Não estou louco. Nunca estive, talvez o desejasse para justificar a piedade que tenho por mim. Não há do que me curar. Não vou acreditar que consegui me enlouquecer. Não posso, não quero, não vou.
            Tudo voltou ao normal. Minhas freqüentes mudanças de ânimo se devem a uma expectativa: a volta de Liz. Amo-a demais para deixar que pense que me enlouqueceu. Sou um cretino. Como pude, durante dois meses, tomar notas tão sórdidas e mesquinhas? Como terei o atrevimento de expô-las a Liz desse modo premeditado? Isso tem de ser feito! Talvez a ansiedade por seu retorno não seja tanto por reencontrá-la, mas por saber que terei de mostrar-lhe quem sou. E quem sou eu, afinal? Gustavo afirmou que homens e mulheres só pensam em sexo. Eu não. Antes de tudo, penso no amor, do qual o sexo é decorrência. Onde isso me situa? Esteticamente, o corpo masculino sempre me pareceu mais interessante que o feminino. Força, resistência, virilidade... símbolos de poder materializados numa forma física... corpo que eu deveria ter, mas que não possuo. Querer um corpo perfeito significa desejar um corpo semelhante? Na impossibilidade de ter o corpo perfeito, possuir outro que sirva de espelho? Atração estética, atração física... onde começa uma, onde termina a outra? Atração sexual... lançar-se de encontro ao espelho, parti-lo, atravessá-lo, ser o outro... ter o outro? O corpo feminino é belo, mas seu aspecto frágil, a tendência à rápida degeneração o fazem parecer menos interessante. Seu poder, basicamente apenas um: gerar crianças. Máquina de produzir, acomodar e nutrir pequenos seres humanos. Como explicar minha atração física por Liz? Problema de ordem fisiológica? Talvez não. O desejo de um envolvimento carnal não está estritamente associado a um corpo masculino ou feminino, e sim a um indivíduo. Não desejo Liz porque ela tem um corpo de mulher, mas porque possui seu próprio corpo, o corpo da pessoa que amo. Se o corpo masculino me parece mais atraente que o feminino, talvez isso não implique obrigatoriamente uma tendência homossexual. É verdade que por querer escamotear minha virgindade acabei usando como disfarce uma pseudo-homossexualidade que acabou influenciando minha forma de pensar, agir e me comportar. Equívoco que direcionou minha vida a um horizonte restrito. Na adolescência eu não tinha como analisar esses fatos senão sob a ótica que me parecia óbvia. Se eu tivesse alguma experiência concreta nesse campo existiria um parâmetro para me orientar — muito embora, isolado, ele não fosse suficiente para concluir o que penso hoje.
            Cessei minhas elucubrações. No relógio na mesinha de cabeceira, duas da manhã. Fechei o livro que nem cheguei a ler. Apaguei a luz do abajur. Meu sono, uma pequena trégua.

            A música me ajudava a executar o trabalho desagradável. O que seria de mim sem Bach, Vivaldi, Albinoni?... Suas composições tornavam mais leve minha maçante tarefa diária. O aparelho de som reproduzia uma sonata de Scarlatti. Mais uma tarde terminava.
            O telefone tocou. Estremeci ao ouvir a voz suave de Liz: finalmente havia chegado. Parecendo um pouco excitada, disse que precisávamos nos ver, tinha muito a me contar. Falei que também tinha novidades, enquanto pensava: “Minha vida está prestes a se resolver”.
            Arrumei-me com agitação, pressa. Juntei as páginas com as anotações feitas nos últimos meses e coloquei-as num envelope grande, no qual escrevi o nome de Liz. Olhei o envelope como se tivesse minha vida nas mãos. Pensei em desistir de levá-lo, mas antes que a idéia ganhasse força guardei-o na minha pasta, saindo em seguida.
            No longo caminho que separava nossas casas, milhares de imagens cruzavam minha mente. As anotações desnudavam-me de forma irreversível, mas minhas teorias e “filosofices” sobre amizade, amor, desejo, sexo é que me inquietavam. Provavelmente não mudariam o que Liz sentia por mim, ou me enganava? Quem garantia que algumas situações mal resolvidas não poderiam ter um final inesperado, feliz? Um fundo de esperança persistente fazia um estranho ânimo me mover. Talvez, depois de tantas experiências e reveses, Liz tivesse mudado. Era bem possível que ela tivesse descoberto novos valores, fortalecido outros. Nas cartas falava tanto da nossa amizade, no quanto eu significava para ela...
