— O que você achou dele? — perguntei a Liz , enquanto descíamos as escadas.
            — Ele tem uma cara simpática.
            — Viu o jeito que ele olhou pra você quando eu te apresentei?
            — O Dr. Antoine não me pareceu nada impressionado em saber quem eu era.
            Entramos no carro. Coloquei minha mochila no banco de trás, ao lado da bolsa dela. Liz parecia animada e ao mesmo tempo inquieta. Seu futuro dependia do sucesso da pequena viagem que iniciávamos. E o meu futuro? Dependia do quê? De quem? Afivelei o cinto de segurança, Liz fez o mesmo. “O sucesso da pequena viagem... última que faremos juntos... ponto de partida para a grande e definitiva viagem de Liz... da qual não farei parte...” Detive meus pensamentos. Precisava incentivar Liz a prosseguir.
            — E como foi a consulta de hoje? — indagou ela, girando a chave na ignição.
            — Bem menos “emocionante” — ironizei. — Teve um tempo maior de conversa, mais relaxamento com mensagens subliminares, e depois um exercício de mentalização. Dessa vez eu não voltei a nenhuma vida passada.
            — Você está desanimado com os resultados?
            — Não vi nenhum ainda. Até agora só um monte de informações que mais confundem que esclarecem. Sei que eu estou com pressa, tenho que ser paciente. Ainda é cedo pra desistir.
            O assunto se esgotara. Liz havia me abandonado no banco do carona, dirigia sozinha pela estrada dos seus pensamentos. Mas eu queria que ela ficasse ao meu lado, falante, participativa: precisávamos aproveitar ao máximo a última oportunidade de fazer algo juntos.
            — Você sabe chegar em Guarapari? Conhece a estrada até lá? — indaguei.
            — Sei ir até Campos, de lá vamos ter que olhar no mapa. Eu trouxe o guia das estradas do litoral, está aí no porta-luvas.
            Liz não era exímia motorista, mas seu jeito destemido ante o desconhecido fazia com que ela me parecesse a mais habilidosa desbravadora de estradas. Eu admirava seu lado aventureiro, tinha impressão de que nada poderia detê-la, e sentia-me protegido por sua coragem em seguir sempre em frente.
No porta-luvas apanhei a brochura que nos orientaria pela costa brasileira.
            A estrada reta, pouco movimentada, não exigia muita atenção. A presença de Liz também era ausência. Em quê pensava? Em Hendrik, óbvio. No telefonema dele, na bóia lançada à náufraga. Eu me afogava, tragado por meus projetos não realizados, sufocava na frágil dependência que havia criado para levar meus planos a termo, agonizava na busca por um culpado por meus fracassos, morria sozinho no fundo do esquecimento. O pensar de Liz parecia completamente voltado para o estranho dos seus sonhos, tudo girava em função dele. O passado não contava mais, o presente era mero trampolim do qual ela saltaria para o futuro.
            Eu folheava o guia das praias, mas as páginas pareciam todas em branco. Fácil fingir uma concentração inexistente, ainda mais para alguém que não prestava atenção em mim.
            — Você está tão pensativo, Leon.
            — Estou tentando entender esses mapas — menti.
            Traía nossa amizade. Mentir... falar a verdade... qual a diferença? Nada mudaria o futuro. Há pouco pensava em tirarmos o máximo proveito de nossos últimos momentos, mas cada um parecia encerrado numa fortaleza preservando pensamentos secretos.
            — Acha que eu sou muito maluca pra fazer o que estou fazendo? — recomeçou.
            — Você está fazendo o que acha certo. No seu lugar eu faria o mesmo.
            Mentia outra vez? Sim e não. Verdade e mentira eram faces da mesma moeda girando continuamente. Liz abria uma brecha em sua muralha expondo algumas idéias. Senti vergonha por não conseguir romper a barreira que me isolava.
            — Não sei se devo fazer o que eu quero. E se eu estiver enganada, e se tudo sair errado?
            — Não vejo outra saída senão recomeçar. A gente faz isso o tempo todo.
