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Escrever...
para quê?, para quem? Por que escrever? Qual a finalidade
desse contínuo enfileiramento de palavras?... tão
imprecisas, tão excessivas... que dizem sempre
tão pouco...
Sem
Liz parece inútil prosseguir. Ela era minha inspiração.
Iniciei algumas anotações enquanto o projeto
do livro está suspenso. Só agora vejo como
é difícil levar a cabo esse plano, mas algo
faz com que eu tenha vontade de continuar escrevendo —
ainda que notas inúteis. Esperar por Liz é
o que me resta. Esperar que parta, esperar que volte,
esperar que se decida para que eu me decida.
Por
que não paro de pensar nela? Ontem, quando me
abraçou, recém-saída do banho,
cabelos úmidos e perfumados, pele macia... estremeci:
vontade de não soltá-la mais. Creio que
ela não o percebeu, ou fingiu muito bem. Por
que me trata assim? Para ela o abraço foi um
gesto de carinho entre amigos, mas... Não, Liz
não tem culpa de nada. Sei que não estou
bem, me sinto doente. Terei cura?
Procurando
na gaveta da mesinha de cabeceira encontrei o cartão
que Joana me dera fazia algum tempo. “Dr. Antoine
Remy: hipnose, regressão, terapia de vidas passadas”.
Será que isso funciona mesmo? Joana tinha falado
tão bem do tratamento que me sentia tentado a
experimentá-lo. Hoje não. Talvez ainda
esta semana eu telefone.
Depois
de entregar a Liz a carta cretina, mas necessária,
voltamos a tocar naquele assunto que nos constrange.
Confessar minha fraqueza me aliviou. Curiosamente, por
mais que eu saiba que ela não me deseja —
que agora se interessa por Franz —, minha excitação
aumentou além do que eu gostaria. Pensei que
conversarmos facilitaria tudo... que equívoco!
Por que me iludo de que ela ainda vai ser minha? O que
será a vontade corrosiva que me destrói
se não a sacio? E por que não me aniquila
inteiramente? Vão desejo. Liz é só
uma mulher... a mulher que amo.
O
trabalho me aguarda. Dentro do computador, apenas iniciado,
espera a conclusão que o extraia via impressora.
Artes para finalizar. Artes, que termo impróprio!
Malditos desenhos horrorosos, é isso que preciso
concluir. Transformá-los em realidade com minhas
mãos, e a ajuda da máquina de múltiplas
funções. Quanto antes me livrar deles
melhor, mas já me sinto cansado só de
pensar no confronto. E depois, quando terminar esses,
outros virão. Vontade de escrever. Dentro da
mesma máquina, o texto que fiz surgir do nada
também aguarda conclusão. Deixo o computador
desligado, morto, com as distintas e incompatíveis
tarefas inacabadas. Não será difícil
ressuscitá-lo, mas não agora, ainda não.
Apanho um livro da pilha formada sobre a mesinha de
cabeceira, vou para a varanda.
Li
durante pouco tempo, sem me concentrar. Um fundo de
inquietação me perturbava: os desenhos
a arte-finalizar. Responsabilidade. Por que não
consigo ser saudavelmente irresponsável mesmo
quando quero? Culpa. Pensamentos censores. Perder tempo
com leituras quando há trabalho a fazer. Às
vezes gostaria de ter novamente um emprego, ser simples
assalariado, com hora marcada para entrar e sair do
trabalho, com preocupações profissionais
só durante o expediente. Ilusão achar
que trabalhando como free-lancer sobra mais
tempo para fazer o que se gosta. Ao contrário,
é preciso se desdobrar numa busca incessante
por tarefas que permitam ganhar a vida.
Não
necessito me empenhar na busca pelos trabalhos que faço.
Mas o esquema que tenho com a estamparia medíocre
é muito limitado. Se ao menos eu pudesse criar!...
Mas não, sempre as porcarias definidas de antemão,
constrangedoras quando estampadas em material inferior.
Como detesto esse trabalho! Graças a ele sobrevivo.
Faço parte dos insatisfeitos com o que produzem
e se enganam de que a vida é assim mesmo. Ingratidão.
