Sentia-se
fracassada, sem ter o que fazer, nem aonde ir.
Em vão, tentara não pensar em
Franz, no que acontecera entre eles, no que
não acontecera... A depressão
a dominava. O que fazia em Berlim, naquele albergue
tão longe do Centro? Tinha sido difícil
chegar ali, parecia ainda mais complicado deixar
o lugar. Nem sabia por onde começar a
conhecer a cidade que não tinha a menor
vontade de visitar. Inútil ir atrás
de novidades sentindo-se infeliz.
“Por
que não me apaixono por quem gosta de
mim? Por que sempre me envolvo com quem não
corresponde aos meus sentimentos?” Quanto
mais pensava, menos entendia. O que teria ocorrido
se insistisse em acompanhar Franz? Talvez ele
a conhecesse melhor. Não, Franz não
a queria por perto. Por que ele deixou que tudo
fosse tão longe? “Será que
também me comporto desse jeito com quem
gosta de mim? Será que encontrei alguém
que me paga na mesma moeda? Por que beijei ele?
Poderíamos ter viajado como amigos...
Não, não era o que eu queria.
Pensei que ficaríamos juntos, nos amaríamos
à noite na barraca, andaríamos
de bicicleta por lugares lindos, olharíamos
as estrelas, cozinharíamos um pro outro...
Sonhos... Estou cansada de sonhar”.
Pensou
em telefonar para casa. Vontade de ouvir vozes
familiares falando uma língua conhecida.
Mas o que diria? Que estava deprimida, que tudo
dera errado? A família em nada poderia
ajudá-la. Mas não dar notícias
também seria ruim, causaria preocupações.
Telefonar para casa, uma obrigação.
Mas não hoje. Outro dia. Amanhã
talvez, ou depois.
Tentou
conhecer Berlim. Cidade estranha, decepcionante.
Resquícios da 2ª Guerra ao lado
de monumentos turísticos. Os alemães
pareciam condenados a não esquecer o
passado trágico. Alguns obtinham lucro
vendendo imitações de granadas,
bananas de dinamite, capacetes, uniformes...
Berlim, cidade deprimente: ruínas, destroços,
escombros... Observar parte da paisagem ainda
devastada era olhar num espelho indesejável.
O problema devia ser ela mesma, não o
lugar. Talvez, em outras circunstâncias,
conseguisse apreciar tudo com olhos menos críticos.
Por ora, a cidade parecia a menos adequada para
estar. O idioma ao qual se dedicara nos últimos
meses soava-lhe incompreensível. Tudo
estava contra ela. Sentia-se sozinha, desamparada,
abandonada.
Pensando
apenas em voltar para casa, decidiu retornar
a Amsterdam, onde teria condições
de antecipar a passagem aérea.
Na
cabine do trem começou a sentir-se melhor.
Iniciou uma carta para Leon: oportunidade de
ordenar o que vivera, de aliviar sua tensão
com frases que observaria de um novo ângulo.
Não
terminou de escrever. Recostada no banco, acabou
dormindo. Sonhou que estava com Franz numa floresta,
sentada à margem de um lago. De repente,
ele se levantou, entrou na água e desapareceu,
não voltando mais à tona. Sozinha,
deixou o lugar, caminhando floresta adentro.
Encontrou um castelo medieval em ruínas.
Impelida por uma força que não
controlava, entrou no local, amedrontada. No
interior sombrio, viu pessoas que pareciam perigosas,
agiam de modo estranho, estavam envoltas em
brumas. Sentiu muito medo, todos a olhavam,
ameaçadores. Subitamente, por trás
de uma parede, surgiu uma criança nua.
Veio correndo ao encontro dela estendendo-lhe
os braços. Um lindo menino louro, de
pele tão clara que parecia irradiar luz.
Ele disse: “Não precisa mais ter
medo, agora eu estou com você”.
Os dois começaram a passear de mãos
dadas entre as ruínas obscuras, em meio
às pessoas esquisitas. E ela se tranqüilizou
ao começar a descobrir aquele mundo.
Não
conseguiu antecipar o dia do embarque, mas deixou
seu nome na lista de espera.
Encontrou
Mariana e Gerd na recepção do
albergue. Surpresos pelo retorno inesperado,
pareceram contentes. Diante do casal de amigos,
se apercebeu de que não seria fácil
conversar com eles como se fossem velhos conhecidos.
Disse somente que tinha resolvido voltar.
Gerd
e Mariana lhe apresentaram dois brasileiros
hospedados no albergue. Muito simpático,
Maurício, depois de se apresentar, disse
que era homossexual. Lucas, menos efusivo, após
os cumprimentos, informou que era bissexual.
Liz simpatizou com as duas figuras. E, tentando
fazer parte da curiosa forma de se conhecer,
assim que disse seu nome, acrescentou: “Sou
heterossexual”. Os dois riram, fazendo
com que ela se contagiasse com uma alegria que
julgava impossível.
Afeiçoou-se
rapidamente a Maurício e seu jeito humorado.
Ele era a diversão em pessoa, em tudo
achava motivo para brincadeiras. E como gostava
de falar!, desde tagarelices fúteis até
conversas mais sérias. Inteligente, nunca
deixava o tema em pauta cair na monotonia. Educado
e gentil, sempre elogiava a beleza de Liz, sua
pele, seus cabelos, suas roupas, sem nenhuma
segunda intenção. Maurício
ainda adorava dançar. Verdadeiro presente
aquele amigo surgido do nada.
