Faltava uma semana. Mais sete dias e estaria embarcando de volta ao Brasil.
            O trem deslocava-se velozmente a caminho de Delft. Junto à janela, sentada no banco triplo da cabine vazia, olhava a paisagem, o horizonte interminável. Deitado ao longo do banco, Hendrik apoiava a cabeça no colo dela. Liz afagava os cabelos de um louro artificial, mas que ficava bem nele. Sorriu ao lembrar que em menos de dois meses Hendrik havia mudado a cor dos cabelos três vezes. Em suas mãos, a cabeça dele. Magnífico troféu, belo rosto de olhos fechados, expressão tranqüila. Dormia, talvez sonhasse. Como podia ser tão belo?, ainda se perguntava. Às vezes tinha quase certeza de que ele não era real, de que tudo o que estava acontecendo terminaria como um sonho, do qual despertaria com saudade.
            Não fumava há três dias. Estava limpa. Tão limpa quanto sua mente vazia, que agora tentava preencher com cenas que vivera. Mas o que pensava ter passado apontava sempre para o futuro, forçando-a a decidir o que fazer para continuar sua própria história. “Eu realmente quero isso? E ele, o que quer?” Novos projetos sobrepunham-se a projetos antigos. Emaranhado de planos inconsistentes aos quais se via atada, sem que soubesse onde se encontravam os apertados nós da realidade. “Hendrik significa essa realidade? Desde quando? Ele quer a mim ou a outro alguém? Alguém pode ser qualquer um?...” Tinha medo de preferir estar drogada, de desejar aquele com quem sonhava, de sofrer, apesar de sentir tudo mais intensamente. Não queria retornar a uma realidade estagnante: seu país, sua cidade, a casa dos pais, a família, o trabalho, problemas... A nova vida a seduzia, tudo tão diferente!... “Voltar. Sim ou não? Preciso de você! Preciso? E você, precisa de mim ou apenas de alguém que pode ser qualquer um? Se pode ser qualquer um, por que não eu? Por que não me pede pra ficar?”
            Quem era Hendrik? Ainda não sabia. Alguém que vendia o corpo ou somente o emprestava? Dinheiro ou prazer? Ambos? Por que ele não se deixava beijar, não beijava? Por que seduzia Derek? Quem mais, quantos outros? Teria feito sexo com todos eles? Por prazer ou dinheiro? Por que sempre se esquivava quando ela tocava no assunto?, para não chocá-la com a verdade? Quem era a misteriosa família da qual pouco falava? Por que viviam nos confins de uma Alemanha que ele dizia detestar? Quem teria pago o curso caro que ele seguia? Por que tinha medo de ficar doente? Por que desejava tanto um filho? Por que, apesar dos muitos contatos, ele estava sempre sozinho?
            Quem era ela agora? Não sabia mais. Como tinha ido parar no apartamento daquele garoto? Por que foi procurá-lo? Por que ele tinha que ser tão belo? Por que havia feito sexo, mesmo sabendo que para ele ela nada significava? Queria sentir-se desejada, livrar-se a qualquer preço da sensação de rejeição. Achara que seria divertido brincar de se envolver com alguém que lhe inspirava certo desprezo. Brincadeira inconseqüente, que terminaria quando ela quisesse. Não contava que as coisas fugissem ao seu controle. Por que se ligou a Hendrik tão prontamente? Precisava dele? Para quê? Nada fazia muito sentido. Se quisesse, ele poderia salvá-la, mas ela não podia pedir isso, tudo precisava acontecer espontaneamente, só que não haveria tempo para tanto. Desprezo, indiferença, curiosidade, interesse, afeição, amizade, desejo... amor? Em pouco tempo tinha ido de um extremo a outro. O que realmente sentia por Hendrik?
            Vivia um sonho louco, do qual não desejava despertar. “Achei que quando eu voltasse você não ia estar mais aqui. Tive medo que tudo fosse um sonho, que você só existisse no meu pensamento...”, dissera-lhe Hendrik um dia, ao voltar da rua. Por que tinha dito aquilo no instante em que ela pensava a mesma coisa? Havia sonhado com Hendrik muitas vezes, sem atribuir significado razoável às imagens. Agora, muita coisa parecia fazer sentido, ou não? Lembrava de um sonho: ela e Franz numa floresta, ruínas de um castelo, pessoas esquisitas que a intimidavam, uma linda criança nua que a ajudava... Hendrik era aquela criança, agora sabia. Ele era aquele menino encantador.
