Sentia-se fracassada, sem ter o que fazer, nem aonde ir. Em vão, tentara não pensar em Franz, no que acontecera entre eles, no que não acontecera... A depressão a dominava. O que fazia em Berlim, naquele albergue tão longe do Centro? Tinha sido difícil chegar ali, parecia ainda mais complicado deixar o lugar. Nem sabia por onde começar a conhecer a cidade que não tinha a menor vontade de visitar. Inútil ir atrás de novidades sentindo-se infeliz.
            “Por que não me apaixono por quem gosta de mim? Por que sempre me envolvo com quem não corresponde aos meus sentimentos?” Quanto mais pensava, menos entendia. O que teria ocorrido se insistisse em acompanhar Franz? Talvez ele a conhecesse melhor. Não, Franz não a queria por perto. Por que ele deixou que tudo fosse tão longe? “Será que também me comporto desse jeito com quem gosta de mim? Será que encontrei alguém que me paga na mesma moeda? Por que beijei ele? Poderíamos ter viajado como amigos... Não, não era o que eu queria. Pensei que ficaríamos juntos, nos amaríamos à noite na barraca, andaríamos de bicicleta por lugares lindos, olharíamos as estrelas, cozinharíamos um pro outro... Sonhos... Estou cansada de sonhar”.
            Pensou em telefonar para casa. Vontade de ouvir vozes familiares falando uma língua conhecida. Mas o que diria? Que estava deprimida, que tudo dera errado? A família em nada poderia ajudá-la. Mas não dar notícias também seria ruim, causaria preocupações. Telefonar para casa, uma obrigação. Mas não hoje. Outro dia. Amanhã talvez, ou depois.
            Tentou conhecer Berlim. Cidade estranha, decepcionante. Resquícios da 2ª Guerra ao lado de monumentos turísticos. Os alemães pareciam condenados a não esquecer o passado trágico. Alguns obtinham lucro vendendo imitações de granadas, bananas de dinamite, capacetes, uniformes... Berlim, cidade deprimente: ruínas, destroços, escombros... Observar parte da paisagem ainda devastada era olhar num espelho indesejável. O problema devia ser ela mesma, não o lugar. Talvez, em outras circunstâncias, conseguisse apreciar tudo com olhos menos críticos. Por ora, a cidade parecia a menos adequada para estar. O idioma ao qual se dedicara nos últimos meses soava-lhe incompreensível. Tudo estava contra ela. Sentia-se sozinha, desamparada, abandonada.

            Pensando apenas em voltar para casa, decidiu retornar a Amsterdam, onde teria condições de antecipar a passagem aérea.
            Na cabine do trem começou a sentir-se melhor. Iniciou uma carta para Leon: oportunidade de ordenar o que vivera, de aliviar sua tensão com frases que observaria de um novo ângulo.
            Não terminou de escrever. Recostada no banco, acabou dormindo. Sonhou que estava com Franz numa floresta, sentada à margem de um lago. De repente, ele se levantou, entrou na água e desapareceu, não voltando mais à tona. Sozinha, deixou o lugar, caminhando floresta adentro. Encontrou um castelo medieval em ruínas. Impelida por uma força que não controlava, entrou no local, amedrontada. No interior sombrio, viu pessoas que pareciam perigosas, agiam de modo estranho, estavam envoltas em brumas. Sentiu muito medo, todos a olhavam, ameaçadores. Subitamente, por trás de uma parede, surgiu uma criança nua. Veio correndo ao encontro dela estendendo-lhe os braços. Um lindo menino louro, de pele tão clara que parecia irradiar luz. Ele disse: “Não precisa mais ter medo, agora eu estou com você”. Os dois começaram a passear de mãos dadas entre as ruínas obscuras, em meio às pessoas esquisitas. E ela se tranqüilizou ao começar a descobrir aquele mundo.

            Não conseguiu antecipar o dia do embarque, mas deixou seu nome na lista de espera.
            Encontrou Mariana e Gerd na recepção do albergue. Surpresos pelo retorno inesperado, pareceram contentes. Diante do casal de amigos, se apercebeu de que não seria fácil conversar com eles como se fossem velhos conhecidos. Disse somente que tinha resolvido voltar.
            Gerd e Mariana lhe apresentaram dois brasileiros hospedados no albergue. Muito simpático, Maurício, depois de se apresentar, disse que era homossexual. Lucas, menos efusivo, após os cumprimentos, informou que era bissexual. Liz simpatizou com as duas figuras. E, tentando fazer parte da curiosa forma de se conhecer, assim que disse seu nome, acrescentou: “Sou heterossexual”. Os dois riram, fazendo com que ela se contagiasse com uma alegria que julgava impossível.
            Afeiçoou-se rapidamente a Maurício e seu jeito humorado. Ele era a diversão em pessoa, em tudo achava motivo para brincadeiras. E como gostava de falar!, desde tagarelices fúteis até conversas mais sérias. Inteligente, nunca deixava o tema em pauta cair na monotonia. Educado e gentil, sempre elogiava a beleza de Liz, sua pele, seus cabelos, suas roupas, sem nenhuma segunda intenção. Maurício ainda adorava dançar. Verdadeiro presente aquele amigo surgido do nada.
