Liz estava sozinha em Amsterdam. Tinha acabado de chegar do aeroporto, onde Luísa embarcara de volta ao Brasil. Quase não controlava a ansiedade agora, na ausência da irmã.
            Na estação de trem, recuperou a mochila no guarda-volumes. No telefone público, ligou para Franz. Ele não estava. Comprou um mapa detalhado da cidade, saiu para explorar Amsterdam e encontrar o Albergue da Juventude, a fim de deixar seus pertences e garantir a noite de sono.
            O albergue ficava numa rua próxima à estação. Com desânimo, recebeu a notícia de que só havia vagas para o dia seguinte. Simpática, a jovem da recepção perguntou se Liz não queria fazer reserva. Respondeu que sim e entregou o passaporte para a recepcionista preencher a ficha. Ao ver o documento, a moça, entusiasmada, falou em português:
            — Que legal! Você também é brasileira! Eu me chamo Mariana — apresentou-se. E começou a tratar Liz como se fossem velhas amigas. Quis logo saber como estava o Brasil, o Rio, como estavam as praias, as pessoas...
            — Há quanto tempo você está aqui, Mariana? — indagou Liz.
            — Quatro meses — disse, meio sem graça. — Ai, me desculpa, eu falo demais, não? É que eu detesto usar o inglês o tempo todo, e sempre que posso falar português acabo exagerando.
            — Que bobagem, não precisa se desculpar. É que você me pegou de surpresa — justificou-se. — O Brasil continua o mesmo de quatro meses atrás.
            — Ótimo! Adoro o jeito que a gente tem de levar a vida. Aqui é tão diferente!
            — Mas você não gosta de Amsterdam? A cidade é tão bonita, tantas novidades...
            — Eu gosto muito daqui, mas não me sinto em casa.
            Queria poder conversar com Mariana, mas começava a sentir-se cansada. Além disso, uma fila havia se formado atrás dela. Ainda tinha que procurar lugar para dormir, comer algo, telefonar de novo para Franz...
            — Mariana, eu não quero atrapalhar o seu trabalho. Amanhã eu volto e a gente conversa melhor, tudo bem? Você sabe onde eu posso encontrar um hotel barato?
            — Eu vou dar um jeito de você ficar aqui. Espera só até eu despachar essa gente.
            Ficou contente com a gentileza. Enquanto aguardava, ligou para Stuttgart.
            — Franz? Sou eu, a Liz. Já estou em Amsterdam! — disse, animada. — Como a gente vai fazer pra se encontrar? Você já pensou em alguma coisa?
            — Eu estava esperando você ligar pra ter certeza que ia vir. Me dá o número do telefone onde você está que eu te ligo daqui a pouco.
            — Mas eu estou num telefone público, no albergue. Não posso te ligar mais tarde?
            — Então me telefona em uma hora.
            — Ok. Em uma hora. Tchau — disse, desanimada.
            Início nada promissor. Que desinteresse! Franz parecia diante de uma obrigação, um sacrifício. Estranho que a pessoa que fizera o convite fosse a mesma que agora praticamente relutava em concretizá-lo.
            — Liz, vem comigo — falou Mariana, fazendo um gesto com a mão.
            Tentou aparentar tranqüilidade, mas não se esforçou muito.
            — O que foi? Você parece chateada. Aconteceu alguma coisa?
            — Não, nada de mais — disse, sem convicção.
            — Já sei, brigou com o namorado — arriscou Mariana. — Ah!, esses homens!... sempre fazendo a gente de boba. Aposto que ele é estrangeiro, acertei?
            Sorriu, sem negar, nem confirmar. Seguiu Mariana até uma sala pequena: duas poltronas e um sofá diante de uma televisão.
            — Você pode dormir aqui, só que vai ter que esperar até depois da meia-noite, que é quando a sala da TV fecha.
            — Mariana, você tem namorado? — perguntou, apoiando a mochila no sofá.
            — Tenho. Ele se chama Gerd, e também trabalha aqui no albergue.
            — Ele é holandês?
            — Infelizmente — respondeu, fazendo uma careta.
            — Você não gosta dele?
            — Gosto muito. Mas os europeus são esquisitos, frios, cheios de manias estranhas. O seu também é holandês?
            — Não, alemão.
