Saiu da agência de viagens direto para casa. Passagens compradas. Vôo com mais escalas do que desejava, mas que permitiria ganhar tempo chegando por Madri e saindo via Amsterdam. Agora era só arrumar as malas. Sete dias: como parecia longa a espera pelo embarque! Uma semana: como teriam que correr para ver tudo o que tinham vontade!
            Precisava telefonar para Franz, acertar os últimos detalhes. Impossível não ficar ansiosa com aquela contagem regressiva. Enquanto dirigia, roía as unhas. O dinheiro ainda era pouco. Faltava receber por alguns trabalhos, valor quase insignificante. Paciência. Contaria com o auxílio de Franz.
            Quando ligou, tentou falar alemão, mas não foi entendida. Usando o inglês, soube que Franz não estava, mas não demoraria a chegar. Meia hora mais tarde tornou a telefonar.
            — Oi, Franz! Sou eu, a Liz! — disse, entusiasmada.
            — Liz, do Brasil?
            — Sim! Tudo bem com você?
            O silêncio que se seguiu a fez pensar que a ligação não estivesse boa.
            — Franz, você está me ouvindo bem?
            — Sim... sim — respondeu, hesitante. — O que você quer?
            Muito espirituoso!, mas não era hora para brincadeiras.
            — Eu já comprei as passagens. Embarco em uma semana.
            — Então... você vem mesmo? Achei que tivesse desistido. Você não deu mais notícias...
            — De onde você tirou essa idéia? A sua carta chegou semana passada. Estou ligando só agora porque já sei o dia que eu vou estar livre pra nossa viagem de bicicleta.
            Novo hiato silencioso. O que estava acontecendo? Achou que Franz ficaria exultante, mas a receptividade que ele demonstrava era bem diferente da que ela havia imaginado.
            — Franz, o que foi? Algum problema?
            — Problema?... Não... não. Problema nenhum. Você vem mesmo, então?
            — Já disse que sim!
            — E quando você chega?
            — Dois de agosto eu estou em Amsterdam. Posso pegar um trem até Stuttgart.
            — Não, me liga antes de vir: talvez a gente se encontre no meio do caminho.
            — Tudo bem, eu ligo quando chegar em Amsterdam.
            — Se você desistir, por favor, me avisa.
            — Eu não vou desistir.
            O que teria acontecido para aquela frieza? A última carta parecia escrita por outro que não o Franz com quem acabara de falar.
            Chegou tarde no estúdio no dia seguinte. Ouviu a voz de Gustavo assim que saiu do elevador. Só quando se aproximou da sala começou a entender o teor da conversa que ele mantinha ao telefone: falava sobre Daniel. Deteve-se junto à porta. De costas para o corredor, Gustavo continuava o assunto alheio à presença dela. Percebendo no outro um tom de queixa, não conseguiu deixar de ouvir o que não lhe dizia respeito.
            — Não sei porque ele não te visita mais. Logo agora que vocês vão ser pais...
            .....
            — É, ele gosta de ser o centro das atenções, só o que ele faz é que tem valor.
            .....
            — Não sei como ele arranja tanto trabalho. O Daniel é competente, mas às vezes é duro com os clientes. Fala demais, reclama o tempo todo.
            .....
            — A sorte dele é contar com o salário da Sílvia, ele vive praticamente com o dinheiro dela. Se tivesse que pagar tudo sozinho...
            Ouvia surpresa as injustiças que Gustavo dizia. Por que ele sempre falava mal de todo mundo? Que direito tinha de questionar o trabalho de Daniel? Logo ele, que quase nunca aparecia na sala por falta de clientes!? Quem era ele para comentar a situação financeira de Daniel? Principalmente ele, um sanguessuga sustentado pelos pais!? A pouca estima que sentia por Gustavo reduziu-se a zero.
            — Todo mundo fala mal dos outros! Acha que eu não sei o que falam de mim?
            .....
