Dez dias sem Liz. Luísa chegou há dois dias, e ainda não lhe telefonei para saber como foi a viagem.
            Liguei para Daniel à tarde. Contou-me que estava se sentindo sozinho na sala, sem a amiga. Sua voz sincera me pareceu uma confissão. Ele também sentia falta de Liz, talvez mais do que eu. Reclamou a ausência de notícias, tentei tranqüilizá-lo pondo a culpa da demora na ineficiência dos correios. Por que a presença de Liz assumiu tanta importância em nossas vidas?
            Seria interessante desenvolver minha amizade com Daniel. Nem sei como chamar esse elo que nos une de forma estranha. O fato de nossa amizade sempre ter sido intermediada por Liz a torna falsamente longa, quase profunda. Isso não me convence, nem agrada. Se eu quiser estreitar nossos laços de estima, preciso aproveitar o afastamento de Liz para fazê-lo.

            Sexta-feira à noite, meu irmão e a esposa grávida chegaram de São Paulo. Sempre que vinham passar o fim de semana aqui em casa, ligavam avisando apenas quando estavam na metade do caminho, talvez para evitar ouvir um “não venham”, que minha mãe jamais diria.
            A presença deles me inquietava. Como sempre, cumprimentei-os com cordialidade condescendente. Não conseguia ser espontâneo. Instalados na sala, o assunto foi a chegada do bebê. Não falavam de outra coisa. Felizmente, pude manter relativa privacidade no meu quarto. Minha mãe presenteou a nora com um enxoval completo para a criança. A mulher do meu irmão ficou encantada. Do quarto, junto à sala, eu ouvia tudo através da porta, ainda que distante dela. As coisas que falavam com animação me entediavam.
            Tenho impressão de que meu irmão e a mulher me acham meio anormal, ou pelo menos muito esquisito. Para pôr as suspeitas deles por terra — porque às vezes me agrada confundir os outros —, uso a máscara de pessoa normal e represento um personagem pouco convincente, mas que os deixa desnorteados.
            Saí do quarto para fazer chá. Detiveram-me na sala, pedindo minha opinião sobre o enxoval do bebê. Segurei a máscara com firmeza, sorri e disse educadamente: “Muito bonito”.

            Na manhã do dia seguinte, enquanto cuidava do jardim, observei melhor o carro novo do meu irmão. Na noite passada eu não tinha conseguido identificar o modelo daquele símbolo de status. Sob o sol, o veículo prateado mostrava que seu proprietário estava se saindo muito bem na ascensão profissional no banco.
            Com a justificativa de trabalho a fazer, passei a manhã fechado no quarto, diante do computador. Meu confinamento voluntário devia lhes parecer estranho. Mas eu estava trabalhando. Isso era ser free-lancer!, não ter sábado, nem domingo, nem feriado, nem dia, nem noite... bom motivo para me manter afastado das insípidas conversas familiares. Por sorte, devido às modestas dimensões da casa, não havia uma mesa grande o bastante para almoço em família: isso tornava minha esquisitice de almoçar no quarto mais aceitável. Achei que à tarde eu permaneceria na tranqüilidade da clausura à espera da noite. Enganei-me. Depois do almoço, meu “santuário” foi invadido por quatro pessoas com um forte argumento: assistir ao vídeo das ultra-sonografias da mulher do meu irmão. “Quantas horas de duração tem essa fita?”, perguntei, deixando cair a máscara. Meu tom meio ríspido me fez ver que estava sendo desagradável. Recoloquei depressa a máscara imaginária. Eu podia não assistir ao filme, mas seria falta de educação. O único videocassete da casa era o meu, seria injusto privar minha mãe e avó de assistir o que queriam. Cinco pessoas no cômodo apertado era uma multidão.
            Na tela da TV surgiram manchas informes nas quais insistiam em ver membros, face, sexo, inclusive sorrisos. Com a mesma animação da véspera, ficaram maravilhados com cenas duvidosas, pouco definidas. Tudo patético para mim. Eu fazia parte de outro mundo, em que os valores dignificados por eles não tinham o menor sentido. Eu era uma aberração que discordava de tudo o que diziam, pensavam, faziam. Por que aquilo era tão horrível para mim, enquanto para eles era a razão de estar na Terra? Se soubessem o que eu pensava cairiam fulminados. Espantado com o contraste entre mim e a família da qual fazia parte, não disse mais uma palavra. Estavam todos tão absortos e encantados com o festival de manchas em movimento que nem notaram minha mudez. Uma coisa me aliviava: saber que meu irmão, cumprindo o dever de macho, daria a minha mãe o direito que ela imaginava ter de possuir um neto — seu êxito na perpetuação da espécie humana. Livre dessa carga sentia-me mais leve para viver minha estranha vida.