            — Ih, são os piores! Uns blocos de gelo! O Gerd tem uns amigos alemães, todos são uns poços de traumas. Eu nunca vi gente mais complicada, estão sempre insatisfeitos com tudo e... Ai, Liz, me desculpa. Eu aqui desancando o pau nos caras como se conhecesse a raça inteira.
            — Não faz mal — disse, com um sorriso. — Você só está sendo sincera.
            De volta à recepção, recebeu a chave do armário para guardar a mochila. Mariana mostrou onde ficavam os dormitórios, banheiros, cozinha, refeitório...
            Guardou a mochila. Tomou banho. Jantou.
            Na recepção, agora menos movimentada, encontrou Mariana ao lado de um belo jovem.
            — Gostou do lugar? É bem legal aqui, não?
            — Muito legal. Todos parecem tão contentes!
            O rapaz da recepção olhava-a conversar com Mariana.
            — Quem é ele? Como é bonito! — indagou Liz, olhando na direção do jovem.
            — Obrigado — ele se apressou em dizer, em português. — Você é muito gentil.
            Enquanto Liz corava, por não desconfiar que o outro falasse português, Mariana ria às gargalhadas. O rapaz sorria, divertindo-se com a situação.
            — Esse é o Gerd, Liz, o meu namorado — explicou Mariana. — Agora toma cuidado com o que vai dizer: eu ensinei ele a falar português.
            — Ai, que vergonha! Me desculpa, eu não sabia...
            — Você não disse nada de mais — falou Gerd, sem o menor sotaque.
            — Que pronúncia ótima! Você deve ter estudado muito pra falar assim em tão pouco tempo.
            — Pouco tempo? — disse Gerd, olhando para a namorada.
            — Você não está aqui só há quatro meses? — Liz indagou a Mariana.
            — Esse ano sim. Mas eu passo oito meses aqui e quatro meses no Brasil. Faz três anos que vivo desse jeito.
            Conversaram durante algum tempo. Liz ficou tão entusiasmada com os novos amigos que esqueceu Franz. Quando se lembrou de ligar para ele estava atrasada uma hora e meia. Aborrecido, Franz marcou encontro para o dia seguinte, às 15 horas, na Centraal Station de Amsterdam. Ela perguntou se não seria complicado para ele viajar carregando duas bicicletas. Franz assegurou que não. O telefonema não durou mais que dois minutos. Apesar do comportamento estranho, predispor-se a encontrá-la em Amsterdam significava que talvez nem tudo estivesse perdido. Mariana devia ter razão quanto às esquisitices dos europeus.
            Saiu para passear até chegar a hora de ocupar a sala de TV. A noite com o sol do verão ainda no horizonte, as ruas cheias de turistas estimulavam um contentamento mesclado a uma sensação indefinida. Comprou postais. Voltou ao albergue. Escreveu para Leon e Daniel.
Mariana ajudou-a a se instalar na sala de TV.
            — Você tem sorte, Mariana. O Gerd é um amor — falou para a amiga.
            — É, mas às vezes as aparências enganam... — retrucou a moça.
            Queria apenas ser simpática. A falta de intimidade com Mariana a impedia de perguntar algo que soasse indiscreto, por isso permaneceu calada.
            — Durma bem, Liz. Se quiser, pode fechar a porta por dentro, temos uma cópia da chave.
            — Obrigada, Mariana. Boa noite.

            Acordou com a forte sacudidela de uma moça, sendo informada, num inglês ríspido, que precisava deixar o lugar imediatamente. A garota começou a faxinar a sala enquanto Liz, ainda sonolenta, tentava entender o que acontecia. Olhou o relógio na parede: meio-dia e meia.
            Tomou um banho rápido. Guardou a mochila no armário, lembrando-se de separar o mapa da cidade. Seguiu para a estação.
            Entrou na Centraal Station faltando mais de uma hora para a chegada de Franz. Em vão, tentou achar o horário e a plataforma correta nos confusos quadros informativos da imensa estação. Demorou a encontrar um funcionário que pudesse dar informações. Ela não sabia o número do trem, mas sabia o horário da chegada e de onde ele viria. O funcionário não achou em sua planilha nada que se aproximasse da resposta esperada, mas indicou a Liz o setor onde paravam os trens vindos da Alemanha.
            Por que não conseguia descobrir um simples horário de trem? Estaria condenada a nunca rever Franz? O desencontro arruinaria suas férias. A ansiedade a fazia roer as unhas. Faltando 5 minutos para as três horas, começou a se questionar sobre como agiria ao encontrar Franz. Deveria abraçá-lo? Beijá-lo? Dizer apenas “Oi”? E se não o reconhecesse?