            — Não, estou sozinho aqui. O Daniel levou a Sílvia ao médico, e a Liz, acho que já viajou.
            .....
            — A Liz? Essa é uma pobre-coitada. Vive metida em confusões por causa dos namorados que arranja, um pior que o outro. Agora ela vai viajar, ou já viajou, pra encontrar um cara que nem sabe direito quem é. Mais um! É uma desorientada, não sabe o quer da vida, vive alienada, sonhando com um príncipe encantado que nunca encontra.
            “Pobre-coitada, desorientada, alienada... É essa a imagem que passo?” Gustavo usava um tom ferino, mas não mentia, aquela que pintava depreciativamente era ela, como não se reconhecer?
            Entrou séria na sala. Gustavo sobressaltou-se, gaguejou e terminou a ligação.
            — Liz!, você por aqui? Achei que já tivesse viajado — disse, sem graça.
            “Cínico”, pensou. A vontade era xingá-lo, mas ouviu sua voz saindo calma:
            — Não, viajo em uma semana. E você, o que faz aqui? Muito trabalho?
            — Eu vim usar o scanner, mas ele está travando... Eu até liguei pro Lauro pra ver se ele me dava umas dicas, mas ele não soube me ajudar.
            — Então você estava falando com o Lauro, e como vai ele?
            — O cara é um medíocre. Vive se queixando que os amigos não procuram ele, que não consegue trabalho, que está apavorado em ser pai... Só sabe reclamar, é um maluco.

            Acordei cedo, como de hábito. Na cama, comecei a ler as últimas páginas do romance iniciado há alguns dias. A idéia de fim sempre me angustiou. Último capítulo de um livro, acordes finais de uma melodia, decisivas imagens de um filme... Tudo sempre acaba em dado momento, tudo morre, tudo deixa de existir. Ainda que reinicie a leitura, torne a ouvir a música, reveja o filme, chegará o instante em que todos voltarão a terminar... sempre.
            Escovar os dentes, lavar o rosto, pentear os cabelos... Em frente ao espelho, observar meu rosto forçava-me a um confronto desagradável com minha imagem física — sempre me esquecia dela. O semblante ao qual já deveria ter me acostumado causava-me ainda quase o mesmo incômodo iniciado na pré-adolescência — quando comecei a prestar mais atenção em mim, e certificar-me de que tudo se modificava. A criança com rosto de anjo que eu havia sido cedera lugar a um rapaz de fisionomia estranha, que se transformou num homem desinteressante, mais estranho ainda. Quantos anos de terapia para me sentir bem comigo mesmo na minha própria pele? Fitei meu reflexo. Aquele homem feio era eu. Diante do espelho, vi duas lágrimas percorrerem as faces tristes. A beleza só não é importante para quem a possui.
            Beleza e amor. Amor e beleza. O amor torna as pessoas belas? Os belos se procuram, se unem na busca pelo amor? Em que ponto começa este círculo? Onde termina? Liz e eu. Nós... Não, esse “nós” nunca existiu... Amar e desejar, sentimentos distintos. Quando se deseja alguém que se ama os dois sentimentos se fundem, muito difícil dissociá-los. Amo Liz, ainda a desejo?
            Constato com tristeza meu malogro como homem. Tento me tranqüilizar pensando que somente não vivi uma experiência a que deveria ter direito, mas que não depende apenas de mim. Questão íntima que só pode ser resolvida por meio de outro. Às vezes tento culpar Liz por meu sofrimento. Até que ponto ela cederia se soubesse como essa “coisa banal”, segundo ela mesma, adquire aspecto quase vital para mim. Se tivesse lhe contado da angústia de um homem que desconhece prazeres carnais — e necessita experimentá-los para ter parâmetros — ela não me compreenderia? Entristeço quando penso que Liz não foi sensível o suficiente para perceber que era a única que poderia ter me ajudado. E os sentimentos dela, não contam? Sinto-me vulgar, mesquinho, egoísta. Como me sentir inteiro se não conheço na própria carne o contato íntimo com outro? Num corpo alheio é que reconheço e experimento meu próprio corpo. Como não me sentir constrangido ou alijado nas conversas de teor estritamente sexual? Estou farto de representar. Alguém ainda acredita na minha precária interpretação, no meu ridículo personagem? Sou uma piada, uma farsa. Não passo de um reles assexuado que só o é por pura incompetência. Fácil desviar a culpa dessa impotência ao outro de que necessito para minha realização, mas a inabilidade é toda minha. Não consigo dissociar sexo de amor. Por que busco sempre o mais difícil?