            Na chegada, ainda na porta da casa, o demorado abraço que me deu fez com que eu sentisse o quanto ela gostava de mim. Entramos e seguimos para o quarto que eu ocupava quando lá dormia. Presenteou-me com uma caixa de chocolates, e mostrou o que trouxera para os outros amigos. Eu começava a me impacientar, havia tanto a dizer... Assim que terminou a mostra, apressei-me em alcançar a pasta deixada sobre o sofá-cama. Abri-a e estava pronto a tirar o envelope quando Liz começou a contar as novidades. Arrefeci: certamente ela diria coisas bem mais interessantes que eu. Ansiosa, se atropelava, sem saber por onde começar. Recoloquei a pasta no sofá.
            Iniciou a narrativa pelo episódio com Franz, mas foi sucinta. Em seguida, começou a contar a história com Hendrik, mas, ainda no início, deteve-se:
            — Bom, mas você já sabe o que aconteceu, não? — falou.
            De repente, parecia inibida em revelar o que se passara entre eles. Não insisti. O interesse em contar aventuras havia partido dela.
            Deve ter vencido algum bloqueio interior, já que, sem entrar em detalhes, começou a falar das estranhas coincidências ocorridas após conhecer Hendrik. Ela vislumbrava naquilo alguma explicação para os sonhos esquisitos que a perseguiam. As coincidências impressionavam. Mas, sem conseguir dar sentido aos fatos, não soube o que dizer das correlações que Liz fazia. Perguntei se não seriam apenas alucinações provocadas pelas drogas, mas ela afirmou que não, as drogas só a tinham deixado mais perceptiva. De certa forma, encontrava-se ainda presa a Amsterdam. Desejava voltar para lá, tentar arranjar trabalho. Contava maravilhas da cidade, do modo de vida das pessoas, a sensação de liberdade, a descoberta de um mundo novo. Ao mesmo tempo em que demonstrava uma animação que eu jamais conhecera, seu olhar era triste. Eu me mantinha na posição de ouvinte. Seu discurso deixava claro que ela realmente mudara bastante. Liz estava inacessível, encerrada num novo projeto de vida, projeto do qual eu não fazia parte.
            Acabou esclarecendo as circunstâncias do envolvimento com Hendrik. Na carta, tinha dado a entender que o caso não passara de simples diversão, agora tudo parecia mais sério. Apesar de mudada, eu conhecia bem seus olhos, o jeito entusiasmado de falar... não se referia apenas a uma possibilidade de mudança de cidade, trabalho ou vida. Aquele tom apaixonado dizia respeito, antes de qualquer coisa, a alguém: Hendrik. Já o amava, era evidente. Falava como se seu futuro, sua felicidade estivessem naquele país distante, ao lado de um estranho.
            — Eu já falei demais. Agora você. Me conta as suas novidades.
            Desconversei, dizendo que precisava ir ao banheiro. No indiscreto cômodo, cheio de espelhos, vendo minha imagem multiplicada por toda parte, chorei. “Como pude ser tão idiota achando que ela me amaria? Liz só ama quem não conhece!, só ama as imagens irreais que cria pra si mesma!” As lágrimas que rolavam contra minha vontade transfiguravam meu rosto, avermelhavam meus olhos. Apoiei-me à bancada da pia, sentia-me em destroços. Enganara a mim mesmo de que não a desejava, apenas a amava. No meu caso os dois sentimentos não podiam existir isoladamente. Liz não amava mais Franz, mas já amava Hendrik. Seu amor nunca me pertenceria.
            Muito tempo passei diante do espelho, vendo meu reflexo chorar. Lágrimas inúteis. Demorei a me recompor, a encontrar nas gavetas um frasco de colírio. Tinha ficado tempo demais ali, precisava dar uma explicação a Liz. Já era tarde, precisava voltar para casa, recomeçar minha vida estacionada, estilhaçada... Tudo havia acabado. Saindo do banheiro, senti alívio por não ter tido tempo de entregar a ela o maldito envelope com meu patético perfil.
            Ao entrar no quarto tive um choque: Liz folheava, lia meu texto revelador.
            — Não! O que você está fazendo? Pára! — quase gritei.
            — O que é tudo isso, Leon? — perguntou. — Suas novidades?