            Recomeçar... Dava sensatos conselhos a ela. Por que, para mim, eles pareciam inúteis?

            Preferia estar na direção. Ao volante, soava mais convincente sua interpretação de motorista aplicada. Agora, no banco do carona, a estrada era monótona, interminável. Ao deixarem Campos, Leon insistiu em dirigir. Ela não podia ser egoísta, tinha decidido dividir tudo. Ele parecia concentrado na estrada, talvez também necessitasse de um bom motivo para representar o disputado papel de motorista atento.
            A noite não demoraria a cair. Já haviam ultrapassado a divisa entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo. Há quantas horas dirigiam? Há quanto tempo tinham almoçado sanduíches, acompanhados por refrigerantes quentes, no posto de gasolina? Não fazia diferença. O tempo agora era uma superfície pegajosa, a velocidade era ilusão. Tinha pressa. Queria recuperar o tempo perdido. O tempo perdido... Todo o tempo que se perde é sempre irrecuperável. O tempo era uma estrada contínua e pantanosa, apontando sempre para frente; impossível dar marcha à ré sem atolar. O passado ficava para trás, retroceder era gastar inutilmente o presente. Pensar no futuro também não era desperdiçar o presente? O presente era uma tortura compreendida entre o que não existe mais e o que ainda não existe. Hendrik era seu futuro, mas já fazia parte de seu passado... era tudo, e nada. Se ao menos pudesse falar com ele!... Não, tinha que esperar a ligação a cobrar de um telefone público, e falar depressa para não gastar muito. Por que esperou ela voltar para dizer que a queria junto de si? Hendrik não telefonara mais, teria mudado de idéia?
            Leon dirigia em silêncio. Liz sabia que se não buscasse um assunto qualquer permaneceriam longo tempo imersos na mudez. Estava cansada de dar os primeiros passos, sempre. Por que tinha que ser responsável pelas palavras que arrancava dele? Leon se desfazia na estrada que ficava para trás. Não podia voltar para ajudá-lo, atolariam, os dois... “Viver é ser egoísta...”, pensou. Leon sumia na estrada, mas também estava ali, ao lado dela, conduzindo o carro, ajudando-a, aliviando sua solidão. Sentia-se culpada. Sua presença fictícia traía a devoção do amigo. Admirava-o: tanto tempo sem dirigir, e se oferecia para seguir por estradas que nunca havia passado. Sozinha, não ousaria ir tão longe. Sim, fora bem mais longe, havia atravessado o oceano, mas estava com Luísa, e depois Franz. E ainda Mariana, Gerd, Maurício, Lucas, Derek, Hendrik... Uma sorte sempre achar quem lhe fizesse companhia!... Estar sozinha era estar morta.
            — Chegamos! — falou Leon, trazendo-a de volta à vida.
            Anoitecia em Guarapari. No Centro, demoraram a encontrar o Albergue da Juventude.
            Sem perder tempo, saíram a pé, com o portfolio, em busca dos prováveis clientes.
            Num pequeno shopping acharam três lojas especializadas em moda-praia. Os gerentes de duas delas só voltariam no fim do expediente. Na terceira loja, encontraram o proprietário. Interessado, ele elogiou os desenhos de Liz, lamentando já estar com a produção anual pronta.
            Jantaram no shopping. Nas outras lojas, a mesma resposta negativa.
            Entramos. A janela aberta deixa o quarto fresco na noite quente, e também repleto de mosquitos. Duas camas de solteiro, uma de casal. Liz segue para o banho. Estendo-me na cama estreita perto da janela. Meu corpo suado e pegajoso repousa. Os mosquitos me picam. Mexo as pernas pesadas, os braços cansados, a cabeça dolorida. Os insetos zumbem nos meus ouvidos, colam na minha pele, esmagam-se entre as palmas das minhas mãos.
            Liz tomou um banho rápido. Seu rosto de menina ganha viço com a moldura de cabelos molhados. Sinto o perfume do sabonete. Preciso me lavar. Levanto da cama. No banheiro diminuto, meto-me sob a água fria.
