—
O que você achou dele? — perguntei
a Liz , enquanto descíamos as escadas.
—
Ele tem uma cara simpática.
—
Viu o jeito que ele olhou pra você quando
eu te apresentei?
—
O Dr. Antoine não me pareceu nada impressionado
em saber quem eu era.
Entramos
no carro. Coloquei minha mochila no banco de
trás, ao lado da bolsa dela. Liz parecia
animada e ao mesmo tempo inquieta. Seu futuro
dependia do sucesso da pequena viagem que iniciávamos.
E o meu futuro? Dependia do quê? De quem?
Afivelei o cinto de segurança, Liz fez
o mesmo. “O sucesso da pequena viagem...
última que faremos juntos... ponto de
partida para a grande e definitiva viagem de
Liz... da qual não farei parte...”
Detive meus pensamentos. Precisava incentivar
Liz a prosseguir.
—
E como foi a consulta de hoje? — indagou
ela, girando a chave na ignição.
—
Bem menos “emocionante” —
ironizei. — Teve um tempo maior de conversa,
mais relaxamento com mensagens subliminares,
e depois um exercício de mentalização.
Dessa vez eu não voltei a nenhuma vida
passada.
—
Você está desanimado com os resultados?
—
Não vi nenhum ainda. Até agora
só um monte de informações
que mais confundem que esclarecem. Sei que eu
estou com pressa, tenho que ser paciente. Ainda
é cedo pra desistir.
O
assunto se esgotara. Liz havia me abandonado
no banco do carona, dirigia sozinha pela estrada
dos seus pensamentos. Mas eu queria que ela
ficasse ao meu lado, falante, participativa:
precisávamos aproveitar ao máximo
a última oportunidade de fazer algo juntos.
—
Você sabe chegar em Guarapari? Conhece
a estrada até lá? — indaguei.
—
Sei ir até Campos, de lá vamos
ter que olhar no mapa. Eu trouxe o guia das
estradas do litoral, está aí no
porta-luvas.
Liz
não era exímia motorista, mas
seu jeito destemido ante o desconhecido fazia
com que ela me parecesse a mais habilidosa desbravadora
de estradas. Eu admirava seu lado aventureiro,
tinha impressão de que nada poderia detê-la,
e sentia-me protegido por sua coragem em seguir
sempre em frente.
No porta-luvas apanhei a brochura que nos orientaria
pela costa brasileira.
A
estrada reta, pouco movimentada, não
exigia muita atenção. A presença
de Liz também era ausência. Em
quê pensava? Em Hendrik, óbvio.
No telefonema dele, na bóia lançada
à náufraga. Eu me afogava, tragado
por meus projetos não realizados, sufocava
na frágil dependência que havia
criado para levar meus planos a termo, agonizava
na busca por um culpado por meus fracassos,
morria sozinho no fundo do esquecimento. O pensar
de Liz parecia completamente voltado para o
estranho dos seus sonhos, tudo girava em função
dele. O passado não contava mais, o presente
era mero trampolim do qual ela saltaria para
o futuro.
Eu
folheava o guia das praias, mas as páginas
pareciam todas em branco. Fácil fingir
uma concentração inexistente,
ainda mais para alguém que não
prestava atenção em mim.
—
Você está tão pensativo,
Leon.
—
Estou tentando entender esses mapas —
menti.
Traía
nossa amizade. Mentir... falar a verdade...
qual a diferença? Nada mudaria o futuro.
Há pouco pensava em tirarmos o máximo
proveito de nossos últimos momentos,
mas cada um parecia encerrado numa fortaleza
preservando pensamentos secretos.
—
Acha que eu sou muito maluca pra fazer o que
estou fazendo? — recomeçou.
—
Você está fazendo o que acha certo.
No seu lugar eu faria o mesmo.
Mentia
outra vez? Sim e não. Verdade e mentira
eram faces da mesma moeda girando continuamente.
Liz abria uma brecha em sua muralha expondo
algumas idéias. Senti vergonha por não
conseguir romper a barreira que me isolava.
—
Não sei se devo fazer o que eu quero.
E se eu estiver enganada, e se tudo sair errado?
—
Não vejo outra saída senão
recomeçar. A gente faz isso o tempo todo.
Recomeçar...