            Começaram a andar juntos explorando Amsterdam. Lucas quase nunca os acompanhava, dormia o dia todo se recuperando da noitada anterior, preparando-se para a seguinte. Maurício estava deslumbrado com o arsenal de drogas toleradas à disposição; dizia que sempre desejara estar ali, vivendo intensamente, sem pensar no amanhã, descobrindo por si mesmo verdades até então inacessíveis. E se empolgava afirmando que provaria cada droga disponível, tantas quantas agüentasse. Liz não acreditava muito nas palavras do novo amigo, e ria de sua postura divertidamente afetada.
            Não demoraram a passar tardes inteiras nas coffeeshops. Maurício fumava maconha e contava a Liz, que permanecia “sóbria”, o que ia lhe acontecendo. O aroma da fumaça condensada no ambiente fechado era agradável. Achava possível ficar entorpecida apenas sentindo aquele cheiro. Embora a fumaça a deixasse meio tonta, estava distante de se comportar como Maurício. Sob o efeito das ervas ele ficava ainda mais engraçado, fazendo caretas, dizendo ver coisas que pareciam improváveis. A princípio, não deu importância àquela forma de diversão, mas ser mera espectadora a deixava fora de um mundo desconhecido. Nunca acreditara nas visões fantásticas que a fumaça de ervas secas era capaz de proporcionar quando tragada. Maurício ria sem parar de um divertimento inacessível a ela, que também ria, mas ria do amigo, não com ele. Desperdiçava uma oportunidade que talvez não se repetisse. Por que não experimentar? Se as drogas eram toleradas não podiam ser tão nocivas.
            Tailandesa, jamaicana, skunk... Experimentou cada tipo sem nada sentir de excepcional. Maurício afirmava que ela não estava sabendo tragar, e entre uma gargalhada e outra tentava ensiná-la a prender a fumaça nos pulmões para um mundo novo surgir diante de seus olhos. Os olhos de Liz ficavam vermelhos, a garganta ardia, e ela via apenas o mesmo mundo que sempre conhecera. Sem sucesso, deixou de lado a modalidade de diversão. Maurício lhe sugeriu provar chá de cogumelo, mas Liz detestava mesmo os chás convencionais, seria forçar demais sua natureza só para rir de coisas que não existiam.
            Com o passar dos dias, o confinamento nas coffeeshops pareceu repetitivo. Maurício achava que fumar ao ar livre seria mais interessante, produziria novas sensações. Uma tarde, depois de comprarem maconha tailandesa, foram a um local discreto atrás do albergue, de frente para um canal. Maurício estava contente: naquela noite encontraria um rapaz que havia conhecido no trem. Sentaram no banco, acenderam os cigarros. Fazia aquilo apenas para acompanhar o amigo. Conversavam despretensiosamente quando ela engasgou com a fumaça. Tossiu, tossiu, tossiu. Sentiu-se zonza. Maurício ria de se torcer. Nova tragada, uma pigarreada. Sua visão ficou turva. “Sobre o quê estávamos falando?”, pensou, ouvindo sua voz ao longe. Não lembrava. Perguntou a Maurício qual a última frase que ela havia dito, parecendo gritar ao falar com ele, que nada respondia. “Onde estou? Como eu vim parar aqui?” Levantou-se. A rua, o canal, as casas, tudo se movia. Tornou a sentar, sentindo-se estranha, maravilhada. As fachadas de tijolos dançavam diante de seus olhos, as cores borradas misturavam-se às tonalidades do céu em movimento. Quantas cores! Que brilho! Tudo acontecia como num filme em câmera-lenta. Mais fumaça, mais. A garganta ardia, mas ela não podia parar. Ria, ria... Olhou para Maurício. De repente o rosto dele se desprendeu como uma máscara, saltando em sua direção, ou o fundo recuara e tinha ficado enorme? Não discernia mais nada. Voltou a perguntar onde estavam, ouvindo sua voz como um grito. Maurício ria sem parar.
            — Acorda, mona! — falou ele. — Estamos em Ams... Amster... como é mesmo o nome dessa cidade?
            — Você é tão engraçado! — disse ela. — Mas... quem é você? De onde eu te conheço?
            — Nem imagino...
            “Meu dinheiro? Onde está o meu dinheiro?”, se perguntava, sem lembrar. “A chave? O passaporte? A mochila? Onde eu deixei tudo? Estou pensando ou falando? Estou gritando? Será que eu estou rindo demais? Meu dinheiro?... minha bolsa?... minha chave?... Armário? Onde mesmo? Qual o número do armário? Onde estou?” Tentou levantar novamente do banco, mas sentiu como se estivesse amarrada. Pensou em falar — ou gritar —, mas sua voz não saía. Maurício tagarelava, ela nada entendia. Conseguiu se erguer e começou a andar, mas não sentia seu corpo em movimento, sentia-se atada ao banco enquanto um corpo igual ao dela caminhava no chão movediço. “Estou andando ou flutuando? Não, ainda estou sentada. Ainda? Não consigo mais falar. E pensar? Quanto tempo? Dez minutos? Duas horas? Há quanto tempo estamos aqui? Será que eu consigo andar? Preciso me levantar do banco primeiro. Será que eu vou falar de novo? Que lugar é esse? Onde está o meu dinheiro?”