            Às 15 horas nenhum trem surgiu na plataforma em que aguardava. Teria entendido algo errado na noite anterior? Não, lembrava bem o que Franz dissera com voz fria. Sentou no banco, apática, achando que o perdera para sempre. Teria que mudar tudo, refazer os planos. Fechou os olhos, respirou fundo. Sentia-se gelada, mas transpirava. Achando que fosse desmaiar, abaixou a cabeça entre as pernas, forçando a oxigenação do cérebro. Um apito agudo fez com que se aprumasse. Um trem acabava de chegar. Uma multidão invadiu a plataforma. Liz se levantou para poder observar melhor. Tão rápido quanto se ergueu, tornou a cair no banco, tonta. De novo fechou os olhos, voltando a respirar profundamente. Quando ergueu as pálpebras as pessoas já tinham se dispersado. No fim da plataforma, viu um rapaz louro, com duas bicicletas. Correu até lá.
            Franz estava igual como há oito anos: o mesmo sorriso encantador. Abraçou-o com vontade. Ele retribuiu o abraço com menos intensidade e, afastando-se um pouco, segurou o rosto dela, olhando-a fixamente. Tornou a abraçá-la. Quando se afastaram mais uma vez, Franz repetiu o gesto de reter o rosto dela nas mãos, como para certificar-se de que estava diante da pessoa certa. Demorou tanto nesse reconhecimento que, sem saber o que fazer, Liz o beijou.
            Fora da Centraal Station Franz mostrou, de forma rápida, como manusear as marchas da bicicleta. Liz nada compreendeu, mas achou que não poderia ser tão difícil guiar o veículo. Como pagara por mais uma diária no albergue, sugeriu que fossem até lá a fim de conseguirem vaga para Franz também.
            Não havia leitos disponíveis. Pensou em ceder sua vaga para Franz, ocupando novamente a sala de TV, mas diante da cara de poucos amigos da garota que a tinha acordado naquela tarde, e que substituía Mariana na recepção, desistiu. Franz sugeriu que fossem para um camping. Antes de partirem, ele a ensinou a prender a mochila na traseira da bicicleta.
            Nunca se sentiu tão ridícula. O peso adicional na parte de trás da bicicleta fazia com que se desequilibrasse o tempo todo: dificílimo controlar aquele veículo cheio marchas que desconhecia o funcionamento. E batia os joelhos na roda dianteira, escorregava, deixava a bicicleta cair... Franz, que tratava sua bicicleta como um querido animal de estimação, parecia aborrecido por Liz não cuidar devidamente de um veículo que não lhe pertencia.
            Irritado, ele distanciou-se. Depois de atravessarem um túnel, seguiu-se um aclive bastante acentuado — pelo menos foi assim que Liz o percebeu. Habilidoso, Franz, subia como se estivesse descendo. Ela se movimentava com dificuldade, não devia ter escolhido a marcha adequada. Para exercer maior pressão nos pedais, tentou ficar de pé no veículo. O peso da mochila fez a bicicleta pender repentinamente para trás, projetando-a numa cambalhota teatral. Esforçou-se em levantar rápido para não ser vista no tombo vexatório, mas Franz já a observava com olhar reprovador, não demonstrando interesse algum em ajudá-la. Quando o alcançou, procurando manter o bom humor, ela fez uma piada comentando sua queda. Franz não achou a menor graça.
            Na recepção do camping, ele pensou que pudesse apresentar apenas a carteira de identidade, mas a recepcionista exigiu o passaporte. Ficou furioso, achou absurdo, e começou a discutir, decidido a não deixar o documento em poder do camping. Incrédula, Liz o observava. Tanta gritaria e confusão por causa daquela bobagem? Em meio à discussão dos dois, ela entregou seu passaporte à recepcionista, pagando a primeira noite que passaria com Franz. Recebeu da atendente um mapa de localização e uma placa metálica com o número da barraca que deveriam montar e ocupar. Entregou tudo a Franz, certa de que ele se responsabilizaria pela guarda dos objetos.
            Apesar de irritadiço, Franz era muito hábil. Surpreendeu-se com a agilidade dele em montar a barraca. Ofereceu-se para ajudá-lo, mas Franz disse que preferia fazer tudo sozinho.
