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Um
giro de 180 graus. Estranho como uma pergunta tem capacidade
de mudar tudo. Já não acreditava que algo
novo pudesse me acontecer, agora estou cheio de expectativas.
Talvez eu tenha sorte. É minha única chance,
preciso aproveitá-la. Nada me prende aqui. Tudo
mudou. O tédio e o vazio cederam lugar a planos
e idéias, problemas e obstáculos que agora
preciso resolver, transpor — dificuldades que só
me incentivam. Mas sei que nossa partida não será
fácil para ninguém.
Estou
com medo dessa decisão quase suicida. Liz também.
Na última noite que passei em sua casa, depois
de muita conversa organizando nosso novo projeto, ela
insistiu em que jogássemos o I Ching.
Relutei, não queria conhecer uma resposta que talvez
me desanimasse. Dizendo ter ficado mais tranqüila
depois de saber o que lhe reservava o antigo livro oriental,
Liz acabou me convencendo. Mentalizei a pergunta, joguei
as moedas, formei o hexagrama. Ficou perplexa, eu tinha
formado a mesma figura que ela na noite anterior. No livro,
leu o julgamento: “Para conseguir sucesso absoluto,
as forças criativas do indivíduo devem ser
aplicadas constantemente. O progresso em direção
ao que é fundamental na vida só pode ser
alcançado ao longo do caminho harmonioso com as
leis do universo. Pode-se ter grandes idéias, mas
é a aplicação da força criativa
que as torna realidade. Se as idéias não
estiverem de acordo com a verdadeira natureza das coisas,
ou se o caminho for tortuoso, a grandeza não poderá
ser alcançada.” Resposta razoável,
mas não fiquei tranqüilo. Liz disse que minha
terceira linha tinha sido formada por um 9, havia um adendo
a ser lido. Ela prosseguiu: “A porta para a realização
está se abrindo, mas seguir o caminho exige integridade
inabalável. Ambição e louvores imerecidos
podem levar para longe do que é certo”.
Algo
me une a Liz de uma forma que me assusta. Às vezes
penso que só eu tenho necessidade dela, mas em
outras ocasiões sinto que é ela quem precisa
de mim. Estarei enganado?
Já
não conta com Hendrik. Acha que ele a enganou.
Ainda está abalada, mas se esforça em não
demonstrá-lo. Ainda o ama, não pode ter
se desinteressado dele tão depressa. Sou um arremedo,
um pseudo-substituto. Ela foi muito rápida em me
convidar para a viagem, e eu mais rápido ainda
aceitando. Terá agido por impulso? Terei me precipitado?
Sete
dias haviam se passado desde que Liz me fizera a proposta
da viagem. Ela não tinha se arrependido. Comecei
a tomar as providências necessárias. Liz
parecia ter pressa em resolver tudo para partirmos, mas,
estranhamente, era dominada por uma espécie de
inércia. Estava decidida, mas não agia.
Por que não vendia logo o carro? Eu tinha impressão
de que me convidara a participar do projeto só
para não ter como voltar atrás. A pressa
inerte de Liz me incomodava.
Quando
ela chegou na minha casa eu já havia traçado
um roteiro. Fomos ao centro da cidade. No banco, enquanto
aguardávamos na fila, Liz parecia apreensiva,
como se fosse a única responsável pelo
passo que me fazia dar. Tranqüilizei-a dizendo
ter consciência dos riscos. Retirei todo o dinheiro
economizado durante cinco anos.
Compramos
as passagens aéreas. Segurava o bilhete como
algo precioso: minha liberdade. Em outro banco, troquei
o restante do dinheiro por cheques de viagem.
No
dia seguinte, dei entrada na renovação
do passaporte.
Não
há mais dúvidas quanto a nossa partida.
Preciso contar em casa nossa decisão. Minha mãe
não ficará feliz. Terei de compreendê-la.
Ela também vai ter que me entender.
Nossos
planos começam a se definir. Se tudo correr bem
no pedido de cidadania portuguesa de Liz, e no nosso
casamento, nos separaremos em Lisboa, sem criar dependência.
Liz acha melhor andarmos com as próprias pernas
desde o início.
