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"Evidentemente,
na hora da publicação,
ele se veria forçado a modificar
aquelas páginas: a menos que
ela morresse nesse ínterim.
Enquanto isso, sempre que as relesse,
ele se sentiria vingado! 'Em certo
sentido', pensou, 'a literatura é
mais verdadeira que a vida. [...]
No papel, a gente vai até o
fim daquilo que sente'. Examinou,
mais uma vez, a cena do rompimento.
Como se rompe facilmente no papel!
A gente odeia, grita, mata, se mata,
vai até o fim: e é por
isso que o que se escreve é
falso. 'Vá lá', pensou
ele; 'mas dá satisfação,
muita. A gente na vida se nega a si
mesmo sem cessar, e os outros nos
contradizem. [...] No papel, faço
o tempo parar e imponho ao mundo inteiro
as minhas convicções,
que se tornam a única realidade'." |
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| Simone
de Beauvoir | Os Mandarins |
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Acabei
decidindo pela carta, ponto de partida para nossa conversa.
Releio o texto que levei quase o dia inteiro para compor.
Ele me soa meio ridículo com as palavras meticulosamente
selecionadas. Tentei sintetizar o que se passa comigo,
mas como é difícil traduzir o que sinto!
Por que penso ter essa habilidade? Eu não controlo
nada, nem mesmo as palavras por mim escolhidas, domino-as
apenas parcialmente, quando começarem a ser lidas
estarão sujeitas à interpretação
de Liz, que lhes dará outras conotações,
outros significados.
Deveria
ter escrito manualmente minhas frases incompreensíveis,
mas rendo-me à praticidade da informática
— essa modernidade escravizante. Liz não
gosta de cartas impressas, acha-as impessoais. Acredita
que a escrita de próprio punho seja forma de
atenção. Paciência. Não tenho
ânimo para reescrever o que foi tão difícil
regurgitar.
Com
o peso que me oprime registrado no papel sinto-me mais
leve. Agora ele também está do lado de
fora, palpável, real: a carta em minhas mãos,
o envelope azul, meus problemas, minhas palavras, escrita
que já não me pertence... problemas para
Liz.
Por
que penso tanto? Sei como isso é perigoso no
meu caso, sei exatamente como me convencer a desistir
do que não devo. Não posso ficar pensando,
preciso agir, hoje ainda, agora mesmo. Tenho que me
comprometer a ponto de não poder voltar atrás.
Absurdo esperar o tempo que o correio levaria para entregar
a carta. Farei isso pessoalmente. Não posso fraquejar
como tantas outras vezes. Coragem. Serei o portador
dessa carta covarde. Um pretexto, tudo o que preciso.
—
Alô! Daniel?
—
Tudo bem, Leon?
O
telefone ficava perto da mesa de Liz, geralmente Daniel
o atendia. Eu gostava dele, mas nossa amizade nunca
havia se aprofundado como eu gostaria. “Falta
de oportunidade”, lamentava-me. Desde que Liz
resolvera dividir a sala com ele eu aproveitava os momentos
de contato para exercitar aquela possibilidade. Mas
hoje eu tinha pressa. Fui abrupto:
—
A Liz está? Ela pode falar comigo?
—
Claro, só um minuto.
Ouvia
a voz dela ao fundo, seus risos, conversava com alguém,
talvez Gustavo, ou uma das meninas da sala ao lado.
Surpreendente a facilidade que tinha para fazer amigos.
—
Oi Leon, tudo bem? Ainda agora lembramos de você.
Eu disse ao Danny que o filme que a gente assistiu na
semana passada era muito ruim, e que você não
tinha achado nada de mais aquela atriz americana.
Danny.
Por que se referia a Daniel usando esse diminutivo ridículo?
O apelido afetuoso o deixava em posição
de destaque. Por que ela nunca havia escolhido apelido
para mim? Danny. O maldito diminutivo me irritava, sentia-me
diminuído sempre que o ouvia. Deveria comentar
o que Liz acabara de dizer, mas pela ansiedade —
e agora irritação —, fui direto
ao ponto:
—
Você vai estar à noite na sua casa? Eu...
posso dar uma passada por lá?
—
Sim, vai ser ótimo! O Danny me emprestou o vídeo
com aquela versão moderna de Romeu e Julieta.
—
Legal...
—
Te espero à noite em casa, então. Se ficar
muito tarde, você pode dormir lá.
