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Um
trabalho que a curto prazo nada renderia. Péssimo
negócio. Pior que fazer a programação
visual pela qual Lúcio só pagaria depois
de inaugurar sua loja era convencer Helena a ser tão
abnegada quanto ela, e fazer o projeto de decoração
sem pagamento imediato.
Deixara
o estúdio fazia uma semana. Agora não
tinha mais onde se refugiar da incômoda atmosfera
familiar. Se pudesse também sair de casa sem
transtornos... Emaranhada num sistema de relacionamentos
e interdependências, sabia que não seria
simples desfazer aqueles nós. Mas eles precisavam
ser desatados, ou rompidos.
Vender
o carro que o pai lhe dera de presente, única
forma de obter o dinheiro de que necessitava. Venda
que teria de ser feita sem o conhecimento da família.
E quando fosse obrigada a dizer o que fizera, por que
o fizera? Como reagiriam? O pai ficaria furioso; a mãe,
inconformada; a avó, chocada. Dramatizava. Iriam
entendê-la. Não, não exagerava,
conhecia bem sua família. Quando tudo viesse
à tona, talvez pudesse amenizar as coisas com
a mãe e a avó, não com o pai, sua
maior preocupação. Não tinha intimidade
com ele, mas sabia que sua reação seria
péssima.
No
fundo, temia que partindo para Amsterdam fechasse definitivamente
as portas da casa em que havia crescido. Se algo saísse
errado não teria para onde voltar. Não
pretendia romper com a família, só queria
liberdade para se aventurar na vida.
Nunca
tentara algo tão ousado. Não podia voltar
atrás. Precisava seguir em frente, custasse o
que custasse, talvez ainda não fosse tarde demais
para concretizar seus sonhos. Sonhos... às vezes
sentia-se ridícula querendo realizar planos compatíveis
com alguém mais jovem. Achava-se velha, ultrapassada
para aquela mudança radical. Mas o que deveria
fazer? Resignar-se e esperar a morte? Não, talvez
ainda houvesse uma chance de ser feliz. Ultrapassada,
velha ou ridícula não abriria mão
de seus projetos.
Decidida,
ligou para Leon.
—
Eu vou voltar pra Amsterdam! — disse, reconhecendo
a voz dele.
—
Até que enfim!... Você tem direito de tentar
ser feliz.
—
Todo mundo tem esse direito — ela o retificou.
—
Mas nem todos têm condições. Você
é uma privilegiada. A possibilidade da cidadania
portuguesa vem bem a calhar no seu caso.
—
E de que adiantam os privilégios se eu não
tenho dinheiro — reclamou.
—
Vende o carro.
—
Mas o meu pai vai ficar furioso, ele vai me odiar.
—
Você tem que contar a eles a sua decisão.
É isso que está te atrapalhando.
—
Eu sei, mas não posso falar agora. Já
imaginou o drama? É melhor tudo acontecer de
uma vez só.
—
E o Hendrik, notícias dele? — perguntou
Leon.
—
Não. E nem ligo mais pra isso — falou,
com desdém. — Estou cansada de depender
dos outros pra resolver a minha vida.
—
Você ficou mesmo magoada com ele, não?
—
Me senti usada na história dos livros que eu
mandei pra ele fazer o trabalho do curso.
—
Talvez o Hendrik esteja muito ocupado com esse trabalho
pra dar notícias...
—
E você ainda defende ele!
—
Só estou pensando nas possibilidades. Eu acho
melhor você fazer as coisas por si mesma, mas
o Hendrik ia ser uma ajuda e tanto. Começar a
vida num país estranho, sem emprego, sem lugar
pra morar... não é um início muito
promissor.
—
Só de me imaginar sozinha, sem amigos, sem ninguém...
fico apavorada. Mas eu não posso continuar aqui
em casa. Tirando as amizades, não tenho muito
a perder indo embora.
—
Tenta não pensar no lado negativo das coisas.
Pensar demais é paralisante.
—
Eu só queria poder ir em paz, sabendo que o pessoal
aqui em casa não vai me odiar... Mas pra isso
eu preciso de dinheiro.
Do
outro lado da linha, um instante de mudez de Leon.
—
Liz, eu tenho um dinheiro na poupança, não
é muito, mas...
—
Não, Leon. Eu agradeço a sua ajuda, mas
não quero fazer novas dívidas.
—
Mas quem está falando em dívida? Eu queria
te dar esse dinheiro.
