Faltava
uma semana. Mais sete dias e estaria embarcando
de volta ao Brasil.
O
trem deslocava-se velozmente a caminho de Delft.
Junto à janela, sentada no banco triplo
da cabine vazia, olhava a paisagem, o horizonte
interminável. Deitado ao longo do banco,
Hendrik apoiava a cabeça no colo dela.
Liz afagava os cabelos de um louro artificial,
mas que ficava bem nele. Sorriu ao lembrar que
em menos de dois meses Hendrik havia mudado
a cor dos cabelos três vezes. Em suas
mãos, a cabeça dele. Magnífico
troféu, belo rosto de olhos fechados,
expressão tranqüila. Dormia, talvez
sonhasse. Como podia ser tão belo?, ainda
se perguntava. Às vezes tinha quase certeza
de que ele não era real, de que tudo
o que estava acontecendo terminaria como um
sonho, do qual despertaria com saudade.
Não
fumava há três dias. Estava limpa.
Tão limpa quanto sua mente vazia, que
agora tentava preencher com cenas que vivera.
Mas o que pensava ter passado apontava sempre
para o futuro, forçando-a a decidir o
que fazer para continuar sua própria
história. “Eu realmente quero isso?
E ele, o que quer?” Novos projetos sobrepunham-se
a projetos antigos. Emaranhado de planos inconsistentes
aos quais se via atada, sem que soubesse onde
se encontravam os apertados nós da realidade.
“Hendrik significa essa realidade? Desde
quando? Ele quer a mim ou a outro alguém?
Alguém pode ser qualquer um?...”
Tinha medo de preferir estar drogada, de desejar
aquele com quem sonhava, de sofrer, apesar de
sentir tudo mais intensamente. Não queria
retornar a uma realidade estagnante: seu país,
sua cidade, a casa dos pais, a família,
o trabalho, problemas... A nova vida a seduzia,
tudo tão diferente!... “Voltar.
Sim ou não? Preciso de você! Preciso?
E você, precisa de mim ou apenas de alguém
que pode ser qualquer um? Se pode ser qualquer
um, por que não eu? Por que não
me pede pra ficar?”
Quem
era Hendrik? Ainda não sabia. Alguém
que vendia o corpo ou somente o emprestava?
Dinheiro ou prazer? Ambos? Por que ele não
se deixava beijar, não beijava? Por que
seduzia Derek? Quem mais, quantos outros? Teria
feito sexo com todos eles? Por prazer ou dinheiro?
Por que sempre se esquivava quando ela tocava
no assunto?, para não chocá-la
com a verdade? Quem era a misteriosa família
da qual pouco falava? Por que viviam nos confins
de uma Alemanha que ele dizia detestar? Quem
teria pago o curso caro que ele seguia? Por
que tinha medo de ficar doente? Por que desejava
tanto um filho? Por que, apesar dos muitos contatos,
ele estava sempre sozinho?
Quem
era ela agora? Não sabia mais. Como tinha
ido parar no apartamento daquele garoto? Por
que foi procurá-lo? Por que ele tinha
que ser tão belo? Por que havia feito
sexo, mesmo sabendo que para ele ela nada significava?
Queria sentir-se desejada, livrar-se a qualquer
preço da sensação de rejeição.
Achara que seria divertido brincar de se envolver
com alguém que lhe inspirava certo desprezo.
Brincadeira inconseqüente, que terminaria
quando ela quisesse. Não contava que
as coisas fugissem ao seu controle. Por que
se ligou a Hendrik tão prontamente? Precisava
dele? Para quê? Nada fazia muito sentido.
Se quisesse, ele poderia salvá-la, mas
ela não podia pedir isso, tudo precisava
acontecer espontaneamente, só que não
haveria tempo para tanto. Desprezo, indiferença,
curiosidade, interesse, afeição,
amizade, desejo... amor? Em pouco tempo tinha
ido de um extremo a outro. O que realmente sentia
por Hendrik?