            Sempre que fumava sentia como se Hendrik, também drogado, estivesse tentando contar um segredo inconfessável, algo que ela jamais compreenderia. Seu passado? Achava que ambos viviam o mesmo sonho, sabia que Hendrik tinha as mesmas sensações que ela, a cada instante ele repetia justamente o que ela pensava, parecendo ler seus pensamentos. Espantoso aquele sonho recorrente: ela e Hendrik voando de volta ao passado, quando haviam se encontrado nas ruínas do castelo. Diversas vezes, antes de adormecerem, ele tinha dito: “Vamos dormir agora, sonhar e voar juntos para o castelo...” Talvez tudo não passasse de alucinação por causa do skunk, mas aqueles sonhos a perseguiam desde sempre, mesmo antes da viagem. Vasculhando a memória, resgatava fragmentos de sonhos antigos: seu corpo flutuando sobre canais, pontes, antigas construções... não voava sozinha, havia alguém com ela, alguém que jamais conseguira identificar. Não podia ser mera coincidência voltar a Amsterdam e encontrar um desconhecido que materializava sonhos e visões do passado. Tinha de haver alguma coisa ali.
            Hendrik era alguém especial. E às vezes muito engraçado. Mas quase toda diversão que ele proporcionava se convertia em algo que a amedrontava. Hendrik gostava de imitar marionetes, parecia um verdadeiro boneco de gestos rígidos e desarticulados. Como podia ser tão flexível? Seu corpo dançava como se não tivesse ossos. O que havia dentro dele? Em seguida, caía no chão, desconjuntado, imóvel, sem respirar. Assustada, pensava que ele estivesse morto. O que faria? Fugiria, deixando o cadáver para trás. Mas Hendrik já saltitava novamente no meio da sala, mais vivo que nunca, rindo da cara dela, reiniciando a pantomima. Ela também ria, aliviada com o ressuscitar. Sim, havia ocasiões em que ele era muito divertido. Mas quando estava deprimido não admitia que ninguém achasse graça em nada. Nessas horas, ela tentava ser comedida, mas Hendrik distorcia tudo o que ouvia, culpando-a por sua depressão. Ele fumava diariamente, e sempre que se drogava se deprimia. Assumia uma postura séria, irritável. Com voz dura, sentenciava: “Você não sabe nada sobre mim. Não sabe como era a minha vida antes de Amsterdam. Eu fiz muitas coisas ruins. Fiz coisas ruins pra muita gente. Sou uma pessoa má. Estou cansado de ser mau, muito cansado. Talvez seja melhor não viver mais...” Ele sempre falava em suicídio, suas frases negras a apavoravam. Para se tranqüilizar, tendia a achar que tudo não passava de alucinação produzida pelas drogas. Mas, às vezes, ela também pensava na própria morte, chegava a senti-la. O efeito do skunk era devastador. À primeira tragada, a fumaça invadia seus pulmões, não a deixando respirar. Medo absoluto. A garganta se afunilava, ela sufocava. Os batimentos cardíacos se aceleravam, o coração parecia querer estourar. Pensava em nunca mais fumar, mas nessa hora já era tarde. Estava morrendo, sabia que sim, a cada vez tudo ficava mais intenso. Sentia uma dor profunda, consentia que algo a ferisse. Gritava. Queria morrer, mas tinha medo, queria chorar, mas a dor a impedia. Gritava e ouvia sua voz ao longe. Escutava alguém pedindo que tentasse relaxar. Hendrik? Deveria acreditar nele? Por quê? Ele a assustava. Tornava a gritar, mas não ouvia a própria voz, estava surda, muda, estava morrendo. Hendrik, a seu lado, mantinha-se impassível. Ela morria e ele nada fazia para impedir, nem mesmo notava seu desespero. Estavam juntos, mas também isolados em mundos distintos. Agarrava-se ao corpo dele, sentia sua energia abandonando-a, sendo sugada. Hendrik ria com rosto transfigurado, sabia tudo o que ela pensava, lia sua mente e detinha total controle da situação.