—
Tudo bem. Um beijo.
—
Outro pra você.
Danny.
Desde quando deu esse apelido a ele? Por que não
consigo evitar comparações entre nós
dois?
Sempre
fui contra a idéia de Liz deixar de trabalhar
em casa para dividir a sala com Daniel e Gustavo. Na
ocasião, não disse que discordava de seus
planos. Só depois de deixar claro a importância
da proposta ela quis saber o que eu pensava. Hesitei.
Sabia que Liz esperava meu apoio. Falei o óbvio:
continuar em casa ou dividir a sala não mudava
o caráter incerto do trabalho, mas aceitando
a proposta ela assumiria um compromisso do qual não
se desvencilharia facilmente. No fundo, não me
importava tanto com as possíveis complicações
de Liz. O que me inquietava era ver que com o novo esquema
de trabalho ela não teria mais tempo de continuar
nosso livro conjunto. Sentia-me egoísta. Tolo
também. Liz já havia desistido de tudo,
só não tinha coragem de dizer. Devia estar
com pena de mim, esperando eu perceber sua desistência.
O que me magoava não era tanto a desistência
em si, mas o fato de Liz não admiti-la para mim.
Por que não foi sincera comigo?
Agora
que passam o dia juntos terão chance de aprofundar
a “dependência” que acaba se criando
com alguém que se gosta e se encontra diariamente.
Não foi o que aconteceu com a gente? Ciúme,
é isso. Ciúme de Liz, sei como Daniel
é importante para ela. Ciúme de Liz ou
inveja de Daniel?
Havíamos
cursado os três a mesma faculdade, eu e Liz numa
turma, Daniel em outra. Eu só o conhecera superficialmente,
mas Liz e ele tinham amigos em comum. Ela sempre me
falava bem de Daniel, as coisas que ele fazia, o que
pensava, as conversas que desenvolviam... Eu tinha impressão
de conhecê-lo e estimá-lo tanto quanto
ela. Liz lamentava que Daniel e eu não nos encontrássemos,
não fôssemos amigos. Só agora —
passados mais de dez anos —, por causa da maldita
sala, nossos encontros estavam acontecendo. Mas por
que Daniel parecia representar uma espécie de
ameaça? Também sou importante para Liz,
ou não? Se eu ainda fosse o mesmo amigo de sempre...
não precisaria escrever a carta... Por que ela
nunca me deu apelido? Meu nome é curto, não
se presta a diminutivos. Talvez por isso Liz sempre
tenha me chamado de Leon.
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Liz
colocou o fone no gancho. Estranhou as reticências,
a pressa de Leon. “Ele é sempre tão
falante!...”, pensou, quase desconfiada. Ultimamente
algo não ia bem entre eles, mas preferia não
pensar nisso. Deixava as coisas se encaminharem por si
mesmas esperando que se resolvessem sozinhas, ou caíssem
no esquecimento. Há algum tempo vinha adotando
esse método para tratar os assuntos confusos entre
ambos. Tinha dificuldade em lidar com sentimentos, os
seus, os das pessoas com quem se envolvia, os sentimentos
daqueles que lhe devotavam o que ela não podia
corresponder. Não queria magoar ninguém,
não achava justo sofrerem por sua causa. Procurava
não pensar no que não sabia resolver. Por
isso, não cabia perguntar a Leon sobre coisas que
talvez só existissem em sua mente com tendência
a complicar tudo.
—
O que foi? — indagou Daniel, notando o instante
de ausência de Liz.
—
Nada. O Leon estava esquisito...
—
É, a gente sempre conversa quando ele liga pra
cá. Vai ver estava ocupado.
—
Pode ser, mas faz algum tempo que eu venho sentindo ele
meio estranho.
—
Ainda aquele velho problema?
—
Não, acho que não... espero que não.
Deve ser outra coisa...
O
telefone tocou. Um cliente que Daniel aguardava. Conversa
interrompida. Estavam acostumados a diálogos fragmentados
naquela sala. A descontração do estúdio
amenizava quase tudo, inclusive o peso de algumas tarefas.
Às vezes o trabalho parecia se desenrolar como
pano de fundo, motivo para encontros. A rara presença
de Gustavo quase os fazia esquecerem que o espaço
era partilhado por três. Liz e Daniel viam a ausência
do amigo com certo alívio; as implicâncias,
falta de modéstia, as polêmicas que Gustavo
criava sempre os aborreciam.
