O aspecto modesto do consultório não me causara má impressão na primeira vez em que havia estado com o Dr. Antoine. Agora, na segunda visita — quando acreditava que o tratamento começaria — a ante-sala desprovida de móveis, com caixas amontoadas num canto e tapetes enrolados em outro, até parecia simpática em sua nudez parcial.
            O Dr. Antoine me fez entrar na sala onde as consultas ocorriam. Recostei-me na poltrona reclinável. Ele me entregou três folhas de papel para ler, dizendo: “Esse é você”.
            A primeira folha continha meu mapa astral. Na segunda, preenchida com letra desordenada, frases seguiam em linhas ascendentes. Li:
            A duplicidade dos signos acentua seus defeitos e qualidades. Embora um pouco caótico, tem personalidade fascinante e diplomática. No seu íntimo, vive a contradição de desejar uma vida amorosa estável e a vontade de liberdade sexual. A lua em Libra acentua a falta de decisão e senso prático, mas aumenta e reafirma os dons artísticos, mediúnicos e intuitivos.
            Norte em Capricórnio – Sul em Câncer. Você veio a esta vida para aprender a alcançar maturidade. Em vidas passadas teve tendência a olhar o mundo através de “lentes cor-de-rosa”. Agora, muito dessa visão deturpada permanece em você, impedindo o seu crescimento.
            Você gasta a maior parte de suas energias no lado mais escuro da vida. Sua maior dificuldade é tentar manter uma existência acima de reprovações, pois seu ser inferior é muito poderoso. Você ainda não estabeleceu seu senso de valores, em outras vidas destruiu totalmente este sistema. Há também forte resíduo de abuso sexual em vidas passadas. Usou muito de sua sexualidade como “força”, valendo-se dela para ganhar a posse de outros. Há muito ciúme em você.

            Na terceira página, a letra disforme prosseguia:
            Água 5 – Terra 2 – Fogo 3 – Ar 4. O excesso de planetas em água o torna sensível, emotivo, vulnerável. A concentração de planetas na casa 4 indica introspecção, gosto pela vida tranqüila, desejo de ter um lar, seu mundo próprio. A casa 10 evidencia que você precisa de uma profissão independente, para usar sua imaginação e originalidade.
            “Esse sou eu? Só isso?, três páginas preenchidas com garranchos?” Senti-me estúpido diante do perfil astrológico aplicável também a outros. Fácil escrever aquilo depois do interrogatório a que o Dr. Antoine havia me submetido na visita anterior.
            Quis devolver as páginas ao doutor, mas ele disse que eram minhas.
            — E então, podemos começar? — indagou, olhando-me por cima dos óculos.
            — Sim — respondi, sem saber o que se seguiria.
            Explicando que aquela etapa serviria para me relaxar, ele abaixou o encosto da poltrona, colocou-me fones de ouvido e também óculos escuros nos quais, na face interna, uma luz vermelha vibrava intermitente. Eu ouviria música e receberia mensagens subliminares. “Que tipo de mensagens?”, pensei, preocupado, já que não poderia distingui-las. Mensagens que ajudariam a fortalecer minha auto-estima, falou o Dr. Antoine, como se ouvisse meus pensamentos. Pediu que eu fechasse os olhos, me concentrasse na música. Deixou-me sozinho. Um adágio começou a tocar. Como ele sabia que eu gostava daquele tipo de música?
            De volta à sala, o Dr. Antoine desligou o gravador e me retirou os fones de ouvido, deixando os desagradáveis óculos escuros. Mantive-me deitado.
            — Tente se lembrar da sua infância — pediu. — Alguma coisa importante, algum problema ocorrido nessa fase.
            Vasculhando minha memória, não lembrei de coisa alguma que atendesse às expectativas do Dr. Antoine.
            — Não... não me lembro de nada... nada importante... — falei.
            — A causa dos seus males atuais tem origem numa vida passada — afirmou.
            Sua voz era segura. A rapidez na conclusão me impressionou.
            — Vamos relaxar mais — propôs —, e regressar a alguma vida passada que você teve.