Começaram
a andar juntos explorando Amsterdam. Lucas quase
nunca os acompanhava, dormia o dia todo se recuperando
da noitada anterior, preparando-se para a seguinte.
Maurício estava deslumbrado com o arsenal
de drogas toleradas à disposição;
dizia que sempre desejara estar ali, vivendo
intensamente, sem pensar no amanhã, descobrindo
por si mesmo verdades até então
inacessíveis. E se empolgava afirmando
que provaria cada droga disponível, tantas
quantas agüentasse. Liz não acreditava
muito nas palavras do novo amigo, e ria de sua
postura divertidamente afetada.
Não
demoraram a passar tardes inteiras nas coffeeshops.
Maurício fumava maconha e contava a Liz,
que permanecia “sóbria”,
o que ia lhe acontecendo. O aroma da fumaça
condensada no ambiente fechado era agradável.
Achava possível ficar entorpecida apenas
sentindo aquele cheiro. Embora a fumaça
a deixasse meio tonta, estava distante de se
comportar como Maurício. Sob o efeito
das ervas ele ficava ainda mais engraçado,
fazendo caretas, dizendo ver coisas que pareciam
improváveis. A princípio, não
deu importância àquela forma de
diversão, mas ser mera espectadora a
deixava fora de um mundo desconhecido. Nunca
acreditara nas visões fantásticas
que a fumaça de ervas secas era capaz
de proporcionar quando tragada. Maurício
ria sem parar de um divertimento inacessível
a ela, que também ria, mas ria do amigo,
não com ele. Desperdiçava uma
oportunidade que talvez não se repetisse.
Por que não experimentar? Se as drogas
eram toleradas não podiam ser tão
nocivas.
Tailandesa,
jamaicana, skunk... Experimentou cada tipo sem
nada sentir de excepcional. Maurício
afirmava que ela não estava sabendo tragar,
e entre uma gargalhada e outra tentava ensiná-la
a prender a fumaça nos pulmões
para um mundo novo surgir diante de seus olhos.
Os olhos de Liz ficavam vermelhos, a garganta
ardia, e ela via apenas o mesmo mundo que sempre
conhecera. Sem sucesso, deixou de lado a modalidade
de diversão. Maurício lhe sugeriu
provar chá de cogumelo, mas Liz detestava
mesmo os chás convencionais, seria forçar
demais sua natureza só para rir de coisas
que não existiam.
Com
o passar dos dias, o confinamento nas coffeeshops
pareceu repetitivo. Maurício achava que
fumar ao ar livre seria mais interessante, produziria
novas sensações. Uma tarde, depois
de comprarem maconha tailandesa, foram a um
local discreto atrás do albergue, de
frente para um canal. Maurício estava
contente: naquela noite encontraria um rapaz
que havia conhecido no trem. Sentaram no banco,
acenderam os cigarros. Fazia aquilo apenas para
acompanhar o amigo. Conversavam despretensiosamente
quando ela engasgou com a fumaça. Tossiu,
tossiu, tossiu. Sentiu-se zonza. Maurício
ria de se torcer. Nova tragada, uma pigarreada.
Sua visão ficou turva. “Sobre o
quê estávamos falando?”,
pensou, ouvindo sua voz ao longe. Não
lembrava. Perguntou a Maurício qual a
última frase que ela havia dito, parecendo
gritar ao falar com ele, que nada respondia.
“Onde estou? Como eu vim parar aqui?”
Levantou-se. A rua, o canal, as casas, tudo
se movia. Tornou a sentar, sentindo-se estranha,
maravilhada. As fachadas de tijolos dançavam
diante de seus olhos, as cores borradas misturavam-se
às tonalidades do céu em movimento.
Quantas cores! Que brilho! Tudo acontecia como
num filme em câmera-lenta. Mais fumaça,
mais. A garganta ardia, mas ela não podia
parar. Ria, ria... Olhou para Maurício.
De repente o rosto dele se desprendeu como uma
máscara, saltando em sua direção,
ou o fundo recuara e tinha ficado enorme? Não
discernia mais nada. Voltou a perguntar onde
estavam, ouvindo sua voz como um grito. Maurício
ria sem parar.
—
Acorda, mona! — falou ele. — Estamos
em Ams... Amster... como é mesmo o nome
dessa cidade?
—
Você é tão engraçado!
— disse ela. — Mas... quem é
você? De onde eu te conheço?
—
Nem imagino...
“Meu
dinheiro? Onde está o meu dinheiro?”,
se perguntava, sem lembrar. “A chave?
O passaporte? A mochila? Onde eu deixei tudo?
Estou pensando ou falando? Estou gritando? Será
que eu estou rindo demais? Meu dinheiro?...
minha bolsa?... minha chave?... Armário?
Onde mesmo? Qual o número do armário?
Onde estou?” Tentou levantar novamente
do banco, mas sentiu como se estivesse amarrada.
Pensou em falar — ou gritar —, mas
sua voz não saía. Maurício
tagarelava, ela nada entendia. Conseguiu se
erguer e começou a andar, mas não
sentia seu corpo em movimento, sentia-se atada
ao banco enquanto um corpo igual ao dela caminhava
no chão movediço. “Estou
andando ou flutuando? Não, ainda estou
sentada. Ainda? Não consigo mais falar.
E pensar? Quanto tempo? Dez minutos? Duas horas?
Há quanto tempo estamos aqui? Será
que eu consigo andar? Preciso me levantar do
banco primeiro. Será que eu vou falar
de novo? Que lugar é esse? Onde está
o meu dinheiro?”