            Volto ao quarto, deito na cama imaculada, junto da parede. Liz, na cama de casal, segura algo que não sei o que é. Na mochila, apanho um caderno. O que vou escrever?
            Agora sei o que ela segura com tanto cuidado: erva e papel de seda. Achei que tivesse deixado esses delírios em Amsterdam. Com quem terá comprado maconha? Age naturalmente, como se eu sempre a tivesse visto usar drogas.
            Começo a escrever. Concentrada em sua tarefa, Liz nem percebe que tomo nota de seus atos. Parece que terminou de confeccionar o cigarrinho artesanal. Fala que prefere os que vêm prontos. Insiste para eu fumar com ela, mas recuso. Liz reclama que os “cigarros” daqui são fracos, a erva não é pura, tudo muito misturado. Por que os consome, então? Paliativo? Fuga? Do que ela foge? Onde se refugia? Não sei. Não sei quem é a estranha familiar de rosto jovem e cabelos molhados. Viciada, louca, ou apenas brincalhona?
            Não está tendo sucesso na montagem do seu... seu... como chamar? Prazer? Relaxamento? Não imagino, e nem por isso me sinto tentado a provar: vou esperar e ver o que acontece com ela. Liz afirma que fica exatamente igual. Igual a quem? A ela mesma? Quem é ela?
            Pega o fósforo, mas não o risca. Fala um “Merda!” e acrescenta: “Leon, fracasso total neste setor!” O cigarro desmonta. Uma menina que brinca. Mais uma tentativa. Estou curioso, mas também com sono: resistirei até que Liz consiga acender o baseado?
            Tento registrar os instantes no exato momento em que ocorrem, mas é impossível fixar o presente, ele sempre se torna passado. Agora sim, risca o fósforo. Tenta acender o cigarro, não consegue. Segundo fósforo, agora vai. Evito olhar para ela. Sinto o cheiro da erva ainda apagada, tenho ótimo olfato. Terceiro fósforo. Conseguiu. Puxa a fumaça, se esforça um pouco. Prende a respiração. A fumaça chega às minhas narinas. O cheiro não é ruim. Mais um fósforo, ela diz: “Já gastei quatro fósforos e não consigo acender esse negócio!” Então, que cheiro é esse que estou sentindo? Olho para Liz. Está de olhos fechados, recostada à cabeceira, joelhos flexionados: não se parece mais com ela... desde quando? Quinto fósforo, a coisa não pega fogo facilmente. Eu já teria desistido. Sua persistência me comove. Os mosquitos me devoram. A fumaça não os afugenta, e vai agravar minha dor de cabeça. O cigarro se apaga novamente. Quanto fósforo! Quanta bobagem. Agora foi. Olho para ela mais uma vez. Parece normal. “O que você está escrevendo?”, pergunta. Não respondo, apenas sorrio. Precipita-se para mim, acho que vai me tirar o caderno...

            — Como você é crítico! — comenta, após ter lido meu texto.
            — Você também é — falo, só para provocá-la.
            — Eu não! Eu não critico ninguém — eleva o tom de voz.
            — Tem certeza?
            — Tenho! — diz, mais alto ainda. Detém-se. — Estou falando alto demais?
            — Você está quase gritando — exagero.
            — Falar alto é horrível! Eu odeio gente que faz escândalo...
            — Onde conseguiu isso? — pergunto, referindo-me à erva. — Trouxe de Amsterdam?
            — Não, a que eu trouxe de lá já acabou. Essa aqui eu consegui com uma amiga.
            — Amiga?
            — Ai, quanta pergunta!
            Olho-a sem nada dizer.
            É isso, estar drogada? Falar alto e ser crítica? Será que, como o álcool, a maconha libera o lado reprimido de cada um? Minha curiosidade me perturba. Perguntar, responder... Sou um inquisidor impiedoso. Ataco:
            — Você precisa mesmo disso?
            — Agora preciso — diz, sem titubear.
            — Mas fugir não resolve nada.
            — Eu não estou fugindo. Estou voltando...
