“Estávamos
na varanda. Eu, minha mãe, minha avó.
Olhávamos os gatos no jardim, uns dezenove
ou vinte. Não me lembro de quem foi a
idéia, nem o motivo, mas decidimos sacrificar
um dos gatos. Escolhemos um animal com dificuldade
de andar. Resolvemos aprisioná-lo no
sótão, onde morreria de fome.
Os demais gatos passeavam como de costume, eram
bem alimentados; o outro, prisioneiro, não
cessava de miar na escuridão da nova
morada. Agíamos como se nada estivesse
acontecendo. Passado algum tempo, o gato infeliz
ainda não morrera. De repente, me apiedei
dele, sem compreender tamanha crueldade. Como
eu tinha deixado as coisas chegarem àquele
ponto? Munido de comida, fui ao sótão
para pôr fim ao sofrimento do animal.
Tarde demais. Ele não havia morrido,
debatia-se no chão, recusando-se a comer
o que eu lhe oferecia. Tinha começado
a secar nas extremidades, e o meio do corpo
estava intumescido, se decompunha. O gato deu
o último gemido na minha frente. Solucei
de remorso, alegando inocência diante
do cadáver. Estranhamente, ele transformara-se
num rato, que me fitava com olhos aterrorizados...”
Acordei
assustado, o coração acelerado.
Sonho horrível! Olhei o relógio
na mesinha de cabeceira: cinco e meia da manhã.
Não consegui mais dormir. Na cama, tentei
dar significado às cenas inexistentes
ainda vivas dentro de mim.
Fácil
associar os gatos a Liz — na casa dela
eles existem em quantidade. A idéia de
sacrificar um dos animais, o defeituoso —
que poderia simbolizá-la —, seria
uma punição por algo criminoso:
não ser perfeito. A morte física
estaria relacionada a uma ruptura definitiva.
A forma cruel de matar o animal demonstraria
que ele precisava sofrer antes de deixar o mundo,
tinha que compreender o quanto fizera sofrer
os outros através de sua imperfeição.
A morte lenta e agonizante desperta no “assassino”
a piedade que o faz a desistir da idéia
— que não reconhece como sua. Quando
tenta salvar a criatura — que, apesar
de imperfeita, ama —, ela prefere não
mais viver: tinha esperado para morrer diante
da pessoa que o maltratara, punindo-o também.
Só então o “assassino”
percebe estar enganado em suas suposições:
matara, sem necessidade, um inocente.
Desde
minha última conversa com Daniel sentia-me
perturbado com as suspeitas sobre Liz. Injusto
tomar decisões levando em conta dados
inconsistentes. Não tinha direito de
achar que ela traíra nossa amizade, minha
confiança. Eu sim, a tinha traído,
mentido, ocultado idéias... a prova eram
meus pensamentos atormentados, distorcidos em
pesadelos.
Trinta
e seis anos. Ninguém vive todo esse tempo
sem se comprometer com algo, sem assumir responsabilidades
ou ser obrigado a fazer escolhas... Infindável
em si mesmo, limitado e finito para cada um
de nós, o tempo exige que decisões
sejam tomadas.
Estou
perdido. Atravesso um imenso deserto. Aonde
quer que eu olhe diviso sempre um horizonte
estéril se desfazendo, miragem. Sinto-me
inútil, sem objetivos. O que fazer comigo
mesmo?
Lá
fora o dia nasce. A luz atravessa a vidraça
tingindo de amarelo brilhante parte da parede
e do teto do quarto, onde estou deitado numa
cama de solteiro, pensando, como sempre. Levantar.
Arrumar a cama. Ir para o banheiro, onde a higiene
me deixará apresentável... Mais
uma vez, retornar ao mundo dos vivos que habitam
essa estranha esfera giratória, planeta
de seres que fogem do passado aniquilado, perseguem
o futuro sempre fora de alcance...
O
que eu temia aconteceu. Acabei transformando
Liz num personagem. Frágil heroína
de romance indefinido, protagonista que tento
situar num tempo e espaço que desconheço.
Às vezes sinto que não controlo
minha mente. Pensamentos extravagantes surgem
inesperados, tomam vulto, me dominam, e eu me
rendo a desvarios múltiplos e contraditórios.
Estou indeciso, confuso, apoiado num limiar
incerto: atrás de mim, tudo faz sentido,
mas não suporto a realidade; à
minha frente, tudo parece falso, mas bastante
encantador. Estou agarrado nesse portal, oscilando
entre a repulsiva verdade e a sedutora mentira.