            Comecei a perceber que meu comportamento veladamente agressivo com o casal de visitantes visava uma compensação. As visitas do meu irmão me soavam como afronta. Cada vez que ele surgia em nossa casa, vindo de sua vida bem-sucedida, era como se me dissesse: “Eu venci! Tenho um bom emprego, um carro novo, uma esposa, um belo apartamento, um filho... Eu tenho tudo! E você?, o que é que você tem?” Por que me sentia como se ele jogasse na minha cara o seu sucesso? Eu não almejava nada daquilo! Jamais consegui perdoá-lo por ter saído de casa antes de mim. Meu irmão era o mais novo, uma ordem natural tinha sido alterada. Uma vez ele me disse: “Quem conseguir sair de casa primeiro vai ser livre pra sempre! O outro vai ter que cuidar das velhas...” Previsão que agora era realidade. Ele vencera. Livrara-se das incumbências que cabem aos fracassados. Eu havia perdido, estava condenado a não ter vida própria — a não ser no mísero quarto com ares de sepulcro. Por que tenho que assumir responsabilidades que não me pertencem? Só porque não venci? Meu irmão teve sorte: o banco o convidara a trabalhar em outra cidade, o que exigia que mudasse de estado. Não pensou duas vezes. Acreditei que saindo logo depois dele conseguiria escapar do futuro sombrio. Tudo deu errado. Liz desistiu do apartamento que dividiria comigo, provavelmente por minha ansiedade. Duro reconhecer mais um fracasso que se somava a tantos outros. Para sobreviver é preciso adaptar-se, constantemente. Aceito resignado minha sentença: é pouco provável que eu deixe essa casa, é tarde demais! Eu me sentiria culpado por abandonar as velhas à própria sorte. Aliás, sorte bem melhor que a minha, já que elas sustentam casa. Não invejo os bens materiais que meu irmão conquistou, apenas lamento não ter podido realizar meus sonhos. A concretização dos sonhos dele, por mais diferentes que sejam dos meus, faz o confronto vir à tona. Será que ainda há tempo? Não... tarde demais.

            Acabei tomando o café da manhã com meu irmão no dia seguinte. Dividir com ele a pequena mesa da cozinha — depois do que eu havia pensado na véspera — quase me constrangia. Enquanto comíamos e conversávamos trivialidades, eu olhava aquele rosto que deveria ser três anos mais novo que o meu: “Como está velho!” Rugas, manchas, pregas... era esse o preço da vitória, da liberdade? De livre, meu irmão parecia ter muito pouco: enredava-se em dívidas assustadoras; não demonstrava paixão pelo trabalho, do qual jamais falava com interesse; seu casamento começava a se deteriorar através de pequenas brigas e discussões. Não, a vida bem-sucedida do meu irmão estava muito distante da idéia que eu fazia de sucesso, talvez nem fosse uma vida feliz. Parecer mais jovem que ele não me satisfazia. Meu irmão estava acabado, mas aqueles sinais correspondiam a uma vivência. E eu? E eu com o meu rosto jovem no qual nada apontava para experiências vividas? Fiquei sem saber o que era pior.
            Todos somos diferentes. Menosprezo meus familiares achando os assuntos deles fastidiosos e banais, enquanto afundo no tédio da minha vida medíocre. Não posso culpar meu irmão por ter mais sorte que eu. Preciso aprender a aceitar os outros como são, com suas limitações e modo de se comportar. Também sou limitado e tenho um jeito de ser que gostaria de ver respeitado. Absurdo pretender julgar e recriminar os outros sendo tão imperfeito quanto eles.
            Quando meu irmão e sua mulher se foram, no fim do domingo, eu os via com outros olhos. Não que, repentinamente, tivessem se convertido em seres encantadores, mas passei a vê-los como pessoas que, apesar de tudo, prosseguem em sua jornada. Talvez não seja muito importante a forma como se trilha esse caminho, apenas o que se divisa com clareza no horizonte diante de si.