            Está voltando. Não se encontra mais diante de mim, nem onde seu pensamento procura fixar-se, não está em parte alguma. Desisto: inútil continuar o diálogo em que um não ouve o outro. Estou só. O corpo na cama de casal não passa de nulidade. Fecho os olhos. Minha cabeça pesada gira em meio a fumaça.

            A visita às lojas de rua foi um fiasco. Tentaram uma feira de artesanato, mas os produtos eram vendidos a preços baixos demais. Liz estava surpresa. Segundo informações de amigos, a cidade devia ser uma mina inesgotável de clientes. Na orla, encontraram lojinhas de desanimadora simplicidade voltadas basicamente ao comércio de roupa de banho. Poucas camisetas nada exclusivas. Conversando com um comerciante descobriram que as camisetas eram compradas de uma estamparia. Conseguiram o endereço do lugar.
            A estamparia funcionava nos fundos de uma casa bastante modesta — o que os desanimou ainda mais. Uma mulher jovem os recebeu. Gostou dos desenhos, mas, para compra, precisava falar com o marido, que voltaria em uma semana. Liz agradeceu — não podiam esperar tanto. A moça sugeriu que fossem até Porto Seguro, afirmando que lá o comércio de camisetas era muito bom por causa dos turistas. Agradeceram a indicação.
            Decidida, Liz girou a chave na ignição, enquanto Leon pegava o guia das praias.
            — Se nós formos por dentro ganhamos tempo, o caminho é mais curto — disse ele, olhando o mapa. — Pela BR 101 vamos chegar mais depressa. Daqui até Vitória... — fez os cálculos pela numeração da estrada — são 66 quilômetros.
            — E de Vitória até Porto Seguro?
            Leon passou uma, duas, três, quatro páginas do mapa.
            — É bem mais longe...

            Liz dirigiu o dia inteiro. Tinham avançado três páginas do mapa, mas a Bahia só começava na página seguinte. Estavam cansados. Passava das nove da noite quando acharam melhor parar na cidade que se aproximava.

            Um lugarejo, cortado pela estrada federal, fendido em duas partes de igual pobreza. Deixamos o carro no posto de gasolina. Atravessamos a BR 101, o outro lado da cidade parece mais movimentado. Procuramos hotel e restaurante, em vão. Encontramos apenas alguns armazéns entremeados com casinhas humildes ao longo de ruelas poeirentas. Os habitantes vivem sua simplicidade como se não lhes restasse outra coisa a fazer. Alguns nos olham curiosos, chamamos a atenção.
            Voltamos para o outro lado. Num restaurante de beira de estrada somos recebidos por uma senhora simpática, que mostra o restrito cardápio da casa. Liz escolhe carne assada. Sentamos a uma das mesas forradas com um pegajoso plástico quadriculado em vermelho e branco. Dois copos que um dia armazenaram geléia contêm agora retângulos de papel cinzento que se pretendem guardanapos. Sobre a mesa cambaleante, grossos pratos de porcelana, com o centro marcado por incontáveis riscos de facas forçadas nas carnes duras, exibem uma fina camada de poeira da estrada. Discretamente, limpamos a superfície arranhada com os retalhos de papel cinza. A comida chega em travessas de metal amassado, boiando numa gordura alaranjada. O rapaz que a trouxe nos serve com generosidade. Temos fome. Jantamos em silêncio.
            Ao lado de um posto de gasolina, o único hotel da cidade. O quarto é quase uma cela. Duas camas de solteiro separadas pela mesinha de cabeceira, junto à janela que se abre para a cobertura de zinco do posto. Tomo banho. Volto ao quarto. Liz segura roupa limpa.
            — Hoje vou ser eu — digo, sentando na cama.
            — O quê...?
            — Hoje quem vai fumar sou eu.
            Ela me olha surpresa, incrédula. Vai para o banheiro, onde toma um banho rápido. Volta, senta na cama e começa a montar o cigarro artesanal.
