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| O
consultório do Dr. Antoine progredia. Quadros,
tapetes, poltronas, computadores... A recepcionista perguntou
meu nome, conferiu a agenda, pediu-me para aguardar.
Quase
em seguida, o Dr. Antoine entrou na sala, indagando à
nova funcionária onde estava o cliente marcado
para o horário. A recepcionista apontou para mim.
—
Desculpe — falou-me —, não te reconheci
com esse corte de cabelo.
Passamos
à sala dele.
—
A sua mudança é um bom sinal. O tratamento
está te modificando interiormente, e você
tem vontade de externar essa transformação.
Isso é ótimo!
Achei
pouco provável que ele tivesse razão, mas
nada falei.
—
E a Liz, como está? — perguntou. —
Sabia que vocês têm a mesma energia?
—
Ela está bem — disse, surpreso com a pergunta,
com o comentário.
—
Eu fiquei impressionado com o par que vocês faziam.
Aliás, a gente devia explorar uma possibilidade
— prosseguiu. — Vamos tentar regressar a alguma
vida passada que você teve, na qual a Liz pudesse
ter participado.
Reclinou
a poltrona, pedindo que eu relaxasse. Lembrei-o do aparelho
para amortecer o lado racional, mencionado após
a última regressão. Ele pegou os mesmos
fones de ouvido usados na sessão de relaxamento,
umedeceu a espuma na ponta das hastes e fixou uma das
extremidades na minha testa e a outra na nuca. Era aquilo
o neutralizador da racionalidade? Depois do palavrório
destinado a me fazer relaxar, na contagem regressiva,
o doutor pediu que eu me imaginasse numa piscina da qual
a tampa do ralo tivesse sido removida. Visualizando o
rodamoinho, eu deveria deslizar ralo abaixo. Para além
do fundo da piscina, encontrei-me num espaço escuro,
onde nada enxergava.
O
Dr. Antoine perguntou o que eu via. Minha mudez deve ter
sido resposta suficiente. Ele pediu então para
eu imaginar um lago numa floresta, talvez na Amazônia.
Tentando ser o menos racional possível, lancei-me
na “visão” que ele fornecia. O doutor
disse que havia um índio na floresta, caminhando
em volta do lago, eu era o índio. Deixei-me levar
pelas imagens. Agora eu via o índio, andando na
mata. O Dr. Antoine afirmou que era um índio jovem,
16 ou 17 anos, a caminho de casa. Lembrei da viagem com
Liz até Coroa Vermelha, onde a taba para turistas
nos chamara a atenção. O doutor pediu que
eu descrevesse o que via, mas, achando que a taba moderna
me influenciava negativamente, fiquei calado. Ele sabia
que eu via algo. Falou que eu não tivesse medo
de dizer qualquer coisa. Contei que estava vendo uma aldeia
indígena, mas ela existia hoje e não num
tempo antigo.
—
O que faz esse índio? — perguntou.
—
Ele caça... — falei, vendo o índio
que vendera o arco e flecha à Liz na minha mente.
—
Sim, o índio está segurando um arco e uma
flecha.
Pediu-me
para procurar Liz no lugar. Eu não a via em parte
alguma. Ele disse para eu imaginar o índio um pouco
mais velho. Minha visão se tornou bem nítida:
um índio de idade estava sentado no centro de uma
oca, voltado para a entrada.
—
Quem é esse índio agora? — voltou
a perguntar.
—
O pajé... — falei, sem hesitar.
O
Dr. Antoine pediu que eu fornecesse uma data, e mesmo
antes de concluir sua pergunta o ano de 1510 tinha me
vindo à mente. Disse-lhe a data.
—
E agora, você consegue ver a Liz? — indagou.
O
pajé, que estava de cabeça baixa, virou
o rosto para a entrada da oca. Avistei Liz vindo em minha
direção. Ela usava um vestido comprido.
—
Sim, agora eu vejo... — respondi.
—
Ela é índia?
—
Não, é branca...
—
E ela está sozinha? — perguntou o Dr. Antoine.
Vi
um homem muito claro, deitado no chão, parecia
ferido ou doente.
—
Existe um homem... — falei, sem dar detalhes.
—
É o marido dela. Ele está doente, caído
no chão. É holandês, tem barba ruiva.
Transpira muito, talvez com malária, ou picada
de cobra.
Estremeci.
Como ele podia descrever em minúcias o que eu via
e não relatava?
—
Por que ela procurou o pajé? — prosseguiu
o doutor.
—
Queria ajuda...
Vi
o pajé junto ao corpo do homem estendido. Liz chorava
muito.
—
Ela queria que você salvasse o marido dela. Você
consegue?
—
Não... Eu não podia fazer mais nada... a
morte já estava dentro dele...
—
O que acontece com essa mulher depois que o marido morre?
—
Ela fica na tribo... e se adapta aos costumes...
—
Vocês ficaram muito unidos. Esse relacionamento
foi amoroso, carnal?
—
Não... só afetivo...