            — A placa... — pediu a Liz, quando terminou a montagem.
            — O quê?
            — A placa com o número da barraca — repetiu.
            — Eu entreguei pra você! — disse ela.
            — Não, não está comigo. Está com você. Olha na sua mochila — ordenou.
            Obedeceu-o só para não parecer implicante. Como esperava, não encontrou a placa entre seus pertences. Procuraram por toda parte, em vão. Franz olhou fixamente para Liz:
            — Só pode estar com você! Procura de novo na sua bolsa! — quase gritou.
            Irritada, despejou o conteúdo da mochila no gramado.
            — Satisfeito agora?
            De volta à recepção do camping, Liz teve que dizer que havia perdido a placa. Para obterem outra era necessário pagar cinco gulden, e apresentar o folheto fornecido na entrada. Embora não lembrasse de papel algum além do mapa que entregara a Franz, ainda olhou na bolsa. Franz disse que voltaria à barraca para procurar a placa. Assim que ele se foi, Liz viu um rapaz preenchendo o verso do mapa que a recepcionista distribuía. Correu e chamou Franz, dizendo que o folheto que a atendente queria era o mapa que lhe havia entregue. Mudo, ele prosseguiu em seu caminho. Ficou sem saber se Franz não a entendera ou se ele tinha perdido o mapa também.
            Franz não demorou a retornar.
            — Eu achei a placa — disse ele, sem mais nem menos.
            — E onde estava? — perguntou, curiosa.
            — No meu saco de dormir — falou, entre dentes.
            Seguiram para o centro de Amsterdam.
            Sem o peso da mochila na parte traseira da bicicleta era bem mais fácil conduzi-la. Só não contava com a rapidez de Franz para guiar a dele — também sem peso suplementar. Ele ia sempre na frente, reclamando o tempo todo por Liz não se manter a seu lado. Ela tentava segui-lo o mais rápido que podia. No Centro, ao passarem diante de um fast food, Franz sugeriu que parassem para comer batata frita.
            — Escolhe o molho — disse ele, em tom imperativo.
            Liz olhou no painel um amontoado de palavras incompreensíveis.
            — Desculpa, mas não sei holandês. Escolhe você, por favor — pediu, cautelosa.
            Ele o fez com ar aborrecido. Tudo parecia desagradá-lo enormemente, mesmo as coisas mais corriqueiras.
            — Que tempero você escolheu? — indagou ela, após Franz ter feito o pedido.
            — Não foi você que me mandou decidir? — falou, rude. — Por que quer saber agora?
            Não conseguia acreditar que aquele era o mesmo Franz que, oito anos atrás, lhe comprara bombons, ensinara a subir montanhas, dividira o saco de dormir, e escrevera tantas coisas legais... Franz havia pedido que ela ficasse dois meses com ele, disse que cozinharia para ela, que poderiam ficar no quarto dele, que a ajudaria nas despesas... Franz prometera tantas coisas!
            O gosto era intragável: mostarda com pimenta malagueta. Com fome, engoliu, quase sem mastigar, a batata ao molho ardente. Franz devia ter feito de propósito.
            Enquanto andavam pela cidade, tentava entender o que acontecia. Tudo por causa do beijo na estação? Não era para tanto. Queria compreender as razões de Franz para aquele comportamento, mas algo lhe escapava. Precisava se esforçar, senão suas férias estariam seriamente comprometidas — todo o restante em jogo também. Mas não sabia como se portar diante dele: tudo o que ela fazia parecia errado, sequer conseguia dar uma simples sugestão, temendo incomodá-lo.
            Entraram num café. Franz escolheu uma mesa junto à janela, de onde era possível observar um canal ornado por uma ponte em arco. Apesar de tudo, Liz ainda se encantava com o belo panorama que Amsterdam proporcionava. Franz parecia viver um eterno aborrecimento. Desviando seu olhar da paisagem na janela, ficou observando o rosto dele, distraído com a cena que ela acabava de abandonar. Era um belo homem. Aos 29 anos, seu rosto de traços levemente angulosos fundia a doçura de uma criança e a perversidade de um adulto. A pele clara devia ser macia ao toque. Desejou acariciar aquela face de homem doce e cruel. Conteve-se, aquele não era o Franz que via com olhos iludidos, era um desconhecido determinado a hostilizá-la. Tocou a orelha esquerda do estranho, elogiando o pequeno brinco. No mesmo instante, Franz afastou a mão dela, dizendo que era só um brinco. Os punhos da camisa dele estavam desabotoados, Liz começou a brincar com a ponta do tecido. Franz, trazendo os braços de encontro a si, abotoou os punhos imediatamente.