Ficaram
algum tempo entregues a miragens. Após
os risos, passaram aos sorrisos, depois ao silêncio.
Corpos relaxados, olhos fechados, pensamentos
girando... Lucas rompeu a tranqüilidade
na qual estavam imersos quando se aproximou
deles:
—
Maurício, tem um recado pra você
na recepção do albergue —
disse ao amigo.
—
Recado? De quem? — falou, se levantando.
Liz
continuou imóvel, em posição
descontraída.
—
Tudo bem com você? — indagou Lucas
a ela.
—
Tudo ótimo — respondeu, ouvindo
sua voz sair normal. — Nunca me senti
tão bem.
—
Vocês fumaram o quê?
—
É... é... não me lembro...
Mas dessa vez foi muito bom.
—
Quer dançar comigo hoje à noite?
O Maurício também pode ir com
a gente. Você gosta de dançar,
não?
—
Adoro. Mas eu acho que não vou conseguir.
Não sei se posso ficar em pé.
—
Ainda é cedo. Mais tarde você vai
se sentir melhor.
—
Mas eu estou ótima!
—
É, você está ótima,
menina linda.
Lucas
ajudou Liz a se levantar. Ela dispensou o auxílio
dele para andar. Cambaleou, mas recobrou o equilíbrio.
No
chuveiro, sob a água morna, rindo vez
por outra, refletia. Estava contente, preocupada
também. Temia não recuperar o
juízo. Estaria ficando louca? Sempre
havia tido tanto medo de enlouquecer!...
Maurício
ficou deprimido por causa do encontro desmarcado
— o recado na recepção —,
queria ficar sozinho.
Tonta
ainda. Pensou que mais tarde o efeito da maconha
teria se abrandado, mas ele parecia cada vez
mais intenso. Lucas a levou numa boate chamada
TranceDance. Da porta, já distinguia
o som da techno music. Muito escuro
o interior da casa, quase não se via
o chão. Num ambiente com luz negra encontraram
pessoas deitadas sobre tapetes e almofadas.
Música ensurdecedora. Lucas falava sem
parar, mas ela não podia ouvi-lo. Estava
surda, mas percebia com nitidez o som isolado
de cada instrumento tocando sempre a mesma nota
na música pontilhada por vozes cibernéticas.
Lucas falava ao seu ouvido, gritava, em vão.
Luzes piscavam, giravam. Sentiu-se mais zonza
ainda. Parada, de pé, era como se rodopiasse.
Sentou no chão, deitando em seguida.
Lucas também sentou, oferecendo a ela
uma almofada para apoiar a cabeça. Liz
fechou os olhos, mas ainda via o teto crivado
de pontos luminosos. Tudo rodava... Começou
a ouvir vozes, frases em inglês, alguém
chamando seu nome... Abriu os olhos. Ergueu-se.
—
Liz, você está bem? — perguntou
Lucas.
—
Eu estou ótima — disse, procurando
sorrir. — Você estava falando inglês?
—
Eu? Não. Quem está falando inglês
é esse cara aí, atrás de
você — disse, apontando para um
rapaz. — Olha!, ele está pegando
a sua almofada!
—
Ei, essa almofada é minha! — dirigiu-se
ao estranho, em inglês.
—
Tudo bem, eu pego outra — falou o rapaz,
sorrindo.
Nunca
havia visto de perto alguém tão
belo. A droga tornava tudo superlativo, devia
ser miragem. O rapaz tornou a falar com alguém
que Liz não conseguia ver, seus olhos
se fixaram apenas no lindo perfil dele, que
brilhava. Testa, olhos, nariz, boca... tudo
perfeito. Voltou-se para Lucas, mas não
o encontrou. Procurou-o com o olhar sem achá-lo
em meio à penumbra. Sentiu alguém
tocando sua mão. O rapaz desculpou-se
por ter esbarrado nela.
—
Onde está o seu namorado? — perguntou
ele.
—
Eu não tenho namorado. Acho que estou
sozinha.
—
Agora não está mais — sorriu.
— Quer dançar comigo?
Acreditou
estar conversando com a fusão de Paul
Newman e Marlon Brando no auge de suas juventudes.
—
Acho que eu não sei mais dançar...
—
Vem comigo — falou, erguendo-a do chão.
Foram
ao bar. O rapaz pediu uma cartela com quatro
comprimidos e entregou a ela.
—
Mas eu não estou doente! — protestou.
—
Isso não é remédio. É
um ecstasy natural. Toma logo! Você
não quer dançar?
Tomou
duas pílulas, deu as outras ao rapaz.
Não demorou a sentir o efeito da droga.
Um intenso calor se originou em seu estômago
espalhando-se rápido pelo resto do corpo.
Divertiram-se
a noite toda. Ele tinha um jeito especial de
dançar, isso o fazia centro das atenções.
Dançaram, riram, falaram... Liz ouviu
muitas histórias do rapaz, mas não
entendeu metade delas. Passava das 3 da manhã
quando chegaram no albergue. Antes de ela entrar,
ele disse que voltaria no dia seguinte para
conversarem melhor.
Dormiu
mal. Acordou cedo, não conseguiu ficar
deitada. Ainda meio tonta, olhou as camas do
dormitório. Lucas dormia na parte superior
do beliche, mas nem sinal de Maurício.
Como teria ela chegado ali? O que havia feito
na noite anterior? Não se lembrava. Não
tinha saído com Lucas? Não, estava
sozinha. Não, estava com alguém.
Quem?