            Meu dia começa mal. A questão não é deixar de desejar Liz, mas livrar-me da frustração de homem não realizado. Talvez tenha envolvido Liz nisso tudo por sentir que não amarei outra mulher. Liz foi minha única chance, última tentativa. Nela depositei expectativas de entendimento, afeto, atenção... Não, não posso responsabilizá-la por não ter atendido ao meu apelo. Traidor, é o que sou. Confio nela, mas não posso contar o que se passa comigo. Ela é minha única amiga, mas é impossível encará-la como alguém que pode auxiliar num problema do qual não faz parte. Às vezes a exclusividade pode ser desastrosa.
            Se Liz soubesse do meu dilema pensaria: “Tudo isso por causa de sexo!?” Mas ela tem conhecimento de causa. Como expor minhas neuroses? Não posso deixar que se sinta mal por minha culpa. E depois, de que adiantaria isso agora? Mesmo que ela tivesse pena de mim para fazer concessões, como procederia? Inimaginável! Liz não saberia dissimular, mesmo que quisesse me ajudar não poderia. E ainda que dominasse essas circunstâncias, como eu não veria o óbvio? Ia me sentir péssimo por usá-la como objeto de satisfação pessoal obtido através de piedade. Não há solução para este caso.

            Sílvia me ligou ao anoitecer. Com voz amigável, convidava-me para uma reuniãozinha em seu apartamento, na tarde de sábado. Nosso último encontro antes da partida de Liz.

            Daniel abriu a porta. Liz ainda não havia chegado. Sílvia me cumprimentou como um velho amigo.
            A simpática decoração tornava a sala agradável. Sílvia foi até a janela filtrar o sol que atravessava a persiana. Seu corpo contra a luz exibia a silhueta longilínea deformada na altura do ventre: sua primeira gravidez. De compleição física frágil, Sílvia estava se saindo bem ao dar vazão àquele instinto comum à maioria das mulheres. Surpreendente como por trás da aparência delicada havia um corpo resistente o bastante para gerar e nutrir uma criança durante nove meses.
            Antes que eu tivesse tempo de achar que havia chegado cedo demais, Daniel desculpou-se por estarem atrasados. Perguntou se eu me importava em conversarmos na cozinha, enquanto ele ajudava Sílvia. Respondi que não.
            Eles formavam um belo par. Difícil acreditar que tempos atrás tivessem rompido de forma tão drástica. No rosto tranqüilo de Sílvia repousava uma certeza indestrutível. A serenidade readquirida por Daniel refletia-se em seus movimentos. Segurança. O que realmente a teria abalado? Como a tinham recuperado? A que sorte de concessões mútuas precisaram submeter-se a fim de atingir o equilíbrio? Sentado perto do fogão, eu olhava com interesse o casal salvo de um naufrágio imprevisto, sem compreender de onde tiravam a calma e harmonia que transmitiam espontaneamente. Em silêncio, Sílvia descascava frutas sobre a pia. Sempre falante, Daniel cortava em fatias o pão a ser transformado em torradas. Ele abordava assuntos corriqueiros, devia estar dando tempo para Liz chegar e não precisar repetir as novidades que nos reservava.
            Ela chegou meia hora mais tarde. Juntando-se a nós na cozinha, contou como fora aborrecido passar a manhã de sábado no estúdio com clientes.
