Liz sempre tivera certo desprezo pelo dinheiro, ainda que fosse impossível não se deixar seduzir — e escravizar — por ele. Curiosamente, durante boa parte de sua existência, sobrevivera de forma alternativa, ludibriando o que parecia servidão consentida. Apenas uma vez trabalhara como assalariada. Nunca fora tão bem paga. Parecia fácil viver naquele esquema conveniente. Não demorou a perceber a armadilha. A obrigação em cumprir horários cada vez mais rígidos começou a incomodá-la. E quantas normas e regras!... Um cartão de ponto registrava cada segundo de atraso, descontados no fim dos períodos de encarceramento voluntário. Dinheiro. Tudo por causa dele. Qual o preço da liberdade?
            Irritava-se por estar sozinha, pensando, contra vontade, como de hábito. Que sensação de vazio!... Pressa e velocidade. Só não ultrapassava os 100 km por hora porque o carro trepidava muito. Pressa para quê? A bela paisagem passava rápida. Quem estava realmente se movendo? Pensamento preso no corpo inerte sentado no veículo em movimento na estrada estática... Que estrada era aquela que a levava velozmente para... para onde? Parati apenas? Por que a pressa? Por que estava presa?
            Franz. Até que ponto ele era responsável pelas estranhas sensações que ela experimentava? A carta ainda não tinha chegado, mais uma semana havia se passado. Telefonar novamente? Dar tempo ao tempo? Mas até quando?
            Daniel. Por que não podia estar ao lado dela? Só precisava de sua companhia... Nunca mais, nunca mais... Que pena! Se bem que, atualmente, os momentos em que se encontravam a sós a inquietassem um pouco. Sombra de constrangimento que se esforçava em não lembrar. Agora, por causa de Leon, impossível não enxergar o que mantivera oculto no fundo de si mesma. Por que as histórias sempre se repetiam? Mudavam as pessoas, circunstâncias, cenários, o tema era o mesmo: amor não correspondido. Verso e reverso. Em pouco mais de um ano havia tido chance de compreender os dois lados da delicada questão. Não lembrava como tudo começara, demorou algum tempo a compreender que seus sentimentos em relação a Daniel tinham mudado. Como podia ter acontecido?, justamente com ela, que não acreditava que o amor pudesse desenvolver-se por tal processo! Remota a hipótese de abordar o assunto com o amigo. Havia Sílvia, com quem Daniel parecia plenamente satisfeito. Por que se intrometer na relação de pessoas tão queridas? Para destruir as vidas deles, a sua também?, para sentir-se eternamente culpada? Além do mais, seria preciso ouvir de Daniel um eco que lhe parecia improvável. Nunca mencionaria a ninguém sua vergonhosa loucura. No dia em que Daniel, deprimido, lhe contou que rompera com Sílvia, foi como se o chão lhe faltasse. Em vez de cair no abismo, de lá foi liberto numa erupção o sentimento sepultado. Achou-se horrível, repulsiva. Precisava ser forte, não se deixar levar pela mesquinhez que tanto a desagradava, que tanto desejava. Lutaria contra si mesma, e venceria. Mas perdeu. Algo havia minado sua resistência. Covarde aproveitar-se do desamparo de Daniel, mas precisava fazê-lo. Se não o tentasse, outra o faria em seu lugar; observava ao redor os olhares e atenções, desvelos e insinuações... Por que não ela, já que Sílvia agora fazia parte do passado dele? Até tentou reconciliar o casal desfeito: ouviu confidências de um, desabafos de outro, mas suas ações resultaram inúteis. Vendo as coisas não retomarem os eixos, sentindo que não podia perder tempo, confessou ao amigo seus verdadeiros sentimentos. Não foi direta, com Daniel era simples fazer o subentendido ter força de uma afirmação. Ele não se mostrou surpreso, já percebera algo, e foi direto: não a desejava, preferia que continuassem apenas amigos. Sentiu-se a última das últimas. A vergonha a fez chorar, e pedir que Daniel a perdoasse. Compreensivo, ele a consolou dizendo que não havia do que se envergonhar. Pouco depois Daniel reatou com Sílvia, indo morar com ela. Apesar de manterem o relacionamento há 10 anos, a “união” soou repentina para Liz. Não imaginava as transformações que aquele casamento desencadearia em sua vida, fazendo-a perder o melhor de seu amigo, a parte livre que tanto a encantava, que tinha lhe ensinado a ser livre também. Perdidos para sempre os sorrisos despretensiosos, olhares que diziam o que os lábios não precisavam pronunciar, abraços e toques de carinho, beijos espontâneos sem segundas intenções... Nunca mais as conversas na casa dela até o nascer do dia, nem ligações telefônicas se estendendo pela madrugada, tampouco visitas na ausência de Sílvia... Amigo casado era amigo pela metade, talvez menos que isso. Daniel ainda estava ao seu alcance, mas já não lhe pertencia, tinha sua própria vida, vida na qual o espaço por ela ocupado diminuía a cada dia. Por que havia se declarado? Como pôde achar que ele a amaria? Guardou o misto de constrangimento, angústia e tristeza tão profundamente que acabou achando que o esquecera. Mas aquele momento havia existido, existia ainda hoje, existiria sempre.