—
E como o pajé morreu? A mulher teve alguma participação
nessa morte?
Vi
uma flecha perfurando o peito do pajé, mas ela
estava cravada em mim.
—
Ele foi flechado... — falei, vendo-me caído
no chão, Liz a meu lado, chorando, querendo me
ajudar. — Não... Ela tentou me salvar, mas
não pôde...
Senti
uma tristeza profunda, comecei a chorar. Meu coração
se acelerou.
De
olhos fechados, não sabia se o Dr. Antoine tinha
percebido meu estado emocional alterado, mas considerei
sua pressa em retornarmos ao “presente” como
indício de que algo ia mal na viagem no tempo.
Logo
me senti melhor. Estava impressionado com a “vidência”
do doutor. E também em dúvida se mencionava
as coincidências que me perturbavam. Mas o que eu
tinha a perder?
Para
fazer as analogias suscitadas pela regressão era
necessário falar sobre Liz. Procurei resumir a
situação em que ela se encontrava, o desejo
de voltar a Amsterdam, reencontrar o namorado holandês,
deixar para sempre o Brasil... A cada palavra que eu dizia
o Dr. Antoine se mostrava mais espantado: parecia não
acreditar em mim.
—
Se essa menina viajar pra Europa vai quebrar a cara —
disse ele. — E vai voltar com o rabinho entre as
pernas.
A
linguagem subitamente vulgar do Dr. Antoine me chocou.
Por que, mesmo conhecendo-a tão pouco, já
a julgava? Quem lhe havia pedido previsões? Desviava-se
do meu caso para comentar a vida alheia. Comecei a me
irritar.
—
Por que está dizendo isso, doutor? — indaguei,
alterando a voz.
—
Não precisa ficar zangado. Sei que esse assunto
te interessa — falou, apaziguador. — Você
acha mesmo que essa menina ama o rapaz holandês?
Ela está confusa, perdida. Querer se sentir amada
não é o mesmo que amar. Qual é o
signo dela?
—
Libra.
—
Libra... sempre querendo agradar a todos, não agradando
ninguém, e ainda desagradando a si mesma.
Como
ele se atrevia fazer comentários tão seguros?
“Essa menina”, por que a tratava assim? Estava
arrependido de ter revelado coisas a respeito de Liz.
—
Não se preocupe, o que falamos aqui não
sai desta sala — garantiu. — É importante
eu saber o máximo sobre essa moça. Vocês
têm uma ligação muito forte, e alguns
dos seus problemas têm origem nessa relação.
Eu só posso ajudar se conhecer tudo o que envolve
vocês.
Talvez
ele tivesse razão. Privá-lo de informações
poderia prejudicar meu tratamento.
—
Se você quiser se libertar do vínculo que
tem com a Liz hoje, precisa se afastar dela — falou.
— Você está sempre disponível
demais, atende toda vez que ela chama, ajuda em tudo...
—
Eu sou amigo dela. Não é isso que fazem
os amigos?
—
E ela também é sua amiga? No que ela está
te ajudando?
Fiquei
sem saber o que responder. Como Liz poderia me ajudar
na questão?
—
Você devia dizer “não” mais vezes
pra sua amiga. Só assim ela ia te dar o devido
valor — prosseguiu ele. — Na próxima
vez que ela te convidar pra alguma coisa, recuse.
Saí
do consultório atordoado. Só pensava em
falar com Liz.
Em
casa, liguei para ela. Falei da consulta. Do outro lado
da linha, ela ficou comovida, chorou. Fizemos analogias
entre minha última regressão e nossa recente
viagem. O simbolismo fascinava, assustava. Liz parecia
aturdida com o encaixe perfeito das várias coincidências.
Ainda
que tivesse me deixado influenciar pelas imagens recentes
na regressão, fundindo tudo numa coisa só,
era uma experiência perturbadora. Não podia
me considerar enredado pelos ardis do Dr. Antoine, ele
desconhecia a história que só depois relatei.
Isso, pelo menos nesse ponto, o isentava da suspeita de
charlatanismo. A viagem que eu tinha feito com Liz havia
sido inútil. Nossa jornada insana parecia ter servido
apenas para nos fazer voltar a um lugar onde já
deveríamos ter estado. Mas acreditar cegamente
nisso me soava como demência.
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Ficar
ou ir embora? Se ao menos tivesse uma resposta
definitiva de Hendrik!... Por que ele não
tinha respondido a nenhuma das cartas que ela
remetera? Esperar as respostas de Hendrik fazia
com que Liz adiasse decisões importantes.
Precisava definir se deixaria o estúdio,
devia isso a Daniel e a Gustavo. Tentava mudar
de vida por causa de Hendrik, de quem dependia
agora para traçar planos. Queria desfazer
os laços que a prendiam ao Brasil, mas
não queria agir por impulso e se arriscar
a perder tudo de uma vez: viagem, sala, trabalho,
namorado...