—
De jeito nenhum! O dinheiro é seu, Leon. Você
vem economizando há anos.
—
Mas é um presente, uma forma de te ajudar a realizar
seus sonhos!...
—
E os seus sonhos?, você também
precisa pensar neles.
—
Você sabe que eu nunca vou realizar sonho algum.
—
Leon, você não pode pensar assim...
—
Posso sim! — disse, elevando a voz. — Eu
só queria te ajudar a encontrar a felicidade.
Liz
ficou muda, comovida com o gesto dele. O que era aquilo?
Amor?, amizade?, ambos? Recusar a oferta de Leon era
desprezar sua amizade ou rejeitar seu amor? Sim, ele
a amava, era um legítimo amigo, abnegado a ponto
de se prejudicar para ela ter chance de ser feliz, para
contentar-se com uma felicidade por tabela. Não,
Leon merecia sorte melhor.
—
Liz, você ainda está aí? —
falou ele, quebrando o silêncio. — E então,
você aceita?
—
Não posso meu amigo.
Depois
da conversa com Leon sentia um estranho mal-estar. Muito
irônico que justamente ele tivesse condições
de ajudá-la. Sentia-se culpada por recusar o
dinheiro do amigo, por ir embora e abandoná-lo
no vazio que sua ausência criaria. O que seria
de Leon depois que ela partisse? O que seria dela sem
o auxílio de Hendrik em Amsterdam?
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Minha
amizade com Liz enfraquecia. Nossas pequenas desavenças
eram freqüentes. As afinidades que haviam
nos unido desmoronavam. Fazia tudo para não
desagradá-la, para ajudá-la... esforço
sempre vão. Ensaiávamos nossa separação.
Meus atos mais inofensivos acabavam convergindo
para esse fim. Culpa minha. Sabia disso. Minha
culpa. Já não telefonava para ela,
nas vezes em que nos falávamos era sempre
Liz quem ligava, reclamando por eu não
dar notícias. Abandonava-a? Afastava-me
para que o sofrimento fosse menor quando ela partisse?
Ou tentava me fazer de difícil esperando
que ela me procurasse? Mal via a hora do pesadelo
terminar. Por que ela não vai logo embora?
Por que recusou meu dinheiro? Tudo o que eu queria
lhe dar ela rejeitava... Por quê? Como sempre,
queria ser justa. Uma perfeita idiota. Por que
não aceitava logo aquele maldito dinheiro
e ia embora de uma vez? Por que tinha que ser
honesta e correta sempre? Eu estava disposto a
pagar sua felicidade, comprar minha paz, e Liz
se obstinando em ser justa...
Voltei
ao consultório do Dr. Antoine. Esperando
na ante-sala, de repente me dei conta de que estava
apenas perdendo tempo, gastando dinheiro. Não
via progresso algum na terapia, a única
coisa que evoluía era a suposta vidência
do Dr. Antoine. Como eu havia chegado àquele
ponto? O que realmente buscava? Curiosidade sobre
aquela terapia alternativa, esperança de
resolver meus problemas pessoais, minhas dúvidas
metafísicas? Devia estar muito desestruturado
para achar possível solucionar tudo a um
só tempo. Estava curado então? Meus
problemas continuavam os mesmos, minhas incertezas
tão inexplicáveis quanto incompreensíveis.
O tratamento fracassara. Em todo caso, Liz não
continuaria sendo problema por muito tempo. O
outro assunto era mais complexo. Ainda que desejasse
descartar qualquer hipótese de sobrenatural,
minhas perguntas sem resposta eram um entrave
impossível de ignorar. Deus, alma, vida
depois da morte, vidas passadas... o que realmente
existia? Não havia mortal na Terra capaz
de provar o que quer que fosse... e se houvesse,
sem dúvida não seria o Dr. Antoine.
O pretenso tratamento só contribuíra
para abalar minhas poucas certezas. Eu não
sabia mais coisa alguma, e me espantava ao ver
que isso não tinha a menor importância.
Verdadeiro e falso, palavras que se anulavam,
e anulavam tudo ao redor. Curado ou não,
algo tinha mudado em mim. Sentia-me lúcido,
confiante. Levantei decidido a deixar o consultório,
mas o Dr. Antoine entrou pela porta que dava para
a rua se desculpando pelo atraso e apressando-se
em me indicar sua sala.
O
Dr. Antoine parecia determinado a me desorientar.