            Profunda transformação. Observava as drogas fazendo Hendrik se tornar outro, trazendo à tona seu lado negro, levando-o a fazer coisas estranhas. As noites na casa de Derek começavam sempre do mesmo modo: primeiro, alegria, risos, conversas amistosas; depois de fumarem skunk: ciúmes, desconfiança, inveja. Passando a olhá-la num misto de ódio e decepção, Hendrik tentava encontrar pistas que denunciassem um caso entre ela e Derek. Então, começava a conversar em holandês com o amigo, logo se insinuando para ele. Ao mesmo tempo, procurava seduzir Liz: parecia querer fazer sexo com ela no apartamento de Derek, deixando o amigo tomar parte na brincadeira. Provocava ambos, impiedosamente. Ela fingia não entender, mas via Derek arder de um desejo cada vez mais crescente por Hendrik. Precisavam de sua conivência, ela se recusava a colaborar na concretização da cena grotesca que previa. Liz assustada. Derek frustrado. Hendrik vencido, mas não de todo: mais tarde, na penumbra do quarto iluminado pela luz negra, tendo Liz sobre a cama, consumava no corpo dela parte de suas fantasias de vingança.
            O comportamento controverso e ambíguo de Hendrik, que antes apenas a intrigava, agora a desagradava. Quase sempre sentia-se usada, humilhada, ferida. Por que ele seduzia todo mundo? Tinha extrema necessidade de sentir-se amado, o tempo inteiro. Todos pareciam fascinados com ele. Todos o desejavam: Derek, Judith, sua namorada, as meninas da escola, as garotas nas boates, os conhecidos que encontrava nas ruas, os desconhecidos, todo mundo. O que ela representava para Hendrik? Um longo passatempo? Mais uma a fazer parte do extenso e crescente grupo de admiradores dele? Todos eram unânimes em afirmar que Hendrik era especial. Mas o que significava “especial”? Diferente?, encantador?, louco?
            Tão vítima quanto os que cruzavam o caminho de Hendrik, estava fascinada por ele e sua vida envolta em mistérios. Hendrik só tinha 20 anos, morava sozinho e parecia não possuir um passado atrás de si. Vivia em Amsterdam há três anos, mas dava a impressão de ter acabado de se mudar. Orgulhoso, gabava-se de ser jovem e já ter um apartamento. Estava sempre pensando no futuro: o ótimo emprego que teria depois do curso, o excelente salário, as coisas caras que compraria... Apesar de sentir certa afinidade com ele, havia momentos em que Liz o achava deslumbrado e materialista. Para Hendrik tudo parecia simples e fácil. Ser dotado de beleza era condição suficiente para resolver todos os problemas?
            No princípio, quando ele ainda nada representava para ela, achava-o completamente fútil. Suas preocupações limitavam-se aos 70 quilos que precisava levantar todo dia a fim de conservar os músculos; aos cuidados com a pele, sempre depilada e hidratada; aos cortes e tinturas de cabelo freqüentes; às roupas da moda... Hendrik tinha uma vida pautada pela aparência: todos os seus atos convergiam para um resultado irrepreensivelmente estético. Isso ultrapassava os limites do aspecto físico, refletindo-se no pequeno mundo que havia criado para si: seu apartamento. A decoração despojada não era constituída por mobília cara, mas tudo era arrumado de forma tão criativa, com idéias tão originais que a sensação de modernidade era indiscutível. O prático piso vinílico, as ousadas cores das paredes, as irreverentes cortinas improvisadas com grandes lenços ciganos, o exótico mural composto por ingressos de todas as boates que freqüentara... Considerava excessivo o esmero com que Hendrik procurava manter tudo limpo e arrumado: a roupa de cama, trocada diariamente, era perfumada com Byzance; as toalhas de banho e rosto, as toalhas de mesa eram substituídas sempre que usadas. Tudo precisava estar constantemente fresco, como se a qualquer instante fossem chegar visitas inesperadas. Também via exagero na preocupação de Hendrik com a aparência física. Achava engraçado quando ele dizia ser importante estar bem apresentável a todo o momento, já que nunca era possível adivinhar quando alguém apareceria. Assim, depois de acordar, e de se exercitar, ele entregava-se ao ritual de embelezamento: o demorado banho, cremes, perfumes, roupas limpas e bem passadas... A boa aparência também era reflexo de um corpo descansado, dormir bem era imprescindível: necessitava repousar pelo menos 12 horas para sentir-se em forma.
