Não
estou louco. Nunca estive, talvez o desejasse
para justificar a piedade que tenho por mim.
Não há do que me curar. Não
vou acreditar que consegui me enlouquecer. Não
posso, não quero, não vou.
Tudo
voltou ao normal. Minhas freqüentes mudanças
de ânimo se devem a uma expectativa: a
volta de Liz. Amo-a demais para deixar que pense
que me enlouqueceu. Sou um cretino. Como pude,
durante dois meses, tomar notas tão sórdidas
e mesquinhas? Como terei o atrevimento de expô-las
a Liz desse modo premeditado? Isso tem de ser
feito! Talvez a ansiedade por seu retorno não
seja tanto por reencontrá-la, mas por
saber que terei de mostrar-lhe quem
sou. E quem sou eu, afinal? Gustavo afirmou
que homens e mulheres só pensam em sexo.
Eu não. Antes de tudo, penso no amor,
do qual o sexo é decorrência. Onde
isso me situa? Esteticamente, o corpo masculino
sempre me pareceu mais interessante que o feminino.
Força, resistência, virilidade...
símbolos de poder materializados numa
forma física... corpo que eu deveria
ter, mas que não possuo. Querer um corpo
perfeito significa desejar um corpo semelhante?
Na impossibilidade de ter o corpo perfeito,
possuir outro que sirva de espelho? Atração
estética, atração física...
onde começa uma, onde termina a outra?
Atração sexual... lançar-se
de encontro ao espelho, parti-lo, atravessá-lo,
ser o outro... ter o outro? O corpo feminino
é belo, mas seu aspecto frágil,
a tendência à rápida degeneração
o fazem parecer menos interessante. Seu poder,
basicamente apenas um: gerar crianças.
Máquina de produzir, acomodar e nutrir
pequenos seres humanos. Como explicar minha
atração física por Liz?
Problema de ordem fisiológica? Talvez
não. O desejo de um envolvimento carnal
não está estritamente associado
a um corpo masculino ou feminino, e sim a um
indivíduo. Não desejo Liz porque
ela tem um corpo de mulher, mas porque possui
seu próprio corpo, o corpo da pessoa
que amo. Se o corpo masculino me parece mais
atraente que o feminino, talvez isso não
implique obrigatoriamente uma tendência
homossexual. É verdade que por querer
escamotear minha virgindade acabei usando como
disfarce uma pseudo-homossexualidade que acabou
influenciando minha forma de pensar, agir e
me comportar. Equívoco que direcionou
minha vida a um horizonte restrito. Na adolescência
eu não tinha como analisar esses fatos
senão sob a ótica que me parecia
óbvia. Se eu tivesse alguma experiência
concreta nesse campo existiria um parâmetro
para me orientar — muito embora, isolado,
ele não fosse suficiente para concluir
o que penso hoje.
Cessei
minhas elucubrações. No relógio
na mesinha de cabeceira, duas da manhã.
Fechei o livro que nem cheguei a ler. Apaguei
a luz do abajur. Meu sono, uma pequena trégua.
A
música me ajudava a executar o trabalho
desagradável. O que seria de mim sem
Bach, Vivaldi, Albinoni?... Suas composições
tornavam mais leve minha maçante tarefa
diária. O aparelho de som reproduzia
uma sonata de Scarlatti. Mais uma tarde terminava.
O
telefone tocou. Estremeci ao ouvir a voz suave
de Liz: finalmente havia chegado. Parecendo
um pouco excitada, disse que precisávamos
nos ver, tinha muito a me contar. Falei que
também tinha novidades, enquanto pensava:
“Minha vida está prestes a se resolver”.
Arrumei-me
com agitação, pressa. Juntei as
páginas com as anotações
feitas nos últimos meses e coloquei-as
num envelope grande, no qual escrevi o nome
de Liz. Olhei o envelope como se tivesse minha
vida nas mãos. Pensei em desistir de
levá-lo, mas antes que a idéia
ganhasse força guardei-o na minha pasta,
saindo em seguida.