Precisava
fazer uma arrumação definitiva no meu
quarto. O que levar na mala de uma viagem na qual a
vida começa a partir do zero? Nada de livros,
fotografias, CDs... Aparelho de
som, TV, vídeo, computador...
de quanta coisa teria que me livrar!... Por que me preocupar
com aquilo se não pretendia voltar? Não
voltar mais... Idéia desejável, assustadora.
Rasguei e joguei fora papéis, revistas velhas,
recortes de jornal. Separei livros a serem doados, roupas
mais úteis a pessoas necessitadas. Minha bagagem
não pesaria muito.
Depois
do almoço continuei no quarto, na cama, cansado
da arrumação. Na varanda, minha mãe
e minha avó traçavam metas para o ano
seguinte: queriam mudar de casa. Eu ainda fazia parte
dos planos delas — mesmo que não me consultassem
a respeito de nada. Da cama, as ouvia, e a cada palavra
que diziam mais culpado me sentia.
Minha
mãe entrou no quarto. Despreocupada, perguntou:
—
Quais são os seus planos pro ano que vem?
Não
podia mais enganá-la. Com voz firme, falei tudo
de uma vez. Ela começou a chorar. Tentei fazê-la
compreender minhas necessidades.
Refeita
do choque, começou a fazer perguntas. Achava
arriscado tentarmos a sorte onde nada parecia nos favorecer.
Havíamos consultado advogado sobre o casamento?
Respondi que era tudo um acordo, uma farsa. Como faríamos
para encontrar emprego e apartamento? Para tranqüilizá-la,
menti, afirmando que Liz já arranjara trabalho
por lá; com o salário dela alugaríamos
apartamento — mentira dupla. Falei que talvez,
no início, eu não tivesse dificuldade
em conseguir um trabalho simples. Acreditando em mim
ou não, minha mãe pareceu menos preocupada.
Minhas mentiras tranqüilizadoras eram um trunfo
contra o qual ela nada podia. No entanto, longe de me
tranqüilizar, as mentiras só aumentavam
meus temores.
Liz
pediu que eu fosse até sua casa. Precisava conversar
comigo pessoalmente.
Quando
cheguei, ela arrumava o armário. No chão
do quarto, dois grandes sacos de lixo já estavam
cheios. Havia tido idéia semelhante à
minha, só que em maiores proporções.
—
Você não acha que essa limpeza drástica
vai acabar chamando a atenção? —
perguntei.
—
Melhor, assim eu já vou preparando o espírito
do pessoal quando tiver que contar tudo.
—
Eu já dei a notícia lá em casa.
—
E qual foi a reação delas?
—
A minha mãe até chorou, a minha avó
ficou chateada, mas acabaram entendendo.
—
Você tem sorte...
—
Mas eu precisei mentir. Falei que você já
estava com emprego garantido.
—
Eu vou ter que mentir bem mais... Queria já ter
contado tudo.
Ofereci
ajuda na arrumação do quarto, mas Liz
preferiu fazer tudo sozinha. Sentado na cadeira, fiquei
observando sua faxina obstinada.
Abriu
a parte de cima do armário, retirando pastas,
papéis, tintas, pincéis... antigo material
da faculdade. Despejou tudo no meio do quarto, e começou
a fazer uma rigorosa seleção. Nada parecia
ter valor. E rasgava, picava, amassava... Eu acompanhava
sua tentativa de se livrar do passado. Abriu uma pasta
que continha duas séries de desenhos que havia
feito na oficina de gravura, lembrei deles assim que
os vi. Começou a rasgá-los, mas eu a detive.
Apanhei uma gravura de cada. Ela parou um instante,
riu, e continuou rasgando os demais papéis.
Um
dos desenhos representava uma mulher presa no fundo
de uma cela escura. Nua, esquálida, braços
envolvendo os joelhos, pés acorrentados, ela
voltava seu rosto sem olhos em direção
à luz que passava pela minúscula janela
junto ao teto. Seus cabelos longos compunham uma massa
informe, que a envolvia e ao mesmo tempo se afastava
dela, como fumaça. Um auto-retrato?
Na
outra gravura, um assustador boneco de molas saltava
de uma xícara segura por mãos femininas.