            — Por que você se chateia tanto comigo? — perguntou ela, não resistindo.
            — Não gosto que me toquem — falou. — Eu detestei quando você me beijou na estação. Por que fez aquilo?
            — Não sei... senti vontade. Achei que valia a pena.
            — Você mudou muito. Está bem diferente da garota que eu conheci, e que era tão tranqüila. Agora você brinca demais, ri demais, fala demais...
            Foi tão direto que Liz estremeceu.
            — Você também não é mais o mesmo — confessou, triste. — Agora está tão grosseiro!
            — Geralmente eu não sou assim — admitiu. — Estou com alguns problemas...
            — Problemas? Que tipo de problemas?
            — Eu prefiro não dizer.
            As mesas do café estavam quase todas vazias àquela hora. Franz pediu um cigarro a uma moça na mesa vizinha, começando a conversar com ela, em alemão. Liz tentou prestar atenção ao que falavam, mas como nada entendeu se desinteressou.
            — Quer dançar? — indagou ele, parecendo subitamente descontraído.
            — Sim... claro — respondeu, hesitante, por não esperar a pergunta.
            — Você conhece alguma boate pra gente ir?
            — Não. Cheguei ontem, e ainda não conheço a cidade muito bem.
            — Não faz mal. Talvez eles possam ajudar — disse, olhando dois rapazes que acabavam de sentar à mesa ao lado.
            Franz perguntou se eles conheciam um bom lugar para dançar em Amsterdam. Os rapazes, depois de algumas palavras trocadas em inglês, mudaram o idioma da conversa para o alemão — o que alijava Liz da compreensão do que diziam. O assunto devia ser muito interessante, os três conversaram até o café fechar. O convite para dançar foi totalmente esquecido.
            A caminho do camping, Franz correu na frente dela, que o perseguiu o mais depressa que pôde. Na barraca, Liz entregou-lhe um presente: CDs de música brasileira. Franz sorriu e agradeceu, mas sequer abriu o pacote. Saíram para tomar banho.
            Quando ela retornou, Franz estava deitado, a cabeça apoiada em um dos braços. Ele perguntou se o perfume que sentia era do sabonete de Liz. Cansada das corridas de bicicleta, procurando demonstrar indiferença, começou a ajeitar-se no saco de dormir. Enquanto isso, Franz brincava de focar o rosto dela com a lanterna. Tentando rir, Liz deu um tapa na mão dele, pedindo que parasse com aquilo. Franz apagou a lanterna, dizendo um seco “Boa noite”, enquanto ela pensava: “Errei de novo”.

            No dia seguinte acordaram cedo. Franz se vestiu depressa e deixou a barraca. Liz se aprontou rapidamente, e saiu atrás dele. Quando ela se aproximou de onde as bicicletas haviam ficado durante a noite, Franz já vinha montado na dele, estendendo a chave do cadeado que prendia a bicicleta dela.
            — Eu vou à Universidade de Amsterdam. A gente se encontra aqui às seis da tarde.
            — Mas não podemos fazer alguma coisa juntos? — indagou a ele.
            — Não — falou, taxativo. — Aproveita pra conhecer a cidade.
            Pegou a chave da mão dele sem discutir. Franz partiu.
            Sozinha, pedalava sem pressa, no ritmo de alguém em férias, contemplando a paisagem, aproveitando cada instante, sem se atrapalhar em momento algum no manejo do veículo ingrato.
            “Que personalidade complexa, estranha”, pensava. Franz parecia indeciso, insatisfeito: com o quê?, por quê? “Tão cheio de habilidades, mas também tão rude”. Aparência e comportamento incompatíveis. Algo parecia bastante errado naquela história. Seria ela mesma o equívoco? Tentava equilibrar nos pratos descompensados da balança em seu cérebro o amontoado de sensações que traduziam Franz. Sem sucesso.
            Deambulou durante algum tempo. Sentia a brisa do verão ao se deslocar calmamente na bicicleta. “Vondelpark”, inscrição que vinha se repetindo em algumas placas ao longo do caminho. Diante do grande portão de ferro que se abria para o parque, entrou. Extensos gramados, árvores antigas, lagos, pássaros, sol, pessoas alegres... tudo contribuía para que prestasse atenção apenas no lado bom da vida. Estava num lugar lindo, onde tudo era novo, diferente. Não ia se deixar abater pelas esquisitices de um alemãozinho problemático. Talvez, sozinho o dia inteiro, Franz refletisse, e percebesse como estava sendo injusto.
