Lisboa havia mudado muito nos últimos nove anos. Lembrava da primeira vez em que estivera naquela cidade colorida, alegre. Estava em férias, era verão, ainda era tão jovem... Agora tudo estava cinzento, triste. Não era mais tão nova, vinha resolver problemas, era inverno. Pela janela do táxi, Liz olhava desapontada uma Lisboa irreconhecível.
            A simplicidade do quarto no hotel barato não a desagradou. Leon observou que a única janela do cômodo dava para um muro alto que escurecia o ambiente. Para Liz isso não tinha importância, passariam pouco tempo no quarto.
            Quanto mais rápido agissem, menos gastariam, mais sobraria para o início de suas vidas em Amsterdam. Começava a se impacientar. Calcularam mal a chegada no fim de semana. Dois dias perdidos. Queria transpor logo aquela barreira inicial. Cidadania portuguesa. Graças a seus pais — que haviam deixado o país natal para nunca mais voltar — ela agora fazia o caminho inverso.
            Precisavam matar tempo. Apesar da noite mal dormida na poltrona da classe turística, ainda era cedo para se deitarem. Fazia frio. Vestiram os casacos, saíram.
            Deambularam pela cidade cinza buscando algo que os distraísse, mas não conseguiam relaxar. Liz tentava sorrir, mas o esforço que se impunha para evitar pensamentos inconvenientes lhe pesava. Ainda não era hora para aquilo. Olhava o rosto de Leon, empenhado na mesma vã tentativa de apreciar Lisboa. Nada encontravam para salvar o resto de dia.
            Acabaram jantando num restaurante, bem mais cedo do que gostariam.
            Ao cair da noite o frio aumentou. Os casacos que vestiam eram inadequados ao inverno noturno. A passos rápidos, fizeram o caminho de volta ao hotel.

            O muro bloqueando a janela do quarto ajudou-os a acordar na parte da tarde. No hall descobriram que o frio do lado de fora era maior do que supunham. Vestiram várias camisas de manga comprida por baixo dos casacos antes de saírem.
            Liz levou Leon aos convencionais pontos turísticos da cidade. O que não estava fechado para reforma tinha preço que parecia não compensar a visita.
            Caminhando ao longo da avenida que beirava o Tejo, foram seduzidos por uma cafeteria. Apesar do vento frio, sentaram a uma das mesinhas ao ar livre. Pediram chocolate quente.
            — Você não me parece muito animada — falou Leon.
            — Eu estava pensando o mesmo de você.
            — Me sinto estranho, inseguro...
            — Eu também. Achei que tudo ia ser menos tenso. Tenho até medo de não saber o que fazer quando não tiver mais esse peso em cima de mim.
            — Tudo o que é novo assusta no início. Com o tempo você vai se acostumar.
            Ele falava como se não fizesse parte do mesmo jogo no qual haviam se lançado. Ela sentia-se responsável por Leon. Arriscavam-se numa partida em que deveriam fazer lances individuais para o bem de ambos.

            Já rasguei três folhas do caderno que trouxe para escrever. Estamos na Europa, mas não me sinto satisfeito como esperava. Serei eu? Será Liz? Será essa cidade estranha que já me parece abominável no segundo dia?
            Por que escrever o que sabemos? Para não esquecer? Para outros lerem? Escrever... ato estúpido, inútil. Por que vacilo diante da folha em branco? Por mais que se escreva, as páginas nunca se completam, impossível contar tudo... e depois, pra quê?
            Não estou bem. Ansiedade. Esperança e medo delineiam o futuro incerto, modelam em mim o outro no qual me transformarei. Devo estar cansado de não ter o que fazer, andar de um lado a outro tentando encontrar o que prenda a atenção. Procuro me tranqüilizar ou simplesmente enganar-me? Cedo demais para me desesperar. Tarde demais para voltar atrás. Preciso manter a calma. Tranqüilidade, mentira na qual preciso acreditar.