Atado ao corpo do boneco, uma corda esticada na qual
dois malabaristas vestidos de palhaço tentavam
equilibrar-se controlando clavas que giravam no ar.
Na corda, que não determinava onde a outra ponta
findava, um dos palhaços se equilibrava com perfeição;
o outro, numa seqüência de movimentos descendentes,
caía com clavas e tudo, diante das gargalhadas
do boneco de molas. Outro desenho premonitório?
De repente, as duas gravuras me pareceram bastante significativas.
Revelavam o que eu via e não queria acreditar?
Por que, apesar de distintas, pareciam relacionadas?
Em quê Liz pensava quando as concebera? Por que
apenas agora pareciam fazer sentido? Eu exagerava, estava
impressionado, só isso. Desenhos feitos há
uma década, nada mais.
—
Não vai querer mesmo esses desenhos? —
indaguei, mostrando as duas gravuras.
—
Não. Se você quiser, pode ficar com eles.
Rasguei
os desenhos de uma só vez, procurando me livrar
do mau agouro.
Terminada
a faxina, conversamos sobre nossos planos. Liz achou
melhor que, depois de obter a cidadania, depois do casamento,
fôssemos juntos para Amsterdam. O alívio
que senti com a nova sugestão me fez ver a extensão
do medo que tentava não enxergar.
Desagradava-me
a escolha irrevogável de Amsterdam. Pretexto
para reencontrar Hendrik? Amsterdam significava reduzir
praticamente a zero minhas chances de conseguir trabalho.
Não falava inglês, muito menos holandês.
O francês que havia estudado por seis anos de
nada serviria. Mas não tinha direito de mudar
o rumo dos desejos de Liz. A idéia original fora
dela. Inútil sugerir um país no qual ambos
nos beneficiássemos, ela não aceitaria.
Teríamos que desfazer tudo, e eu perderia minha
oportunidade para sempre.
Liz
pediu-me para acompanhá-la à oficina mecânica
do pai, que queria colocar pneus novos no carro dela.
Com a aproximação do dia D, o peso do
nosso projeto tornava-se cada vez maior. Tensão
vã: seu pai não estava na oficina quando
chegamos. Ela ficou aliviada com o adiamento, e me deu
carona até em casa.
—
Você precisa vender logo esse carro — falei.
— Não vai ser fácil se desfazer
dele.
—
Eu fui a duas concessionárias, mas eles me ofereceram
bem menos do que eu esperava. O ideal seria vender o
carro pra algum amigo...
—
A Jane! Lembra dela? Aquela que trabalhou comigo na
editora.
—
Mais ou menos... Você acha que ela compraria o
meu carro?
—
Ela trabalha agora numa concessionária. Talvez
consiga um bom preço.
A
venda do carro ocorreu de forma prática e rentável.
Sem a ajuda de Jane não o teríamos conseguido.
O comprador pagou à vista, em espécie.
Satisfeita por tudo ter se resolvido depressa, Liz agora
precisava enfrentar seu pai. Ela recusou minha companhia
até a oficina, achou melhor tratar do assunto
sozinha.
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Tremia,
as pernas não a obedeciam. Por que tanto
medo? Era apenas seu pai, o homem que estava prestes
a decepcionar. Tinha que ser forte, agora faltava
pouco. Caminhou com dificuldade até a porta
da oficina. Não conseguiu evitar que as
lágrimas se antecipassem às suas
palavras. Seu choro causou espanto e preocupação
no homem atrás do balcão:
—
O que foi, minha filha! O que aconteceu? Onde
está o teu carro?
—
Pai, eu fiz uma coisa horrível! —
disse, soluçando.
Ele
a levou ao escritório, onde poderiam conversar
longe dos olhares curiosos dos mecânicos.
Liz esclareceu tudo de um só golpe.
—
Mas minha filha, por que tu não me contaste
antes? — perguntou o pai, indulgente.
—
Eu tive medo de te magoar, de te deixar triste...
—
Se tu tivesses me falado eu tinha conseguido para
ti um preço melhor pelo automóvel!...
—
Você não está com raiva de
mim? — arriscou ela, perplexa com a reação
do pai.