Deveria ser grato por ter uma ocupação
pouco rentável em meio aos desempregados? Ninguém
com o mínimo de inteligência se contentaria
com tal perspectiva. Sinto-me como uma peça suplementar
num engenho obsoleto. Atravesso uma longa corda bamba
esticada num desfiladeiro: um passo em falso e caio
no abismo. O que existe na outra ponta da corda? Preciso
chegar lá.
O
tempo... como usá-lo de modo a não ter
sempre a sensação de o estar matando?
Nosso livro paralisado... minha leitura interrompida...
o trabalhinho miserável que faço... Dinheiro
é indispensável. Trabalhar sem prestar
atenção no que se perde, pensar somente
no pouco que se obtém. Trabalhar com prazer e
ainda ser pago por um serviço que se faz dignamente...
isso deve ser maravilhoso!
Fecho
o livro que ainda pende da minha mão. Deixo a
varanda em direção ao quarto. O dever
prevaleceu, comigo ele prevalecia sempre. Ligo o computador.
Inicio nova série de estampas abomináveis.
Mais
um dia da minha existência banal terminava. Ontem,
hoje, amanhã... monótona seqüência
de uma rotina insípida. A sensação
de inutilidade me dominava. Toda a tarde preenchida
com uma tarefa forçada.
À
noite, na cama, diante da TV,
dando o dia por encerrado, ouvi o telefone.
—
Oi Leon, tudo bem? Desculpa eu te ligar tão tarde...
—
Que bobagem, Liz, você sabe que eu não
durmo cedo.
—
Estou ligando pra saber se você quer ir ao Municipal
comigo, na terça à noite, assistir à
Sinfônica. Eu consegui aqueles ingressos grátis.
—
Claro que sim! E a gente se encontra lá mesmo,
como sempre?
—
Isso, na entrada. Depois, você pode dormir aqui
em casa, assim eu não volto sozinha.
—
Combinado.
—
Alguma novidade? — perguntou, dando a impressão
de querer ouvir algo incomum.
—
Não, a mesmice de sempre. E você? Já
teve notícias do Franz?
—
Ainda não, e acho até que já me
precipitei.
—
Como assim?
—
Eu queria esperar a carta pra ligar acertando as coisas,
mas como nada chegou resolvi telefonar pro número
que ele mandou no postal. Eu já liguei duas vezes,
e o Franz nunca está. Parece que na república
onde ele mora ninguém pára um só
minuto. Acho até que tive sorte em alguém
ter me atendido quando eu liguei.
—
E o seu preparo físico, como vai? Ainda está
dolorida por causa da bicicleta?
—
Até que não. No começo foi difícil,
mas agora eu já me acostumei. Andar de bicicleta
com o Danny me ajudou a acelerar o ritmo. Mas é
claro que eu nunca vou chegar ao nível do Franz,
que pratica esportes desde criança.
—
E se você não se sair muito bem, com certeza
ele vai te ajudar.
—
É possível... Bom, e quais são
os seus planos pra amanhã? — indagou, mudando
o rumo da conversa.
—
Nada de especial. Eu preciso terminar uns desenhos pra
entregar na semana que vem. Por quê? Você
quer combinar alguma coisa?
—
Não, é que eu não tenho nada pra
fazer, só queria saber se você estava na
mesma situação... Terça a gente
se encontra no teatro.
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O
carro seguia livremente pela estrada que conduzia
à Região dos Lagos no domingo de
manhã. Não gostava de viajar sozinha,
preferia ter alguém para conversar, se
distrair. Agora não podia contar com Daniel
como companhia. Desde ele que fora morar no apartamento
de Sílvia, havia resolvido não mais
convidá-lo para esses passeios. Daniel
estava casado, logo seria pai, tinha satisfações
a dar. Só achava justo convidá-lo
para programas nos quais Sílvia pudesse
tomar parte. Um casal já possuía
motivos de sobra com que se ocupar, difícil
encontrarem tempo para algo que não eles
próprios — principalmente quando
havia uma gravidez em questão. Precisava
ser compreensiva: os prazeres que antes desfrutava
apenas com Daniel agora estavam vetados. Descartou
a companhia de Luísa, que tinha um compromisso.
Restara a opção de convidar Leon.
No telefonema na noite anterior, vendo que poderia
causar atraso nos trabalhos dele, achou melhor
não mencionar seus planos. Ele não
mediria esforços para atender seu pedido.