No
banheiro, assustou-se com seu reflexo no espelho.
Olhos vermelhos, duas bolsas intumescidas sob
eles, aspecto abatido. Os cabelos despenteados
pareciam a moldura perfeita ao rosto disforme.
Seus lábios projetavam-se para frente
como se fosse beijar. A boca seca tinha um gosto
acre. Escovou os dentes, mas o gosto ruim não
desapareceu.
Na
recepção, não viu Gerd,
nem Mariana, apenas um atendente que não
conhecia. Na ruela atrás do albergue
sentou no banco. As drogas toleradas não
eram tão leves assim. Como podia ainda
estar em estado alterado? Lembrou-se das pílulas
que tomara, dos drinks; a mistura devia ter
prolongado o efeito. Esquecer... agora não
parecia tão difícil. Gradativamente
foi lembrando, de modo desordenado e com algumas
restrições, quase tudo o que fizera
na noite anterior. Ficou fascinada com a possibilidade
de controle da mente: tudo dependia apenas da
sua vontade.
Decidiu
não sair do albergue, e esperar o rapaz
com quem dançara. Qual era mesmo o nome
dele? Algumas coisas ainda lhe escapavam. A
música muito alta. Tinha esquecido ou
não ouvira? Ele havia dito seu nome?
Seria mesmo tão bonito quanto lembrava?
Por que disse que voltaria?
No
fim da manhã, Maurício a encontrou
escrevendo cartas no refeitório. Almoçaram
juntos. Ela falou sobre o rapaz com quem havia
dançado na boate.
À
tarde, Maurício quis fumar nos fundos
do albergue. Liz pensou em recusar, ainda sentia
os efeitos da noite anterior. Maurício
insistiu que ela experimentasse outros tipos
de maconha, as sensações eram
diferentes, devia conhecer todas, descobrir
até onde seria capaz de ir. Tentada a
saber o que mais controlaria em si mesma, cedeu.
Fumaram maconha jamaicana. Visualmente, as impressões
não diferiam muito da tailandesa, mas
no plano mental, em vez de esquecer das coisas,
tudo se tornava demasiado claro. Lampejos da
noite passada: sons, imagens, fragmentos de
conversas. Riu consigo mesma. “Duas ervas...
sensações opostas... veneno e
antídoto...” Olhou o céu,
que rodava. Onde estava o sol? Não conseguia
vê-lo. As nuvens dançavam... estranha
dança, ora longe, quase imperceptíveis,
ora próximas, como se desabassem. Começou
a suar frio, sentir vertigens. Agarrou-se ao
banco, que parecia saltar. Seu corpo projetou-se
para frente. Num espasmo, vomitou uma substância
escura.
Depois
do banho, ainda enjoada, sentiu-se exausta.
Deitou e dormiu até o dia seguinte.
Quando
acordou, lembrava tudo o que havia acontecido
no dia anterior. Sentiu vergonha da cena repulsiva
que provocara. Assim que começou a se
mover notou seus gestos mais lentos que o normal.
No banheiro, não olhou no espelho. Na
recepção, encontrou Gerd, que
indagou se ela sentia-se bem. Sim, estava melhor.
Perguntou por Mariana. Gerd informou que era
dia de folga da namorada. Ele pediu que esperasse,
ia buscar algo para ela. Voltou trazendo um
narciso amarelo. Sorrindo, Liz aceitou a flor.
Alguém tinha procurado por ela na noite
passada? Gerd respondeu que não. Agradeceu
pela flor, deixou a recepção.
Do lado de fora, sentou na escada junto à
entrada.
“Por
que ele disse que voltaria? Só quis ser
gentil... Será que esqueceu o endereço?
Não voltou... por quê? Hendrik...
que nome exótico! Ele existe mesmo? Era
tão bonito!... Será que foi sonho?
Como dançava bem!... Não, foram
as drogas... Ninguém pode ser tão
bonito. Por que ele não voltou?...”
Sentada na escada, olhando o narciso, não
controlava os pensamentos. Não sabia
se aquilo realmente acontecera, parecia que
sim. “Eu estava sozinha, queria companhia...
só isso, companhia... Compagnie... Compagnie?”
O nome ecoou como uma palavra importante, o
que significava? “Compagnie fifty...
Compagnie 50... nome e número, um endereço!”
Abriu o mapa guardado na bolsa. Procurou no
índice. Lá estava: Compagniestraat.
Perplexa, riu como se tivesse descoberto um
segredo que mudaria sua vida. Riu ainda mais
com essa idéia. Um estranho ânimo
se apossou dela: o que tinha a perder?
Divertia-se
com a possibilidade do tal endereço existir.
Ao mesmo tempo, tudo era tão absurdo
que sentia-se ridícula levando aquilo
adiante. A maconha jamaicana abria sua mente.
Até onde poderia ir? Estava tentada a
descobrir.
Desapontou-se
ao constatar que na Compagniestraat não
existia o número 50. “Fifty...
será que entendi errado? Fifty
ou fifteen? 50 ou 15?” Procurou
o número 15, muito parecido com 50 quando
pronunciado rapidamente em inglês. Número
15, lá estava. Ao lado dos dois algarismos,
acima da abertura da caixa de correspondência
leu: H.V. Hooft. “H... Hendrik?!?”,
pensou, abismada. Seria possível? Esfregou
os olhos, tornou a olhar a placa: nada havia
mudado. Estaria sonhando? Estava tão
drogada na noite em que dançaram... Como
podia saber o endereço que não
lembrava ter ouvido? Não, não
era sonho, estava ali, na porta do prédio,
seu corpo tremia. “Toco a campainha? Se
eu não fizer isso nunca vou saber a verdade...”