—
Eu estou surpreso com a notícia, e triste
porque vais embora, mas eu te amo muito.
Ela
recomeçou a chorar num misto de alívio
e alegria, remorso e gratidão... Abraçou
o pai carinhosamente.
—
Estou muito orgulhoso de ti — falou ele,
emocionado. — Sabes, também fiz algo
parecido com o que vais fazer. Quando eu deixei
o meu país há mais de 40 anos estava
decidido a não mais voltar, a conseguir
as minhas próprias coisas, a ser feliz...
Eu realizei os meus sonhos. Tenho uma família,
casa, trabalho... sou feliz. Tiveste a quem puxar.
Espero que tenhas sorte.
De
sujeito estranho a um pai cheio de afinidades.
O homem de 65 anos, que não tivera tempo
de conhecer, a incentivava, dava-lhe seu amor
como salvo-conduto. O sofrimento havia terminado.
Sentia-se recompensada pela descoberta do próprio
pai. Se ele tivesse se mostrado assim antes...
Chegou
em casa pronta a contar a decisão para
a mãe, a avó e a irmã. Seu
pai reagira bem, com elas seria melhor.
Enganou-se.
Lágrimas e gritos. Avó, mãe
e irmã sentindo-se traídas. Luísa
chorava, estarrecida com a notícia; D.
Amália, furiosa, chamava-a de louca; D.
Nina, aborrecida, recriminava-a. Despejaram sobre
ela todos os ressentimentos, raivas e tristezas
acumulados ao longo de suas existências.
Liz foi acusada, julgada e condenada sem direito
a se explicar. Argumentou que Leon estava indo
com ela, mas só piorou a situação:
acharam que ela havia envolvido o amigo, estragaria
a vida dele também. Foi se encolhendo na
poltrona, fechando-se como uma ostra. Não
merecia aquele tratamento injusto, mas estava
em desvantagem. Uma hora elas parariam, o silêncio
venceria. Subitamente, essa idéia a acalmou.
Levantou da poltrona, foi para o quarto. As mulheres,
continuando a ladainha, tentaram segui-la. Mas
Liz bateu a porta, trancando-a imediatamente.
O gesto inesperado calou o falatório desagradável.
No quarto silencioso, deitou-se na cama. Estava
cansada de querer agradar a todos e nunca consegui-lo,
farta de se sentir culpada, de fazer sofrer os
outros e a si mesma. Mas estava satisfeita. Havia
travado uma luta fadada à derrota, e sentia-se
vitoriosa. Fechou os olhos. O campo de batalha
ficara para trás. Nenhuma vítima
fatal, todos sobreviveriam.
Leon
lhe telefonou no dia seguinte pela manhã,
preocupado sem ter notícias. Ela contou
como tudo tinha se passado. Estava bem, mas
poderia estar melhor se as mulheres da sua família
fossem mais compreensivas. Disse que iria à
praia com Helena, espairecer um pouco.
No
apartamento da amiga foi recebida com euforia.
—
Eu acabei de falar com o Hendrik! — comentou
Helena, com voz alegre.
—
O quê?... Como assim?... — gaguejou,
surpresa.
—
Ele me ligou dizendo que você tinha deixado
o número daqui de casa pra ser usado
numa emergência. Disse
também que estava cansado de telefonar
pra sua casa e não te encontrar, ou de
baterem com o telefone na cara dele.
Liz
desabou na cadeira atrás de si. Seria
verdade? Poderia ainda acreditar em Hendrik?
E se dessa vez ele não estivesse mentindo?
E se as mulheres em sua casa a estivessem sabotando?
De repente, sentiu como se todos sempre a houvessem
enganado. Mas o que teria Hendrik a dizer? Que
a amava, que esperava por ela? Pouco provável.
Que ela não fosse para Amsterdam, que
ele não poderia ajudá-la? Isso
ela já sabia. Hendrik não tinha
nenhuma novidade. Aquilo só podia ser
brincadeira, e de mau-gosto.
—
Eu pedi que ele ligasse em alguns minutos, já
que você estava vindo pra cá.
—
Vamos indo então? — disse Liz,
se levantando e seguindo para a porta.
—
Que isso?! Não vai esperar ele ligar?