Por que Leon nunca lhe dizia “não”?
Aquela excessiva devoção era inoportuna,
cada vez menos conseguia vê-lo somente como
amigo, seu olhar fraterno em relação
a ele havia mudado. Aquela carta inesperada...
Estranhamente, agora via Leon também como
homem, homem com desejos de homem. Por que isso
tinha que acontecer?... logo com ele, de quem
tanto gostava...
Pensar,
pensar, pensar... que transtorno! O recurso do
rádio, dos CDs, cantar
acompanhando roqueiros, cantoras de jazz, nada
disso fora eficaz. Dentro de si ecoava o silêncio,
espaço propício para pensamentos
confusos, lembranças que não conseguia
evitar.
De
tanto rodar por aquela estrada ao encontro de
Lúcio, inevitavelmente o associava ao trajeto
— ele ainda morava na cidade para onde ela
se dirigia. Guardava pelo ex-namorado um carinho
solidificado a uma espécie de piedade.
Tinham vivido experiências ruins, e ótimos
momentos também. Mas a idéia de
encontrá-lo a desagradava. Olhar tristonho,
ar indolente, aspecto depressivo... eternas lamentações
por cuidar do pai doente, complicações
com a filha bastarda que aquela mulher insistia
em dizer que era dele, dificuldades em ter sucesso
no trabalho que não conseguia levar adiante...
Não queria encontrá-lo e ouvir suas
lamúrias, não queria que a presença
dela o lembrasse que ainda lhe devia dinheiro.
Não podia mais ajudá-lo. Havia feito
o que estava em seu limite, ultrapassara-o até.
Pensamentos
retroativos. Parecia estar sempre fazendo um balanço.
Crise dos Trinta? Começava a envelhecer,
embora o espelho o desmentisse. Temia a velhice,
não tanto pelo caráter deformador,
mas pelo que aquela etapa da vida representava
e devia encerrar: uma pessoa realizada. E se até
lá não o tivesse conseguido? Que
tipo de velha seria? A imagem de sua avó,
de seus pais começou a tomar corpo. Tentava
apreender nos rostos deles as rugas que um dia
estariam sulcadas em sua própria face,
nos corpos endurecidos se recurvando a forma que
seu corpo assumiria, nos pensamentos e idéias
que se obliteravam as limitações
que seriam impostas à sua mente... Não
conseguia acreditar que teria aquele mesmo fim.
Amava seus familiares — ainda que não
expressasse seu amor de forma que o compreendessem
—, mas não podia negar o peso que,
às vezes, a lembrança do rosto envelhecido
de um deles lhe evocava.
Estacionou
na sombra. Pegou bolsa e portfolio, seguiu para
o mini-shopping. De tempos em tempos aquela tarefa
lhe rendia dinheiro certo, mas era desagradável
fazer tudo em surdina. Os dois clientes com loja
no shopping queriam ser os primeiros a escolher
as estampas. Era obrigada a marcar visitas com
longo intervalo entre cada uma. Ocupava o tempo
de espera indo à loja de outro cliente,
fora do shopping.
Entrou sorrateiramente na primeira loja. Foi recebida
sem entusiasmo. Sempre esquecia que, apesar de
seu trabalho representar lucro futuro para o cliente,
sua presença correspondia a despesas imediatas,
ou quase. O lojista não perdia tempo em
conversas amigáveis, fria e secamente ia
direto à negociação.
—
Esses desenhos são novos? Eu estou sendo
mesmo o primeiro a escolher?
—
É claro, eu acabei de chegar. E olha só
a quantidade de estampas!
—
Tão parecidas com as da última vez...
Você já teve idéias melhores.
Ainda
ouvia ofensas. A cada ano a pseudodepreciação
se agravava.
—
São novíssimos! Mas a gente explora
o mesmo tema há três anos, algumas
semelhanças são inevitáveis.
No
ano precedente vendera cerca de dez desenhos em
cada loja. Desta vez, esperando aumentar as vendas,
levou cinqüenta estampas. Na primeira loja
vendeu apenas seis desenhos, dividindo o pagamento
em duas vezes.