            Às vezes penso que o pedaço de carne que carrego entre as pernas vai acabar me enlouquecendo. Há ocasiões em que sou tomado por desejos tão imediatos e intensos que temo sucumbir se não os atendo prontamente. Vez por outra preciso aliviar a tensão que modifica meu corpo, mas ultimamente venho sentindo esses desejos com freqüência maior do que gostaria. À noite, fui tomado pela vontade súbita que não contenho: o fiz de um modo que não praticava há algum tempo. Satisfação total. Prazer que me deu o que pensar: se o transpusesse para a realidade dificilmente uma mulher seria capaz de me concedê-lo. O que sou afinal? O que quero? Por que isso me agrada? Por que quando me valho daquele outro simulacro também me satisfaço?
            Agora que Liz não está aqui volto-me para mim mesmo. Começo a achar que essa introspecção não está sendo nada saudável. Complico tudo o que me cerca, meu problema é pensar demais. Penso tanto que não faço o que preciso. Isso é grave. Pensar menos, agir mais.

            Telefonei para Luísa. Entusiasmada, contou-me como havia sido interessante a viagem, ainda que corrida. Seu relato foi tão resumido que acabei não tendo o que perguntar. Eu ansiava saber de Liz, mas não queria dar a entender que só tinha ligado por causa disso. Luísa convidou-me à sua casa para ver as fotografias da viagem.
            Antes de Liz partir, eu pensava que seu afastamento seria decisivo para minha lucidez. Às vezes temo — justamente pela distância entre nós — que com o passar do tempo eu acabe transformando-a num personagem que só existe na minha mente.

            Não. Liz não existe mais. Nenhuma prova concreta de sua existência, só minhas recordações doentias. Amamos o ser real ou aquele no qual projetamos o que queremos ver? Amo em Liz a diferença entre nós. Amo-a porque é o meu oposto, me complementa. E Liz? O que amará em mim? O que terá projetado de irreal que faz com que me estime, ainda que não me deseje? O amor desprovido de desejo físico nos isenta da projeção ilusória? Ainda a desejo? Os últimos momentos de amizade explícita, antes da viagem, fizeram com que me sentisse tão bem a seu lado que não era necessário nada além disso. Mas... por quanto tempo? Se ela não tivesse partido minha “amizade” já não teria degenerado em outra coisa?