Dizia que eu e Liz fazíamos um par, nossas
energias eram idênticas, ela estava confundindo
seus sentimentos em relação ao namorado.
Ao mesmo tempo, insistia em que me afastasse dela.
Enquanto
o doutor fazia um discurso desinteressante, eu
o analisava. Fantasiado de profissional capacitado,
ditava visões, supostamente de outras épocas,
que eu nunca via por mim mesmo, mas que era obrigado
a desenvolver. Não havia espontaneidade,
eu sempre era conduzido, sugestionado a pensar
coisas que ele adivinharia num momento posterior.
Era isso, nada mais. Realmente apenas gastava
dinheiro, perdia tempo.
Deixei
o consultório certo de não mais
voltar. Para trás ficaram o Dr. Antoine,
a terapia mística, as técnicas diversificadas,
o equipamento alternativo. Tudo parte do meu passado.
Passado ao qual eu não estava disposto
a regressar.
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Tentava
se convencer de não precisar mais de Hendrik, de
poder seguir seus planos sozinha. Mas sem ele tudo perdia
o sentido, nada tinha graça. Por que Hendrik não
voltara a ligar?
Manter-se
ocupada para não ter tempo de ruminar mágoas
e tristezas. Trabalhar sem pensar na recompensa imediata
ao término da tarefa. Recompensa: dinheiro ou prazer?
Seria possível um trabalho prazeroso o suficiente
para que o pagamento não importasse?
Ligou
para Helena a fim de saber como estava o projeto da loja
de Lúcio. A amiga a convidou ao seu apartamento,
queria trocar idéias.
Quando
Helena mostrou a perspectiva que havia desenhado Liz ficou
surpresa. Não esperava um trabalho tão bom
tirando partido de materiais simples e baratos. Helena
trabalhava por prazer, era evidente. Não deu um
palpite sequer no projeto, ele estava perfeito.
Deixou-se
cair no sofá, desanimada. Helena conversou com
ela sobre a viagem. O assunto era sempre o mesmo, mas
adquiria novas nuances quando comentado com alguém
diferente. Todos davam sugestões, faziam perguntas...
Helena achou-a ainda um pouco perdida. Embora soubesse
que a amiga era avessa a esoterismos, sugeriu que fossem
a uma cartomante. Liz protestou, mas Helena acabou convencendo-a.
Pensou
que Leon não se interessaria em visitar a recém-nascida,
mas ele parecia bem mais disposto que ela mesma. No
carro, a caminho da maternidade onde Sílvia se
encontrava, sentia-se grata, sem o dizer, por ter Leon
como companhia.
—
Eu fui a uma cartomante — começou ela.
— A Helena insistiu tanto...
—
E o que disseram as cartas? — ironizou.
—
Que eu vou embora, mas não agora. Só daqui
a dois meses tudo vai dar certo.
—
Dois meses?
—
A cartomante disse que vai ser fácil falar da
viagem pra minha avó e minha mãe, mas
o meu pai vai reagir muito mal quando souber que eu
vendi o carro.
Leon
a olhava esperando a continuação. Liz
deteve-se um instante, depois prosseguiu:
—
Ela disse que o Hendrik é bissexual, e que eu
ainda vou sofrer muito por causa dele.
—
Bom, a cartomante não falou grande coisa. Você
mesma disse que desconfiava que o Hendrik fosse bissexual,
e que isso não tinha a menor importância.
—
Ela falou que o problema não era o que isso significava
pra mim, e sim pra ele.
—
Pelo que você me contou o Hendrik pareceu bastante
satisfeito com você.
—
Mas ele era tão cheio de segredos... Várias
vezes ele tentou me contar uma coisa que parecia difícil
aceitar. Eu percebia a dificuldade dele e tentava não
ser preconceituosa. Eu estava pouco ligando se ele havia
transado com outros caras, mas eu não podia dizer
isso, ele não ia acreditar em mim.
—
Mas isso não quer dizer nada. Podia ser outra
coisa qualquer.
—
Uma vez ele fez uma reunião no apartamento pra
uns amigos do curso. Nesse dia eu estava tão
drogada que nem me lembro quantas pessoas apareceram
por lá. Só sei que numa hora um cara sentou
perto de mim e falou que estava ali só pra transar
com Hendrik, só pra comer a bunda linda dele.
Eu achei aquilo tão ridículo que comecei
a rir. E o cara se afastou dizendo que ia voltar outro
dia. Pediu pra eu ter cuidado com o Hendrik, porque
ele era louco.