            “Mas já?”, pensei, incrédulo. Acreditava que as regressões seguiriam uma ordem cronológica invertida, conforme ele mesmo tinha explicado. Não imaginava que na segunda consulta — após a rápida investigação da minha infância imprecisa — já fôssemos ultrapassar as fronteiras do tempo. O Dr. Antoine parecia ter pressa. Inquietei-me. O relaxamento produzido pela música havia se dissipado, a luz vermelha dos óculos começava a me enjoar.
            — Não se preocupe — falou. — Você deve estar achando cedo pra tentarmos a regressão, mas você tem muita sensibilidade, mediunidade também. Isso permite a gente avançar um pouco.
            Mais uma afirmação. Eu queria resolver meus problemas. Fiz o que me pedia.
            — Precisamos escolher uma palavra como chave para o seu retorno a outras vidas. No que você está pensando agora? Uma palavra.
            Minha mente estava atravancada de suspeitas e desconfianças, ao mesmo tempo era como se estivesse vazia.
            — Uma palavra, vamos! — insistiu.
            — Nada — falei
            — Então a sua chave é a palavra “nada” — disse, como uma ordem. — Vou fazer uma contagem regressiva e você vai se imaginar atravessando um túnel escuro em direção à luz. Quando eu terminar de contar você deverá estar saindo do túnel.
            Meu coração disparou. E se não conseguisse atravessar o túnel a tempo?
            — Cinco: você está sonolento... nada. Quatro: as suas pernas começam a ficar dormentes... nada. Três: os seus braços estão cada vez mais relaxados... nada. Dois: a sua cabeça está leve, sua mente limpa... nada. Um: todo o seu corpo está em completo relaxamento... Nada! Nada! Nada!
            O Dr. Antoine se equivocava. Por mais que me esforçasse, meu corpo parecia um bloco de concreto. O túnel que tentei imaginar tive que atravessar correndo.
            — Você deixou o túnel. Onde está agora? — indagou. — Descreva o lugar.
            — Eu não consigo... ver nada... — respondi.
            Ele sugeriu que eu imaginasse um lugar tranqüilo. Mentalizei uma praia.
            — Descreva o local.
            — Uma praia... de areias molhadas... pôr-do-sol... — falei, com voz pastosa.
            — Em que ano você está?
            — 1650... — falei a primeira data que me veio à mente.
            — Essa praia fica na Europa — afirmou.
            O Dr. Antoine procurava me conduzir, isso me irritou.
            — Em que país, em que cidade? Onde fica essa praia? — prosseguiu.
            Pensei numa praia de Veneza, onde já havia estado, mas não conseguia dizê-lo.
            — Você já sabe qual é o lugar — falou ele, parecendo estar no meu cérebro.
            — Praia do Lido... Veneza... — disse a resposta que ele parecia esperar.
            — Agora caminhe por essa praia e me diga o que está vendo — continuou.
            Pensei num homem andando entre gente reunida em grupos, se aquecendo em volta de fogueiras. As pessoas olhavam para o homem com estranheza. Não relatei meus pensamentos.
            — Olhe para as roupas do homem. Como ele está vestido? Comece pelos pés.
            — Ele está descalço... as roupas estão sujas... rasgadas...
            — Você consegue ver isso com clareza?
            A voz do Dr. Antoine me soou contrariada, como se eu não dissesse a resposta correta.
            — Sem sapatos... roupas velhas... — reafirmei.
            — O que o homem está sentindo?
            — Ele tem... medo... as pessoas olham pra ele assustadas... ele é diferente...
            — Aonde esse homem está indo? Ele está entrando em algum lugar?
            No meu pensamento o homem se dirigia a uma casa de madeira bastante pobre. Entrava apressado e fechava a porta, sentindo alívio por livrar-se dos olhares indesejáveis.
            — Onde está o homem? — insistiu o Dr. Antoine, meio impaciente com minha mudez.
            — Numa casa... — resumi a cena.
            — Tem certeza que não é uma igreja?
            — Uma casa... pequena... pobre... de madeira... está muito escuro...
            Novo desapontamento dele, que tentava me empurrar para uma igreja que eu não via.
            — Esse homem é visto de forma suspeita porque não está de acordo com os padrões sociais da época em que vive — falou, parecendo decepcionado.