            — Não era pra você ler isso! Como pôde...?
            — Eu fui arrumar a cama pra você, quando peguei a pasta não vi que estava aberta. O envelope caiu no chão, tinha o meu nome...
            Tarde demais. A vergonha me mortificava. Desabei na cadeira ao lado de Liz. Meu rosto ardia, minha cabeça queimava. Queria desaparecer da frente dela, da sua vida, da superfície da Terra. Pensei em pedir que parasse a leitura, me devolvesse as notas, mas ela já havia lido o suficiente para que qualquer gesto meu fosse vão.
            — Por que, Leon? Por que tudo isso outra vez? — falou, triste.
            Parecia tão arrasada quanto eu. Baixei a cabeça de encontro a mesa, chorei.
            Ouvi sua voz tornando vivas as palavras que eu escrevera. Recomeçava a ler do ponto em que havia parado. A voz que eu tanto amava, que tanta tranqüilidade me causava, agora torturava-me. Parecia determinada a ler todas as páginas. Pedi que não continuasse, mas seus olhos seguiam impiedosamente as linhas que eu construíra com minhas idéias absurdas.
            Voltei ao banheiro. Vomitei uma gosma negra — minha vergonha —, mas não senti alívio algum. Estava com nojo de mim. Molhei o rosto com água fria. Minha cabeça doía terrivelmente, sentia-me aniquilado.
            Quando retornei, Liz estava recostada na cama que havia arrumado para mim. Anotações espalhadas pela mesa, pelo chão, sobre os lençóis, em suas mãos... Dormia, respirava pesadamente. Devia estar exausta por causa da viagem, do fuso horário, daquele texto desagradável. Não consegui saber se tinha concluído a leitura. Eu também estava cansado. Recolhi as páginas dispersas, apanhei com cuidado as que ainda estavam nas mãos dela e recoloquei todas no envelope do qual jamais deveriam ter saído. Em silêncio, deixei o quarto, a casa, a vila particular. A madrugada terminava, um novo dia nasceria. Um novo dia... Eu vagava no limbo, tudo e nada eram a mesma coisa.
            No trajeto de volta para casa, no ônibus vazio, tentava raciocinar. Não havia o que pensar: destruía-me pela segunda vez, pelo mesmo motivo. Desejava que a cada curva o ônibus encontrasse pela frente um poste que pusesse fim ao meu sofrimento. O motorista foi habilidoso o tempo todo.

            O sentido da vida é a morte. Pensamos e agimos não tanto porque estamos vivos, mas porque sabemos que vamos morrer. Nossas possibilidades assumem tanta importância para nós porque temos consciência de que, a qualquer momento, algo pode nos impedir de realizá-las. Corrida contra um tempo que não se controla, não se detém, não se determina, mas nos direciona. Por isso viver é tão interessante: não há como prever com exatidão o que vai acontecer no dia seguinte, fazer planos é tão insensato quanto imprescindível. Nossa última hora está sempre muito distante, ilusão que criamos para nós mesmos e que nos impulsiona para frente. Possuidores de um tempo relativamente longo, ainda que incerto, ficamos mais à vontade para decidir a melhor forma de preenchê-lo, ocupá-lo, matá-lo.
            Os dias nascem e morrem implacáveis numa seqüência infinita. Pessoas se deprimem, se recuperam. Dormem à noite, levantam-se pela manhã. Também eu levantei no dia seguinte ao terrível reencontro com Liz, e no outro dia, e no outro... Queria ligar para ela, me desculpar por ter saído sem me despedir, por não voltar a ligar, por tudo. Um profundo constrangimento impedia-me. Liz também não havia me telefonado, eu não conseguia imaginar o que ela pensava agora sobre mim. Se eu ligasse, o que diria? Que estava envergonhado, que me recuperava da depressão, que tudo ia ficar bem? Isso ela poderia imaginar. Eu tinha que fazer alguma coisa. Precisava de ajuda. Não adiantava mais me iludir.
            Telefonei para o terapeuta. Com ligeiro sotaque, o Dr. Antoine foi simpático e amistoso ao me informar como funcionava o tratamento: hipnose, regressão, astrologia... Marquei consulta para o dia seguinte.