            Ficaram algum tempo entregues a miragens. Após os risos, passaram aos sorrisos, depois ao silêncio. Corpos relaxados, olhos fechados, pensamentos girando... Lucas rompeu a tranqüilidade na qual estavam imersos quando se aproximou deles:
            — Maurício, tem um recado pra você na recepção do albergue — disse ao amigo.
            — Recado? De quem? — falou, se levantando.
            Liz continuou imóvel, em posição descontraída.
            — Tudo bem com você? — indagou Lucas a ela.
            — Tudo ótimo — respondeu, ouvindo sua voz sair normal. — Nunca me senti tão bem.
            — Vocês fumaram o quê?
            — É... é... não me lembro... Mas dessa vez foi muito bom.
            — Quer dançar comigo hoje à noite? O Maurício também pode ir com a gente. Você gosta de dançar, não?
            — Adoro. Mas eu acho que não vou conseguir. Não sei se posso ficar em pé.
            — Ainda é cedo. Mais tarde você vai se sentir melhor.
            — Mas eu estou ótima!
            — É, você está ótima, menina linda.
            Lucas ajudou Liz a se levantar. Ela dispensou o auxílio dele para andar. Cambaleou, mas recobrou o equilíbrio.
            No chuveiro, sob a água morna, rindo vez por outra, refletia. Estava contente, preocupada também. Temia não recuperar o juízo. Estaria ficando louca? Sempre havia tido tanto medo de enlouquecer!...

            Maurício ficou deprimido por causa do encontro desmarcado — o recado na recepção —, queria ficar sozinho.
            Tonta ainda. Pensou que mais tarde o efeito da maconha teria se abrandado, mas ele parecia cada vez mais intenso. Lucas a levou numa boate chamada TranceDance. Da porta, já distinguia o som da techno music. Muito escuro o interior da casa, quase não se via o chão. Num ambiente com luz negra encontraram pessoas deitadas sobre tapetes e almofadas. Música ensurdecedora. Lucas falava sem parar, mas ela não podia ouvi-lo. Estava surda, mas percebia com nitidez o som isolado de cada instrumento tocando sempre a mesma nota na música pontilhada por vozes cibernéticas. Lucas falava ao seu ouvido, gritava, em vão. Luzes piscavam, giravam. Sentiu-se mais zonza ainda. Parada, de pé, era como se rodopiasse. Sentou no chão, deitando em seguida. Lucas também sentou, oferecendo a ela uma almofada para apoiar a cabeça. Liz fechou os olhos, mas ainda via o teto crivado de pontos luminosos. Tudo rodava... Começou a ouvir vozes, frases em inglês, alguém chamando seu nome... Abriu os olhos. Ergueu-se.
            — Liz, você está bem? — perguntou Lucas.
            — Eu estou ótima — disse, procurando sorrir. — Você estava falando inglês?
            — Eu? Não. Quem está falando inglês é esse cara aí, atrás de você — disse, apontando para um rapaz. — Olha!, ele está pegando a sua almofada!
            — Ei, essa almofada é minha! — dirigiu-se ao estranho, em inglês.
            — Tudo bem, eu pego outra — falou o rapaz, sorrindo.
            Nunca havia visto de perto alguém tão belo. A droga tornava tudo superlativo, devia ser miragem. O rapaz tornou a falar com alguém que Liz não conseguia ver, seus olhos se fixaram apenas no lindo perfil dele, que brilhava. Testa, olhos, nariz, boca... tudo perfeito. Voltou-se para Lucas, mas não o encontrou. Procurou-o com o olhar sem achá-lo em meio à penumbra. Sentiu alguém tocando sua mão. O rapaz desculpou-se por ter esbarrado nela.
            — Onde está o seu namorado? — perguntou ele.
            — Eu não tenho namorado. Acho que estou sozinha.
            — Agora não está mais — sorriu. — Quer dançar comigo?
            Acreditou estar conversando com a fusão de Paul Newman e Marlon Brando no auge de suas juventudes.
            — Acho que eu não sei mais dançar...
            — Vem comigo — falou, erguendo-a do chão.
            Foram ao bar. O rapaz pediu uma cartela com quatro comprimidos e entregou a ela.
            — Mas eu não estou doente! — protestou.
            — Isso não é remédio. É um ecstasy natural. Toma logo! Você não quer dançar?
            Tomou duas pílulas, deu as outras ao rapaz. Não demorou a sentir o efeito da droga. Um intenso calor se originou em seu estômago espalhando-se rápido pelo resto do corpo.
            Divertiram-se a noite toda. Ele tinha um jeito especial de dançar, isso o fazia centro das atenções. Dançaram, riram, falaram... Liz ouviu muitas histórias do rapaz, mas não entendeu metade delas. Passava das 3 da manhã quando chegaram no albergue. Antes de ela entrar, ele disse que voltaria no dia seguinte para conversarem melhor.

            Dormiu mal. Acordou cedo, não conseguiu ficar deitada. Ainda meio tonta, olhou as camas do dormitório. Lucas dormia na parte superior do beliche, mas nem sinal de Maurício. Como teria ela chegado ali? O que havia feito na noite anterior? Não se lembrava. Não tinha saído com Lucas? Não, estava sozinha. Não, estava com alguém. Quem?