A
tarde começava a se transformar em noite. Liz voltou
ao computador a fim de terminar as estampas iniciadas
pela manhã. Ainda não tinha definido as
cores com exatidão, era demorado achar um meio-termo
entre o que mostrava o monitor e o resultado impresso.
Poderia ter feito desenhos simples, mas trabalhos interessantes
necessitavam certa elaboração. Quase sempre
perguntavam, impressionados, quando apresentava os layouts:
“Como você conseguiu esse efeito?” Agradável
observar na surpresa alheia o reconhecimento por sua criatividade.
Mas gostaria que ao seu empenho houvesse uma justa compensação
em dinheiro — o que raramente acontecia. Desagradável
sempre ceder às pressões dos clientes —
se não aceitasse as condições deles
não teria trabalho algum a fazer.
A
impressora concluiu a primeira estampa. Havia anoitecido,
a ausência de luz natural dificultava a análise
precisa das cores. Ainda assim, decidiu imprimir a segunda
estampa. Antes que o processo terminasse a tela do micro
congelou, paralisando a impressão, travando o mouse.
Desistiu
das impressões, terminaria o trabalho no dia seguinte,
com atraso, como de costume. “Por que estou sempre
adiando tudo?”, pensou, desanimada. Desligou o micro,
apanhou a bolsa e despediu-se de Daniel, ainda ao telefone.
No
elevador, lembrou-se dos congestionamentos na volta para
casa, tão longe do estúdio. Atravessou a
rua, entrou no carro. Afivelou o cinto de segurança.
Girou a chave na ignição, pisando no acelerador.
Suspiro de fadiga. Quantas vezes tinha executado as mesmas
ações nos últimos meses? Quantas
vezes ainda as repetiria? De repente, sentiu um peso que
parecia esmagá-la. Por que, a princípio,
tudo a estimulava e logo em seguida se convertia em rotina
estagnante? Isso aconteceria sempre? O trajeto Flamengo-Penha
pareceu um desafio, prova de resistência à
qual deveria estar habituada, mas que não estava.
Acendeu os faróis, soltou o freio de mão,
engatou a primeira, pisou no acelerador. Não demorou
a ficar retida no engarrafamento. Seu corpo reagia mecanicamente:
embreagem, primeira, acelerar, frear, ponto-morto, reiniciar
o processo. Quantas vezes? Quantas vezes mais?
Trabalhar
com Daniel, um de seus poucos prazeres. Sempre se divertia,
aprendia muito com ele. Importante ter por perto alguém
que a compreendia, com quem havia tanto a trocar. Às
vezes lembrava-se da época em que haviam dividido
outra sala: complicações por causa do relacionamento
dela com Lúcio, dificuldade de o namorado arranjar
uma colocação que o tornasse participativo,
a vontade que ela sentia de acabar com aquela relação,
suas próprias dificuldades em encontrar clientes...
e Daniel envolvido naquela sociedade truncada. Sentia-se
culpada pelo fracasso conjunto iminente — a idéia
de levar Lúcio para o grupo havia sido dela. O
dia em que Daniel concluiu que não podiam continuar
daquele jeito, melhor seria deixarem o lugar, ficou aliviada.
Entregaram a sala, venderam aparelhos, se desfizeram de
móveis... Por fim, rompeu com Lúcio. Por
que sempre esperava as coisas chegarem ao extremo para
fazer o que, antes, teria poupado transtornos? Não
queria magoar ninguém. Nem sempre o conseguia.
Agora
não estava mais num emaranhado de problemas que
desviavam sua atenção do que devia importar.
E o que importava, afinal? Ser bem-sucedida profissionalmente?
Ter um trabalho que lhe desse prazer e sustento? Realizar-se
como mulher? Ser feliz? Tudo isso junto? Não estava
realizada, nem satisfeita, tampouco feliz, com nada. Por
quê? O que era preciso para tanto? O que realmente
buscava? Sentia-se sozinha. Acreditava ser uma pessoa
melhor quando não tinha relacionamentos amorosos,
mas de tempos em tempos necessitava de alguém que
colorisse sua pálida existência. A vida era
curta, o mundo era vasto: nunca chegaria a conhecê-lo
totalmente enquanto vivesse. Tanto a aprender, saber,
ver! Eterna viajante mundo afora, descobrindo lugares,
pessoas, paixões... seria o ideal. Vontade inviável.