            Então começou a dizer palavras que não entendi, parecia um rito de magia. Achei ridículo, mas não ri. O Dr. Antoine pediu que toda influência negativa daquela vida passada fosse neutralizada. Tornou a dizer as palavras mágicas e iniciou a contagem regressiva de volta ao presente.
            Retirei os óculos, abri os olhos e me senti tolo, diante do terapeuta francês. Era aquilo a regressão? Aquele pensamento orientado era uma vida passada? Se era, tudo havia ficado muito aquém das minhas expectativas. Realmente queria ter visto algo, mas por mim mesmo. Sentia-me ludibriado. Aquele terapeuta holístico devia ser um charlatão que, com meu consentimento, roubava-me uma pequena quantia semanal. Falei ao Dr. Antoine da minha dificuldade em relaxar, em me concentrar. Reclamei dos óculos e do barulho da rua. Ele disse que eu precisava “desligar” meu lado racional. Dei a entender que não estava muito seguro acerca do resultado do tratamento. Sem demonstrar aborrecimento, o Dr. Antoine falou que minhas dúvidas e desconfianças eram naturais, já que eu não tinha hábito de me submeter àquela situação. Era necessário praticar para ter maior controle sobre aqueles fenômenos. Na próxima consulta ele usaria um aparelho destinado a amortecer a racionalidade.
            Saí do consultório sentindo-me confuso. Algumas coisas pareciam inexplicáveis, outras, evidentes. Por que, na regressão, meu pensamento era ágil e minha voz lenta? Por que tinha a sensação de que o Dr. Antoine sabia tudo o que se passava na minha mente? Telepatia? Por que ele se desapontava com algumas das minhas respostas? Eu oscilava entre a credulidade desconfiada e a esperança decepcionada.
            À noite telefonei para Liz. Contei em detalhes minha segunda consulta, pensando que ela talvez me ajudasse a raciocinar melhor sobre os fatos. Mas Liz partilhava a mesma opinião contraditória que eu. Depois do que vivera em Amsterdam, se via levada a crer que “algo” devia existir. Por outro lado, não havia nenhuma prova concreta de que fenômenos sobrenaturais fossem incontestáveis. Nossa conversa entrou pela madrugada. A cada certeza uma dúvida se contrapunha. Liz disse que talvez não fosse importante eu me ater à veracidade daquelas experiências: se através delas eu resolvesse meus problemas, que mal poderia haver?

            A voz de Liz era suave e tranqüila quando me ligou no fim de semana. Num lampejo, senti como se recuasse a um tempo em que nossa amizade era inabalável. Às vezes somos ingênuos acreditando que certas coisas podem resistir a tudo. A passagem do tempo é sempre destrutiva.
            — Em que pé está o nosso livro? — ela perguntou, de repente.
            — Bom... é... não sei dizer — titubeei, surpreso.
            — Acha que o que a gente escreveu ainda serve?
            — Eu pensei que esse projeto estava engavetado pra sempre — confessei.
            — É melhor desistirmos, então?
            — De jeito nenhum. Eu nunca desisto daquilo em que acredito.
            Uma pausa se fez do outro lado da linha.
            — Bem... então vamos continuar o livro.
            Estava impressionado com sua repentina disposição em dar continuidade aos nossos planos. Teria tomado a decisão por si mesma ou também por mim? Só por minha causa? A sensação de culpa começava a me pesar.
            — Como vamos fazer? — perguntou, antes que eu dissesse qualquer coisa?
            — A gente podia reler tudo o que escreveu até agora analisando e criticando nossos próprios textos e também os do outro.
            — Tudo bem. Quando eu terminar ligo pra você. Vou começar ainda hoje.
            — Eu vou fazer o mesmo — concluí, com ânimo renovado.
            Seria sonho, aquele telefonema? O que me garantia que nossa conversa tinha ocorrido? Quando algo inesperado me acontecia eu tendia a pensar nele como alucinação. Mas não, Liz havia ligado, tomara a iniciativa. Nosso livro seria terminado.