            Agora Hendrik significava alguma coisa para ela, algo que não discernia claramente, mas que a fazia compreender e aceitar aquelas obsessões. A beleza dele era tão surpreendente que não conseguia mais dissociá-lo do processo narcíseo ao qual se mantinha escravizado. Às vezes espantava-se por Hendrik fazer uso tão regular de drogas, já que não combinavam com o perfil saudável que ele se empenhava em demonstrar. Aos poucos percebeu que para o círculo de amizades dele, ser jovem, moderno, interessante, estava estritamente vinculado ao consumo de algo que visava nivelar todos.
            Ela também se transformara. O que representava para si mesma depois de tudo? Sempre tinha procurado ser tão racional, correta, digna... e agora estava presa num lodo movediço. Talvez quisesse romper com um sistema insatisfatório, mas entregar-se desenfreadamente a vícios, prazeres, alucinações também não a satisfazia. Estava farta de sentir-se decente, justa, exemplar... e também cansada de bancar a decadente, desajustada, desequilibrada... Não era nada disso. Inútil insistir em parecer outra que não ela mesma. Mas alguma coisa havia se modificado definitivamente dentro de si. Começava a sentir uma espécie de repulsa por si própria. Como podia ser tão volúvel, ordinária, inconseqüente? Será que enlouquecia? Sem perceber, deslizara da atração puramente estética por um jovem a uma atração sentimental, visceral, incontrolável. Hendrik era a beleza, força, poder, mistério... passado, presente, futuro... ele era tudo. E ela sentia-se nada, mero corpo humano desprovido de razão ligado de alguma forma inexplicável a um arsenal de possibilidades tão promissoras quanto desejáveis. Amava Hendrik. Amava o que ele era, o que tinha, o que buscava. Amava-o, mas não podia dizer que o amava. Hendrik não acreditaria, ou então fugiria dela. Pela primeira vez na vida se via impedida de falar “eu te amo” quando realmente amava. Todas as poucas vezes que dissera aquela patética frase de três palavras lhe soaram falsas, absurdas, ridículas: amor era o sentimento incompreensível, avassalador e dilacerante que experimentava naquele exato momento, na cabine vazia, sobre o banco triplo, junto à janela de um trem que se deslocava velozmente, ao longo do horizonte interminável, rumo a uma cidade desconhecida.
            Olhou o rosto de Hendrik. A pele clara, bem barbeada assemelhava-se à porcelana fina. Traços suaves como uma aquarela: o formato do rosto, sobrancelhas, olhos, nariz, boca... A perfeição estética existia, repousava em seu colo, entre suas mãos, pertencia-lhe naquele instante. Ele dormia, alheio às carícias a ao amor dela, alheio ao mundo. Com o que sonhava? Hendrik podia ler pensamentos, ela não. Por que não lia o que ela havia pensado nos últimos dias? Sabia o que Liz sentia por ele? Por que não falava nada? Por que não lhe pedia para ficar? Talvez Hendrik só lesse pensamentos convenientes... mas como poderia selecioná-los antes de conhecê-los? Desejava ouvi-lo pedindo-lhe que ficasse, mas gostaria de ter certeza de que ele a queria pelo que ela era, não pelo dinheiro que lhe pagava. Havia ocasiões em que se sentia estúpida por estar hospedada no apartamento daquele lindo narciso genioso. Se pagava hospedagem, por que lavava a louça e roupas dele, limpava e arrumava tudo em vez de se divertir?
            Sentia-se vazia. Surgira do nada na vida de Hendrik, logo voltaria ao mesmo nada de onde viera. Como ele podia ter se interessado por ela? Não sabia. No entanto, por mais estranho que fosse, alguma coisa no interior daquele vácuo informe lhe dava uma remota esperança impossível de descartar.

            Desceram na estação de Delft. A cidade pequena fez com que encontrassem prontamente a rua que constava no jornal nas mãos de Hendrik. Pararam no número indicado no anúncio. Ele tocou a campainha. Foram atendidos por uma senhora, que os fez entrar. Liz ficou sendo espectadora da rápida negociação. Logo, deixavam o prédio levando dois filhotes de gatos siameses.
            Retornando à estação, Liz se perguntava que destino teriam os gatinhos. Sentia-se responsável pela compra. Quando dissera que Hendrik deveria ter um gato como animal de estimação, tinha feito uma brincadeira. De forma sutil, zombava dele, que reclamava por suas amizades sempre se desfazerem após os verões. Ela garantira que um animalzinho criado desde pequeno se afeiçoaria a ele e nunca o deixaria. Não contava que Hendrik a levasse tão a sério. Em vão, havia tentado demovê-lo da idéia. Ele não se aborreceria em cuidar dos bichos, teria dinheiro para mantê-los, tempo para lhes dar atenção? Hendrik afirmara que sim, há muito queria ter animais de estimação.