Não haveria meio-termo? Sempre desejara viver intensamente,
o futuro apontando inúmeras novidades. Queria viver
tudo de uma vez, sem tempo de se entediar, sem chance
de perceber que a vida era um insípido e monótono
desfiar de horas, dias, meses, anos...
As
frases no postal vindo da Alemanha começaram a
ecoar em sua mente: “Quer viajar comigo conhecendo
cidades européias? Tenho duas bicicletas”.
Parecia perfeito. “Franz!... quanto tempo nos separa?...”
Ansiava reencontrá-lo, mas temia que ele não
a reconhecesse na mulher em que se transformara. Será
que Franz ainda se lembrava dos beijos trocados nos montes
de feno no celeiro, enquanto a neve caía? Ela não
esquecera. Bonito sonho de jovem pouco experiente, clichê
difícil de aceitar. Por vezes, custava a crer que
vivera aquele esboço de romance, que havia estado
nos braços do belo jovem louro, que tinham se despedido
prometendo reencontro... Não era mais tão
jovem. Uma mulher de 34 anos, profissional competente
desencantada com o trabalho, desiludida com os clientes,
romântica, solitária, inconformada consigo
mesma, com o mundo à sua volta.
Trinta
e quatro anos... o que havia feito até agora? Nada
importante. Sua vida... amontoado de saberes abandonados,
conhecimentos pouco estimulantes que tentava inutilmente
aprofundar, relações complexas e desgastantes
das quais sempre emergia mais forte, experiente... e insatisfeita.
Eterno recomeçar. Até quando?
Detestava pensar no passado. Evitando-o, bania da memória
todos os maus momentos... os bons também. Tanto
melhor. Mesmo o presente figurava em sua vida em segundo
plano. Pensava sempre no futuro, suas energias e esforços
convergiam para o tempo em que seria livre, sem satisfações
a dar, sem culpas e remorsos, sem decisões difíceis
a tomar, sem tristezas e sofrimentos... Apenas amores,
alegrias, amizades, prazeres... Precisava mudar. Sentia-se
velha demais para não ter resolvido problemas básicos.
Dera tempo ao tempo, e o que tinha acontecido? Nada. Rigorosamente
nada. Inadmissível deixar a vida passar sem fazer
algo significativo para lhe dar sentido. Viajar, tudo
o que necessitava no momento. Férias para descansar
das complicações, conhecer lugares diferentes,
e rever Franz! Dessa vez seria dele, ele seria seu. Rascunho
passado a limpo. Queria esquecer quem era, buscar novas
sensações. Precisava de amor, um homem que
a amasse. Não namorava há quase dois anos.
Que eternidade! Franz... o que sentiria por ela? Já
fazia tanto tempo!...
Um
homem que a amasse... Não, não era o que
necessitava. Leon a amava, de que isso servia? Não
conseguia desejá-lo. Amava-o, só que não
do modo que ele gostaria. Não, precisava de um
homem que ela amasse, e que se deixasse amar.
Abriu
o portão, estacionou o carro. Deteve-se um instante
afagando dois gatos junto ao muro. Seguiu para a casa
que dividia com a irmã e a avó na pequena
vila particular. Passou pela casa da frente, onde viviam
seus pais: janelas e portas fechadas, luzes apagadas.
Entrou na casa de trás. Encontrou Leon na sala,
assistindo televisão com Luísa e D. Nina.
“O
que ele veio fazer aqui?” Sabia que Leon tinha
motivo para tudo, principalmente para uma visita noturna.
Pediu que ele a esperasse na sala enquanto trocava de
roupa.
—
Você já jantou? — indagou ela, voltando
do quarto.
—
Eu estava esperando você chegar.
—
Então vamos pra cozinha.
Leon
sentou-se à mesa. Liz começou a aquecer
as panelas sobre o fogão.
—
Como vai o trabalho? — perguntou a ele.
—
A mesma droga, os malditos desenhos de sempre —
respondeu, com fastio. — Cada vez mais tenho vergonha
do que eu faço.
—
A gente sofre do mesmo mal, mas temos que ganhar dinheiro.
Eu também não gosto do meu trabalho, mas
acabei me especializando nele.