—
Pra quê? Nada do que ele disser vai mudar
o que eu pretendo fazer.
Na
praia, um verão de 40 graus, corpos bronzeados
se exercitando, se divertindo, vivendo...
—
Você me espanta, sabe? — falou Helena,
passando filtro solar. — Eu achei que
você ia ficar super contente com a ligação
do Hendrik. Você não gosta mais
dele?
—
A gente sempre acaba amando uma mentira. Às
vezes demoramos a notar isso.
—
Que idéia amarga! Você devia ter
dado uma chance a ele. O que tinha a perder?
—
Eu já dei chances demais ao Hendrik.
—
Não vai ser nada fácil viver sozinha
na mesma cidade que ele.
—
Eu não vou viajar sozinha, o Leon vai
junto comigo.
—
O quê?! Por que vai levar esse cara com
você?
—
Ele está me ajudando, e eu preciso dar
alguma coisa em troca. Nós vamos casar
pra ele ter a cidadania européia.
—
Que mania você tem de complicar a vida!...
Só espero que tudo dê certo.
À
tarde, telefonou para Daniel. Não se
falavam desde quando ela — antes da venda
do carro — ajudara-o a retirar seus pertences
do estúdio. Daniel e Gustavo tinham deixado
a sala também. Ainda sentia-se culpada,
mas precisava despedir-se. Daniel ficou intrigado
quando soube que Leon viajaria com ela.
Desacostumada
a tomar ônibus, achou a distância
entre os bairros absurda. Agora só podiam
acertar os planos na casa de Leon. Na casa dela
a tensão das mulheres ainda não
havia se dissipado. A sós com ele no
quarto, desabafou:
—
Eu tive uma recaída. Sonhei com o Hendrik
ontem: eu atendia o telefone, parecia um trote,
mas era ele, dizendo coisas que eu não
entendia. Quando acordei, comecei a pensar no
que tinha vivido com ele... Ai, o que eu faço?
Eu não queria que nada disso acontecesse.
Por que eu continuo com essas esperanças
inúteis?
—
Tudo ficou mal resolvido entre vocês.
Isso pode acabar te atrapalhando.
—
Você quer dizer nos atrapalhando...
Mas... e se a gente reatar?
—
Se você quiser, ainda pode ir sozinha.
—
Não, Leon! Nós vamos juntos. Se
você não for, eu não vou
poder ir.
—
Só por causa do dinheiro?
—
Não. Eu preciso de você, da sua
companhia, da sua ajuda.
—
Eu tenho medo que você não precise
de nada disso quando reatar com ele...
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Gostaria
que minha vida me agradasse, ainda que não me satisfizesse
de todo. Preciso de Liz, talvez ela precise de mim. Dias
atrás, lembrei dos projetos conjuntos que antes
tentamos levar a frente: nenhum deu certo. Talvez não
fossem tão importantes...
O
que sinto por Liz neste exato instante, agora que fecho
a mala? Não quero pensar nisso, é tarde
demais. Estou pronto. Decisiva olhada no quarto onde estive
confinado, minha cela voluntária. Já está
desfalcado, não me pertence mais. A voz de Daniel
ressoa em minha mente: “Cuida bem da Liz. Não
deixa ela fazer muita besteira...”, pediu, ainda
ontem, em nossa última conversa ao telefone. Também
ouço Helena: “Toma conta da minha amiga.
Fico contente que vocês estejam indo juntos, assim
ela não vai se sentir tão sozinha...”
Para eles, sou o anjo da guarda de Liz. Disse a ambos
que cuidaria dela. Por que prometi isso? Como farei para
não desapontá-los? Por que esperam que eu
seja capaz de tanto? Pelo menos a consciência deles
ficará em paz. Tantas mentiras tranqüilizadoras
em jogo!...
O
táxi chegou. Apanho o resumo da minha vida, contido
na mala mediana. Deixo o quarto, a casa, o jardim, minha
mãe em lágrimas, minha avó séria.
Cheguei
no aeroporto com antecedência de cinco horas.
Não queria que nada saísse errado. Liz
chegou pouco depois de mim. Não foi difícil
nos encontramos na amplidão praticamente vazia
do setor de embarque.
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