Tenho que me soltar... não posso segurar
por mais tempo... Vou cair, é inevitável...
preciso cair...
Domingo
fui à casa de Liz. Devia uma visita a
Luísa.
Elas
moravam numa vila particular. Muros desnecessários
separavam as duas casas. No corredor onde ficavam
estacionados os carros, alguns gatos estavam
deitados, outros brincavam. Um filhote andava
com dificuldade, puxando a pata. Lembrei-me
do pesadelo, senti um calafrio. Passei pela
casa de D. Amália, sempre com portas
e janelas fechadas. Toquei a campainha na segunda
casa. D. Nina me recebeu carinhosamente, mas
parecia um pouco tensa. Luísa estava
no banho. Sentei no sofá da sala. A avó
de Liz voltou aos afazeres na cozinha. Olhei
as paredes atopetadas de quadros pintados por
Liz quando adolescente. Ela sempre odiou ver
expostas suas tentativas malsucedidas no aprendizado
da pintura a óleo. A sala fartamente
“decorada” por Liz não evocava
sua presença: a casa nunca me pareceu
tão vazia.
Agitada,
Luísa contou que Liz havia ligado de
manhã: estava em Amsterdam, não
devia demorar a voltar, o dinheiro estava no
fim, algo tinha saído errado com Franz.
Fiquei
surpreso. Tanta preparação e expectativa
em relação à viagem...
e tudo tinha fracassado, tão depressa.
Por quê? Liz devia estar frustrada, deprimida.
Pedi detalhes, Luísa não sabia
muito, mas falou que Liz havia me escrito uma
carta contando o ocorrido.
D.
Amália entrou na sala, mais uma a tentar
descobrir o que poderia ter acontecido com sua
filha. Elas especulavam. Eu procurava tranqüilizá-las.
Tentamos
não pensar mais no assunto. Luísa
me entregou os dois álbuns que organizara
com as fotografias da viagem. Ao ver Liz nas
fotos tive um choque: ela era tão real,
parecia tão viva!... A imagem que eu
havia deformado desde a última vez em
que a vira não coincidia com a da mulher
nas fotografias.
Quando
deixei a pequena vila já era noite. No
ônibus, na volta para casa, não
parava de pensar em Liz, no que estaria acontecendo
com ela naquele momento. Tentava imaginá-la
distante do dia em que se separara de Franz,
mas não conseguia formar imagens tranqüilizadoras.
No
dia seguinte, apanhei na caixa de correspondência
um postal enviado por Liz. Contava a apreensão
no encontro que teria com Franz. Notícias
ultrapassadas.
Liguei
para Daniel à tarde. Com voz inquieta,
ele disse também ter recebido um postal
de Liz com novidades defasadas. Parecia tão
preocupado quanto eu. Indagou se o encontro
entre Liz e Franz não tinha dado certo
ou se ele sequer havia ocorrido. Eu não
soube responder. Marcamos encontro para conversarmos
melhor.
Isadora
me encheu de trabalho: dezenas de estampas tão
feias quanto complicadas. O prazo para a entrega,
ao contrário do volume do serviço,
era bem curto. Pensei em desistir, mas dessa
vez, pela quantidade, as estampas renderiam
uma soma que seria loucura recusar.
A
carta de Liz chegou na quinta-feira.
Ao
longo de 20 páginas ela descrevia, desiludida,
o ocorrido com Franz. Tudo o que eu acabava
de descobrir já era passado. Como estaria
se sentindo ela agora?
Pouco
depois atendi uma ligação de Daniel
para confirmar nosso encontro no dia seguinte.
Achei melhor não falar sobre a carta.
Ele quis saber se eu tinha alguma notícia
de Liz. Não, nada ainda. Cheio de questionamentos,
Daniel continuava especulando sobre o acontecido
com Liz. Eu queria desligar o telefone, mas
ele não parava de falar. Seus assuntos,
sempre tão interessantes, agora me incomodavam.
Inventei uma desculpa para adiar nosso encontro:
antes queria digerir melhor a carta de Liz.
Quando finalmente coloquei o fone no gancho
estava esgotado. Queria pensar em tudo, não
queria pensar em coisa alguma.
