MÍDIA | ENTREVISTAS
Você sabe o que é Design de Superfície?
Katia Bonfadini |  fevereiro de 2010
Publicado originalmente no blog Casos & Coisas da Bonfa

O desenho sempre esteve presente na minha vida. Quando criança nenhuma outra brincadeira me parecia mais interessante e divertida que desenhar, inventar mundos imaginários, e usar cores para dar vida às formas recém-criadas. Todos diziam que eu tinha muito jeito com desenho, e eu acreditei no que ouvi. Tanto que, mais tarde, na época do vestibular, consegui entrar na Escola de Belas Artes da UFRJ. Formei-me em 1985. Percorri um caminho tortuoso no universo do design desde minha formatura, mas hoje posso dizer que realmente adoro o que faço e não trocaria este ofício por nenhum outro. Minhas estampas estão sendo comercializadas nos EUA e na Europa. Alguns desenhos meus foram publicados numa revista internacional de tendências e, recentemente, num livro especializado no assunto. Minhas padronagens estão sendo utilizadas no segmento de decoração e também por alguns estilistas de moda praia. O que mais tem me agradado ultimamente é ver o resultado do meu trabalho aplicado em produtos diversos. Esta é uma das vantagens do design de superfície: ele oferece um campo praticamente ilimitado de imaginação e inventividade.

Wagner, conta pra gente: o que é design de superfície?
Para mim é um processo que alia criatividade e técnica na concepção e execução de desenhos ou imagens projetados com determinada finalidade para aplicação em superfícies. Seu objetivo é apresentar ideias funcionais e estéticas levando em conta os diferentes métodos e materiais. 

Qual foi seu primeiro contato profissional com este segmento do design?
Em 1989 tive a oportunidade de trabalhar numa fábrica de material vinílico como desenhista de padronagens. Na verdade, eu nunca havia trabalhado nesta função e precisei fazer um teste que levou praticamente o dia todo. Depois de aprovado, comecei a descobrir, na prática, o que era exatamente desenhar padronagens — e adorei as “descobertas”! Elaborar desenhos que se emendavam continuamente através de módulos e ver o resultado impresso desse trabalho em papel de parede, revestimento para estofados e muitas outras superfícies vinílicas foi não só uma grande novidade, como uma surpresa gratificante. Muito do que sei hoje aprendi nesta fábrica, num tempo em que os computadores não existiam e tudo tinha que ser feito com lápis, tintas e pincéis.   

Você sempre trabalhou como designer de superfície?
Não. Depois de 3 anos como desenhista de padronagens a empresa extinguiu o departamento de marketing, fazendo com que eu procurasse outro trabalho. Eu pretendia continuar na mesma área, mas, naquela época (1991), não havia ainda muito mercado para este ofício. Assim, acabei trabalhando em outros segmentos do design (comunicação visual, design gráfico, webdesign). Mas estas outras especialidades não me davam tanto prazer quanto o design de superfície. Em 2003 surgiu uma nova oportunidade de trabalhar com padronagens, um projeto envolvendo diversos designers na criação de estampas com uma linguagem genuinamente brasileira. Não pensei duas vezes. Lamentavelmente, o projeto não teve o sucesso esperado. Entretanto, certifiquei-me de que o universo das estampas e padronagens era realmente o que mais me atraía e estimulava em termos de design. A partir de então comecei a tentar trabalhar apenas com o que me agradava. Só recentemente, de uns 4 anos pra cá, tenho me dedicado exclusivamente ao design de superfície. 

Seus trabalhos têm mais projeção no exterior do que no Brasil. A que você atribui este fato?
Creio que isso se deve a 2 fatores. Primeiro, aqui no Brasil ainda existe uma mentalidade — totalmente ultrapassada! — que valoriza apenas o que vem de fora. Como não era (é) muito simples conseguir trabalho nesta área aqui, comecei a buscar espaço onde este ofício fosse valorizado. Ironicamente, no exterior, quase tudo envolvendo “Brasil & Design” interessa muito, e eu consegui fazer alguns contatos interessantes pela Internet. Além disso, uma agente em Londres me propôs representar e comercializar meu trabalho na Europa e EUA. Assim, acabei tendo algum reconhecimento no exterior muito antes de ser conhecido aqui. Por outro lado, justamente por conta da tal mentalidade mencionada acima, talvez meu trabalho só tenha começado a ter alguma visibilidade no Brasil por ter tido certa projeção internacional. Devo dizer que é muito importante ter algum portfolio online (blog, site, flickr, coroflot, etc), isso facilita enormemente não apenas a divulgação do trabalho, mas também possibilita prováveis convites e propostas. Há vários anos invisto bastante nessa espécie de “vitrine” chamada Internet, sobretudo através do meu blog. O resultado pode até demorar um pouco, mas se o trabalho tiver qualidade ele certamente será visto.  