            Às 18 horas em ponto chegou no camping. Só então se deu conta de que tinha registrado a ordem que Franz lhe dera de manhã. Sentiu ódio de si mesma. Ele ainda não havia chegado. Ótimo. Não queria que quando retornasse a visse ali, cadelinha dócil e fiel esperando o dono. Foi até o lago, levando seu discman.
            Quando voltou à barraca, encontrou Franz.
            — Você não quer ir comigo até o lago ouvir uns CDs? — indagou a ele.
            — Não — falou, friamente.
            — E como foi o seu dia? — perguntou, tentando ser gentil.
            — Só fiz coisas legais. Fui à Universidade, a uma coffeeshop, ao Vondelpark...
            Ficou desapontada. Não com o tom satisfeito no qual ele falava, mas porque também poderia ter ido aos mesmos locais na companhia dele. Tinham estado no mesmo parque! O que os impediria de apreciar o lugar juntos? Como ele não demonstrou interesse em saber o que ela havia feito, permaneceu calada.
            — Vou preparar o jantar — disse Franz. — Você tem meia hora pra fazer o que quiser.
            — Posso te ajudar?... — ofereceu-se.
            — Não, eu prefiro fazer tudo sozinho.
            Sentou junto à barraca e ficou observando-o preparar espaguete à bolonhesa com queijo ementhal. O aroma do macarrão era tentador. Franz cozinhava muito bem. Depois do jantar, Liz se ofereceu para lavar a louça, ele não se opôs.
            Na barraca, encontrou Franz deitado. Como ainda era cedo, pensou que pudessem conversar. Acabou abordando a literatura como tema. Falaram durante um bom tempo sobre Kafka, e ela surpreendeu-se com a primeira conversa amistosa que haviam tido. Seria um começo?
            Franz saiu da barraca por um momento. Quando voltou, perguntou por que Liz ainda não estava pronta. Sem imaginar que fossem sair, pegou a bolsa e partiu com ele do jeito que estava, só para não levar culpa de atrasar tudo.
            Entraram numa coffeeshop escolhida por Franz. Ele pediu o cardápio. Liz já ouvira falar no esquema das drogas toleradas em Amsterdam, mas achou engraçado escolher num menu o item desejado. Pediram White Power. Não sentiu nada de diferente, um cigarro comum. Com o fumo, Franz pareceu relaxar. Ela aproveitou para tentar conversar novamente. Só o conseguiu nos primeiros minutos. Logo, ele ficou calado, distante.
            — Em quê você está pensando? — perguntou Liz, sorrindo.
            — Em nada — falou, irritado. — Você interrompe qualquer possibilidade de pensamento.
            Ficou muda. Não conseguia se acostumar com as grosserias de Franz.
            — Vamos a um dancing? — indagou ele, como se nada tivesse acontecido.
            — Vamos! — aceitou, sem se espantar com mais nada.
            Franz pagou os ingressos. Liz sugeriu ficarem próximo à pista de dança. Recusou-se a segui-la, ela que fosse para onde quisesse, ele ficaria ali mesmo. Liz foi para o lugar mais interessante no dancing, e ficou lá, sozinha, vendo os outros dançarem. Não conseguiu mais se aproximar de Franz. Sempre que tentava chegar perto, ele mudava de lugar. Quando ela se levantava para dançar, Franz ia ao bar. Se ela encostava-se à parede, ele ia à pista e dançava.
            Farta de brincar de gato e rato, sentou numa poltrona esperando Franz determinar o momento de irem embora. Cena patética, absurda: ela submetida aos humores e vontades do alemão. Queria chorar de ódio, esbofeteá-lo, queria também que Franz dissesse que ela não era uma decepção, uma imagem deformada. Depois de algum tempo ele se aproximou. Saíram em seguida. Na volta ao camping Franz não disse uma única palavra, Liz tampouco.
            Na barraca, apenas a luz da lanterna os iluminava. Não agüentava mais a situação, precisava falar a respeito. Franz deitou-se, virando-lhe as costas. Inquieta, perguntou se não podiam conversar. Ele se negou. Inconformada, disse que precisavam conversar de qualquer jeito, senão ela não dormiria. Franz se levantou.