Apesar
da quantidade de trabalho, eu arranjava tempo
para tomar notas. Havia momentos em que eu acreditava
no que fazia, mas às vezes minha obstinação
em escrever parecia teimosia. Pensava em mostrar
os escritos a Liz assim que ela voltasse, mas
as bobagens registradas desanimavam-me. Um patético
diário... para quê? Continuarei
amando Liz, desejando-a de vez em quando e sofrendo
com essa história. Vou continuar chorando
escondido, lamentando meus fracassos. Continuarei
assexuado, me masturbando maniacamente, desejando
ser amado e amar... Tudo em vão. Vou
continuar levando a abominável vidinha
medíocre de sempre... As notas que já
somam mais de cem páginas são
completamente inúteis.
Quase
considerei sorte o trabalho inesperado que Sílvia
me arranjou: dezenas de estampas a arte-finalizar.
Vez por outra, por causa do seu emprego, Sílvia
nos dava oportunidade de um ganho adicional.
Com a ausência de Liz, e Daniel ocupado
demais com seus clientes, acabei pegando todo
o serviço. Atirei-me ao trabalho. Manter-me
ocupado o bastante para não pensar em
outra coisa que não minhas ocupações,
precário subterfúgio.
Sílvia
se mostrou surpresa quando lhe telefonei dizendo
ter acabado as artes. Marcamos encontro em seu
apartamento para a entrega dos desenhos. Decidi
levar a carta de Liz. Precisava me livrar da
culpa de sonegar-lhes informações.
Sílvia
e Daniel ficaram penalizados ao ler a carta.
Enquanto comentavam o que teria causado aquele
incidente, eu tentava imaginar o que Liz vivia
no momento. Fazia uma semana que ela não
telefonava para a mãe. Não voltara
no dia previsto. O que teria acontecido?
Por
causa da minha eficiência, Sílvia
entregou-me nova remessa de estampas a arte-finalizar.
Fez os cálculos rapidamente e ficou eufórica
ao ver que eu ganharia um dinheiro considerável
em poucos dias. Estranhamente, não me
sentia tão empolgado quanto ela.
O
tempo passava depressa, mas também se
arrastava. O dia em que Liz deveria voltar se
tudo tivesse corrido bem na viagem se aproximava.
Acreditei que as próximas notícias
a seu respeito seriam dadas por ela mesma, pessoalmente.
Foi
com surpresa que recolhi na caixa de correspondência
um novo envelope vindo de Amsterdam. Em tom
sincero, Liz contava o que vivera desde que
tinha ficado sozinha. Falava de novas amizades,
das experiências com drogas, do rapaz
desconhecido que a hospedara e com quem estava
envolvida... Fácil entender agora porque
ainda não tinha voltado. Devia ter enviado
aquela carta franca para tranqüilizar-me.
O efeito que produziu foi outro.
Ela
havia conhecido um rapaz numa boate, um garoto
de programa, tinham transado algumas vezes...
Liz me dissera que só fazia sexo quando
estava apaixonada. Será que já
amava o jovem estranho? Não era Franz
o amor da sua vida?
Tive
vontade de mostrar a carta a Daniel, mas sentia-me
constrangido. Sabendo do meu amor doentio por
Liz, ele iria constatar a inutilidade dos meus
sentimentos, me acharia ridículo.
Depois
de pensar algum tempo, liguei para ele. Inventei
como pretexto para a visita a entrega de parte
das artes de que Sílvia tinha me incumbido.
Premeditava o encontro na intenção
de me abrir com ele. Ao telefone, falou que
à tarde estaria no estúdio. Não
mencionei a carta, preferi me certificar de
que estaríamos a sós para lhe
entregar o envelope, e falar sobre mim. A possibilidade
de contar com Daniel como amigo e confidente
me excitava, me apavorava.
Cheguei
atrasado. Gustavo me recebeu com o costumeiro
ar de indiferença. Daniel tinha ido ao
banco, não demoraria a voltar. “Mau
sinal”, pensei, vendo meus planos ameaçados.
—
Eu soube que deu tudo errado no encontro da
Liz com o namorado.
—
É, parece que as coisas não aconteceram
do jeito que ela esperava — falei.
Desagradava-me
saber que Gustavo estivesse tão bem informado.
Talvez fosse melhor esconder de Daniel as últimas
novidades sobre Liz.
—
E o que foi feito dela depois disso? —
continuou.
—
Ela estava numa lista de espera pra voltar antes
da data marcada.
—
Um encontro que não deu certo... —
disse ele, com desdém. — E daí?
Com tanto homem na Europa, era só escolher
outro! — complementou, troçando.
—
Talvez ela não tenha ido atrás
de homens, mas ao encontro de um em especial.