            Daniel tirou as torradas do forno, arrumou-as numa cesta. Sílvia terminara a salada de frutas, tinha feito pastas e fatiado frios. Na sala, Daniel havia disposto entre o sofá e as poltronas duas mesinhas de vime para acomodar os petiscos. Liz sentou ao meu lado, no sofá, os outros dois, um em cada poltrona.
            — Foi uma pena vocês duas não terem ido ao café comigo ontem — começou Daniel — Eu estava com o Carlos e a Renata, o Júlio e a Paula. E sabem o que reparei? Os maridos estão virando uns babacas quando comparados com as mulheres.
            — Como assim? — quis saber Liz.
            — Os caras demonstravam tanta falta de iniciativa, pior, agiam tão naturalmente, que eu quase senti vergonha de pertencer à classe.
            “Relacionamento amoroso. Tema constante em reuniõezinhas como essa”, pensei, pressentindo que seria mero espectador da conversa.
            — Quer dizer que os homens têm que ser sempre superiores às mulheres? — reclamou Liz.
            — Nada contra as mulheres seguras de si. O deprimente é ver homens sem atitude, acomodados, deixando de cumprir o seu papel. Isso sempre acaba se refletindo na relação.
            — Sei, os homens só devem ter responsabilidades masculinas, sem elas perdem a sua função, certo? — indagou Liz.
            — Eu não consigo ver num casal responsabilidades de homem ou de mulher. Existem obrigações comuns que cada um assume dependendo das circunstâncias. O que eu quis dizer é que numa relação a dois, independente das responsabilidades, existe uma postura à qual o homem não deve fugir, o mesmo vale pra mulher.
            — O homem manda e a mulher obedece.
            — Não, Liz, os dois dividem tudo. O que me incomodou nos maridos de ontem é que eles dependiam das suas mulheres, usavam as duas como muletas. Foi constrangedor.
            — Talvez o homem esteja meio perdido em relação à igualdade de direitos que as mulheres conquistaram — arrisquei.
            — Mas não é só isso — alegou Daniel. — A maioria dos homens não presta atenção no relacionamento como um todo. Alguns reduzem as relações ao sexo, como se só tivessem interesse nos direitos e fugissem dos deveres. Muitos acham que ser homem é satisfazer a parceira na cama. Como podem acreditar que uma mulher se contenta só com isso? E muitos nem cumprem direito a função de macho. Eu olhava aquelas mulheres interessantes, inteligentes e pensava como podiam estar naquela situação sendo quem eram. Depois os caras reclamam que estão sendo traídos.
            — Mas, amor — falou Sílvia —, o nascimento dos filhos muda vida do casal. Deve ser difícil levar a vida de antes com novas preocupações. Eu já estou começando a me preparar pra essa mudança, nada mais vai ser como agora.
            — Concordo, amor, mas a vida não acaba porque se resolveu ter filhos. O que eu vejo é que algumas mulheres preferem continuar com os maridos bobocas por medo de assumir sozinhas a criação dos filhos. O engraçado é que muitas nem se dão conta que tudo já depende só delas, inclusive o trabalho de cuidar do marido.
            — Devem ter alguma esperança que o cara perceba a situação e se emende — disse Liz. — Ou talvez, apesar de tudo, amem muito os seus maridos.
            — Mas como é possível amar esses cretinos!? Tenho tanta pena dessas coitadas...
            Não fiz mais comentários. Ignorava as nuances daquele assunto entediante. Interessado, Daniel desenvolvia o tema pertinente ao seu caso pessoal.
            — Os relacionamentos são complicados mesmo — falou Liz. — Ainda mais quando se pretende formar uma família. Nada contra, meus queridos — disse, para Sílvia e Daniel —, mas eu não nasci pra esse tipo de vida. Nunca me imaginei sendo mãe, só de pensar nisso sinto arrepios.