Onde você busca inspiração para suas criações? Como escolhe as cores? Você segue tendências?
Tudo pode ser fonte de inspiração para mim: desenhos, pinturas, fotos, filmes, livros, música... Entretanto, como fotógrafo amador, admito que as cores e formas da natureza — a nossa em especial — têm sido fonte inesgotável para a maioria dos meus desenhos. Mas acredito que a fonte de inspiração deve estar de algum modo vinculada ao objetivo que se pretende alcançar: quando tenho que seguir determinada tendência não há como fugir de “algo inspirador” ligado ao tema a ser explorado.
Sobre as cores, eu procuro sempre um resultado harmonioso levando em conta as formas. Cada estampa precisa ser entendida como um todo que poderá ser percebido tanto de perto quanto de longe. As cores devem funcionar de modo a destacar do fundo os elementos significativos, mas também devem criar uma sensação de integração entre as figuras em destaque e o próprio fundo no qual se apóiam. Ou seja, a harmonia e o equilíbrio devem existir o tempo todo.
Nem sempre sigo tendências, pois elas podem ser muito relativas. Há dois anos desenho para a Texitura, uma revista internacional de tendências. Neste caso preciso seguir as orientações fornecidas a fim de criar padronagens originais segundo os temas propostos. É um trabalho ao mesmo tempo desafiador e um tanto limitante, já que necessito me ater a determinadas temáticas e cores. Evidente que cada tema em si oferece uma série de possibilidades, mas eu nunca extrapolo essas “fronteiras” a fim de não fugir da proposta inicial. Eu também gosto de criar estampas que não estão ligadas diretamente a nenhuma tendência. Isso faz com que as padronagens não fiquem “datadas” e tenham um tempo maior de vida útil.

Fale sobre as estampas fotográficas e sua aplicação na moda praia.
Esta foi uma das maiores surpresas que tive recentemente. Uma estamparia digital com a qual eu tinha contrato queria padronagens que explorassem a riqueza de tonalidades e detalhes que as fotos podem ter. Eles me propuseram criar algumas estampas segundo estes critérios. Como eu tinha uma infinidade de fotografias que havia feito no jardim botânico não foi difícil escolher imagens que pudessem se transformar em padronagens. Curiosamente, quando criei as estampas não pensei, num primeiro momento, que pudessem ser utilizadas em moda praia. Apesar de toda a padronagem ter originalmente um fim determinado, nada impede que estas finalidades sejam alteradas. Assim, uma estampa criada para decoração pode ser adaptada para moda e vice-versa. Esta é outra das vantagens do design de superfície: as padronagens não estão rigorosamente limitadas e este ou àquele uso específico, com alguns ajustes tudo pode ser reaproveitado. Enfim, coincidentemente, 3 das “estampas fotográficas” foram vendidas para o segmento de moda praia — e eu fiquei muito satisfeito com o resultado, pois estas padronagens me pareceram perfeitas para a confecção de acessórios, maiôs, biquínis e kaftans.

Qual a maior dificuldade no seu processo criativo, ele é sempre o mesmo?
O mais importante — geralmente o mais complicado — é saber determinar o rapport. Rapport é o módulo de repetição, ou seja, o desenho (ou imagem) que repetido no sentido vertical, horizontal e diagonal vai dar a ideia de que a estampa é contínua. Este módulo, que pode ser quadrado ou retangular, precisa ter um encaixe perfeito para que quando repetido “desapareça” no meio do todo. É necessário que ele fique encaixado (e disfarçado) de tal modo que não se perceba claramente onde ele começa ou termina. Dependendo do grau de elaboração da estampa, esta pode ser a parte mais complexa do trabalho.
Meu processo criativo nem sempre é o mesmo, pois tudo depende do projeto, do cliente e dos interesses dele. Mas posso dividi-lo basicamente em 2 tipos: estampas feitas com imagens e estampas vetoriais (traço). Para cada uma destas vertentes o processo varia, pois é necessário usar programas diferentes para gerar os arquivos digitais. Devo dizer que posso desenhar diretamente usando o micro, mas costumo também desenhar muito a mão livre, mesmo que isso não transpareça no resultado final.

Como você definiria o seu estilo?
Considero meu trabalho diversificado e eclético. Tenho predileção por estampas que aliem formas e cores numa linguagem simples, bastante gráfica e alegre, mas também gosto de usar minhas fotografias na elaboração de padrões mais ricos em termos de nuances e texturas. Do mesmo modo, não gosto de limitar minhas estampas a este ou àquele segmento. Moda, decoração, papelaria... tudo me interessa, sempre! E cada vez mais me sinto estimulado a explorar e estampar novas superfícies!