Dava sensatos conselhos a ela. Por que, para
mim, eles pareciam inúteis?
|
|
Preferia
estar na direção. Ao volante, soava
mais convincente sua interpretação
de motorista aplicada. Agora, no banco do carona,
a estrada era monótona, interminável.
Ao deixarem Campos, Leon insistiu em dirigir.
Ela não podia ser egoísta, tinha
decidido dividir tudo. Ele parecia concentrado
na estrada, talvez também necessitasse
de um bom motivo para representar o disputado
papel de motorista atento.
A
noite não demoraria a cair. Já haviam
ultrapassado a divisa entre o Rio de Janeiro e
o Espírito Santo. Há quantas horas
dirigiam? Há quanto tempo tinham almoçado
sanduíches, acompanhados por refrigerantes
quentes, no posto de gasolina? Não fazia
diferença. O tempo agora era uma superfície
pegajosa, a velocidade era ilusão. Tinha
pressa. Queria recuperar o tempo perdido. O tempo
perdido... Todo o tempo que se perde é
sempre irrecuperável. O tempo era uma estrada
contínua e pantanosa, apontando sempre
para frente; impossível dar marcha à
ré sem atolar. O passado ficava para trás,
retroceder era gastar inutilmente o presente.
Pensar no futuro também não era
desperdiçar o presente? O presente era
uma tortura compreendida entre o que não
existe mais e o que ainda não existe. Hendrik
era seu futuro, mas já fazia parte de seu
passado... era tudo, e nada. Se ao menos pudesse
falar com ele!... Não, tinha que esperar
a ligação a cobrar de um telefone
público, e falar depressa para não
gastar muito. Por que esperou ela voltar para
dizer que a queria junto de si? Hendrik não
telefonara mais, teria mudado de idéia?
Leon
dirigia em silêncio. Liz sabia que se não
buscasse um assunto qualquer permaneceriam longo
tempo imersos na mudez. Estava cansada de dar
os primeiros passos, sempre. Por que tinha que
ser responsável pelas palavras que arrancava
dele? Leon se desfazia na estrada que ficava para
trás. Não podia voltar para ajudá-lo,
atolariam, os dois... “Viver é ser
egoísta...”, pensou. Leon sumia na
estrada, mas também estava ali, ao lado
dela, conduzindo o carro, ajudando-a, aliviando
sua solidão. Sentia-se culpada. Sua presença
fictícia traía a devoção
do amigo. Admirava-o: tanto tempo sem dirigir,
e se oferecia para seguir por estradas que nunca
havia passado. Sozinha, não ousaria ir
tão longe. Sim, fora bem mais longe, havia
atravessado o oceano, mas estava com Luísa,
e depois Franz. E ainda Mariana, Gerd, Maurício,
Lucas, Derek, Hendrik... Uma sorte sempre achar
quem lhe fizesse companhia!... Estar sozinha era
estar morta.
—
Chegamos! — falou Leon, trazendo-a de volta
à vida.
Anoitecia
em Guarapari. No Centro, demoraram a encontrar
o Albergue da Juventude.
Sem
perder tempo, saíram a pé, com o
portfolio, em busca dos prováveis clientes.
Num
pequeno shopping acharam três lojas especializadas
em moda-praia. Os gerentes de duas delas só
voltariam no fim do expediente. Na terceira loja,
encontraram o proprietário. Interessado,
ele elogiou os desenhos de Liz, lamentando já
estar com a produção anual pronta.
Jantaram
no shopping. Nas outras lojas, a mesma resposta
negativa. |
|
Entramos.
A janela aberta deixa o quarto fresco na noite
quente, e também repleto de mosquitos.
Duas camas de solteiro, uma de casal. Liz segue
para o banho. Estendo-me na cama estreita perto
da janela. Meu corpo suado e pegajoso repousa.
Os mosquitos me picam. Mexo as pernas pesadas,
os braços cansados, a cabeça dolorida.
Os insetos zumbem nos meus ouvidos, colam na minha
pele, esmagam-se entre as palmas das minhas mãos.
Liz
tomou um banho rápido. Seu rosto de menina
ganha viço com a moldura de cabelos molhados.
Sinto o perfume do sabonete. Preciso me lavar.
Levanto da cama. No banheiro diminuto, meto-me
sob a água fria.