—
É horrível a gente afundar num sistema
que não tem interesse em fazer parte só
pra não se tornar ultrapassado, pra poder competir
no mercado de trabalho. Uma prisão. Uma prisão
onde a gente mesmo se tranca. Se pelo menos fosse possível
mudar... É melhor falar de outra coisa, senão
vamos ter uma indigestão.
Serviram-se
das panelas, começaram a jantar.
—
E os preparativos pra viagem? Você está
conseguindo juntar dinheiro? — indagou Leon.
—
Muito pouco.
—
O Franz já deu notícias?
—
Ainda não. No postal que me escreveu ele
disse
que ia mandar uma carta detalhada. Só que a carta
não chega nunca! Já se passaram três
semanas, e nada!
—
Quanta ansiedade! Por que a pressa agora?
—
Eu só queria ter mais informações,
pra poder traçar os meus planos.
—
Você traçando planos? Que coisa inédita!...
— ironizou Leon.
—
Sei que eu não sou de planejar, mas dessa vez
não quero que nada dê errado.
—
Mas você já não ia viajar mesmo
antes do convite dele?
—
Sim, mas agora eu preciso pensar melhor. Não
quero deixar tudo pra cima da hora.
—
Oito anos, não é isso? É bastante
tempo. Ele deve ter mudado muito.
—
Fisicamente sim, mas o resto... Ele só me mandou
quatro fotos nesse tempo todo. Na última não
tinha mais a cara do garoto divertido que subiu os Alpes
comigo. Estava meio sério.
—
Você não me mostrou essa foto.
—
Não? Depois eu mostro.
—
Acha uma boa idéia viajar com a Luísa?
— indagou, em voz baixa.
—
Eu não gosto de clima familiar em viagens, ainda
mais nessa. Mas ela é minha irmã, vai
ser a primeira vez que sai do Brasil. A Luísa
não tem o mesmo espírito aventureiro que
eu, falou que só ia viajar por minha causa, e
já fez tantos planos que eu não posso
mais recusar. E depois, só vamos ficar juntas
sete dias. O que é uma semana em um mês?
Talvez seja até divertido.
Depois
do jantar, foram para a sala. Liz colocou a fita de
vídeo. Ao se deitar no sofá, notou certo
abatimento no rosto de Leon, sentado à poltrona.
O
filme durou duas horas. Todos os comentários
haviam sido de Liz e Luísa.
—
E aí, gostou? — perguntou a Leon, colocando
a fita para rebobinar.
Antes
que ele respondesse, Luísa atalhou:
—
Eu acho que não. Ele ficou mudo o tempo todo!
—
É estranho ver um filme inédito que já
se sabe o fim. Parece uma reprise.
—
Mas Leon — disse Liz —, e a transposição
da história medieval pros dias de hoje sem perder
o sentido e sem alterar a lógica de Shakespeare!
Você não achou o cineasta competente?
—
Eu não disse que não tinha gostado do
filme, só não me surpreendi.
—
Eu achei válida a refilmagem. Uma visão
nova sobre a mesma história.
—
Tem razão. Estou um pouco cansado, e acho que
não me concentrei no filme.
Liz
sabia que dificilmente Leon admitia suas falhas. Algo
o preocupava. Ele não falaria enquanto não
estivessem a sós. Com o pretexto de preparar
a cama em que Leon dormiria, chamou-o para o quarto.
Ele levou a pasta com a carta.
Começou
a retirar as almofadas que transformavam a cama num
sofá.
—
Mas eu ainda não estou com sono! — protestou
Leon, observando-a.
—
Só estou deixando tudo pronto pra quando você
quiser dormir.
—
Você já se perguntou o que eu vim fazer
aqui hoje?
—
Veio me visitar... é meu amigo — falou,
vestindo a fronha no travesseiro.
—
Mas não te pareceu que não havia um motivo
razoável pra essa visita?
—
Eu não estou entendendo, Leon. Você podia
ser mais claro? Fala logo.
—
Não posso, eu não consigo dizer o que
preciso! — reclamou, tirando da pasta o envelope.
— Eu não consigo falar, mas você
pode ler.
—
Leon... mas o que é isso...?