            No banheiro, assustou-se com seu reflexo no espelho. Olhos vermelhos, duas bolsas intumescidas sob eles, aspecto abatido. Os cabelos despenteados pareciam a moldura perfeita ao rosto disforme. Seus lábios projetavam-se para frente como se fosse beijar. A boca seca tinha um gosto acre. Escovou os dentes, mas o gosto ruim não desapareceu.
            Na recepção, não viu Gerd, nem Mariana, apenas um atendente que não conhecia. Na ruela atrás do albergue sentou no banco. As drogas toleradas não eram tão leves assim. Como podia ainda estar em estado alterado? Lembrou-se das pílulas que tomara, dos drinks; a mistura devia ter prolongado o efeito. Esquecer... agora não parecia tão difícil. Gradativamente foi lembrando, de modo desordenado e com algumas restrições, quase tudo o que fizera na noite anterior. Ficou fascinada com a possibilidade de controle da mente: tudo dependia apenas da sua vontade.
            Decidiu não sair do albergue, e esperar o rapaz com quem dançara. Qual era mesmo o nome dele? Algumas coisas ainda lhe escapavam. A música muito alta. Tinha esquecido ou não ouvira? Ele havia dito seu nome? Seria mesmo tão bonito quanto lembrava? Por que disse que voltaria?
            No fim da manhã, Maurício a encontrou escrevendo cartas no refeitório. Almoçaram juntos. Ela falou sobre o rapaz com quem havia dançado na boate.
            À tarde, Maurício quis fumar nos fundos do albergue. Liz pensou em recusar, ainda sentia os efeitos da noite anterior. Maurício insistiu que ela experimentasse outros tipos de maconha, as sensações eram diferentes, devia conhecer todas, descobrir até onde seria capaz de ir. Tentada a saber o que mais controlaria em si mesma, cedeu. Fumaram maconha jamaicana. Visualmente, as impressões não diferiam muito da tailandesa, mas no plano mental, em vez de esquecer das coisas, tudo se tornava demasiado claro. Lampejos da noite passada: sons, imagens, fragmentos de conversas. Riu consigo mesma. “Duas ervas... sensações opostas... veneno e antídoto...” Olhou o céu, que rodava. Onde estava o sol? Não conseguia vê-lo. As nuvens dançavam... estranha dança, ora longe, quase imperceptíveis, ora próximas, como se desabassem. Começou a suar frio, sentir vertigens. Agarrou-se ao banco, que parecia saltar. Seu corpo projetou-se para frente. Num espasmo, vomitou uma substância escura.
            Depois do banho, ainda enjoada, sentiu-se exausta. Deitou e dormiu até o dia seguinte.

            Quando acordou, lembrava tudo o que havia acontecido no dia anterior. Sentiu vergonha da cena repulsiva que provocara. Assim que começou a se mover notou seus gestos mais lentos que o normal. No banheiro, não olhou no espelho. Na recepção, encontrou Gerd, que indagou se ela sentia-se bem. Sim, estava melhor. Perguntou por Mariana. Gerd informou que era dia de folga da namorada. Ele pediu que esperasse, ia buscar algo para ela. Voltou trazendo um narciso amarelo. Sorrindo, Liz aceitou a flor. Alguém tinha procurado por ela na noite passada? Gerd respondeu que não. Agradeceu pela flor, deixou a recepção. Do lado de fora, sentou na escada junto à entrada.
            “Por que ele disse que voltaria? Só quis ser gentil... Será que esqueceu o endereço? Não voltou... por quê? Hendrik... que nome exótico! Ele existe mesmo? Era tão bonito!... Será que foi sonho? Como dançava bem!... Não, foram as drogas... Ninguém pode ser tão bonito. Por que ele não voltou?...” Sentada na escada, olhando o narciso, não controlava os pensamentos. Não sabia se aquilo realmente acontecera, parecia que sim. “Eu estava sozinha, queria companhia... só isso, companhia... Compagnie... Compagnie?” O nome ecoou como uma palavra importante, o que significava? “Compagnie fifty... Compagnie 50... nome e número, um endereço!” Abriu o mapa guardado na bolsa. Procurou no índice. Lá estava: Compagniestraat. Perplexa, riu como se tivesse descoberto um segredo que mudaria sua vida. Riu ainda mais com essa idéia. Um estranho ânimo se apossou dela: o que tinha a perder?
            Divertia-se com a possibilidade do tal endereço existir. Ao mesmo tempo, tudo era tão absurdo que sentia-se ridícula levando aquilo adiante. A maconha jamaicana abria sua mente. Até onde poderia ir? Estava tentada a descobrir.
            Desapontou-se ao constatar que na Compagniestraat não existia o número 50. “Fifty... será que entendi errado? Fifty ou fifteen? 50 ou 15?” Procurou o número 15, muito parecido com 50 quando pronunciado rapidamente em inglês. Número 15, lá estava. Ao lado dos dois algarismos, acima da abertura da caixa de correspondência leu: H.V. Hooft. “H... Hendrik?!?”, pensou, abismada. Seria possível? Esfregou os olhos, tornou a olhar a placa: nada havia mudado. Estaria sonhando? Estava tão drogada na noite em que dançaram... Como podia saber o endereço que não lembrava ter ouvido? Não, não era sonho, estava ali, na porta do prédio, seu corpo tremia. “Toco a campainha? Se eu não fizer isso nunca vou saber a verdade...”