Volto
ao quarto, deito na cama imaculada, junto da parede.
Liz, na cama de casal, segura algo que não
sei o que é. Na mochila, apanho um caderno.
O que vou escrever?
Agora
sei o que ela segura com tanto cuidado: erva e
papel de seda. Achei que tivesse deixado esses
delírios em Amsterdam. Com quem terá
comprado maconha? Age naturalmente, como se eu
sempre a tivesse visto usar drogas.
Começo
a escrever. Concentrada em sua tarefa, Liz nem
percebe que tomo nota de seus atos. Parece que
terminou de confeccionar o cigarrinho artesanal.
Fala que prefere os que vêm prontos. Insiste
para eu fumar com ela, mas recuso. Liz reclama
que os “cigarros” daqui são
fracos, a erva não é pura, tudo
muito misturado. Por que os consome, então?
Paliativo? Fuga? Do que ela foge? Onde se refugia?
Não sei. Não sei quem é a
estranha familiar de rosto jovem e cabelos molhados.
Viciada, louca, ou apenas brincalhona?
Não
está tendo sucesso na montagem do seu...
seu... como chamar? Prazer? Relaxamento? Não
imagino, e nem por isso me sinto tentado a provar:
vou esperar e ver o que acontece com ela. Liz
afirma que fica exatamente igual. Igual a quem?
A ela mesma? Quem é ela?
Pega
o fósforo, mas não o risca. Fala
um “Merda!” e acrescenta: “Leon,
fracasso total neste setor!” O cigarro desmonta.
Uma menina que brinca. Mais uma tentativa. Estou
curioso, mas também com sono: resistirei
até que Liz consiga acender o baseado?
Tento
registrar os instantes no exato momento em que
ocorrem, mas é impossível fixar
o presente, ele sempre se torna passado. Agora
sim, risca o fósforo. Tenta acender o cigarro,
não consegue. Segundo fósforo, agora
vai. Evito olhar para ela. Sinto o cheiro da erva
ainda apagada, tenho ótimo olfato. Terceiro
fósforo. Conseguiu. Puxa a fumaça,
se esforça um pouco. Prende a respiração.
A fumaça chega às minhas narinas.
O cheiro não é ruim. Mais um fósforo,
ela diz: “Já gastei quatro fósforos
e não consigo acender esse negócio!”
Então, que cheiro é esse que estou
sentindo? Olho para Liz. Está de olhos
fechados, recostada à cabeceira, joelhos
flexionados: não se parece mais com ela...
desde quando? Quinto fósforo, a coisa não
pega fogo facilmente. Eu já teria desistido.
Sua persistência me comove. Os mosquitos
me devoram. A fumaça não os afugenta,
e vai agravar minha dor de cabeça. O cigarro
se apaga novamente. Quanto fósforo! Quanta
bobagem. Agora foi. Olho para ela mais uma vez.
Parece normal. “O que você está
escrevendo?”, pergunta. Não respondo,
apenas sorrio. Precipita-se para mim, acho que
vai me tirar o caderno...
—
Como você é crítico! —
comenta, após ter lido meu texto.
—
Você também é — falo,
só para provocá-la.
—
Eu não! Eu não critico ninguém
— eleva o tom de voz.
—
Tem certeza?
—
Tenho! — diz, mais alto ainda. Detém-se.
— Estou falando alto demais?
—
Você está quase gritando —
exagero.
—
Falar alto é horrível! Eu odeio
gente que faz escândalo...
—
Onde conseguiu isso? — pergunto, referindo-me
à erva. — Trouxe de Amsterdam?
—
Não, a que eu trouxe de lá já
acabou. Essa aqui eu consegui com uma amiga.
—
Amiga?
—
Ai, quanta pergunta!
Olho-a
sem nada dizer.
É
isso, estar drogada? Falar alto e ser crítica?
Será que, como o álcool, a maconha
libera o lado reprimido de cada um? Minha curiosidade
me perturba. Perguntar, responder... Sou um inquisidor
impiedoso. Ataco:
—
Você precisa mesmo disso?
—
Agora preciso — diz, sem titubear.
—
Mas fugir não resolve nada.
—
Eu não estou fugindo. Estou voltando...