A
história foi tão semelhante com
os outros clientes que Liz quase acreditou que
eles houvessem feito um pacto. Só conseguiu
vender dezenove desenhos.
Com raiva, jogou o portfolio no banco do carona.
Aflita, via a data da viagem se aproximando sem
que tivesse reunido dinheiro suficiente.
Chegou
em casa determinada. Precisava certificar-se de
que não investia num projeto vão.
Por que Franz não havia confirmado coisa
alguma? O que esperava? Tinha deixado tudo tão
no ar!... Ligou para Stuttgart. Impossível
não conseguir falar com ele de madrugada.
O telefone chamou durante algum tempo. Alguém
sonolento atendeu.
—
Eu poderia falar com o Franz? — disse ela,
em inglês.
—
Sou eu. E quem é você, me ligando
no meio da madrugada?
—
Franz? Sou eu, a Liz!
—
Liz? Que Liz?
—
A Liz, do Brasil!
—
Oh!, sim. Tudo bem com você?
—
Me desculpa pelo horário, mas eu não
estava conseguindo te encontrar...
—
Sei.
O
laconismo de Franz a desconcertou. Só agora
lhe parecia estranho fazer cobranças.
—
Eu queria saber se está tudo certo pro
nosso encontro, pra nossa viagem de bicicleta.
Eu não tive mais notícias suas...
—
Você ainda não recebeu a minha carta?
— perguntou ele.
—
Não, mas você pode me dizer o que
escreveu? Estou tão ansiosa pra estar aí...
—
Eu não me lembro de tudo o que escrevi,
mas eu perguntava se você não gostaria
de passar dois meses comigo.
—
Dois meses!? Não sei... eu ia precisar
de mais dinheiro... Não vou ter tempo...
—
Isso não é importante. Podemos dividir
as despesas. Se a gente cansar das bicicletas,
você fica comigo em Stuttgart, não
tem problema.
Dinheiro.
Já estava tendo tanta dificuldade... “Isso
não é importante...” Franz
ajudaria. Ele parecia disposto a que tudo desse
certo. O que mais ela poderia querer para aquele
começo?
—
Tudo bem. Eu fico dois meses aí com você.
Vai ser ótimo! — falou, entusiasmada.
—
A carta que eu te mandei tem mais informações
sobre o que eu gostaria de fazer. Assim que ela
chegar, me liga pra gente combinar os detalhes,
OK?
—
Certo, nos falamos. Tchau!
Com
o aval de Franz, lançava-se em devaneios,
belas imagens de lábios se beijando, corpos
se entrelaçando... Apanhou os livros de
alemão, começou a estudar com afinco.
Queria causar boa impressão.
No
dia seguinte, buscou informações
sobre passagens aéreas em agências
de viagem no Centro. Sentia o ânimo revigorado
depois da conversa com Franz. Chegou no estúdio
à tarde.
—
Danny, eu consegui! — disse, eufórica,
entrando na sala. — Ontem eu falei com o
Franz! Ele quer ficar dois meses comigo! Não
é o máximo?
—
Você acha que vai conseguir dinheiro suficiente?
—
Ele disse que ia me ajudar. Vamos dividir tudo.
—
E você acha isso legal? E se...
—
Nada vai dar errado, Danny — cortou-o. —
Não gosto de depender de ninguém,
mas com o Franz é diferente.
—
Pelo visto alguma coisa conspira a seu favor.
Desse jeito vai ser mais fácil colocar
em prática o segundo plano. Você
pretende mesmo levar isso até o fim?
—
Só vou saber direito quando eu conversar
com ele.
—
Às vezes você não tem medo?
Eu ficaria inseguro.
—
Mas pra quê imaginar problemas que talvez
não existam? É melhor sentir medo
na hora certa. Ah, você atende os meus clientes
se eles me procurarem enquanto eu estiver fora?
Não vou contar que dobrei o tempo de viagem.
—
E o eu que vou dizer se eles ligarem te procurando?
Vou mentir?
—
Danny, por favor... — pediu, com voz cativante.
—
Tudo bem. Se eu não tiver nenhum trabalho
muito grande...
—
Ótimo. Vou deixar com você todos
os arquivos — falou, abrindo a bolsa. —
Ah, eu trouxe a última foto que o Franz
me mandou. Que tal?