Vivia
um sonho louco, do qual não desejava
despertar. “Achei que quando eu voltasse
você não ia estar mais aqui. Tive
medo que tudo fosse um sonho, que você
só existisse no meu pensamento...”,
dissera-lhe Hendrik um dia, ao voltar da rua.
Por que tinha dito aquilo no instante em que
ela pensava a mesma coisa? Havia sonhado com
Hendrik muitas vezes, sem atribuir significado
razoável às imagens. Agora, muita
coisa parecia fazer sentido, ou não?
Lembrava de um sonho: ela e Franz numa floresta,
ruínas de um castelo, pessoas esquisitas
que a intimidavam, uma linda criança
nua que a ajudava... Hendrik era aquela criança,
agora sabia. Ele era aquele menino encantador.
Sempre
que fumava sentia como se Hendrik, também
drogado, estivesse tentando contar um segredo
inconfessável, algo que ela jamais compreenderia.
Seu passado? Achava que ambos viviam o mesmo
sonho, sabia que Hendrik tinha as mesmas sensações
que ela, a cada instante ele repetia justamente
o que ela pensava, parecendo ler seus pensamentos.
Espantoso aquele sonho recorrente: ela e Hendrik
voando de volta ao passado, quando haviam se
encontrado nas ruínas do castelo. Diversas
vezes, antes de adormecerem, ele tinha dito:
“Vamos dormir agora, sonhar e voar juntos
para o castelo...” Talvez tudo não
passasse de alucinação por causa
do skunk, mas aqueles sonhos a perseguiam desde
sempre, mesmo antes da viagem. Vasculhando a
memória, resgatava fragmentos de sonhos
antigos: seu corpo flutuando sobre canais, pontes,
antigas construções... não
voava sozinha, havia alguém com ela,
alguém que jamais conseguira identificar.
Não podia ser mera coincidência
voltar a Amsterdam e encontrar um desconhecido
que materializava sonhos e visões do
passado. Tinha de haver alguma coisa ali.
Hendrik
era alguém especial. E às vezes
muito engraçado. Mas quase toda diversão
que ele proporcionava se convertia em algo que
a amedrontava. Hendrik gostava de imitar marionetes,
parecia um verdadeiro boneco de gestos rígidos
e desarticulados. Como podia ser tão
flexível? Seu corpo dançava como
se não tivesse ossos. O que havia dentro
dele? Em seguida, caía no chão,
desconjuntado, imóvel, sem respirar.
Assustada, pensava que ele estivesse morto.
O que faria? Fugiria, deixando o cadáver
para trás. Mas Hendrik já saltitava
novamente no meio da sala, mais vivo que nunca,
rindo da cara dela, reiniciando a pantomima.
Ela também ria, aliviada com o ressuscitar.
Sim, havia ocasiões em que ele era muito
divertido. Mas quando estava deprimido não
admitia que ninguém achasse graça
em nada. Nessas horas, ela tentava ser comedida,
mas Hendrik distorcia tudo o que ouvia, culpando-a
por sua depressão. Ele fumava diariamente,
e sempre que se drogava se deprimia. Assumia
uma postura séria, irritável.
Com voz dura, sentenciava: “Você
não sabe nada sobre mim. Não sabe
como era a minha vida antes de Amsterdam. Eu
fiz muitas coisas ruins. Fiz coisas ruins pra
muita gente. Sou uma pessoa má. Estou
cansado de ser mau, muito cansado. Talvez seja
melhor não viver mais...” Ele sempre
falava em suicídio, suas frases negras
a apavoravam. Para se tranqüilizar, tendia
a achar que tudo não passava de alucinação
produzida pelas drogas. Mas, às vezes,
ela também pensava na própria
morte, chegava a senti-la. O efeito do skunk
era devastador. À primeira tragada, a
fumaça invadia seus pulmões, não
a deixando respirar. Medo absoluto. A garganta
se afunilava, ela sufocava. Os batimentos cardíacos
se aceleravam, o coração parecia
querer estourar. Pensava em nunca mais fumar,
mas nessa hora já era tarde. Estava morrendo,
sabia que sim, a cada vez tudo ficava mais intenso.