            Sinto-me tranqüilo. Tenho impressão de que Liz está mais apreensiva que eu. Mesmo apagada a erva tem cheiro forte. Dessa vez Liz não demora a preparar o cigarro que custa a acender. Suga com força através do corpo cônico, a brasa cintila. Passa-me o baseado. Explica que preciso tragar. Puxo a fumaça com força também. Tudo arde: olhos, narinas, garganta. Liz pede que eu prenda a fumaça dentro de mim. Retenho a maconha gasosa nos pulmões. Depois a libero, ingerindo nova dose. E outra, e outra.
            — E então? — pergunta. — O que você está sentindo?
            — Parece que eu engoli carvão em brasa, nada mais — respondo.
            — Mas pela quantidade de fumaça que você já engoliu era pra estar...
            — Tendo alucinações? — corto-lhe a palavra. — Mas tudo está exatamente igual. Eu sou eu, você é você, estamos num quartinho miserável de hotel, numa cidadeca horrível.
            Liz sorri. Deve pensar que estou drogado, só porque digo o que penso.
            — Eu não estou drogado. Não sinto nada de diferente.
            Deitada na cama, ela ri da minha cara.
            — O que é tão engraçado?
            — Você, Leon. Você é muito engraçado.
            Meu pensamento se embaralha. Quero continuar falando, mas minha mente está em câmera-lenta. Tento explicar isso a Liz, não o consigo. Deito de costas, fechos os olhos.
            — Eu também não senti nada na primeira vez. Precisei insistir várias vezes.
            Não respondo. Não sei o que dizer. Minha voz é uma possibilidade remota.
            Liz continua falando. Ouço-a, mas não a compreendo.
            Depois de algum tempo abro os olhos. Liz está na cama, fitando o teto. Meu estômago reclama. Sinto uma fome repentina, o que é estranho, uma vez que jantei bem. Na mochila, encontro um saco de biscoitos, que devoro.

            Liz me acorda no dia seguinte. De pé, junto à minha cama, de banho tomado, está pronta para partir. Sem dizer palavra, deixa claro que a estou atrasando. Sinto-me cansado, minha garganta arranha, minha cabeça lateja.
            Eu estou descendo. Vou aproveitar pra dar uma revisada no carro antes da gente ir — avisa. — Já estou levando as minhas coisas. Espero você lá em baixo. Vê se não demora.
            Levanto. Sob a água do chuveiro, escuto o motor do carro de Liz. Olho pelo basculante, vejo-a guiando o carro para fora do posto. “Aonde ela vai?”, sobressalto-me. Acompanho-a com os olhos. Embica o carro na estrada, no sentido Vitória, espera um pouco. “Vai me deixar sozinho, está indo embora!”. Ganha a estrada, mas dá meia volta e entra num outro posto de gasolina do outro lado da pista, desce do carro, fala com o frentista. “Estou ficando paranóico...” Termino o banho às pressas. Desço correndo para encontrá-la.
            Por não ter dirigido no dia anterior, fico com o controle do volante — o que a contraria. Parece aborrecida com algo. Eu não estou numa de minhas melhores manhãs. Dirijo calado.
            Menos de meia hora na estrada e ultrapassamos a divisa entre Espírito Santo e Bahia. Começo a me animar. De repente, Liz pergunta se não posso ir mais depressa. Olho o velocímetro: 90 km/h. Aumentar a velocidade faz trepidar o carro desalinhado, assim mesmo acelero. Aos 100 km/h o carro começa a vibrar, parece que vai se desmanchar. Piso ainda mais no acelerador. Liz reclama, quer que eu reduza a velocidade, ficou assustada. Tenho vontade de frear o carro, descer, dar a volta e limitar-me a insignificante posição de carona. Mas às vezes sou bastante teimoso. Continuo guiando o carro a 90 km/h.

            A estrada parece não ter fim. Liz verifica que ainda faltam duas páginas para chegarmos a Porto Seguro. Aborrecida, joga o mapa no porta-luvas.
            Fechada em silêncio, sem distração alguma só lhe resta pensar — e sofrer. Tentou ler, ouvir música, apreciar a paisagem... nada funcionou. Conversar comigo deve ser um martírio.