Wagner Campelo: um artista versátil
Maria Luiza de Andrade |  fevereiro de 2009 
Publicado originalmente na FOLHA CARIOCA
Para o carioca Wagner Campelo, nada é mais estimulante do que criar, não importa a área de onde venha o desafio. Formado pela Escola de Belas Artes da UFRJ, começou a vida profissional trabalhando como ilustrador e diagramador numa editora de livros didáticos, num tempo em que não existia computador. Passou por escritórios de design, mas só a criação de logomarcas e o detalhamento de projetos não bastavam. Descobriu um interesse novo quando uma indústria de material plástico o contratou como desenhista de padronagens. A partir daí desenvolveu o gosto por este segmento específico do design.

Você é um artista versátil, atuando em várias áreas: designer, fotógrafo, e também escritor... em qual delas se sente mais à vontade, qual destas áreas lhe dá maior realização?
Cada uma das áreas mencionadas me realiza de forma diferente. Entretanto, se tivesse que escolher apenas uma diria que o design de superfície é o trabalho que faço com mais habilidade, é o que me dá maior prazer — já que praticamente não há limitações para criar, ou, quando elas existem, funcionam como uma espécie de desafio e certo estímulo. Tirar do nada e de si mesmo um desenho que consiga agradar a várias pessoas a ponto de despertar nelas a vontade de adquiri-lo é algo que, depois de tantos anos, ainda me impressiona, e me agrada muito. Gosto da sensação de ter conseguido, de algum modo, criar beleza, e também de poder expressá-la. Esta forma de comunicação sem palavras me fascina. Este processo não deixa de ser bastante parecido com o da fotografia, pelo menos para mim. Só que no caso da imagem fotográfica o que está em jogo é muito mais a sensibilidade do que a criatividade. Evidente que em fotografia é possível criar, mas a “matéria-prima”, o que se vê, necessita de um olhar que descubra e capture cenas ou detalhes que, muitas vezes, sequer notamos. A beleza está em toda a parte, mesmo nas coisas mais banais, só que por diversos fatores nem todos têm capacidade para observá-la, para admirá-la. É neste ponto que acho o trabalho fotográfico de grande valor, sobretudo estético, já que pode comunicar aos outros momentos que talvez jamais fossem percebidos.
A literatura é uma forma de comunicação totalmente diferente do design e da fotografia, pois o que está em questão é a linguagem. O que me moveu a tentar esta área foi justamente o fato de durante boa parte da minha vida ter trabalhado apenas com imagens gráficas. Eu queria saber se conseguiria criar beleza através das palavras também, de imagens que seriam construídas nas mentes dos leitores. Foi uma das experiências mais interessantes que tive, e que me deu grande prazer.

Como iniciou sua carreira de designer? Vocação ou foi levado pelas circunstâncias?
Na verdade, sempre gostei de desenhar, desde bem pequeno — e todos diziam que quando eu crescesse seria um desenhista, um pintor ou algo semelhante. Não duvidei disso, e quando chegou o momento de entrar na faculdade fiz vestibular para a Escola de Belas Artes da UFRJ. Depois de formado, comecei a trabalhar numa editora de livros didáticos, como diagramador e ilustrador. Posteriormente, trabalhei em outros lugares sempre como designer até que fui contratado por uma indústria de material plástico como desenhista de padronagens — um trabalho que eu nunca havia feito, mas que me pareceu não apenas desafiador como também interessantíssimo. Não me enganei: este ofício, que aprendi na prática, me fez descobrir, e desenvolver, meu gosto pelo design de superfície.

Como se deu o direcionamento para a moda, para o desenho das padronagens?
Comecei a desenhar padronagens quando trabalhei na fábrica de material plástico, no fim dos anos 80, e durante os 3 anos em que fiquei lá não só aprendi muito como produzi bastante. Mas a empresa decidiu extinguir o departamento de marketing e acabei voltando a trabalhar com outros segmentos do design. Em 2003, vendo um anúncio no jornal que buscava desenhistas de padronagens resolvi fazer contato, pois me parecia uma ótima oportunidade de trabalhar novamente em algo que me agradava muito. Tratava-se de um projeto que pretendia criar uma identidade brasileira em relação ao design de estamparia. Através dessa espécie de cooperativa participamos de algumas feiras internacionais, como a Fashion Fabrics, e descobrimos (ou constamos) que o design brasileiro faz muito mais sucesso lá fora do que aqui.

A paixão pela fotografia sempre existiu ou apareceu mais tarde?
Fotografar sempre foi um hobby, que começou quando eu ainda era criança também. Cheguei a ter uma máquina profissional, com a qual fotografei por mais de 10 anos. Com a tecnologia das câmeras digitais — e a facilidade em se fazer experiências e observar resultados imediatos — procurei levar mais a sério meu “passatempo”.