            Jamais a tinha visto tão ativa numa segunda-feira pela manhã. Nem mesmo chuva, vento e frio foram capazes de desanimá-la. Sua determinação era comovente. Conhecia Liz há muito tempo, mas às vezes ela parecia uma estranha, movida por anseios que eu ignorava. Seus passos decididos, o mal-humorado mutismo matinal, a pressa... tudo me transformava num mero acompanhante seguindo em seu encalço.
            A entrada na papelada correu sem complicações. Mas Liz se aborreceu por só poder pegar a certidão de nascimento portuguesa no dia seguinte: atraso de um dia no pedido do bilhete de identidade, possível apenas com a certidão.
            Um dia inteiro pela frente e eu só pensava num modo eficaz e econômico de matá-lo. A chuva havia cessado, o vento continuava frio. Andamos a esmo. O clima em desacordo com nossos casacos nos hostilizava. Encontramos um shopping. Muitas horas poderiam ser aniquiladas ali, no súbito conforto do ambiente aquecido.
            Trocamos cheques de viagem, almoçamos, escrevemos e enviamos cartas, olhamos vitrines, entramos em lojas... A tarde se arrastava. Liz teve a idéia de irmos ao cinema, e acabou escolhendo um filme americano.
            Só agora, de volta ao hotel, depois do banho quente, estendido na cama, me dou conta do cansaço que me domina. Minhas pernas e pés estão doloridos de tanto caminhar, subir e descer ladeiras, escadas... Minha mente, ao contrário do corpo, está bastante ativa: idéias, sentimentos e emoções dançam uma valsa estranha, giram num complexo rodamoinho que as funde, distorce, mas não as dissipa.

            Mais um dia, menos um dia... todos tão semelhantes... Ainda é ontem ou já estamos no fim do dia de hoje? O cansaço físico me atordoa. Outra vez na mesma cama, mesmo quarto escuro, mesmo hotelzinho barato. Novamente a fadiga que me crava no leito no fundo da cela do calabouço. Minhas pernas não me pertencem, meus pés são extremidades torturadas. Andar, andar e andar, subir e descer, tornar a subir, tornar a descer, sempre, incessantemente, até perder as forças.

            Não existe a beleza sem a feiúra. Esforçar-me na tentativa de observar o belo só me faz ter a exata noção do meu triste aspecto. Sinto-me terrivelmente feio, mal-vestido, esquisito, como se não fosse mais eu mesmo. Quem serei? Um espantalho. Sou um espantalho, e Liz é uma mulher atraente. A brutal diferença entre nós é cada vez mais nítida. Caminhamos lado a lado nas ruas, quase todos os homens olham para ela — talvez surpresos ao nos imaginarem juntos. Seriam tão idiotas? Essa tolice me faz rir interiormente, como se eu tivesse um belo prêmio apenas perante os olhares incautos dos homens estúpidos. Isso não me consola.
            E Liz, o que sente? Não sei mais. O que sei é que não é justo sobrecarregá-la com meus temores — ela já tem muito com que se preocupar. Preciso ajudá-la a prosseguir. Tenho que ser um fardo leve.

           De posse do bilhete de identidade, começou a se ocupar com a questão do casamento. Não foi simples encontrar em Lisboa o que correspondia aos cartórios brasileiros. Depois de muito perguntar, acharam o endereço de um notário. Uma extensa fila de casais se dispunha desde a base da longa escada até a ante-sala do estabelecimento. Não se via um único funcionário. Liz abriu uma porta, entrou com Leon numa sala. Atrás de uma mesa cheia de papéis, uma mulher perguntou o que desejavam. Liz explicou a situação. A mulher, voltando a se ocupar dos papéis, pediu que retornassem em um mês, estavam com a agenda repleta.
           Tentaram ajuda no Consulado do Brasil. Formulários, certidões, atestados, fotos, comprovação de residência em Portugal... Dando entrada nos documentos solicitados, teriam que mandar publicar um edital no jornal. Depois disso, precisariam aguardar 15 dias para obter o certificado de capacidade matrimonial, quando só então poderiam dar entrada nos papéis do casamento.
           Supunham que o processo não fosse fácil, mas não imaginavam tantos empecilhos. Liz estava aflita, o casamento com Leon era parte importante dos planos. Mas não queria esperar em Lisboa o cumprimento daqueles prazos absurdos, nem gastar com estadia durante tanto tempo. Precisavam achar outra saída. Leon teve a idéia de telefonar para uma amiga dos tempos da faculdade que morava atualmente em Madri e trabalhava na Embaixada do Brasil.
           Por telefone, Verônica adiantou que o ideal seria casarem na cidade onde pretendiam morar. Leon quis saber detalhes sobre o visto de residência, mas a amiga não sabia explicar as exigências na Holanda, precisava pesquisar. Pediu que Leon ligasse no dia seguinte, quando teria mais informações.
           Liz tranqüilizou-se, nem tudo estava perdido. Mais um dia e pegaria o passaporte — último documento pendente —, estando livres para deixar Portugal. Casamento adiado. Procurou não pensar no assunto, tudo se resolveria na Holanda. Leon parecia bem, e tão ansioso quanto ela em deixar a cidade. Numa agência de viagens descobriram que o preço das passagens aéreas para Amsterdam era alto demais. Restava-lhes a viagem de trem. Na estação, souberam que não existia trem direto de Lisboa para Amsterdam. O percurso mais longo ia até Paris. Leon sugeriu que fossem até Madri, onde poderiam rever Verônica, e se informar melhor sobre a questão do casamento.