—
Você não tinha me contado isso...
—
É que algumas coisas eu só estou conseguindo
lembrar agora.
Conheceram
o bebê. Sílvia estava bem, feliz e aliviada.
Daniel era todo sorrisos contemplando a filha. Os pais
do pai e os pais da mãe também estavam
presentes. Duas famílias reunidas para comemorar
o surgimento de uma terceira.
Chegou
em casa cansada. Havia tido um dia cheio com a ida à
casa de Leon, depois à maternidade, de novo à
casa de Leon para deixá-lo... O carro facilitava
as idas e vindas, mas as distâncias eram longas.
No
quarto, lembrou com saudade de Amsterdam, onde tudo
era tão perto. Apanhou na gaveta o desgastado
mapa comprado na primeira estada na capital holandesa.
Desdobrou cuidadosamente as partes com vincos quase
rasgados, estendendo-o sobre a mesa. Com o dedo percorreu
os caminhos que fizera quando acreditava estar sonhando.
Tentou imaginar os caminhos que Hendrik estaria fazendo:
até o apartamento de Derek... até a loja
de conveniência da esquina... até a escola
em que fazia o curso... “Cretino! Nunca mais deu
notícias.” Se o mapa não tivesse
valor sentimental o teria destroçado naquele
instante. Quando começou a dobrá-lo uma
das extremidades se rasgou. Enquanto colava o pedaço
no lugar viu um anúncio na parte dos patrocinadores
do mapa: nome, endereço e telefone da escola
na qual Hendrik fazia o curso! Olhou o relógio,
lembrando da diferença de fuso: a escola já
devia estar fechada.
No
dia seguinte ligou para o número. Devia ser uma
hora da tarde em Amsterdam. As aulas de Hendrik terminavam
às três horas, ainda lembrava. Uma voz
atendeu falando holandês. Liz mudou o idioma da
conversa para o inglês, e pediu que dessem um
recado para Hendrik. A pessoa que a atendeu a deixou
esperando na linha. Pouco depois retomou o aparelho,
dizendo: “Hendrik falou que não conhece
ninguém com o seu nome”.
E
agora, desistiria? Seria obrigada a admitir que tudo
o que fazia era por causa dele? E ela mesma, não
contava? Seus desejos só eram realizáveis
com Hendrik? Seu maior desejo era Hendrik, mas ele não
era o único. Ainda queria encontrar um trabalho
que lhe desse prazer, conquistar sua independência
e liberdade, deixar a casa dos pais, ser responsável
por si mesma... E podia fazer isso sem Hendrik. Mas
tudo parecia triste tendo que tentar a sorte sozinha,
sem ninguém a apoiando e incentivando...
Inútil
lastimar-se, precisava agir, não ia se deixar
vencer por um michezinho barato que dormia com todos
e que atendia pelo ridículo nome de Hendrik.
Com algumas mudanças, faria tudo como havia planejado.
Leon
estranhou a chegada repentina de Liz, ao anoitecer.
Ela não o avisara da visita.
Entraram
no quarto dele. Num rápido olhar, Liz observou
o pequeno cômodo onde Leon vivia confinado. Todos
os pertences dele estavam reunidos ali.
Leon
sentou ao lado dela, que falou sobre o telefonema para
a escola de Hendrik.
—
Eu acho que você não deve desistir —
disse ele.
—
Mas essa história de ir sozinha, de ficar o tempo
todo sem amigos, sem ninguém...
—
Você não vai demorar a conhecer novas pessoas.
—
Será?... — disse, com lágrimas nos
olhos.
—
Liz, não pensa assim — falou, tocando o
rosto dela. — Você tem a oportunidade de
começar uma vida nova no lugar que escolheu!...
Eu não ia desperdiçar uma chance dessas
por nada.
Liz
chorava ouvindo exatamente o que queria. Suas lágrimas
contagiaram Leon, que a abraçou. Choraram juntos
suas dores distintas, mas que se irmanavam naquele momento.
—
Leon, eu queria te perguntar uma coisa... mas você
não precisa responder agora.
—
O que é?
—
Você quer ir comigo pra Amsterdam?
—
É tudo o que eu mais quero, Liz!...
Tornaram
a se abraçar. Lágrimas agora de satisfação,
alívio.
—
Eu tive medo que você não aceitasse...
—
Quem mais poderia fazer isso por mim? Eu te adoro, Liz!...
—
Também te adoro, Leon.
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