Apertou
o botão do interfone. Após alguns
instantes, uma voz sonolenta atendeu:
—
Hello!, Derek...? — alguém disse,
em holandês.
Estremeceu.
Era a voz dele! Era ele!
—
Oi!, aqui é a Liz, do TranceDance! Lembra
de mim? — acabou dizendo, em inglês.
—
Oh, não... — Hendrik deixou escapar,
calando-se em seguida.
Teve
vontade de desaparecer. Não pretendia
incomodar.
—
Olá!, você ainda está aí?
Espera um pouco, eu vou descer — falou
ele, pelo interfone.
Sentou
na calçada. Cinco minutos depois levantou
pronta a partir. Quis deixar um bilhete na caixa
de correspondência dele, mas não
achou caneta e papel na bolsa.
Hendrik
abriu a porta do prédio. Vestia apenas
uma pantalona de seda preta. Rosto de pele clara,
olhos azuis, lábios rosados, corpo esguio,
tórax musculoso, braços fortes...
Beleza tão impressionante que chegava
a assustar, parecia irreal. À luz do
dia, Hendrik era bem mais jovem e belo do que
ela se lembrava.
—
Vamos, entra! — disse ele. Sem esperar,
correu escada acima, não dando tempo
a Liz de fazer outra coisa senão segui-lo.
Cruzou
a porta do apartamento atrás dele, entrando
numa sala com pouca mobília.
—
Espera eu tomar banho — pediu. —
Eu estou atrasado, não vou demorar. A
gente pode ir junto até o Centro.
—
Não, eu só queria saber por que
você não me procurou ontem. Foi
culpa minha?
—
Acho que eu não fui muito legal com você.
Naquela noite eu tinha bebido demais...
—
Ok, já entendi. Tchau! — disse,
virando-se para a porta de saída.
—
Não, espera, por favor — insistiu,
segurando o braço dela. — Fica.
Eu não vou demorar.
Sentou
no sofá, enquanto Hendrik entrava do
banheiro. O relógio na parede marcava
meio-dia e meia. Ele tinha acabado de acordar.
Como podia estar tão bonito? Ouviu a
água do chuveiro. “O que estou
fazendo aqui? Eu devo estar ficando louca!”
Levantou-se e saiu.
Voltou
a pé para o albergue, queria pensar no
ocorrido. Sentia-se rejeitada novamente? Não.
Sentia apenas a leveza da erva jamaicana...
sensação estranha, satisfação,
triunfo e assombro. Se contasse o que tinha
acontecido ninguém acreditaria. Só
mesmo em estado alterado para ousar tanto. Sóbria,
jamais teria feito aquilo.
No
refeitório do albergue, continuou escrevendo
as cartas iniciadas no dia anterior. Estava
compenetrada na escrita quando ouviu perguntarem
bruscamente:
—
Por que você saiu daquele jeito? Você
é maluca? — disse Hendrik, indignado.
Estava
ali, na frente dela, usando uma bela camisa,
perfumado, mais bonito que nunca.
—
Me desculpa. Eu fui estúpida indo te
procurar — falou, calmamente. —
Só estava testando o efeito da droga
no meu corpo. Eu queria saber se era capaz de
raciocinar, de chegar num endereço imaginário...
Acho que eu funciono bem, mesmo drogada. E você?
Não precisava ter vindo aqui saber se
eu era louca. Você não estava atrasado
pra alguma coisa?
—
Estava, mas perdi o meu compromisso —
respondeu, chateado.
—
Sei, e por culpa minha, não? Sinto muito,
eu não te pedi pra me seguir.
—
Mas eu precisava saber por que você foi
me procurar, por que foi embora de repente!...
—
Agora já sabe.
Quase
se divertia com a situação absurda.
Se havia algum louco ali, não era ela.
Achou o lindo rapazinho muito atrevido. Como
ousava ir atrás dela tomar satisfações?
Com que direito? Quem ele pensava que era?
—
Já que eu perdi a minha aula, você
não quer passear comigo pela cidade?
—
E por que acha que eu ia te acompanhar? —
disse Liz.
—
Porque vai me dar a chance de desfazer essa
má impressão entre nós.
Gostou
da frase original. Hendrik a olhava, ela existia
para ele naquele momento. Ele também
existia, lindo como um sonho, mas real. Sorria
para ela, esperando uma resposta.
Uma
bela tarde de verão, céu azul,
sol brilhante, brisa fresca... Caminhando pelas
ruas, trocavam informações comuns
a pessoas que pouco se conhecem. Ficou surpresa
quando Hendrik disse ter 20 anos, achava que
ele tivesse uns 17. Ele pareceu não acreditar
que ela tivesse 34 anos, pensava que fosse bem
mais nova. Hendrik contou que morava sozinho
em Amsterdam, os pais viviam em outra cidade,
estudava para pilotar aviões. Ela morava
com a família, era programadora visual,
sua segunda viagem à Europa. Aos poucos,
começou a prestar redobrada atenção
no que Hendrik contava. Tão jovem e tão
decidido!... parecia ter todo o futuro bem planejado.
Quase sentiu inveja.