            Curvas, muralhas de pedra, precipícios... O volante do carro em minhas mãos... No momento, controlo nossas vidas, elas dependem de mim. Se eu tiver coragem... Bater contra uma parede de pedra a 100 km/h, desabar num desfiladeiro... dificilmente se sobrevive a acidentes desse tipo. Acabaria o sofrimento dela, o meu também. Deixaríamos de existir, nossos problemas não mais nos afligiriam. Aquela muralha, lá adiante. Se acelero mais e deixo de fazer a curva... Olho para Liz. Parece dormir, olhos fechados, rosto tranqüilo... não acordaria nunca mais, morreria sem saber de nada... Um acidente na estrada. E se o impacto não for suficiente para nos destroçar? E se só um de nós morrer? E se sobrevivermos, mas ficarmos mutilados? Não, não posso fazer isso. Minha vida me pertence, mas não a de Liz. Não posso decidir por outro uma escolha que não me cabe. Não sou suicida, muito menos assassino. Faço a curva a quase 100 por hora, sou mesmo covarde. Pensar demais, meu maior erro.

            Chegamos a Porto Seguro ao cair da noite. A cidade é movimentada, e a quantidade de lojas que avistamos no Centro é promissora. O rosto de Liz se ilumina após um dia inteiro de apreensão. Acabo relaxando também.
            Os hotéis têm preços razoáveis. Enquanto estaciono o carro, Liz reserva o quarto.
            Telefonamos para casa. Explico a minha mãe que a viagem se estendeu um pouco. Liz fala a mesma coisa para sua avó, e pergunta se alguém ligou pra ela. Sim, Hendrik ligou. Mesmo!? O que ele disse? Não sabiam, não entendiam inglês. Liz fica aflita. Despede-se dizendo que vai ligar outro dia. Repete-me o que já deduzi. Não acredita no que aconteceu. Por que não escreve para ele?, sugiro. Ela já pensou nisso.
            Seguimos para um shopping que vimos ao circular pelo Centro. Dez lojas vendendo exclusivamente camisetas. Extasiados, olhamos as vitrines.
            Na primeira loja, o proprietário arrogante nos recebe com rispidez. Olha os desenhos de Liz como se fizesse um enorme favor. Acha exorbitante o preço das estampas, diz que não conseguiremos vender nada. Nos informa que em Porto Seguro todos copiam os desenhos alheios, não vale a pena pagar caro por estampas que só serão exclusivas na primeira semana expostas na vitrine.
            Decidimos baixar os custos antes de visitarmos outros clientes. Nas demais lojas não encontramos os proprietários ou as pessoas responsáveis pela compra de estampas. Anotamos alguns telefones e ficamos de marcar entrevistas para o dia seguinte. Certifico-me de que as lojas realmente abrem no domingo.
Damos uma volta na cidade. A quantidade de vitrines expondo camisetas é surpreendente. Numa galeria, visitamos uma loja atrativa. Um belo jovem nos atende. Liz indaga pelo proprietário. O rapaz se apresenta: chama-se Augusto. Ela explica o motivo de nossa visita, ele se mostra interessado. Augusto parece impressionado com o arsenal de desenhos diante de si, e nos trata amavelmente. Fala-nos um pouco sobre si mesmo. Liz tenta disfarçar o tédio ante a conversa mole. Sempre simpático, Augusto revela o preço das estampas no mercado local — cinco vezes inferior aos custos que acabamos de reduzir. Explica também como funciona o difundido sistema de apropriação indevida de desenhos alheios.
            No balcão, o portfolio de Liz: 200 estampas, criadas ao longo de quatro anos. Estamos cansados, com fome, sujos da poeira da estrada. Augusto folheia novamente o portfolio. Olha os desenhos como se nos tivesse em suas mãos depois das verdades reveladas. Elogia as estampas, diz que vai escolher muitas. Liz não se move, me olha e tenta sorrir. Augusto escolhe 75 desenhos, e regateia, alegando comprar quantidade. Liz reduz pela metade o preço de cada estampa — ainda alto para os padrões locais. A princípio, o valor agrada Augusto — tanto quanto nos desagrada. Tudo se acerta bem e depressa demais. Augusto propõe nos enviar um cheque pelo correio quando receber as estampas, também via correio. Liz argumenta que precisa pensar na proposta. Ele insiste: se baixarmos ainda mais os preços fazemos negócio na hora. Combinamos passar ali depois de visitarmos outros clientes. Augusto se mostra tranqüilo ao afirmar que será difícil vendermos algum desenho a outra pessoa na cidade.