Está
voltando. Não se encontra mais diante de
mim, nem onde seu pensamento procura fixar-se,
não está em parte alguma. Desisto:
inútil continuar o diálogo em que
um não ouve o outro. Estou só. O
corpo na cama de casal não passa de nulidade.
Fecho os olhos. Minha cabeça pesada gira
em meio a fumaça.
|
|
A
visita às lojas de rua foi um fiasco. Tentaram
uma feira de artesanato, mas os produtos eram
vendidos a preços baixos demais. Liz estava
surpresa. Segundo informações de
amigos, a cidade devia ser uma mina inesgotável
de clientes. Na orla, encontraram lojinhas de
desanimadora simplicidade voltadas basicamente
ao comércio de roupa de banho. Poucas camisetas
nada exclusivas. Conversando com um comerciante
descobriram que as camisetas eram compradas de
uma estamparia. Conseguiram o endereço
do lugar.
A
estamparia funcionava nos fundos de uma casa bastante
modesta — o que os desanimou ainda mais.
Uma mulher jovem os recebeu. Gostou dos desenhos,
mas, para compra, precisava falar com o marido,
que voltaria em uma semana. Liz agradeceu —
não podiam esperar tanto. A moça
sugeriu que fossem até Porto Seguro, afirmando
que lá o comércio de camisetas era
muito bom por causa dos turistas. Agradeceram
a indicação.
Decidida,
Liz girou a chave na ignição, enquanto
Leon pegava o guia das praias.
—
Se nós formos por dentro ganhamos tempo,
o caminho é mais curto — disse ele,
olhando o mapa. — Pela BR 101 vamos chegar
mais depressa. Daqui até Vitória...
— fez os cálculos pela numeração
da estrada — são 66 quilômetros.
—
E de Vitória até Porto Seguro?
Leon
passou uma, duas, três, quatro páginas
do mapa.
—
É bem mais longe...
Liz
dirigiu o dia inteiro. Tinham avançado
três páginas do mapa, mas a Bahia
só começava na página seguinte.
Estavam cansados. Passava das nove da noite quando
acharam melhor parar na cidade que se aproximava.
|
|
Um
lugarejo, cortado pela estrada federal, fendido
em duas partes de igual pobreza. Deixamos o carro
no posto de gasolina. Atravessamos a BR 101, o
outro lado da cidade parece mais movimentado.
Procuramos hotel e restaurante, em vão.
Encontramos apenas alguns armazéns entremeados
com casinhas humildes ao longo de ruelas poeirentas.
Os habitantes vivem sua simplicidade como se não
lhes restasse outra coisa a fazer. Alguns nos
olham curiosos, chamamos a atenção.
Voltamos
para o outro lado. Num restaurante de beira de
estrada somos recebidos por uma senhora simpática,
que mostra o restrito cardápio da casa.
Liz escolhe carne assada. Sentamos a uma das mesas
forradas com um pegajoso plástico quadriculado
em vermelho e branco. Dois copos que um dia armazenaram
geléia contêm agora retângulos
de papel cinzento que se pretendem guardanapos.
Sobre a mesa cambaleante, grossos pratos de porcelana,
com o centro marcado por incontáveis riscos
de facas forçadas nas carnes duras, exibem
uma fina camada de poeira da estrada. Discretamente,
limpamos a superfície arranhada com os
retalhos de papel cinza. A comida chega em travessas
de metal amassado, boiando numa gordura alaranjada.
O rapaz que a trouxe nos serve com generosidade.
Temos fome. Jantamos em silêncio.
Ao
lado de um posto de gasolina, o único hotel
da cidade. O quarto é quase uma cela. Duas
camas de solteiro separadas pela mesinha de cabeceira,
junto à janela que se abre para a cobertura
de zinco do posto. Tomo banho. Volto ao quarto.
Liz segura roupa limpa.
—
Hoje vou ser eu — digo, sentando na cama.
—
O quê...?
—
Hoje quem vai fumar sou eu.
Ela
me olha surpresa, incrédula. Vai para o
banheiro, onde toma um banho rápido. Volta,
senta na cama e começa a montar o cigarro
artesanal.
Sinto-me
tranqüilo. Tenho impressão de que
Liz está mais apreensiva que eu. Mesmo
apagada a erva tem cheiro forte. Dessa vez Liz
não demora a preparar o cigarro que custa
a acender. Suga com força através
do corpo cônico, a brasa cintila. Passa-me
o baseado. Explica que preciso tragar. Puxo a
fumaça com força também.