            Apertou o botão do interfone. Após alguns instantes, uma voz sonolenta atendeu:
            — Hello!, Derek...? — alguém disse, em holandês.
            Estremeceu. Era a voz dele! Era ele!
            — Oi!, aqui é a Liz, do TranceDance! Lembra de mim? — acabou dizendo, em inglês.
            — Oh, não... — Hendrik deixou escapar, calando-se em seguida.
            Teve vontade de desaparecer. Não pretendia incomodar.
            — Olá!, você ainda está aí? Espera um pouco, eu vou descer — falou ele, pelo interfone.
            Sentou na calçada. Cinco minutos depois levantou pronta a partir. Quis deixar um bilhete na caixa de correspondência dele, mas não achou caneta e papel na bolsa.
            Hendrik abriu a porta do prédio. Vestia apenas uma pantalona de seda preta. Rosto de pele clara, olhos azuis, lábios rosados, corpo esguio, tórax musculoso, braços fortes... Beleza tão impressionante que chegava a assustar, parecia irreal. À luz do dia, Hendrik era bem mais jovem e belo do que ela se lembrava.
            — Vamos, entra! — disse ele. Sem esperar, correu escada acima, não dando tempo a Liz de fazer outra coisa senão segui-lo.
            Cruzou a porta do apartamento atrás dele, entrando numa sala com pouca mobília.
            — Espera eu tomar banho — pediu. — Eu estou atrasado, não vou demorar. A gente pode ir junto até o Centro.
            — Não, eu só queria saber por que você não me procurou ontem. Foi culpa minha?
            — Acho que eu não fui muito legal com você. Naquela noite eu tinha bebido demais...
            — Ok, já entendi. Tchau! — disse, virando-se para a porta de saída.
            — Não, espera, por favor — insistiu, segurando o braço dela. — Fica. Eu não vou demorar.
            Sentou no sofá, enquanto Hendrik entrava do banheiro. O relógio na parede marcava meio-dia e meia. Ele tinha acabado de acordar. Como podia estar tão bonito? Ouviu a água do chuveiro. “O que estou fazendo aqui? Eu devo estar ficando louca!” Levantou-se e saiu.
            Voltou a pé para o albergue, queria pensar no ocorrido. Sentia-se rejeitada novamente? Não. Sentia apenas a leveza da erva jamaicana... sensação estranha, satisfação, triunfo e assombro. Se contasse o que tinha acontecido ninguém acreditaria. Só mesmo em estado alterado para ousar tanto. Sóbria, jamais teria feito aquilo.
            No refeitório do albergue, continuou escrevendo as cartas iniciadas no dia anterior. Estava compenetrada na escrita quando ouviu perguntarem bruscamente:
            — Por que você saiu daquele jeito? Você é maluca? — disse Hendrik, indignado.
            Estava ali, na frente dela, usando uma bela camisa, perfumado, mais bonito que nunca.
            — Me desculpa. Eu fui estúpida indo te procurar — falou, calmamente. — Só estava testando o efeito da droga no meu corpo. Eu queria saber se era capaz de raciocinar, de chegar num endereço imaginário... Acho que eu funciono bem, mesmo drogada. E você? Não precisava ter vindo aqui saber se eu era louca. Você não estava atrasado pra alguma coisa?
            — Estava, mas perdi o meu compromisso — respondeu, chateado.
            — Sei, e por culpa minha, não? Sinto muito, eu não te pedi pra me seguir.
            — Mas eu precisava saber por que você foi me procurar, por que foi embora de repente!...
            — Agora já sabe.
            Quase se divertia com a situação absurda. Se havia algum louco ali, não era ela. Achou o lindo rapazinho muito atrevido. Como ousava ir atrás dela tomar satisfações? Com que direito? Quem ele pensava que era?
            — Já que eu perdi a minha aula, você não quer passear comigo pela cidade?
            — E por que acha que eu ia te acompanhar? — disse Liz.
            — Porque vai me dar a chance de desfazer essa má impressão entre nós.
            Gostou da frase original. Hendrik a olhava, ela existia para ele naquele momento. Ele também existia, lindo como um sonho, mas real. Sorria para ela, esperando uma resposta.

            Uma bela tarde de verão, céu azul, sol brilhante, brisa fresca... Caminhando pelas ruas, trocavam informações comuns a pessoas que pouco se conhecem. Ficou surpresa quando Hendrik disse ter 20 anos, achava que ele tivesse uns 17. Ele pareceu não acreditar que ela tivesse 34 anos, pensava que fosse bem mais nova. Hendrik contou que morava sozinho em Amsterdam, os pais viviam em outra cidade, estudava para pilotar aviões. Ela morava com a família, era programadora visual, sua segunda viagem à Europa. Aos poucos, começou a prestar redobrada atenção no que Hendrik contava. Tão jovem e tão decidido!... parecia ter todo o futuro bem planejado. Quase sentiu inveja.