            À tarde, liguei para Liz. Nossas vozes me soaram normais, como se nada sério houvesse acontecido entre nós. Pedi desculpas, ela as aceitou. Falei da consulta com o terapeuta de vidas passadas. Curiosa, quis saber detalhes. Repeti o que o Dr. Antoine havia me dito. Liz ficou contente por mim, e com vontade de submeter-se também a uma análise que desvendasse as coincidências e mistérios que a atormentavam. Encorajei-a.

            Queria tempo para pensar em si mesma, decidir o curso que daria a sua vida, agora em suspenso. Mas problemas antigos e recentes começavam a se manifestar.
            O carro precisava ir para a oficina, após dois meses sem ser ligado. Daniel alertava-a sobre o aumento do condomínio e aluguel do estúdio. Ela estava devendo dinheiro à mãe. Tinha que entrar em contato com os clientes, voltar a fazer aquele trabalho infeliz... Não estava com cabeça para nada daquilo. E o problemático Leon. Tudo outra vez. Que golpe redescobrir aquele transtorno infindável! Mas ele parecia determinado. A terapia deveria ajudá-lo.
            Sentia-se cansada com tantos problemas se acumulando sem perspectivas de soluções imediatas. Hendrik. O que estaria fazendo agora? Desde a volta, tinha procurado não pensar nas últimas palavras dele, no modo como tudo se dissolveu. Mas algo lhe dizia que aquela história ainda não havia terminado. Na família, em casa, na cidade em que ela se encontrava só existiam complicações, a vida que gostaria de ter estava em Amsterdam, junto a Hendrik.
            Olhou o carrilhão na parede da sala: duas e meia da manhã. Inútil continuar vendo as desinteressantes imagens na TV. Mais um dia, menos um dia... Cansaço forte o bastante para entediá-la, insuficiente para fazê-la dormir. Seu corpo, um invólucro vazio que arrastava sem encontrar conforto. Desligou a televisão, foi para o quarto. Outra noite em claro pela frente. Não suportava mais pensar, seu cérebro parecia liquefazer-se. Precisava de estímulos que a impulsionassem para onde sabia que deveria ir. Apagou a luz do quarto, acendeu a luminária, abriu a janela. Ligou o aparelho de som, colocou um dos CDs de techno music comprados em Amsterdam, em baixo volume. Apanhou o estojo dos óculos-de-sol, recostou-se no almofadão próximo ao som. Abriu o estojo, o cheiro da erva crua recendeu agradável. Arriscara-se ao trazer uma pequena quantidade de skunk no porta-óculos guardado na bolsa. Aspirou o aroma. O fogo transformava o cheiro suave numa poderosa fumaça. Para disfarçar, acendeu um incenso. Voltou para a luz da luminária, a música tocando baixinho, começou a confeccionar o cigarro: viagem de volta ao passado, rumo ao futuro.
            Ria. Ria consigo mesma, ria de si mesma. Nada mais tinha graça, no entanto, ria. A fumaça estava dentro dela, na boca, na garganta, nos pulmões, no cérebro liquefeito... Nunca imaginou que se drogaria novamente estando na casa dos pais, em seu quarto. E ria, zombando do mundo. Sentia a força do skunk em seu corpo. Erva perigosa. Medo do perigo. Por que sentia medo agora? Se levantasse para se olhar no espelho, reconheceria a si mesma? Amsterdam vivia em sua madrugada insone, em seu quarto, sua mente. Estava em casa, mas também em outro lugar, outra cidade, outro quarto. Quem era Hendrik? Perigo e medo. O que era ele? Enigma. Por que ela havia feito tudo aquilo? Quem era agora? Alguém pior, melhor?
            Diante do espelho, despiu-se. Queria ver o corpo onde habitava um pensar disforme. A nudez vulgar de uma prostituta, vadia, criminosa; a nudez sagrada de uma amiga, irmã, mãe; a nudez natural de uma amante, mulher, ser humano. O rosto do reflexo ria enquanto seu corpo dançava, decente e obsceno. Seios, quadris, nádegas, sexo... moviam-se, giravam, valsavam... Tudo feio, tudo lindo. Sentia-se bela, sentia-se um monstro. Despida para Hendrik, seu cliente, seu macho, comparsa, amigo, irmão, filho, homem, marido... ele não podia mais vê-la, já não se interessava por ela... olhos só para os estudos... Hendrik era tudo. Tudo, tudo, tudo...