Tudo arde: olhos, narinas, garganta. Liz pede
que eu prenda a fumaça dentro de mim. Retenho
a maconha gasosa nos pulmões. Depois a
libero, ingerindo nova dose. E outra, e outra.
—
E então? — pergunta. — O que
você está sentindo?
—
Parece que eu engoli carvão em brasa, nada
mais — respondo.
—
Mas pela quantidade de fumaça que você
já engoliu era pra estar...
—
Tendo alucinações? — corto-lhe
a palavra. — Mas tudo está exatamente
igual. Eu sou eu, você é você,
estamos num quartinho miserável de hotel,
numa cidadeca horrível.
Liz
sorri. Deve pensar que estou drogado, só
porque digo o que penso.
—
Eu não estou drogado. Não sinto
nada de diferente.
Deitada
na cama, ela ri da minha cara.
—
O que é tão engraçado?
—
Você, Leon. Você é muito engraçado.
Meu
pensamento se embaralha. Quero continuar falando,
mas minha mente está em câmera-lenta.
Tento explicar isso a Liz, não o consigo.
Deito de costas, fechos os olhos.
—
Eu também não senti nada na primeira
vez. Precisei insistir várias vezes.
Não
respondo. Não sei o que dizer. Minha voz
é uma possibilidade remota.
Liz
continua falando. Ouço-a, mas não
a compreendo.
Depois
de algum tempo abro os olhos. Liz está
na cama, fitando o teto. Meu estômago reclama.
Sinto uma fome repentina, o que é estranho,
uma vez que jantei bem. Na mochila, encontro um
saco de biscoitos, que devoro.
Liz
me acorda no dia seguinte. De pé, junto
à minha cama, de banho tomado, está
pronta para partir. Sem dizer palavra, deixa claro
que a estou atrasando. Sinto-me cansado, minha
garganta arranha, minha cabeça lateja.
Eu
estou descendo. Vou aproveitar pra dar uma revisada
no carro antes da gente ir — avisa. —
Já estou levando as minhas coisas. Espero
você lá em baixo. Vê se não
demora.
Levanto.
Sob a água do chuveiro, escuto o motor
do carro de Liz. Olho pelo basculante, vejo-a
guiando o carro para fora do posto. “Aonde
ela vai?”, sobressalto-me. Acompanho-a com
os olhos. Embica o carro na estrada, no sentido
Vitória, espera um pouco. “Vai me
deixar sozinho, está indo embora!”.
Ganha a estrada, mas dá meia volta e entra
num outro posto de gasolina do outro lado da pista,
desce do carro, fala com o frentista. “Estou
ficando paranóico...” Termino o banho
às pressas. Desço correndo para
encontrá-la.
Por
não ter dirigido no dia anterior, fico
com o controle do volante — o que a contraria.
Parece aborrecida com algo. Eu não estou
numa de minhas melhores manhãs. Dirijo
calado.
Menos
de meia hora na estrada e ultrapassamos a divisa
entre Espírito Santo e Bahia. Começo
a me animar. De repente, Liz pergunta se não
posso ir mais depressa. Olho o velocímetro:
90 km/h. Aumentar a velocidade faz trepidar o
carro desalinhado, assim mesmo acelero. Aos 100
km/h o carro começa a vibrar, parece que
vai se desmanchar. Piso ainda mais no acelerador.
Liz reclama, quer que eu reduza a velocidade,
ficou assustada. Tenho vontade de frear o carro,
descer, dar a volta e limitar-me a insignificante
posição de carona. Mas às
vezes sou bastante teimoso. Continuo guiando o
carro a 90 km/h.
A
estrada parece não ter fim. Liz verifica
que ainda faltam duas páginas para chegarmos
a Porto Seguro. Aborrecida, joga o mapa no porta-luvas.
Fechada
em silêncio, sem distração
alguma só lhe resta pensar — e sofrer.
Tentou ler, ouvir música, apreciar a paisagem...
nada funcionou. Conversar comigo deve ser um martírio.