Sentia uma dor profunda, consentia que algo
a ferisse. Gritava. Queria morrer, mas tinha
medo, queria chorar, mas a dor a impedia. Gritava
e ouvia sua voz ao longe. Escutava alguém
pedindo que tentasse relaxar. Hendrik? Deveria
acreditar nele? Por quê? Ele a assustava.
Tornava a gritar, mas não ouvia a própria
voz, estava surda, muda, estava morrendo. Hendrik,
a seu lado, mantinha-se impassível. Ela
morria e ele nada fazia para impedir, nem mesmo
notava seu desespero. Estavam juntos, mas também
isolados em mundos distintos. Agarrava-se ao
corpo dele, sentia sua energia abandonando-a,
sendo sugada. Hendrik ria com rosto transfigurado,
sabia tudo o que ela pensava, lia sua mente
e detinha total controle da situação.
Profunda
transformação. Observava as drogas
fazendo Hendrik se tornar outro, trazendo à
tona seu lado negro, levando-o a fazer coisas
estranhas. As noites na casa de Derek começavam
sempre do mesmo modo: primeiro, alegria, risos,
conversas amistosas; depois de fumarem skunk:
ciúmes, desconfiança, inveja.
Passando a olhá-la num misto de ódio
e decepção, Hendrik tentava encontrar
pistas que denunciassem um caso entre ela e
Derek. Então, começava a conversar
em holandês com o amigo, logo se insinuando
para ele. Ao mesmo tempo, procurava seduzir
Liz: parecia querer fazer sexo com ela no apartamento
de Derek, deixando o amigo tomar parte na brincadeira.
Provocava ambos, impiedosamente. Ela fingia
não entender, mas via Derek arder de
um desejo cada vez mais crescente por Hendrik.
Precisavam de sua conivência, ela se recusava
a colaborar na concretização da
cena grotesca que previa. Liz assustada. Derek
frustrado. Hendrik vencido, mas não de
todo: mais tarde, na penumbra do quarto iluminado
pela luz negra, tendo Liz sobre a cama, consumava
no corpo dela parte de suas fantasias de vingança.
O
comportamento controverso e ambíguo de
Hendrik, que antes apenas a intrigava, agora
a desagradava. Quase sempre sentia-se usada,
humilhada, ferida. Por que ele seduzia todo
mundo? Tinha extrema necessidade de sentir-se
amado, o tempo inteiro. Todos pareciam fascinados
com ele. Todos o desejavam: Derek, Judith, sua
namorada, as meninas da escola, as garotas nas
boates, os conhecidos que encontrava nas ruas,
os desconhecidos, todo mundo. O que ela representava
para Hendrik? Um longo passatempo? Mais uma
a fazer parte do extenso e crescente grupo de
admiradores dele? Todos eram unânimes
em afirmar que Hendrik era especial. Mas o que
significava “especial”? Diferente?,
encantador?, louco?
Tão
vítima quanto os que cruzavam o caminho
de Hendrik, estava fascinada por ele e sua vida
envolta em mistérios. Hendrik só
tinha 20 anos, morava sozinho e parecia não
possuir um passado atrás de si. Vivia
em Amsterdam há três anos, mas
dava a impressão de ter acabado de se
mudar. Orgulhoso, gabava-se de ser jovem e já
ter um apartamento. Estava sempre pensando no
futuro: o ótimo emprego que teria depois
do curso, o excelente salário, as coisas
caras que compraria... Apesar de sentir certa
afinidade com ele, havia momentos em que Liz
o achava deslumbrado e materialista. Para Hendrik
tudo parecia simples e fácil. Ser dotado
de beleza era condição suficiente
para resolver todos os problemas?
No
princípio, quando ele ainda nada representava
para ela, achava-o completamente fútil.