            — Plexus e Nexus... — falou ele, olhando a paisagem pela janela do trem.
            — O quê?
            — Plexus e Nexus, os nomes que eu vou dar a eles — disse, olhando a caixa com os gatos.
            — Henry Miller...
            — Quem é esse cara? — perguntou, sem ter entendido a quê ela se referia.
            — Onde você viu os nomes que vai dar aos gatos?
            — Numa livraria no Centro, nuns livros na vitrine...
            — Henry Miller é o autor desses livros.
            — Mesmo?! — falou, admirado. — Como você sabe disso?
            — Eu já li um livro dele.
            — E gostou? Falava sobre o quê?
            — Falava sobre a vida — respondeu, depois de titubear um pouco.
            Plexus e Nexus... Sexus: o livro de Miller que lera escondido na adolescência, que a deixava com o rosto em brasa pelas obscenidades narradas de maneira crua. Plexus e Nexus, dois pequenos gatos. Sexus, um grande e belo gato: Hendrik. A trilogia estava completa.
            Fechou os olhos. O trem corria de volta para Amsterdam. A cidade onde havia passado os dois últimos meses também tinha se modificado. Arquitetonicamente tudo continuava igual, mas Amsterdam começava a desmoronar. As amizades que fizera na chegada se diluíam. Quando, após ter ficado uma semana seguida no apartamento de Hendrik, procurou Maurício e Lucas, soube, por Mariana, que eles haviam partido fazia alguns dias. A própria Mariana estava indo embora: voltava de vez ao Brasil. Não entendia como ela podia ter rompido de forma tão definitiva com Gerd. Mariana contou que há algum tempo se desentendia com o namorado. Gerd era adepto do sexo violento, de sadomasoquismo. Tentara adaptar-se ao esquema dele, mas acabou não suportando.
            Abriu os olhos. O trem continuava correndo, Sexus a seu lado, Plexus e Nexus brincando na caixa. Apesar da presença de Hendrik, sentia-se um pouco mais sozinha. Agora só podia contar com ele.

            No apartamento, ela, experiente na criação de gatos, começou a explicar alguns detalhes da nova rotina a ser seguida. Hendrik disse que não pretendia mudar nada em sua casa. Liz insistiu que ele tomasse algumas providências, do contrário em poucos dias estaria odiando aqueles gatinhos. Esclareceu que Hendrik deveria manter fechadas as portas dos cômodos em que não quisesse a presença dos gatos. Não deveria submetê-los a longo confinamento em espaços pequenos. Precisaria comprar uma caixa de areia, na qual os filhotes seriam ensinados a deixar seus dejetos; a areia tinha que ser trocada diariamente. Seria preciso comprar ração e manter uma vasilha com água sempre limpa. Hendrik deveria ainda tomar cuidado com os objetos de valor que pudessem ser quebrados. Pretendia continuar enumerando os cuidados necessários, mas vendo o rosto de Hendrik contrafeito deteve-se:
            — O que foi? — perguntou.
            — Eu não sabia que precisava de tanta coisa pra ter gatos em casa... Por que você não me avisou antes?
            — Mas eu falei que criar gatos dava trabalho. E você disse que ia cuidar muito bem deles!
            — Não achei que fosse tão complicado...
            — Calma, eu te ajudo. Depois que se acostumar você vai ver que não é tão difícil.
            — Você sabe tantas coisas, Liz!... Não sei o que seria de mim sem você.
            Deixou Hendrik na sala com os gatos, foi para o quarto. Ele sempre agia por impulso, sem calcular devidamente as conseqüências de seus atos. Mal havia comprado os gatos e já estava desanimado com eles. “Não sei o que seria de mim sem você...”, dissera ele no instante em que ela pensava: “Não sei o que seria de você sem mim...” Estava enlouquecendo, única idéia coerente. Abriu o armário, olhou sua mochila, sempre pronta para o caso de uma partida repentina, após um desentendimento mais sério. Pendurada no cabide, a última muda de roupa limpa e passada. Precisava lavar algumas das roupas comprimidas na mochila. Separou algumas peças, foi para o banheiro.