            Pararam na Rembrandtplein, deitaram na grama. Outros jovens também aproveitavam o dia estirados no gramado da praça. Fechou os olhos, ficou escutando a voz de Hendrik; bom o inglês que ele disse ter aprendido nas ruas, conversando com as pessoas. De repente, o ouviu pronunciando alemão fluente. Abriu os olhos. Hendrik falava com uma garota loura, deitada próxima a eles. Não prestou atenção na conversa, mas viu Hendrik anotar algo num papel e entregá-lo à moça. Voltou a deitar, a fechar os olhos. Intrigada, pensou que talvez ele fosse garoto de programa — o gesto tinha sido comprometedor. Ficou fascinada com a idéia de conhecer um homem que vivesse de seu corpo, do prazer que podia dar aos outros, e a si próprio. “Será que ele acha que sou uma provável cliente?”, pensou, não conseguindo evitar o riso. “Se acha, vai quebrar a cara.”
            — Do que você está rindo? — perguntou Hendrik.
            — Eu? De nada. Lembrei de uma coisa engraçada.
            — Linda aquela garota, não?
            — Ela não faz o meu tipo — comentou, sorrindo.
            — Você é muito divertida — falou ele, sorrindo também —, gosto disso.
            Deixando a praça, andaram sem destino. Cada vez mais animado, Hendrik contava suas histórias, sem interesse no que Liz pudesse dizer sobre si. Ela não se importava, bem mais interessante ouvi-lo do que relatar sua vidinha medíocre. Agora, não só prestava atenção em tudo o que ele dizia, mas também em seus gestos e maneiras: o jeito de se vestir, de caminhar, de falar, de olhar... Hendrik era a sedução personificada. Várias vezes, enquanto andavam, notou olhares devoradores de pessoas por quem passavam. Viu que Hendrik estava ciente desses olhares, parecia até desejá-los, ou provocá-los, se divertindo com isso. O que queria dela? Dinheiro? Estava muito enganado pensando que ela acabaria na cama dele em troca de instantes de prazer, por um preço que nem imaginava. Ficou tentada a zombar da pretensão do belo holandezinho, mas conteve-se.
            Com naturalidade, Hendrik falou que saía com muitas garotas, os rapazes ele se limitava a provocar e conversar. As meninas sempre dormiam com ele, que não as decepcionava. Dos rapazes, ganhava jantares e presentes, posando para fotos em troca. Tinha uma namorada na cidade em que viviam seus pais, pretendia terminar os estudos e depois se casar com ela, teriam muitos filhos. Mas ainda era novo, precisava aproveitar a vida. Ela achou curioso o modo de pensar do garoto que julgava moderno.
            — Eu não pretendo ter filhos — disse, categórica.
            — Não? Por quê?! — perguntou, surpreso.
            — Não tenho a menor vocação pra cuidar de crianças.
            — Eu adoro crianças! Quero ter muitos filhos. Você nunca pensou em formar uma família?
            — Nunca! Essa idéia me dá arrepios. Famílias são fábricas de loucos, você não sabia?
            Observou o olhar atônito de Hendrik. Ele parecia chocado.
            — Achei que o sonho de toda mulher fosse ser mãe... — disse, meio desiludido.
            — Nunca foi o meu.
            — E qual é o seu sonho, então?
            Pergunta indiscreta, inconveniente. O que responder? Se ao menos soubesse... Não tinha certeza do que queria, do que ainda seria possível. Nos últimos dias havia conseguido esquecer quem era, o que vivera... o que faria de agora em diante também. Qual o sonho dela? Boa pergunta. Só que ainda não tinha resposta, sequer imaginava se a teria.
            — Você não me respondeu... — tornou ele.
            — Eu só quero ser feliz — respondeu, sentindo-se ridícula com o clichê.
            — Bom, é o que todo mundo quer. Só que isso nem sempre é muito fácil.
            Por que na boca de Hendrik todas as palavras, todas as frases, mesmo as mais patéticas, pareciam ganhar tanto significado? Quem era ele? Uma curiosidade crescente a dominava. Quase perguntou diretamente o que ele queria dela, mas tudo era tão inusitado que deixou as coisas seguirem seu curso, sem intervenções de sua parte.
            Hendrik parou num supermercado para fazer compras. À noite jantaria com um amigo.
            — Eu não estou te atrapalhando? Você já foi tão gentil me mostrando a cidade, se quiser...
            — Atrapalhando? Que nada! A gente fica junto até as oito da noite, depois eu chuto você.
            Achou graça do termo que ele usou para dizer que se livraria dela, mas não riu. “Chutada. Como um vira-lata sarnento, objeto descartável, simples passatempo...”

            Voltaram ao apartamento dele. Hendrik lhe ofereceu skunk. Fumaram no sofá da sala.
            Exagero. Superlativo. Exacerbação. Ponto em comum nas drogas que consumira. Tudo parecia muito além da verdade, como se a realidade fosse um plano insignificante. O mundo descortinado pela fumaça das ervas era de uma intensidade quase insuportável, às vezes dava medo. Entorpecida, tentava adivinhar o que Hendrik — em silêncio desde que começara a tragar — estaria pensando. Olhava o rapaz, quase um menino, lindo, o mais belo que já vira... Olhos de um azul intenso e profundo, dois imensos lagos de água morna e doce, clara e limpa, onde podia mergulhar, banhar-se, saciar a sede, afogar-se a qualquer momento... Boca de lábios rosados, carnudos, de dentes brancos e reluzentes, pérolas sob holofotes, boca enorme, repleta de incontáveis presas prestes a serem cravadas em sua pele, a devorá-la ainda viva, mordendo, dilacerando, triturando... Cabelos curtos, eriçados e ruivos, um campo de trigo, savana selvagem, onde ela andava nua, corria, tropeçava, caía, onde a vegetação seca crepitava, feria sua pele, fustigava seu corpo, rasgava sua carne, expunha suas entranhas... O tórax dele, braços musculosos, mãos vigorosas, armas potentes, sentia o abraço comprimindo seus seios, estreitando-a fortemente, até suas costelas partirem, seus órgãos se esmagarem, sua pele se romper, seu sangue verter...