Tentava
defender Liz das insinuações de
Gustavo, mas achava meus argumentos descabidos:
Liz fracassara com Franz, e já estava
interessada em outro.
—
Você acredita mesmo nisso? Ela deve estar
aproveitando pra tirar o atraso. As mulheres
são iguais aos homens: só pensam
em sexo.
Nada
falei. Gustavo não deixava de ter certa
razão em sua desagradável franqueza.
Senti-me infantil colocando Liz num pedestal
inatacável.
Daniel
entrou na sala tão absorto na leitura
dos papéis que trazia que mal me notou.
—
Oi, Leon! — disse. — Acho que eu
vou enlouquecer com tanta coisa pra fazer.
O
fracasso esboçado à minha chegada
concretizava-se.
—
Bom, eu trouxe o que tinha prometido —
falei, entregando a ele as artes e layouts.
— Outro dia eu volto e a gente conversa
com mais calma.
—
Não, espera um pouco. Eu só preciso
fazer umas contas, a gente já conversa.
Enquanto
Daniel verificava extratos bancários,
Gustavo começou a desligar seu micro.
Eu tinha impressão de que os dois não
estavam se dando muito bem.
—
Agora sou eu que vou ao banco. Tchau! —
despediu-se Gustavo.
“Será
que nem tudo está perdido?”, pensei,
animando-me, a sós com Daniel.
Ele
guardou os papéis em que havia feito
contas e começou a ligar seu computador.
—
Tudo bem, Leon? — perguntou, como se somente
agora tivesse chegado.
—
Você não sabe de nada!... —
falei, entregando a ele o envelope.
—
O que é isso? A mesma carta? —
indagou, reconhecendo a letra de Liz.
Não
respondi, e ele percebeu tratar-se de algo mais
recente.
—
Mas eu vou ter que ler isso tudo agora? —
disse, vendo o monte de páginas.
Senti
vontade de tirar a carta das mãos dele
e ir embora, mas fiquei impassível, mudo.
Enquanto Daniel lia, eu roía as unhas.
Já não estava certo se devia me
abrir com ele.
Durante a leitura, ele ria demais para o meu
gosto. Eu seguia com os olhos o que ele ia lendo,
queria saber sua reação quando
chegasse na parte em que Liz mencionava o garoto
de programa. Quando Daniel leu essa passagem
nada aconteceu. De repente, desatou a rir. Ria
tanto que me surpreendi — a carta não
era cômica àquele ponto.
—
Que engraçado o cara falando que a Liz
era muito velha, morava longe e não queria
filhos. Bem menos preocupante que a outra, essa
carta — comentou, ao terminar a leitura.
— Estou até mais aliviado sabendo
que a Liz está bem agora.
—
Você acha mesmo que ela está bem?
— indaguei.
—
A Liz só deve estar cansada. O efeito
das drogas não se prolonga tanto assim.
—
Nem quando se abusa delas?
—
Não acho. A Liz deve estar exausta, por
isso confunde um pouco as coisas.
—
Mas ela está morando agora com um garoto
de programa!
—
Melhor ainda — falou, rindo. — No
fim das contas, ela acabou aproveitando bem
mais a viagem do que se tivesse ficado com aquele
alemão metido.
Diante
das considerações de Daniel, percebi
como tinha sido ingênuo acreditando que
aquela carta serviria para eu falar com ele
sobre minhas angústias.
Queria
ter a tranqüilidade de Daniel. O que o
acalmou ainda me afligia. Queria ter certeza
de que Liz está bem — o que só
será possível quando puser meus
olhos nela, quando a tocar, beijar... Sinto
mais sua ausência agora do que quando
rompemos. Se Liz estivesse aqui, eu não
necessitaria da sua presença para me
sentir bem: ela estaria acessível a um
simples telefonema. Preciso dela para ter momentos
felizes. Quero conversar com alguém que
me entenda, que goste de me ouvir, senão
enlouqueço. Sou um monólogo! Estúpido,
absurdo. Quero um diálogo! Necessito
ouvir a voz de que tanto gosto, que me tranqüiliza.
Preciso ver seu rosto suave, os olhos, a boca
da qual sairão palavras que me darão
certeza de que ela existe, de que não
é um personagem.
É
a falta que sinto dela que me põe louco.
É isso! Não estou enlouquecendo
por causa dela, mas por sua ausência!
Quando Liz voltar estarei curado. Não
serei mais louco.