            Leon. Também não pôde estar a seu lado, ocupado com a instalação do scanner novo. Menos oportunidades de encontro agora... Ele avivara as lembranças secretas. Impressionante como alguns casos podiam ser parecidos. Não havia podido, quando tudo aconteceu, dar a Leon a resposta direta que recebera de Daniel. Outra história a impedia de dizê-la do mesmo modo que a tinha ouvido. Evitara Leon por dois anos. Quis acreditar que ele a houvesse esquecido, estivesse curado. Agora, tudo outra vez, com uma visão ambivalente. Desagradável estar em qualquer um daqueles lados. Foi horrível, acuada, dizer a Leon o “não” que ele não queria ouvir, única resposta coerente. Quanta dor no olhar tranqüilo, quanto sofrimento em seu silêncio!... Se ele não a tivesse forçado, talvez jamais ouvisse o que não queria. Leon afirmava que tudo havia terminado. Melhor acreditar nele. Por que remoer a questão? Lembranças estranhas, inquietações e ansiedades, perspectivas incertas...
            Daniel, passado sepultado... Leon, presente incômodo... Franz, futuro desejável... Parecia fácil escolher.

            Estacionou o carro na entrada da cidade. Não conhecia Parati. Apanhou o portfolio e começou a fazer o reconhecimento do terreno. Havia várias lojinhas de souvenirs, mas o aspecto meio deserto do lugar a deixou apreensiva. Tudo por ser segunda-feira? Talvez. Entrou na primeira loja.
            — Bom dia! O meu nome é Liz. Eu sou programadora visual e gostaria de mostrar o meu trabalho.
            Repetiu a frase em 15 estabelecimentos, e ouviu uma resposta parecida: “No momento não temos interesse, mas se você deixar o seu cartão...” Distribuiu cartões sem muita esperança.
            A tarde avançava, sua expectativa se restringia a três lojas em que lhe haviam pedido para retornar no fim do dia, quando os patrões apareciam. Resignada, andou a esmo até chegar numa pracinha diante de uma igreja. Sentou na mureta de pedra, olhando o horizonte. Chorou como uma criança desamparada. Não tinha vendido estampa alguma e ainda precisava esperar até o anoitecer para ouvir mais três “nãos”. Por que não ia embora e acabava logo com aquilo? Não se moveu da mureta. Estava cansada... Cansada do trabalho, daquelas tentativas mambembes, das poucas estampas que conseguia vender... Cansada de estar sempre sozinha, de ver suas amizades se desmantelando, de não ter ninguém para amar... Cansada de se sentir decadente.
            Ao cair da noite, levantou-se. Sem ânimo, seguiu para as lojas que haviam sido motivo de espera. Entrou num bazar que vendia camisetas. Apresentou-se, abriu o portfolio, mostrou as estampas.
            — Você foi muito gentil esperando até a noite pra me encontrar — disse a proprietária. — Os seus desenhos são lindos, mas a minha loja é pequena, eu não posso comprar muitas estampas.
            — Eu entendo — disse, pronta a fechar o portfolio.
            — Por isso, vou ficar só com este! — falou a mulher, apontando um desenho.
            Muita ironia esperar o dia inteiro para vender uma única estampa. Retornar a Parati a fim de entregar as artes de apenas um desenho não compensaria a viagem. Pensou em dizer isso à senhora, mas tratou o negócio como se fosse fazer a entrega pessoalmente, recebendo o pagamento nessa ocasião.
            Na segunda loja também foi recebida pela proprietária. Após elogiar os desenhos, a moça alegou que eles não eram adequados à temática que sua loja explorava; queria estampas exclusivas com base na fauna e flora locais. Embora achasse algo específico demais, Liz ficou de pensar no assunto.
            No último endereço, encontrou o casal de donos da loja na hora em que a estavam fechando. Apresentou-se e foi convidada ao escritório nos fundos do estabelecimento. O marido gostou das estampas. A esposa, avaliando o portfolio, comprou três desenhos.