Suas preocupações limitavam-se
aos 70 quilos que precisava levantar todo dia
a fim de conservar os músculos; aos cuidados
com a pele, sempre depilada e hidratada; aos
cortes e tinturas de cabelo freqüentes;
às roupas da moda... Hendrik tinha uma
vida pautada pela aparência: todos os
seus atos convergiam para um resultado irrepreensivelmente
estético. Isso ultrapassava os limites
do aspecto físico, refletindo-se no pequeno
mundo que havia criado para si: seu apartamento.
A decoração despojada não
era constituída por mobília cara,
mas tudo era arrumado de forma tão criativa,
com idéias tão originais que a
sensação de modernidade era indiscutível.
O prático piso vinílico, as ousadas
cores das paredes, as irreverentes cortinas
improvisadas com grandes lenços ciganos,
o exótico mural composto por ingressos
de todas as boates que freqüentara... Considerava
excessivo o esmero com que Hendrik procurava
manter tudo limpo e arrumado: a roupa de cama,
trocada diariamente, era perfumada com Byzance;
as toalhas de banho e rosto, as toalhas de mesa
eram substituídas sempre que usadas.
Tudo precisava estar constantemente fresco,
como se a qualquer instante fossem chegar visitas
inesperadas. Também via exagero na preocupação
de Hendrik com a aparência física.
Achava engraçado quando ele dizia ser
importante estar bem apresentável a todo
o momento, já que nunca era possível
adivinhar quando alguém apareceria. Assim,
depois de acordar, e de se exercitar, ele entregava-se
ao ritual de embelezamento: o demorado banho,
cremes, perfumes, roupas limpas e bem passadas...
A boa aparência também era reflexo
de um corpo descansado, dormir bem era imprescindível:
necessitava repousar pelo menos 12 horas para
sentir-se em forma.
Agora
Hendrik significava alguma coisa para ela, algo
que não discernia claramente, mas que
a fazia compreender e aceitar aquelas obsessões.
A beleza dele era tão surpreendente que
não conseguia mais dissociá-lo
do processo narcíseo ao qual se mantinha
escravizado. Às vezes espantava-se por
Hendrik fazer uso tão regular de drogas,
já que não combinavam com o perfil
saudável que ele se empenhava em demonstrar.
Aos poucos percebeu que para o círculo
de amizades dele, ser jovem, moderno, interessante,
estava estritamente vinculado ao consumo de
algo que visava nivelar todos.
Ela
também se transformara. O que representava
para si mesma depois de tudo? Sempre tinha procurado
ser tão racional, correta, digna... e
agora estava presa num lodo movediço.
Talvez quisesse romper com um sistema insatisfatório,
mas entregar-se desenfreadamente a vícios,
prazeres, alucinações também
não a satisfazia. Estava farta de sentir-se
decente, justa, exemplar... e também
cansada de bancar a decadente, desajustada,
desequilibrada... Não era nada disso.
Inútil insistir em parecer outra que
não ela mesma. Mas alguma coisa havia
se modificado definitivamente dentro de si.
Começava a sentir uma espécie
de repulsa por si própria. Como podia
ser tão volúvel, ordinária,
inconseqüente? Será que enlouquecia?
Sem perceber, deslizara da atração
puramente estética por um jovem a uma
atração sentimental, visceral,
incontrolável. Hendrik era a beleza,
força, poder, mistério... passado,
presente, futuro... ele era tudo. E ela sentia-se
nada, mero corpo humano desprovido de razão
ligado de alguma forma inexplicável a
um arsenal de possibilidades tão promissoras
quanto desejáveis. Amava Hendrik. Amava
o que ele era, o que tinha, o que buscava. Amava-o,
mas não podia dizer que o amava. Hendrik
não acreditaria, ou então fugiria
dela. Pela primeira vez na vida se via impedida
de falar “eu te amo” quando realmente
amava. Todas as poucas vezes que dissera aquela
patética frase de três palavras
lhe soaram falsas, absurdas, ridículas:
amor era o sentimento incompreensível,
avassalador e dilacerante que experimentava
naquele exato momento, na cabine vazia, sobre
o banco triplo, junto à janela de um
trem que se deslocava velozmente, ao longo do
horizonte interminável, rumo a uma cidade
desconhecida.