No
longo caminho que separava nossas casas, milhares
de imagens cruzavam minha mente. As anotações
desnudavam-me de forma irreversível,
mas minhas teorias e “filosofices”
sobre amizade, amor, desejo, sexo é que
me inquietavam. Provavelmente não mudariam
o que Liz sentia por mim, ou me enganava? Quem
garantia que algumas situações
mal resolvidas não poderiam ter um final
inesperado, feliz? Um fundo de esperança
persistente fazia um estranho ânimo me
mover. Talvez, depois de tantas experiências
e reveses, Liz tivesse mudado. Era bem possível
que ela tivesse descoberto novos valores, fortalecido
outros. Nas cartas falava tanto da nossa amizade,
no quanto eu significava para ela...
Na
chegada, ainda na porta da casa, o demorado
abraço que me deu fez com que eu sentisse
o quanto ela gostava de mim. Entramos e seguimos
para o quarto que eu ocupava quando lá
dormia. Presenteou-me com uma caixa de chocolates,
e mostrou o que trouxera para os outros amigos.
Eu começava a me impacientar, havia tanto
a dizer... Assim que terminou a mostra, apressei-me
em alcançar a pasta deixada sobre o sofá-cama.
Abri-a e estava pronto a tirar o envelope quando
Liz começou a contar as novidades. Arrefeci:
certamente ela diria coisas bem mais interessantes
que eu. Ansiosa, se atropelava, sem saber por
onde começar. Recoloquei a pasta no sofá.
Iniciou
a narrativa pelo episódio com Franz,
mas foi sucinta. Em seguida, começou
a contar a história com Hendrik, mas,
ainda no início, deteve-se:
—
Bom, mas você já sabe o que aconteceu,
não? — falou.
De
repente, parecia inibida em revelar o que se
passara entre eles. Não insisti. O interesse
em contar aventuras havia partido dela.
Deve
ter vencido algum bloqueio interior, já
que, sem entrar em detalhes, começou
a falar das estranhas coincidências ocorridas
após conhecer Hendrik. Ela vislumbrava
naquilo alguma explicação para
os sonhos esquisitos que a perseguiam. As coincidências
impressionavam. Mas, sem conseguir dar sentido
aos fatos, não soube o que dizer das
correlações que Liz fazia. Perguntei
se não seriam apenas alucinações
provocadas pelas drogas, mas ela afirmou que
não, as drogas só a tinham deixado
mais perceptiva. De certa forma, encontrava-se
ainda presa a Amsterdam. Desejava voltar para
lá, tentar arranjar trabalho. Contava
maravilhas da cidade, do modo de vida das pessoas,
a sensação de liberdade, a descoberta
de um mundo novo. Ao mesmo tempo em que demonstrava
uma animação que eu jamais conhecera,
seu olhar era triste. Eu me mantinha na posição
de ouvinte. Seu discurso deixava claro que ela
realmente mudara bastante. Liz estava inacessível,
encerrada num novo projeto de vida, projeto
do qual eu não fazia parte.
Acabou
esclarecendo as circunstâncias do envolvimento
com Hendrik. Na carta, tinha dado a entender
que o caso não passara de simples diversão,
agora tudo parecia mais sério. Apesar
de mudada, eu conhecia bem seus olhos, o jeito
entusiasmado de falar... não se referia
apenas a uma possibilidade de mudança
de cidade, trabalho ou vida. Aquele tom apaixonado
dizia respeito, antes de qualquer coisa, a alguém:
Hendrik. Já o amava, era evidente. Falava
como se seu futuro, sua felicidade estivessem
naquele país distante, ao lado de um
estranho.
—
Eu já falei demais. Agora você.
Me conta as suas novidades.
Desconversei,
dizendo que precisava ir ao banheiro. No indiscreto
cômodo, cheio de espelhos, vendo minha
imagem multiplicada por toda parte, chorei.