Pararam
na Rembrandtplein, deitaram na grama. Outros
jovens também aproveitavam o dia estirados
no gramado da praça. Fechou os olhos,
ficou escutando a voz de Hendrik; bom o inglês
que ele disse ter aprendido nas ruas, conversando
com as pessoas. De repente, o ouviu pronunciando
alemão fluente. Abriu os olhos. Hendrik
falava com uma garota loura, deitada próxima
a eles. Não prestou atenção
na conversa, mas viu Hendrik anotar algo num
papel e entregá-lo à moça.
Voltou a deitar, a fechar os olhos. Intrigada,
pensou que talvez ele fosse garoto de programa
— o gesto tinha sido comprometedor. Ficou
fascinada com a idéia de conhecer um
homem que vivesse de seu corpo, do prazer que
podia dar aos outros, e a si próprio.
“Será que ele acha que sou uma
provável cliente?”, pensou, não
conseguindo evitar o riso. “Se acha, vai
quebrar a cara.”
—
Do que você está rindo? —
perguntou Hendrik.
—
Eu? De nada. Lembrei de uma coisa engraçada.
—
Linda aquela garota, não?
—
Ela não faz o meu tipo — comentou,
sorrindo.
—
Você é muito divertida —
falou ele, sorrindo também —, gosto
disso.
Deixando
a praça, andaram sem destino. Cada vez
mais animado, Hendrik contava suas histórias,
sem interesse no que Liz pudesse dizer sobre
si. Ela não se importava, bem mais interessante
ouvi-lo do que relatar sua vidinha medíocre.
Agora, não só prestava atenção
em tudo o que ele dizia, mas também em
seus gestos e maneiras: o jeito de se vestir,
de caminhar, de falar, de olhar... Hendrik era
a sedução personificada. Várias
vezes, enquanto andavam, notou olhares devoradores
de pessoas por quem passavam. Viu que Hendrik
estava ciente desses olhares, parecia até
desejá-los, ou provocá-los, se
divertindo com isso. O que queria dela? Dinheiro?
Estava muito enganado pensando que ela acabaria
na cama dele em troca de instantes de prazer,
por um preço que nem imaginava. Ficou
tentada a zombar da pretensão do belo
holandezinho, mas conteve-se.
Com
naturalidade, Hendrik falou que saía
com muitas garotas, os rapazes ele se limitava
a provocar e conversar. As meninas sempre dormiam
com ele, que não as decepcionava. Dos
rapazes, ganhava jantares e presentes, posando
para fotos em troca. Tinha uma namorada na cidade
em que viviam seus pais, pretendia terminar
os estudos e depois se casar com ela, teriam
muitos filhos. Mas ainda era novo, precisava
aproveitar a vida. Ela achou curioso o modo
de pensar do garoto que julgava moderno.
—
Eu não pretendo ter filhos — disse,
categórica.
—
Não? Por quê?! — perguntou,
surpreso.
—
Não tenho a menor vocação
pra cuidar de crianças.
—
Eu adoro crianças! Quero ter muitos filhos.
Você nunca pensou em formar uma família?
—
Nunca! Essa idéia me dá arrepios.
Famílias são fábricas de
loucos, você não sabia?
Observou
o olhar atônito de Hendrik. Ele parecia
chocado.
—
Achei que o sonho de toda mulher fosse ser mãe...
— disse, meio desiludido.
—
Nunca foi o meu.
—
E qual é o seu sonho, então?
Pergunta
indiscreta, inconveniente. O que responder?
Se ao menos soubesse... Não tinha certeza
do que queria, do que ainda seria possível.
Nos últimos dias havia conseguido esquecer
quem era, o que vivera... o que faria de agora
em diante também. Qual o sonho dela?
Boa pergunta. Só que ainda não
tinha resposta, sequer imaginava se a teria.
—
Você não me respondeu... —
tornou ele.
—
Eu só quero ser feliz — respondeu,
sentindo-se ridícula com o clichê.
—
Bom, é o que todo mundo quer. Só
que isso nem sempre é muito fácil.
Por
que na boca de Hendrik todas as palavras, todas
as frases, mesmo as mais patéticas, pareciam
ganhar tanto significado? Quem era ele? Uma
curiosidade crescente a dominava. Quase perguntou
diretamente o que ele queria dela, mas tudo
era tão inusitado que deixou as coisas
seguirem seu curso, sem intervenções
de sua parte.
Hendrik
parou num supermercado para fazer compras. À
noite jantaria com um amigo.
—
Eu não estou te atrapalhando? Você
já foi tão gentil me mostrando
a cidade, se quiser...
—
Atrapalhando? Que nada! A gente fica junto até
as oito da noite, depois eu chuto você.
Achou
graça do termo que ele usou para dizer
que se livraria dela, mas não riu. “Chutada.
Como um vira-lata sarnento, objeto descartável,
simples passatempo...”
Voltaram
ao apartamento dele. Hendrik lhe ofereceu skunk.
Fumaram no sofá da sala.
Exagero.
Superlativo. Exacerbação. Ponto
em comum nas drogas que consumira. Tudo parecia
muito além da verdade, como se a realidade
fosse um plano insignificante. O mundo descortinado
pela fumaça das ervas era de uma intensidade
quase insuportável, às vezes dava
medo. Entorpecida, tentava adivinhar o que Hendrik
— em silêncio desde que começara
a tragar — estaria pensando. Olhava o
rapaz, quase um menino, lindo, o mais belo que
já vira... Olhos de um azul intenso e
profundo, dois imensos lagos de água
morna e doce, clara e limpa, onde podia mergulhar,
banhar-se, saciar a sede, afogar-se a qualquer
momento... Boca de lábios rosados, carnudos,
de dentes brancos e reluzentes, pérolas
sob holofotes, boca enorme, repleta de incontáveis
presas prestes a serem cravadas em sua pele,
a devorá-la ainda viva, mordendo, dilacerando,
triturando... Cabelos curtos, eriçados
e ruivos, um campo de trigo, savana selvagem,
onde ela andava nua, corria, tropeçava,
caía, onde a vegetação
seca crepitava, feria sua pele, fustigava seu
corpo, rasgava sua carne, expunha suas entranhas...