A Música também é uma de suas paixões. Você chegou a estudar?
Sim, estudei teoria musical e violino no Conservatório Brasileiro de Música. Acabei descobrindo que conhecer a parte “técnica” da música acabava interferindo negativamente no prazer de simplesmente ouvir a própria música. Quanto mais eu estudava e aprendia, menos conseguia sentir a música apenas como um belo conjunto de sonoridades — ela começou a me soar como um amontoado de fórmulas matemáticas que só me atrapalhavam quando eu queria apreciá-la. Desisti de aprender, mas esta tentativa foi muito importante para que eu valorizasse ainda mais os músicos e a música.

Quanto à Literatura, fale um pouco de suas incursões nesse terreno.
Depois de tanto trabalhar com imagens, chegou um momento em que me senti tentado a desenvolver algo usando apenas palavras. Preciso dizer que tenho certa tendência a, de tempos em tempos, buscar novas atividades, possibilidades que tornem a vida mais interessante ou que me façam aprender e descobrir coisas diversas. Assim, paralelamente ao meu trabalho de designer, desde o início dos anos 90 eu vinha me dedicando à escrita, mais como uma espécie de exercício do que de qualquer outra coisa. Comecei a trabalhar alguns textos que, por inexperiência, nunca foram concluídos. Descobri que escrever não era tão simples quanto eu ingenuamente imaginava, mas isso só funcionou como estímulo. Depois de muitas tentativas, finalmente consegui terminar um texto, escrito ao longo de 3 anos, que classifiquei como um romance. Fiquei tão satisfeito com o resultado que comecei a oferecer meu livro às editoras. Não obtive sucesso, e isso me levou a fazer uma oficina literária, a fim de saber se meus escritos tinham realmente alguma qualidade. Descobri que sim, e conheci também muitas técnicas que poderiam — e deveriam — ser usadas para aperfeiçoar meu romance. Pouco tempo depois, participei de um concurso de contos no qual um novo texto meu foi selecionado, sendo publicado no jornal e posteriormente editado em livro. Meu romance, depois de todas as melhorias necessárias, não foi publicado pelas vias convencionais, mas fiquei contente em tê-lo disponibilizado num site concebido por mim mesmo, no qual procurei aliar minhas habilidades como designer, fotógrafo e escritor.

Fale também do tempo em que viveu em Amsterdam e as influências sofridas.
O breve tempo em que morei em Amsterdam foi, até o momento, a experiência mais importante e interessante da minha vida. Uma fase em que aprendi muito sobre mim mesmo e bastante sobre os outros. Conhecer e experimentar na própria pele uma realidade diferente da que estamos acostumados pode ser bastante enriquecedor em vários sentidos — ainda que não se consiga percebê-lo exatamente quando tudo está acontecendo. A temporada em que vivi na Europa foi fundamental não apenas para a elaboração, mas também para a conclusão do livro que eu vinha tentando escrever havia algum tempo. Foi importante também para mim no tocante ao enriquecimento de ordem estética, que só um lugar onde a beleza é onipresente pode proporcionar.

Seu trabalho já está sendo reconhecido fora do Brasil, através da fotografia e das estampas. Fale a respeito.
Algumas padronagens minhas foram expostas numa feira em N.Y. em 2004, onde uma agente conheceu meu trabalho. Depois de se radicar em Londres ela fez contato comigo perguntando se eu gostaria de ter minhas estampas representadas por sua empresa na Europa. Mais recentemente, um agente americano de New Jersey descobriu meus desenhos na Internet e me fez uma proposta semelhante. Ainda sobre as padronagens, enviei alguns desenhos para a revista Texitura, uma publicação espanhola que dita tendências para o mundo inteiro. Eles escolheram 26 desenhos meus para a próxima edição, e duas estampas minhas estarão da capa! O lançamento do novo número da revista será em janeiro de 2009, na Alemanha.
Em relação às fotografias, eu havia publicado algumas delas num desses álbuns virtuais públicos que existem na Internet. Um banco de imagens espanhol viu minhas fotos e me convidou a ser um de seus fotógrafos colaboradores.

Você correu atrás, batalhou para realizar o que queria. Como vê as oportunidades para quem está começando?
Acho interessante ressaltar que cada vez mais a Internet, quando bem utilizada, pode ser uma ferramenta importantíssima de divulgação para quem desenvolve algum trabalho artístico. Sem ela, muito dificilmente eu teria conseguido mostrar meu trabalho de forma tão ampla a ponto de atrair interessados em outros países. Penso que, hoje em dia, quando se tem algum talento e oportunidade de utilizar os veículos certos, é bem mais fácil ser notado e, talvez, receber algum convite de trabalho.