Olhou
o rosto de Hendrik. A pele clara, bem barbeada
assemelhava-se à porcelana fina. Traços
suaves como uma aquarela: o formato do rosto,
sobrancelhas, olhos, nariz, boca... A perfeição
estética existia, repousava em seu colo,
entre suas mãos, pertencia-lhe naquele
instante. Ele dormia, alheio às carícias
a ao amor dela, alheio ao mundo. Com o que sonhava?
Hendrik podia ler pensamentos, ela não.
Por que não lia o que ela havia pensado
nos últimos dias? Sabia o que Liz sentia
por ele? Por que não falava nada? Por
que não lhe pedia para ficar? Talvez
Hendrik só lesse pensamentos convenientes...
mas como poderia selecioná-los antes
de conhecê-los? Desejava ouvi-lo pedindo-lhe
que ficasse, mas gostaria de ter certeza de
que ele a queria pelo que ela era, não
pelo dinheiro que lhe pagava. Havia ocasiões
em que se sentia estúpida por estar hospedada
no apartamento daquele lindo narciso genioso.
Se pagava hospedagem, por que lavava a louça
e roupas dele, limpava e arrumava tudo em vez
de se divertir?
Sentia-se
vazia. Surgira do nada na vida de Hendrik, logo
voltaria ao mesmo nada de onde viera. Como ele
podia ter se interessado por ela? Não
sabia. No entanto, por mais estranho que fosse,
alguma coisa no interior daquele vácuo
informe lhe dava uma remota esperança
impossível de descartar.
Desceram
na estação de Delft. A cidade
pequena fez com que encontrassem prontamente
a rua que constava no jornal nas mãos
de Hendrik. Pararam no número indicado
no anúncio. Ele tocou a campainha. Foram
atendidos por uma senhora, que os fez entrar.
Liz ficou sendo espectadora da rápida
negociação. Logo, deixavam o prédio
levando dois filhotes de gatos siameses.
Retornando
à estação, Liz se perguntava
que destino teriam os gatinhos. Sentia-se responsável
pela compra. Quando dissera que Hendrik deveria
ter um gato como animal de estimação,
tinha feito uma brincadeira. De forma sutil,
zombava dele, que reclamava por suas amizades
sempre se desfazerem após os verões.
Ela garantira que um animalzinho criado desde
pequeno se afeiçoaria a ele e nunca o
deixaria. Não contava que Hendrik a levasse
tão a sério. Em vão, havia
tentado demovê-lo da idéia. Ele
não se aborreceria em cuidar dos bichos,
teria dinheiro para mantê-los, tempo para
lhes dar atenção? Hendrik afirmara
que sim, há muito queria ter animais
de estimação.
—
Plexus e Nexus... — falou ele, olhando
a paisagem pela janela do trem.
—
O quê?
—
Plexus e Nexus, os nomes que eu vou dar a eles
— disse, olhando a caixa com os gatos.
—
Henry Miller...
—
Quem é esse cara? — perguntou,
sem ter entendido a quê ela se referia.
—
Onde você viu os nomes que vai dar aos
gatos?
—
Numa livraria no Centro, nuns livros na vitrine...
—
Henry Miller é o autor desses livros.
—
Mesmo?! — falou, admirado. — Como
você sabe disso?
—
Eu já li um livro dele.
—
E gostou? Falava sobre o quê?
—
Falava sobre a vida — respondeu, depois
de titubear um pouco.
Plexus
e Nexus... Sexus: o livro de Miller que lera
escondido na adolescência, que a deixava
com o rosto em brasa pelas obscenidades narradas
de maneira crua. Plexus e Nexus, dois pequenos
gatos. Sexus, um grande e belo gato: Hendrik.
A trilogia estava completa.
Fechou
os olhos. O trem corria de volta para Amsterdam.