           Para agilizar a partida, no dia seguinte se dividiram. Liz foi buscar o passaporte. Leon fechou a conta do hotel e levou a bagagem à estação ferroviária.
           Acabaram perdendo os trens da manhã. Liz não esperava encontrar uma fila tão grande para a entrega do documento. Agora o único trem com destino a Madri partiria às 22 horas. Compraram os bilhetes. Tentaram relaxar. Bem ou mal, uma etapa tinha sido ultrapassada.

            Embora tentasse não demonstrar, eu estava preocupado. O casamento era decisivo para mim. Teria conseguido enganá-la? Liz parecia tão ocupada consigo mesma... Meu público aumentava: agora tinha que representar o personagem tranqüilo para mais dois.
            Assim que descemos na plataforma da estação fomos recebidos por Verônica e o marido, que pareceram contentes em nos rever. Fazia três anos que eu não os encontrava. No carro, Liz e eu lhes contamos nossos planos.
            O apartamento de Verônica e Francisco não era grande. Apesar de não aparentar desordem, quando entramos, ela se desculpou pela bagunça. Disse não ter mais tempo para afazeres domésticos desde que começara a trabalhar na Embaixada. Por mais de dez anos, nas cartas que me enviava, ela se queixava da sensação de inutilidade por não encontrar um emprego que a tornasse participativa, reclamando de não fazer outra coisa senão cuidar da casa. Agora Verônica era outra. O trabalho com os turistas em dificuldades e imigrantes em situação irregular era cansativo, mas a satisfazia. Muito oportuno encontrar no caminho alguém tão próximo capacitado a nos ajudar. Nossa repentina sorte me animava.
            Verônica havia conversado com um vice-cônsul, que indicara o casamento como única forma de eu obter a carteira européia de residente. No Registro Civil da cidade onde pretendíamos fixar residência saberíamos a documentação necessária ao matrimônio. Mesmo antes de Liz arranjar emprego, deveríamos dar entrada nos papéis, já que os trâmites eram lentos. Meu visto de turista e a passagem aérea tinham validade de três meses, não podíamos perder tempo.
            Mesmo após os esclarecimentos fiquei em dúvida se podia me tranqüilizar. Liz parecia alheia àqueles fatos, como se não lhe dissessem respeito. Talvez estivesse certa: inútil preocupar-se por antecipação. Passávamos o fim de semana em companhia de amigos que não víamos há tempos, melhor não desperdiçar a oportunidade.
            Verônica nos mostrou o apartamento fazendo comentários humorados sobre os móveis que não combinavam entre si. Dizia que Francisco tinha gostos muito diferentes dos dela.
            Depois do almoço, saímos para dar uma volta na cidade. No banco de trás do carro, olhei de relance para Liz, ao meu lado. Pensativa, inquieta, ela havia adotado uma mudez que parecia protesto. Quando Verônica ou Francisco conseguiam despertar sua atenção, ela sorria. Liz também representava, mas sua péssima atuação começava a me constranger. Por que ela não relaxava? Tinha conseguido resolver em menos de uma semana a questão dos documentos em Lisboa, devia estar saltitante de alegria.
            O passeio pelo Centro não durou muito. Verônica e Francisco acabaram nos levando ao estabelecimento onde compravam os móveis com que decoravam o apartamento. O lugar era tão grande e estava tão cheio que fiquei desanimado. Francisco e Verônica buscavam nossa conivência na tentativa de convencer o outro de que determinado estilo era mais apropriado à decoração que faziam. Liz se esforçava tão pouco em seus sorrisos complacentes que era de se admirar que nossos amigos não o notassem. O desconforto de Liz me pesava. Sentia-me culpado. Aquele devia ser o último lugar na Terra onde ela gostaria de estar. Eu não prestava atenção em mais nada. E tinha que sorrir, opinar à esquerda, palpitar à direita, achar tal móvel bonito, tal peça prática... Evitava olhar para