            — Mas as relações geralmente tendem à formação de alguma coisa — disse Daniel. — É como se esse “produto” desse um sentido real, justificasse o relacionamento.
            — Eu discordo — continuou Liz. — Pra mim um é pouco, dois é bom, três é demais.
            — Você fala assim porque ainda não encontrou o cara certo. No dia que achar, vai saber o que eu estou dizendo.
            — E será que esse “príncipe encantado” existe? — replicou, jocosa. — Eu sou muito exigente! Sempre me decepciono quando procuro a perfeição.
            Comecei a me interessar não pelo assunto, mas pelo jeito com que Liz falava. Apesar da atração meio fantasiosa por Franz, ela parecia bem lúcida. Sempre tinha sido tão romântica... De onde tirava aquelas idéias? Depois de uma pausa ela prosseguiu:
            — Iniciar, viver e terminar uma relação, tendo que começar tudo de novo é cansativo. Mas eu não conseguiria viver com a mesma pessoa a vida toda. E, por favor, não me levem a mal, vocês dois são pessoas especiais — falou, voltando-se para Sílvia e Daniel.
            — Não somos não! — disparou ele. — Somos pessoas comuns que se desentendem, conversam e chegam a um consenso!
            De repente, o jogo da verdade. O tom exaltado de Daniel me dizia que ele estava cansado de simbolizar o homem perfeito casado com a mulher ideal vivendo uma vida exemplar. Sílvia, que raramente emitia opiniões, disse:
            — Liz, você está generalizando. Eu, por exemplo, só conheço o Daniel como homem, ele foi o meu primeiro namorado. Eu não tenho a menor vontade de conhecer outros homens, e não me sinto insatisfeita com isso.
            — Calma, pessoal, eu não estou criticando ninguém. Só estou defendendo o meu ponto de vista. Eu não acredito em fórmulas de amor. Cada um descobre o melhor pra si mesmo. O que você acha, Leon?
            A pergunta pegou-me de surpresa. Eles diziam suas verdades, por que eu também não?
            — O que eu vejo são pessoas obstinadas atrás de uma relação que faça com que elas pareçam normais. O modelo de pessoa bem-sucedida é o de alguém que consegue dividir sua vida com outro — mesmo que o parceiro seja trocado toda hora. Se, ao contrário, a união for longa e eles tiverem filhos, tanto melhor — mesmo que o casal se odeie e maltrate as crianças. O que importa é parecer normal, seja lá a que preço for.
            Olhavam-me fixamente, como se eu tivesse dito uma barbaridade.
            — Você não está exagerando um pouco, Leon? — perguntou Daniel. — Eu conheço gente que não namora há algum tempo e que não está infeliz com isso.
            — E quantos adultos você conhece que nunca tiveram relacionamento?
            — Bem... não sei... Acho que nenhum... — respondeu, hesitante.
            Devia estar pensando em mim, mas se recusava a citar-me como exemplo, provavelmente por achar que não conhecia bem parte do meu passado, ou por educação.
            — Mas essas pessoas existem — continuei. — E a sociedade cobra muito de todo mundo: precisamos ser sempre jovens e bonitos, ter um ótimo emprego, ganhar muito dinheiro, transar alucinadamente... Nem todo mundo pode ter êxito em tudo, e isso acaba sendo frustrante.
            — Talvez o que as pessoas tanto busquem seja apenas a felicidade — comentou Liz. — O convívio com outro faz com que a gente aumente as chances de atingir esse ponto.
            — Mas às vezes pode ser assustador também — tornou Daniel. — Agora que eu vou ser pai, fico inseguro: o meu futuro não diz respeito só a mim. Se eu e a Sílvia tivéssemos escolhido não ter filhos e nos separássemos, cada um iria pro seu canto recomeçar a vida. Mas um filho muda tudo, cria um elo quase indestrutível.