            — Eu queria ficar com outras estampas — disse a cliente —, mas você veio aqui na época errada. Agora a gente não costuma fazer compras desse tipo.
            — E qual é a melhor época, então? — indagou Liz.
            — Gosto de comprar estampas novas pouco antes do verão, geralmente em outubro.

            “Você e a Liz são tão radicais!...”, tinha dito Daniel. A frase ainda ecoava na minha mente. Estaria ele me recriminando ou somente alertando-me? Devia usar sua experiência para comunicar o que eu ainda não podia entender inteiramente. Perdia seu tempo. Sempre tive aversão à possibilidade de gerar filhos, criá-los, educá-los. Não sou contrário à preservação da espécie humana, mas procriar indiscriminadamente só havia contribuído para transformar o planeta um lugar pior. Quantos milhões de criaturas geradas apenas para sofrer, e fazer sofrer? Em nome do quê? Do direito a ter filhos? Do poder de conceder a vida? Da descoberta do verdadeiro amor? Do curto prazer proporcionado pelo sexo? O que mais? Não, ser pai é responsabilidade que não terei. Não estou capacitado para tanto. Egoísmo? Não. Individualismo? Talvez. Por que seguir um padrão com o qual não me identifico? Só porque todos o seguem? Uma vidinha comum preenchida com banalidades cotidianas... como suportar isso impunemente?

            Dia de entregar artes de estampas, de apanhar novos layouts, como fazia semanalmente. A dona da estamparia tinha uma produção intensa. Espantosa a facilidade com que arranjava clientes. Devia cobrar bem pouco pelo serviço ruim que prestava.
            Isadora, amiga de minha mãe, parecia acenar como uma esperança no horizonte estéril ao abrir a estamparia. Minha mãe não mediu esforços para que nos conhecêssemos. A princípio relutei. Trabalhar numa microempresa de fundo de quintal não me animava. Acabei cedendo. Não custava fazer uma visita, mostrar o portfolio. Quando desci do ônibus em frente à “empresa” tive um choque: a casa feia e velha parecia abandonada. Cruzando o portão, encontrei-me num cimentado pontilhado por fezes caninas. Na sala, pilhas de roupa pelo piso e sofá, rolos de malha e outros tecidos amontoados num canto, onde um cachorro dormia. A porta aberta fazia a poeira da rua cobrir tudo no lugar. Sorridente, Isadora surgiu na sala convidando-me ao escritório. No cômodo apertado, papéis espalhados sobre a mesa, amostras de tecidos, roupas, estampas, revistas... tudo em desordem. Isadora olhou o portfolio com pressa, desinteresse. Bela, jovem, descontraída, forçava uma intimidade que me atordoava. Deixei a casa suja e desarrumada esperando nunca mais voltar.
            “A necessidade nos faz ser humildes...”, pensei, retornando àquele lugar feio e poeirento semanas mais tarde. “...ou muito covardes...” Desempregado há mais de dois anos, sem perspectivas, sentia-me inútil. A poupança feita durante o último emprego estava no fim. O salário da minha mãe e a aposentadoria da minha avó mantinham a casa. Procurava tornar minha presença pouco onerosa, mas me sentia um fardo. Meu desânimo era visível. Tanto quanto o empenho de minha mãe em me auxiliar na busca por trabalho. Incômodo duplo: eu era incapaz de encontrar emprego e causava preocupações. Quando Isadora me chamou para conversar, eu estava cansado de procurar pequenos serviços avulsos, que sequer encontrava. Eu não tinha direito de desperdiçar aquela oportunidade. Agora, trabalhando há alguns meses para Isadora, me perguntava até quando permaneceria naquele limbo que só mostrava o equívoco que eu vivia.
            Os outros tentavam me ajudar profissionalmente: farto alimento para meu complexo de inferioridade. Meu primeiro emprego, o conseguira ocupando a vaga deixada por Liz — ela me indicara. O segundo emprego, também o obtivera por intermédio de Liz, que preferiu trabalhar como free-lancer a se contentar com o baixo salário fixo. O terceiro emprego, graças aos contatos de minha mãe... Que espécie de pessoa eu era!? Por que a dificuldade em fazer algo por mim mesmo? Eu não decidia coisa alguma, aceitava o que colocavam diante de mim. Como pude agir desse modo durante tanto tempo? Por que ainda agia assim? Quando estaria diante de um momento controlado por mim, surgido a partir de mim? O que determinava esse instante? O que viria depois dele?

            No fim da tarde Liz me telefonou.
            — E como foi em Parati? — perguntei. — Conseguiu vender algum desenho?