            Sentia seu coração esmagado, triturado. Precisava dormir, mas enquanto estivesse morta não poderia fechar os olhos e descansar. Condenada a vagar como zumbi, em busca de um corpo alheio que lhe permitisse continuar morta-viva... até quando? Nunca mais dormir... Esquecer? Impossível. Chorar? Inútil. Gritar? Ridículo. O que fazer? Hendrik... não devia pensar nele... não mais, nunca mais... Hendrik, Hendrik, Hendrik...

            “O padrão de casal feliz...”, pensava ela, ao olhar Sílvia e Daniel. Estava diante de pessoas que se amavam, que transmitiam a frágil e complexa sensação da felicidade. Ainda que feitos um para o outro, tinham construído dia após dia o aspecto alegre que exibiam. Direito ou conquista? Por que ela também não podia alcançar aquele ponto de equilíbrio? Por que parecia condenada à infelicidade? Estava convencida de que uma vida feliz só era possível a dois.
            Tinha chegado antes da hora marcada. No quarto, Daniel ajudava Sílvia na arrumação do armário. Na sala, sentada na bergère, Liz os aguardava, observando os cuidados do amigo com a esposa. Olhava os dois, quase não os reconhecia. Danny, onde estava ele? Ainda via seu sorriso, ouvia sua voz alegre, podia tocá-lo... mas via-o através de binóculos em posição invertida, ouvia-o de uma cabine à prova de som, tocava um corpo etéreo. Daniel era um homem preocupado com seu futuro: uma filha, uma família. Apesar disso, tinham trabalhado para construir uma felicidade comum. Inúmeras vezes o ouvira dizer, com orgulho, que os dois só haviam chegado até ali graças à catequese a que ele submetera Sílvia. Catequese... lavagem cerebral ou adestramento? Sílvia era um volume deformado. Quantos meses?, sete?, oito? Que diferença fazia? Em breve aquele ventre seria rompido a bisturi, uma criança nasceria. Uma vitória. Sílvia havia conseguido o que tanto desejava: uma família, uma filha. Quem catequizava quem? Daniel, que sempre havia tido desprezo à paternidade, à maternidade, à família agora pensava de modo bem diferente. Como era possível mudar tanto em tão pouco tempo? Amor? Catequese? Feitiço contra o feiticeiro.
            — Desculpa, Liz — falou Sílvia, voltando à sala —, a gente precisava arrumar o armário.
            — Mais um montão de fraldas estocadas! — disse Daniel, sentando no sofá.
            O interfone tocou. Sílvia foi atendê-lo.
            Leon entrou, beijou Sílvia, abraçou Daniel. Liz observava mais um de seus amigos: era Leon, mas já era outro também. Aproximando-se dela, cumprimentou-a apenas verbalmente.
            — Olha só o que eu achei! — falou Sílvia, trazendo uma caixa do quarto. — Fotografias!
            — Não, Sílvia — protestou Daniel. — Guarda essa velharia. Não foi pra isso que eles vieram aqui.
            — Que bobagem, Daniel. Eu adoro ver fotografias! — disse Liz.
            Bebendo refrigerante e petiscando, ela e Leon olhavam as imagens do passado não muito distante. Fotografias de que Liz nem suspeitava a existência: seu rosto alegre numa festa da faculdade: aquela moça de dezessete anos havia sido ela... parecia tão contente abraçada aos novos amigos!... Dezessete anos tinham se passado. Trinta e quatro... o dobro da idade da jovem alegre.
            — Liz, você não tirou nenhuma foto do Hendrik? — indagou Sílvia.
            — Eu bem que tentei, mas ele sempre dizia que não estava com uma cara muito boa...
            — Mas você disse que ele era tão bonito!... — comentou Daniel.
            — E era. Ainda é. Mas também tinha uma preocupação exagerada com a aparência. Às vezes eu achava que ele não estava muito satisfeito com toda aquela beleza...
            — Ah, conta mais! — pediu Sílvia, curiosa. — Você falou tão pouco das suas férias!...
            Relatou durante algum tempo o que vivera em Amsterdam, mas resumir e ordenar dois meses que pareciam toda uma vida era impossível. Quanto mais falava, mais distante sentia-se dos três amigos. Várias vezes percebeu em seu discurso um tom deslumbrado com o mundo novo que tentava descrever. Procurava conter-se para não parecer tola, mas havia ficado maravilhada com o que tinha visto. Evitou comentar seus sentimentos em relação a Hendrik, muito embora isso tivesse ficado claro. Falou dele como um novo e querido amigo, promessa de futuro.