            — O que você vai fazer, Liz? — perguntou Hendrik, ao vê-la passar pela sala.
            — Vou lavar roupa.
            — Que bom! Eu já estava achando mesmo o cesto muito cheio.
            — Eu vou lavar a minha roupa — retificou ela.
            — Tudo bem. Então eu também vou lavar a minha roupa — disse ele, imitando o tom dela.
            Enquanto Liz usava a pia, Hendrik, com dois baldes, servia-se da água do chuveiro. Ela sentia o agradável aroma do sabão em pó como se já estivesse longe, com saudade daqueles momentos perfumados que em breve terminariam. Tentava se animar, mas tudo acabava apontando para um fim inevitável. Perdida em pensamentos, sentiu água fria respingando em suas costas. Hendrik, brincando com a água do chuveiro, direcionava o jato do esguicho na direção dela. Entrando na brincadeira, ela começou a jogar água da pia em cima dele. Os dois se divertiram como crianças. Ao final, estavam encharcados. Foi ao quarto vestir as peças secas que lhe restavam. Retornando ao banheiro, comentou que aquela era sua última roupa limpa. Hendrik, ainda excitado com a “guerra d’água”, ameaçou molhá-la outra vez.
            — Não faz isso — pediu, séria. — Se você me molhar eu não vou poder ir ao apartamento do Derek à noite.
            Virou as costas para ele, recomeçando a lavar as peças deixadas na pia. Hendrik, ignorando o pedido dela, tornou a molhá-la, e com uma quantidade de água substancial.
            — Por que fez isso? Eu não te pedi pra não me molhar? — gritou. — Você não me respeita!
            — É só uma brincadeira — debochou. — Não precisa perder a cabeça por isso.
            — Perder a cabeça? — gritou, furiosa. — Você vai ver o que é perder a cabeça!
            Lançou-se para cima de Hendrik, colocando-o embaixo da ducha, girando até o fim o registro da água quente. Ele se debateu, conseguindo livrar-se parcialmente da água fervente que lhe atingiu o ombro.
            — Ficou maluca?! Você podia ter me machucado! — disse, atônito, mostrando a vermelhidão.
            — Você é um irresponsável!
            — Mas eu podia te emprestar as minhas roupas! Você não precisava fazer isso!
            — Não é só por causa das roupas. É uma questão de respeito.
            Deixou o banheiro carregando as roupas molhadas. Amontoou-as na mochila. Colocou a bolsa nas costas, seguindo para a sala. Hendrik a olhava, atento.
            — Adeus! — disse, preparando-se para deixar o apartamento.
            Única alternativa. Mas não queria ir embora, não queria deixá-lo daquele jeito estúpido. Interiormente suplicava que ele dissesse alguma coisa, que lhe pedisse para ficar. Apoiou a mão na maçaneta, iria girá-la pela última vez.
            — Liz, espera! Fica — ele pediu. — Por favor, me desculpa.
            — O quê?... — falou, mal acreditando no que ouvia.
            — Me desculpa — repetiu. — Agora eu te entendo: uma questão de respeito.
            Aproximou-se dela, ainda parada junto à porta, retirou-lhe a mochila das costas, abraçou-a, afetuoso. Beijou-a.
            — Você é um anjo que me ajuda — disse ele. — Faz tempo que espero alguém como você.
            Não sabia mais o que pensar. Esfacelada de encontro a uma muralha demasiado sólida — a razão —, sentia-se fragmentada em incontáveis partículas. Hendrik a estava enlouquecendo. Afinal, amava-a? Por que não se declarava? Será que não o sabia? Por que ele continuava se comportando como se tivessem toda uma vida conjunta pela frente, sabendo que logo ela partiria? Quanto mais o tempo passava menos o compreendia.

            Uma vez mais Hendrik havia se modificado. Terminadas as férias, ele tinha voltado à escola. Um novo ser surgia, outro rosto e sorriso, outros gestos e atitudes... Um desconhecido que ela também já amava.

            Por causa de Plexus e Nexus a rotina do apartamento tinha se transformado, conforme previra. Por causa das aulas que seguia, Sexus voltava a ser o que era antes de conhecê-lo: um rapaz voltado unicamente aos estudos. Havia parado com drogas, bebidas, boates... até mesmo com as noitadas diárias na casa de Derek. Estava irreconhecível. Querendo organizar seus horários, Hendrik elaborou um cronograma estipulando minuciosamente o tempo a ser gasto nas tarefas cotidianas. Liz reclamou ao ler na planilha a meia hora que ele havia destinado ao sexo. Tentava adaptar-se aos rígidos horários que Hendrik impunha, sabendo que a longo prazo não seria capaz de viver de forma tão regrada.