“Como pude ser tão idiota achando
que ela me amaria? Liz só ama quem não
conhece!, só ama as imagens irreais que
cria pra si mesma!” As lágrimas
que rolavam contra minha vontade transfiguravam
meu rosto, avermelhavam meus olhos. Apoiei-me
à bancada da pia, sentia-me em destroços.
Enganara a mim mesmo de que não a desejava,
apenas a amava. No meu caso os dois sentimentos
não podiam existir isoladamente. Liz
não amava mais Franz, mas já amava
Hendrik. Seu amor nunca me pertenceria.
Muito
tempo passei diante do espelho, vendo meu reflexo
chorar. Lágrimas inúteis. Demorei
a me recompor, a encontrar nas gavetas um frasco
de colírio. Tinha ficado tempo demais
ali, precisava dar uma explicação
a Liz. Já era tarde, precisava voltar
para casa, recomeçar minha vida estacionada,
estilhaçada... Tudo havia acabado. Saindo
do banheiro, senti alívio por não
ter tido tempo de entregar a ela o maldito envelope
com meu patético perfil.
Ao
entrar no quarto tive um choque: Liz folheava,
lia meu texto revelador.
—
Não! O que você está fazendo?
Pára! — quase gritei.
—
O que é tudo isso, Leon? — perguntou.
— Suas novidades?
—
Não era pra você ler isso! Como
pôde...?
—
Eu fui arrumar a cama pra você, quando
peguei a pasta não vi que estava aberta.
O envelope caiu no chão, tinha o meu
nome...
Tarde
demais. A vergonha me mortificava. Desabei na
cadeira ao lado de Liz. Meu rosto ardia, minha
cabeça queimava. Queria desaparecer da
frente dela, da sua vida, da superfície
da Terra. Pensei em pedir que parasse a leitura,
me devolvesse as notas, mas ela já havia
lido o suficiente para que qualquer gesto meu
fosse vão.
—
Por que, Leon? Por que tudo isso outra vez?
— falou, triste.
Parecia
tão arrasada quanto eu. Baixei a cabeça
de encontro a mesa, chorei.
Ouvi
sua voz tornando vivas as palavras que eu escrevera.
Recomeçava a ler do ponto em que havia
parado. A voz que eu tanto amava, que tanta
tranqüilidade me causava, agora torturava-me.
Parecia determinada a ler todas as páginas.
Pedi que não continuasse, mas seus olhos
seguiam impiedosamente as linhas que eu construíra
com minhas idéias absurdas.
Voltei
ao banheiro. Vomitei uma gosma negra —
minha vergonha —, mas não senti
alívio algum. Estava com nojo de mim.
Molhei o rosto com água fria. Minha cabeça
doía terrivelmente, sentia-me aniquilado.
Quando
retornei, Liz estava recostada na cama que havia
arrumado para mim. Anotações espalhadas
pela mesa, pelo chão, sobre os lençóis,
em suas mãos... Dormia, respirava pesadamente.
Devia estar exausta por causa da viagem, do
fuso horário, daquele texto desagradável.
Não consegui saber se tinha concluído
a leitura. Eu também estava cansado.
Recolhi as páginas dispersas, apanhei
com cuidado as que ainda estavam nas mãos
dela e recoloquei todas no envelope do qual
jamais deveriam ter saído. Em silêncio,
deixei o quarto, a casa, a vila particular.
A madrugada terminava, um novo dia nasceria.
Um novo dia... Eu vagava no limbo, tudo e nada
eram a mesma coisa.
No
trajeto de volta para casa, no ônibus
vazio, tentava raciocinar. Não havia
o que pensar: destruía-me pela segunda
vez, pelo mesmo motivo. Desejava que a cada
curva o ônibus encontrasse pela frente
um poste que pusesse fim ao meu sofrimento.
O motorista foi habilidoso o tempo todo.