O tórax dele, braços musculosos,
mãos vigorosas, armas potentes, sentia
o abraço comprimindo seus seios, estreitando-a
fortemente, até suas costelas partirem,
seus órgãos se esmagarem, sua
pele se romper, seu sangue verter...
O
skunk a induzia ao medo. Tudo ficava obscuro,
assustador. Procurou racionalizar, levar em
conta que estava drogada, querendo convencer-se
de que aquilo não estava acontecendo.
Viagem alucinante. Tremia de medo, ou seria
de fascínio por possibilidades e sensações
impensadas? Quantas descobertas! Olhou novamente
para Hendrik, ser sobrenatural de uma galáxia
desconhecida. Ele não lhe pareceu mais
estranho, tampouco distante, agora ela também
fazia parte daquele mundo. Hendrik se levantou
pegando-a pela mão. Sentiu seu corpo
seguir atrás dele, como fumaça
densa soprada pela brisa. Depois, a luz roxa,
violeta, lilás, brilhando pálida
na escuridão. Seu corpo desnudo, deitado.
Hendrik sobre ela, dentro dela, movimentando-se
magnificamente, como no dia em que dançaram
juntos. O peso dele, apertando-a, esmagando-a,
presa dominada, invadindo suas entranhas, possuindo
e devastando o corpo que não era dele,
nem dela, um corpo inerte, estático,
fincado num leito no fundo da escuridão,
lilás, violeta, roxa... A pele dele,
tépida, macia, lisa, fricção
suave, constante, produzindo agradáveis
ulcerações, na pele dela, doces
feridas, músculos pulsantes, veias latejantes,
corpos se fundindo, à força, num
terceiro, disforme, amorfo. Medo, horror, dor,
prazer, êxtase, sentia tudo, nada sentia,
estava morta, desdobrada, aberta como uma chaga
viva, penetrada, perfurada, descomposta, em
decomposição... O que era ela?
Corpo e mente? Não, pensamento apenas.
O corpo não é nada, uma casca,
carcaça frágil em torno do conjunto
de músculos, nervos, órgãos,
sangue, vísceras, invólucro de
material pútrido e fétido, que
precisa de escoras para se sustentar, ossos,
o corpo não é nada, peça
crivada de orifícios por onde entram
e saem coisas diversas, o tempo todo, máquina
de permitir entradas e saídas, de transformar
substâncias, esponja, peneira, filtro,
onde entram sólidos, saem líquidos,
entram líquidos, saem sólidos,
onde nada se detém indefinidamente, nada...
o corpo não é nada...
Quando
acordou já passava das oito e meia. Haviam
feito sexo como procedimento natural entre desconhecidos.
Na hora não pensou em coisa alguma, a
mente ocupada demais com inverossimilhanças.
Levantou-se, recolheu a roupa espalhada pelo
quarto na penumbra da luz negra, seguiu para
o banheiro. Divisou na cama o corpo nu de Hendrik.
Dormia, podia ouvir a respiração
pesada. No banheiro, acendeu a luz, olhou no
espelho. Era ela mesma? Sim, mas agora também
outra, muitas outras: louca assustada, corajosa
inconseqüente, perdida maravilhada, vitoriosa
insatisfeita... Beijou seu reflexo, antes de
tomar banho.
Voltou
ao quarto. Hendrik acordava. Ao vê-la,
sobressaltou-se.
—
Não precisa se preocupar, já estou
de saída. Só vim buscar a minha
bolsa.
—
O quê?... — disse, sonolento. —
Que horas são?
—
Nove — respondeu. — Adeus!, foi
legal te conhecer.
—
Espera, espera! Aonde você vai?
—
Você disse que ia me chutar às
oito, lembra? Já estou uma hora atrasada.
—
Espera! — insistiu, levantando-se bruscamente,
enrolando o lençol na cintura.
Achou
que Hendrik fosse cobrar pelos serviços
prestados, mas ele apenas perguntou:
—
Você não quer ir ao apartamento
do meu amigo também? Podemos jantar os
três. Eu vou fazer a comida.
Derek
morava no mesmo conjunto de apartamentos que
Hendrik, em outro bloco, no último andar.
Quando chegaram, percebeu Derek tentando conter
sua surpresa ante a visita adicional, a presença
inesperada: ela. Aparentava 40 anos, talvez
mais, não disfarçava que era gay,
parecia equilibrado e bastante tranqüilo.
Enquanto
Hendrik preparava o jantar, Liz tentava conversar
com Derek, que não tinha o inglês
fluente, mas disse entender tudo o que ouvia.
Falou então sobre si mesma: de onde era,
o que fazia, o quanto gostava de viajar, como
era interessante estar na cidade... Derek a
observava com atenção quase exagerada,
mas ela desconsiderou a idéia ao pensar
que estava sob efeito do skunk.
Hendrik
foi hábil no preparo da refeição
semipronta, adicionando água e levando
a mistura ao microondas.
Comeram,
beberam vinho. Derek e Hendrik conversaram o
tempo todo em holandês. Liz nada entendeu,
mas não se importou. Depois do jantar,
Derek lhes ofereceu maconha. Não recusaram.