            Meia hora se passara desde que eu tinha falado com Liz. No novo telefonema seu discurso era outro. Pedia desculpas, melhor não retomarmos o projeto do livro. Perplexo, certifiquei-me de que a ligação anterior havia ocorrido: a prova era essa outra, desfazendo tudo. O novo adiamento seria por pouco tempo, ela estava com dívidas que precisava saldar, tinha que ganhar dinheiro depressa... Minha frieza ao telefone deve ter lhe dado a exata noção do meu desapontamento. Constrangida, crivou-me de desculpas antes de desligar.
            Desativei as impressões que fazia dos capítulos do livro. Desliguei a impressora. Peguei as páginas frescas e olhei o amontoado de palavras. Rasguei tudo e joguei no lixo.
            O que ela queria de mim? Enlouquecer-me?, torturar-me? Estava conseguindo... Meu corpo na cama era um fardo intranqüilo, meu olhar fitando o teto, vazio. Por que Liz me dera falsas esperanças? O que teria acontecido naquela meia hora para que mudasse completamente de opinião? Dívidas: precisava trabalhar. Desculpa? Mentira? Vingança?
            Liguei para ela. Falei que poderia lhe emprestar algum dinheiro. Recusou, não achava justo o meu sacrifício. E acrescentou que mudar de credor não significava saldar dívidas.

            Por que sempre fazia promessas que não podia cumprir? Isso magoava os outros, fazia mal a ela. Não, nunca mais... nunca mais. Prometia a si mesma jamais fazer promessas que não pudesse honrar. Prometia a si mesma... Comprometia-se em mais uma promessa.
            O que teria acontecido se Hendrik não lhe telefonasse logo após ter acertado com Leon a continuidade do livro? Teria retomado sua vida ou seguiria mentindo para si própria? Hendrik. Havia ligado realmente? Sim, o telefone tocara, ele do outro lado da linha, do outro lado do oceano. Podia ouvi-lo dizendo ter saudade, sentir sua falta... Ela não poderia voltar para lá? Pergunta ou pedido? Dinheiro: precisava trabalhar. Tudo novamente dependia dos malditos retângulos contendo a fauna brasileira, tudo sempre dependia daquelas notas... Sim, podia voltar... ela queria, ele o consentia. Promessa ou vontade? Podia voltar, mas não ainda. Voltaria tão logo tivesse dinheiro. Voltar para Amsterdam. Voltar a viver...
            Não havia mentido a Leon, apenas omitira a verdade. Para quê atormentá-lo com aquela notícia? Ele não merecia aquilo, até queria ajudá-la!... Generosidade ou auxílio disfarçado em interesse? E ela, estava interessada em ajudá-lo?, poderia continuar sendo amiga? Egoísmo ou mesquinhez de sua parte? Sim, queria ajudá-lo, mas como? A discreta piedade que Leon começava a lhe inspirar a constrangia, esse sentimento não fazia parte de uma amizade saudável. E a mentira? E a verdade? Pode-se falar todos os assuntos com um legítimo amigo? A verdade sempre deve ser dita? Mentir é trair? E omitir? Amizade é compromisso. Compromisso com o quê? Com a sinceridade? Sinceridade, arma destrutiva, incômodo comprometimento. Comprometer-se... prometer a si mesma. Não, nunca mais promessas que não pudesse cumprir...

            Trinta e cinco anos. Mais um ano vivido, um ano de vida a menos. Seu aniversário. Levantar da cama, ganhar abraços e beijos da família, presentes baratos. Receber telefonemas dos amigos, e parentes distantes que só ligavam nessa ocasião. Visita de amigos e conhecidos, presenças desejáveis e indesejáveis, inevitáveis. A técnica que vinha adotando nos últimos anos já não surtia efeito. Inútil tentar fugir da mesa festiva que D. Amália preparava, tudo ficava adiado para o dia seguinte. Jamais gostara de comemorar seu aniversário, nem mesmo quando criança. A passagem dos anos evidenciava a idade, as festinhas desagradáveis celebravam cada vez mais sua velhice. Uma data como outra qualquer, dia e mês sempre iguais, num ano diferente, sempre no início da primavera. Coincidência abominável. “Quantas primaveras?” Como odiava aquilo. Detestava seus aniversários, todos eles. Se pudesse, esqueceria que tinha idade.
