um mau negócio.
Mrs. Arezzo devia estar certa: nós tínhamos
sorte.
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