Oferecer droga parecia tão corriqueiro
quanto aceitá-la. Sentiu a sala girando
levemente, culpa do vinho, não estava
acostumada a beber — detestava álcool,
só o aceitara para não desapontar
Derek. A conversa dos dois prosseguia incompreensível.
Achou agradável estar sentada no chão,
recostada na almofada, ouvindo a língua
estranha sobrepondo-se à batida do hip
hop tocando baixinho, enquanto sua cabeça
dava voltas por causa da bebida, do cigarro.
Via Hendrik exibir-se para Derek, hipnotizado
por seus gestos. Surpreendente o que se pode
fazer com um belo rosto e um belo corpo quando
se tem consciência disso. Discretamente,
observava Hendrik. Tinha impressão de
que tudo o que ele fazia era minuciosamente
estudado. Braço abandonado, mão
quase ausente, segurava o cigarro com naturalidade
negligente: a ponta acesa quase tocando a palma
da mão, o dedo mínimo mexendo
devagar, o jeito lânguido de soltar a
fumaça...
Saíram
do apartamento de Derek de madrugada.
—
Tchau, Hendrik! Obrigada pelo jantar —
falou, cambaleante, apoiando-se à parede.
—
Aonde você pensa que vai? É tarde.
E você não me parece nada bem.
—
Engano seu, eu estou ótima! — disse,
agarrando-se ao poste.
—
Você pode dormir aqui hoje. Desse jeito
não vai conseguir nem entrar no ônibus.
—
Não. Eu preciso ir embora... Você
já me chutou...
—
Vamos — falou, pegando-a pelo braço.
— Hoje você dorme aqui, mas amanhã
às 11 horas eu chuto você.
Fizeram
sexo. Liz se deixou possuir sem participar da
ação. Tonta, drogada, exausta,
seus pensamentos torciam-se buscando lucidez,
se distorciam em imagens incompreensíveis...
Hendrik, seu rosto, corpo, sexo... tudo girava
em meio às trevas lilases. Aberta como
páginas de livro devorado por leitor
ávido, que procura em cada frase obscura
um significado que desvende mistérios
alheios. O corpo dela, fardo inerte, peso morto,
não mais lhe pertencia, não pertencia
a ninguém... volume informe, insensível,
imaterial, vazio, sem cérebro, o pensamento
abrigado fora da carne estranha, isolado, em
alguma parte perdida na amplitude do nada. Cansada
demais para sentir, pensar, ser...
Acordaram
depois do meio-dia. Mais uma vez sentiu-se atrasada
para sair da vida de Hendrik. Começou
a se vestir rapidamente para ir embora. Ele
pareceu surpreso com a pressa dela, e ela, com
a surpresa dele. Hendrik pediu que Liz ficasse
até às três da tarde, quando
chegaria um amigo. Ela assentiu com a cabeça,
sem nada dizer. Sua função como
passatempo começava a exceder os limites
do razoável. O que mais ele ainda poderia
querer dela?
Depois
do almoço Liz lavou a louça, Hendrik,
a roupa. Em seguida, ajudou-o a arrumar a casa.
“Será que já estou pagando
a ele?”, pensava, durante a faxina. Às
três horas, quando ainda limpavam o quarto,
o interfone tocou.
—
Droga, é ele! Você não devia
mais estar aqui — falou, agitado, olhando
o relógio de pulso.
—
Tudo bem, eu já estou indo. É
só pegar a minha bolsa...
—
Não!, agora não. Ele vai ver você
saindo daqui.
—
E o que tem isso? — perguntou, sem entender
a aflição de Hendrik.
—
Não! Fica esperando aqui no quarto. E
bem quietinha — pediu.
Espantada
com o comportamento inesperado sentou na cama,
sentindo-se uma criminosa que precisava se esconder
de algo comprometedor. Que delito cometera?
Do quarto, ouvia a conversa na sala, em holandês.
Seria o sujeito algum cliente, alguém
que trazia clientes? Se ao menos falassem uma
língua compreensível... Algum
tempo tinha se passado quando Hendrik entrou
no quarto trazendo-lhe uma xícara de
chá. Pediu desculpas e saiu, tornando
a fechar a porta. Olhou a xícara em sua
mão: o que significava aquilo? Que a
conversa seria longa? Algum tipo de compensação?
O que teria dito ao outro para entrar no quarto
com o chá? Na sala, a conversa prosseguia.
Colocou a xícara sobre criado-mudo, detestava
chá. Deitou na cama, acabou adormecendo.
Hendrik
a acordou bastante animado, contando que à
noite encontraria duas alemãs numa boate,
ou iria até Diemen, cidade próxima,
a “negócios”. Sendo assim,
ele a chutaria às oito da noite. Liz
não conteve um leve sorriso ao responder:
“Tudo bem.” Sua curiosidade estava
aguçada, mas não perguntou nada
a respeito do amigo dele, tampouco da noitada
de que falava entusiasmado. Tudo parecia óbvio.
Passaram o resto da tarde ouvindo música.
Pouco
antes das oito da noite, Hendrik disse que não
queria encontrar as alemãs, muito menos
ir a Diemen. Preferia ficar no apartamento,
com ela. Mas jurou que a chutaria impreterivelmente
no dia seguinte, logo pela manhã.
—
Não — falou, com voz firme. —
Eu vou embora agora mesmo. Eu preciso voltar
pro albergue, estou com essa roupa há
dois dias, todas as minhas coisas estão
lá.