            A visita-surpresa de Leon, logo cedo, a deixou contente. Dez dias após o incidente entre ambos, achou que ele apenas telefonaria. Leon parecia bem, o mesmo rosto amigável, jeito atencioso. Sorrisos, abraços, beijos, um presente: três livros de sua autora preferida, os únicos que ainda não tinha lido. Leon sabia agradá-la.
            — Bom, já dei o abraço e entreguei o presente... estou indo — disse ele, despedindo-se.
            — Mas ainda é cedo, fica um pouco mais — pediu. — Almoça comigo?
            Passaram o dia inteiro juntos. Liz sentia-se mais leve por ter contado a Leon sobre o telefonema de Hendrik, por ter dito o quanto era importante para ela tentar mudar de vida. Havia transformado a omissão em verdade. Ele tinha reagido bem, e mais uma vez quis ajudá-la no que fosse preciso para que voltasse a Amsterdam. Surpreendeu-se com Leon. Ele tinha fortes motivos para querer ficar perto dela, e fora o único a manifestar interesse em que ela concretizasse o que desejava. Como chamar aquilo? Amizade? Amor? Progresso na terapia? Estava diante de alguém especial, alguém que, apesar de tudo, empenhava-se na manutenção do sentimento no qual acreditava.
            Depois do jantar, de volta ao quarto, ela ligou o aparelho de som, colocando um CD que sabia ser do agrado de Leon. Sentou na cadeira diante dele. As lágrimas rolaram pela face do amigo, sem que Liz compreendesse o motivo. Ele não parecia triste, tinha estado o dia inteiro alegre e risonho, por que chorava?
            — O que foi, Leon? Você está bem?
            As lágrimas persistiam, ele permanecia mudo. Ela tocou o ombro dele.
            — Desculpa, Liz... não consegui evitar... — disse. — Eu não estou triste. Estou feliz por ver que você já tem novos projetos. Essas lágrimas idiotas são a minha vergonha, inveja... Sim, eu tenho inveja de você, dos seus planos, da sua vida. Talvez não seja inveja, é um sentimento estranho, que me mostra como estamos distantes agora, mesmo aqui, frente a frente. Eu sinto como se as nossas afinidades não existissem mais, como se eu tivesse ficado pra trás...
            O telefone tocou. Liz se apressou em atendê-lo. Daniel, dizendo ter passado a tarde no hospital com Sílvia, que se sentira mal. Não, o bebê ainda não tinha nascido. Com voz alegre, ela contou como a presença de Leon havia mudado o dia fadado ao aborrecimento. Daniel tinha uma idéia que talvez a ajudasse a ganhar dinheiro rápido. Sugeriu que Liz reunisse suas estampas e seguisse em viagem pelo litoral, oferecendo-as nas cidades com potencial para explorá-las. A idéia parecia interessante, mas Liz ainda tinha dúvidas se seria realmente fácil vender desenhos em outros lugares. Além disso, precisaria de dinheiro para o investimento, e, solitária, a empreitada seria fatigante. Ficou de pensar no assunto.
            — Que conversa mais curta! — falou Leon, já refeito. — O que ele disse que pareceu deixar você tão animada num minuto e tão decepcionada no outro?
            Explicou a Leon a idéia de Daniel, e as dificuldades para colocá-la em prática.
            — Se quiser, vou com você. A gente pode dividir o combustível, as diárias de hotel, a comida, podemos nos revezar na direção...
            — Mas o quê você ganha com isso? Só vai ter despesas!
            — Você me reembolsa o que eu gastar quando vender as estampas.
            — E se eu não vender nada?
            — Impossível que nessas cidades ninguém se interesse pelos seus desenhos.
            Leon parecia consciente dos riscos, ela não o forçava a nada. Melhor não... se ao menos ele pudesse ganhar algo com aquilo... Teve uma idéia:
            — Então a gente divide também o dinheiro da venda das estampas.
            — Mas Liz, não é justo! Eu ia ganhar por um trabalho que não fiz.
            — Só aceito fazer a viagem se a gente dividir tudo.

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