            — Eu fazia outra idéia do lugar, pensei que fosse mais movimentado. Acho que eu não escolhi um dia muito bom pra tentar a sorte, só vendi quatro estampas.
            — Já é alguma coisa, não?
            — Mas é muito pouco! Eu queria vender todas!, e arranjar mais dinheiro pra viagem.
            — E o que você vai fazer agora?
            — Vou terminar as artes e voltar lá pra entregar. Teve uma pessoa que me encomendou uns desenhos ecológicos, mas acho que eu não vou fazer: e se eles não agradarem?
            — Mas se você vai voltar lá pra entregar as artes, não custa tentar.
            — É, talvez eu faça. Você sabe como sou mercenária, não?
            — Se quiser, quando for levar o trabalho, eu posso ir com você. Nunca fui a Parati.
            — Eu ia adorar, é tão chato viajar sozinha!...

            Liz dirigia com mais habilidade que em outros tempos. A paisagem passava depressa dando-me a impressão de ver tudo e nada ao mesmo tempo. Isso não me incomodava, a presença exclusiva de Liz bastava-me.
            — Você não acha que a gente complica demais a vida? — indagou ela.
            — Esse é um dos males do mundo moderno.
            — E também porque não nos concentramos no presente. Existem tantos prazeres que a gente pode ter e que desperdiça por não prestar atenção no que faz! Hoje, por exemplo: um dia lindo, um passeio a outra cidade, a sua companhia... o que mais eu podia querer? Você não acha que se a gente aproveitasse ao máximo cada instante seríamos mais felizes?
            — Ou menos insatisfeitos. Mas nem sempre dá pra ser tão otimista.
            — Mas é tudo uma questão de força de vontade. A nossa vida pode ser mais simples. Nada é tão importante pra gente se preocupar tanto.
            — Como você está filosófica hoje! — brinquei.
            Ela riu. Um riso alegre como há muito eu não via. Finalmente a carta de Franz havia chegado, o encontro parecia certo, mas a falta de dinheiro ainda a preocupava.
            — Quando é que você vai ligar pro Franz? — perguntei.
            — Antes eu preciso comprar as passagens, e a Luísa só vai me dar a sua parte do dinheiro na segunda.
            — Stuttgart deve ser bem interessante. Eu não conheço a Alemanha.
            — Eu também não. Acho que o Franz só escolheu essa cidade como ponto de partida por causa das bicicletas. Senão, ele ia ter que carregar as duas, o que não ia ser muito fácil.
            — Esse desvio não vai atrapalhar o itinerário que você esquematizou com a Luísa?
            — Que itinerário? Está tudo no ar! Algumas cidades que gostaríamos de ver, e só. Eu expliquei pra Luísa que numa viagem desse tipo às vezes a gente perde um trem, os horários são mudados, a cidade escolhida não era o que se esperava...
            — A primeira semana de vocês vai ter que ser cronometrada.
            — O que me incomoda é não saber ainda por onde vamos entrar na Europa. Isso vai depender das passagens que eu conseguir encontrar. Vai acabar ficando tudo em cima da hora.
            — Você vai se sair bem, já está acostumada a improvisar.
            — Tomara... Viu só? Estou deixando de prestar atenção no presente pensando no futuro.
            — É a expectativa da viagem.
            — Mas acabo desperdiçando um momento que nunca mais vai se repetir.
            — Como assim? Você quer dizer que...
            — Um instante não se repete — cortou-me. — Pode ser parecido, mas nunca é o mesmo.
            — Ainda bem, não? — falei, com um alívio que ecoou em mim como uma advertência.
            Ela havia se esquivado ou eu já começava a toldar o dia com minhas especulações sem fundamento?
            — Liz, qual é mesmo o trabalho do Franz? O que ele estuda?
            — Ele trabalha numa organização não-governamental. E está no último ano da faculdade de ecologia. Sabe, acho que vai ser interessante conhecer de perto uma realidade que sempre me atraiu. Estou até pensando em pedir pra ele me arranjar um trabalho como voluntária.
            — Essa história me lembra daquela vez que a gente tentou estudar ecologia na Espanha.
            — Foi tão frustrante não conseguir a homologação do diploma! O que a gente devia ter tentado na época era fazer algo aqui mesmo.
            — Mas nós tentamos! Esqueceu daquela universidade que cancelou o curso por falta de alunos? Naquele tempo a ecologia não estava na moda. Hoje seria fácil, só que eu não tenho vontade de voltar a estudar.
            — Nem eu. Já me sinto meio velha pra isso.