A cidade onde havia passado os dois últimos
meses também tinha se modificado. Arquitetonicamente
tudo continuava igual, mas Amsterdam começava
a desmoronar. As amizades que fizera na chegada
se diluíam. Quando, após ter ficado
uma semana seguida no apartamento de Hendrik,
procurou Maurício e Lucas, soube, por
Mariana, que eles haviam partido fazia alguns
dias. A própria Mariana estava indo embora:
voltava de vez ao Brasil. Não entendia
como ela podia ter rompido de forma tão
definitiva com Gerd. Mariana contou que há
algum tempo se desentendia com o namorado. Gerd
era adepto do sexo violento, de sadomasoquismo.
Tentara adaptar-se ao esquema dele, mas acabou
não suportando.
Abriu
os olhos. O trem continuava correndo, Sexus
a seu lado, Plexus e Nexus brincando na caixa.
Apesar da presença de Hendrik, sentia-se
um pouco mais sozinha. Agora só podia
contar com ele.
No
apartamento, ela, experiente na criação
de gatos, começou a explicar alguns detalhes
da nova rotina a ser seguida. Hendrik disse
que não pretendia mudar nada em sua casa.
Liz insistiu que ele tomasse algumas providências,
do contrário em poucos dias estaria odiando
aqueles gatinhos. Esclareceu que Hendrik deveria
manter fechadas as portas dos cômodos
em que não quisesse a presença
dos gatos. Não deveria submetê-los
a longo confinamento em espaços pequenos.
Precisaria comprar uma caixa de areia, na qual
os filhotes seriam ensinados a deixar seus dejetos;
a areia tinha que ser trocada diariamente. Seria
preciso comprar ração e manter
uma vasilha com água sempre limpa. Hendrik
deveria ainda tomar cuidado com os objetos de
valor que pudessem ser quebrados. Pretendia
continuar enumerando os cuidados necessários,
mas vendo o rosto de Hendrik contrafeito deteve-se:
—
O que foi? — perguntou.
—
Eu não sabia que precisava de tanta coisa
pra ter gatos em casa... Por que você
não me avisou antes?
—
Mas eu falei que criar gatos dava trabalho.
E você disse que ia cuidar muito bem deles!
—
Não achei que fosse tão complicado...
—
Calma, eu te ajudo. Depois que se acostumar
você vai ver que não é tão
difícil.
—
Você sabe tantas coisas, Liz!... Não
sei o que seria de mim sem você.
Deixou
Hendrik na sala com os gatos, foi para o quarto.
Ele sempre agia por impulso, sem calcular devidamente
as conseqüências de seus atos. Mal
havia comprado os gatos e já estava desanimado
com eles. “Não sei o que seria
de mim sem você...”, dissera ele
no instante em que ela pensava: “Não
sei o que seria de você sem mim...”
Estava enlouquecendo, única idéia
coerente. Abriu o armário, olhou sua
mochila, sempre pronta para o caso de uma partida
repentina, após um desentendimento mais
sério. Pendurada no cabide, a última
muda de roupa limpa e passada. Precisava lavar
algumas das roupas comprimidas na mochila. Separou
algumas peças, foi para o banheiro.
—
O que você vai fazer, Liz? — perguntou
Hendrik, ao vê-la passar pela sala.
—
Vou lavar roupa.
—
Que bom! Eu já estava achando mesmo o
cesto muito cheio.
—
Eu vou lavar a minha roupa —
retificou ela.
—
Tudo bem. Então eu também vou
lavar a minha roupa — disse ele,
imitando o tom dela.
Enquanto
Liz usava a pia, Hendrik, com dois baldes, servia-se
da água do chuveiro. Ela sentia o agradável
aroma do sabão em pó como se já
estivesse longe, com saudade daqueles momentos
perfumados que em breve terminariam. Tentava
se animar, mas tudo acabava apontando para um
fim inevitável. Perdida em pensamentos,
sentiu água fria respingando em suas
costas. Hendrik, brincando com a água
do chuveiro, direcionava o jato do esguicho
na direção dela. Entrando na brincadeira,
ela começou a jogar água da pia
em cima dele. Os dois se divertiram como crianças.
Ao final, estavam encharcados. Foi ao quarto
vestir as peças secas que lhe restavam.