            O skunk a induzia ao medo. Tudo ficava obscuro, assustador. Procurou racionalizar, levar em conta que estava drogada, querendo convencer-se de que aquilo não estava acontecendo. Viagem alucinante. Tremia de medo, ou seria de fascínio por possibilidades e sensações impensadas? Quantas descobertas! Olhou novamente para Hendrik, ser sobrenatural de uma galáxia desconhecida. Ele não lhe pareceu mais estranho, tampouco distante, agora ela também fazia parte daquele mundo. Hendrik se levantou pegando-a pela mão. Sentiu seu corpo seguir atrás dele, como fumaça densa soprada pela brisa. Depois, a luz roxa, violeta, lilás, brilhando pálida na escuridão. Seu corpo desnudo, deitado. Hendrik sobre ela, dentro dela, movimentando-se magnificamente, como no dia em que dançaram juntos. O peso dele, apertando-a, esmagando-a, presa dominada, invadindo suas entranhas, possuindo e devastando o corpo que não era dele, nem dela, um corpo inerte, estático, fincado num leito no fundo da escuridão, lilás, violeta, roxa... A pele dele, tépida, macia, lisa, fricção suave, constante, produzindo agradáveis ulcerações, na pele dela, doces feridas, músculos pulsantes, veias latejantes, corpos se fundindo, à força, num terceiro, disforme, amorfo. Medo, horror, dor, prazer, êxtase, sentia tudo, nada sentia, estava morta, desdobrada, aberta como uma chaga viva, penetrada, perfurada, descomposta, em decomposição... O que era ela? Corpo e mente? Não, pensamento apenas. O corpo não é nada, uma casca, carcaça frágil em torno do conjunto de músculos, nervos, órgãos, sangue, vísceras, invólucro de material pútrido e fétido, que precisa de escoras para se sustentar, ossos, o corpo não é nada, peça crivada de orifícios por onde entram e saem coisas diversas, o tempo todo, máquina de permitir entradas e saídas, de transformar substâncias, esponja, peneira, filtro, onde entram sólidos, saem líquidos, entram líquidos, saem sólidos, onde nada se detém indefinidamente, nada... o corpo não é nada...

            Quando acordou já passava das oito e meia. Haviam feito sexo como procedimento natural entre desconhecidos. Na hora não pensou em coisa alguma, a mente ocupada demais com inverossimilhanças. Levantou-se, recolheu a roupa espalhada pelo quarto na penumbra da luz negra, seguiu para o banheiro. Divisou na cama o corpo nu de Hendrik. Dormia, podia ouvir a respiração pesada. No banheiro, acendeu a luz, olhou no espelho. Era ela mesma? Sim, mas agora também outra, muitas outras: louca assustada, corajosa inconseqüente, perdida maravilhada, vitoriosa insatisfeita... Beijou seu reflexo, antes de tomar banho.
            Voltou ao quarto. Hendrik acordava. Ao vê-la, sobressaltou-se.
            — Não precisa se preocupar, já estou de saída. Só vim buscar a minha bolsa.
            — O quê?... — disse, sonolento. — Que horas são?
            — Nove — respondeu. — Adeus!, foi legal te conhecer.
            — Espera, espera! Aonde você vai?
            — Você disse que ia me chutar às oito, lembra? Já estou uma hora atrasada.
            — Espera! — insistiu, levantando-se bruscamente, enrolando o lençol na cintura.
            Achou que Hendrik fosse cobrar pelos serviços prestados, mas ele apenas perguntou:
            — Você não quer ir ao apartamento do meu amigo também? Podemos jantar os três. Eu vou fazer a comida.

            Derek morava no mesmo conjunto de apartamentos que Hendrik, em outro bloco, no último andar. Quando chegaram, percebeu Derek tentando conter sua surpresa ante a visita adicional, a presença inesperada: ela. Aparentava 40 anos, talvez mais, não disfarçava que era gay, parecia equilibrado e bastante tranqüilo.
            Enquanto Hendrik preparava o jantar, Liz tentava conversar com Derek, que não tinha o inglês fluente, mas disse entender tudo o que ouvia. Falou então sobre si mesma: de onde era, o que fazia, o quanto gostava de viajar, como era interessante estar na cidade... Derek a observava com atenção quase exagerada, mas ela desconsiderou a idéia ao pensar que estava sob efeito do skunk.
            Hendrik foi hábil no preparo da refeição semipronta, adicionando água e levando a mistura ao microondas.