            Ela tinha razão: acabávamos deslizando para o passado ou para o futuro, o presente era sempre posto de lado. Franz, futuro que em breve seria presente. Liz cheia de expectativas naquele encontro. Interesse em tentar algo efetivo em relação ao antigo projeto abandonado. Resgate duplo: chance de concretizar o relacionamento insinuado e realizar-se profissionalmente. Tudo de uma vez, por meio da mesma pessoa. Parecia perfeito. Invejei-a.

            Parati era bem diferente do que Liz havia me contado, ela mesma confessou estar impressionada com a imagem que fizera da cidade. O bom tempo, a movimentação dos moradores e visitantes alegravam o lugar. Liz achou melhor nos livrarmos das pendências para aproveitarmos o resto do dia passeando. Entregou o primeiro desenho num bazar. A cliente das estampas ecológicas não estava na loja, mas deixara instruções para Liz entregar os layouts. A última cliente só estaria na loja depois das duas da tarde, precisávamos esperar.
            Fizemos hora passeando pelo Centro Histórico. Liz mostrava os lugares que havia visto na visita anterior, mas o fazia com pressa, como se não valesse a pena deter-se diante das construções. O ritmo acelerado não me aborrecia. Liz parecia alegre e disposta, eu estava feliz a seu lado.
            Saindo do Centro, atravessamos uma ponte. Mais adiante, subimos em direção ao antigo forte. Do alto da colina podia se ver toda a extensão do litoral que banhava a cidade. Descemos uma encosta de pedra que terminava no mar.
            Sentamos junto a alguns arbustos floridos que exalavam um perfume suave, adocicado. Ficamos observando as águas azuis, a vegetação em pleno rochedo, o céu límpido onde gaivotas voavam... Não dizíamos palavra, a beleza ao redor falava por si mesma. Respirei fundo, fechei os olhos. Sentia o calor do sol, o frescor do vento, o aroma do mar se misturando ao perfume das flores... Liz estava ao meu lado.
            — Existe a possibilidade de você não voltar mais? — deixo escapar. As palavras saem tão inesperadas que não me movo, nem abro os olhos.
            Não ouço resposta. Fiz mesmo a pergunta ou apenas pensei fazê-la? Por que não me responde? Abro os olhos, viro-me em sua direção. Está deitada, braços apoiando a nuca, olhos fechados, sorriso nos lábios. Não me ouviu ou não quis responder? Talvez devaneie.
            Ergo-me devagar. Começo a descer em direção ao mar.
            — O que foi que você disse? — ela pergunta.
            — Eu? Eu não falei nada... Só estava pensando.
            Molho o rosto com a água fria. Um arrepio percorre meu corpo. “Ela está comigo... por quanto tempo ainda?” Liz toca meu ombro:
            — Vamos voltar? Já são duas e meia — diz, sorrindo.

            Ela entregou os desenhos que ficaram faltando, a cliente se interessou em renovar a coleção de estampas. Fizeram planos para quando Liz voltasse da viagem. Saindo da loja, procuramos lugar para comer. Quase não conversamos durante o almoço. Na estrada, de volta ao Rio, a noite caiu rapidamente.
            — Foi um dia muito agradável. Eu adorei o passeio — falei.
            — Eu também. É bom ter com quem conversar, ver coisas juntos...
            — Se eu nunca mais te procurasse, quanto não teríamos perdido... Eu perderia muito.
            — Eu também. O que mais me incomodava naquela história era tudo acabar de uma forma tão triste, dolorosa. Você com raiva de mim... eu cheia de ressentimentos...
            — Mas eu nunca tive raiva de você. Só achei melhor me afastar. No fundo, sempre me senti incomodado achando que você não me procurava por causa do ódio que tinha de mim.
            — Eu nunca te odiei. Fiquei sentida com algumas coisas que você me disse, mas respeitei a sua vontade de não querer me ver mais.
            — Às vezes fazemos coisas tão idiotas, não?
            Sempre que tocávamos nesse assunto nos comovíamos. Liz ficou muda por algum tempo, emocionada. Vi quando passou a mão no olho esquerdo para livrar-se de uma lágrima. Teria me visto fazer o mesmo? A estrada escura nos poupava o embaraço. Éramos importantes um para o outro. Havíamos perdido algo valioso, e tínhamos conseguido recuperá-lo. Mas... por quanto tempo? O que faz pessoas serem amigas por toda a vida? Por que amizades se desfazem? Todas condenadas ao mesmo fim? E a nossa?, em que ponto dessa trajetória incerta estava?
            Ela ligou o toca-fitas. Os concertos para oboé, de Albinoni — que levara por minha causa — preencheram o silêncio da noite escura na qual rodávamos de volta para casa.

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