Retornando ao banheiro, comentou que aquela
era sua última roupa limpa. Hendrik,
ainda excitado com a “guerra d’água”,
ameaçou molhá-la outra vez.
—
Não faz isso — pediu, séria.
— Se você me molhar eu não
vou poder ir ao apartamento do Derek à
noite.
Virou
as costas para ele, recomeçando a lavar
as peças deixadas na pia. Hendrik, ignorando
o pedido dela, tornou a molhá-la, e com
uma quantidade de água substancial.
—
Por que fez isso? Eu não te pedi pra
não me molhar? — gritou. —
Você não me respeita!
—
É só uma brincadeira — debochou.
— Não precisa perder a cabeça
por isso.
—
Perder a cabeça? — gritou, furiosa.
— Você vai ver o que é perder
a cabeça!
Lançou-se
para cima de Hendrik, colocando-o embaixo da
ducha, girando até o fim o registro da
água quente. Ele se debateu, conseguindo
livrar-se parcialmente da água fervente
que lhe atingiu o ombro.
—
Ficou maluca?! Você podia ter me machucado!
— disse, atônito, mostrando a vermelhidão.
—
Você é um irresponsável!
—
Mas eu podia te emprestar as minhas roupas!
Você não precisava fazer isso!
—
Não é só por causa das
roupas. É uma questão de respeito.
Deixou
o banheiro carregando as roupas molhadas. Amontoou-as
na mochila. Colocou a bolsa nas costas, seguindo
para a sala. Hendrik a olhava, atento.
—
Adeus! — disse, preparando-se para deixar
o apartamento.
Única
alternativa. Mas não queria ir embora,
não queria deixá-lo daquele jeito
estúpido. Interiormente suplicava que
ele dissesse alguma coisa, que lhe pedisse para
ficar. Apoiou a mão na maçaneta,
iria girá-la pela última vez.
—
Liz, espera! Fica — ele pediu. —
Por favor, me desculpa.
—
O quê?... — falou, mal acreditando
no que ouvia.
—
Me desculpa — repetiu. — Agora eu
te entendo: uma questão de respeito.
Aproximou-se
dela, ainda parada junto à porta, retirou-lhe
a mochila das costas, abraçou-a, afetuoso.
Beijou-a.
—
Você é um anjo que me ajuda —
disse ele. — Faz tempo que espero alguém
como você.
Não
sabia mais o que pensar. Esfacelada de encontro
a uma muralha demasiado sólida —
a razão —, sentia-se fragmentada
em incontáveis partículas. Hendrik
a estava enlouquecendo. Afinal, amava-a? Por
que não se declarava? Será que
não o sabia? Por que ele continuava se
comportando como se tivessem toda uma vida conjunta
pela frente, sabendo que logo ela partiria?
Quanto mais o tempo passava menos o compreendia.
Uma
vez mais Hendrik havia se modificado. Terminadas
as férias, ele tinha voltado à
escola. Um novo ser surgia, outro rosto e sorriso,
outros gestos e atitudes... Um desconhecido
que ela também já amava.
Por
causa de Plexus e Nexus a rotina do apartamento
tinha se transformado, conforme previra. Por
causa das aulas que seguia, Sexus voltava a
ser o que era antes de conhecê-lo: um
rapaz voltado unicamente aos estudos. Havia
parado com drogas, bebidas, boates... até
mesmo com as noitadas diárias na casa
de Derek. Estava irreconhecível. Querendo
organizar seus horários, Hendrik elaborou
um cronograma estipulando minuciosamente o tempo
a ser gasto nas tarefas cotidianas. Liz reclamou
ao ler na planilha a meia hora que ele havia
destinado ao sexo. Tentava adaptar-se aos rígidos
horários que Hendrik impunha, sabendo
que a longo prazo não seria capaz de
viver de forma tão regrada.