—
Nossa, que cara pretensioso! — disse, de
imediato. — Toda essa produção
pra tirar uma foto... Que metido!
—
O Leon teve a mesma implicância quando mostrei
a foto a ele. O que eu faço com vocês?
—
Não é implicância, é
ciúme! Estamos com medo que esse cara roube
você da gente! Somos os homens da sua vida!
— falou, no tom divertido que ela tanto
gostava.
—
Vocês são dois bobos, isso sim. Ninguém
vai me roubar dos meus amigos.
Daniel
devolveu a foto. Antes de guardá-la na
bolsa, sorriu para a imagem de Franz.
Ligou
o computador. Lembrou-se do fracasso na venda
das estampas: trinta e um desenhos encalhados.
A próxima ocasião em que teriam
interesse em novas estampas seria em um ano, tempo
demais. Precisava converter aqueles desenhos em
dinheiro.
—
Danny, lembra quando a Sílvia vendeu umas
estampas em Parati? Você foi com ela até
lá, não foi? Que tal a cidade?
—
É um lugar pequeno, mas interessante. Era
muito freqüentado por turistas.
—
Acha que eu consigo vender os meus desenhos por
lá?
—
Talvez. A Sílvia fez as estampas por encomenda,
foi uma venda certa. Não sei se é
fácil chegar lá e oferecer desenhos
nas lojas, mas por que você não tenta?
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Reli
as anotações do dia anterior: estúpido
diário sobre um personagem problemático.
Era nisso que eu estava me transformando?
Telefonei
para o consultório do Dr. Antoine. Antes de saber
o preço da consulta desliguei. Resistência
em aceitar que não estava bem. Preciso mesmo disso?
Cheguei
com antecedência desnecessária no teatro,
na terça à noite.
Esperei,
esperei, esperei. As pessoas começaram a entrar.
Liz estava atrasada, e também com os ingressos.
Continuei aguardando.
Chegou
apressada, as faces coradas. Cumprimentou-me com beijos
rápidos, desculpando-se pelo atraso. Entramos
depressa e ocupamos os lugares. As luzes se apagaram.
O perfume de Liz recendeu suave. A Orquestra Sinfônica
Brasileira entrou no palco sob os aplausos do público
e a luz dos refletores.
No
intervalo, descemos ao Assyrius. Liz pediu um café.
O ambiente estava movimentado. Os jovens se destacavam
em meio às pessoas idosas. Meu olhar deteve-se
na mesa vizinha. Um casal bem-vestido. O homem não
era bonito, mas tinha charme. A moça, uma beleza
de chamar a atenção: loura, rosto saudável,
corpo perfeito. Discretamente, indiquei a Liz a mesa
em que se encontrava o par.
—
Linda aquela garota, não? — comentei. —
Parece uma modelo.
—
Produzida demais pro meu gosto, muito estereotipada.
Tudo culpa da televisão, da moda, que inventam
padrões de beleza que as pessoas aceitam sem
questionar — falou, com desdém.
—
Mas nem todo mundo acredita nisso. Você, por exemplo.
—
Mas eu sou minoria. Sabe, eu detesto esses valores idiotas.
É um absurdo que todo mundo queira pensar igual.
Essas modelos de hoje são ridículas, parecem
umas vassouras vestidas.
Fiquei
surpreso com seu discurso, seu tom defensivo. Devia
ter, de algum modo, se sentido comparada à moça
da mesa ao lado.
Um
rapaz louro, alto, de terno, aproximou-se do balcão.
Chamei a atenção de Liz, indicando-o com
os olhos.
—
E aquele? Muito estereotipado? — perguntei, brincando.
—
Meio empetecado. Deve ficar bem melhor sem aquela roupa
toda — concluiu.
Havia
existido entre nós maior afinidade em relação
à estética. Dificilmente discordávamos
sobre a beleza física de alguém. Desde
quando começáramos a divergir? Eu sequer
o tinha percebido... Despojado, descontraído,
informal. Devia pensar em Franz, e elegê-lo o
padrão de beleza masculina a ser usado como parâmetro
em suas comparações.
No
carro, a caminho da casa dela, pensei em falar sobre
minha neurose, o telefonema não concluído
ao terapeuta... Mas meu ânimo se esvaiu. Liz parecia
distante.