O
sentido da vida é a morte. Pensamos e
agimos não tanto porque estamos vivos,
mas porque sabemos que vamos morrer. Nossas
possibilidades assumem tanta importância
para nós porque temos consciência
de que, a qualquer momento, algo pode nos impedir
de realizá-las. Corrida contra um tempo
que não se controla, não se detém,
não se determina, mas nos direciona.
Por isso viver é tão interessante:
não há como prever com exatidão
o que vai acontecer no dia seguinte, fazer planos
é tão insensato quanto imprescindível.
Nossa última hora está sempre
muito distante, ilusão que criamos para
nós mesmos e que nos impulsiona para
frente. Possuidores de um tempo relativamente
longo, ainda que incerto, ficamos mais à
vontade para decidir a melhor forma de preenchê-lo,
ocupá-lo, matá-lo.
Os
dias nascem e morrem implacáveis numa
seqüência infinita. Pessoas se deprimem,
se recuperam. Dormem à noite, levantam-se
pela manhã. Também eu levantei
no dia seguinte ao terrível reencontro
com Liz, e no outro dia, e no outro... Queria
ligar para ela, me desculpar por ter saído
sem me despedir, por não voltar a ligar,
por tudo. Um profundo constrangimento impedia-me.
Liz também não havia me telefonado,
eu não conseguia imaginar o que ela pensava
agora sobre mim. Se eu ligasse, o que diria?
Que estava envergonhado, que me recuperava da
depressão, que tudo ia ficar bem? Isso
ela poderia imaginar. Eu tinha que fazer alguma
coisa. Precisava de ajuda. Não adiantava
mais me iludir.
Telefonei
para o terapeuta. Com ligeiro sotaque, o Dr.
Antoine foi simpático e amistoso ao me
informar como funcionava o tratamento: hipnose,
regressão, astrologia... Marquei consulta
para o dia seguinte.
À
tarde, liguei para Liz. Nossas vozes me soaram
normais, como se nada sério houvesse
acontecido entre nós. Pedi desculpas,
ela as aceitou. Falei da consulta com o terapeuta
de vidas passadas. Curiosa, quis saber detalhes.
Repeti o que o Dr. Antoine havia me dito. Liz
ficou contente por mim, e com vontade de submeter-se
também a uma análise que desvendasse
as coincidências e mistérios que
a atormentavam. Encorajei-a.
|
|
Queria
tempo para pensar em si mesma, decidir o curso
que daria a sua vida, agora em suspenso. Mas problemas
antigos e recentes começavam a se manifestar.
O
carro precisava ir para a oficina, após
dois meses sem ser ligado. Daniel alertava-a sobre
o aumento do condomínio e aluguel do estúdio.
Ela estava devendo dinheiro à mãe.
Tinha que entrar em contato com os clientes, voltar
a fazer aquele trabalho infeliz... Não
estava com cabeça para nada daquilo. E
o problemático Leon. Tudo outra vez. Que
golpe redescobrir aquele transtorno infindável!
Mas ele parecia determinado. A terapia deveria
ajudá-lo.
Sentia-se
cansada com tantos problemas se acumulando sem
perspectivas de soluções imediatas.
Hendrik. O que estaria fazendo agora? Desde a
volta, tinha procurado não pensar nas últimas
palavras dele, no modo como tudo se dissolveu.
Mas algo lhe dizia que aquela história
ainda não havia terminado. Na família,
em casa, na cidade em que ela se encontrava só
existiam complicações, a vida que
gostaria de ter estava em Amsterdam, junto a Hendrik.
Olhou
o carrilhão na parede da sala: duas e meia
da manhã. Inútil continuar vendo
as desinteressantes imagens na TV.
Mais um dia, menos um dia... Cansaço forte
o bastante para entediá-la, insuficiente
para fazê-la dormir. Seu corpo, um invólucro
vazio que arrastava sem encontrar conforto. Desligou
a televisão, foi para o quarto. Outra noite
em claro pela frente. Não suportava mais
pensar, seu cérebro parecia liquefazer-se.