Curvas,
muralhas de pedra, precipícios... O volante
do carro em minhas mãos... No momento,
controlo nossas vidas, elas dependem de mim. Se
eu tiver coragem... Bater contra uma parede de
pedra a 100 km/h, desabar num desfiladeiro...
dificilmente se sobrevive a acidentes desse tipo.
Acabaria o sofrimento dela, o meu também.
Deixaríamos de existir, nossos problemas
não mais nos afligiriam. Aquela muralha,
lá adiante. Se acelero mais e deixo de
fazer a curva... Olho para Liz. Parece dormir,
olhos fechados, rosto tranqüilo... não
acordaria nunca mais, morreria sem saber de nada...
Um acidente na estrada. E se o impacto não
for suficiente para nos destroçar? E se
só um de nós morrer? E se sobrevivermos,
mas ficarmos mutilados? Não, não
posso fazer isso. Minha vida me pertence, mas
não a de Liz. Não posso decidir
por outro uma escolha que não me cabe.
Não sou suicida, muito menos assassino.
Faço a curva a quase 100 por hora, sou
mesmo covarde. Pensar demais, meu maior erro.
Chegamos
a Porto Seguro ao cair da noite. A cidade é
movimentada, e a quantidade de lojas que avistamos
no Centro é promissora. O rosto de Liz
se ilumina após um dia inteiro de apreensão.
Acabo relaxando também.
Os
hotéis têm preços razoáveis.
Enquanto estaciono o carro, Liz reserva o quarto.
Telefonamos
para casa. Explico a minha mãe que a viagem
se estendeu um pouco. Liz fala a mesma coisa para
sua avó, e pergunta se alguém ligou
pra ela. Sim, Hendrik ligou. Mesmo!? O que ele
disse? Não sabiam, não entendiam
inglês. Liz fica aflita. Despede-se dizendo
que vai ligar outro dia. Repete-me o que já
deduzi. Não acredita no que aconteceu.
Por que não escreve para ele?, sugiro.
Ela já pensou nisso.
Seguimos
para um shopping que vimos ao circular pelo Centro.
Dez lojas vendendo exclusivamente camisetas. Extasiados,
olhamos as vitrines.
Na
primeira loja, o proprietário arrogante
nos recebe com rispidez. Olha os desenhos de Liz
como se fizesse um enorme favor. Acha exorbitante
o preço das estampas, diz que não
conseguiremos vender nada. Nos informa que em
Porto Seguro todos copiam os desenhos alheios,
não vale a pena pagar caro por estampas
que só serão exclusivas na primeira
semana expostas na vitrine.
Decidimos
baixar os custos antes de visitarmos outros clientes.
Nas demais lojas não encontramos os proprietários
ou as pessoas responsáveis pela compra
de estampas. Anotamos alguns telefones e ficamos
de marcar entrevistas para o dia seguinte. Certifico-me
de que as lojas realmente abrem no domingo.
Damos uma volta na cidade. A quantidade de vitrines
expondo camisetas é surpreendente. Numa
galeria, visitamos uma loja atrativa. Um belo
jovem nos atende. Liz indaga pelo proprietário.
O rapaz se apresenta: chama-se Augusto. Ela explica
o motivo de nossa visita, ele se mostra interessado.
Augusto parece impressionado com o arsenal de
desenhos diante de si, e nos trata amavelmente.
Fala-nos um pouco sobre si mesmo. Liz tenta disfarçar
o tédio ante a conversa mole. Sempre simpático,
Augusto revela o preço das estampas no
mercado local — cinco vezes inferior aos
custos que acabamos de reduzir. Explica também
como funciona o difundido sistema de apropriação
indevida de desenhos alheios.
No
balcão, o portfolio de Liz: 200 estampas,
criadas ao longo de quatro anos. Estamos cansados,
com fome, sujos da poeira da estrada. Augusto
folheia novamente o portfolio. Olha os desenhos
como se nos tivesse em suas mãos depois
das verdades reveladas. Elogia as estampas, diz
que vai escolher muitas. Liz não se move,
me olha e tenta sorrir. Augusto escolhe 75 desenhos,
e regateia, alegando comprar quantidade. Liz reduz
pela metade o preço de cada estampa —
ainda alto para os padrões locais. A princípio,
o valor agrada Augusto — tanto quanto nos
desagrada. Tudo se acerta bem e depressa demais.