—
Você tem escrito alguma coisa? — indagou
ela.
—
Não — menti. — Escrever os capítulos
intercalados era ótimo, mas não dá
pra continuar sozinho. O que eu mais gostava era quando
a gente trocava os textos que tinha escrito, e cada
um escrevia o capítulo seguinte levando em conta
o que o outro havia criado, às vezes mudando
um monte de coisas.
O
entusiasmo que não controlei a intimidou. Desviou
o rumo da conversa, abordando assuntos triviais. Fingi
não notar o constrangimento que ela tentava ocultar,
e comentei as banalidades como se fossem do mais alto
interesse.
—
Notícias do Franz? — perguntei, de repente.
—
Ah!, a gente conseguiu se falar! — disse, animando-se.
— Eu vou passar dois meses com ele, não
é incrível?
“Dois
meses? Como vai arranjar dinheiro pra isso tudo?”,
pensei, antes de perguntar:
—
Mas não vai ser tempo demais longe dos seus clientes?
—
Eles são muito imprevisíveis. Não
é justo eu sacrificar a minha viagem por causa
de gente indecisa.
Sem
saber o que dizer, fiquei calado. Felizmente, dobrávamos
a esquina da rua onde ela morava, minha mudez não
teve tempo de adquirir peso.
Jantamos
na cozinha. Na sala, assistimos TV
em companhia de Luísa e D. Nina. Não conversamos
mais. Liz arrumou o quarto para eu dormir.
—
Posso ir ao estúdio com você amanhã?
— perguntei, me deitando. — Eu preciso usar
o seu scanner pra um trabalho.
—
Claro que sim. Boa noite, Leon.
A
caminho do estúdio, no carro, retido pelo congestionamento
na Av. Brasil, outra vez senti vontade de comentar minhas
angústias. Tema pesado para a manhã. Só
havia um jeito: revestir os fatos com algum humor.
—
Você acha possível alguém ter consciência
de que está enlouquecendo? — falei, sem
mais nem menos.
—
Não — disse, olhando-me com estranheza.
— A loucura me parece uma coisa repentina demais
pra gente se dar conta dela.
—
Você não acha que pode existir um estágio
em que loucura e sanidade se confundem?
—
Se uma pessoa tem lucidez pra se achar maluca ainda
não passou pro lado de lá.
Calei-me
por um instante. Acabei expondo minhas idéias
com mais seriedade do que pretendia.
—
Vamos deixar as suposições de lado —
recomeçou ela. — O que está acontecendo
com você, Leon?
—
Não, não é nada comigo. Eu só
pensei que talvez existisse um ponto em que as definições
convencionais não fizessem muito sentido, e dessem
margem a interpretações erradas.
—
Acho a linha que separa normal e anormal muito relativa.
—
Como certo e errado, bem e mal, amor e ódio...
Divergíamos
na questão, mas concordávamos com a relatividade
das coisas. Tentei mudar o rumo da conversa:
—
Fiquei pensando se os meus desvios podiam ficar mais
sérios, me fazendo perder a noção
da realidade.
—
Você está falando da sua tendência
masoquista?
—
Sim. Acha que desenvolvendo ela eu corro o risco de
ficar maluco?
—
Não sei se é possível chegar a
tanto, mas eu não sou indicada pra falar disso.
Você continua fazendo aquelas experiências
no chuveiro?
—
Não, parei com aquilo. Eu precisava esperar muito
tempo pra sair do banheiro sem levantar suspeitas. Me
dava prazer, mas não era nada prático.
E depois, eu fiquei com medo de me viciar. Entende?
É disso que eu estou falando: até que
ponto o prazer causado pela dor é normal? Não
acha quase impossível separar um do outro?
—
Eu até nem acho muita maluquice você se
esbofetear no banho, mas daí a achar que dor
e prazer sempre estão relacionados... eu discordo,
não dá pra generalizar.
—
Mas você nunca passou por uma experiência
ruim que no fim de tudo te deu prazer?
—
Não que eu me lembre. Uma vez, a pedido de um
namorado, a gente simulou um estupro. Foi horrível.