            Resolvi fazer uma visita surpresa a Daniel. O surpreendido fui eu: entrando no estúdio deparei com Gustavo, sentado diante do micro. Ele me olhou de relance.
            — Tudo bem com você? — cumprimentei-o.
            — Tudo, Leon — respondeu, sem desviar os olhos do monitor.
            Gustavo me deixava inquieto. Algo me dizia que ele não simpatizava comigo.
            — Você sabe se o Daniel vem aqui hoje? — indaguei.
            — Ele já está vindo. Não deve demorar.
            — Eu devia ter ligado avisando...
            — Notícias da Liz? — perguntou, repentinamente.
            — Não. Nada ainda.
            Curiosa a associação imediata que ele fazia entre mim e Liz, como se fôssemos uma espécie de casal. Eu só existia para Gustavo por causa dela.
            — Você também faz ilustrações, não? — indagou ele, olhando para mim.
            — Não exatamente — respondi. — Eu faço desenhos, mas não gosto deles. Na verdade, eu não gosto do meu trabalho, mas como ainda não descobri outro melhor...
            — E o que você gostaria de fazer?
            — Se eu soubesse a resposta já me dava por satisfeito. Às vezes tenho vontade de desistir de tudo, começar do zero, um trabalho novo, outra vida, em outro lugar... Mas mudar como se a gente não estivesse preso a nada não é fácil... a não ser que se pague um preço muito alto.
            — Acha mesmo? Você acredita que é só pagar um preço alto pra mudar de vida? Quantas pessoas você conhece que poderiam largar tudo e recomeçar do zero?
            Ocorreu-me o nome de Liz, mas nada falei.
            Daniel entrou agitado, parecia ter pressa.
            — Oi, pessoal! Tudo bem? — disse, retirando as capas que cobriam seu equipamento.
            — Acho que eu não escolhi um dia muito bom para visitas. Você está ocupado.
            — Estou enrolado mesmo. Eu tinha tempo pra entregar uns desenhos que a Sílvia me passou, e acabei pegando outros trabalhos. Só agora ela me diz que o prazo mudou, já está esgotado.
            — Que bom que está tendo muito trabalho! — comentei.
            Gustavo, que mal cumprimentara Daniel, começou a desligar seu micro.
            — Por hoje chega. Já vou indo. Tchau! — disse ele, logo em seguida.
            — Mas a gente nem teve tempo de conversar!... — protestou Daniel, visão fixa no monitor.
            — Fica pra outro dia — arrematou Gustavo, deixando a sala.
            — Eu também já vou indo, não quero te atrapalhar — emendei.
            — Que bobagem, Leon. Fica um pouco mais.
            Cedi. Se ele havia pedido que eu ficasse talvez me desse atenção.
            — Alguma notícia da Liz? — perguntou.
            — Ainda não.
            — Aquela ingrata... — disse, em tom de brincadeira. — Esqueceu de nós!...
            — Já leu o livro que eu te emprestei? — indaguei, mudando o rumo da conversa.
            — Não terminei ainda... mas é muito bom. Os personagens parecem pessoas de verdade. Assim que a Liz voltar a gente vai ter que se encontrar pra falar sobre esse livro.
            — Se ela voltar... — brinquei.
            — Voltar, ela vai. Mas vamos ver o que vai deixar arranjado por lá. Talvez ela só venha fazer as malas de vez.
            Estremeci. Teria Liz contado a Daniel algo que não me dissera? Ele parecia tão seguro... teria feito suas próprias especulações?, ou Liz havia lhe contado seus planos com Franz? Se tinha planos, por que não os contou a mim? Para não me magoar ou porque preferia deixar o golpe de misericórdia para depois de tudo acertado entre ela e Franz? Fiquei triste, não tanto por ela ter revelado a Daniel o que me escondera, mas por não ter confiado em mim. Quase pedi a Daniel que fosse mais explícito, mas tive vergonha.
            — Eu preciso ir, já está ficando tarde — deixei as palavras escoarem da minha boca.
            — Tudo bem — retrucou, sem perceber minha inquietude. — Depois a gente se fala.
            A idéia da partida definitiva de Liz não me saía da cabeça. Haveria realmente algo que eu ignorava? Senti-me inferiorizado, já que não era digno de saber sobre assunto tão importante. Vieram-me à mente fragmentos de conversas passadas. Na ocasião em que lhe entregara aquela maldita carta, ela me indagou, a propósito de seu comedimento em revelar os planos com Franz: “Foi o Danny, não foi? O que ele te contou?” Na hora, empenhado em defendê-lo, nem me dei conta do sentido da frase. A pergunta de Liz só podia significar que Daniel sabia de coisas que eu ignorava, óbvio. Nesse mesmo dia ela comentou que Daniel era um excelente amigo, mas não podia falar de todos os assuntos com ele — que sempre usava tudo como pretexto para piadas. Mentira. Mentira! Ela havia me emprestado os livros que eu tinha vontade de ler, todos, de uma só vez. Indício de que não pretendia voltar, pelo menos não tão cedo. O interesse em estudar alemão, levar os livros de estudo... mais atitudes suspeitas. Custava a crer que Liz tivesse feito aquilo. Tentava me lembrar de sua voz tranqüila dizendo: “Mas não é nada disso!... Você entendeu tudo errado...” Não consegui me acalmar. Se eu estivesse certo, seria difícil perdoá-la. Ao mesmo tempo achava-me paranóico por inventar aquele enredo absurdo. Ainda assim, decidi acabar com o projeto do livro conjunto. “Vou escrever tudo sozinho!”             

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