Raras
as noites no apartamento de Derek. A nova postura
de Hendrik desagradava ao amigo, que insistia
em que aparecessem mais vezes. Insistia também
que se fumassem um pouco não haveria
mal para os estudos do aplicado aluno. Hendrik
mantinha-se irredutível, incomodando-se
ao ver os dois fumando na sua frente. Liz dizia
que as férias dela ainda não tinham
terminado, não era obrigada a privar-se
de diversão. Relevando o que ouvia, Hendrik
parecia fazer grande esforço para manter-se
sóbrio. Depois de fumar, Derek ficava
irritado, sabendo que nenhuma sedução
se esboçaria na cada vez mais restrita
atenção que Hendrik lhe dedicava.
Liz, zonza pelo vinho, pelas ervas, achava graça,
sem o manifestar, do distanciamento entre os
dois amigos.
Seu
penúltimo dia em Amsterdam nascia sem
que tivesse certeza do que realmente faria no
dia seguinte. Hendrik acabou manifestando interesse
em que ela permanecesse na cidade, ele a ajudaria
a procurar apartamento, trabalho... Parecia
não entender que a permanência
dela dependia necessariamente dele. Liz explicara
que, sendo estrangeira, estava sujeita a certas
exigências para continuar legalmente no
país. Quanto mais esclarecia, mais confuso
e arredio Hendrik se mostrava. Sentia-se um
fardo. Hendrik queria tempo para pensar no assunto,
mas para Liz o tempo se esgotava rapidamente.
Entristecida, via que Hendrik não encontrava
espaço no maldito cronograma para dedicar-se
aos complexos pensamentos que diziam respeito
a ela. Não tinha direito de exigir nada,
mas, na véspera da partida, precisava
saber o que ele havia decidido. “Amanhã”,
respondeu, tinha que pensar. Ela já sabia
a resposta.
Constrangido
por não ter dito o que Liz sabia que
não ouviria, Hendrik acompanhou-a até
a Centraal Station.
—
Você tem certeza que não quer ir
de táxi pro aeroporto? — indagou
ele. — Eu pago.
—
Eu quero ver a estação pela última
vez... — falou, triste.
—
Liz... vê se me entende. Eu...
—
Hendrik, por favor, não fala nada. Não
torna tudo ainda mais difícil.
—
Mas Liz, eu preciso falar...
Não
se opôs, não tinha mais forças.
—
É uma mudança muito grande, muito
importante. Eu preciso de tempo. Não
posso tomar uma decisão dessas, assim,
sem mais nem menos. Tudo aconteceu muito depressa...
Estava coberto de razão. Pela primeira
vez, desde que o conhecera, ele dizia palavras
ajuizadas — as únicas que ela não
queria ouvir.
—
Nós dois precisamos de um tempo —
prosseguiu ele. — Você também
tem que pensar melhor no que quer. Precisa voltar
pro seu país, pra vida que deixou lá.
As
palavras sensatas a destroçavam. Não
havia como dizer o que sentia, impossível
fazê-lo enxergar o amor que nem ela mesma
compreendia.
—
Por que você não volta em três
meses? — indagou ele. — Até
lá a gente já deve ter certeza
de alguma coisa.
“Uma
esperança ou uma forma de esquecimento?
Ele quer mesmo isso? Por que em três meses?
Por que não em um mês, em uma semana,
em um dia?... Por que não agora?”
Na
plataforma, despediram-se friamente. Hendrik
lhe deu um rápido abraço, um beijo
na face, lamentando não poder esperar
a partida do trem, estava atrasado para algo
importante. Liz não protestou. Imóvel,
observou-o caminhar para a saída, sem
se voltar uma única vez; seu andar parecia
mais leve, como se estivesse livre de uma carga
indesejável. Devia estar feliz tendo
sua controversa liberdade de volta. Sim, ele
estava atrasado para algo muito importante:
sua vida.
No
trem, procurou assento junto à janela.
As lágrimas brotavam mornas e escorriam
pela face gelada. Sentia-se estranhamente lúcida.
Enfim desperta. Talvez tudo aquilo não
fosse um sonho louco — como muitas vezes
pensara —, mas um absurdo pesadelo.