            Ele admitiu sua culpa. Confessou que quando tinham se falado por telefone, antes de Liz deixar o Brasil, tivera certeza de que não seria boa idéia se reencontrarem; mas já era tarde. Desagradável ouvi-lo dizer que quando se conheceram ele era muito jovem, nem mesmo sabia por que a tinha beijado na ocasião, que tudo talvez não passasse de curiosidade por nunca ter namorado uma garota de outro país; depois, com as cartas, tinha começado a se interessar por ela, pensara em visitar o Brasil, mas quando a viu na estação constatou que a imagem criada através das cartas não correspondia à realidade.
            — Me desculpa pelo beijo na estação — falou Liz. — Eu não devia...
            — Aquilo não teve importância.
            — Mas em quê eu te incomodo exatamente? — perguntou, querendo saber suas falhas.
            — Não é você... Sou eu. Estou passando por problemas...
            — Que tipo de problemas exatamente? — insistiu.
            — Exatamente, exatamente... É isso o que mais me incomoda em você! — esbravejou.
            Sentiu-se confusa. Cada vez que Franz parecia querer falar sobre si mesmo, mais interessante ele parecia, mais fascinada ela ficava. Doloroso tê-lo tão perto e ver que existia entre ambos um abismo intransponível.
            — É melhor a gente se separar — falou para ele. — Você vai se divertir bem mais e aproveitar melhor as suas férias.
            — Não, nós podemos conhecer outras cidades. Durante o dia cada um faz o que tiver vontade, e à noite a gente se encontra.
            — Não, Franz. Essa idéia é péssima. Eu prefiro que a gente se separe de vez.

            Só no dia seguinte pela manhã lembrou que Franz trouxera uma bicicleta sobressalente por causa dela. Saber-se motivo de futuro transtorno para ele pesou-lhe a consciência. Sentiu-se na obrigação de conduzir o veículo emprestado até o destino de origem. Perguntou a Franz se era possível despachar a bicicleta pelo correio. Ele respondeu que sim, mas devia ser caro. Sugeriu ultrapassarem a fronteira com a Alemanha, onde as tarifas de postagem seriam mais baixas. “Paciência”, pensou ela. Se precisava pagar para se livrar da incumbência o faria de bom grado. Com tudo resolvido, seguir Franz até a fronteira seria uma forma de se despedir com dignidade.
            Na estrada, a caminho da Alemanha, novamente com a mochila presa à bicicleta, voltou à estaca zero no manejo do veículo que se recusava a obedecê-la. Franz, sempre na frente, depois de tudo, ainda se aborrecia, sem parar de dar ordens: que ela andasse mais depressa, que não fizesse corpo mole, que não deixasse a bicicleta cair... Determinada a não dar ouvidos às reclamações dele, pedalava o mais depressa que podia para abreviar o incômodo.
            Passaram por uma placa indicando camping próximo. Franz acelerou de tal modo que sumiu de vista. Liz, tentando se apressar, bateu numa cerca e caiu. Extenuada, ficou no chão, os joelhos sangrando. Foi ajudada por dois ciclistas.
            Quando encontrou Franz, ele se desculpou por tê-la deixado para trás — parecendo nem notar que ela estava ferida. Disse que ia ao supermercado, e que Liz precisava montar a barraca. Ele não a deixara ajudar na montagem anterior, e agora exigia que ela o fizesse sozinha, certamente com perfeição. Liz encarou a tarefa como um desafio, questão de honra. Com um ódio que nunca sentira, montou a maldita casa dobrável. Quando Franz retornou, ela já estava dentro da barraca, a bagagem organizada e sacos de dormir prontos a serem usados. Ele pareceu surpreso com a eficiência de Liz, ainda assim resolveu acertar alguns pinos que prendiam a barraca, julgando não estarem bem fixados.

            Alívio, a ausência de Franz no dia seguinte. Dele, restara apenas o mapa das estradas, deixado junto ao saco de dormir dela. Soube que Franz havia partido cedo, deixando pago o pernoite. Tanto melhor, sem despedidas constrangedoras.
            Venceu sem muita dificuldade os três quilômetros que separavam o camping da estação ferroviária mais próxima. Pegou o primeiro trem para a Alemanha. Desceu em Rheine, onde despachou a bicicleta para Stuttgart.

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