            O presságio me incomoda. A fadiga me domina. A fome ruge em meu estômago oco. Tenho que ser forte, ajudar Liz. Ela se arrasta exausta, faminta. Entramos no primeiro restaurante que vemos pela frente. A comida é quase intragável, mas não temos forças para buscar outro lugar. Comemos o que conseguimos. Rastejamos de volta ao hotel.

            Vinha tentando comunicar-se com Hendrik desde que ele lhe telefonara. Tinha escrito uma carta, da qual ainda não obtivera resposta. Havia começado nova carta na noite anterior, explicando o que fazia para conseguir dinheiro. Hendrik tinha ligado outra vez, e Liz não estava em casa para atendê-lo. O que teria a dizer? Reforçar o pedido para ela voltar ou desfazer tudo?
            No dia seguinte, descobriram que a maioria das lojas só funcionava a partir das cinco da tarde. Retornaram à loja de Augusto que, estranhamente, estava aberta. “Então... não conseguiram vender nada ainda...”, disse ele. Resignados, Liz e Leon reduziram ainda mais o preço das estampas. Mas Augusto continuou achando tudo muito caro. Ditava as regras: só venderiam os desenhos pelo preço que ele quisesse. Desistiram de fazer negócio.
            Diante de todo um dia de espera — já que por telefone havia sido impossível marcar visitas —, resolveram explorar a região. Tentavam aproveitar o caráter turístico da viagem, mas as despesas que estavam tendo e a preocupação com a venda das estampas não os deixavam usufruir o passeio. Liz compreendeu que era imprescindível obstinar-se em alguma coisa. Esforçou-se tanto em ignorar que tudo ia mal que acabou contagiando Leon.
            De carro, ultrapassaram o perímetro urbano, em direção ao norte. O caminho beirando o litoral revelava praias de areias avermelhadas e florestas de coqueiros em alguns pontos da orla.
            Na estrada havia um desvio para um local chamado Coroa Vermelha. Liz, que dirigia, resolveu ir até lá. Curioso e estranho lugar. Uma espécie de taba — que abrigava quiosques de souvenirs — dispunha-se no centro de um terreno circundado por uma rua. Contornando de carro a taba, pensaram tratar-se de alguma mini-reserva indígena. Estacionaram. Foram cercados por um grupo de curumins que tentava vender colares feitos com sementes. Impossível não se comover com crianças de olhos tão vivos. Deram algumas moedas aos indiozinhos em troca de três colares.
            Nas barracas de souvenirs encontraram belos artefatos indígenas. Liz não resistiu: apesar do dinheiro escasso, acabou comprando um arco e flecha, que pediu a Leon para escolher. O índio que fez a venda foi simpático demonstrando como o arco funcionava. Leon comentou: “Deve ser difícil sobreviver a uma flecha como essa!”, ao que o índio apenas sorriu.

            Em Porto Seguro, num calor desagradável, o dia se arrastava. Não tinham fome, nem sede, nem esperanças. Sentiam como se nada mais houvesse a fazer. As pessoas moviam-se em câmara-lenta, pareciam pensar e agir como se o tempo tivesse outro ritmo. A pressa não tinha vez na cidade. Decidiram matar o resto do dia conhecendo os arredores, forçando um “passeio turístico” do qual nada aproveitavam.

            De volta à cidade, ao anoitecer, depois de passarem no hotel e pegar o portfolio, seguiram no encalço dos prováveis clientes. Não conseguiram encontrar nenhum deles, apenas, por telefone, queriam marcar encontros para o dia seguinte. Voltaram ao hotel, achando que jamais sairiam daquela cidade onde tudo era adiado para o dia posterior. A partida estava perdida.
            Deixaram Porto Seguro sem vender uma estampa sequer.

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