Liz, mas isso não me aliviava. O que estávamos fazendo ali, observando um amontoado de mobília que não tínhamos interesse em comprar? O que esperar de nossos anfitriões entusiasmados em nos ciceronear? Entediado, buscava uma justificativa para o comportamento que por vezes assumem certos casais. A vida de Verônica e Francisco parecia acomodada na rotina casa-trabalho-trabalho-casa, com freqüentes idas ao “mercado de decoração”. Todos os casamentos sempre convergiam para um ponto restritivo? A idéia de conviver com a mesma pessoa durante dez anos me pareceu uma condenação. Como faziam depois que o amor acabava? Acostumavam-se com a presença do outro? Precisavam apenas de companhia? A história do casamento com Liz, ainda que fictício, me fazia pensar melhor nas pessoas que decidiam se unir a outra. O que significava aquilo? Que não eram capazes de lidar com a solidão, que necessitavam de muletas para prosseguirem? Que estranho desejo era aquele de abrir mão da individualidade para construir algo — o quê? — com outro em semelhantes condições? Uma família? Uma simples e mísera família? Parecia tão pouco... Eu radicalizava julgando a maioria das pessoas incapacitada a viver satisfeitas consigo mesmas, achando que fora da cama — talvez mesmo sobre ela — a vida conjugal não passasse de um desfiar de sensaborias, constantes renúncias. Verônica e Francisco, Sílvia e Daniel, meu irmão e sua mulher... havia algo comum àqueles três casais completamente diferentes que me incomodava. Ninguém tinha conseguido preservar integralmente a individualidade. Era isso o casamento? Deixar de ser quem era para poder viver com outro? Então casar era se trair. Ou se transformar... E amar?, também era deixar de ser fiel a si próprio? Estava confuso. Precisava forjar um casamento, necessitava de um papel com minha assinatura e a de Liz, atestando uma farsa, comprovando uma verdade mutilada para começar minha nova vida... Transformação? Traição? Não, meu amor era unilateral. A um só tempo fiel e infiel a mim mesmo. Meu casamento, nosso casamento... mentira, caridade, desagrado... Isso estava longe de parecer um bom começo.

            Noite de sono. Sem sonhos. Dormir, descansar, deixar de existir para o mundo, ignorar a existência do mundo inteiro... Acordar, voltar a viver, lembrar, pensar, sofrer...
            Meu cérebro, instrumento de tortura destinado a me enlouquecer, eficaz, cansativo. Madri, dia seguinte a nossa chegada, eu, deitado num colchonete no chão do quarto de hóspedes, voltado para a parede, uma vez mais retornando à vida, lembrando do mundo, pensando em mim mesmo, confinando-me à câmara de torturas constituída por meu cérebro.
            Por que simplesmente não vivo e deixo os outros viverem em paz? Que absurda necessidade é essa de querer entender, julgar, justificar tudo e todos? O que garante que obtendo respostas a meus questionamentos me sentirei melhor? Nada. Absolutamente nada. Isso jamais será possível. Minhas perguntas sem resposta existirão sempre, algo em mim as formula a cada nova situação. Neurose, doença, deficiência... Diagnóstico típico de quem não terá paz em vida. Paz... palavra que combina perfeitamente com outra: morte. Sensação digna dos que merecem repousar... descanso eterno. Estou vivo, não tenho direito à paz.
            — Se eu tiver que ficar aqui mais um dia, vou enlouquecer — Liz me fala.
            — Eu também — confesso. — Adoro eles, são gentis, nos ajudaram, mas...
            — Não vejo a hora de chegar em Amsterdam, e ainda estamos tão longe!...
            — Tudo bem. Assim que eles acordarem a gente fala que está indo embora.
            — Que bom que você concorda, eu achei que ia ficar chateado comigo. Pensei que a gente ia ter tempo de conversar ontem à noite, mas você caiu logo no sono...
            — Eu também queria conversar, mas estava exausto da noite mal dormida no trem.