Pegou
a carta, intrigada, curiosa. Sentou na cama que acabara
de preparar, abriu o envelope, começou a ler
as folhas de papel azulado. Pesar, tristeza, insatisfação
em cada linha. Então era assim que ele sentia
os acontecimentos entre ambos? Desagradável saber
que ainda fazia o amigo sofrer. O texto estranho a fez
conscientizar-se definitivamente de duas coisas: Leon
não havia se libertado das conseqüências
do incidente entre ambos, e ela — sem o desejar
— simbolizava uma espécie de realização
pessoal para ele. Leon revelara toda a verdade. Tudo
o que ela não queria pensar, nem saber, agora
não podia mais ignorar. Ele tinha sido sincero.
Ela não podia mentir. Novamente a hora da verdade
— quantas vezes mais?
—
Terminei — falou, recolocando a carta no envelope.
Olhava-o fixamente, querendo certificar-se de que lera
algo escrito pelo homem na sua frente, homem que tinha
dificuldade em enxergar como tal. Por que os amigos
pareciam não ter sexo?
Ele
aproximou-se da cama, cabisbaixo, como se houvesse feito
algo errado.
—
Leon... achei que você tivesse superado... que
não sentisse mais isso por mim.
—
Eu também, mas me enganei.
—
Cheguei até a pensar em te ajudar nisso, mas...
com que cara a gente ia se olhar no dia seguinte?
—
Pára, não precisa continuar. Você
tem razão.
—
Não, Leon, a gente precisa acabar de uma vez
com esse assunto! — falou, enfatizando as duas
últimas palavras. Tentava não se exaltar,
não queria constrangê-lo ainda mais. Foi
direta:
—
Uma vez eu disse que sentia algo estranho quando a gente
estava junto. Não sabia bem o que era, e resolvi
deixar as coisas ficarem claras. Não era atração
o sentimento que eu não conseguia classificar,
pelo menos não da forma que eu sempre havia sentido.
Mas insisti: não seria uma questão de
força de vontade amar alguém que eu já
gostava tanto? Não funcionou. Por mais que eu
me esforçasse, não conseguia te desejar.
Era um erro continuar. Eu não achava certo ir
até o fim do que não me interessava, do
que me constrangia. Eu ia criar um problema ainda maior.
O sexo é prazeroso... não seria justo
fazer isso com você. Sem querer, eu ia te prender
numa armadilha.
—
E por que você nunca me falou nada?
—
Eu tentei, mas você parecia tão envolvido!...
Tudo o que eu fazia só piorava a situação.
—
Mas Liz...
—
Eu sei, eu não soube lidar com o problema. Eu
não queria te magoar, nem te perder. Você
era meu amigo! Alguém muito especial pra mim!
Eu te amava, só que de outro jeito.
—
Mas acabou me perdendo! Ficamos dois anos afastados.
E se eu não te procurasse a gente nunca mais
ia se ver. Por que, naquela época, você
não foi sincera como agora? Teria evitado tanto
sofrimento!... Mas não, preferiu se jogar nos
braços daquele cara em vez de me dizer a verdade.
Precisava se envolver com ele? Quando reatamos, você
disse que só tinha namorado o Lúcio por
minha causa e...
—
Eu não disse isso — interrompeu-o. —
Eu namorei o Lúcio por...
—
Disse sim, você sabe que sim! E eu me sinto culpado
por isso. Acabei fazendo você sofrer nas mãos
daquele cretino.
—
Vamos deixar o passado pra lá. Já acabou.
Pra quê remoer isso?
—
Acabou?! É por causa desse passado mal resolvido
que a nossa amizade está desse jeito!
—
Leon, você é meu amigo, eu sou sua amiga.
Você não gostaria que fosse sempre assim?
—
Mas Liz, que amizade é essa? Você esconde
de mim as coisas mais importantes da sua vida! Eu me
sinto um imbecil. Você acha que eu não
sei o que está acontecendo?
—
O que foi que o Danny te contou?
—
Daniel? Ele não me falou nada. Mas você
achou que podia evitar que eu soubesse de tudo? Por
que sempre tenta me proteger como se eu não pudesse
suportar a verdade?
—
Eu não queria que você sofresse.
—
E por que eu sofreria se você me dissesse o que
se passa contigo? Eu sofro bem mais sendo tratado como
alguém que precisa ser poupado. Como pensa que
eu fico quando você me sonega informações
que distribui aos outros? Eu me sinto péssimo,
é como se você me odiasse.
—
Mas não é nada disso! Eu... eu...
—
Liz, esquece que eu te amo. Por que não me trata
como o amigo que espera que eu seja?