            Raras as noites no apartamento de Derek. A nova postura de Hendrik desagradava ao amigo, que insistia em que aparecessem mais vezes. Insistia também que se fumassem um pouco não haveria mal para os estudos do aplicado aluno. Hendrik mantinha-se irredutível, incomodando-se ao ver os dois fumando na sua frente. Liz dizia que as férias dela ainda não tinham terminado, não era obrigada a privar-se de diversão. Relevando o que ouvia, Hendrik parecia fazer grande esforço para manter-se sóbrio. Depois de fumar, Derek ficava irritado, sabendo que nenhuma sedução se esboçaria na cada vez mais restrita atenção que Hendrik lhe dedicava. Liz, zonza pelo vinho, pelas ervas, achava graça, sem o manifestar, do distanciamento entre os dois amigos.

            Seu penúltimo dia em Amsterdam nascia sem que tivesse certeza do que realmente faria no dia seguinte. Hendrik acabou manifestando interesse em que ela permanecesse na cidade, ele a ajudaria a procurar apartamento, trabalho... Parecia não entender que a permanência dela dependia necessariamente dele. Liz explicara que, sendo estrangeira, estava sujeita a certas exigências para continuar legalmente no país. Quanto mais esclarecia, mais confuso e arredio Hendrik se mostrava. Sentia-se um fardo. Hendrik queria tempo para pensar no assunto, mas para Liz o tempo se esgotava rapidamente. Entristecida, via que Hendrik não encontrava espaço no maldito cronograma para dedicar-se aos complexos pensamentos que diziam respeito a ela. Não tinha direito de exigir nada, mas, na véspera da partida, precisava saber o que ele havia decidido. “Amanhã”, respondeu, tinha que pensar. Ela já sabia a resposta.

            Constrangido por não ter dito o que Liz sabia que não ouviria, Hendrik acompanhou-a até a Centraal Station.
            — Você tem certeza que não quer ir de táxi pro aeroporto? — indagou ele. — Eu pago.
            — Eu quero ver a estação pela última vez... — falou, triste.
            — Liz... vê se me entende. Eu...
            — Hendrik, por favor, não fala nada. Não torna tudo ainda mais difícil.
            — Mas Liz, eu preciso falar...
            Não se opôs, não tinha mais forças.
            — É uma mudança muito grande, muito importante. Eu preciso de tempo. Não posso tomar uma decisão dessas, assim, sem mais nem menos. Tudo aconteceu muito depressa...
Estava coberto de razão. Pela primeira vez, desde que o conhecera, ele dizia palavras ajuizadas — as únicas que ela não queria ouvir.
            — Nós dois precisamos de um tempo — prosseguiu ele. — Você também tem que pensar melhor no que quer. Precisa voltar pro seu país, pra vida que deixou lá.
            As palavras sensatas a destroçavam. Não havia como dizer o que sentia, impossível fazê-lo enxergar o amor que nem ela mesma compreendia.
            — Por que você não volta em três meses? — indagou ele. — Até lá a gente já deve ter certeza de alguma coisa.
            “Uma esperança ou uma forma de esquecimento? Ele quer mesmo isso? Por que em três meses? Por que não em um mês, em uma semana, em um dia?... Por que não agora?”
            Na plataforma, despediram-se friamente. Hendrik lhe deu um rápido abraço, um beijo na face, lamentando não poder esperar a partida do trem, estava atrasado para algo importante. Liz não protestou. Imóvel, observou-o caminhar para a saída, sem se voltar uma única vez; seu andar parecia mais leve, como se estivesse livre de uma carga indesejável. Devia estar feliz tendo sua controversa liberdade de volta. Sim, ele estava atrasado para algo muito importante: sua vida.
            No trem, procurou assento junto à janela. As lágrimas brotavam mornas e escorriam pela face gelada. Sentia-se estranhamente lúcida. Enfim desperta. Talvez tudo aquilo não fosse um sonho louco — como muitas vezes pensara —, mas um absurdo pesadelo.

ir para o 10º capítulo
Creative Commons License