            Comeram, beberam vinho. Derek e Hendrik conversaram o tempo todo em holandês. Liz nada entendeu, mas não se importou. Depois do jantar, Derek lhes ofereceu maconha. Não recusaram. Oferecer droga parecia tão corriqueiro quanto aceitá-la. Sentiu a sala girando levemente, culpa do vinho, não estava acostumada a beber — detestava álcool, só o aceitara para não desapontar Derek. A conversa dos dois prosseguia incompreensível. Achou agradável estar sentada no chão, recostada na almofada, ouvindo a língua estranha sobrepondo-se à batida do hip hop tocando baixinho, enquanto sua cabeça dava voltas por causa da bebida, do cigarro. Via Hendrik exibir-se para Derek, hipnotizado por seus gestos. Surpreendente o que se pode fazer com um belo rosto e um belo corpo quando se tem consciência disso. Discretamente, observava Hendrik. Tinha impressão de que tudo o que ele fazia era minuciosamente estudado. Braço abandonado, mão quase ausente, segurava o cigarro com naturalidade negligente: a ponta acesa quase tocando a palma da mão, o dedo mínimo mexendo devagar, o jeito lânguido de soltar a fumaça...
            Saíram do apartamento de Derek de madrugada.
            — Tchau, Hendrik! Obrigada pelo jantar — falou, cambaleante, apoiando-se à parede.
            — Aonde você pensa que vai? É tarde. E você não me parece nada bem.
            — Engano seu, eu estou ótima! — disse, agarrando-se ao poste.
            — Você pode dormir aqui hoje. Desse jeito não vai conseguir nem entrar no ônibus.
            — Não. Eu preciso ir embora... Você já me chutou...
            — Vamos — falou, pegando-a pelo braço. — Hoje você dorme aqui, mas amanhã às 11 horas eu chuto você.
            Fizeram sexo. Liz se deixou possuir sem participar da ação. Tonta, drogada, exausta, seus pensamentos torciam-se buscando lucidez, se distorciam em imagens incompreensíveis... Hendrik, seu rosto, corpo, sexo... tudo girava em meio às trevas lilases. Aberta como páginas de livro devorado por leitor ávido, que procura em cada frase obscura um significado que desvende mistérios alheios. O corpo dela, fardo inerte, peso morto, não mais lhe pertencia, não pertencia a ninguém... volume informe, insensível, imaterial, vazio, sem cérebro, o pensamento abrigado fora da carne estranha, isolado, em alguma parte perdida na amplitude do nada. Cansada demais para sentir, pensar, ser...

            Acordaram depois do meio-dia. Mais uma vez sentiu-se atrasada para sair da vida de Hendrik. Começou a se vestir rapidamente para ir embora. Ele pareceu surpreso com a pressa dela, e ela, com a surpresa dele. Hendrik pediu que Liz ficasse até às três da tarde, quando chegaria um amigo. Ela assentiu com a cabeça, sem nada dizer. Sua função como passatempo começava a exceder os limites do razoável. O que mais ele ainda poderia querer dela?
            Depois do almoço Liz lavou a louça, Hendrik, a roupa. Em seguida, ajudou-o a arrumar a casa. “Será que já estou pagando a ele?”, pensava, durante a faxina. Às três horas, quando ainda limpavam o quarto, o interfone tocou.
            — Droga, é ele! Você não devia mais estar aqui — falou, agitado, olhando o relógio de pulso.
            — Tudo bem, eu já estou indo. É só pegar a minha bolsa...
            — Não!, agora não. Ele vai ver você saindo daqui.
            — E o que tem isso? — perguntou, sem entender a aflição de Hendrik.
            — Não! Fica esperando aqui no quarto. E bem quietinha — pediu.
            Espantada com o comportamento inesperado sentou na cama, sentindo-se uma criminosa que precisava se esconder de algo comprometedor. Que delito cometera? Do quarto, ouvia a conversa na sala, em holandês. Seria o sujeito algum cliente, alguém que trazia clientes? Se ao menos falassem uma língua compreensível... Algum tempo tinha se passado quando Hendrik entrou no quarto trazendo-lhe uma xícara de chá. Pediu desculpas e saiu, tornando a fechar a porta. Olhou a xícara em sua mão: o que significava aquilo? Que a conversa seria longa? Algum tipo de compensação? O que teria dito ao outro para entrar no quarto com o chá? Na sala, a conversa prosseguia. Colocou a xícara sobre criado-mudo, detestava chá. Deitou na cama, acabou adormecendo.
            Hendrik a acordou bastante animado, contando que à noite encontraria duas alemãs numa boate, ou iria até Diemen, cidade próxima, a “negócios”. Sendo assim, ele a chutaria às oito da noite. Liz não conteve um leve sorriso ao responder: “Tudo bem.” Sua curiosidade estava aguçada, mas não perguntou nada a respeito do amigo dele, tampouco da noitada de que falava entusiasmado. Tudo parecia óbvio. Passaram o resto da tarde ouvindo música.
            Pouco antes das oito da noite, Hendrik disse que não queria encontrar as alemãs, muito menos ir a Diemen. Preferia ficar no apartamento, com ela. Mas jurou que a chutaria impreterivelmente no dia seguinte, logo pela manhã.
            — Não — falou, com voz firme. — Eu vou embora agora mesmo. Eu preciso voltar pro albergue, estou com essa roupa há dois dias, todas as minhas coisas estão lá.