            — E as drogas? Você não sentiu medo de se drogar o tempo inteiro?
            — Sílvia!, isso é pergunta que se faça? — recriminou-a Daniel.
            Liz sorriu. A naturalidade de Sílvia deixava tudo mais descontraído. Tentou explicar aquele assunto, mas era difícil encontrar palavras que exprimissem sensações contraditórias. Sílvia ouvia sem parecer compreender. Daniel tentou ajudar, no passado também experimentara algumas drogas. Mas o eco que vinha dele era fraco quando reverberava em Liz. Alguns “sintomas” pareciam genéricos, mas havia nuances individuais impossíveis de universalizar.
            — O que você pretende fazer agora? Já tomou alguma decisão — perguntou Sílvia.
            — Ainda não. Eu estou me sentindo uma estranha lá em casa, como se não fosse da família.
            — É muito difícil as pessoas mais velhas aceitarem essas coisas — falou Daniel. — Era melhor você não ter falado que se drogou, que ficou na casa do cara.
            — Mas eu não ia me sentir bem se não contasse a verdade. Só que agora a minha convivência com eles não está sendo nada fácil.
            Leon, que se mantivera calado praticamente o tempo todo, falou:
            — Famílias são sempre complicadas. Depois de uma certa idade, se não conseguimos sair da casa dos pais o convívio pode se tornar uma chatice. Cobranças, perguntas, satisfações... eles esquecem que somos tão adultos quanto eles.
            — E quando se é mulher isso é pior ainda — completou Liz. — Aqui tudo é muito complicado. Em Amsterdam as coisas pareciam bem mais simples...
            — Será que você não ficou encantada demais com a vida que o cara levava?
            — Não, Daniel, eu convivi com o Hendrik. Ele não trabalhava, mas tinha apartamento, pagava contas, comprava comida, roupas...
            — Mas a família dele ajudava, não? — falou Sílvia.
            — No começo eu achei que sim, mas depois ele me explicou que recebia um seguro-desemprego do governo. O apartamento também era do governo. O Hendrik disse que era só se cadastrar e esperar ser chamado pra ocupar o imóvel. Ele só esperou um ano e meio pra pegar as chaves.
            — Esse país existe mesmo?!? Sílvia, vamos fazer as malas agora! — brincou Daniel.
            — Tudo é muito organizado na Holanda. Se eu pudesse voltar, teria mais chances de ser feliz.

            No carro recém-consertado, a caminho da casa de Leon, Liz estava abatida.
            — Você me parece cansada. Está se sentindo bem?
            — Eu estou ótima — disse, depois de um longo suspiro.
            Leon a olhou sem nada dizer. Ela se mantinha atenta na direção.
            — Não, eu estou péssima! Não sei o que estou fazendo aqui — desmentiu-se. — Eu queria voltar, mas não tenho dinheiro, não sei se o Hendrik vai me ajudar, se ele gosta de mim...
            — Você não pode pedir dinheiro pros seus pais?
            — Eles iam dizer que eu sou maluca.
            — Os seus planos são sempre tão confusos! Se ao menos fosse possível não depender dos outros pra... — deteve-se. — Desculpa, quem sou eu pra dar conselhos?
            Um silêncio desiludido instalou-se entre ambos.
            — Você não esteve muito participativo hoje, na reunião — recomeçou ela.
            — Eu nunca sou participativo. E depois, a reunião foi feita por sua causa.
            — Mas você podia ter falado sobre a terapia, seria um assunto diferente, interessante.
            — Eu não quero fazer disso um circo. E a terapia ainda não começou. A primeira sessão com o Dr. Antoine foi só uma conversa em que ele me explicou melhor como seria o tratamento.
            — Você disse que ia me contar tudo, mas não falou nada. O que ele perguntou?
            — Só coisas óbvias: o motivo que havia me levado até ele, se eu tinha dificuldade em me relacionar com os outros, como era a minha família, se eu acreditava em Deus, se eu tinha feito viagens ao exterior... quis saber quem era você.
            — Eu?
            — O motivo que me levou até ele...
            Leon havia tomado uma decisão importante. Ela também precisava seguir seu caminho, fosse ele qual fosse. Um pé depois do outro. Mas a pé não chegaria aonde queria. Tinha que voar... Precisava dormir e sonhar: voar de volta ao castelo.

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