Quanto
mais eu me debatia e pedia pra ele parar, mais excitado
ele ficava, pensando que o meu comportamento era por
causa do combinado. Só quando tudo acabou, e
eu expliquei que tinha desistido da brincadeira no meio,
é que ele entendeu. Nunca mais fizemos aquilo.
Ela
jamais havia me dito tal coisa. Sempre que me revelava
algum segredo certa angústia me dominava. Quantos
outros dados ocultos existiriam em sua vida?
—
Essas brincadeiras são arriscadas. A pessoa precisa
estar segura do que quer — falei.
—
Você não tem com que se preocupar, Leon.
Se estivesse ficando maluco eu saberia.
—
E como você pode ter tanta certeza?
Olhou-me
sem nada dizer. Sorriu.
—
Lembrei de uma brincadeira que a gente fazia... aquela
em que no meio de uma conversa, de repente você
começava a falar umas coisas sem nexo. Eu também
entrava no jogo, dizendo coisas ainda mais sem sentido.
Era engraçado, eu me divertia muito.
“Mas
era tudo verdade!” A brincadeira havia sido uma
forma de sondá-la em relação aos
meus desejos. O jogo no qual eu dizia coisas sem nexo
me preservava do repúdio que ela poderia ter
por mim.
—
De onde você tirou essa idéia? Nunca percebeu
que aquilo tudo era verdade?
—
Como assim? Quer dizer então que...
—
Sim, cada palavra. Eu nunca fui tão sincero —
retruquei, seriamente.
Riu,
olhando-me como se tivesse descoberto um segredo.
—
Muito engraçado. Fazendo a mesma brincadeira.
Pode desistir, eu não caio mais nessa.
Recusava-se
a aceitar a realidade ou continuava nosso jogo?
A
vegetação do Aterro do Flamengo brilhava
sob o sol. O prédio antigo tinha a fachada maltratada.
Na sala que dividia com Daniel e Gustavo, Liz abriu
as janelas, ligou o micro.
—
Antes de você usar o scanner, eu preciso
terminar um trabalhinho — falou.
Usar
o equipamento de Liz me constrangia, sua gentileza quase
sempre assumia para mim ares de piedade. Minha próxima
compra significativa seria um scanner.
—
Pronto, acabei — disse ela, depois de alguns minutos.
— Agora eu preciso entregar esse trabalho. Não
vou poder te fazer companhia, mas fica à vontade.
Quando eu voltar você ainda vai estar aqui? Eu
só vou ao Centro. Se você me esperar, a
gente almoça junto.
—
Tudo bem, eu te espero.
Ela
saiu. Iniciei o trabalho. Podia ouvir a movimentação
no corredor, gente chegando para trabalhar nas outras
salas. Vozes amigáveis. Pessoas dispostas. Deviam
trabalhar no que gostavam. A chave girou na fechadura
pelo lado de fora. Daniel abriu a porta.
—
Oi, Leon! Você por aqui! Tudo bem? — falou,
estendendo a mão na minha direção.
—
Tudo, e você?
—
Bastante ansioso. Não vejo a hora de saber como
vai ser a cara da minha filha!
—
Quantos meses faltam?
—
Cinco. Mais da metade!
—
Aposto que a Sílvia não está tão
ansiosa quanto você.
—
A Sílvia? Ela às vezes até esquece
que está grávida. E eu ainda tenho que
tomar conta dela, evitar que cometa excessos —
disse, bem-humorado. — Meu amigo, não queira
ser pai, você não faz idéia da tensão
que é.
—
Mas isso nunca me passou pela cabeça. Eu não
tenho vocação pra cuidar de crianças.
—
Eu também já pensei assim, mas isso foi
há muito tempo...
—
Você quer dizer que com a maturidade a gente acaba
mudando de idéia?
—
No meu caso, não só com o amadurecimento,
mas também com o amor.
—
Mas que horrível! — brinquei. — Então,
como não dá pra gente evitar a maturidade,
é melhor não amar nunca!
—
Você e a Liz são tão radicais! Onde
ela está? — indagou, sem me dar chance
de retrucar.
—
Ela foi ao Centro entregar um trabalho, mas disse que
não demorava.
—
Essa mulher tem estado tão desobediente, tão
rebelde... — troçou. — Ela também
tem sido assim com você ultimamente?
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