Chegou
no estúdio à tarde. Sozinha, observou
a sala como se já não fizesse
mais parte dela. Tudo continuaria sem ela, todos
prosseguiriam suas vidas, não seria mais
que uma lembrança.
Ligou
o computador. Começou a arte-finalizar
o cardápio de um bar do qual havia feito
a identidade visual. A inauguração
da casa seria na semana seguinte.
Um
telefonema de Lúcio, o ex-namorado, trouxe
boas notícias. Ele queria lhe pagar uma
dívida antiga, e marcar encontro para
encomendar trabalho. Nem tudo estava perdido.
Lúcio lhe devia uma soma razoável,
talvez ela conseguisse saldar a maior parte
de suas dívidas. Marcou encontro para
a semana seguinte, quando fosse à inauguração
do bar, em Cabo Frio.
Em
casa, uma carta de Hendrik. Finalmente a resposta
que tanto esperava! Abriu o envelope, retirou
uma folha de caderno. Começou a ler o
que mais parecia um bilhete. Inacreditável
a quantidade de erros de ortografia, inconcebível
que alguém falando um inglês tão
fluente os cometesse. Texto sem sentido. Nenhuma
das respostas que ansiava. A carta terminava
sem conclusão, com uma frase interrompida.
Voltou a olhar no envelope, encontrou uma tira
de papel na qual o estranho texto acabava —
tão sem nexo quanto o resto. Releu a
carta que poderia ter sido escrita a qualquer
um. Hendrik dizia que tudo estava bem, os gatos
estavam felizes, ele estava feliz... Ela profundamente
triste por não estar ao lado dele e ele
feliz... sem ela! Decepcionada, já não
sabia se o que vivera em Amsterdam tinha sido
real. Impossível saber o que Hendrik
nutria por ela agora — se é que
algum dia o soubera. Ela mesma não estava
mais segura do que sentia por ele.
Três
dias mais tarde recebeu um telefonema de Hendrik,
no estúdio. Foi logo dizendo que não
havia entendido a carta. Hendrik justificou-se:
não era bom de escrita, ainda mais em
inglês. Com voz ingênua, disse sentir
falta de Liz, quando ela voltaria? Surpresa,
contou que estava juntando dinheiro, precisava
resolver alguns problemas antes da viagem. Hendrik
falou que desde que dormira com ela não
havia feito sexo com mais ninguém. Queria
que Liz voltasse logo para ficarem juntos novamente.
Ela perguntou sobre os estudos, faltava muito
para terminar o curso? Ele estava no último
período, e para o trabalho final tinha
escolhido o Brasil como tema. Ela não
poderia enviar algum material? Satisfeita em
poder ajudar, ficou de procurar algo. Tinha
vontade de não interromper o telefonema,
mas Hendrik disse que a madrugada estava muito
fria, e não queria que a ligação
a cobrar saísse cara para ela.
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Por
telefone, Liz me convidou a acompanhá-la até
Cabo Frio, para a inauguração de um café.
Lembrei do que o Dr. Antoine havia dito na última
consulta, sobre eu estar disponível toda vez que
Liz precisava de mim. Pensei em descartar o convite, mas
fiquei tão intrigado com a insistência dela
que acabei cedendo. Minha presença parecia importante.
Na
estrada, contou que não estava mais impressionada
com a carta de Hendrik. Tinha comprado livros sobre
turismo no Brasil, e os enviara a ele juntamente com
alguns prospectos de agências de viagem. Estava
contente em ajudá-lo no trabalho da escola.
—
Você está tão quieto, Leon. Está
tudo bem?
Meu
silêncio sempre a incomodava.
—
Tudo.
—
Eu não gosto quando você fica calado. Diz
alguma coisa!
Sua
alegria e vontade em que eu falasse me irritavam.
—
Já conseguiu pagar as dívidas? Vai mesmo
sair do estúdio? Decidiu vender o carro? —
ataquei.
Olhou-me
como se não acreditasse nas minhas perguntas.
Respondeu tudo entre dentes, e ligou o rádio
em alto volume. Não falei mais uma palavra, e
a ouvi cantar uma infinidade de músicas, sem
entender minha função naquela viagem.
Em
Cabo Frio, Liz não teve dificuldade em encontrar
uma pousada barata. Fez questão de pagar as despesas,
disse que eu era seu convidado.
Telefonou
para Lúcio. Marcaram o encontro para o dia seguinte,
pela manhã. Agradeceu a boa vontade dele, mas
dessa vez não poderia ficar em sua casa, estava
hospedada numa pousada, comigo. Compreendi então
minha finalidade: motivo para recusar a hospedagem indesejável.
Papel insignificante.
No
dia seguinte acertou o trabalho com Lúcio —
que me foi apresentado rapidamente.
Na
volta para casa, ela estava pouco falante. Como eu havia
me afastado no momento em que tratavam de negócios,
não sabia sobre o que tinham falado. Liz não
parecia muito contente, mas eu não quis perguntar
se alguma coisa errada havia acontecido.
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