            À mesa do café, Verônica e Francisco se mostraram surpresos com a notícia de nossa partida. Liz argumentou que não podíamos perder tempo, por causa da burocracia.
            Verônica nos levou ao seu quarto. Guardava roupas de inverno usadas. Na grande mala sob a cama de casal, a maioria das peças era feminina. Liz, agradecendo a boa vontade da amiga, não escolheu roupa alguma. Não tive alternativa: a única peça masculina era um feio sobretudo, semelhante a um roupão, tramado num graúdo pied-de-poule preto e branco. Verônica insistia para eu experimentá-lo. Pensei em recusar a oferta, mas fiquei sem jeito e acabei aceitando o horrível sobretudo. “Um novo traje para o espantalho”, pensei, vendo-me no espelho.
            Compramos passagens de trem até Paris, de onde, em outro trem, seguiríamos para Amsterdam.

            A viagem noturna, dividindo espaço no vagão-leito com pessoas estranhas, foi quase insone para mim. Chegamos numa Paris chuvosa, ainda mais fria que Madri.
            Liz não estava bem, reclamava de cólicas. Tudo ficou a meu encargo na estação. Tivemos sorte, o próximo trem para Amsterdam não tardaria a partir. Nossa escala em Paris duraria menos de duas horas.

            Suas entranhas, ninho de serpentes agitadas. A noite inteira incomodada por cólicas que não a deixaram dormir. Há muito não tinha aquelas dores, e com tal intensidade. Detestava lembrar através daquele modo desagradável que era humana, mulher fadada a sangrar uma vez por mês. Pouco antes de deixar o Brasil havia sentido dores que não conseguira classificar como parte daquele processo mensal. Achou que talvez o DIU que usava tivesse se deslocado, mas as cólicas cessaram ao fim de dois dias. Agora, as dores novamente. A noite no vagão-leito foi cheia de sonhos confusos que parecia ter acordada, entre uma pontada e outra: os olhos de Hendrik, a boca de Hendrik, os cabelos de Hendrik... ele falava, gritava algo que ela não podia ouvir... era ele, não era ele, sem rosto, sem olhos, sem boca... Ela chegava a Amsterdam e descobria que Hendrik não existia, tudo havia sido um pesadelo, como o que tivera à noite, picada por mil serpentes.
            Hendrik ainda existia, sabia que sim. Devia estar lá, na cama, no quarto, dormindo como criança, como anjo... como homem, homem dotado de corpo, braços, pernas, sexo... homem do qual sentia falta agora que ia ao seu encontro... precisava ser estreitada por um abraço masculino, preencher o vazio esterilizante, aplacar as dores em seu ventre... Hoje, ainda hoje estariam juntos. Seria dele, ele seria seu. Sim, nada iria detê-la, nada. Nem frio, nem noite, nem o próprio Hendrik... nada, nada, nada...
            O trem corria para Amsterdam, mas a impaciência a fazia pensar que ainda estavam na estação. Em quatro horas estaria de volta ao lugar onde os sonhos se materializavam, o passado não contava, onde era possível esquecer o que nunca tinha importado, iniciar tudo do zero, ser ela mesma, livre, feliz... Entregava-se a devaneios, agora não havia mais motivos para se reprimir. O que iria fazer, como se portaria, como seria recebida?... tudo importante... insignificante. Não adiantava pensar nisso, não agora, não mais... Na hora certa saberia o que fazer.
            O vagão estava cheio de gente alegre, falante. Leon, a seu lado, olhava a paisagem. Ela, com fones de ouvido tocando músicas sucessivas, não percebia nada disso: viajava solitária num vagão deserto, olhos vendados, ensurdecida pelo silêncio maciço de mil instrumentos tocando ao mesmo tempo, encerrada em sua caixa craniana, aguardando ansiosamente o instante de voltar à vida.
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