Precisava de estímulos que a impulsionassem
para onde sabia que deveria ir. Apagou a luz do
quarto, acendeu a luminária, abriu a janela.
Ligou o aparelho de som, colocou um dos CDs
de techno music comprados em Amsterdam,
em baixo volume. Apanhou o estojo dos óculos-de-sol,
recostou-se no almofadão próximo
ao som. Abriu o estojo, o cheiro da erva crua
recendeu agradável. Arriscara-se ao trazer
uma pequena quantidade de skunk no porta-óculos
guardado na bolsa. Aspirou o aroma. O fogo transformava
o cheiro suave numa poderosa fumaça. Para
disfarçar, acendeu um incenso. Voltou para
a luz da luminária, a música tocando
baixinho, começou a confeccionar o cigarro:
viagem de volta ao passado, rumo ao futuro.
Ria.
Ria consigo mesma, ria de si mesma. Nada mais
tinha graça, no entanto, ria. A fumaça
estava dentro dela, na boca, na garganta, nos
pulmões, no cérebro liquefeito...
Nunca imaginou que se drogaria novamente estando
na casa dos pais, em seu quarto. E ria, zombando
do mundo. Sentia a força do skunk em seu
corpo. Erva perigosa. Medo do perigo. Por que
sentia medo agora? Se levantasse para se olhar
no espelho, reconheceria a si mesma? Amsterdam
vivia em sua madrugada insone, em seu quarto,
sua mente. Estava em casa, mas também em
outro lugar, outra cidade, outro quarto. Quem
era Hendrik? Perigo e medo. O que era ele? Enigma.
Por que ela havia feito tudo aquilo? Quem era
agora? Alguém pior, melhor?
Diante
do espelho, despiu-se. Queria ver o corpo onde
habitava um pensar disforme. A nudez vulgar de
uma prostituta, vadia, criminosa; a nudez sagrada
de uma amiga, irmã, mãe; a nudez
natural de uma amante, mulher, ser humano. O rosto
do reflexo ria enquanto seu corpo dançava,
decente e obsceno. Seios, quadris, nádegas,
sexo... moviam-se, giravam, valsavam... Tudo feio,
tudo lindo. Sentia-se bela, sentia-se um monstro.
Despida para Hendrik, seu cliente, seu macho,
comparsa, amigo, irmão, filho, homem, marido...
ele não podia mais vê-la, já
não se interessava por ela... olhos só
para os estudos... Hendrik era tudo. Tudo, tudo,
tudo...
Sentia
seu coração esmagado, triturado.
Precisava dormir, mas enquanto estivesse morta
não poderia fechar os olhos e descansar.
Condenada a vagar como zumbi, em busca de um corpo
alheio que lhe permitisse continuar morta-viva...
até quando? Nunca mais dormir... Esquecer?
Impossível. Chorar? Inútil. Gritar?
Ridículo. O que fazer? Hendrik... não
devia pensar nele... não mais, nunca mais...
Hendrik, Hendrik, Hendrik...
“O
padrão de casal feliz...”, pensava
ela, ao olhar Sílvia e Daniel. Estava
diante de pessoas que se amavam, que transmitiam
a frágil e complexa sensação
da felicidade. Ainda que feitos um para o outro,
tinham construído dia após dia
o aspecto alegre que exibiam. Direito ou conquista?
Por que ela também não podia alcançar
aquele ponto de equilíbrio? Por que parecia
condenada à infelicidade? Estava convencida
de que uma vida feliz só era possível
a dois.
Tinha
chegado antes da hora marcada. No quarto, Daniel
ajudava Sílvia na arrumação
do armário. Na sala, sentada na bergère,
Liz os aguardava, observando os cuidados do
amigo com a esposa. Olhava os dois, quase não
os reconhecia. Danny, onde estava ele? Ainda
via seu sorriso, ouvia sua voz alegre, podia
tocá-lo... mas via-o através de
binóculos em posição invertida,
ouvia-o de uma cabine à prova de som,
tocava um corpo etéreo. Daniel era um
homem preocupado com seu futuro: uma filha,
uma família. Apesar disso, tinham trabalhado
para construir uma felicidade comum. Inúmeras
vezes o ouvira dizer, com orgulho, que os dois
só haviam chegado até ali graças
à catequese a que ele submetera Sílvia.