Não
era ela que deveria esquecer o amor trazido à
tona mais uma vez. Leon precisava se livrar daquele
sentimento unilateral. Enquanto houvesse aquela sombra
entre os dois nada estaria resolvido. Mas precisava
acreditar, se ele dizia que aquele amor não importava
tinha de aceitá-lo.
—
Eu devia ter contado sobre o Franz — falou ela.
— Mas nem eu mesma sei no que essa história
vai dar.
—
Eu só quero que você me trate como uma
pessoa normal, como um amigo de verdade.
—
Tudo bem. Não vou mais te poupar de nada.
—
Ótimo. E o outro assunto da carta? O nosso livro.
—
Sei que abandonei um pouco o livro, mas é que
eu ando muito ocupada. No estúdio, eu fico o
dia inteiro no micro. À noite me sinto cansada,
sem ânimo. Tenho que voltar pra casa, onde não
tenho mais o computador. Eu pensei até em comprar
outro, mas agora não dá. E depois, eu
não tenho o seu ritmo, o meu tempo é diferente
do seu.
—
Então você não pretende continuar
o nosso livro? Você gosta de escrever ou não?
—
Não, eu quero continuar! Gosto muito de escrever,
mas tenho outros planos agora. É horrível
te pedir pra me esperar... não tenho esse direito,
mas é que... Ai, o que é que eu faço?
—
Tudo bem. Eu espero você voltar da viagem, e a
gente decide o que fazer.
—
Todos os assuntos resolvidos, meu amigo? — indagou,
olhando-o ternamente.
—
Por enquanto, acho que sim.
A
conversa havia sido definitiva para ela. Precisava provar
a Leon que não existiriam mais assuntos ocultos
entre eles. Levantou da cama, abriu a gaveta da cômoda,
apanhou uma fotografia.
—
Olha só! — disse, entregando a
foto a
Leon, tornando a sentar diante dele.
Leon olhou a imagem onde dois rostos se sobrepunham,
o mesmo rosto: um rapaz sério numa sala escura
sob a projeção luminosa de um rapaz mais
jovem ainda, que sorria.
—
Ele não é lindo? — falou, orgulhosa.
—
Qual deles?
—
Mas é a mesma pessoa.
—
Eu sei disso. E qual dos dois você acha mais bonito?
—
Acha que eles são muito diferentes?
—
Você não?
Havia
tido impacto semelhante quando observara a foto pela
primeira vez. Tanto olhou os dois rostos que se acostumou
a eles, não conseguindo ver diferença
entre o Franz do passado e o do presente.
—
É só uma impressão inicial —
disse ela. — Não é uma foto interessantíssima?
—
Ainda mais com essa simbologia: o passado feliz em oposição
ao presente sombrio.
—
Você ficou impressionado. Deixa eu pegar as outras
fotos dele — falou, voltando à mesma gaveta.
Apanhou também um maço contendo cartas,
postais, fitas cassete.
—
Você tem um verdadeiro dossiê sobre o cara!
— disse Leon, no tom irônico que a divertia.
— Ah, as fotos que tirou quando esteve com ele
na Suíça!... Liz, eu tinha esquecido como
você era sem graça quando mais nova.
—
O quê?!
—
Olha essa! — falou, virando a fotografia para
ela. — Que desengonçada! — completou,
rindo. — Como você mudou! Está muito
mais bonita hoje, mais... mulher.
—
Engraçado, o Danny disse a mesma coisa dia desses.
Falou que depois dos trinta a minha beleza tinha aflorado.
É claro que eu ri disso, sei que não sou
bonita — admitiu. — Será que o Franz
também vai me achar muito diferente?
—
Você quer dizer mais bonita?
—
Diferente — insistiu.
—
Se ele só tiver as fotos antigas, talvez. Mas
acho que vai gostar da diferença.
—
Eu mandei outras fotos, mas tenho medo que durante esse
tempo ele tenha criado uma imagem irreal de mim.
—
Você também criou um Franz que só
existe na sua cabeça. Oito anos separados, essa
troca restrita de cartas...
Isso
não tinha importância agora. Sem dúvida,
Franz havia amadurecido. Se houvesse conservado algo
do jeito divertido e brincalhão, um pouco de
maturidade só contribuiria para transformá-lo
em alguém ainda melhor. Seu receio quanto ao
reencontro não era decepcionar-se com Franz,
mas de não corresponder à expectativa
que provavelmente ele deveria ter criado.
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