            — Por outro lado — falou Sílvia —, é estimulante saber que você gerou uma criança que vai crescer aos seus cuidados, uma continuação da sua própria vida... Deve ser enriquecedor, pelo menos pra quem tem vocação.
            “O problema é justamente esse”, pensei, ouvindo Sílvia. “Nem todo mundo é capaz de educar filhos, mas quem se dá conta disso?”
            O assunto fixou-se nos relacionamentos amorosos. Daniel, como sempre, era quem mais falava, mas Liz disputava palmo a palmo as oportunidades para fazer suas colocações. A reunião transformou-se num debate, em que Daniel e Liz quase discutiam, Sílvia e eu apenas observávamos.
            Em meio aos discursos obstinados, acabei me refugiando em pensamentos. Estranho, quase divertido: estar aparentemente presente, mas na realidade ausente. As vozes de Liz e Daniel ecoavam ao meu redor, fundiam-se, dispersavam-se... mas não me tocavam. De suas bocas saíam palavras, idéias... tudo incompreensível para mim. Diante de algo fastidioso não hesitava em me “desligar”. Eu adorava Daniel, mas ele falava demais. Não dizia besteiras, mas sempre entrelaçava assuntos distintos, pior que isso, quase nunca os concluía. Meu pensamento não era ágil o bastante para acompanhar seu turbilhão de idéias. Eu amava Liz, mas às vezes ela tinha tanta necessidade de se explicar e ver suas idéias aceitas que eu me aborrecia com seus minuciosos esclarecimentos. Será que não sabia que as pessoas só viam o que queriam ver?
            Fui ao banheiro. Lavei as mãos e o rosto, sem olhar no espelho. Na casa dos outros esses objetos indiscretos sempre apontam algum defeito que já nos habituamos a desconsiderar no espelho em que nos vemos regularmente. Quando voltei à sala, Liz estava pronta para ir embora. Só então percebi abatimento em seu rosto.

            Perguntei se queria que eu dirigisse. Com um pálido sorriso, respondeu que não. Acrescentou que não me levaria em casa. No carro, a caminho da casa dela, pouco falamos. Liz parecia esgotada, achei melhor poupá-la dos meus assuntos. Poderia falar da viagem dela, mas então eu é que me sentiria cansado.
            A costumeira desordem no quarto — que o tornava informal e aconchegante — era bem maior agora por causa da arrumação da bagagem de Liz e Luísa. Sentei na beirada da cama cheia de pilhas de roupas, frascos de cosméticos e sacos plásticos. Liz, parecendo ter recuperado o ânimo, veio me mostrar a lista dos itens que pretendia levar.
            Aproveitou para continuar organizando o conteúdo das malas. De repente, havia recobrado uma energia inimaginável. Depois que a ajudei a desocupar a cama, deitei e fiquei observando-a nos afazeres que pareciam não ter fim. Eu procurava não pensar no afastamento que teria de suportar, mas naquele quarto onde tudo cheirava a partida isso era impossível. Liz sentou junto a mim, começou a dar pequenos ajustes com agulha e linha em algumas peças de roupa. Enquanto a olhava, ela falava comigo, mas eu não a ouvia. Concentrada na costura, não notava minha surdez. Eu não precisava entendê-la, bastava olhá-la, estar a seu lado, tocá-la se quisesse... Estranho prazer proporcionado pela dor. Presença agora absoluta que em breve se transformaria em total ausência. Se eu pudesse prolongar esse instante!... Aprisionar esse momento em que a proximidade despretensiosa dos corpos é capaz de provocar sensações tão agradáveis, tão dolorosas... Dor e prazer... Mas a memória não é forte o bastante para reter as imagens que os olhos vêem, os sons que o ouvido percebe, os aromas que o olfato possibilita, a sensação do toque que o tato permite... Tudo sempre termina. Tudo. Sempre. E logo, esse instante único já não significará muito: vai juntar-se a tantos outros, esquecidos e perdidos no somatório das negligências do pensamento.

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