Catequese... lavagem cerebral ou adestramento?
Sílvia era um volume deformado. Quantos
meses?, sete?, oito? Que diferença fazia?
Em breve aquele ventre seria rompido a bisturi,
uma criança nasceria. Uma vitória.
Sílvia havia conseguido o que tanto desejava:
uma família, uma filha. Quem catequizava
quem? Daniel, que sempre havia tido desprezo
à paternidade, à maternidade,
à família agora pensava de modo
bem diferente. Como era possível mudar
tanto em tão pouco tempo? Amor? Catequese?
Feitiço contra o feiticeiro.
—
Desculpa, Liz — falou Sílvia, voltando
à sala —, a gente precisava arrumar
o armário.
—
Mais um montão de fraldas estocadas!
— disse Daniel, sentando no sofá.
O
interfone tocou. Sílvia foi atendê-lo.
Leon
entrou, beijou Sílvia, abraçou
Daniel. Liz observava mais um de seus amigos:
era Leon, mas já era outro também.
Aproximando-se dela, cumprimentou-a apenas verbalmente.
—
Olha só o que eu achei! — falou
Sílvia, trazendo uma caixa do quarto.
— Fotografias!
—
Não, Sílvia — protestou
Daniel. — Guarda essa velharia. Não
foi pra isso que eles vieram aqui.
—
Que bobagem, Daniel. Eu adoro ver fotografias!
— disse Liz.
Bebendo
refrigerante e petiscando, ela e Leon olhavam
as imagens do passado não muito distante.
Fotografias de que Liz nem suspeitava a existência:
seu rosto alegre numa festa da faculdade: aquela
moça de dezessete anos havia sido ela...
parecia tão contente abraçada
aos novos amigos!... Dezessete anos tinham se
passado. Trinta e quatro... o dobro da idade
da jovem alegre.
—
Liz, você não tirou nenhuma foto
do Hendrik? — indagou Sílvia.
—
Eu bem que tentei, mas ele sempre dizia que
não estava com uma cara muito boa...
—
Mas você disse que ele era tão
bonito!... — comentou Daniel.
—
E era. Ainda é. Mas também tinha
uma preocupação exagerada com
a aparência. Às vezes eu achava
que ele não estava muito satisfeito com
toda aquela beleza...
—
Ah, conta mais! — pediu Sílvia,
curiosa. — Você falou tão
pouco das suas férias!...
Relatou
durante algum tempo o que vivera em Amsterdam,
mas resumir e ordenar dois meses que pareciam
toda uma vida era impossível. Quanto
mais falava, mais distante sentia-se dos três
amigos. Várias vezes percebeu em seu
discurso um tom deslumbrado com o mundo novo
que tentava descrever. Procurava conter-se para
não parecer tola, mas havia ficado maravilhada
com o que tinha visto. Evitou comentar seus
sentimentos em relação a Hendrik,
muito embora isso tivesse ficado claro. Falou
dele como um novo e querido amigo, promessa
de futuro.
—
E as drogas? Você não sentiu medo
de se drogar o tempo inteiro?
—
Sílvia!, isso é pergunta que se
faça? — recriminou-a Daniel.
Liz
sorriu. A naturalidade de Sílvia deixava
tudo mais descontraído. Tentou explicar
aquele assunto, mas era difícil encontrar
palavras que exprimissem sensações
contraditórias. Sílvia ouvia sem
parecer compreender. Daniel tentou ajudar, no
passado também experimentara algumas
drogas. Mas o eco que vinha dele era fraco quando
reverberava em Liz. Alguns “sintomas”
pareciam genéricos, mas havia nuances
individuais impossíveis de universalizar.