Augusto propõe nos enviar um cheque pelo
correio quando receber as estampas, também
via correio. Liz argumenta que precisa pensar
na proposta. Ele insiste: se baixarmos ainda mais
os preços fazemos negócio na hora.
Combinamos passar ali depois de visitarmos outros
clientes. Augusto se mostra tranqüilo ao
afirmar que será difícil vendermos
algum desenho a outra pessoa na cidade.
O
presságio me incomoda. A fadiga me domina.
A fome ruge em meu estômago oco. Tenho que
ser forte, ajudar Liz. Ela se arrasta exausta,
faminta. Entramos no primeiro restaurante que
vemos pela frente. A comida é quase intragável,
mas não temos forças para buscar
outro lugar. Comemos o que conseguimos. Rastejamos
de volta ao hotel.
|
|
Vinha
tentando comunicar-se com Hendrik desde que ele
lhe telefonara. Tinha escrito uma carta, da qual
ainda não obtivera resposta. Havia começado
nova carta na noite anterior, explicando o que
fazia para conseguir dinheiro. Hendrik tinha ligado
outra vez, e Liz não estava em casa para
atendê-lo. O que teria a dizer? Reforçar
o pedido para ela voltar ou desfazer tudo?
No
dia seguinte, descobriram que a maioria das lojas
só funcionava a partir das cinco da tarde.
Retornaram à loja de Augusto que, estranhamente,
estava aberta. “Então... não
conseguiram vender nada ainda...”, disse
ele. Resignados, Liz e Leon reduziram ainda mais
o preço das estampas. Mas Augusto continuou
achando tudo muito caro. Ditava as regras: só
venderiam os desenhos pelo preço que ele
quisesse. Desistiram de fazer negócio.
Diante
de todo um dia de espera — já que
por telefone havia sido impossível marcar
visitas —, resolveram explorar a região.
Tentavam aproveitar o caráter turístico
da viagem, mas as despesas que estavam tendo e
a preocupação com a venda das estampas
não os deixavam usufruir o passeio. Liz
compreendeu que era imprescindível obstinar-se
em alguma coisa. Esforçou-se tanto em ignorar
que tudo ia mal que acabou contagiando Leon.
De
carro, ultrapassaram o perímetro urbano,
em direção ao norte. O caminho beirando
o litoral revelava praias de areias avermelhadas
e florestas de coqueiros em alguns pontos da orla.
Na
estrada havia um desvio para um local chamado
Coroa Vermelha. Liz, que dirigia, resolveu ir
até lá. Curioso e estranho lugar.
Uma espécie de taba — que abrigava
quiosques de souvenirs — dispunha-se
no centro de um terreno circundado por uma rua.
Contornando de carro a taba, pensaram tratar-se
de alguma mini-reserva indígena. Estacionaram.
Foram cercados por um grupo de curumins que tentava
vender colares feitos com sementes. Impossível
não se comover com crianças de olhos
tão vivos. Deram algumas moedas aos indiozinhos
em troca de três colares.
Nas
barracas de souvenirs encontraram belos
artefatos indígenas. Liz não resistiu:
apesar do dinheiro escasso, acabou comprando um
arco e flecha, que pediu a Leon para escolher.
O índio que fez a venda foi simpático
demonstrando como o arco funcionava. Leon comentou:
“Deve ser difícil sobreviver a uma
flecha como essa!”, ao que o índio
apenas sorriu.
Em
Porto Seguro, num calor desagradável, o
dia se arrastava. Não tinham fome, nem
sede, nem esperanças. Sentiam como se nada
mais houvesse a fazer. As pessoas moviam-se em
câmara-lenta, pareciam pensar e agir como
se o tempo tivesse outro ritmo. A pressa não
tinha vez na cidade. Decidiram matar o resto do
dia conhecendo os arredores, forçando um
“passeio turístico” do qual
nada aproveitavam.
De
volta à cidade, ao anoitecer, depois de
passarem no hotel e pegar o portfolio, seguiram
no encalço dos prováveis clientes.
Não conseguiram encontrar nenhum deles,
apenas, por telefone, queriam marcar encontros
para o dia seguinte. Voltaram ao hotel, achando
que jamais sairiam daquela cidade onde tudo era
adiado para o dia posterior. A partida estava
perdida.
Deixaram
Porto Seguro sem vender uma estampa sequer.
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