—
O que você pretende fazer agora? Já
tomou alguma decisão — perguntou
Sílvia.
—
Ainda não. Eu estou me sentindo uma estranha
lá em casa, como se não fosse
da família.
—
É muito difícil as pessoas mais
velhas aceitarem essas coisas — falou
Daniel. — Era melhor você não
ter falado que se drogou, que ficou na casa
do cara.
—
Mas eu não ia me sentir bem se não
contasse a verdade. Só que agora a minha
convivência com eles não está
sendo nada fácil.
Leon,
que se mantivera calado praticamente o tempo
todo, falou:
—
Famílias são sempre complicadas.
Depois de uma certa idade, se não conseguimos
sair da casa dos pais o convívio pode
se tornar uma chatice. Cobranças, perguntas,
satisfações... eles esquecem que
somos tão adultos quanto eles.
—
E quando se é mulher isso é pior
ainda — completou Liz. — Aqui tudo
é muito complicado. Em Amsterdam as coisas
pareciam bem mais simples...
—
Será que você não ficou
encantada demais com a vida que o cara levava?
—
Não, Daniel, eu convivi com o Hendrik.
Ele não trabalhava, mas tinha apartamento,
pagava contas, comprava comida, roupas...
—
Mas a família dele ajudava, não?
— falou Sílvia.
—
No começo eu achei que sim, mas depois
ele me explicou que recebia um seguro-desemprego
do governo. O apartamento também era
do governo. O Hendrik disse que era só
se cadastrar e esperar ser chamado pra ocupar
o imóvel. Ele só esperou um ano
e meio pra pegar as chaves.
—
Esse país existe mesmo?!? Sílvia,
vamos fazer as malas agora! — brincou
Daniel.
—
Tudo é muito organizado na Holanda. Se
eu pudesse voltar, teria mais chances de ser
feliz.
No
carro recém-consertado, a caminho da
casa de Leon, Liz estava abatida.
—
Você me parece cansada. Está se
sentindo bem?
—
Eu estou ótima — disse, depois
de um longo suspiro.
Leon
a olhou sem nada dizer. Ela se mantinha atenta
na direção.
—
Não, eu estou péssima! Não
sei o que estou fazendo aqui — desmentiu-se.
— Eu queria voltar, mas não tenho
dinheiro, não sei se o Hendrik vai me
ajudar, se ele gosta de mim...
—
Você não pode pedir dinheiro pros
seus pais?
—
Eles iam dizer que eu sou maluca.
—
Os seus planos são sempre tão
confusos! Se ao menos fosse possível
não depender dos outros pra... —
deteve-se. — Desculpa, quem sou eu pra
dar conselhos?
Um
silêncio desiludido instalou-se entre
ambos.
—
Você não esteve muito participativo
hoje, na reunião — recomeçou
ela.
—
Eu nunca sou participativo. E depois, a reunião
foi feita por sua causa.
—
Mas você podia ter falado sobre a terapia,
seria um assunto diferente, interessante.
—
Eu não quero fazer disso um circo. E
a terapia ainda não começou. A
primeira sessão com o Dr. Antoine foi
só uma conversa em que ele me explicou
melhor como seria o tratamento.
—
Você disse que ia me contar tudo, mas
não falou nada. O que ele perguntou?
—
Só coisas óbvias: o motivo que
havia me levado até ele, se eu tinha
dificuldade em me relacionar com os outros,
como era a minha família, se eu acreditava
em Deus, se eu tinha feito viagens ao exterior...
quis saber quem era você.
—
Eu?
—
O motivo que me levou até ele...
Leon
havia tomado uma decisão importante.
Ela também precisava seguir seu caminho,
fosse ele qual fosse. Um pé depois do
outro. Mas a pé não chegaria aonde
queria. Tinha que voar... Precisava dormir e
sonhar: voar de volta ao castelo.
|
|